Já tenho escrito algumas vezes sobre os chamados Cavalos de Tróia no controlo da Vespa velutina. Uma das questões que esta técnica coloca no terreno é bastante simples: quando devemos começar?

Em julho ainda pode haver poucas velutinas à frente das colmeias. Capturá-las uma a uma dá trabalho e facilmente surge a tentação de esperar por agosto ou setembro, quando a pressão aumenta e conseguir dezenas de indivíduos num apiário pode tornar-se relativamente fácil.
Um trabalho realizado nas Astúrias em 2023 ajuda a olhar para esta questão de outra maneira.
Nesse ano, a SERPA, no âmbito do programa de controlo da Vespa velutina do Principado das Astúrias, acompanhou uma experiência de campo baseada na captura de obreiras, tratamento individual e posterior libertação, procurando que regressassem aos respectivos ninhos transportando o insecticida [1].
Foram estabelecidos 33 pontos de emissão e tratados e libertados 5.547 exemplares de Vespa velutina. O trabalho decorreu durante vários meses e, para avaliar os resultados, comparou-se a incidência de ninhos em 2022 e 2023 em círculos sucessivos em redor dos locais de libertação: 0–500 m, 500–1.000 m, 1.000–1.500 m e 1.500–2.000 m [1].
O primeiro resultado é bastante expressivo.
Nos primeiros 500 metros, o número de ninhos passou de 53 para 13, uma redução de 75,5%. Entre 500 e 1.000 metros a redução foi de 50,6%; entre 1.000 e 1.500 metros, de 27,8%; e entre 1.500 e 2.000 metros ficou pelos 4,2%.
No conjunto das Astúrias, nesse mesmo período, a redução do número de ninhos foi de apenas 3,2% [1].
Há portanto um gradiente muito claro: a redução foi máxima junto dos pontos onde os Cavalos de Tróia eram libertados e foi diminuindo à medida que aumentava a distância.
Mas, quando os autores olharam individualmente para os diferentes locais, encontraram resultados muito diferentes. E uma das variáveis que lhes chamou a atenção foi a data em que se tinha começado a trabalhar.
Separaram então os pontos onde os envios começaram antes e depois de 15 de agosto. A diferença foi suficientemente marcada para ser destacada no próprio relatório: começar mais cedo esteve associado a uma redução substancialmente maior da incidência de ninhos, particularmente nos primeiros 500 metros [1].
Os dados individuais permitem olhar ainda melhor para esta questão.
Dos 33 pontos, 14 começaram a trabalhar em julho. Comparando 2022 com 2023, nos primeiros 500 metros em redor desses locais contabilizaram-se, no conjunto, menos 37 ninhos.
Nos oito locais que só começaram em setembro ou posteriormente, o resultado foi praticamente o oposto: no conjunto havia mais 1 ninho.
Naturalmente, há aqui uma questão que precisava de ser verificada. Quem começou em julho teve muito mais semanas disponíveis e acabou também por libertar mais Cavalos de Tróia. Seria possível que o resultado se devesse simplesmente a isso.
Por essa razão, trabalhei estatisticamente os dados dos 33 pontos, cruzando data de início, número total de Cavalos de Tróia libertados e evolução do número de ninhos. A relação entre começar mais cedo e uma maior redução de ninhos mantém-se estatisticamente significativa mesmo quando se considera o número de Cavalos de Tróia enviados. Pelo contrário, o número total de indivíduos enviados, por si só, não apresentou uma relação estatisticamente significativa com a redução dos ninhos.
Não estamos perante uma experiência controlada que permita concluir que começar em julho foi a causa da redução observada. Há demasiadas variáveis no terreno para dar esse salto. Mas os resultados reforçam uma ideia que os próprios autores colocaram no relatório: o timing pode ser determinante.
E a explicação que propõem faz sentido biologicamente.
À medida que o verão avança, a população dos ninhos aumenta. Os autores consideram que a eficácia da técnica deverá diminuir à medida que o ninho cresce, porque diminui a proporção entre o número de velutinas tratadas que regressam ao ninho e a população total que se pretende atingir [1].
Para quem trabalha também com a Varroa, este princípio não é inteiramente estranho. O timing de um tratamento conta. Tratar uma colónia quando a população de ácaros ainda é relativamente baixa não é a mesma coisa que esperar que essa população tenha crescido várias vezes para depois tentar recuperar o controlo. Não porque Varroa e Vespa velutina sejam problemas biologicamente comparáveis, mas porque em ambos os casos existe uma ideia prática que vale a pena reter: é geralmente mais fácil controlar uma população enquanto ela ainda é pequena do que depois de a deixar crescer.
Em julho há menos velutinas à frente das colmeias e é mais difícil capturá-las. Mas os ninhos que pretendemos atingir são também muito menos populosos. Em setembro é muito mais fácil conseguir dezenas de velutinas num apiário, mas entretanto estamos a tentar atingir ninhos muito maiores.
Há ainda o factor tempo. O relatório observou que, após as libertações, a diminuição da pressão de velutinas nos apiários e o aumento da actividade das abelhas podiam começar a inverter-se ao fim de 10 a 15 dias [1]. Isto sugere que não devemos olhar para os Cavalos de Tróia como uma intervenção única, mas como um trabalho que pode necessitar de ser repetido. Começar cedo dá-nos também essa margem.
Os autores chegam a admitir que, no outono, a técnica poderá continuar a ter interesse para diminuir a pressão de Vespa velutina nos apiários, mas já sem a mesma expectativa de conseguir neutralizar os ninhos [1].
Não retiraria deste estudo uma regra dizendo que é obrigatório começar em julho. Os próprios dados não permitem chegar tão longe e o momento de desenvolvimento dos ninhos não será exactamente igual nas Astúrias, no Minho, na Beira Litoral ou noutras regiões.
Mas retiraria uma orientação prática que me parece importante: não esperaria que houvesse muitas velutinas à frente das colmeias para começar a fazer Cavalos de Tróia.
Pode parecer paradoxal, mas as poucas velutinas que conseguimos capturar em julho poderão valer mais, para chegar aos ninhos, do que as muitas que conseguimos capturar facilmente em setembro.
Referências — literatura científica e técnica
SERPA — Sociedad de Servicios del Principado de Asturias / Principado de Asturias. (2023). Evaluación de la técnica de neutralización remota de nidos de avispa asiática mediante envío de ejemplares impregnados con insecticida. Año 2023. Versión 1.1. Principado de Asturias.
