visita técnica junto ao Sabor: duas colónias, dois percursos e aquilo que a varroa não mostra

No passado dia 9 de setembro, regressei a um pequeno apiário nas proximidades do rio Sabor. São apenas duas colmeias, mas isso não torna o acompanhamento menos interessante. Pelo contrário. Quando conhecemos o historial de cada colónia, regressamos ao mesmo apiário e vamos acumulando observações e números ao longo dos meses, duas colmeias podem contar uma história bastante completa.

A primeira colónia tem uma rainha do ano passado, que marquei na visita anterior, no início de abril. Encontrei-a agora muito bem povoada para esta altura do ano, com cerca de nove quadros ocupados por abelhas, cinco bons quadros com reservas e cinco quadros com criação. Observavam-se também sinais de armazenamento recente de pão de abelha.

Esta colónia produziu cerca de 25 kg de mel este ano.

No dia 2 de abril, a testagem indicou 1% de infestação. Aplicámos para exemplificar o Protocolo Inovador (PI). Passados mais de quatro meses, em 16 de agosto, o apicultor avaliou a taxa de infestação e encontrou 4,7% de varroas nas abelhas adultas. Introduzi estes valores no simulador do Randy Oliver e indica que este tratamento de abril teve uma eficácia de 96%. Nesse mesmo dia, a 16 de agosto, aplicou a primeira ronda do PI.

Realizou a segunda ronda em 2 de setembro. No dia 9 de setembro avaliámos a taxa de infestação e estava em 1%. Quando as duas rondas são consideradas em conjunto, o simulador de Randy Oliver estima uma eficácia global de 93%. 93%, numa altura do ano em que muitos tratamentos apresentam resultados bastante mais irregulares [3].

Como ali estávamos e queremos que esta colónia entre no período de criação das abelhas de inverno com a infestação tão baixa quanto possível, decidimos realizar uma terceira ronda do PI — cada ronda tem um custo próximo dos 10 cêntimos por colónia. Confiamos que a infestação possa ficar em valores não detetáveis na próxima amostragem. Mas isso é o que esperamos. Só as 300 abelhas testadas daqui a cerca de dez dias nos dirão onde realmente ficámos.

A segunda colónia seguiu outro caminho

A segunda colónia tem uma história diferente.

Quando a visitei em 2 de abril, já tinha enxameado e apresentava mestreiros de enxameação. Deixámos o processo seguir o seu curso. Nessa ocasião aplicámos também o PI, mas, ao contrário da primeira colónia, não voltou a receber qualquer tratamento desde então.

No dia 9 de setembro, cinco meses depois, a amostragem realizada durante esta visita revelou 20 varroas em 300 abelhas, ou seja, uma taxa de infestação de aproximadamente 6,7%.

Resultado da amostragem de 300 abelhas adultas da segunda colónia: 20 varroas, correspondentes a uma taxa de infestação de 6,7%. (foto do autor)

A utilização de amostras de aproximadamente 300 abelhas adultas para estimar a infestação por varroa é um procedimento há muito estabelecido e utilizado tanto em investigação como no acompanhamento das colónias no terreno [2]. É o procedimento que me dá mais garantias de reflectir mais aproximadamente a população global de varroas nas colónias — assunto para uma publicação futura.

Mas aquilo que tornou esta colónia particularmente interessante foi colocar esse 6,7% ao lado daquilo que os nossos olhos viam quando a abríamos.

Estava muito povoada, com aproximadamente nove quadros ocupados por abelhas. Tinha cinco bons quadros com reservas e cinco quadros com criação.

Durante o maneio, as abelhas acumularam-se desta forma sobre alguns dos quadros. Apesar dos 6,7% de infestação encontrados na amostragem, esta era uma colónia muito povoada para a época, ocupando cerca de nove quadros com abelhas. (foto do autor)

A criação apresentava um padrão bastante compacto e sólido e, de uma forma geral, as abelhas aparentavam estar saudáveis. Durante toda a inspeção encontrei apenas uma abelha com uma varroa visível sobre o dorso.

Um dos quadros de criação desta colónia. A criação apresentava um padrão globalmente compacto e as abelhas aparentavam estar saudáveis. Durante a observação encontrei apenas uma abelha com uma varroa visível sobre o dorso. (foto do autor)

Noutra fotografia percebe-se igualmente bem a população que esta colónia mantinha.

Vista da colónia durante a inspeção. A população distribuía-se por aproximadamente nove quadros, uma força bastante boa para esta altura do ano. (foto do autor)

Temos, portanto, diante de nós uma colónia com 6,7% de infestação, nove quadros de abelhas, boa criação, boas reservas e praticamente sem sinais de varroose que fossem evidentes a olho nu. É por esta “cegueira”, esta incapacidade de descortinar uma infestação demasiado alta, que continuo a medir.

Procurei depois a rainha, encontrei-a e marquei-a com a cor deste ano. É a rainha criada pela própria colónia depois da enxameação da primavera.

Marcação da rainha, nascida este ano na sequência da enxameação. Em 2 de abril a colónia tinha enxameado e apresentava mestreiros; em setembro encontrámos a nova rainha em postura e aproveitámos para a marcar. (foto do autor)

Esta colónia produziu cerca de 15 kg de mel este ano.

Aplicámos agora a primeira ronda do PI. A segunda ficará para aproximadamente 10 a 12 dias depois e, naturalmente, voltaremos também aqui a medir.

Velutina e crabro à frente das colmeias

Durante a visita havia ainda uma pressão moderada de Vespa velutina e Vespa crabro junto aos alvados.

Não estávamos perante uma situação de bloqueio das colónias, mas a presença das vespas era já suficientemente evidente para justificar alguma intervenção. Recomendei ao apicultor que reduzisse parcialmente os alvados, diminuindo a frente de entrada que as abelhas têm de vigiar e defender.

Para o caso de a pressão de Vespa velutina vir a aumentar, deixei-lhe também um pequeno manual, muito prático e prescritivo, que preparei com informação fundamentada para a produção de Cavalos de Tróia com elevado potencial de eficácia.

Vespa velutina junto ao alvado durante a visita. A pressão de velutina e também de Vespa crabro era moderada, mas já suficientemente evidente para aconselhar a redução parcial das entradas das colmeias. (foto do autor)

São apenas duas colmeias e muito mais

Há finalmente uma parte destas visitas que não cabe nas percentagens de infestação, no número de colónias, nos quadros de criação ou nos quilos de mel.

Mais uma vez fui recebido com enorme simpatia por este apicultor. E mais uma vez encontrei nele um enorme empenhamento em acompanhar as suas duas colónias e fazer o que estiver ao seu alcance para não perder nenhuma delas.

São apenas duas colmeias. Mas são as suas duas colmeias.

À sua volta conhece apicultores, com dezenas e centenas de colmeias, que têm passado por mortalidades elevadas, alguns repetidamente, com a frustração e o desânimo que isso acaba por trazer. Nalguns casos, esse percurso terminou mesmo com a desistência da apicultura.

Neste apiário ficaram, por agora, duas colónias fortes, muito povoadas, com reservas e criação, sobreviventes também porque o apicultor é atento. E ao apicultor ficam as competências para continuar a trilhar este caminho. Essas, ninguém lhas tira.

Referências — Abelhas à Beira

Gomes, J. E. (2025). A eficácia e consistência de um protocolo inovador de controlo da varroose (revisitado). Ler

Gomes, J. E. (2024). Na prática e no terreno: o controlo da varroose ao longo de mais de 8 meses. Ler

Gomes, J. E. (2026). Qual é o melhor tratamento contra a varroa? Ler

Referências — literatura científica e técnica

[1] Oliver, R. (2026). Randy’s Varroa Model. Scientific Beekeeping.

[2] Dietemann, V., Nazzi, F., Martin, S. J., Anderson, D. L., Locke, B., Delaplane, K. S. et al. (2013). Standard methods for varroa research. Journal of Apicultural Research, 52(1), 1–54. DOI: 10.3896/IBRA.1.52.1.09.

[3] Jack, C. J., Boncristiani, H., Prouty, C., Schmehl, D. R. & Ellis, J. D. (2024). Evaluating the seasonal efficacy of commonly used chemical treatments on Varroa destructor population resurgence in honey bee colonies. Journal of Insect Science, 24(3), 11. DOI: 10.1093/jisesa/ieae011.

Autor: Eduardo Gomes

Apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

Um comentário em “visita técnica junto ao Sabor: duas colónias, dois percursos e aquilo que a varroa não mostra”

  1. Muito obrigado por mais uma visita, pela atenção dedicada às minhas duas colónias e, sobretudo, por todo o apoio e conhecimento que tem partilhado comigo ao longo deste caminho.
    Para quem tem apenas duas colmeias, cada uma delas tem um valor enorme. Poder contar com o seu acompanhamento, com a sua experiência e com esta forma tão cuidadosa de observar faz toda a diferença. As visitas tornam-se também uma oportunidade de aprender, corrigir e melhorar o maneio.
    Fico muito satisfeito por ver estas duas colónias fortes e, acima de tudo, por continuar a aprender como cuidar melhor delas. Espero que as próximas avaliações confirmem os bons resultados que estamos a procurar.
    Mais uma vez, muito obrigado pela disponibilidade, pela atenção e por todo o apoio. É um privilégio poder aprender consigo e acompanhar este percurso.

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