Nos grupos apícolas das redes sociais espanholas e portuguesas são frequentes, sobretudo durante o verão, as publicações de apicultores que mostram bandos de abelharucos junto dos apiários e lhes atribuem efeitos importantes sobre as suas colónias.

Durante bastante tempo, uma das formas mais intuitivas de avaliar este problema passou por responder a uma pergunta aparentemente simples: quantas abelhas come um abelharuco? Se estamos perante um predador e queremos conhecer o prejuízo que provoca, contamos as presas que elimina e comparamos esse número com a população disponível. O problema é que, no caso de uma colónia de abelhas, esta poderá não ser a melhor unidade de medida.
Há números razoavelmente bons para estimar a mortalidade direta. Num estudo realizado no sudeste de Espanha, Farinós-Celdrán e colaboradores estimaram um consumo médio de cerca de 1.333 ± 760 abelhas melíferas por abelharuco durante a sua permanência na região.[1] Na Sardenha, Galeotti e Inglisa estimaram que a predação correspondia, em média, a cerca de 0,37% das forrageadoras disponíveis, embora representasse aproximadamente 6,1% da mortalidade diária destas abelhas.[2]
Vistos desta forma, os números não parecem particularmente alarmantes. Uma colónia forte, com dezenas de milhares de abelhas e capacidade para produzir continuamente novas operárias, poderá compensar a perda de algumas centenas ou mesmo de alguns milhares de forrageadoras distribuídas por várias semanas.
Mas talvez seja precisamente aqui que começamos a medir mal o problema.
Não são apenas as abelhas que o abelharuco come
Uma colónia depende diariamente de milhares de viagens entre a colmeia e o exterior. Enquanto umas abelhas saem, outras regressam com néctar, pólen, água ou resinas. Retirar algumas centenas de abelhas a uma população de dezenas de milhares pode parecer pouco; alterar durante horas o comportamento de milhares delas é outra coisa.
Nos últimos anos começaram a surgir trabalhos que olharam para o problema precisamente deste outro lado. Em vez de perguntarem apenas quantas abelhas eram capturadas, procuraram perceber o que acontecia à atividade das restantes quando os predadores estavam presentes.
Um dos estudos mais interessantes foi realizado na Extremadura e acompanhou 58 apiários. Foram registados mais de 3 milhões de movimentos de entrada e saída de abelhas. Quanto maior era a presença dos abelharucos junto dos apiários, menor tendia a ser a atividade das abelhas; e nos apiários sujeitos a maior pressão foram também observadas menores quantidades de abelhas, criação, mel e pólen. O efeito tornou-se particularmente evidente durante agosto.[3]
Alguns anos depois, um trabalho realizado na região de Lleida aprofundou este ponto. Os investigadores relacionaram a atividade dos abelharucos com contadores que registavam o movimento das abelhas nas colmeias. A conclusão principal foi clara: quando aumentava a pressão dos abelharucos, diminuía o movimento das abelhas, mas essa resposta variava bastante ao longo do dia.[4]
| Momento do dia | Presença/atividade dos abelharucos | Resposta das abelhas à presença dos abelharucos | Leitura simples |
|---|---|---|---|
| 09h15 | Elevada | Forte redução do voo | Uma das fases mais sensíveis: muita pressão e forte resposta das abelhas |
| 11h15 | Já inferior à das 09h | Efeito por unidade de pressão ainda muito forte | Mesmo com menos abelharucos, o forrageio continua bastante condicionado |
| 13h15 | Mínima | O efeito ainda existe | Menor pressão global e uma janela relativamente mais favorável ao voo |
| 15h15 | Relativamente baixa | Efeito menor | A atividade das abelhas parece menos condicionada |
| 17h15 | Volta a aumentar | Muito menor efeito sobre o voo | Há novamente mais abelharucos, mas as abelhas mantêm melhor a atividade |
| 19h15 | Elevada | A relação com a redução do voo torna-se muito fraca | Ao fim do dia, a tendência para intensificar o forrageio parece sobrepor-se parcialmente ao risco |
Este quadro resulta de 1.526 registos horários e mostra algo que me parece importante: não basta contar quantos abelharucos estão presentes num apiário. A mesma pressão de predadores não produz necessariamente a mesma redução do forrageio às dez da manhã e ao fim da tarde.[4]
Em vez das abelhas comidas, contar o forrageio perdido
Podemos então fazer uma pergunta diferente. Em lugar de procurarmos apenas saber quantas abelhas come um abelharuco, talvez devamos tentar conhecer quanto forrageio deixa uma colónia de fazer devido à sua presença.
Uma abelha capturada desaparece. Uma abelha que, perante a pressão do predador, não sai da colmeia continua viva, mas durante esse período também não recolhe néctar, pólen ou água. Quando essa alteração envolve muitas abelhas, várias horas por dia e se repete durante dias ou semanas, o número de indivíduos efetivamente capturados deixa de descrever uma parte importante do impacto.
Podemos traduzir este fenómeno, apenas para facilitar a compreensão, em horas equivalentes de forrageio perdidas.
Imaginemos que a pressão dos abelharucos é importante durante quatro horas de um determinado dia:
| Redução média do forrageio durante essas 4 horas | Forrageio equivalente perdido por dia | Em 20 dias |
|---|---|---|
| 25% | 1 hora | 20 horas |
| 50% | 2 horas | 40 horas |
| 75% | 3 horas | 60 horas |
Estes valores são apenas uma forma de visualizar o efeito acumulado. Se durante vinte dias uma colónia perder diariamente o equivalente a duas horas de forrageio, serão quarenta horas durante as quais uma parte importante do trabalho que poderia ter sido realizado no exterior não aconteceu.
O estudo da Extremadura dá-nos uma ideia da escala envolvida. Os contadores registaram, em média, valores próximos de 4.000 movimentos de entrada e saída por hora.[3] Se imaginarmos uma redução de 50% durante quatro horas, teremos cerca de 8.000 movimentos a menos num dia e, repetida a situação durante vinte dias, aproximadamente 160.000 movimentos que não ocorreram.
É esta ordem de grandeza que me parece particularmente interessante. Enquanto contamos as centenas ou poucos milhares de abelhas efetivamente capturadas, a alteração comportamental pode afetar dezenas ou centenas de milhares de movimentos.
Este efeito faz lembrar muito aquilo que já conhecemos da pressão exercida pela Vespa velutina. Também neste caso, o prejuízo para a colónia não resulta apenas das abelhas capturadas à frente da colmeia, mas da chamada paralisia do forrageio: perante uma pressão predatória suficientemente elevada, as abelhas reduzem fortemente as saídas, entra menos pólen e essa redução acaba por se refletir na criação e no desenvolvimento da colónia.[6] O próprio artigo sobre os abelharucos chama a atenção para esta semelhança. Predadores muito diferentes podem, portanto, produzir uma resposta semelhante nas abelhas: para além das forrageadoras que capturam, condicionam o trabalho de muitas outras que permanecem dentro da colmeia ou reduzem as suas saídas. [7]
Talvez seja por aqui que se explique pelo menos parte da distância entre alguns trabalhos que estimaram um efeito relativamente reduzido dos abelharucos e aquilo que certos apicultores descrevem no terreno. Uma coisa é a capacidade da colónia para substituir as abelhas mortas; outra é substituir trabalho que simplesmente não foi realizado.
Do forrageio perdido ao mel, ao pólen e à criação
Ainda não conseguimos converter diretamente determinada redução do voo em determinado número de quilos de mel ou em determinada área de criação. Mas os estudos disponíveis mostram que os dois fenómenos caminham no mesmo sentido.
Na Extremadura, maior presença de abelharucos coincidiu com menor atividade das abelhas e também com menores quantidades de mel, pólen, criação e abelhas adultas, sobretudo durante agosto.[3]
E numa situação muito mais intensa, observada em Israel durante a passagem de grandes bandos migratórios, foram comparadas colmeias protegidas da pressão das aves com colmeias não protegidas. As primeiras aumentaram de peso, em média, 26,4 kg, enquanto as não protegidas aumentaram apenas 4,1 kg: uma diferença de 6,44 vezes.[5] O aumento de peso refletia sobretudo a acumulação de mel.
Não transportaria diretamente estes valores para Portugal ou Espanha, porque se tratava de uma pressão migratória muito forte. Mas o resultado mostra até onde o efeito pode chegar quando a redução do forrageio se torna intensa e persistente.
Agosto merece atenção especial
Nos trabalhos espanhóis, agosto aparece repetidamente como um período importante. Depois da reprodução, os abelharucos começam a concentrar-se e a deslocar-se antes da migração. Na Extremadura foi também durante agosto que a relação entre abundância de abelharucos e menores recursos nas colónias se tornou mais evidente.[3]
Este calendário não é indiferente para uma colónia. Em muitas regiões da Península Ibérica, agosto coincide com temperaturas elevadas e menor disponibilidade floral, numa altura em que interessa manter entrada de pólen, conservar uma boa área de criação e preparar a população das semanas seguintes.
Não é necessário assumir que uma abelha comida em agosto vale mais do que uma abelha comida em maio. Basta admitir que uma redução importante do forrageio pode ocorrer numa altura em que a margem da colónia para compensar essa redução já é menor.
Talvez tenhamos estado a medir a parte mais fácil
Não pretendo concluir que os abelharucos sejam responsáveis por todos os efeitos que lhes são atribuídos pelos apicultores. Há situações em que a sua presença será pequena e o efeito também o será; e há apiários em que alimentação, calor, seca, varroose ou a própria evolução sazonal das colónias terão muito mais peso.
Também não devemos deixar de contabilizar as abelhas capturadas. São uma perda real. Mas os trabalhos dos últimos anos sugerem que o número de abelhas comidas é uma medida incompleta do impacto dos abelharucos sobre um apiário. Uma colónia pode substituir parte das operárias que desaparecem; não recupera da mesma forma o néctar, o pólen e a água que não entraram durante horas de atividade reduzida.
Talvez, portanto, a pergunta mais útil deixe de ser apenas «quantas abelhas come um abelharuco?» e passe também a ser «quantas horas de forrageio perde a colónia enquanto os abelharucos estão presentes?».
Porque talvez tenhamos passado demasiados anos a contar as abelhas que o abelharuco come e poucos a contar as que, por causa dele, deixam de sair.
Referências
[1] Farinós-Celdrán, P.; Zapata, V. M.; Martínez-López, V.; Robledano, F. (2016). Consumption of honey bees by Merops apiaster Linnaeus, 1758 (Aves: Meropidae) in Mediterranean semiarid landscapes: a threat to beekeeping? Journal of Apicultural Research, 55(2), 193–201. DOI: 10.1080/00218839.2016.1195630.
[2] Galeotti, P.; Inglisa, M. (2001). Estimating predation impact on honey bees Apis mellifera L. by European bee-eater Merops apiaster L. Revue d’Écologie (La Terre et la Vie), 56(4), 373–388. DOI: 10.3406/revec.2001.2373.
[3] Moreno-Opo, R.; Núñez, J. C.; Pina, M. (2018). European bee-eaters (Merops apiaster) and apiculture: understanding their interactions and the usefulness of nonlethal techniques to prevent damage at apiaries. European Journal of Wildlife Research, 64, 55. DOI: 10.1007/s10344-018-1215-9.
[4] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apiculture. Ecological Indicators, 142, 109158. DOI: 10.1016/j.ecolind.2022.109158.
[5] Łangowska, A.; Yosef, R.; Skórka, P.; Tryjanowski, P. (2018). Mist-Netting of Migrating Bee-Eaters Positively Influences Honey Bee Colony Performance. Journal of Apicultural Science, 62(1), 67–78. DOI: 10.2478/jas-2018-0008.
[6] Gomes, J. E. Eficácia de harpas elétricas na redução da pressão de predação de Vespa velutina e consequências para o desenvolvimento de colónias de abelhas. Abelhas à Beira. Ler
[7] Gomes, J. E. Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle? Abelhas à Beira, 2026. Ler
No meu pequeno apiário andavam lá 2 abelharucos e também 1 pisco que comiam as abelhas, mas eu gostava de os vêr lá porque eram um modo de afastarem as vespas Velutinas, as colmeias trabalhavam mais quando os abelharucos estavam e menos quando não estavam, porque a pressão das Velutinas também era muito menor. Em 2023 ou 2024 havia um ninho de v. Velutinas num eucalipto muito alto e com uns binóculos eu consegui ver os abelhrucos a comerem as vespas, poisavam em cima do ninho e picavam o ninho, suponho que o furavam e comeriam as larvas ou as vespas. A verdade é que, apesar do ninho estar perto do apiário a pressão da vespa era muito menor. Daí eu pensar que, se a pressão do abelharuco não for muito grande é benéfica porque afasta a vespa