colmeias que ficam vazias: uma nova peça para explicar o desaparecimento das abelhas

Nesta altura do ano começam a aparecer, como praticamente todos os anos, relatos de apicultores que encontram uma colmeia vazia ou reduzida a um pequeno punhado de abelhas quando, poucas semanas antes, a recordavam bem povoada. Em muitos casos a explicação fica por aí: as abelhas desertaram, abandonaram a colmeia, foram-se embora. A possibilidade de a colónia ter colapsado, nomeadamente por níveis elevados de infestação por Varroa, nem sequer é considerada.

Noutros relatos a Varroa é mencionada, mas de uma forma diferente: a infestação teria sido tão elevada que levou as abelhas a abandonar a colmeia. Temos assim duas explicações aparentemente diferentes para a mesma caixa vazia — numa, a Varroa nem entra na história; na outra, entra como causa da deserção. Vale a pena perceber se aquilo que estamos a observar é realmente uma deserção.

Colmeia sem abelhas (autor desconhecido)

A deserção, ou absconding, é um comportamento bem definido. Toda ou praticamente toda a colónia, incluindo a rainha, abandona definitivamente o local onde estava instalada e procura outro lugar para nidificar. É diferente da enxameação: nesta sai uma parte das abelhas com a rainha, mas fica para trás uma colónia funcional; na deserção, a casa é abandonada.

Já escrevi algumas vezes sobre esta questão no Abelhas à Beira. Em 2019, na publicação «Bombas de ácaros ou engodos para pilhagem?» [5], deixei uma observação resultante daquilo que tinha visto ao longo dos anos nas centenas de colónias que então acompanhava nos meus apiários: colónias muito infestadas iam perdendo gradualmente as suas abelhas, mas «um abandono súbito e massivo de abelhas por causa da infestação da varroa nunca me apercebi dele».

Voltei ao assunto em 2021, em «Porque se foram embora as abelhas da colmeia» [6]. Uma colónia que perde diariamente muitas centenas ou mesmo milhares de abelhas e não consegue repô-las ao mesmo ritmo pode passar, num intervalo relativamente curto entre duas visitas do apicultor, de aparentemente populosa para quase vazia. Para quem não acompanhou o processo, é fácil transformar esse desaparecimento numa partida: «as abelhas foram-se embora».

A verdadeira deserção existe nas abelhas melíferas, mas a sua frequência varia bastante entre subespécies. É muito mais comum em várias subespécies africanas e nas abelhas africanizadas das regiões neotropicais, onde pode ocorrer em resposta à seca, à falta prolongada de recursos ou a perturbações importantes do ninho. Nas subespécies europeias é bastante menos habitual. Para Apis mellifera iberiensis não encontrei evidência que permita considerar este comportamento frequente ou característico.

Uma observação antiga e uma peça nova

Quando escrevi aquelas publicações, a explicação que me parecia mais consistente com aquilo que observava era relativamente simples: as abelhas das colónias fortemente infestadas não levantavam voo em massa para procurar outra casa. Iam desaparecendo. Morte natural, doença, alguma deriva e, sobretudo, uma renovação das gerações que deixava de compensar as perdas podiam transformar, num intervalo relativamente curto, uma colónia populosa numa caixa quase vazia.

Esta dificuldade de renovação da população já foi por mim referida em diversas publicações no Abelhas à Beira [7,8]. Quando a infestação atinge níveis elevados, uma parte das abelhas parasitadas durante o desenvolvimento nem sequer chega em condições de integrar a geração adulta. Algumas morrem ainda como pupas ou quando estão prestes a emergir; outras chegam a nascer, mas apresentam sinais que o apicultor reconhece facilmente: asas deformadas, abdómen atrofiado, menor tamanho e, por vezes, dificuldade em caminhar [2–4]. Tenho observado estes sinais sobretudo em colónias com infestações já muito elevadas — frequentemente na ordem dos 8–10% ou superiores nas abelhas adultas— embora não exista aqui um limiar fixo e a virulência dos vírus associados à Varroa possa fazer aparecer sintomas visíveis com infestações inferiores [2–4].

Em 2021 escrevi: “Alguns números podem elucidar o fenómeno do “desaparecimento súbito” de abelhas. Nesta altura do ano, entre julho e setembro, morrem de velhice cerca de 1000-2000 abelhas/dia. Em dez dias, morrem entre 10 000 e 20 000 abelhas por colónia. Se as novas gerações de abelhas não chegam a emergir dos alvéolos ou estão seriamente comprometidas e sobrevivem poucos dias, não é surpreendente que um apicultor encontre uma colónia vazia duas a três semanas depois da última visita. Quando a natural renovação de gerações não se dá, uma colmeia a bordejar de abelhas na visita realizada 3 semanas antes surge-nos agora “subitamente” vazia.” [6]

Em 2016, por exemplo, descrevi no blogue colónias onde encontrava «abelhas com asas deformadas e abdómens atrofiados» e abelhas prestes a nascer já mortas [8]. Mais tarde voltei várias vezes ao problema da multi-infestação da criação e à redução da longevidade das futuras abelhas [7]. O resultado populacional é fácil de compreender: enquanto morrem diariamente as abelhas adultas mais velhas, uma parte das que deveriam substituí-las morre antes de nascer ou entra na população adulta já profundamente comprometida [2–4]. A renovação deixa de compensar as perdas e a população começa a afundar-se.

Quadro com poucas abelhas, borboleta da traça e com reservas de mel (autor desconhecido)

Foi precisamente por isso que achei particularmente interessante um estudo publicado em 2024 [1]. Ellis e Rangel foram procurar um efeito muito menos visível. Para os ensaios com Varroa utilizaram criação proveniente de colónias com 4% ou mais de infestação nas abelhas adultas e, depois da emergência, verificaram individualmente quais as abelhas que tinham sido efectivamente parasitadas durante o desenvolvimento. Mas fizeram algo especialmente importante para aquilo que aqui nos interessa: excluíram do ensaio as abelhas que apresentavam deformações visíveis [1].

Ou seja, já não estamos a falar das abelhas com asas deformadas, abdómen atrofiado ou outras manifestações que nos fazem perceber imediatamente que alguma coisa está muito mal. Estamos a falar de abelhas que, à observação exterior, parecem normais, provenientes de colónias que podiam apresentar níveis de infestação a partir dos 4%, portanto bastante abaixo daqueles em que, pela minha experiência de campo, começo habitualmente a encontrar em quantidade sintomas exteriores evidentes de varroose.

Os investigadores acompanharam 738 abelhas que tinham sido parasitadas durante o desenvolvimento e 749 abelhas não parasitadas, marcando-as individualmente antes de as introduzirem em colmeias de observação [1].

E algumas das abelhas parasitadas começaram a fazer uma coisa estranha. Com apenas alguns dias de idade, caminhavam até à saída da colmeia e saíam. Eram demasiado jovens para voar. Caíam da plataforma de voo e, no exterior, permaneciam praticamente imóveis ou continuavam a caminhar, acabando por morrer. A idade média destas abelhas era de apenas 4,66 dias [1].

Não parecia tratar-se de expulsão pelas outras abelhas. Os investigadores não observaram as companheiras a arrastá-las para fora e a taxa inicial de aceitação das abelhas parasitadas foi semelhante à das não parasitadas. Mais curioso ainda: quando algumas das abelhas que tinham saído eram recolocadas dentro da colmeia, voltavam a sair [1].

A parasitação por Varroa aumentou significativamente a ocorrência deste comportamento. Mas os investigadores verificaram também que ele não era exclusivo da Varroa: abelhas submetidas durante o desenvolvimento a stress térmico, tanto por frio como por calor, apresentaram igualmente mais saídas prematuras [1].

Quando analisaram as glândulas hipofaríngeas, encontraram talvez uma das pistas mais interessantes do estudo. Estas glândulas estão particularmente desenvolvidas nas abelhas jovens que desempenham funções de nutrizes e vão diminuindo à medida que a abelha envelhece e progride para outras tarefas. Nas abelhas jovens que saíam prematuramente da colmeia estavam muito menos desenvolvidas do que nas abelhas normais da mesma idade e, neste parâmetro, aproximavam-se das encontradas em abelhas com idade de campeira [1].

Os autores colocam por isso a hipótese de estarmos perante uma aceleração anormal do polietismo etário [1]. Uma abelha com apenas quatro ou cinco dias, que deveria estar ainda a desempenhar tarefas no interior da colmeia, apresenta já alguns sinais fisiológicos associados a uma fase muito mais avançada da sua vida. É como se o stress sofrido durante o desenvolvimento, incluindo a parasitação por Varroa, estivesse a fazê-la envelhecer funcionalmente depressa demais. O programa comportamental que normalmente a levaria mais tarde para o exterior parece antecipar-se, quando a abelha ainda nem sequer está fisicamente preparada para voar e desempenhar as funções de uma campeira.

Esta é a peça nova que podemos hoje acrescentar àquilo que eu observava nos meus apiários e escrevi em 2019 e 2021 [5,6]. As abelhas de uma colónia fortemente infestada podem ir desaparecendo uma a uma. Sabemos agora que algumas abelhas parasitadas durante o desenvolvimento podem começar esse desaparecimento muito cedo: com quatro ou cinco dias saem pelo alvado, sem sequer conseguirem voar, afastam-se a pé e acabam por morrer no exterior [1].

E há um pormenor que ajuda a compreender porque podemos não encontrar diante da colmeia a quantidade de abelhas mortas que esperaríamos. Depois de saírem e caírem da plataforma de voo, algumas destas abelhas continuavam a caminhar para longe da colmeia antes de morrer [1]. Aos olhos do apicultor, simplesmente desapareceram.

Passados alguns dias ou semanas, o apicultor volta ao apiário e abre a colmeia. Onde havia muitas abelhas encontra agora muito poucas. Também não vê no fundo da caixa ou diante do alvado os milhares de cadáveres que poderiam explicar essa redução.

Parece que as abelhas se foram embora.

Talvez muitas delas tenham realmente saído pela porta.

Mas uma coisa é as abelhas irem desaparecendo da colmeia, outra é a colónia desertar.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Ellis, J. T.; Rangel, J. (2024). Stress drives premature hive exiting behavior that leads to death in young honey bee (Apis mellifera) workers. Biological Research, 57, 92.

[2] Rosenkranz, P.; Aumeier, P.; Ziegelmann, B. (2010). Biology and control of Varroa destructor. Journal of Invertebrate Pathology, 103, S96–S119.

[3] Traynor, K. S.; Mondet, F.; de Miranda, J. R.; Techer, M.; Kowallik, V.; Oddie, M. A. Y.; Chantawannakul, P.; McAfee, A. (2020). Varroa destructor: A Complex Parasite, Crippling Honey Bees Worldwide. Trends in Parasitology, 36, 592–606.

[4] Noël, A.; Le Conte, Y.; Mondet, F. (2020). Varroa destructor: how does it harm Apis mellifera honey bees and what can be done about it? Emerging Topics in Life Sciences, 4, 45–57.

Referências — Abelhas à Beira

[5] Bombas de ácaros ou engodos para pilhagem? Os papéis da deriva e pilhagem na transmissão de ácaros Varroa de colónias de abelhas a colapsar para colónias vizinhas (2019). Ler

[6] Porque se foram embora as abelhas da colmeia (2021). Ler

[7] O fenómeno da multi-infestação: alguns dados que nos ajudam a compreender a tempestade perfeita (2021). Ler

[8] Abelhas na Beira à saída do outono 2016 (2016). Ler

[9] Foi a varroa que matou a colmeia? Ler

[10] Morte de uma colónia de abelhas por varroa: foto-filme. Ler

Autor: Eduardo Gomes

Apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

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