avaliação de rainhas: o caso de rainhas duvidosas

Dissemos aqui que as rainhas de qualidade apresentam uma criação abundante e compacta.

No caso vertente as duas variantes desse caso mostram-nos apenas uma dessas características, faltando a outra.

  • Primeira variante: criação abundante, mas não compacta Neste caso pode estar a acontecer uma de duas coisas: uma rainha de qualidade que devido à sua idade (em regra 2 ou mais anos) dá sinais da sua decadência, ou uma excelente rainha ainda jovem e prolífera, mas ” desordenada ” no seu trabalho. Este último caso é raro, mas às vezes pode ocorrer, e esta rainha compensa generosamente com a abundância da sua ovoposição, o desleixo que apresenta, formando colónias fortes, prósperas e produtivas. Como seria uma pena desperdiçar uma rainha com estas características, é melhor o apicultor não se apressar a tomar decisões irreversíveis.

images-4

Fig. 1 — Mancha de criação de uma velha rainha decadente ou de uma jovem rainha desordenada?

  • Segunda variante: criação compacta, mas em pouca quantidade. Temos aqui o caso inverso, e a menos que seja uma colmeia débil com poucas abelhas (ou núcleo), onde poderia ser normal este tipo de mancha de criação apesar da qualidade da rainha, vemos este caso quando ocorre com o chamado “cerco de mel”, ou bloqueio do ninho pelo mel. Este é um caso um tanto peculiar e cuja interpretação não é uniforme. Na opinião de alguns, não é de atribuir muita importância ao caso e tudo se resume a colocar no ninho alguns quadros vazios para quebrar o “cerco”. Outros, nos quais nos incluímos, são da opinião que, se esta situação não é devido a uma supervisão descuidada do apicultor que não colocou atempadamente as alças ou meias-alças meleiras (forçando as abelhas a armazenar o mel no ninho ), uma rainha que não é capaz de se fazer respeitar e manter a sua área de postura livre, é uma rainha de má qualidade e deve ser mudada. E se não existe um “cerco de mel” e a postura não é abundante com mais razão ainda.

images-3

Fig. 2 — Mancha de criação compacta mas pouco abundante

Nota: post inspirado por Manuel Oksman.

primeiros desdobramentos de 2016 para controlar a enxameação

No passado dia 7 (5ª feira) na inspecção às colmeias de um apiário, situado a cerca de 800 m de altitude no coração da Serra da Estrela, fui surpreendido com duas colónias que apresentavam vários mestreiros fechados e abertos. Os sinais eram inequívocos: vários mestreiros, criação a ocupar ninho e meia-alça, densamente povoada, abelhas muito calmas… sinais mais do que suficiente para concluir que era necessário intervir para controlar a enxameação. Noutras 3 colmeias encontrei ovos em cálices reais. As primeiras duas e estas 3 colmeias foram divididas no dia seguinte.

A minha surpresa perante esta situação prende-se com o que decorre das notas gerais das duas últimas visitas a este apiário, onde estão cerca de 70 colmeias :

24-03: Colmeias com muita criação e com poucas reservas. Alimentei colmeias com poucas reservas (coloquei 26 sacos de Apipasta). Urgueira muito florida. Estavam a meter pólen.

07-04: Colmeias com muito néctar de urgueira armazenado nos ninhos e nas ½ alças. Coloquei mais 34 ½ alças com ceras puxadas. Dividi 5 colmeias com sinais de enxameação.

Apesar da primavera envergonhada, as colmeias em menos de 15 dias passaram do estatuto de carentes de reservas a colmeias com muita população e com bom nível de reservas, inclusivé com estas 5 a mostrarem sinais claros de se prepararem para enxamear, em especial as duas inicialmente descritas.

A principal fonte de néctar nesta altura do ano, neste apiário, são as urgueiras (urzes) que dão aquele mel “amargo” muito apreciado por alguns consumidores.

A intervenção passou por dividir cada uma destas 5 colmeias por 3 núcleos, cheios de abelhas, de criação e as reservas suficientes. No local ficou um núcleo por cada colmeia dividida e transumei 10 núcleos para um outro apiário a cerca de 20 Km de distância, zona de rosmaninho, local onde o andamento ainda é duas mudanças abaixo.

Ficam em baixo as notas acerca das últimas visitas realizadas a uma destas colmeias que apresentava sinais claros de enxameação.

Rainha de Junho de 2014 (rainha do João Gomes)

17-02: 8 Q de abelhas.

14-03: 6 Q de criação excelente. 9 a 10 Q de abelhas. Coloquei 2 tiras de Apivar.

16-03: Coloquei 1ª ½ alça de ceras puxadas.

24-03: 8 Q de criação. Coloquei Apipasta.

07-04: Vi vários mestreiros. Dividi em mais 2 núcleos. Ficou com rainha?

avaliação de rainhas: o caso de rainhas de qualidade

A qualidade de uma rainha e a sua avaliação é uma característica e uma competência que funda a apicultura produtiva. O primeiro aspecto diz naturalmente respeito ao insecto, o segundo diz respeito ao apicultor. Vamos centrar esta abordagem na competência do apicultor para fazer essa avaliação (a competência mais não é que o conhecimento em acção).

Sabemos que uma rainha de boa qualidade se caracteriza por apresentar uma postura (de operárias) abundante e compacta. Sabemos que ela começa essa postura no centro do favo, em seguida, em vagas elípticas e sucessivas de postura, a postura irá abrangendo áreas cada vez mais vastas do favo até ao ponto de o ocupar quase na totalidade, ficando as extremidades dos quadros bordejadas por uma pequena abóbada  de pólen e mel. Podemos afirmar que uma rainha de qualidade “empurra” o mel para as extremidades dos quadros na câmara de criação. Concluímos assim que, salvaguardando o atempado fornecimento de alças e meias alças para o armazenamento do néctar ou a ausência de preparação de uma enxameação, o bloqueio do ninho com mel e pólen não acontecem na presença de uma rainha de qualidade.

O filme dos quadros de criação de uma rainha de qualidade é repetitivo durante vários ciclos de criação e pelos vários quadros que formam a câmara de criação.  Procurando descrever por palavras este filme com a duração de 21 dias digo: observamos o quadro com criação larvar não selada ao centro, onde começou a postura e, portanto, com larvas maiores e mais velhas; em torno deste disco encontramos larvas mais jovens, e nas extremidades do favo/quadro vamos encontrar ovos. Poucos dias depois, observando o mesmo quadro, no seu centro a selagem dos alvéolos já se iniciou e a periferia apresentará ainda criação larvar aberta/não selada. Mais tarde alguns dias, a selagem estará completa e observamos uma mancha uniforme, densa e compacta de criação; um quadro caro, pois trata-se de um grande “pacotes de abelhas por nascer” muito valioso e com várias aplicações práticas, nomeadamente para o exercício da equalização já referido noutros posts. Após 21 dias as novas abelhas, provindas dos primeiros ovos colocados no centro do favo, começam a nascer, formando naturalmente um “buraco” no meio da criação selada, buraco que vai crescendo com o nascimento de mais abelhas. A rainha, sendo de qualidade, vai rapidamente encher de ovos este renovado espaço vazio. Este fenómeno vai-se espalhando do centro para as periferias do quadro de criação. É um novo ciclo de postura a decorrer perante nós. E vai-se repetindo uma e outra vez, passando pelas mesmas fases durante toda a temporada de “grande postura”.

images-1

Fig. 1 — Criação selada abundante e compacta bordejada por pólen e mel.

De uma coisa estou certo, neste mundo de muitas incertezas: só as colónias com rainhas de qualidade produzem mel. De há dois anos a esta parte procuro eliminar sistematicamente todas as rainhas que, à entrada da primavera, não apresentam as características atrás descritas. São poucas, felizmente! Salvam-se apenas as mais velhas, que provaram no passado, e cujo património genético é aproveitado como matriarcas de futuras rainhas.

Nota: este post foi inspirado por Manuel Oksman, enorme apicultor argentino.

à saida do inverno… os primeiros desdobramentos

à saída do inverno… à laia de balanço do inverno 2015/2016, e em 7 invernos já passados com abelhas, assinalo o primeiro ano em que as minhas perdas invernais se situam abaixo dos 5%.

Tenho a certeza, como todos os apicultores, que este inverno não foi “pêra doce”. Os meses de novembro e dezembro foram pouco menos que primaveris tendo provocado um efeito importante e duas consequências mais importantes ainda: a postura das rainhas não abrandou/parou como era costume, o que provocou o natural incremento da varroa assim como um consumo acelerado das reservas invernais. De seguida temos 3 meses de muita chuva, algum frio, que apanhou muitas das minhas colmeias da beira no fio da navalha, sem um nível razoável de reservas e sem grandes condições para aproveitarem alguns pequenos fluxos de néctar que surgem em finais de fevereiro, início de março por aqueles lados. Tudo poderia ter acabado muito mal! Mas se as condições climatéricas estão fora do nosso controle, algumas das nossas acções podem mitigar ou até eliminar os efeitos nefastos de um inverno surpreendente.

O maneio que deu suporte a esta percentagem baixa de perdas teve dois pilares, um já habitual, outro inovador. O habitual foi fazer os tratamentos à saída do verão, após a cresta, com acaricidas que se mostraram uma vez mais continuarem eficazes. A segunda, a intervenção inovadora, foi alimentar de forma massiva, sistemática, calendarizada, todas as minhas colmeias da beira. As do litoral, na zona de Coimbra, não necessitei de o fazer. Muitas centenas de euros foram investidos em fondant, quando nos anos anteriores esse investimento foi de poucas dezenas de euros. Esta opção mais cara, revelou-se custo-efectiva, pelos muito bons resultados alcançados, pois se assim não o tivesse feito acredito que estaria em mãos com a ruína deste projecto apícola. Um inverno para não esquecer as lições que ele trouxe. Aprendemos com os erros, é verdade, mas aprendemos tanto ou mais com os acertos. E é imensamente mais agradável!

… os desdobramentos. Finalizei hoje os primeiros desdobramentos do ano. Foram 20, em Coimbra. Depois de numa primeira fase ter dividido estas 20 colmeias que tinham ninho e sobreninho, com criação em ambas as caixas, com uma grelha excluidora, passados 4 dias, voltei ao apiário para identificar a caixa onde tinha ficado a rainha (a que tinha ovos), e estas foram levadas para a beira a cerca de 150 Km de distância. As filhas ficaram no apiário original, onde hoje introduzi 20 realeiras criadas pelo João Tomé. Espero que as condições climatéricas ajudem durante o seu vôo de fecundação as novas princesas.

Dando tudo certo com estes primeiros 20 desdobramentos praticamente reponho as minhas perdas invernais, causadas maioritariamente por terem ficado zanganeiras.

ácido oxálico vaporizado/sublimado: um tratamento (in)eficaz!!??

Sigo e intervenho no fórum norte-americano de apicultura Beesource. Posso dizer, com base no que ali leio, que os tratamentos com os vaporisadores/sublimadores de ácido oxálico estão na moda entre os apicultores norte-americanos de pequena e média dimensão.  Em Portugal, julgo que a utilização destes vaporizadores de ácido oxálico no controle da varroa está a dar ainda os primeiros passos. Tenho ideia que é muito reduzido o número de apicultores que os utiliza por cá. Importa, contudo, ir analisando as experiências dos que, lá fora, já utilizam este método para tirar-mos algumas conclusões. Até porque muitas das vezes, parece-me que as novidades neste campo, quando entram no nosso país, vêm envolvidas numa aura que leva a crer que este novo produto ou novo método de aplicação irá ser a solução de todos os nossos problemas. É uma característica muito nossa: do mais pesado pessimismo/depresssão ao mais despudorado optimismo/euforia vão 5 segundos!

Neste fórum apícola norte-americano as opiniões expressas em geral são positivas acerca da eficácia deste dispositivo/método, sobretudo nos estados a norte do país onde se assiste a uma paragem da postura da rainha durante o inverno. Contudo, há também relatos de infestações de varroa mal controlados após a utilização desta opção de tratamento.

Em baixo deixo um testemunho de um apicultor norte-americano acerca dos resultados que observou após a utilização do ácido oxálico sublimado.

O título diz tudo … Temos uma grande colmeia próspera. As abelhas estão a construir favo tão rápido que eu não sei o que fazer. A rainha está colocando ovos como uma louca. Lotes e lotes de criação saudável, favo, pólen, mel etc. De modo que é uma boa notícia!  Mas, nós também temos lutado com o temido ácaro varroa. O JRG veio e me ajudou [um amigo e mentor incrível]. Ele me mostrou uma percentagem muito pequena do vírus das asas deformadas num número muito pequeno de abelhas. Eu estou-lhe grato que todo o apiário não esteja infectado.

Eu tinha começado com a vaporização de ácido oxálico (AO) há três semanas numa base de intervalos de 5 dias. Vi 10-30 ácaros caindo por dia. Diminuí o intervalo para 4 dias.

Eu instalei duas tiras de Apivar por caixa [todos os dez quadros estavam cheios de abelhas]. De modo que coloquei em 3 caixas com 30 quadros um total de 6 tiras Apivar nesta colmeia forte. Eu verifiquei 24 horas após a instalação das tiras Apivar mais de 300 ácaros mortos por dia. Uau!!…  isso me deixa querendo saber sobre a eficácia da vaporização de AO …  

Aqui estão as minhas perguntas: Porque via apenas 10-30 ácaros mortos diariamente usando a vaporização de AO contra os mais de 300 ácaros mortos por dia usando o Apivar? Por que o vapor de AO não nos dá mais ácaros mortos? Existe alguma coisa que podemos fazer de diferente para garantir que não perdemos esta colmeia para os ácaros Varroa?  Obrigado,

Soar

Fonte: http://www.beesource.com/forums/showthread.php?322531-Wow!-I-am-noticing-a-big-difference-between-Apivar-amp-OA-vaporization-results-Why

Apêndice 1: a utilização de vaporizadores/sublimadores de ácido oxálico obriga a cuidadosas e apertadas medidas de protecção individual, nomeadamente a utilização de uma máscara adequada, para evitar os efeitos nocivos da inalação dos gases de ácido oxálico na saúde do aplicador/apicultor.

Muita prudência na escolha de uma máscara verdadeiramente protectora e mudar os filtros da mesma de forma regular, são os conselhos que deixo para que não prejudiquem a vossa saúde tentando manter as vossas abelhas saudáveis.

Apêndice 2: a utilização de vaporizadores de ácido oxálico contruídos artesanalmente pelos apicultores pode revelar-se uma grande desilusão por dois tipos de razões:

a) estes equipamentos, se mal calibrados, podem estar a queimar o ácido oxálico e não a sublimá-lo, retirando qualquer efeito positivo deste tratamento sobre as varroas;

b) a poupança alcançada com a sua construção caseira pode ser residual.

Apêndice 3: entre os apicultores que utilizam os vaporizadores de ácido oxálico não há consenso acerca do intervalo óptimo entre as diversas vaporizações: as opiniões variam de 3 dias de intervalo a 5-7 dias de intervalo. Mais um dos muitos temas apícolas em que 10 apicultores são capazes de gerar 12 opiniões diferentes e antagónicas.

definições, acaricidas e opções fundamentadas

  • o) Resíduos de medicamentos veterinários: substância farmacologicamente activa, tal como definida na alínea a) do artigo 1.o do Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações, que prevê um procedimento comunitário para o estabelecimento de limites máximos de resíduos de medicamentos veterinários nos alimentos de origem animal;
  • p)  Limite máximo de resíduos (LMR): o teor máximo em resíduos, tal como definido na alínea b) do artigo 1.o do Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações;
  • q)  Intervalo de segurança: período de tempo entre a última administração do medicamento veterinário ao animal, em condições normais de utilização, e a obtenção de alimentos provenientes desse animal, a fim de garantir que os mesmos não contêm resíduos em teor superior aos LMR estabelecidos em conformidade com o Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações.

Fonte: Infarmed (http://ofporto.org/upload/documentos/595029-egime-juridico-dos-med-veterinarios.pdf)

Juntando as peças do puzle temos:

  • para o Apivar o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de amitraz (substância activa no Apivar) no mel é de 200 microgramas por Kg de mel;
  • para o Bayvarol o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de flumetrina (substância activa no Bayvarol) no mel não está definido pela UE;
  • para o Apistan o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de fluvalinato (substância activa no Apistan) no mel não está definido pela UE.

Sem fantasmas e sem alarmismos continuarei a tratar as minhas colmeias com os melhores tratamentos, os de mais garantida eficácia, os mais simples de utilizar, os homologados e os inócuos para a saúde dos meus clientes… ciente que é meu dever, minha obrigação, ouvir quem de facto merece ser ouvido, sobretudo neste aspecto em particular, para fazer opções fundamentadas e não embaladas por modas.

varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas

Afirmei na abertura desta categorias o seguinte: “não considero que haja mel bom e mel menos bom, mais sendo esta classificação feita com base nos tratamentos utilizados. Todo o mel puro é bom até prova em contrário.” Senti necessidade de fazer esta afirmação porque infelizmente no nosso país, e não só, há apicultores que, de uma forma que eu considero irresponsável, mal informada e alarmista, tendem a associar a qualidade do mel ao tipo de tratamentos utilizados pelos apicultores no combate à varroa. Falam em resíduos no mel deixados por esses varroacidas, e chegam a levantar graves suspeitas da perigososidade que estes méis apresentam aos consumidores. No sumário em baixo podemos ver que as análises feitas na Alemanha a méis de colónias tratadas com acaricidas sintéticos, só detectaram vestígios de fluvalinato em 1% das amostras, e que a flumetrina e o amitraz não foram detectados. Refiro-me apenas a estes princípios activos porque são os únicos que estão presentes nas marcas dos tratamentos  homologadas como varroacidas no nosso país.

Sumário: “Em geral, a utilização de varroacidas nas colónias de abelhas deixa resíduos nos vários produtos das abelhas. Entre a variedade de varroacidas disponíveis, três ingredientes são comumente detectáveis no mel e cera de abelha: bromopropilato (Folbex VA), cumafos (Perizin, Asuntol) e fluvalinato (Apistan, Klartan, Mavrik). Estes produtos químicos são solúveis na gordura e não voláteis, e, portanto, acumulam-se a níveis de ppm como resíduos na cera de abelha e com vários anos de tratamento. Através do processo de difusão, estes ingredientes migram a partir do favo de cera para o mel lá armazenado. No mel alemão, o varroacida mais frequentemente encontrado é o cumafos (28%). O bromopropilato é detectável mas com baixa frequência (11%). Devido à sua alta força de ligação com a cera de abelha, a detecção fluvalinato é relativamente rara no mel (1%). Todos os resíduos foram encontrados a baixos níveis de ppb.  Outros ingredientes com um comportamento químico semelhante têm um papel sem importância enquanto resíduos no mel, cera e própolis, devido à quantidade muito baixa de ingredientes utilizados (acrinatrina, flumetrina) ou sua instabilidade (amitraz).”

Fonte: https://hal.inria.fr/file/index/docid/891581/filename/hal-00891581.pdf

Nota: ppm (partes por milhão) é a medida de concentração que se utiliza quando as soluções são muito diluídas.

Exemplo: Quando se afirma que a água poluída de um rio contém 5 ppm em massa de mercúrio significa que 1 g da água deste rio contém 5 µg (0,000005 gr) de mercúrio.

mercado do mel: mel ou adoçantes??!!

Inicio este nova categoria intitulada “mercado do mel” dado que a comercialização a retalho ou por grosso do mel que as nossa abelhas produzem é um tema que a todos nós importa.

Deixo também já clara a minha declaração de interesses: por norma serei um defensor convicto do mel produzido em Portugal, um mel de grande qualidade que tem na sua origem florações predominantemente silvestres, e um observador muito desconfiado do mel que a nossa lei permite que seja designado “não UE”. O que se quer esconder por detrás do biombo desta designação que encontramos tão frequentemente nos rótulos do mel importado? Estou consciente que a maior parte dos meus leitores (apicultores também) pensam como eu, e que para poder ter algum impacto teria de chegar a outro público, o público dos que consomem mel e não são apicultores. Contudo caso por aqui passe um consumidor de mel, menos prevenido e informado acerca do mercado do mel, espero que no final faça como os consumidores chineses que estão a mudar as suas opções de compra e a comprar sempre que podem directamente ao apicultor. As razões de tal opção estão bem sustentadas como podemos ver de seguida.

ESTRANHÍSSIMO!!! Estudos em torno da produção e consumo de mel chinês têm indicado que a China consome muito mais mel do que produz, e muito mais mel do que a soma da sua produção e importações.

COMO SE FAZ A QUADRATURA DO CIRCULO??? Conforme relatado ao longo dos últimos anos, a comunicação social chinesa indicou que em numerosas cidades onde foram realizados testes à pureza do mel vendido no mercado de retalho, em mais de metade das amostras de mel analisadas foram encontradas adulterações com até 70-100 % de outros adoçantes.

ELES RECLAMAM!!! E NÓS??? Isto levou a reclamações dos consumidores chineses e a uma tendência para comprar o mel diretamente aos apicultores.

Fonte: http://us1.campaign-archive1.com/?u=5fd2b1aa990e63193af2a573d&id=78b929f20f&e=5229dfa01a

images

Fig. 1 — Se nem todos os que se vestem como Batman são o Batman porque é que uma embalagem rotulada como sendo mel de origem “não UE” teria de ser mel puro?

projeto alemão de monitoramento de abelhas: um estudo de longo prazo para compreender as perdas periodicamente altas de inverno em colónias de abelhas do mel

Resumo – A abelha ocidental do mel, Apis mellifera, é o animal polinizador mais importante na agricultura em todo o mundo proporcionando mais de 90% dos serviços de polinização comerciais. Devido ao desenvolvimento agrícola a procura das abelhas do mel para os serviços de polinização está a aumentar progressivamente, sublinhando a capacidade de polinização da população mundial de abelhas geridas pelo homem. Assim, o declínio a longo prazo das colónias de abelhas geridas pelo homem tanto na Europa como na América do Norte é fonte de grande preocupação e tem estimulado uma intensa pesquisa sobre os fatores que presumivelmente estão a causar o colapso das colónias de abelhas. Apresentamos um estudo de quatro anos que envolveu a monitorização de mais de 1200 colónias de abelhas, instaladas em cerca de 120 apiários, de onde foram recolhidas as abelhas durante todo o período em que decorreu o estudo. As amostras de abelhas foram coletadas duas vezes por ano e foram analisados vários fatores patogénicos, incluindo o ectoparasita ácaro Varroa destructor, fungos (Nosema spec., Ascosphaera apis), a bactéria Paenibacillus larvae, e vários vírus. Dados sobre os factores ambientais, práticas apícolas e pesticidas também foram coletados. Todos os dados foram analisados ​​estatisticamente por forma a estabelecer  relações com a mortalidade das colónias de abelhas no período invernal. Podemos demonstrar que vários factores estão significativamente relacionados com as perdas de inverno observadas durante a monitorização de 4 anos das colónias de abelhas, a saber:

  • (i) nível alto de infestação pelo varroa destructor,
  • (ii) a infecção com o vírus das asas deformadas e vírus da paralisia aguda no outono,
  • (iii) a idade rainha, e
  • (iv) a fraqueza das colónias no outono.

Nenhum efeito pode ser observado para Nosema spec. ou pesticidas. As implicações destes resultados serão discutidos.

Fonte: https://hal.archives-ouvertes.fr/hal-00892101/document

uma abordagem mais “natural” para fazer núcleos de fecundação

Quando uma colónia produz a sua rainha após a enxameação ou o apicultor faz a divisão de uma colónia, há uma probabilidade elevada (superior a 90%) de produzir uma nova rainha com uma vida reprodutiva normal, à sua frente. Este elevado nível de sucesso contrasta com o resultado obtido com rainhas fecundadas nos pequenos nucléolos ou mini-núcleos, onde a melhor taxa de sucesso que podemos esperar é de 2 em cada 3 (66%), e muitas vezes pode ser substancialmente mais baixa.

Qual a razão da diferença? Em parte é uma questão de escala, porque num nucléolo temos apenas 200-300 abelhas para dar apoio a uma rainha virgem. Mesmo os mais pequenos enxames secundários, mais conhecidos como garfos, são muito maiores do que isto. Portanto os mini-núcleos colocam as rainhas virgens e as abelhas numa situação excessivamente artificial, para a qual não estão naturalmente adaptadas.

Se o objectivo é partir uma colónia e fazer dela duas, para aumentar o efectivo a tarefa fica concluída assim que a divisão é feita. A colónia mãe (aquela que mantém a velha rainha) e a colónia filha (a que está criando as suas realeiras de emergência) pode permanecer no mesmo apiário, quer em assentos separados ou com a colónia filha em cima da colónia mãe usando um prancheta especial de divisão. Tudo o que o apicultor precisa de fazer é sentar-se e esperar e, após 4-5 semanas, verificar se uma nova rainha está fazendo postura na colónia filha. A colónia mãe que doou abelhas e criação e é improvável que enxameie. Por outro lado, o excedente de realeiras de emergência produzidas pela divisão podem ser utilizados para criar mais alguns núcleos com abelhas, quadros e criação retirados de outras colmeias no apiário. Cerca de 90% destas rainhas são sobreviventes de longo prazo (sobrevivem pelo menos até o final da temporada seguinte).

Os aspectos-chave envolvidos na concretização deste processo de criação e fecundação de rainhas podem ser resumidas como se segue :

 

  1. Os núcleos devem ser preenchidos com as abelhas da mesma colónia que fez as realeiras;
  1. Cada núcleo deve ser fornecido pelo menos com 2 células reais e de preferência mais (não há nenhum limite);
  1. Os quadros com realeiras devem ser retirados logo que possível após a operculação (cerca do 9º dia);
  1. As entradas das caixas de núcleos devem ser fechadas e o núcleo deve ser transferido para um apiário de acasalamento, situado a mais de 3-4 Km de distância.

Achamos que desta maneira a criação de núcleos de fecundação funciona melhor porque é mais “natural” , ou seja assemelha-se muito ao que acontece na natureza. A explicação é a seguinte :

  • As orientações 1 e 2 estão logicamente relacionados e são destinadas a garantir que as rainhas em desenvolvimento são cuidadas por abelhas operárias com quem estão geneticamente relacionados (ponto 1). As abelhas estão conscientes da relação genética que têm com os suas companheiras de ninho (se são irmãs completas ou apenas meia-irmãs — dependendo do zangão que as gerou). Estas relações fazem parte integrante da organização colónia, embora eles não sejam completamente compreendidas no presente momento. Isto contrasta com o método tradicional de fazer núcleos, onde uma única célula real é geralmente dado a um grupo de abelhas não relacionadas. A provisão de um núcleo com várias realeiras tem a vantagem de permitir que as abelhas podem fazer “o que acontece naturalmente”, isto é, façam as suas escolhas (ponto 2). Nós (meros seres humanos) não entendemos que critérios elas estão usando, mas eles (as abelhas) claramente fazem-no e a melhor estratégia é não interferir.
  • As orientações 3 e 4 também estão logicamente relacionados e visam aumentar o sucesso do acasalamento das rainha virgens. Fazendo-se os núcleos assim que as células rainha foram operculados (ponto 3) aumentamos o número de dias antes de uma nova rainha nascer e estar pronta para realizar os vôos de acasalamento. O bloqueio de entrada evita a perda de abelhas aquando da transferência para outro apiário (ponto 4) e garante que elas ficam no núcleo e não vão voar de volta para casa. Estudos recentes mostram que rainhas virgens não saem sozinhas nos seus vôos de acasalamento, mas são acompanhados por um número de abelhas operárias maduras que as guiam para as áreas de congregação dos zãngãos e asseguraram seu retorno seguro. Para fazer bem esta tarefa um núcleo deve ter abundância de abelhas forrageiras que tenham tido tempo suficiente para conhecer o seu novo território. Se núcleos são feitos no dia 9 e são transferidos imediatamente para o apiário de acasalamento deve haver um mínimo de 7 dias antes de uma nova rainha estar pronta para acasalar (e provavelmente mais) e as abelhas forrageiras estarem capacitadas para desempenhar esta função tão importante. A falta de abelhas pode ser uma das razões para os mini-núcleos terem um menor nível de sucesso no acasalamento das suas rainhas do que as colónias maiores. Uma desvantagem adicional pode ser que as rainhas mal apoiadas são obrigados a acasalar mais perto de casa, resultando num menor acesso à diversidade genética dos zângãos.

Consciente que alguns aspectos podem e devem ser discutidos e bem reflectidos por todos nós, importa que a nossa prática seja conduzida cada vez mais respeitando o “modo natural de fazer”das abelhas. Pergunto se com um excessivo artificialismo nos procedimentos por nós escolhidos não estaremos a ganhar a curto prazo para desperdiçar a longo prazo, ou como diz o nosso povo não estaremos a poupar no farelo e a desperdiçar na farinha?