varroa: a actualidade deste blog

Não sou dado a auto-elogios como não sou dado a auto-comiserações. Sei de há muito que “santos da casa não fazem milagres” e que “pior que estar errado é ter razão antes do tempo”, e convivo sem perder o sono com esta realidade. O que não me mata torna-me mais resistente!

Depois de ler de ponta a ponta um guia publicado recentemente, em 2021, pela francesa FNOSAD (Fédération Nationale des Organisations Sanitaires Apicoles Départementales) acerca dos mais actuais avanços que a ciência nos disponibiliza sobre o ácaro varroa, confirmo que o trabalho persistente de pesquisa e divulgação que disponibilizo aos leitores assíduos deste blog acerca do que de mais importante se tem descoberto nos últimos anos neste domínio, tem acompanhado os tempos. Sem falsas e hipócritas modéstias, estou a fazer um trabalho de que me orgulho muito. Em baixo destaco algumas publicações deste blog (em hiper-ligação) em associação com os conteúdos deste guia francês tão actual, rico e valioso, escrito com recursos que não tenho, por uma instituição estatal francesa, guia este que me foi dado a conhecer há uns dias atrás pelo meu querido amigo João Gomes.

fonte: https://www.fnosad.com/fiches-pratiques/guide_fnosad_varroa_et_varroose.pdf

Entre outros avanços recentes no conhecimento do principal inimigo das abelhas, terei sido dos primeiros a publicar em português estes aspectos, entre outros:

Que 2022 nos permita controlar devidamente este parasita e inimigo mortal das nossas abelhas! Este desejo é dirigido, em particular, aos meus leitores e amigos que, através das suas mensagens públicas e privadas, me interpelam, me ensinam e me estimulam a continuar.

solucionar os casos de colónias que enxamearam ou estão zanganeiras: uma proposta

A partir dos 40m30s deste webinar, Jamie Ellis, Professor de Entomologia no Departamento de Entomologia e Nematologia da Universidade da Flórida, apresenta-nos uma proposta para solucionar os casos de colónias zanganeiras, que enxamearam ou com rainha com mau padrão de postura — colónias disfuncionais. Nas centenas de vezes em que utilizou esta técnica Ellis afirma que resultou em todos os casos. Posso afirmar que já utilizei o mesmo procedimento 3 ou 4 vezes, há cerca de meia-dúzia de anos atrás, para salvar colónias zanganeiras e que, comigo, também resultou sempre.

Pré-requisitos: ter enxames funcionais em núcleos de 5 quadros. Ellis recomenda ter um enxame funcional em núcleo por cada 5 a 10 colónias com 10 quadros.

Procedimentos:

Fase A — 1 e 2) colocar o núcleo funcional junto da colónia disfuncional de 10 quadros; 3) retirar 5 quadros da colónia disfuncional. Um destes quadros, pelo menos, deverá ter mestreiros se pretendermos que o núcleo para onde serão transferidos crie autonomamente uma nova rainha. Os outros quadros deverão ter pólen (1 ou 2 quadros) e criação (2 ou 3 quadros) . O objectivo é utilizar estes quadros retirados da colónia disfuncional para reiniciar uma nova colónia no núcleo com 5 quadros. Devemos retirar/destruir os restantes mestreiros, caso estejam presentes nos restantes 5 quadros que mantemos na colónia de 10 quadros.
Fase B — 1) Puxar os 5 quadros da colónia disfuncional para um dos lados do corpo da colmeia. 2) Introduzir os 5 quadros do núcleo, com abelhas e rainha, no espaço vazio do corpo da colmeia. 3) Colocar os 5 quadros tirados da colónia disfuncional no núcleo. 4) Transferir o núcleo para um outro local (3 a 5 km de distância) e deixá-lo criar a sua rainha [ou introduzir uma]. *Alguns apicultores colocam a rainha transferida do núcleo numa gaiola preocupados com a sua aceitação. [Ellis não utiliza este procedimento e não tem encontrado problemas de não-aceitação da rainha do núcleo por parte das abelhas residentes da colónia disfuncional.]

Notas: 1) No casos de desejarmos resolver com estes procedimentos uma situação de uma colónia zanganeira, com uma população já relativamente pequena, proponho que deixemos o núcleo resultante, aquele que irá criar uma nova rainha, no local de origem do núcleo. Neste local receberá as abelhas de campo que retornarão ao local original nas horas seguintes e/ou nos dois a três dias seguintes. Estas abelhas irão reforçar a população deste núcleo e, por esta via, aumentar a sua viabilidade.

2) Nunca utilizei este procedimento para dar um “boost” em colónias enxameadas, para evitar a sua “paragem” enquanto é criada e fecundada a sua nova rainha. Esta forma de colocar colónias enxameadas rapidamente nos carris na véspera ou durante um fluxo de néctar intenso tem muitos méritos aos meus olhos e prevejo utilizá-lo na próxima temporada em alguns casos, que me servirão de estudo-piloto. Para que resulte é absolutamente indispensável que sejam eliminados previamente todos os mestreiros existentes. No caso de já terem nascido rainhas virgens não utilizarei o procedimento porque é praticamente impossível garantir que se tenham eliminado todas as rainhas virgens presentes. Sem esta garantia, a aceitação da nova rainha transferida do núcleo é improvável e corre um risco muito grande de se tornar uma vítima das abelhas que não são suas filhas. A experiência assim me o diz, a Kin selection theory assim o prediz.

o movimento das asas das abelhas em “ultra slow motion”

As abelhas batem as asas 250 vezes por segundo. A câmera Phantom v2511 pode gravar mais de 1 milhão de imagens por segundo (criando câmera lenta na reprodução). Aqui, foi utilizada uma para capturar imagens para um documentário sobre as abelhas.

O comentário de J. F. a este vídeo numa conversa no Bee-L: “Depois que a abelha abre suas asas, o movimento da asa não é “para cima/para baixo” para mantê-la no ar, mas um “8 figurado”, semelhante ao movimento dos remos ao remar.”

Através destas imagens de leveza e graciosidade desejo aos que me acompanham um Feliz Natal!

a importância da água durante o inverno

Há coincidências interessantes. Dois ou três dias depois de tirar as fotos que vão ver para preparar esta publicação vejo um apicultor da lista do Bee-L escrever por lá o seguinte: “Na palestra de novembro para os apicultores da Associação Empire State, Tom Seeley focou-se nas abelhas coletoras de água. Ele mencionou que a dança mais “entusiástica” que ele já observou (em termos da intensidade e persistência da dança) foi numa forrageadora num inverno numa colmeia de observação. Ela dançava para anunciar a disponibilidade de água doce no primeiro dia quente da temporada. Qualquer pessoa informada da pesquisa de Tom
tem uma noção de quantas danças ele observou de perto no último meio século ou mais, fazendo desta observação uma informação ainda mais relevante para as nossas considerações sobre a necessidade de água de uma colónia.
” Vi rapidamente a pertinência em começar esta publicação com esta citação pela relação que tem com o tema que hoje me motiva a escrever.

Apiário a 900 m de altitude, no passado dia 12, um dia ensolarado.

E por que carga de água precisam as abelhas da água nesta altura do ano? Para liquefazerem o mel, para melhor o consumirem e assimilarem.

Mel, transferido para este quadro mais central depois de lhe ter sido adicionada alguma água pelas abelhas. Os três ou quatro alvéolos destruídos no centro resultam da prova que uma vez mais fiz deste mel diluído: da prova não me ficou dúvida de se tratar de um “monofloral” de castanheiro da colheita de verão de 2021.

Qualquer um de nós pode fazer esta observação. Reparem nos quadros com mel operculado nos quadros mais afastados do centro ou do aglomerado de abelhas. Reparem nos alvéolos vazios com os opérculos perfurados. Daí saiu o mel, depois de previamente aquecido e diluído em água por um enxame com abelhas suficientes para procederem a estas tarefas.

Alvéolos vazios com os opérculos perfurados. Só um enxame com um número suficiente de abelhas consegue aquecer os opérculos, para depois os perfurar, aquecer a água para depois a misturar ao mel e, assim, tornar o mel até aí frio numa mistura tépida para ser ingerido e assimilado, sem o perigo de induzir as pequenas abelhas num coma por ingerirem alimentos frios. Como nós não consumimos alimentos vindos do congelador, sem previamente os aquecermos nos dias frios de inverno, as abelhas também não o fazem.

Quando as abelhas não são suficientes morrem de fome com o mel operculado a milímetros de distância. A pergunta a fazer é por que razão as abelhas não são suficientes. Muito provavelmente por efeito diferido no tempo de varroose e viroses associadas.

Foto que me foi enviada pelo meu amigo Pedro Miguel. Abelhas com mel operculado a milímetros de distância e que morreram de fome e frio há dias atrás, numa colónia com abelhas insuficientes, por efeito diferido de varroose e viroses associadas.

a utilização da focinheira para diminuir a pressão da velutina: o testemunho de um amigo apicultor

O voo estacionário da V. velutina nigrithorax em frente às colmeias provoca uma resposta comportamental nas nossas abelhas pouco adaptativa, que é conhecida como “paralisia de forrageamento/voo”. Para atenuar esta resposta, pouco funcional do ponto de vista da colónia, os apicultores utilizam um conjunto de dispositivos variados, entre outros, as “focinheiras” (do francês muselière). Estes dispositivos visam atenuar a pressão das velutinas à saída/entrada da colmeia, proteger as abelhas naqueles centímetros iniciais/finais de voo mais lento, ocultar em parte a sua saída/entrada, e encorajar um comportamento mais elevado de forrageamento, uma resposta mais adaptativa da colónia à pressão da velutina. Estes dispositivos aumentam a probabilidade de sobrevivâncias das colónias em mais 50%*.

A experiência do meu amigo Jorge Pino com este equipamento levou-me a solicitar-lhe que escrevesse umas linhas para aqui publicarmos. Ele aceitou de imediato o meu pedido, com a gentileza e solidariedade que o caracterizam, e enviou o texto em baixo.

A necessidade de defesa das colmeias de uma das pragas mais conhecidas na apicultura Ibérica, vai aguçando alguns engenhos e vamos percebendo ao longo do percurso, que para continuar a agir é necessário adaptarmo-nos e desenvolver novas abordagens ou melhorar as existentes, para ter como objectivo alcançar resultados satisfatórios e adequados no combate à vespa velutina, que depende do colectivo de apicultores, é um percurso que revela caminhos possíveis, amadurecimento, entender e interpretar os imensos desafios que se colocam. 

Com base nesse pressuposto evolutivo e o facto de estar inserido enquanto apicultor “Hobbista” no Parque Natural de Sintra / Cascais, zona de forte presença da vespa velutina, levou a que interiorizasse a premissa de implementar um plano, uma estratégia, talvez com etapas evolutivas e a devida resiliência, para a defesa das colmeias, e, a focinheira, (como lhes chama o André Gonçalo), de concepção simples e ao alcançe de todos com o devido engenho e algumas ferramentas, protegerá as colónias da invasão das vespas Velutinas e de outros possíveis predadores tais como ratos ou borboletas caveira, por exemplo, estas últimas inofensivas. A dupla rede de diâmetros de 16mm e 6mm, exterior e interior respectivamente, permite uma passagem rápida das abelhas do exterior para o interior e dificulta a transposição da velutina devido à sua envergadura em voo ser superior ao diâmetro da rede exterior de 16mm, enquanto que a rede interior de #6mm impede completamente a passagem da vespa velutina e desta penetrar nas colónias.

É claro e consensual que existem equipamentos similares, contudo o aspecto evolutivo deste, sobressai nos buracos concebidos de diâmetro de 7mm, para que, tanto zângãos como rainhas os possam transpor permitindo a permanência das focinheiras ao longo do ano sem a necessidade de as remover em períodos de fecundação. 

Vista frontal.
Vista lateral.
Vista do lado interior.
Alargamento da malha para permitir o transito de zângãos e rainhas.

Atente-se que não resolve o problema na totalidade nem refreia o ímpeto de predação, apenas defende as colónias, até porque, a vespa velutina acaba por adaptar a sua hostilidade predativa fazendo pressão no exterior, e, se as colónias estiverem menos fortes, acaba este, por ser um meio fisico de disuasão de invasão das mesmas, retardando ou evitando talvez, o ponto de não retorno das colónias. 

Estou certo que o estudo deste problema começa a dar alguns resultados noutras formas de combate, mas como diz o autor deste “blog” e inspirador de práticas coerentes, simples e equilibradas, até lá “O apicultor deverá ser o cuidador das abelhas” cuja missão é demasiado nobre para se furtar a essa condição.” 

* Nota: Nesta publicação retiro este excerto “Medimos a FR (falha no retorno das abelhas devido à predação de vespas) e PF (paralisia de forrageamento: paragem da atividade de voo em colmeias devido às vespas pairando em frente da entrada) e estimámos a probabilidade de mortalidade das colónias usando uma abordagem de modelagem mecanicista. A “protecção da entrada da colmeia” não reduziu a FR associada à vespa, mas reduziu drasticamente a PF. Além disso, a “protecção da entrada da colmeia” aumentou a probabilidade de sobrevivência de colónias stressadas por vespas até 51% em contexto de alta abundância de vespas asiáticas com base em simulações teóricas. Esses resultados sugerem que a instalação de “protecção da entrada da colmeia” pode atenuar o efeito prejudicial do vespão asiático nas abelhas europeias.”

eureka, tenho uma colónia de abelhas resistente à varroa! revisitação

Há um mês atrás fiz esta publicação. Ontem, voltei a abrir esta colónia.

É uma colónia bem povoada para a altura do ano.
Tendo identificado este padrão de criação salpicado, duvidoso, a 9 de setembro, nem por um momento suspeitei de loque americana; desde essa altura não vi, em momento algum, sintomas específicos de loque americana.
Também não vejo sintomas de loque europeia, criação de giz ou criação ensacada. Reparo agora que nunca fiz uma publicação sobre a loque europeia. Tenho ideia que é uma doença que não tem sido identificada laboratorialmente em Portugal.
Abelhas novas e abelhas a emergir. Não fosse este padrão de criação, aparenta ser uma colónia saudável.
Sua majestade passeando tranquilamente deixando a feromona da pegada.
Pão de abelha recente e com cores vibrantes.
Benditas leiras de nabiças nas proximidades!

Questões: Poderão algumas populações da A. m. iberiensis apresentar a combinação genética e correspondentes comportamentos resistentes ao varroa? Não tenho qualquer dúvida que sim; algures haverá colónias resistentes na nossa sub-espécie nativa. Será o caso desta colónia? Não me parece. Não vejo sinais dos mecanismos que mais comumente conferem resistência. Posso sonhar que o mecanismo encontrado por esta colónia para resistir ao varroa seja de outra natureza? Com certeza que sim; vou sonhar. A natureza encontra sempre um caminho, por vezes caminhos vários. Em fevereiro/março começarei a ter as primeiras respostas.

treinar o olhar para localizar rainhas: a minha proposta de solução

No seguimento desta publicação apresento a minha proposta de solução: a rainha virgem/não fecundada/mal fecundada está na extremidade da seta.

Sobre a foto em baixo escrevi: “Intrigou-me o facto de alguma desta criação parecer criação de obreira à vista desarmada. Os opérculos estão muito pouco salientes em relação ao plano da cera. Julgo saber a razão, mas vou deixar em aberto este aspecto para os meus leitores.” A razão que descortino vai ao encontro da mencionada pelo João Paulo na caixa dos comentários. Estes zângãos estão mal-nutridos, são praticamente do tamanho de obreiras e, como tal, as abelhas não estão a fechar os alvéolos com um opérculo mais saliente em relação ao plano da cera por não ser necessário. Na minha opinião é um caso cristalino em que a “nature”/genética do indivíduo é fortemente determinada pelo “nurture”/ambiente. Apesar de terem todo o aparato genético para serem uns matulões, estes zângãos nascem pequenos por deficiências nutricionais e por o “ventre”/alvéolo onde são criados ser mais pequeno que o normal.

Para reflectir: as abelhas “ratinhas” de que o meu pai me falava, abelhas mais pequenas, será um caso de “nature” ou um caso de “nurture”?

Agradeço aos meus leitores, muito especialmente aos que participaram fazendo o seu comentário.

treinar o olhar para localizar rainhas

No meu histórico dos últimos 7 anos a maior parte das minhas perdas invernais deve-se a problemas com rainhas. Dos habituais 4 a 5% do total de perdas invernais, 2 a 3% devem-se a problemas com rainhas. Ou a colmeia fica absolutamente órfã, ou fica funcionalmente órfã, isto é, tem uma rainha não fecundada. Hoje tirei um conjunto de fotos de uma colónia nestas condições.

Na inspecção de 19 de outubro verifiquei que tinha uma rainha virgem.

Nas fotos em baixo anda uma rainha virgem. Faço esta publicação a pensar nos companheiros que se convenceram que não conseguem encontrar as rainhas. Nada mais errado e derrotista. Só é preciso um pouco de paciência e, sobretudo, acreditar que a vão localizar. As minhas dicas: tem o abdómen ligeiramente mais comprido; as asas estão fechadas e assentes sobre o abdómen; os círculos beije que dividem os segmentos do abdómen são mais finos; o tórax, muito importante, não tem pelos e é mais saliente; as patas são maiores. Conseguindo identificar e localizar uma rainha virgem, identificar e localizar uma rainha fecundada é para meninos ; -). Aproveitam para treinar o olhar nestas imagens paradas. A dificuldade vai sendo maior à medida que vão avançando nas fotografias.

Na foto em baixo, vemos a criação desta rainha não fecundada. Intrigou-me o facto de alguma desta criação parecer criação de obreira à vista desarmada. Os opérculos estão muito pouco salientes em relação ao plano da cera. Julgo saber a razão, mas vou deixar em aberto este aspecto para os meus leitores. Se desejarem dar a vossa opinião façam-no através dos comentários. Serão muito bem vindos. Que orgulho e honra me dão em me acompanharem!

alimentando… e fazendo contas

Desde 2014 que os suplementos alimentares que forneço aos meus enxames são em pasta açucarada, em 99% dos casos. Nos três primeiros anos da minha apicultura, 2009 a 2011, alimentava no final do inverno/início da primavera com xarope líquido. Em 2012 e 2013 meteu-se-me na cabeça que o açúcar era prejudicial às abelhas e deixei de as alimentar. Nesses dois anos vi algumas das minhas colónias morrerem à fome. Mais que o eventual prejuízo de alimentar as minhas abelhas com açúcar, ficou-me claro o prejuízo irrecuperável que adveio da fome que algumas passaram. É caso para dizer que a realidade atropelou as minhas crenças!

Em 2014, e de lá para cá, ficou claríssimo para mim que a minha competência como apicultor se mediria também pela taxa de colmeias mortas, em particular durante a invernagem. De lá para cá, defini esta métrica para mim: considerar-me-ía um apicultor com razoável competência se conseguisse atingir, ano após ano, uma taxa de mortalidade, por fome e/ou varroa, abaixo dos 10% do meu efectivo. E de lá para cá, com muito trabalho, com algum conhecimento à mistura, com um pouco de sorte também, tenho atingido de forma consistente este objectivo. Como não tenho por feitio responsabilizar terceiros pela mortalidade das minhas colónias (farmacêuticas, doenças desconhecidas, os governantes, os insecticidas, as fases da lua,…), procurei melhorar o que dependia de mim. E assim, de 2014 para cá, conta-se pelos dedos de duas mãos o número de colónias que me morreram por fome.

E hoje, dia sem chuva e com algum sol e com uma temperatura mais amigável, pus-me a caminho para mais uma ronda de alimentação.

Algumas colónia já tinham comido o Kg de pasta que lhes coloquei há 4 semanas atrás.
Outras ainda não.
Duas colónias lado a lado, a debaixo tinha consumido tudo e esta mais próxima não.
Como vi as abelhas a trazerem boas cargas de pólen e como a temperatura a rondava os 15ºC, aproveitei para confirmar se havia criação em alguns núcleos. Nos que abri, sim tinham criação. Uma situação um pouco anormal neste território, nesta altura do calendário. A abelha esmagada mostra bem como o levantamento dos quadros nesta altura do ano pode correr muito mal se em lugar de uma abelha for uma rainha.
As colónias aparentavam boa saúde, com excepção de um núcleo (num apiário com 22 núcleos) com um cacho de cerca de 500 abelhas, resultados tardios do PMS, que muito provavelmente irá morrer nas próximas 2 a 3 semanas.
Pão de abelha e pólen recente.

Neste momento para além de as alimentar faço contas também. O meu fornecedor de alimento para as abelhas refere-me um aumento recente de cerca de 30% por kg de alimento. Obviamente não deixarei de alimentar as colónias que necessitarem — neste momento são cerca de 25% das colónias assentes neste apiário. No final do ano apícola (próximo outubro de 2022) aferirei do retorno do investimento.

shake, shake: fazendo os ácaros soltarem as suas garras


Conforme apontado pelo Dr. David de Jong em 1982, os ácaros aderentes de forma superficial a uma abelha são relativamente fáceis de remover agitando as abelhas num líquido [ou açúcar em pó], mas os ácaros que estão profundamente alojados nas membranas intersegmentais no abdómen das abelhas podem ser mais difíceis de desalojar.

Curioso em determinar exatamente como os ácaros varroa se seguram numa abelha, passei algum tempo olhando-os de perto sob o microscópio.

É fascinante observar um ácaro caminhando sobre o vidro. A cada passo, o ácaro infla um empódio pegajoso. Nesta foto, coloquei um ácaro vivo de costas numa lâmina de microscópio e, em seguida, coloquei uma lamínula de vidro fina sobre ele. O ácaro é obrigado a andar de cabeça para baixo no vidro. O empódio da perna superior nesta foto está a começar a se desdobrar; o próximo está totalmente estendido no vidro.”

fonte: https://scientificbeekeeping.com/6960-2/

Nota: para além desta capacidade de grande aderência, os varroas mimetizam também os odores do corpo das abelhas de forma perfeita, o que lhes permite escapar boa parte das vezes ao comportamento de auto e hetero limpeza das abelhas. Esta capacidade de ocultação é mais um aspecto que faz deles uma arma de aniquilação massiva das abelhas.