Na sequência de duas publicações, aqui e aqui, um companheiro apicultor decidiu experimentar nesta terça-feira a utilização de iscos tóxicos para diminuir e controlar a elevada predação/presença de vespas velutinas no seu apiário. O contexto era indicado à utilização desta técnica pois na véspera tinha observado entre 15 e 30 vespas a rondarem as suas colmeias.
Como atractivo utilizou 400 grs. de camarão triturado aos quais adicionou uma pipeta de Frontline Combo de 2,68 ml de volume e com 268 mg de fipronil. De acordo com os cálculos, cada 100 grs. de isco continha 0,067 grs. de fipronil. Esta concentração está situada num valor intermédio entre as concentrações referidas no estudo espanhol (0,01% p/p) e as concentrações utilizadas na Nova Zelândia e Argentina (0,1% p/p).
Os procedimentos que utilizou seguiram de perto o protocolo do estudo espanhol. Por volta das 6h30m fechou as colmeias com esponjas dedicadas, que permitem a entrada de ar, ou com as réguas de transumância. Por volta das 7h30m distribuiu o isco por várias zonas do apiário. Nas duas primeiras horas do procedimento a maior parte vespas pouco ligou ao isco, preferindo fazer o habitual: pairar à frente das colmeias à espera de abelhas que desta vez não saíam. Passadas estas duas horas iniciais as vespas mudaram o chip e passaram a focar-se nos iscos, poisaram sobre eles, fizeram as habituais bolas deles e com o (pet)isco bem agarrado entre as patas levantavam voo. Durante as quatro horas que manteve as colónias fechadas estima que as velutinas levaram cerca de 50% do isco. Passadas as 4 horas retirou o isco sobrante e abriu as colónias. De tarde voltou ao apiário e encontrou apenas 3 velutinas a rondarem as colmeias. Efeito do isco? efeito da sua presença horas antes?
Ontem, passadas 48h, diz-me o seguinte: “Vi uma a duas vespas e enxames a trabalhar. Tenho de dar a mão à palmatória, porque estava muito céptico em relação ao resultado. Acho estranho na segunda-feira haver a quantidade que havia e agora não. É que nem lhes dei porrada, o que as poderia afastar. Só as deixei andar a levar a comida.”
Passadas 48h, ou a bichas são muito assustadiças e ainda tremem de medo só de pensar voltar àquele apiário habitado por um vulto branco fantasmagórico, ou ficaram de cama com uma indigestão estranha, associada a febre alta, suores frios e tremores musculares. Será que o camarão estava estragado?
Depois da divulgação do seminário, venho nesta publicação apresentar alguns dos aspectos que o Prof. Dirk de Graaf e sua equipa pesquisaram e concluíram num caminho que tem cerca de 20 anos. O seminário decorreu ontem no auditório do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, a que tive o prazer de assistir e foto-documentar, com a autorização do palestrante e dos organizadores, para posterior publicação neste espaço.
O Prof. Dirk de Graaf no início da sua palestra.
Actualmente Dirk de Graaf e sua equipa levam a cabo duas linhas de investigação principais. A mais antiga, visa identificar os marcadores genéticos associados ao SMR (suppressed mite reproduction), um dos mecanismos que confere resistência contra o ácaro varroa. Uma segunda linha de investigação, visa identificar os marcadores genéticos associados ao SOV (suppressed in ovo virus), um mecanismo que confere resistência/imunidade contra os vírus frequentemente presentes nos ovos da criação de obreiras e zângãos.
Depois de concluídas uma série de etapas de investigação, identificaram 8 marcadores genéticos com uma probabilidade elevada de estarem associados ao SMR. Quando estes marcadores foram testados em campo, verificou-se ser necessário corrigir e afinar algumas das relações espúrias entre eles. Feita esta “limpeza” ao modelo o seu valor preditivo está bastante robustecido. Com base neste modelo, os criadores de rainhas belgas estão a proceder à seleção das suas matriarcas desde 2021, auxiliados gratuitamente na identificação dos marcadores genéticos pela equipa do Prof. Dirk de Graaf.
Uma reflexão: vemos aqui um exemplo de como uma investigação de cariz fundamental, aparentemente muito afastada da prática, devolve resultados práticos e de mérito à comunidade. Este caminho levou 20 anos a percorrer e só a inteligência e persistência dos envolvidos, assim como o financiamento adequado permitiram alcançar os resultados que nos levam a antever abelhas resistentes ao varroa na próxima década. O Prof. Dirk de Graaf exortou os parceiros portugueses a trabalharem com a abelha ibérica, identificarem os marcadores relevantes para o comportamento resistente nesta abelha, seguindo o caminho (método) que ele desbravou e seguiu na Bélgica.
Os parceiros institucionais. A equipa… as pessoas.
A terminar, o meu agradecimento ao Nuno Capela pela chamada de atenção para este seminário e convite para estar presente no mesmo. O Nuno concluiu há pouco o seu doutoramento com temática na apicultura, e está muito empenhado no estabelecimento de relações entre o mundo da ciência apícola e a comunidade de apicultores. Esta interacção caracteriza cada vez mais o posicionamento da academia em relação à comunidade que a alberga… e bem!
Uma vez mais o meu amigo Umberto Moreno abre as portas a uma conversa muito elucidativa, desta feita com o especialista Carlos Contreras, Zoólogo da Universidade Nacional da Colômbia e estudante de Mestrado em Apicultura na Universidade de Cornell dos Estados Unidos. Nesta conversa em torno dos probióticos, e na fase das perguntas e respostas, uma interveniente questionou o especialista sobre se o açucar e as tortas proteicas podem afectar o microbioma existente no intestino das abelhas (1.10.58 do vídeo). A resposta do especialista é que as leveduras inactivadas de cerveja, habitualmente presentes nas tortas proteicas, podem ser prejudiciais às abelhas e portanto há que ter cuidado com a sua utilização. Em 2016, nesta publicação, tinha indicado o mesmo: “a adição de leveduras e malte de cerveja encurta a vida das abelhas, deste modo recomendamos a utilização de alimentação suplementar sem a sua utilização destes dois aditivos“.
Sobre o cerne desta conversa, os probióticos, escrevi aqui e aqui, e espero fazer uma publicação em breve.
O meu amigo Fernando Moreira enviou-me fotos da sua cresta. Pedi-lhe autorização para as utilizar numa publicação e generosamente acedeu ao pedido. Deixo-vos aqui algumas delas, assim como as respostas que me deu a umas quantas informações que lhe pedi relativas ao seu trabalho de condução das colónias e condições ambientais que explicam e enquadram os resultados obtidos até agora.
Pedi-lhe: “Manda-me os seguintes detalhes: floração principal, zona aproximada para não localizar exactamente os apiários, média de produção, factores ambientais mais significativos este ano, aspectos do maneio que desejes realçar e média de produção.”
O Fernando deu-me estas informações: “Então a zona é: beira alta, bem encostado ao Douro. Floração predominante urze, rosmaninho, silva e castanheiro. Quanto à média está, mais coisa menos coisa, nos 18 kilos, mas ainda vou a meio. Pelo que tenho constatado as 50 colónias que ainda me faltam crestar estão bem compostas. Factores ambientais mais importantes este ano foram as abundantes chuvas de Inverno e noites amenas. Quanto ao maneio o principal culpado deste sucesso foste tu!!!! Com a regra não mais de 6!”
Obviamente que o Fernando foi bem sucedido com o seu maneio, e o sucesso deve-se a ele. Dito isto, fico muito satisfeito que a operacionalização da regra não mais de 6 também resulte a cerca de 80 km a norte, numa zona onde a Beira Alta começa a escorrer para o Douro.
Podemos assistir no próximo dia 26, no auditório do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra ou por webinar, ao seminário sobre Selecção Assistida por Marcadores (SAM) dada pelo Prof. Doutor Dirk de Graaf.
Nesta publicação, de fevereiro de 2021, escrevi sobre esta tecnologia e suas virtualidades enquanto ferramenta de auxílio na selecção de abelhas mais resistentes ao ácaro varroa.
Apesar de alguns alimentarem de forma ignorante e/ou de forma maliciosa o discurso do medo e o papão dos resíduos de acaricidas transferidos da cera para o mel, importa assegurar que quem de facto percebe disto, o Comité Europeu dos Medicamentos para Uso Veterinário, não acompanha esta conversa quimiofóbica. A este respeito em concreto vejamos o que diz o Comité Europeu:
“No entanto sublinhamos que para um determinado número de substâncias…não representam uma preocupação de segurança alimentar do consumidor, porque ou a sua toxicidade é baixa … ou a sua concentração no mel será sempre baixa (por exemplo, porque eles são não-lipofílico e não se acumulam). A transferência de resíduos de substâncias deste tipo da cera de abelhas para o mel, concluiu-se não representar uma preocupação de segurança alimentar para o consumidor. Deve também ser notado que existem dados que mostram que os valores destes resíduos no mel proveniente dos favos de mel contaminados são cerca de 1700 vezes menores do que as concentrações de resíduos existentes nos favo de mel. … Por conseguinte, considera-se que o potencial para a transferência de resíduos da cera para o mel é limitada e não representa uma preocupação de segurança alimentar do consumidor.”
Como as normas Bio não permitem a utilização de cera laminada com resíduos de acaricidas sintéticos e o sector da apicultura Bio não consegue ser auto-suficiente na produção desta cera, a alternativa é, para alguns,… o plástico; utilizarem quadros de plástico!!?
Para fugirem das mais que inócuas quantidades de resíduos de acaricidas presentes na cera, preferem a utilização de produtos derivados do petróleo e com potencial de aumentarem mais ainda os microplásticos presentes no mel.
Nesta avaliação utilizou o álcool para fazer soltar as varroas do corpo das abelhas. Fez a avaliação em duas colónias (13% das colónias no apiário). As taxas de infestação foram 8,14% e 8,4%.
Contagem das abelhas das amostras utilizadas. Numa das amostras foram utilizadas 356 abelhas e na outra foram utilizadas 250 abelhas. As colónias estão com muita criação ainda, segundo o Marcelo. Pouco abrandaram a criação, ao contrário do que acontece em outros anos mais quentes e secos por esta altura do calendário.
Neste apiário, em zona de eucalipto, as colónias estão a todo o gás desde o início do ano. Até ao momento, e neste verão relativamente ameno, não houve um abrandamento significativo na criação de abelhas. O Marcelo fez dois tratamentos para a varroose desde o início do ano. Ontem, depois dos resultados obtidos decidiu fazer o terceiro tratamento deste ano. Bom trabalho e sucesso neste combate, ao Marcelo e todos os apicultores!
Há uns três ou quatro anos atrás, o Marco Portocarrero da Nativa dizia-me que os apicultores estavam a utilizar concentrações demasiado elevadas de fipronil nos cavalos de troia.
Hoje estive a fazer uns cálculos e concluo o mesmo! Espero ter feito estes cálculos correctamente, contudo se encontrarem algum erro enviem-me um comentário, por favor, para o corrigir.
Nesta publicação recente, ficamos a saber que a concentração óptima de fipronil para a produção de iscos é de 0,01% p/p. Se não estou equivocado, significa que por cada 100 grs. de isco se deve colocar 0,01gr de fipronil.
Encontramos o fipronil em vários desparasitantes de animais de companhia, como por exemplo o Frontline Combo.
Neste folheto promocional podemos verificar que cada pipeta de 4,02 ml contém 402mg de fipronil. Julgo que temos todos os dados necessários para calcular qual o volume de Frontline Combo que devemos utilizar para preparar 100 grs de isco. Se não errei nos cálculos são necessários 0,1 ml. Portanto, se prepararmos 1 kg de isco, a quantidade indicada para um apiário com 50 colmeias (10 porções de 50 gr, uma porção para cada grupo de 5 colmeias) e para duas aplicações durante dois dias, segundo o estudo referido, necessitamos de 1 ml, isto é 1/4 da pipeta. Se tivermos 4 apiários com cerca de 50 colmeias cada, necessitamos de uma pipeta (4 ml), que nos permitirá fazer 4 kgs de isco, o necessário para diminuirmos de forma significativa e em 48h o número de velutinas a predarem as nossas abelhas e durante duas semanas ou mais. Se não necessitarmos de todo o isco podemos congelá-lo até voltar a ser necessário.
Os cálculos para determinar o volume de Frontline Combo necessário para obter uma concentração de 0,01 grs de fipronil por 100 grs de isco.
Para quem tem poucas colmeias e não necessita desta quantidade de isco, medir 0,1 ml não é nada simples. Neste caso sugiro utilizar a concentração de fripronil usada nos iscos produzidos da Nova Zelândia (0,1 p/p). Neste caso para uma concentração de 0,1 gr por cada 100 grs. de isco, necessitamos de 1ml de Frontline, isto é 1/4 da pipeta.
Os cálculos para determinar o volume de Frontline Combo necessário para obter uma concentração de 0,1 grs de fipronil por 100 grs de isco.
Esta publicação é um contributo para diminuir a quantidade de fripronil utilizada nos cavalos de troia e, portanto, reduzir a sua desseminação no território. Infelizmente, em zonas predadas intensamente pela Vespa velutina, não vejo como dispensar esta ferramenta tão eficaz no controlo de níveis de predação moderados (entre 10 e 30 velutinas em simultâneo no apiário) ou altos (mais de 30 velutinas em simultâneo no apiário). Isto enquanto as ferramentas de localização dos vespeiros não evoluam e nos permitam eliminar 80-90% dos ninhos antes de as futuras fundadoras acasalarem e dispersarem. Quando chegar esse dia podemos pensar de forma realista que temos a praga debaixo de controlo. Até lá vamos fazendo o que pudermos para salvar as nossas colmeias, utilizando as armadilhas para captura de fundadoras o mais selectivas possível e biocidas na menor quantidade necessária.
Nota: se utilizarem outras marcas sigam o mesmo processo de cálculo, tendo em consideração a concentração/quantidade de fipronil por volume de pipeta.
Na Austrália utilizam-se neonicotinóides e outros pesticidas. Na Austrália a Nosema apis e Nosema ceranae está presente. Na Austrália a varroa era um parasita ausente até ao ano passado. Na Austrália não se verificou o Síndrome do Colapso das Colónias (Colony Collapse Disorder).
Na UE e nos EUA utilizam-se neonicotinóides e outros pesticidas. Na UE e nos EUA a Nosema apis e Nosema ceranae está presente. Na UE e nos EUA a varroa é um parasita presente desde os anos 80 e 90, respectivamente. Na UE e nos EUA verificou-se o Síndrome do Colapso das Colónias.
Não é preciso ter o talento do Sherlock Holmes para descobrir o principal vilão do Síndrome do Colapso das Colónias!
Recomendo esta publicação, o capítulo seguinte deste policial.
Efficacy of Protein Baits with Fipronil to Control Vespa velutina nigrithorax (Lepeletier, 1836) in Apiaries é um estudo espanhol publicado em junho deste ano. Creio que é o único estudo publicado numa revista científica (Animals) acerca da avaliação do impacto dos “cavalos de troia” na visitação e predação de abelhas melíferas por V. velutinas em apiários na Península Ibérica. A utilização dos “cavalos de troia” é uma técnica controversa, aspecto que é abordada neste parágrafo do artigo: ” […] é necessário estudar os riscos que larvas e vespas mortas e restos de iscas podem representar para aves, outros insetos e meio ambiente.”
Resumo Simples Desde a introdução acidental da vespa-de-patas-amarela (Vespa velutina nigrithorax) no início do século 21 na Europa, ela tornou-se uma ameaça para muitos polinizadores, incluindo as abelhas domésticas. Após sua chegada a França em 2004, rapidamente se espalhou pelo continente, chegando a Gipuzkoa (País Basco) em 2010, onde representa um sério problema para a apicultura. Para reduzir este problema, várias estratégias de controle foram desenvolvidas, como a remoção de ninhos ou a captura de rainhas fundadoras na primavera. No entanto, estes métodos não foram eficazes na redução do impacto das vespas na apicultura. O uso de iscas proteicas com biocidas tem-se mostrado um método eficaz no controle de populações de vespas invasoras em ambientes naturais, porém, não têm sido utilizadas para o controle de V. velutina [nota minha: não tem sido utilizado oficialmente e com a autorização das autoridades administrativas]. Este estudo avaliou a eficácia destas iscas na redução do impacto das vespas nos apiários. Os resultados mostraram que quando a presença de vespas nos apiários é alta, ocorre um alto consumo de iscas, levando a uma redução significativa no número de vespas em 48 h. Esta redução dura pelo menos duas semanas após a colocação da isca e permite que as abelhas recuperem e retornem à sua atividade normal.
A diminuição do número de vespas observada no grupo de apiários com maior pressão de V. velutina, além de ser mais pronunciada 48 após a colocação das iscas, manteve-se constante ao longo das duas semanas seguintes. As contagens pós-isca nos dias +2, +7 e +14 foram significativamente menores do que no dia 0 para os dois grupos de apiários com maior número de vespas. No grupo com menor pressão de V. velutina, embora tenha havido uma leve redução no número de vespas no dia +2 e no dia +7, a diminuição não foi significativa.
Sumário técnico A vespa-de-patas-amarela (Vespa velutina nigrithorax), fora de sua área de distribuição natural, tornou-se uma grande ameaça para as abelhas domésticas. Vários métodos de controle têm sido usados para combater V. velutina, mas os resultados obtidos não são satisfatórios. O uso de iscas proteicas com biocidas tem-se mostrado um método eficaz no controle de populações de vespas invasoras, mas não tem sido utilizado para o controle de V. velutina. Assim, a eficácia de iscas proteicas contendo fipronil para reduzir a presença de vespas em apiários foi avaliada neste estudo. Após a determinação laboratorial da eficácia ótima de uma isca proteica com concentração de 0,01% de fipronil, foram realizados ensaios de campo envolvendo 222 apicultores. Os dados relatados pelos 90 apicultores que responderam ao questionário solicitado demonstraram que nos grupos de apiários com maior pressão de vespas (grupos com 10–30 e mais de 30 vespas por apiário), houve uma diminuição significativa na presença de V. velutina, durante pelo menos duas semanas. A redução no número de vespas foi positivamente correlacionada com o consumo de iscas, e o consumo de iscas foi positivamente correlacionado com o número de vespas presentes no momento do tratamento. Embora o método utilizado tenha mostrado boa eficácia e a concentração de fipronil utilizada tenha sido muito baixa possíveis efeitos negativos sobre o meio ambiente também devem ser avaliados.”
Materiais e métodos
Testando a Eficácia de Iscas em Apiários Para verificar a eficácia das iscas de proteína, o trabalho de campo ocorreu entre agosto e outubro de 2019, 2020 e 2021. Foi obtida autorização oficial do Ministério da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da Espanha e do Conselho Provincial de Gipuzkoa.
Foram utilizados quatro tipos de iscas proteicas, sendo três de peixe e uma de carne. Todos tinham a mesma concentração de fipronil (0,01% p/p) [0,01 gr de fipronil por 100 gr de isco]. […] Entre 50 e 100 gr de isca foram acondicionados em pequenos recipientes recicláveis e mantidos congelados (-20 °C) até à utilização nos apiários. A distribuição dos iscos aos apicultores foi feita na sede do GBA, onde os técnicos anotaram a quantidade de iscos fornecidos a cada apicultor, o número de apiários e colmeias a tratar e o local onde foram colocados. Para realizar os ensaios, os apicultores que concordaram em participar foram informados sobre uma série de pré-requisitos a serem atendidos, (i) um número mínimo de vespas deveria estar presente no apiário (>2 vespas por apiário), (ii) em dias de chuva e/ou ventos fortes devem ser evitados, (iii) no dia do tratamento, a entrada das colmeias deve ser fechada antes do amanhecer e mantida fechada por 4 h, período em que as iscas foram colocadas próximo das colmeias. Assim, uma hora após o nascer do sol, com as iscas descongeladas e temperadas, um pequeno recipiente com aproximadamente 50 g de isca para cada 4 a 5 colmeias foi colocado próximo da entrada das colmeias. À medida que a isca era consumida, mais isca era adicionada. No final do dia, as embalagens eram recolhidas e descartadas em ponto de reciclagem.
Ensaios de inactivação larval em laboratório Comparando os efeitos das iscas tóxicas nos diferentes grupos de larvas, aquelas alimentadas com a isca contendo 0,01% de fipronil apresentaram maior percentagem de larvas afetadas em 24 h.
Uma mortalidade de 100% foi observada 48 horas após a administração das iscas tóxicas. […] Após 48 h, as larvas controle ainda estavam vivas. A maioria das larvas alimentadas com iscas proteicas com diferentes concentrações de fipronil apresentaram mudança progressiva de coloração, passando a uma coloração enegrecida quando morreram. Para determinar se a mudança de cor foi devido à ingestão de fipronil, as larvas de controle foram mantidas sem comida até morrerem. Dez dias após o início da experiência, as larvas controle perderam a atividade até morrerem, evoluindo de esbranquiçadas para pretas, como ocorreu com as larvas alimentadas com fipronil.
Mudanças de cor observadas nas larvas de Vespa velutina após 48 h de alimentação com fipronil (A) em comparação com a larva controle sem consumo de fipronil (B,C).
Discussão A remoção do ninho e captura de rainhas fundadoras na primavera e operárias no verão são as técnicas mais comuns usadas para o controle de V. velutina. A melhor estratégia é combinar diferentes métodos ao longo do período de atividade anual das vespas. Neste estudo, apresentamos outro método utilizado com sucesso com outros membros da família Vespidae baseado no controle químico com iscas tóxicas. Vários biocidas foram investigados para controlar vespas, e o fipronil forneceu eficácia ótima em doses baixas. De fato, uma isca protéica com fipronil foi recentemente comercializada na Nova Zelândia para esse fim*. Primeiramente, é fundamental que a isca seja palatável e não provoque nenhum tipo de rejeição por parte das vespas. A esse respeito, ao longo dos três anos, nenhum apicultor indicou nos questionários que havia observado qualquer rejeição da isca por parte das vespas. Em segundo lugar, uma baixa dose de biocida na isca é fundamental porque as vespas adultas precisam sobreviver à exposição à isca e serem capazes de a transportar até ao ninho para alimentar as larvas. No presente estudo, os ensaios in vivo alimentando as larvas com iscas contendo diferentes concentrações de biocida mostraram que o percentual de inativação das larvas aumentou com a concentração, obtendo 84,1% de inativação após 24 h para a concentração máxima de fipronil testada (0,01%). Os restos de fipronil encontrados em larvas mortas representaram de 13% a 30% do total de biocida administrado. Essa baixa concentração pode ser atribuída aos processos de metabolismo e excreção do biocida. […] Assim, a isca proteica com 0,01% de fipronil foi selecionada para o estudo de eficácia nos apiários, apresentando efeito significativo na redução da presença de V. velutina. Observou-se que para minimizar a pressão de V. velutina no apiário, a quantidade de isca tóxica transportada para os ninhos deve ser alta. No entanto, o consumo de iscas dependia do número de vespas presentes no apiário com resultados ótimos quando mais de 30 vespas estavam presentes ao mesmo tempo em frente das colmeias do apiário. A redução no número de vespas no grupo de apiários com >30 vespas (≈75%) foi semelhante a outros estudos que usaram iscas proteicas com fipronil para controlar espécies de Vespula em ambientes naturais, mas menor em comparação com outros. No entanto, a concentração de fipronil usada no presente estudo é dez vezes menor (0,01% p/p) do que as concentrações de fipronil usadas para controlar outras espécies de Vespidae (0,1% p/p). Além disso, não temos conhecimento de outras publicações sobre a eficácia de iscas de proteína tóxica no controle de V. velutina em apiários e, infelizmente, não podemos comparar os nossos resultados com outros estudos realizados em locais semelhantes. Além disso, de acordo com as observações dos apicultores, a redução alcançada nos apiários com alta predação permitiu que as abelhas continuassem sua atividade normal.
[…] Embora a contagem de vespas não tenha continuado após +14 dias pós-isca, alguns apicultores relataram um aumento de vespas, mas que não atingiram a contagem inicial. Esses aumentos foram provavelmente devidos à eclosão de novas vespas que estavam em estágio de pupa no momento da isca e, conseqüentemente, não foram alimentadas com a isca tóxica. Além disso, após o declínio inicial, um rápido aumento de vespas também foi relatado num apiário. Isso pode ser devido às vespas vindas de outros ninhos devido à menor competição entre as vespas após a iscagem em comparação com os dias anteriores. No grupo de apiários com baixa contagem de vespas (<10), alguns apiários mostraram uma ligeira diminuição no número de vespas, mas rapidamente o recuperaram.
Vários autores descobriram que aumentar a intensidade das iscas aumenta sua eficácia. Como visto neste estudo, o uso de biocidas como o fipronil pode ser útil para controlar as populações de V. velutina nos períodos de maior pressão nos apiários. […] o uso de iscas proteicas com biocidas deve ser o mais restrito possível, optimizando as condições para o máximo consumo no menor tempo possível. Essas condições podem ser alcançadas se uma isca altamente palatável estiver disponível, e os apicultores usarem essa estratégia quando os apiários são fortemente predados por V. velutina no final do verão e início do outono, quando os ninhos de V. velutina crescem rapidamente, sob controle e supervisão das autoridades locais. O controle de V. velutina em apiários não só beneficia a apicultura como também preserva a fauna entomológica local, que também é alvo da vespa de patas amarelas. Nesse sentido, estudos realizados em França, indicam que várias espécies de vespas sociais podem representar um terço das presas de V. velutina.”
fonte: https://www.mdpi.com/2076-2615/13/13/2075
Notas: *1) Como complemento ver aqui e aqui sobre a utilização de iscos com fipronil utilizados na Nova Zelândia para controlar a vespa germânica, um insecto exótico naquele país.
2) Ainda que consciente da controvérsia que a utilização de cavalos de troia apresenta, entendo que no actual contexto de forte predação de apiários em certos territórios, a Europa devia permitir a produção controlada e a utilização parcimoniosa e com dispositivos seguros deste tipo de iscos tóxicos, à imagem do que se faz na Nova Zelândia para o controle da Vespa germânica. Enquanto assim não for, a utilização desta técnica continuará a ser levada a cabo, como já o é, provavelmente com doses de tóxico superiores ao necessário e com dispositivos rudimentares que aumentam o risco dos efeitos colaterais noutras espécies.