Descrevi e publiquei que no passado dia 12, decidi utilizar uma técnica de controlo da enxameação proposta pelo advogado e apicultor norte-americano George Demaree, publicada no American Bee Journal em 1892.
Hoje passados 12 dias, voltei ao apiário para realizar diversas tarefas. A primeira constatação é que a Erica australis está a secar e a ser substituída gradualmente pela Erica lusitanica (urgueira ou moita branca).
O território continua estimulante!
No caso da colónia alvo da técnica Demaree em 12-04, há alguns indícios que continua a procurar enxamear. Uma inspecção a 19-04 revelou que, como esperado, tinha vários mestreiros abertos no sobreninho colocado por cima da grelha excluidora. Como não precisava destes mestreiros acabei por destruí-los. Menos esperado, por ser mais raro, foi encontrar dois mestreiros no ninho, ainda muito no início e que destruí, obviamente.
Hoje o indício de enxameação, menos evidente que os encontrados a 19-04, é a forma daquele alvéolo entre as duas abelhas.
Vista geral do ninho.
A abelha-mãe… a que geralmente e injustamente leva com as culpas de uma colónia querer enxamear.
Hoje, apesar do céu ameaçar, não foi dia de trabalhar à chuva… não seria o primeiro!
Observação 1: a propósito de um ou outro comentário que pude ler no Facebook acerca da publicação do dia 12-o4, quero deixar descansados os apicultores que parecem temer que com estas técnicas de controlo da enxameação se visa eliminar o instinto da enxameação nas abelhas melíferas. Não é esse o objectivo, como é claro, nem seria seguramente esta a técnica a utilizar para esse fim. As minhas abelhas vão continuar a querer enxamear neste e nos próximos anos. Eu é que não gosto de ficar sentado, sem nada fazer, a assistir a esse incrível fenómeno natural, mas que em nada contribui para a minha felicidade enquanto apicultor. Já os enxames saídos/fugidos em pouco ou nada contribuirão para a sustentabilidade da espécie, porque 99,9% deles estarão mortos em menos de um ano!
Na sequência desta situação levei os núcleos formados para outro apiário. Neste outro apiário tinha por lá dois núcleos onde a introdução de rainha virgem em gaiola não resultou. Neste contexto decidi meter mãos à obra para maximizar os recursos disponíveis do momento, e ensaiar uma segunda oportunidade com estes núcleos, fazendo a introdução de mestreiros pela técnica de enxertia.
Estes são os recursos disponíveis: mestreiros retirados dos núcleos transumados onde já andavam virgens em joviais correrias.
Com um X-ato não é das tarefas mais complicadas fazer o procedimento. Sim, é verdade que as luvas são uma…, mas com um pouco de perícia a coisa vai.
Uma consideração acerca da viabilidade destes mestreiros: tenho verificado ao longo da minha experiência, que uma parte importante dos mestreiros que tenho encontrado fechados nos quadros, e isto após a emergência das rainhas virgens, depois de analisados a olho contém rainhas aparentemente mal-formadas. Sendo o caso há uma boa probabilida de ter recortado mestreiros inviáveis. Mas perdido por 100 perdido por 1000, e procurei seleccionar os que me pareceram viáveis e procedi ao seu recorte o mais cuidadosamente que me foi possível. Feito isso coloquei-os nos referidos núcleos, pendurados por um palito, entre dois quadros.
No momento em que coloquei os mestreiros sobre os quadros, o comportamento de ânsia das abelhas deixou-me esperançado que as rainhas poderiam estar vivas.
A enxertia foi realizada no dia 17 e ontem 19, entre outras tarefas, fui ver o avanço desta situação.
As abelhas tinham fixado os mestreiros a um dos quadros.
Procedi à inspecção o mais rapidamente que consegui e tomei nota que os sinais preliminares são muito animadores. Primeiro, encontrei os mestreiros rotos pelo fundo. Segundo, a forma certinha como os fundos foram recortados indicia que foi feito pelas rainhas virgens no momento da sua emergência.
Neste conjunto de dois mestreiros a precisão do recorte do fundo de um deles, o da direita, deixa-me convicto que de lá emergiu um rainha virgem viável. Daqui a cerca de 15-20 dias tirarei as dúvidas quando e se vier a surgir uma rainha fecundada em postura.
Neste momento a minha apicultura serve-me não só como a principal fonte de rendimento mas também como um inesgotável campo de pesquisa pessoal e de teste de algumas ideias feitas. Este mundo das abelhas, ainda cheio de segredos, co-habita com tantos ou mais mitos acerca dele. Por exemplo, assim como já vi inúmeras vezes que a primeira rainha virgem a nascer não elimina as suas irmãs rivais, coloco para mim a questão se tal se deve à simultaneidade com que nascem ou se a somar a isso se deve também à defesa destes mestreiros por parte das abelhas, que repelem as tentativas de destruição dos mesmos por parte das primeiras virgens a nascer. No caso vertente, se nestes dois núcleos, que já não têm possibilidade de criarem a sua rainha pelo tempo que já levam orfanados, como vou colocar quadro nenhum com ovos/larvas jovens, alguma rainha fecundada que venha a surgir só poderá ter tido origem num destes mestreiros rotos.
Se num destes dois núcleos por lá aparecer uma rainha fecundada a tese de que as primeiras rainhas a emergirem matam as suas rivais ainda no interior dos mestreiros se tiverem tempo para o fazer fica difícil de sustentar. Em sentido contrário, a tese não refutada é que nesta situação específica é a vontade/o instinto colectivo das abelhas que prevalece, expresso na defesa destes mestreiros mais tardios às investidas das rainhas virgens. E não será (quase) sempre assim no mundo secreto das abelhas: a vontade do colectivo a sobrepor-se à vontade do indivíduo?
No passado dia 15, ao sacudir abelhas dos quadros para fazer desdobramentos, vi o néctar do futuro mel claro a escorrer generosamente dos quadros pela primeira vez este ano. O fluxo iniciou-se dentro da data prevista e, correndo tudo normalmente, vai manter-se durante os dois próximos meses, umas semanas mais intensamente outras menos, com origem em diversas florações.
Néctar sobre o travessão superior de alguns quadros que escorreu dos quadros sacudidos.
Em baixo deixo imagens do padrão de postura das rainhas, de várias colónias que abri ontem para conformar à regra “não mais que seis”, e que tendo passado pela minha aprovação durante o último mês e meio para prosseguirem temporada adentro, se expressam nos quadros de ninhos Lusitana desbloqueados da forma que as fotos ilustram.
São colónias com estas rainhas testadas em ambiente real que os meus clientes de enxames levam ano após ano.
Com o início do fluxo é chegada a altura de ir convertendo gradualmente as colónias preparadas até aqui para doarem quadros com criação e abelhas para os desdobramentos, em colónias direccionadas para a produção de mel.
Estas colónias Lusitana vão receber gradualmente quadros com cera laminada no sobreninho, que continuará separado do ninho por uma grelha excluidora de rainhas. O néctar será armazenado nestas ceras novas. Tal permitirá obter mel com as características organolépticas tão apreciadas pelos meus clientes e amigos, muitos dos quais o têm eleito como primeira opção nos últimos dez anos.
Mel cristalizado da produção de 2020. É o resultado que obtenho da parceria com as minhas abelhas, que se mantém vai fazer este ano uma dúzia de anos. Este é produto íntegro que os meus clientes pagam para degustar. Desde 2010!
Com os dias a sucederem-se numa miscelânea de aguaceiros, sol, chuva, alguns mais frescos e outros um pouco mais quentes, as abelhas andam a 200 à hora. Eu vou procurando dar resposta a esta vertigem pois a idade, a saúde e a vontade permitem-me trabalhar a bom ritmo. Depois do dia de anteontem, em que não parei para ver este por do sol — mas a Filipa Almeida viu por mim! —, ontem as tarefas a realizar exigiram-me que o nascer do dia me fosse encontrar já no apiário.
Apesar de começar cedo, as horas e os dias passam tão ligeiros que há sempre alguma coisa a ficar para trás. Neste caso foi uma colmeia, que por ter o estrado estragado no dia de ser transumada com as outras para uma cota cerca de 300m mais baixa, acabou por se manter solitariamente no apiário onde estava. E tornou-se num daqueles projectos “amanhã tenho de a ir buscar”, só que o amanhã demorou mais de um mês a chegar e, durante esse mês, o seu maneio foi nenhum.
O estado do estrado. A colónia que vão ver em baixo passou um dos invernos mais frios que tenho memória, numa das zonas mais frias do país, nesta casa esburacada. Quando me dizem que os enxames de A, B ou C morreram de frio… tenham paciência pela minha falta de paciência para essa conversa..
Visão geral, ontem, da colónia que passou o inverno numa casa pouco aconchegante, aos nossos olhos.
Vejamos a colónia quadro a quadro.
Vista do quadro 10.
Vista do quadro 8.
Pormenor do quadro 7.
Sim, esta colónia enxameou… o enxame primário foi meter-se numa caixa com 8 quadros, que tinha a 30 metros a aguardar utilização num outro assento. Assim sendo, e uma vez que até aqui a fortuna não permitiu que perdesse abelhas deste enxame, decidi fazer o necessário para não vir ainda a perder abelhas — sabendo que o processo de enxameação ainda só tinha jogado a sua primeira parte —, desta feita por via de um aspecto muito negligenciado ou até desconhecido por alguns de nós: os enxames secundários ou garfos.
Vista de frente da colmeia que continha a colónia que enxameou e quatro caixas-núcleo de transporte. Sim, dividi-a em quatro!
A primeira divisão que fiz.
Última divisão que fiz.
E foi só porque me apeteceu fazer 4 enxames de um que fiz quatro enxames de um? Não, a razão foi esta…
Virgem 1… se apurarem o olhar vão vê-la!
Virgem 2.
Virgem 3.
Aqui, se não me engano estão três visíveis!
Desfeito o mito que a primeira rainha a nascer mata as outras? Se as abelhas deixassem e se a primeira nascesse/emergisse com um desfasamento temporal que lhe permitisse localizar as irmãs-rivais — já vi várias vezes rainhas romperem os mestreiros e emergirem com um minuto e menos entre si —, vontade para o fazer não lhe faltaria. Mas vontade apenas não chega!
Uma colónia que enxameou e continua cheia que nem um ovo? Só se o enxame primário tiver saído com meia-dúzia de abelhas, pensarão alguns. Pois nem isso também corresponde à realidade, neste caso e, muito provavelmente, na grande maioria dos casos. O enxame primário foi enfiar-se numa caixa a 30 metros de distância e ocupava cerca de 5 a 6 quadros.
As tiras de apivar coloquei-as antes de saber a proveniência do enxame… coisa que vim a saber poucos minutos depois.
Em conclusão, que o caso já vai longo e tenho que descansar que amanhã o dia vai começar cedo de novo: o grande desperdiçador de abelhas não é apenas o enxame primário; os enxames secundários ou garfos são os maiores responsáveis por chegarmos a uma altura em que na nossa colónia resta pouco mais que as abelhas que cobrem um a dois quadros.
Não estou a dizer nada de novo, Doolittle já o disse há quase 120 anos: o processo de cisão natural do enxame não termina com a enxameação primária. Para não vermos a população daquela nossa colónia, que estava pujante duas semanas antes e a prometer cinco meias-alças de mel, reduzida a 1/10 do que foi, vejo duas alternativas apenas, cada uma em função do estado em que encontremos o enxame: no caso de as rainhas virgens não terem emergido ainda, há que destruir todos os mestreiros com excepção de um; no caso de as rainhas já terem emergido há que fazer múltiplas divisões ou eliminar todas as rainhas virgens com excepção de uma.
No passado dia 8 coloquei, no mesmo dia, um sobreninho e uma excluidora de rainhas numa colmeia do modelo Lusitana. O objectivo era configurar esta colónia de forma a utilizá-la esta semana para desdobramentos pela técnica Doolittle.
Foto de ontem do ninho da colónia. Oito quadros com criação e abelhas a cobrirem os 10 quadros.
Nesse mesmo dia coloquei um quadro com criação fechada no sobreninho, transferido do ninho da mesma. Hoje fui encontrar o quadro com criação como a foto em baixo ilustra.
As novas abelhas a emergir estão claramente enfraquecidas por falta de aquecimento. A falta de limpeza dos alvéolos logo após a nascença, comportamento atípico em condições normais, também denuncia essa fraqueza.
O meu erro foi ter “esticado a natureza”, isto é, ter pedido a uma colónia ainda que forte para aquecer de imediato um quadro com criação que estava no andar de cima e separado por uma excluidora. A meteorologia, com noites ainda abaixo do 8ºC, também não foi amiga — nem tem de ser, é o que é. De forma cristalina só posso afirmar que este maneio não foi prudente, que foi um erro!
Habitualmente o processo de preparação destas colónias passa por uma abordagem mais gradualista. Numa primeira fase do processo coloco o sobreninho apenas com quadros puxados vazios e/ou com ceras laminadas. Uma a duas semanas depois, caso a rainha tenha subido ao sobreninho para aí fazer postura — o que acontece frequentemente — confino-a ao ninho com recurso à excluidora, e deixo no sobreninho um ou dois quadros com criação da mesma. Só cumpridas estas etapas e observados estes pré-requisitos passo a utilizá-la para os desdobramentos pela técnica Doolittle. Este maneio é prudente e, na minha opinião, o correcto nesta altura do ano.
E foi assim que corrigi o erro. Noutra colónia confinei a rainha, que já andava em postura no sobreninho, ao ninho.
Esta rainha andava em postura neste quadro do sobreninho. Foi colocada junto com o quadro no ninho, e lá vai ficar confinada nos tempos mais próximos.
Ninho da colónia com excluidora que me permite passar a utilizá-la para efectuar os desdobramentos pela técnica Doolittle.
Nesta colónia em questão coloquei o sobreninho em 29-03, e só hoje coloquei a excluidora. Vou utilizá-la nas próximas semanas como doadora de quadros e/ou abelhas para os desdobramentos que ainda pretendo fazer. O quadro com a criação a emergir enfraquecida foi colocado neste sobreninho.
Lição re-aprendida: numa época do ano em que as temperaturas mínimas ainda podem descer abaixo do 8-10ºC, só nas colónias que naturalmente já subiram ao sobreninho e, preferencialmente, onde a rainha já ande em postura, devem ser utilizadas para este fim. Aprende Eduardo que eu não duro para sempre!
Tenho falado com alguma regularidade da cera, como não poderia deixar de acontecer, pela sua importância para o bom desenvolvimento dos enxames. Nesta publicação antiga fiz algumas considerações acerca do que se supõe ser a influência do fluxo de néctar na conversão de abelhas não qualificadas em abelhas especializadas na produção de cera.
Com o passar dos anos tenho adquirido cada vez mais consciência da importância de ter cera puxada ao dispor para apoiar os enxames à saída do inverno (fevereiro e março).
No mês de abril e maio, com a conformação das minhas colónias à regra “não mais de seis“, as necessidades de cera laminada crescem exponencialmente.
Esta colónia foi conformada à regra “não mais de 6”. Os dois dois quadros novos com cera laminada, com a indicação JV21, foram colocados na semana passada.
Ontem verifiquei que estes quadros tinham sido bem aceites pelas abelhas que os puxaram de forma uniforme e pela rainha, que já os tinha aproveitado para a sua sementeira.
Sempre que experimento a moldagem de um novo companheiro/empresa cerieiro tenho por hábito marcar os quadros com uma sigla que o identifique, para depois verificar facilmente, com objectividade e rigor, a apreciação que as abelhas fizeram dessa cera.
A nova cera na caixa.
No momento da incrustação.
A identificação dos quadros com a cera laminada.
21 identifica o ano, JV identifica o cerieiro, o Apicultor José Vicente, residente ali próximo da bela Nisa, concelho onde comprei os meus primeiros enxames, em setembro de 2009.
Ontem da parte da manhã, apesar do aguaceiro ligeiro, tive de marcar presença nos meus dois apiários a cotas mais baixas para partir as patilhas de 20 gaiolas com rainhas virgens introduzidas a 5 e 6 deste mês. Uma vez que tinha de lá passar, aproveitei e levei algumas meias-alças/alças meleiras, para colocar sobre algumas das poucas colmeias lusitanas que estão dedicadas à produção de mel.
Colocação das primeiras meias-alças/alças com quadros com cera puxada.
Contudo, antes da colocação destas caixas, que visam armazenar o néctar que espero que comece a ser trazido de forma abundante nas próximas semanas, fiz uma avaliação rápida da força das colónias para re-confirmar a justeza deste maneio.
Uma das colónias onde coloquei a primeira meia-alça/alça meleira.
O padrão de postura compacta desta colónia.
Um dos quadros com cera laminada colocado cerca de 48h antes.
Após cerca de 12 semanas de permanência no ninho da colónia, as tiras de Apivar foram retiradas momentos antes da colocação da meia-alça/alça meleira (por ex. nos EUA este maneio teria de ser feito 15 dias antes da colocação das alças meleiras. Felizmente na Europa seguiu-se outro protocolo experimental para testar a presença de resíduos de amitraz e seus metabolitos nos produtos da colmeia, e a nossa regulamentação é mais conforme à realidade que a dos EUA ).
Outra das colónias que foi alvo do mesmo maneio no dia de ontem.
O fluxo até agora tem sido frouxo. Não estou muito preocupado porque o histórico diz-me que ele se torna muito abundante a partir da terceira semana de abril. Assim o vento amaine um bocado para que os efeitos destes aguaceiros recentes perdurem por mais tempo e se expressem em nectários cheios, onde as abelhas recolherão a sua recompensa, assim como quem as ajudou a sobreviver até esta altura do ano.
Ontem, um dia em que as previsões meteorológicas indicavam aguaceiros a seguir ao almoço, levantei-me por volta das 7h00 com o plano de fazer um maneio profundo no meu apiário de Lusitanas a 600 m de altitude. Neste apiário, onde no início de março estavam estacionadas 5 colónias, estão neste momento 78, 34 em caixas de 5 quadros, as restantes em caixas de 10 quadros.
Vista geral do apiário. Terei chegado ao apiário por volta das 9h15 e por lá andei fruindo do trabalho com as abelhas até cerca das 14h15.
Comecei por transferir 4 colónias em caixas de 5 quadros para caixas de 10 quadros e efectuar o maneio de controlo da enxameação numa das colónias (ver aqui a técnica que estou a utilizar nestes casos).
Na colónia com a velha dama que aqui referi, uma vez que a orfanei no passado dia 3 e ofereci a rainha ao João Gomes para lhe servir como matriarca, dividi-a em duas com o aproveitamento de alguns mestreiros abertos presentes em dois quadros.
Deixei intactos os dois mestreiros abertos e destruí o mestreiro fechado logo por cima.
Núcleo formado com os mestreiros da linha da velha senhora.
Outra tarefa prevista passou por colocar em núcleo outra velha senhora também de 2018, esta a nº 8.
João arranja mais um espacinho num dos teus apiários para esta senhora. Desta também vou querer umas quantas filhas.
A principal tarefa de ontem foi fazer a prevenção da enxameação com a conformação das colónias à regra “não mais de 6“.
Saem dois quadros com criação e/ou reservas e…
… entram dois quadros com cera laminada.
Os quadros retirados foram canalizados para dois tipos de colónias: para colónias armazém e para colónias com rainhas virgens introduzidas em gaiola e já fecundadas e em postura.
Colmeia armazém formada ontem para receber alguns quadros com criação.
Núcleo formado a 16-03 para introduzir rainha virgem em gaiola a 19-03. Em 05-04 verifiquei que tinha rainha em postura. Ontem coloquei um quadro com alguma criação para acelerar o seu desenvolvimento.
Foi uma agradável manhã passada na excelente companhia das minhas abelhas, num exercício de criatividade apícola, a encaixar as peças do puzzle, cuja dimensão lúdica me dá um enorme prazer e procuro repetir cada vez mais.
Em baixo deixo a tradução do sumário de um estudo que me deixou surpreendido por diversas razões. A primeira razão advém da verificação de plasticidade onde não esperava encontrá-la — plasticidade é inteligência no meu dicionário. A segunda está relacionada com o sentido dessa plasticidade — em sentido contrário ao que eram as minhas hipóteses e crenças implícitas. A terceira razão, a generosidade sub-liminar da Natureza na resposta de compensação adaptada às agruras ambientais.
Título: Plasticidade do tamanho do ovo em Apis mellifera: abelhas rainha alteram o tamanho do ovo em resposta a fatores genéticos e ambientais
Sumário: A evolução social levou a padrões e histórias de vida distintos em insetos sociais, mas muitas características individuais e ao nível da colónia, como o tamanho do ovo, não são suficientemente compreendidas. Assim, uma série de experiências foram realizadas para estudar os efeitos dos genótipos, tamanho da colónia e nutrição da colónia na variação do tamanho dos ovos produzidos por abelhas rainha (Apis mellifera). Rainhas de diferentes linhagens genéticas produziram tamanhos de ovos significativamente diferentes em condições ambientais semelhantes, indicando variação genética permanente para o tamanho do ovo que permite uma mudança evolutiva adaptativa. Investigações posteriores revelaram que os ovos produzidos por rainhas em grandes colónias eram consistentemente menores do que os ovos produzidos em colónias pequenas, e as rainhas ajustaram dinamicamente o tamanho do ovo em relação ao tamanho da colónia. Da mesma forma, as rainhas aumentaram o tamanho dos ovos em resposta à privação de comida*. Estes resultados não são explicados apenas por diferentes números de ovos produzidos nas diferentes circunstâncias, mas, ao invés disso, parecem refletir um ajuste ativo da alocação de recursos pela rainha em resposta às condições da colónia. Como resultado, os ovos maiores experimentaram maior sobrevivência subsequente do que os ovos menores**, sugerindo que as abelhas rainha podem aumentar o tamanho do ovo sob condições desfavoráveis para aumentar a sobrevivência da descendência e para minimizar os custos/riscos da criação com os ovos que não se desenvolvem com sucesso e, assim, conservarem energia ao nível da colónia. A extensa plasticidade e variação genética do tamanho do ovo em abelhas melíferas tem implicações importantes para a compreensão da evolução da história de vida num contexto social e implica que este estágio negligenciado da história de vida nas abelhas pode ter efeitos transgeracionais.
* Rainhas num regime alimentar com restrição de acesso ao pólen modificaram o tamanho dos seus ovos e produziram ovos significativamente maiores do que antes de enfrentar tal restrição nutricional.
** As abelhas filhas de rainhas que produziram ovos grandes, porque estavam em colónias pequenas, sobreviveram significativamente mais do que as abelhas filhas de rainhas que produziram ovos pequenos em colónias maiores. Poderá estar aqui uma razão para o que tenho observado repetidamente ao longo dos anos: as colónias mais atrasadas à saída do inverno depressa apanham as mais adiantadas, como escrevi há uns anos atrás.
São vários os determinantes da longevidade das abelhas rainha. Desde os anatómicos e fisiológicos mais comumente referidos, como o número de ovaríolos ou o volume da espermateca, aos menos conhecidos como o número de espermatozoides utilizados para fecundar cada óvulo, indo da utilização de dois ou três espermatozoides por óvulo aos dez a quinze por óvulo. Numa outra perspectiva, a longevidade de uma rainha nas nossas colmeias depende se enxameia ainda durante o primeiro ano ou se o não faz ano após ano — porque não manifesta essa tendência ou porque o maneio do apicultor na prevenção ou no controlo da enxameação foi efectivo. Sob um outro ângulo ainda a longevidade de uma rainha depende da manipulação cuidadosa dos quadros para não lhe causar um dano que provoque a sua substituição pelas abelhas, ou ainda da gestão do apicultor que opta pela eliminação de todas/ maioria das rainhas de acordo com um calendário rígido — elimina as rainhas com mais de um ano, por exemplo. Outros aspectos e pontos de vista poderão ser adicionados a esta lista de determinantes da longevidade da rainha mãe, mas para o propósito desta publicação os que mencionei são suficientes.
Muitas vezes se lê e ouve que as abelhas rainha entram em declínio acentuado após o seu segundo ano de vida. Nas minhas colónias não tenho dados confiáveis que confirmem ou infirmem esta ideia. Para o poder fazer com rigor teria de começar, desde logo, por marcar as rainhas, um projecto que é sempre adiado para o ano seguinte. Este ano estou convencido que vou mesmo levá-lo por diante!
Contudo tenho algumas rainhas marcadas, muito poucas. Foram rainhas virgens que adquiri já marcadas. Não tenho muitas porque a grande maioria seguiram nos enxames que tenho fornecido aos meus clientes. Fui, no entanto, ficando com umas poucas. E nestas poucas marcadas a maioria, três em concreto, são todas do mesmo ano e do mesmo criador. O ano é de 2018!!! — sim verdade… rainhas com 4 anos —e o criador é o João Gomes que as comercializa com a marca Apicant Queen Bees.
Por si só, a longevidade destas rainhas já é digno de menção. Contudo, tão ou mais surpreendente que sua a longevidade é o seu desempenho actual. Sobre este aspecto deixo o foto-filme em baixo que ilustra o desempenho de uma destas ilustres seniores à data de ontem, 31 de março.
Colónia do modelo lusitana da velha dama! Em 9 de março foi deslocada de um apiário a 900m de altitude para outro a 600 m de altitude e, dada a sua força, coloquei um sobreninho. Ontem, 31-03, tinha três quadros com criação no sobreninho.
O ninho apresentava 7 quadros com criação.
Um dos quadros com criação.
A dama vermelha andava calmamente em postura no sobreninho,…
… transferi-a e confinei-a ao ninho.
Telhado com notas.
O ano passado esta rainha e as outras duas “irmãs”, já debaixo de olho, serviram-me de semente para uma parte dos desdobramentos que realizei. Ainda que não seja um grande crente na heritabilidade fácil e garantida de um conjunto de traços de interesse apícola, à cautela vou fazendo assim sempre que é possível e oportuno… não vá estar enganado!
Nota: acerca da variação do número de espermatozoides utilizados para a fecundação dos óvulos ver mais aqui: https://digitalcollections.sit.edu/cgi/viewcontent.cgi?referer=https://www.google.com/&httpsredir=1&article=1916&context=isp_collection