selecção darwiniana em Portugal: o filtro, as sobreviventes e o preço

O meu contacto com aquilo a que hoje chamamos frequentemente apicultura darwiniana começou bastante antes de eu escrever sobre o assunto neste blogue. Em 2013–2014 comecei a ler o trabalho de John Kefuss, em particular a sua abordagem de selecção de colónias capazes de sobreviver à varroa sem tratamento. Em 2016 fui mais longe: desloquei-me ao apiário de Kefuss, nas proximidades de Toulouse, para conhecer directamente o seu trabalho e comprei-lhe algumas rainhas virgens, que trouxe para Portugal acompanhadas do devido certificado veterinário.

A experiência, como já contei posteriormente, não correspondeu às expectativas. Poderá a promessa inicial ter sido excessiva? Poderá a hibridação das descendentes com zângãos locais ter diluído os efeitos genéticos que procurávamos introduzir? Esta segunda hipótese continua a parecer-me bastante plausível. E a experiência ajudou-me também a perceber cedo que há uma distância considerável entre encontrar algumas colónias sobreviventes e conseguir transferir e fixar os caracteres responsáveis por essa sobrevivência numa população aberta.

Emergência de uma rainha (foto minha)

Comecei a escrever neste blogue especificamente sobre selecção de abelhas resistentes à varroa em 2018. Nessa altura procurei explicar o VSH, o comportamento de remoção de criação infestada e a necessidade de distinguir um mecanismo promissor de resistência de uma alegação comercial demasiado apressada [1,2]. Pouco depois, ao acompanhar as experiências de Randy Oliver, sublinhei uma ideia que continua a parecer-me essencial: uma rainha ou uma colónia que aparenta controlar a varroa merece ser estudada e reproduzida; daí até afirmar que se possui uma linha resistente vai uma distância enorme [3].

Em 2021 voltei ao tema por vários caminhos. Discuti as dificuldades de fixar, medir e transferir traços de resistência numa população real, onde os acasalamentos abertos podem diluir rapidamente o trabalho feito por um criador [4]. Relembrei também a tentativa de 2016 com as rainhas provenientes do trabalho de Kefuss [5] e escrevi sobre formas de medir comportamentos como a reoperculação e a remoção de criação infestada, precisamente porque falar de resistência sem medir os mecanismos que a podem explicar pouco nos adianta [6].

Acasalamento livre

Em 2023 escrevi especificamente sobre a chamada apicultura darwiniana. A crítica não era à investigação séria de abelhas capazes de limitar a varroa, nem à selecção dirigida de colónias que sobreviveram. Era à transformação de uma ideia evolutiva numa fórmula demasiado simples: retirar os tratamentos, deixar morrer a maioria das colónias e chamar ao resultado uma vitória da natureza [7]. John Kefuss e o lema BOND — live and let die — fazem parte da história moderna da procura de abelhas sobreviventes. Mas uma coisa é utilizar uma pressão sanitária extrema como instrumento experimental de selecção; outra, bastante diferente, é convertê-la numa receita geral de maneio ou numa prova automática de resistência.

Também o ensaio de Coimbra, que acompanhei com Nuno Capela, deve ser lido nesta perspectiva. Foi inspirado naquela linha de trabalho que eu vinha acompanhando havia já mais de uma década. Das 40 colónias que ficaram sem tratamento, quatro estavam vivas no fim do ano e duas foram encontradas vivas na observação seguinte [8]. Era, e é, um começo que merece ser acompanhado: duas candidatas a estudar e a multiplicar. Não era a demonstração de duas linhagens resistentes consolidadas. A própria palavra «intermédios», no título dessa publicação, dizia precisamente isso.

É com este percurso em mente que li a dissertação de Larissa Fonseca da Cunha, apresentada em 2026 no Instituto Politécnico de Bragança: Avaliação de Colónias de Apis mellifera iberiensis Sujeitas à Seleção Darwiniana [9]. O trabalho merece atenção porque traz dados portugueses, acompanha as colónias ao longo do tempo e apresenta números suficientemente duros para nos obrigarem a abandonar algumas das simplificações que facilmente se constroem em torno da chamada selecção darwiniana.

Foto não relacionada com o estudo.

O primeiro número é este: 23 rainhas fundadoras originaram 92 desdobramentos em 2024. No inverno seguinte sobreviveram 21. Em 2025, o segundo ciclo acompanhou 53 colónias; em fevereiro de 2026 restavam três. Dito de forma simples, o filtro foi de 92 para 21 no primeiro ano e de 53 para 3 no segundo.

É difícil olhar para estes números e dizer que a selecção não funcionou. Funcionou no sentido mais estrito da palavra: aplicou uma pressão enorme e deixou sobreviventes. Mas também é impossível olhar para os mesmos números e afirmar que já existe uma população resistente estável. Três sobreviventes são três candidatas, não uma população resistente.Para chegarmos a essa conclusão seria necessário multiplicar essas colónias, acompanhar as suas descendentes durante vários anos, medir a evolução da infestação pela varroa e demonstrar que os caracteres responsáveis pela sobrevivência se mantêm depois dos acasalamentos, sem sacrificar pelo caminho outras características igualmente importantes, como a viabilidade, a mansidão, a produtividade e a diversidade genética.

Esta prudência não é um preciosismo. É o centro da questão. A selecção para resistência à varroa não é como escolher uma rainha apenas pela cor, pela produção de mel ou pela mansidão. Podemos encontrar colónias excepcionalmente boas; o problema seguinte é conseguir fixar e generalizar os traços que explicam esse comportamento numa população de abelhas que acasala em grande medida ao ar livre, num território onde rainhas e zângãos de diferentes origens contribuem continuamente para a população [4]. É por isso que escrevi no passado que a resistência terá verdadeiro impacto quando deixar de ser uma raridade presente em pequenos projectos e passar a estar representada, em escala, nas populações que efectivamente se reproduzem [4].

As sobreviventes e a linha materna

A tese encontrou também um resultado genético que merece ser seguido. Entre as 23 famílias fundadoras, 85% pertenciam à linhagem mitocondrial A; as restantes pertenciam às linhagens M e C. As três sobreviventes do segundo ciclo eram da linhagem A. Além disso, a sobrevivência diferiu entre famílias: as descendências das rainhas 1 e 12 sobreviveram mais tempo, enquanto as das rainhas 2 e 11 colapsaram mais cedo [9].

É um sinal a que devemos prestar atenção. Mas não é uma licença para proclamar que a linhagem A é resistente à varroa. Primeiro, porque 85% da população inicial já pertencia à linhagem A; num grupo final de apenas três colónias, a presença exclusiva desta origem deve ser interpretada com muita prudência. Segundo, porque o ADN mitocondrial nos informa sobretudo sobre a ascendência materna. Não identifica os genes nucleares nem os mecanismos concretos — VSH, reoperculação, remoção de criação infestada, grooming, redução da reprodução da varroa ou menor atractividade da criação — que possam estar a limitar o parasita.

A conclusão sensata é mais modesta e, precisamente por isso, mais útil: há famílias maternas que justificam um acompanhamento especial, sobretudo as associadas às rainhas 1 e 12. É necessário testar as descendentes, medir a infestação e perceber se existe realmente um traço herdável por detrás da maior sobrevivência. A genética é uma hipótese forte; a prova ainda não existe.

Agressividade não é resistência

Numa população ibérica, esta questão assume uma importância particular. A dissertação avaliou também a defensividade das colónias e não encontrou uma relação significativa entre o índice de agressividade e a queda natural de varroa, nem entre agressividade e risco instantâneo (hazard) de mortalidade [9]. As colónias maiores tenderam a apresentar respostas defensivas mais fortes, algo que pode explicar-se simplesmente por terem mais abelhas disponíveis para responder a uma perturbação. Mas defensividade não é VSH, não é reoperculação e não é resistência à varroa.

É uma distinção que convém manter. Uma colónia agressiva pode estar muito infestada e sucumbir; uma colónia dócil pode revelar mecanismos efectivos de limitação da reprodução da varroa. Confundir estes planos é uma das formas mais fáceis de transformar impressões recolhidas no apiário em certezas para as quais ainda não temos dados.

A colónia forte e o risco escondido

A dissertação trouxe ainda um resultado aparentemente paradoxal mas já nosso conhecido: em julho, as colónias com mais quadros de abelhas adultas apresentaram maior risco instantâneo (hazard) de mortalidade posterior quando se analisou em conjunto a força da colónia e a queda natural de varroa. Mas convém perceber exactamente o que foi medido antes de retirarmos conclusões.

A força foi avaliada através do número de quadros cobertos por abelhas adultas; não foi medida a área de criação. Uma colónia forte pode ter mais criação e, por isso, proporcionar mais oportunidades de reprodução à varroa. É uma explicação biologicamente plausível, mas não foi directamente demonstrada neste ensaio. Aliás, a força da colónia, considerada isoladamente, não explicou significativamente a queda natural de varroa. Mais abelhas adultas não significaram, por si só, mais ácaros caídos diariamente [9].

Também a leitura de um número divulgado no resumo exige alguma cautela. O aumento combinado de 32,8% do risco instantâneo (hazard) de mortalidade em julho resulta de acrescentar simultaneamente um quadro de abelhas e uma varroa/dia na queda natural. Não significa um aumento de 32,8% por cada quadro de abelhas. No modelo, o efeito estimado foi de cerca de 28,7% por quadro adicional e de 3,2% por varroa/dia adicional; combinados, estes dois efeitos produzem aproximadamente o valor referido [9].

Esta precisão não retira importância ao resultado. Pelo contrário, ajuda-nos a interpretá-lo correctamente e obriga-nos a olhar com atenção para colónias muito fortes em pleno verão. Uma colónia forte pode ser uma excelente produtora de abelhas e de mel e, se a varroa não estiver contida, pode proporcionar também excelentes condições para a multiplicação do ácaro. O aspecto exterior de vigor não substitui a monitorização.

O custo do filtro

A selecção darwiniana tem custos enormes e esses custos não são uma nota de rodapé. São o próprio mecanismo do filtro. Das 53 colónias acompanhadas no segundo ciclo, 50 colapsaram; a mortalidade final aproximou-se dos 94%. Muitas não desapareceram de um dia para o outro. Entraram no outono ainda vivas, mas foram perdendo capacidade para produzir abelhas saudáveis e para manter a organização fisiológica necessária à passagem do inverno. A telemetria registou, em algumas colónias, perdas precoces de peso e amplitudes térmicas internas até 15 ºC, sinais compatíveis com perda de capacidade de termorregulação, embora esses indicadores não devam ser transformados num teste preditivo que o estudo não validou [9].

Há depois um custo populacional. Quando o filtro é desta dimensão, pode restar muito pouco material reprodutivo. Se a selecção se concentrar repetidamente num número muito reduzido de famílias, aparece o risco de estreitamento da base genética. Sobreviver à varroa é obviamente desejável, mas uma população de abelhas precisa de conservar diversidade suficiente para responder a muitos outros desafios e manter características importantes para a sua própria viabilidade e para a apicultura.

E existe ainda um custo sanitário que não podemos ignorar. Colónias que colapsam com cargas elevadas de varroa podem tornar-se fontes de dispersão de ácaros e dos vírus que lhes estão associados para outras colónias. A selecção não ocorre num vácuo. Ocorre numa paisagem com outros apiários, acasalamentos abertos, deriva, pilhagem e circulação de zângãos e rainhas. Aquilo que fazemos numa colónia experimental pode, portanto, não ficar confinado a essa colónia.

Nada disto obriga a abandonar a procura de abelhas resistentes. Muito pelo contrário. Obriga-nos a tratar essa procura como aquilo que é: um trabalho de selecção demorado, exigente, baseado em medição, critérios claros e confirmação ao longo de gerações. Não uma promessa rápida, não uma desculpa para deixar de monitorizar e muito menos uma autorização para transformar a morte da maioria das colónias numa narrativa de sucesso.

A tese de Bragança vale precisamente por nos colocar perante essa realidade. Mostra que há candidatas locais que justificam ser estudadas. Mostra que a origem familiar poderá ter importância. Mostra que agressividade não é resistência e que força aparente não garante sobrevivência. E mostra, através de números que dificilmente podemos contornar, que entre deixar algumas colónias sem tratamento e obter uma população de abelhas efectivamente resistente existe um caminho muito longo, altamente selectivo e com um preço elevado.

O filtro encontrou sobreviventes. Agora começa a parte realmente difícil: demonstrar por que sobreviveram e se aquilo que lhes permitiu sobreviver pode ser transmitido às gerações seguintes.

Referências

[1] Gomes, J. E. (2018). VSH (Varroa Sensitive Hygiene): abelhas resistentes e seus comportamentosAbelhas à Beira.

[2] Gomes, J. E. (2018). VSH (Varroa Sensitive Hygiene): abelhas resistentes e seus comportamentos (2)Abelhas à Beira.

[3] Gomes, J. E. (2018). Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver?Abelhas à Beira.

[4] Gomes, J. E. (2021). A minha resistência à resistência: o foco no focoAbelhas à Beira.

[5] Gomes, J. E. (2021). SAM: uma ferramenta para melhorar abelhas num futuro próximoAbelhas à Beira.

[6] Gomes, J. E. (2021). Abelhas resistentes: medindo a re-operculação e remoção de criaçãoAbelhas à Beira.

[7] Gomes, J. E. (2023). Apicultura darwiniana: análise críticaAbelhas à Beira.

[8] Gomes, J. E. (2025). Abelhas resistentes em Coimbra: resultados intermédios de uma experiênciaAbelhas à Beira.

[9] Cunha, L. F. da (2026). Avaliação de Colónias de Apis mellifera iberiensis Sujeitas à Seleção Darwiniana. Dissertação de mestrado, Instituto Politécnico de Bragança.

um novo mecanismo de resistência à varroa: larvas menos atrativas

Durante muitos anos pensou-se que a resistência natural à Varroa destructor dependia sobretudo do comportamento das abelhas adultas. Um estudo publicado em 2026 na revista Scientific Reports acrescenta agora uma nova peça ao puzzle: algumas larvas parecem ser simplesmente menos atrativas para a varroa.

Os investigadores acompanharam durante quatro anos 236 colónias na Califórnia, comparando uma população híbrida adaptada localmente com linhas comerciais. Os resultados foram claros:

  • cerca de 68% menos varroas nas colónias híbridas;
  • muito menos colónias ultrapassaram o limiar de tratamento;
  • consequentemente, necessitaram de menos aplicações de acaricidas. 

Mas a descoberta mais interessante surgiu no laboratório.

Quando as varroas puderam escolher entre larvas de diferentes origens genéticas, preferiram sistematicamente as larvas das linhas comerciais. As larvas híbridas eram significativamente menos escolhidas, sobretudo aos sete dias de idade, precisamente a fase em que normalmente ocorre a invasão das células antes da operculação. 

O que significa isto?

A varroa apenas se reproduz dentro de células operculadas. Se encontrar menos facilidade em localizar ou reconhecer as larvas mais adequadas, a sua taxa de reprodução poderá diminuir logo na primeira etapa do ciclo.

Os autores sugerem que esta menor atratividade poderá resultar de diferenças em:

  • compostos voláteis emitidos pelas larvas;
  • perfil de hidrocarbonetos cuticulares;
  • sinais químicos utilizados pela varroa para identificar o momento ideal para entrar na célula;
  • eventualmente diferenças fisiológicas ou imunitárias das próprias larvas. 

Ainda não se sabe qual destes mecanismos é o responsável, mas todos apontam para uma característica intrínseca da cria, e não do comportamento das abelhas adultas.

Este mecanismo junta-se aos já conhecidos

Hoje sabemos que a resistência natural à varroa não depende de um único fator, mas da combinação de vários mecanismos:

  1. Comportamento higiénico sensível à varroa (VSH) – remoção da cria infestada antes da emergência.
  2. Grooming – as abelhas removem ou danificam ácaros presentes no seu corpo.
  3. Redução da reprodução da varroa (SMR) – muitas fêmeas produzem menos descendentes ou tornam-se inférteis.
  4. Menor duração do período pós-operculação – reduz o tempo disponível para a reprodução da varroa.
  5. Enxameação frequente – cria interrupções naturais da criação e quebra o ciclo reprodutivo do ácaro.
  6. Maior tolerância aos vírus associados à varroa, permitindo que a colónia sobreviva mesmo com alguma infestação.
  7. Novo mecanismo agora identificado: larvas menos atrativas para a entrada da varroa, reduzindo potencialmente o número de células invadidas logo no início do ciclo reprodutivo. 

Porque é importante?

Este estudo muda parcialmente a forma como encaramos a resistência.

Até agora imaginávamos que a varroa entrava nas células normalmente e depois encontrava dificuldades em reproduzir-se ou era removida pelas abelhas.

Agora surge a possibilidade de existir uma etapa anterior: algumas larvas podem ser menos “visíveis” ou menos apelativas para a varroa, reduzindo a invasão desde o primeiro momento.

Se este mecanismo for confirmado noutros estudos e identificado geneticamente, poderá tornar-se um novo critério de seleção em programas de melhoramento, complementando características como o VSH e o grooming.


Na minha opinião, este é um dos trabalhos mais interessantes dos últimos anos sobre resistência natural. Não porque prove definitivamente um novo mecanismo — os próprios autores reconhecem que falta identificar a base química ou molecular — mas porque abre uma linha de investigação completamente nova: a resistência poderá começar na própria cria, antes sequer de a varroa entrar no alvéolo/célula.

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-026-45759-9

termorregulação: questionário Better-B

Bom dia,

Divulgo em baixo link para questionário relacionado com a termorregulação das colmeias. Convido todos os meus leitores apicultores a darem o seu contributo, respondendo ao mesmo. Muito obrigado!

Este questionário, desenvolvido dentro do projecto BETTER-B (https://www.better-b.eu/) visa estudar que alterações é que os apicultores já fizeram às suas colmeias para aumentar a termorregulação da colónia. O objectivo é recolher informações de estratégias usadas para ajudar as colmeias a resistir às variações de temperatura extremas, para depois publicar um manual com essas informações. 

Fica aqui o link para o questionário: https://www.better-b.eu/news/?post_id=45&title=better-b-survey-on-beehive-modifications

O site do BETTER-B está em Inglês mas para preencher o questionário terá a oportunidade de escolher a versão em Português.

ácido fórmico e Tropilaelaps: eficácia real, limitações e implicações práticas

A chegada de Tropilaelaps mercedesae à Europa não é um cenário teórico — é uma realidade confirmada e recente, com estabelecimento já documentado no Cáucaso. Estamos perante um parasita com potencial destrutivo superior ao da própria Varroa destructor, sobretudo devido à sua velocidade de reprodução e à sua forte ligação à cria. 

Ao contrário da Varroa, o Tropilaelaps passa muito pouco tempo nas abelhas adultas. Vive praticamente “fechado” dentro da cria operculada, entrando nas células pouco antes da operculação e reiniciando rapidamente o ciclo reprodutivo. Este detalhe biológico muda completamente o jogo: tratamentos que actuam sobretudo na fase forética tornam-se pouco eficazes. 

É precisamente aqui que o ácido fórmico ganha relevância. Entre os acaricidas disponíveis, é praticamente o único com capacidade comprovada de penetrar os opérculos e atingir ácaros dentro da cria. Esta característica, muitas vezes citada mas raramente compreendida na sua real importância, torna-o uma ferramenta crítica no contexto do Tropilaelaps

O estudo agora publicado vem trazer dados robustos em condições próximas das europeias — colónias fortes, caixas tipo Dadant e clima temperado-húmido. Isto é particularmente relevante porque grande parte da literatura anterior vinha de contextos tropicais pouco comparáveis com a apicultura europeia. 

Os resultados são claros e difíceis de ignorar: o ácido fórmico (quer em formulações tipo Formic Pro®, quer em sistemas gelificados como Muraviinka®) provoca mortalidade quase total de Tropilaelaps em poucos dias. Em alguns casos, essa mortalidade atinge 100% em apenas 2,5 dias. 

Mais importante ainda: essa eficácia ocorre dentro da cria, independentemente da idade da larva/pupa da abelha. Ou seja, ao contrário do que acontece com a Varroa, não existem “refúgios fisiológicos” significativos para o Tropilaelaps dentro das diferentes fases da cria. 

Este ponto é absolutamente crítico do ponto de vista operacional: significa que o ácido fórmico consegue atingir o coração do problema — algo que muitos protocolos contra Varroa nunca conseguem fazer de forma consistente.

No entanto, há aqui um erro clássico que convém desmontar: assumir que um tratamento eficaz contra Tropilaelaps será automaticamente eficaz contra Varroa. O estudo mostra exactamente o contrário.

A eficácia contra Varroa destructor foi altamente variável e dependente da estação. No verão (condições quentes e húmidas), o ácido fórmico praticamente não teve impacto significativo. Já no outono, com temperaturas mais baixas e menor humidade, a eficácia aumentou claramente. 

Isto confirma algo que muitos apicultores ignoram ou subestimam: não é apenas a temperatura que condiciona o fórmico — a humidade tem um papel crítico na evaporação e distribuição dentro da colmeia

Outro ponto relevante é a influência da idade da cria na sobrevivência da Varroa. Ao contrário do Tropilaelaps, a Varroa sobrevive mais facilmente em cria jovem, onde a penetração do ácido pode ser menor. Isto cria verdadeiros “refúgios biológicos” que comprometem a eficácia global do tratamento. 

Ou seja, o mesmo tratamento tem dois comportamentos completamente diferentes consoante a espécie alvo — um detalhe que deve mudar a forma como pensamos o controlo integrado.

Do ponto de vista da colónia, o ácido fórmico mostrou um perfil relativamente seguro em exposições curtas. No entanto, foram observadas perdas de abelhas adultas e algumas rainhas, sobretudo em colónias já fragilizadas por Varroa. 

Isto reforça uma ideia que raramente é dita de forma frontal: o ácido fórmico não é um tratamento “benigno”. Tem uma margem de segurança estreita e o seu impacto depende fortemente do estado fisiológico da colónia.

Mas talvez o resultado mais importante — e mais negligenciado — seja o da reinfestação.

Mesmo após reduções quase totais de Tropilaelaps, as colónias voltaram a níveis elevados de infestação em apenas 20 dias. 

Isto não é um detalhe — é uma mudança de paradigma. Significa que estamos perante um parasita capaz de recuperar populações extremamente rapidamente, quer por reprodução interna quer por reinvasão a partir de colónias vizinhas.

Na prática, isto destrói a ideia de “tratamento único resolutivo”.

Com Tropilaelaps, o controlo tem de ser necessariamente:

  • repetido
  • integrado
  • sincronizado ao nível do apiário

E não apenas aplicado de forma isolada colónia a colónia.

Finalmente, o estudo deixa uma conclusão estratégica clara: o ácido fórmico é actualmente a melhor ferramenta química disponível contra Tropilaelaps, mas está longe de ser uma solução completa quando coexistem duas espécies de ácaros com biologias tão distintas. 

Para levar para casa

Se há uma mensagem que este trabalho deixa — e que muitos ainda não querem ouvir — é esta:

  • O modelo mental construído à volta da Varroa não serve para o Tropilaelaps.
  • E mais grave ainda: pode levar a decisões completamente erradas.

O ácido fórmico deixa de ser apenas “mais uma ferramenta” e passa a ser, neste contexto, uma peça central. Mas, ao mesmo tempo, revela os seus limites quando confrontado com sistemas biológicos complexos e variáveis ambientais reais.

Com o objectivo de conseguir chegar a mais apicultores, com um serviço e produto pedagógico cada vez mais diferenciado e de elevada qualidade, prevejo no próximo mês de maio/junho disponibilizar sessões pré-gravadas sobre a aplicação do fórmico, com instruções e gravações vídeo, sempre com o necessário suporte científico e clareza de linguagem.

choque-shake: o açúcar também mata as abelhas na monitorização da taxa de infestação

Este estudo (2025) demonstra que, apesar da suposição generalizada de que o método do açúcar em pó (powdered sugar shake) utilizado na monitorização da taxa de infestação de abelhas adultas é inofensivo, resulta numa mortalidade significativa de abelhas operárias nos primeiros cinco dias após o procedimento. Assim, a ideia de que as abelhas devolvidas à colmeia após este método não sofrem danos é falsa.

“Verificámos que as abelhas operárias submetidas ao powdered sugar shake apresentaram uma probabilidade significativamente menor de serem recapturadas na colmeia cinco dias depois do procedimento, quando comparadas com abelhas apenas polvilhadas com açúcar em pó (sem sacudir) e com o grupo controlo, que foi apenas marcado e libertado.

A combinação do açúcar em pó com a ação de sacudir vigorosamente as abelhas durante um minuto parece ser o fator responsável pelos efeitos negativos observados. Para além de possíveis danos físicos, sabe-se que a agitação pode provocar alterações cognitivas nas abelhas. Assim, os apicultores devem estar conscientes de que muitas das abelhas submetidas a este procedimento podem não sobreviver nos dias seguintes.

Os nossos resultados mostram que o powdered sugar shake e a lavagem em álcool apresentam resultados semelhantes quando os níveis de infestação por varroa estão acima de 3%, o limiar de intervenção mais utilizado. No entanto, a eficácia do método do açúcar em pó é altamente variável, situando-se aproximadamente entre 63% e 95%, sendo fortemente influenciada por fatores ambientais como a humidade e a presença de néctar, que provocam o empastamento do açúcar.

Esta variabilidade constitui uma limitação séria, pois pode levar os apicultores a subestimar níveis elevados de infestação e, consequentemente, a não intervir quando necessário, aumentando o risco de perdas de colónias. Em síntese, a suposição de que as abelhas sobrevivem sem consequências ao powdered sugar shake é incorreta, e este método revela-se menos fiável para estimar a infestação por varroa. Assim, recomendamos que a lavagem em álcool seja adotada como método predominante de monitorização.


Ao longo das diversas edições do curso Controlo efetivo da varroose ao longo do ano, perdi um ou outro formando por aconselhar a monitorização da varroa através do método do álcool em lugar do açúcar em pó.

A minha posição baseia-se na observação de campo e no conhecimento científico disponível: a monitorização com açúcar trata-se de um método pouco fidedigno — sendo a fidedignidade a consistência e estabilidade dos resultados de um instrumento de medição — e que provoca a morte de uma parte significativa das abelhas nos dias subsequentes ao procedimento.

Independentemente das consequências nunca darei prioridade, nos meus cursos, à necessidade de agradar em detrimento da exigência de ser verdadeiro, rigoroso e tecnicamente correto.

Em breve anunciarei as datas para nova edição do curso Controlo efetivo da varroose ao longo do ano, edição com inevitáveis actualizações, induzidas por um conhecimento e experiência de campo que não estão parados no tempo.

as abelhas domésticas transferem vírus para os abelhões?

Há vários anos que os apicultores mais informados e atentos se preocupam com os efeitos colaterais da proximidade entre as colónias de abelhas melíferas (Apis mellifera) e as populações de abelhões selvagens (Bombus spp.). A possibilidade da disseminação viral entre estas espécies tem alimentado muitos debates. Alguns estudos sugerem que os vírus típicos das abelhas, como o VAD (vírus das asas deformada), o VPA (vírus da paralisia aguda), poderiam não só infectar os abelhões, como também sobreviver de forma autónoma nesta espécie. A possibilidade dos vírus, habitualmente presentes nas abelhas domésticas, se espalharem a novas espécies levanta não só questões de conservação, mas também responsabilidades sanitárias para os apicultores.

Bombus terrestris, o abelhão mais conhecido e estimado na Lusitânia.

Um estudo de grande escala realizado entre 2021 e 2023 no Minnesota (EUA), recentemente publicado na Communications Biology (2025), atenua estas preocupações. Os investigadores compararam os viromas (conjunto de todos os vírus presentes num determinado ecossistema, organismo ou ambiente) de 389 abelhas e 117 abelhões Bombus impatiens que viviam no mesmo ambiente. A sua conclusão é clara: apesar das exposições frequentes, não há evidência de transmissão viral sustentada ou adaptações dos vírus nos abelhões.

Bombus impatiens

Para que um vírus se estabeleça de forma sustentável numa nova espécie, têm de ser cumpridas várias condições: capacidade de replicação, transmissão eficiente entre indivíduos da mesma espécie e compatibilidade com as barreiras imunológicas do novo hospedeiro. O estudo realça que, embora o VAD e VPA possam replicar-se em alguma abelhões em condições experimentais, não há evidências de uma cadeia de transmissão natural na ausência de abelhas.

Mesmo em colónias de abelhões colocadas perto de apiários, a proporção de vírus com origem nas abelhas não aumentou. No entanto, quando as abelhões foram afastadas das abelhas, o seu viroma rapidamente voltou à sua composição original. Isto confirma o cenário de “transferência sem saída”: o vírus infecta um hospedeiro acidental (neste caso os abelhões), mas não consegue sobreviver nele.

(fonte: McKeown, D. A. et al. (2025). Distinct virome compositions and lack of viral diversification indicate that viral spillover is a dead-end between the western honey bee and the common eastern bumblebee. Communications Biology, 8, 926)

Sem dramas e sem holofotes a ciência, gradualmente, vai colocando as peças no seu devido lugar. A resposta que dá à questão do título é um… não.

A propósito do VAD e VPA, que matam 200-300 mil colónias de abelhas/ano só em Portugal, venha conhecer um protocolo inovador de tratamento que com 5-10 cêntimos por colónia lhe permite manter estes vírus e o seu veículo, a Varroa destructor, debaixo de controlo. Para mais informações entre em contacto para o e-mail jejgomes@gmail.com

como as abelhas polinizam os mirtilos

Uma abelha (Apis mellifera) forrageia flores de mirtilo. Enquanto a abelha forrageia uma flor num cacho, a perna traseira da abelha está em contato com o estigma de uma flor diferente no cacho, ilustrando um comportamento que permite que as abelhas sirvam com sucesso como polinizadoras de plantações de mirtilos (Crédito da foto: George Hoffman, Ph.D.)

“As plantas de mirtilo dependem de insetos para sua polinização. Os EUA produzem mais de 700 milhões de libras [1libra equivale a 0,45kg] de mirtilos por ano, então a polinização do mirtilo é importante tanto económica quanto ecologicamente. Como as flores do mirtilo têm formato de sino, com seu interior recuado num tubo de pétalas, a libertação efetiva do pólen das flores depende do comportamento dos insetos e dos músculos das asas que vibram rapidamente, conhecido de polinização por zumbido. As abelhas (Apis mellifera) não realizam polinização por zumbido e, portanto, são consideradas ineficientes como polinizadoras de mirtilo. Apesar disso, todas as grandes fazendas de mirtilo de cinco ou mais acres alugam colmeias de abelhas, e as abelhas auxiliam com sucesso na polinização das plantações.

Para determinar os mecanismos pelos quais as abelhas conseguem polinizar o mirtilo com sucesso, George Hoffman, Ph.D., da Oregon State University e colegas estudaram como o pólen é coletado pelas abelhas nas flores de mirtilo e como o pólen é transferido de volta para as flores de mirtilo para conseguir a polinização. Suas descobertas foram publicadas num novo relatório em novembro na Environmental Entomology.

A polinização de flores por insetos depende de uma interação complexa entre a anatomia dos insetos e a anatomia das flores. Cada perna de um inseto é dividida em um fémur no topo, uma tíbia no meio e uma estrutura chamada tarso (plural: tarsi) na extremidade inferior. E uma flor típica é dividida num cone de pétalas que formam uma corola, estruturas chamadas anteras que retêm o pólen e um estigma central que aceita o pólen e o transfere por um tubo até ao ovário para fertilização.

No seu estudo, Hoffman e colegas coletaram abelhas de 11 fazendas de mirtilo do Oregon e quantificaram a quantidade de pólen encontrada em quatro partes principais do corpo: cabeça, tórax e abdómen, pernas superiores e tarsos. Eles também fizeram 327 observações de abelhas forrageando em cachos de flores de mirtilo, observando quantas vezes cada abelha sondou a corola de uma flor, agarrou um estigma com a ponta de um tarso (uma garra tarsal), roçou um estigma com um tarso ou perna, ou sondou fundo o suficiente em uma flor com um tarso para tocar uma antera de uma flor.

Ao quantificar as cargas de pólen, os pesquisadores encontraram a maior quantidade de pólen nos tarsos da abelha, com menos na cabeça e nas pernas, e a menor quantidade no tórax e abdômen. Nas suas observações comportamentais, eles descobriram que a transferência de pólen era realizada por meio dos seguintes mecanismos, classificados em ordem do maior para o menor:

  • cabeça entrando na corola
  • agarrando o estigma da flor adjacente com a ponta do tarso (garra tarsal)
  • perna se esticando pela abertura da corola e entrando em contato com o estigma da flor
  • perna entrando na abertura da corola e entrando em contato com o estigma.

Portanto, muita transferência de pólen acontecia quando partes do corpo que continham pólen tocavam os estigmas das flores durante comportamentos de não forrageamento, como limpeza e caminhada por grupos de flores. Curiosamente, os últimos três comportamentos listados acima geralmente aconteciam quando uma abelha estabilizava seu corpo agarrando o estigma com uma perna, e frequentemente resultavam em tocar o estigma de uma flor adjacente à flor da qual o néctar estava sendo coletado.

Os resultados do estudo de Hoffman têm importantes aplicações práticas para o cultivo de mirtilo highbush. “Já há evidências do Projeto Integrated Crop Pollinations e outros estudos”, diz Hoffman, “de que, à medida que o número de colmeias de abelhas por acre em grandes fazendas comerciais de mirtilo aumenta, também aumenta o número de visitas de abelhas às flores. Há um declínio correspondente na perda de rendimento devido à polinização inadequada. Nossas descobertas sugerem um mecanismo de como isso ocorre mesmo quando pouco pólen de mirtilo é devolvido às colmeias.”

Em relação às futuras etapas de pesquisa que seu grupo está buscando, Hoffman diz: “Nosso estudo documentou que 66% das vezes que uma abelha pousa num cacho de mirtilo, uma perna ou tarso (geralmente coberto com pólen) entra em contato com o estigma de uma ou mais flores naquele cacho. Precisamos determinar quanto pólen é transferido para os estigmas dessas flores. Estamos no meio desta investigação, e os resultados do primeiro ano estão nos levando a delinear melhor o comportamento das abelhas ao visitar os cachos de mirtilo.”

Hoffman e colegas descobriram que, embora o acesso que as abelhas têm às flores de mirtilo seja limitado pelo formato de sino das corolas, ao ampliar o quadro de referência para observar toda a gama de comportamentos das abelhas, fica claro como a polinização adequada pode ser alcançada. Esta é uma descoberta poderosa para nossa compreensão da dinâmica de polinização do mirtilo e também para entender o processo de criação de testes científicos eficazes.”

(fonte: https://entomologytoday.org/2018/12/07/no-buzz-no-problem-study-shows-how-honey-bees-pollinate-blueberries/)

Para levar para casa: argumentem com conhecimento e credibilidade junto dos pomaristas e conquistem o direito a ser pagos pelo justo valor pelo serviços de polinização que prestam com as vossas abelhas.

Eduardo Gomes, consultor e formador apícola, por uma apicultura informada, inovadora e rentável (contacto: jejgomes@gmail.com)

mel: uma alternativa natural e dietética para o tratamento de doenças cardiovasculares

Publicado em 2020, o artigo Cardioprotective Effects of Honey and Its Constituent: An Evidence-Based Review of Laboratory Studies and Clinical Trials (Efeitos cardioprotetores do mel e seus constituintes: uma revisão baseada em evidências de estudos laboratoriais e ensaios clínicos) apresenta uma revisão da literatura na área. Os artigos de revisão são importantes porque apresentam uma visão holística do conhecimento científico mais relevante produzido num determinado período — últimos 60 anos neste estudo — e o relativo consenso alcançado pela comunidade científica numa determinada área de estudo — no presente caso os efeitos cardioprotetores do mel e seus constituintes.

Foto da minha cresta de 2021.

Resumo:
A doença cardiovascular é um grande problema de saúde pública em todo o mundo. O enfarte do miocárdio é a forma mais comum de doença cardiovascular resultante do baixo suprimento de sangue ao coração. Pode levar a outras complicações, como arritmia cardíaca, acúmulo de metabolitos tóxicos e áreas de enfarte permanente. O mel é um dos remédios medicinais mais apreciados desde a antiguidade. Há evidências que indicam que o mel pode funcionar como um agente cardioprotetor em doenças cardiovasculares. A presente revisão compila e discute as evidências disponíveis sobre o efeito do mel nas doenças cardiovasculares. Três bancos de dados eletrónicos, PubMed, Scopus e MEDLINE via EBSCOhost, foram pesquisados. O período estudado vai de janeiro de 1959 a março de 2020 e visou identificar relatórios sobre o efeito cardioprotetor do mel. Com base nos critérios de elegibilidade pré-estabelecidos, 25 artigos qualificados foram selecionados e discutidos nesta revisão. O mel investigado nos estudos incluiu variedades de acordo com sua origem geográfica. O mel protege o coração através da melhoria do metabolismo lipídico, actividade antioxidante, modulação da pressão arterial, restauração dos batimentos cardíacos, redução da área de enfarte do miocárdio, propriedades antienvelhecimento e atenuação da apoptose celular. Esta revisão estabelece o mel como um potencial candidato a ser mais explorado como uma alternativa natural e dietética para o tratamento de doenças cardiovasculares.

fonte: https://www.mdpi.com/1660-4601/17/10/3613

Foto da minha cresta de 2021.

Nota: em Portugal o consumo per capita anual de mel situa-se entre os 700-800 grs. Os nutricionistas recomendam o consumo equivalente a uma colher de sopa diariamente. Enquanto apicultores cabe-nos também passar a mensagem que o consumo de mel deve ser frequente, ao longo do ano, não apenas na época das gripes, porque os seus benefícios são muito mais alargados do que apenas desinfectarem as vias aéreas superiores. Passem a referir que também faz bem ao coração, porque não estão a exagerar nem um bocadinho!

nosemose: os efeitos de Honey-B-Healthy®, Nozevit Plus e HiveAlive®

Entre outros alegados efeitos positivos dos três suplementos alimentares identificados no título é referido que podem ser utilizados como alternativa à Fumagilina-B no tratamento da Nosema apis e Nosema ceranae. Surpreendentemente, ou nem por isso (ver aqui), no estudo referenciado nesta publicação não se verificaram os efeitos positivos esperados na diminuição dos microsporídeos da nosema (apis e ceranae) com a utilização do Honey-B-Healthy®, Nozevit Plus e HiveAlive®.

Título: Evaluating the Efficacy of Common Treatments Used for Vairimorpha (Nosema) spp. Control (2023)

Sumário:
Vairimorpha (anteriormente Nosema) apis e V. ceranae são patógenos microesporidianos que são motivo de preocupação para colónias de abelhas domésticas. Múltiplos tratamentos têm sido propostos como eficazes na redução da prevalência e intensidade de Vairimorpha spp. infecções. Aqui, testamos a eficácia desses produtos numa experiência de laboratório e três experiências de campo. Na experiência de laboratório, não encontramos reduções na prevalência de Vairimorpha spp. (proporção de indivíduos infectados com Vairimorpha spp.) ou intensidade (número de esporos de Vairimorpha spp. por indivíduo), mas encontramos uma diminuição na sobrevivência das abelhas após o tratamento com Fumagilin-B, Honey-B-Healthy® e Nozevit Plus. A primeira experiência de campo mostrou aumento da intensidade de Vairimorpha spp. em colónias tratadas com Fumagilin-B e HiveAlive® em comparação com um controle negativo (somente xarope de sacarose). A segunda experiência de campo mostrou uma fraca redução de intensidade de Vairimorpha spp. 3 semanas após o tratamento com Fumagilin-B em comparação com Nozevit. No entanto, a intensidade de Vairimorpha spp. voltou a níveis comparáveis ​​aos de outros grupos de tratamento 5 semanas após o tratamento e permaneceu semelhante aos de outros grupos durante a experiência. O teste de campo final não mostrou efeitos positivos ou negativos do tratamento com Fumagilin-B ou Nosevit na prevalência e intensidade da Vairimorpha spp. Estes dados levantam questões sobre a eficácia dos produtos atualmente usados ​​pelos apicultores para controlar Vairimorpha spp.

Discussão dos resultados: “Embora a fumagilina e outros tratamentos destinados a reduzir Vairimorpha spp. se tenham mostrado eficazes em certas circunstâncias, existem muitos fatores que podem afetar a capacidade de resposta das colónias aos tratamentos. Com base nos dados aqui descritos, não é possível recomendar um tratamento específico em detrimento de outro para o controle da Vairimorpha spp.; em vez disso, recomendamos melhorar a saúde da colónia e reduzir a pressão de pragas para garantir que as colónias não sejam afetadas por vários stressores. […] Além disso, pesquisas futuras podem explorar mais como alguns produtos funcionam de forma preventiva, em vez de como um de tratamento, como o uso de própolis como tratamento preventivo para Vairimorpha spp.. Outros tratamentos preventivos que levem em conta a sazonalidade da Vairimorpha spp. também podem revelar-se eficazes. Essas informações seriam valiosas para pesquisadores e apicultores.”

fonte: https://www.mdpi.com/2076-3417/13/3/1303

Notas: 1) Algumas espécies de microsporídios do género Nosema (o caso apis e ceranae) foram recentemente incluídas no género Vairimorpha com base em estudos recentes baseados na filogenética molecular.

2) Os dados recolhidos das experiências em laboratório e das experiências em campo não confirmaram o efeito curativo para a Nosema dos produtos comercializados identificados no título. Verificaram a sazonalidade da doença, com pico à entrada da primavera, e o decréscimo natural dos microesporídeos daí em diante, associado ao consumo de pólen natural pelas abelhas. Por essa razão não recomendam nenhum tratamento específico, recomendam antes reduzir a pressão das pragas, a varroa e os vírus sobretudo acrescento eu.

3) Uma esperança no horizonte para a prevenção das infecções por Nosema é o própolis. Como sabemos a nossa abelha ibérica é uma abelha propolizadora o que lhe pode dar alguma vantagem em relação a raças menos propolizadoras. Ao contrário as abelhas melíferas presentes no sub-continente norte-americano, onde se realizou o estudo, foram seleccionadas ao longo dos dois últimos séculos para propolizarem muito pouco. De há uns anos para cá a comunidade científica desses países (EUA e Canadá) e os apicultores mais informados estão a re-direcionar a selecção para abelhas mais propolizadoras e construção de colmeias com paredes interiores mais rugosas como forma de estimulação da propolização.

a exposição a agroquímicos na cera laminada causa efeitos insignificantes no crescimento e na sobrevivência no inverno de colónias de abelhas melíferas (Apis mellifera)

As investigações levadas a cabo em abelhas são realizadas em diversos tipos de ambientes. Dos menos naturais aos mais naturais temos, respectivamente: in silico; em laboratório; quasi-campo; em campo. Por vezes os investigadores utilizam uma abordagem híbrida, por ex. com investigação em laboratório e no campo. Deixo em baixo a tradução do sumário de um estudo publicado em 2019, onde a avaliação do impacto de resíduos de químicos de actividades agrícolas e acaricidas nas lâminas de cera foi feita em colónias reais no campo, comprovando uma vez mais que os resultados de campo não replicam resultados laboratoriais.

O uso generalizado de agroquímicos nos EUA levou à contaminação quase universal de cera de abelha em colmeias de abelhas. Os agroquímicos mais comumente encontrados na cera incluem acaricidas aplicados por apicultores contendo tau-fluvalinato, cumafos ou amitraz, e pesticidas aplicados em campo contendo clorotalonil ou clorpirifos. A cera contaminada com esses pesticidas afeta negativamente a qualidade reprodutiva de rainhas e zângãos. No entanto, os efeitos sinérgicos desses pesticidas no crescimento e sobrevivência de colónias jovens permanecem pouco estudados. Estabelecemos novas colónias usando lâminas de cera livre de pesticidas ou contaminadas com concentrações relevantes de campo de amitraz isolado, uma combinação de tau-fluvalinato e cumafos ou uma combinação de clorotalonil e clorpirifos. O crescimento da colónia foi avaliado pela estimativa da produção de favo e criação, armazenamento de alimentos e população de abelhas adultas durante a primeira temporada de uma colónia. Também medimos a sobrevivência de hibernação da colónia. Não encontrámos diferenças significativas no crescimento ou sobrevivência das colónias entre colónias estabelecidas em lâminas de cera livre de pesticidas versus contaminadas com pesticidas. No entanto, as colónias que tinham níveis de Varroa destructor acima de 3% no outono eram mais propensas a morrer durante o inverno do que aquelas com níveis abaixo desse limite, indicando que a alta infestação de Varroa no outono desempenhou um papel mais importante do que a exposição inicial a pesticidas nas lâminas de cera na sobrevivência no inverno de colónias recém-estabelecidas.

fonte: https://www.mdpi.com/2075-4450/10/1/19

Na Austrália, até recentemente livre da varroa, não me recordo de alguma vez ter lido notícias acerca do Colony Colapse Disorder (CCD) que afectou a Europa e os EUA, ainda que por lá os agricultores também utilizem pesticidas. Como explicar ainda que na mesma zona, apicultores vizinhos, uns tenham mortalidade invernal de +50% das colónias e outros inferior a 5%. Se é verdade que nem toda a mortalidade de colónias de abelhas se deve à varroa, também é verdade que os resíduos químicos presentes nas ceras são pequenos responsáveis pelo definhamento de colónias no grande quadro das coisas.