visita técnica nas proximidades de S. João da Madeira — quando a varroa já deixou pouco tempo para recuperar

Ontem, dia 16 de setembro, fiz a minha primeira visita técnica a um apiário nas proximidades de S. João da Madeira. O motivo principal que levou o apicultor a contactar-me foi muito concreto: apesar de estar a utilizar tratamentos caseiros à base de amitraz, não estava a conseguir controlar a varroose e pediu-me ajuda para aprender a preparar e aplicar o Protocolo Inovador (PI).

A observação das colónias confirmou rapidamente a gravidade da situação. Se, por um lado, a pressão de Vespa velutinaestava relativamente bem controlada através da utilização de Cavalos de Tróia por via cuticular, por outro, a varroose estava, em várias colónias, numa situação que só posso descrever como muito preocupante. Algumas das colónias estavam já profundamente enfraquecidas, com populações de abelhas muito abaixo daquilo que seria desejável nesta altura do ano.

Uma parte importante da visita foi, por isso, muito prática. Mostrei ao apicultor como preparar e utilizar corretamente o PI, desde a preparação dos materiais até à sua aplicação nas colónias. Nesta fase, mais do que discutir tratamentos em abstrato, interessava-me que saísse do apiário sabendo exatamente aquilo que deveria fazer nos dias seguintes.

Ainda há colónias onde vale a pena investir o nosso empenho

Entre as colónias observadas havia diferenças importantes. Algumas mantinham uma população equivalente a aproximadamente um quadro e meio de abelhas ou mais. Apesar de serem colónias já bastante fragilizadas, estou relativamente confiante na possibilidade de se aguentarem, sobretudo pela rapidez de atuação do PI. Nesta altura, cada dia conta: é preciso reduzir rapidamente a pressão da varroa e dar às abelhas que ainda restam condições para manter a colónia em funcionamento.

Quadro de colónia muito parasitada, mas onde acredito que o PI venha a ser muito útil para a sua recuperação (foto do autor)

Noutras, contudo, a situação era muito mais difícil. Encontrei colónias com menos de meio quadro de abelhas. Nesses casos, o meu prognóstico é bastante mais reservado. Mesmo que consigamos reduzir rapidamente a população de varroas, já não estamos apenas perante um problema de controlar o parasita; estamos perante colónias que ficaram com uma população tão pequena que a sua própria capacidade de recuperação pode estar seriamente comprometida.

Esta diferença é importante. Um tratamento pode matar varroas rapidamente, mas não consegue devolver à colónia, de um dia para o outro, as abelhas que entretanto perdeu.

Velutina controlada, mas ainda com margem para aperfeiçoar

O apicultor já estava a utilizar Cavalos de Tróia cuticulares contra a Vespa velutina e, pelo que pude observar, estava a conseguir manter a pressão das vespas razoavelmente controlada. Aproveitámos, ainda assim, para rever alguns aspetos da técnica e deixei-lhe várias recomendações destinadas a melhorar a preparação e utilização dos Cavalos de Tróia.

Disse-me, contudo, que a captura e preparação das vespas para aplicação cuticular lhe consumia bastante tempo. Por essa razão, vou enviar-lhe também informação fundamentada sobre a produção de Cavalos de Tróia por ingestão, para que possa conhecer uma alternativa potencialmente menos exigente em mão de obra e decidir, com informação suficiente, qual das abordagens melhor se adapta ao seu apiário.

Marcar uma rainha também se aprende fazendo

Houve ainda tempo para um maneio mais simples, mas que considero igualmente importante numa visita deste género. Encontrámos uma rainha e aproveitámos para fazer a sua marcação, mostrando ao apicultor os diferentes passos do procedimento e os cuidados a ter.

Etapa do processo de marcação de uma rainha (foto do autor)

São pequenos gestos técnicos, mas a melhor maneira de os aprender continua a ser vê-los fazer e depois repeti-los.

Flora de outono, mas pouco pão de abelha recente

Na envolvente do apiário observavam-se algumas florações outonais, nomeadamente de Calluna vulgaris — magoriça— e de tágueda (Dittrichia viscosa). Havia, portanto, recursos florais disponíveis na paisagem.

Calluna vulgaris — magoriça — em floração nas proximidades do apiário (foto do autor).

Tágueda (Dittrichia viscosa) em floração na envolvente do apiário (foto do autor)

Apesar disso, encontrei pouco pão de abelha recentemente armazenado nas colónias.

A minha leitura, no contexto concreto deste apiário, é que isso poderá estar relacionado com dois fatores que estavam bem presentes: por um lado, a fraqueza populacional de vários enxames, que naturalmente limita o número de abelhas disponíveis para o forrageio; por outro, a pressão de Vespa velutina, que, mesmo quando não paralisa completamente a atividade das colónias, pode condicionar as saídas e reduzir a intensidade do forrageio.

Há flores no campo. Isso não significa necessariamente que todas as colónias tenham população e liberdade de voo suficientes para as aproveitar.

Agora, reduzir rapidamente a pressão da varroa

Saí deste apiário com sensações diferentes conforme as colónias observadas. Nas que ainda mantêm cerca de um quadro e meio de abelhas, há uma janela de oportunidade que me parece ainda aproveitável. O PI começa a atuar rapidamente e, nesta fase, essa rapidez pode fazer uma diferença importante.

Nas colónias reduzidas a menos de meio quadro de abelhas, o caminho será muito mais difícil. A varroa pode ser controlada; resta saber se ainda existe população suficiente para reconstruir aquilo que entretanto se perdeu.

Foi precisamente para distinguir estas duas situações que a visita me pareceu particularmente útil. Tratar é necessário. Mas há um momento em que já não basta matar varroas: é preciso que ainda exista colónia suficiente para responder ao tratamento.

Esta visita junta-se a outras que tenho vindo a relatar neste blogue, em diferentes regiões do país e fora da minha zona habitual de trabalho em Coimbra: de Oliveira do Hospital, a Cardigos, passando por Torre de Moncorvo, Marco de Canaveses, Pombal e, muito recentemente, por um pequeno apiário junto ao rio Sabor. São territórios, apicultores e problemas diferentes, mas o propósito destas visitas é sempre muito semelhante: observar as colónias no seu contexto real, identificar os problemas concretos de cada apiário e deixar ao apicultor conhecimento e procedimentos que possa depois aplicar autonomamente. abelhas à beira

Mais uma vez, fui recebido com grande simpatia e disponibilidade. É algo que tenho encontrado habitualmente nestas deslocações e que não quero deixar de agradecer. Para além do trabalho técnico realizado dentro das colmeias, fica também esse lado humano das visitas, que tantas vezes torna o dia tão interessante como aquilo que encontramos quando levantamos a tampa de uma colmeia.

Publicações relacionadas — Abelhas à Beira

Por Oliveira do Hospital: visita técnica a apiário (2024). Ler

Visita técnica a apiário: sobre a autonomia, a estética e abelhas surpreendentes (2025). Ler

No terreno, ao lado dos apicultores, com resultados para apresentar (2025). Ler

Visita técnica junto ao Sabor: duas colónias, dois percursos e aquilo que a varroa não mostra (2026). Ler

Autor: Eduardo Gomes

Apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.