No início de julho, logo depois da cresta, um apicultor que frequentou as sessões de formação que ministrei on-line sobre o Controlo efectivo da varroose, iniciou o controlo da varroa nas suas colónias. Realizou nas semanas seguintes dois tratamentos caseiros à base de amitraz. Poderia ter considerado o assunto resolvido e seguido em frente. Felizmente não o fez, e como recomendei no curso, no início de agosto pegou em amostras de aproximadamente 300 abelhas adultas e fez aquilo que considero indispensável depois de qualquer intervenção cuja eficácia não conhecemos: mediu o que tinha ficado.
O resultado não deixou grande margem para tranquilidade. Em algumas das lavagens contou mais de 15 Varroas em cerca de 300 abelhas, apesar dos dois tratamentos com amitraz já realizados. O tratamento tinha sido feito; o controlo da varroa, claramente, não. Esta distinção é importante. Colocar um produto numa colmeia é uma ação; conseguir que a população de Varroa destructor desça para os valores que pretendemos é um resultado. Só a monitorização nos permite saber se esse resultado foi alcançado.
Não retiro deste episódio a conclusão de que o amitraz deixou de funcionar naquele apiário. Tratava-se de tratamentos caseiros e uma falha desta natureza pode ter várias explicações, desde a dose e a forma de aplicação até à quantidade de criação existente ou à própria sensibilidade da população de Varroa ao amitraz. O que sabemos objetivamente é mais simples: depois de dois tratamentos, a infestação continuava demasiado elevada.
Perante estes valores, este apicultor decidiu contactar-me e perguntou-me concretamente se poderia utilizar o Formic Pro, um dos vários medicamentos referidos por mim no curso. A sua principal preocupação, naquele momento, eram as temperaturas. Estávamos no início de agosto e as previsões apontavam para máximas bastante elevadas. Perante aquelas condições aconselhei-o a proceder de forma mais conservadora, aplicando apenas uma placa/tira de Formic Pro de cada vez, e não as duas simultaneamente previstas na bula. Foi assim que procedeu, seguindo esta orientação para as condições existentes naquele momento.

O ácido fórmico tem uma característica que o distingue de muitos outros acaricidas utilizados contra a varroa: consegue atuar também sobre uma parte dos ácaros presentes no interior da criação operculada. Esta vantagem é especialmente relevante quando existe quantidade apreciável de criação, mas não significa que o produto seja insensível às condições de aplicação. Pelo contrário, a temperatura, a ventilação, a força da colónia e a velocidade de libertação do ácido influenciam simultaneamente a eficácia e a tolerância das abelhas ao tratamento.
Terminadas as duas rondas, indiquei-lhe que avaliasse o resultado 12 a 15 dias depois, através de lavagens de aproximadamente 300 abelhas. Foi exatamente o que fez.
Já na segunda metade de setembro voltou a contactar-me com os resultados. Tinha avaliado várias colmeias e nenhuma das amostras ultrapassara duas Varroas. Duas Varroas em 300 abelhas correspondem aproximadamente a 0,7% de infestação. Comparando estes números com a situação encontrada no início de agosto, quando uma das lavagens revelara mais de 15 ácaros, o quadro era agora muito diferente.
Perguntei-lhe se tinha observado efeitos negativos sobre as rainhas, a que me respondeu que não, apenas deu conta de substituição de rainha numa colónia das muitas dezenas que tratou.
Não transformaria estes números numa estimativa experimental da eficácia do Formic Pro. Não estamos perante um ensaio desenhado para esse fim, nem todas as medições antes e depois correspondem necessariamente às mesmas colónias. Mas, para aquilo que interessa ao apicultor no terreno, a informação obtida era suficientemente útil: depois da intervenção, as amostragens mostravam níveis de infestação substancialmente mais baixos.
Nesta mesma conversa perguntou-me então se, perante amostras que não ultrapassavam duas Varroas em 300 abelhas, seria necessário voltar a tratar até ao final do ano. Respondi-lhe que, antes de lhe dar uma indicação, queria olhar para aquele valor através dos “olhos” do simulador de Varroa de Randy Oliver, fazendo uma projeção da evolução provável da população de ácaros até ao final de dezembro.
Referi-me que neste território não existe uma verdadeira interrupção da postura em novembro e dezembro, por efeito de recursos de néctar e pólen disponíveis durante uma parte importante do outono. E enquanto existe criação existe também oportunidade para a reprodução da Varroa.
Introduzi então os valores no simulador, procurando aproximar a dinâmica da criação daquilo que este apicultor me descreveu. A projeção foi bastante esclarecedora. Partindo de um nível atualmente baixo, se não fosse realizada uma nova redução da população de Varroa, o modelo projetava um crescimento muito acentuado durante o outono, chegando ao final de dezembro a uma população estimada em cerca de 2.500 Varroas por colónia. Um valor desta ordem de grandeza muda completamente a leitura das duas Varroas encontradas agora numa lavagem.

Foi por isso que lhe respondi que, neste caso, considerava aconselhável prever um novo tratamento, preferencialmente até ao final da primeira quinzena de novembro, data até à qual a infestação não deverá superar, estimadamente, os 2%. A partir daí, mantendo-se criação e não havendo nova redução da população de ácaros, a progressão torna-se bastante mais acentuada.
Utilizo muito frequentemente o simulador de Randy Oliver, mesmo que não o considere uma máquina capaz de prever exatamente quantas Varroas teremos numa colmeia numa determinada data. Também não foi concebido para isso. É um modelo que integra aquilo que sabemos ou estimamos acerca da população de abelhas, quantidade de criação, crescimento da população de Varroa, imigração de ácaros e eficácia dos tratamentos e que permite visualizar trajetórias plausíveis. Para mim é sobretudo uma ferramenta de apoio à decisão.
Neste caso tornou visível algo que uma leitura estática das duas Varroas poderia esconder. O valor de hoje é baixo; a trajetória das semanas seguintes pode não ser. Uma colónia que mantém criação durante novembro e dezembro oferece sucessivos ciclos reprodutivos à Varroa. Assim, o mesmo nível de infestação medido em setembro pode ter consequências muito diferentes numa colónia que entra rapidamente numa pausa de postura ou noutra que continua a criar durante praticamente todo o outono.
Este caso acaba, portanto, por reunir várias ideias que tenho repetido muitas vezes neste blogue.
A primeira é que um tratamento não deve ser avaliado pelo produto que colocámos na colmeia, mas pelo número de Varroas que ficaram depois dele. Neste caso, depois da cresta do início de julho tinham sido realizados dois tratamentos caseiros com amitraz e, no início de agosto, uma lavagem continuava a revelar mais de 15 Varroas. Se este apicultor não tivesse monitorizado, poderia facilmente ter seguido pelo verão convencido de que o problema estava resolvido.
A segunda é que uma infestação baixa não significa necessariamente que podemos deixar de pensar na varroa durante vários meses. Duas Varroas hoje são poucas; a descendência dessas Varroas, somada aos ácaros que entretanto possam entrar na colónia, pode produzir uma realidade muito diferente algumas semanas depois. Neste caso, o simulador ajuda a tornar essa diferença particularmente visível: de um valor inferior a 1% em setembro para uma população potencial de cerca de 2.500 ácaros no final do ano, se a progressão não for interrompida.
E a terceira talvez seja aquela que melhor resume a maneira como atualmente procuro gerir a varroose: monitorizamos, intervimos quando necessário, voltamos a medir e utilizamos aquilo que sabemos sobre a dinâmica da colónia e da Varroa para antecipar o passo seguinte. Mais importante do que a fidelidade a determinado princípio ativo é saber onde estamos, verificar onde ficámos depois do tratamento e decidir com antecedência onde queremos estar quando se criam as abelhas que terão de atravessar o inverno.
Neste apiário o resultado conseguido até agora é bom. Mas é precisamente porque a infestação foi reduzida para valores baixos que faz sentido tentar conservá-la baixa, em vez de esperar que volte a atingir níveis que nos obriguem novamente a correr atrás da Varroa.
Referências — literatura científica e técnica
1. Direção-Geral de Alimentação e Veterinária — DGAMV (2025). Formicpro 68,2 g tiras para colmeia de abelhas melíferas — Resumo das características do medicamento, rotulagem e folheto informativo. Última revisão do texto: dezembro de 2025.
2. Bertola, M. & Mutinelli, F. (2025). Sensitivity and Resistance of Parasitic Mites (Varroa destructor, Tropilaelaps spp. and Acarapis woodi) Against Amitraz and Amitraz-Based Product Treatment: A Systematic Review. Insects, 16, 234.
3. Kosch, Y., Mülling, C. & Emmerich, I. U. (2025). Assessment of Resistance of Varroa destructor to Formic and Lactic Acid Treatment—A Systematic Review. Veterinary Sciences, 12, 144.
4. Oliver, R. & Harness, T. (2022). An Online Model for Varroa Management. Scientific Beekeeping.
4a. Randy Oliver (2023). Formic Pro and Queens in Hot Weather. Scientific Beekeeping.
Referências — Abelhas à Beira
5. Gomes, J. E. (2026). Qual é o melhor tratamento contra a varroa? Ler
6. Gomes, J. E. (2026). Varroa e muita criação: será a lavagem de abelhas adultas menos fiável? Ler
7. Gomes, J. E. (2026). Resistência ao amitraz: uma mutação não chega para contar toda a história. Ler
8. Gomes, J. E. (2023). Varroose: 4 tratamentos/ano serão suficientes? Ler
9. Gomes, J. E. (2026). Ácido fórmico: em que estado ficaram as varroas que não matou? Ler