manipular a distribuição etária das abelhas para controlar a enxameação e preparar uma colónia produtiva

Neste post referimos que a distribuição desequilibrada da idade das obreiras é um dos factores despoletadores da enxameação. Julga-se que o número excessivo de abelhas nutrizes e abelhas cerieiras quando comparado com o número de forrageiras disponíveis pode ser o gatilho para o fenómeno da enxameação. Num outro post descrevemos um tabuleiro/prancheta especial que se pode utilizar para fazer o desdobramento vertical de uma colónia de abelhas (ver aqui) assim como os procedimentos para a sua utilização.

Neste post vamos analisar como a utilização deste tipo de tabuleiro (ou o seu sucedâneo mais sofisticado conhecido como tabuleiro de Snelgrove) permitem ao apicultor manipular a distribuição etária das abelhas de uma dada colónia, prevenindo a enxameação e, ao mesmo tempo, manter uma colónia produtiva.

A utilização deste tabuleiro simples tem assumido várias formas e objectivos, praticamente desde o surgimento da colmeia móvel, apresentada como nos diz a história da apicultura em meados da década 50 do século 19 (Langstroth patenteou a sua colmeia em 1852).

Com a utilização deste tabuleiro é possível desdobrar um enxame e simultaneamente prevenir a enxameação como já vimos. Para tal o timing desta operação deve ser escolhido com a maior atenção para que seja utilizado quando a colónia está muito desenvolvida, prestes a atingir o ponto do surgimento do impulso de enxameação, contudo antes de ter iniciado a construção de realeiras. Este procedimento serve perfeitamente a todo o apicultor que deseja aumentar o número de colmeias.

Para aquele apicultor que não deseja aumentar o número de colónias e procura primeiramente uma boa colheita de mel este tabuleiro também lhe pode ser muito útil. Este equipamento ajuda a manter uma colónia populosa estabilizada e preparada para um determinado fluxo importante de néctar. Tal é conseguido através de um conjunto de etapas que permitem num primeiro momento a separação parcial dos indivíduos de uma colónia e, mais tarde quando a febre da enxameação tiver abrandado, a sua posterior recombinação de modo a conseguir uma colónia poderosa, equilibrada e com um grande número de obreiras, garantia necessária para uma boa produção.

A teoria que nos permite compreender as razões deste tabuleiro funcionar defende que a enxameação resulta do excesso de abelhas nutrizes numa colónia em relação ao número de larvas que precisam de ser alimentados e favos a construir. Sabemos que este tabuleiro permite isolar parcialmente um número apreciável de abelhas nutrizes na zona superior da colmeia juntamente com a rainha. No andar debaixo do tabuleiro ficará um outro grupo de abelhas nutrizes juntamente com a maior parte das abelhas forrageiras. Como as abelhas da caixa inferior estão orfãs não enxamearão. Na caixa superior, todos os inputs que as abelhas recebem lhes indicam que enxamearam. Senão vejamos com mais detalhe: a sua população é largamente constituída por abelhas nutrizes com poucas forrageiras; o seu número é menor; estão numa casa com cheiro a novo, e têm a sua rainha. Com esta manipulação o apicultor simulou com grande aproximação os inputs que as abelhas recebem quando enxameiam. Se lhes parece que enxamearam vão acreditar que de facto enxamearam e, sendo assim, não enxamearão, pelo menos tão cedo.

Mais tarde, quando o apicultor entender oportuno, quando já se aproxima do fim a época da enxameação reprodutiva pode voltar a unir a colónia, bastando para isso remover o tabuleiro.

Nota: não esquecer que na zona inferior orfanizada, muito provavelmente, irão ser construídas realeiras que deverão ser aproveitadas ou destruídas de acordo com as necessidades de cada um.

desaparecimento das abelhas: uma resposta possível

Marla Spivak, no vídeo linkado em baixo, apresenta-nos a seguinte resposta para enfrentar a questão do desaparecimento das abelhas:

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“O aspecto básico presente no problemático desaparecimento das abelhas está no facto de refletir uma paisagem onde as flores estão a desaparecer, assim como um sistema alimentar disfuncional. Precisamos de uma grande diversidade de flores ao longo de todas as estações de crescimento das colónias de abelhas, da primavera ao outono. Precisamos de bermas de estradas semeadas com flores para as nossas abelhas, e também para as borboletas, pássaros e outros animais selvagens. Precisamos de pensar novamente em voltar a fazer culturas de protecção e pousio que nutram os nosso solos assim como as nossas abelhas. Precisamos de diversificar as culturas nas nossas fazendas/quintas. É preciso plantar/semear plantas nos limites destes terrenos e que interrompam o deserto verde das monoculturas, assim como corrigir o sistema alimentar disfuncional que criámos.” Marla Spivak, 2013

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Fonte: https://www.ted.com/talks/marla_spivak_why_bees_are_disappearing?language=en#t-123744

um método para criar rainhas sem ter de encontrar a rainha

Este método (conhecido por método Bentley) é usada principalmente pelos apicultores que não conseguem ou não desejam ter de encontrar a rainha, especialmente numa colmeia densamente povoada ou quando a câmara de criação se encontra espalhada por duas ou mais caixas, ou ainda no caso de uma colmeia muito agressiva, ou quando as condições meteorológicas são adversas.

De preferência na época de enxameação, insira num corpo vazio (A) pelo menos cinco quadros de criação de todas as idades, sem abelhas, podendo ser de diferentes colmeias. Coloque um quadro de mel e pólen em cada lado desta câmara de criação e preencha o espaço restante com quadros de cera puxada ou laminada.

Coloque este corpo (A) debaixo de uma colónia muito forte (B) mantendo a mesma localização. Coloque entre estes dois corpos uma prancheta que impeça a passagem das abelhas entre as caixas e com um buraco com uma malha que impeça a passagem de abelhas mas que permita a mistura de odores entre as caixas. Crie uma saída nesta zona superior da colónia inserindo um pequeno bloco de madeira entre os quadros desta caixa (B) e a prancheta que a cobre de modo a que as abelhas consigam sair por lá. As abelhas forrageiras regressarão através da entrada original ao corpo (A). Pretende-se que as abelhas amas, responsáveis pela difusão da feromona mandibular da rainha, não passem para o corpo (A). Com esta manipulação visa-se diminuir a inibição para a criação de realeiras neste corpo inferior da colmeia.

Nove dias depois, o corpo inferior (A) deverá apresentar várias realeiras operculadas. Removemos o corpo (A) ou apenas as realeiras, as quais podem ser  distribuídas por outras colmeias ou núcleos, orfanizados 24h a 72h antes. É muito importante efetuar estas operações com o máximo cuidado e remover estas realeiras com uma faca bem afiada ou x-acto e colocá-los o mais cedo possível nas colmeias ou núcleos previamente orfanizados.

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Fig. 1 — 5 realeiras operculadas

Actualização (09/01/2017): este procedimento pode ser realizado utilizando um tabuleiro divisor simples a separar a caixa A da caixa B.

um método muito simples para criar rainhas: a semi-orfanização

Um pequeno número de rainhas com qualidade pode ser criado numa câmara de criação orfanizada, criada pelo apicultor no topo de uma colónia forte. No final dos procedimentos descritos mais abaixo a disposição da colónia deve respeitar esta ordem vista debaixo para cima:

  1. Câmara de criação inferior com a rainha
  2. Grelha excluidora de rainhas
  3. Meia-alça
  4. Grelha excluidora de rainhas
  5. Câmara de criação superior orfanizada.

Neste arranjo da colmeia, a câmara de criação superior é utilizada para a criação de mestreiros e as meia-alças para o armazenamento do néctar. A presença da rainha, no ninho inferior, irá manter a força da colónia no decorrer do processo.

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Fig. 1 — Grelha/grade excluidora de rainhas

Procedimentos:

  • Retiramos os quadros com criação não operculada juntamente com as abelhas amas aderentes do ninho original que colocamos num corpo de colmeia vazio. A rainha deve ser encontrada e mantida no ninho original.
  • Substituímos os quadros retirados ao ninho por quadros de cera puxada ou laminada.
  • Colocamos uma grelha excluidora de rainhas no topo deste ninho por forma a confinar a rainha.
  • Colocamos uma meia-alça com quadros puxados ou laminados em cima da grelha excluidora de rainhas.
  • Uma segunda grelha excluidora de rainhas é colocada por cima da meia-alça.
  • O segundo corpo com os quadros e abelhas resultante da etapa 1 é colocada no topo desta colmeia, com dois quadros com mel e pólen. Coloca-se a prancheta, um alimentador com alimento e o telhado da colmeia.
  • Depois de 3 – 12 horas subsequentes aos procedimentos anteriores, colocamos um quadro com ovos e larvas muito jovens retirados de uma colónia que nos agrade e inserimo-lo no meio da câmara de criação situada no corpo superior. Devemos colocar uma marca neste quadro para o reconhecermos mais tarde.

O objectivo é que as abelhas amas produzam algumas realeiras nesta condição de semi-orfanização. Passados 8 a 9 dias inspecionamos os quadros deste ninho superior. Destruímos as realeiras que encontramos nos quadros não assinalados e/ou não nos agradem.

As etapas seguintes podem ser as mais variadas dependendo dos objectivos do apicultor. Esta técnica contribui ainda para a prevenção da enxameação e renovação de ceras no ninho. Utilizo frequentemente esta técnica, a partir do momento em que as temperaturas nocturnas rondem ou ultrapassem os 10-12º C, para produzir novos enxames.

as minhas colmeias de 9 quadros no ninho

Apicultores conceituados (Charles Dadant entre outros) foram apologistas das colmeias com 9 quadros no ninho. A distância entre os centros dos quadros nestas colmeias é de 38mm. Lembro que a configuração de 10 quadros no ninho determina uma distância entre o centro dos quadros de 35mm e 32 mm no caso de ninhos com 11 quadros. Estas distâncias referem-se a colmeias padronizadas Langstroth, Dadant/Jumbo ou outras, com uma distância interior entre as extremidades laterais do ninho de 37,5 cm.

Entre as vantagens mais notáveis apresentadas pelos defensores da configuração com 9 quadros surge a diminuição do impulso para a enxameação. A maior ventilação e o menor congestionamento do ninho são as razões mais referidas para explicar o fenómeno.

Mas como na apicultura raramente se encontram unanimismos, há um outro grupo de apicultores, entre os quais se destaca Michael Bush, que entendem que esta opção pelos 9 quadros no ninho atrasa significativamente o crescimento da população de abelhas à saída do inverno e entrada da primavera. A razão que estes apicultores dão é que a distância de 38 mm entre o centro dos quadros é demasiada o que dificulta o aquecimento dos ovos e larvas.  Na sua opinião este facto tem consequências, nomeadamente as áreas de criação acabam por ser inferiores se comparadas com as das configurações de 10 quadros e/ou 11 quadros, e isto numa época do ano crítica para o crescimento da população de uma colónia.

Como sabemos em Portugal, assim como noutros países, a prevenção da enxameação é uma tarefa à qual os apicultores devem dar muita atenção com o objectivo de maximizarem a capacidade produtiva das suas colónias. Tendo eu lido acerca da inibição ou atraso do impulso da enxameação em ninhos de 9 quadros decidi fazer a experiência colocando 20 colmeias com esta configuração nos meus apiários. No final desta primavera fará 2 anos sobre o início desta experiência, que tem decorrido sem preocupações de controlar ao detalhe as condições envolventes, mas que me permitirá tirar conclusões gerais acerca da validade desta opção tendo em conta as minhas condições.

Avanço alguns dos dados que possuo até agora, e que surgem na decorrência da dinâmica que surgiu dos diálogos no blog.

À entrada do inverno de 2015/2016 tinha 18 colmeias com esta configuração do ninho nos meus apiários. De acordo com a última inspecção realizada há poucos dias, as 18 colmeias estão vivas sendo que uma delas se encontra zanganeira. O tratamento dos dados que recolhi nestas 18 colmeias foram trabalhados no sentido de obter uma visão de conjunto acerca de três aspectos:

  1. Enxameação no ano de 2015.
  2. Produção de mel no ano de 2015.
  3. Força dos enxames à saída do actual inverno (2015/2016).
  1. No final do verão das 18 colmeias existentes, 12 não enxamearam no decorrer da época de enxameação de 2015 e não mostraram sinais de o desejar fazer; 4 foram divididas para controlar a enxameação eminente; 2 enxamearam. Uma nota que me parece importante: nas 12 colmeias que não enxamearam 9 tinham uma rainha com mais de um ano; 2 substituíram a rainha e numa introduzi uma rainha para melhorar a genética.

2. Relativamente à produção de mel nas 12 colmeias que não enxamearam 7 delas tiveram uma boa produção (acima dos 20 Kg/colmeia); 4 produziram medianamente (entre 10 e 20 Kg/colmeia); não disponho de dados acerca da produção de uma colmeia. Lembro que o ano passado foi um ano de baixa produção um pouco por todo o país (temperaturas muito altas em maio e meses seguintes e uma pluviosidade inexistente).

3. Já em 2016, com base nos dados mais atuais que disponho, as colónias estão a sair vivas do inverno. Das 18 colónias avaliadas, todas estão vivas e uma está zanganeira. Das 17 que interessa detalhar: 7 colónias apresentam mais de 8 quadros de abelhas; 4 apresentam entre 5 e 7 quadros de abelhas; 6 apresentam menos de 5 quadros de abelhas.

Deixo três notas para enquadrar alguns dos aspectos observados: das 6 colónias mais fracas 4 têm rainhas com mais de dois anos; as 17 colmeias estão em zonas de escassez durante o outono-inverno (não é zona de eucaliptais ou outras florações invernais); foram alimentadas com pasta açucarada/fondant durante o inverno.

Estes dados, num primeiro olhar deixam-me relativamente optimista acerca do futuro das minhas colmeias com 9 quadros no ninho. Vou continuar a recolher dados durante esta época para fortalecer as conclusões que daí possa vir a tirar.

A terminar enfatizo que estes dados são acerca das minhas colmeias, nos meus apiários e com o meu maneio. Reforço que esta experiência pessoal está a ser realizada sem um controlo rigoroso de um conjunto de outras variáveis naturalmente envolvidas.

avaliação dos tratamentos orgânicos de primavera contra a Varroa destructor (Acari: Varroidae) em abelhas Apis mellifera (Hymenoptera: Apidae) em colónias no leste do Canadá

Deixo em baixo a transcrição/tradução de um estudo muito citado, que avalia o impacto do ácido fórmico e ácido oxálico, quando aplicados na primavera para o controle da varroa, no desenvolvimento das colónias, na produção de mel e na sobrevivência das colmeias. Acho que este estudo é muito interessante e que merece a sua divulgação no meu blog, pois se o controlo da varroa nos importa muito, de pouco nos servirá se coloca em causa o desenvolvimento das nossas colónias assim como a sua produção. Não nos interessa mesmo nada deitar o bebé fora juntamente com a água do banho. Pois parece que isso pode acontecer com algumas formulações acaricidas estudadas. Leiam, por favor, o sumário do estudo e tirem as vossas conclusões.

“O objetivo deste estudo foi medir a eficácia de dois tratamentos com ácidos orgânicos, o ácido fórmico (AF) e o ácido oxálico (AO) para o controle do Varroa destructor (Anderson e Trueman) em colónias abelhas (Apis mellifera L.) na primavera. Quarenta e oito colónias infestadas de varroa foram distribuídas aleatoriamente por seis grupos experimentais (n = 8 colónias por grupo):

  • um grupo controle (G1);
  • dois grupos testados com aplicações com diferentes dosagens de uma solução de 40g de AO/1 litro de xarope de açúcar 1:1 gotejado sobre as abelhas (G2 e G3);
  • três grupos testados com diferentes aplicações de AF: 35 ml de AF a 65% veiculado numa almofada absorvente (G4); 35 ml de AF a 65% despejada diretamente sobre o estrado das colmeias (G5) e as placas MiteAwayII ™ (G6).

A eficácia dos tratamentos (queda varroa), o desenvolvimento das colónias, a produção de mel e a sobrevivência das colmeias foram monitorados a partir de maio e até setembro.

  • Cinco rainhas de abelhas morreram durante esta pesquisa, todas verificadas nas colónias tratadas com AF (G4, G5 e G6).
  • As colónias G6 tiveram significativamente menos criação e menor desenvolvimento durante a temporada de apicultura.
  • As populações de criação no final do verão foram significativamente maiores nas colónias G2, tratadas com AO.
  • A produção de mel por colónia na primavera foi significativamente menor no G6 e maior no G1.
  • O fluxo de mel no verão foi significativamente menor no G6 e superior no G3 e G5.
  • Durante o período de tratamento, houve um aumento da queda de ácaros em todas as colónias tratadas. A queda diária de varroa no fim da estação de apicultura (Setembro) foi significativamente mais elevada no G1 (colónias não tratadas) e significativamente inferior no G6.
  • O número médio de abelhas mortas encontradas na frente de colmeias durante o tratamento foi significativamente menor no G1, G2 e G3 em relação G4, G5 e G6.

Os resultados sugerem que o controle varroa é conseguido com todas as opções de tratamento aplicadas na primavera. No entanto, todos os grupos tratados com ácido fórmico (AF) mostraram um crescimento da população mais lento no verão, resultando numa recolha de mel reduzida e enxames mais fracos no final do verão. O ácido fórmico teve um efeito tóxico imediato sobre abelhas, que resultou na morte da rainha em cinco colónias. Os tratamentos com ácido oxálico que foram testados têm impactos tóxicos menores sobre as colónias de abelhas.”

fonte: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21442305

raças de rainhas muito prolíferas: algumas reflexões

Roger Patterson tem uma reflexão muito interessante no www.dave-cushman.net acerca da prolificidade de certas raças de abelhas. Como é seu hábito, acrescento eu!

Ele começa por dar o significado de uma rainha prolífera: aquela que tem uma taxa elevada de ovodeposição/postura; não significa uma colónia vigorosa como alguns podem pensar.

Neste domínio ele distingue três raças de abelhas: as abelhas italianas (A.m. Ligustica), raça muito prolífera durante todo o ano; as carniolas (A.m. Carnica) muito prolíferas na primavera e verão; e, finalmente, a abelha negra (A.m. Mellifera) muito adaptada a invernos e verões imprevisíveis. Estas últimas são abelhas autóctones no Reino Unido e Irlanda.

Acerca das rainhas prolíferas R. Paterson faz a seguinte análise:

  • Em geral são de cor amarela (abelhas italianas)
  • Irão manter a postura durante o inverno. A varroa continuará a crescer nesta época do ano.
  • As abelhas italianas necessitam 2,5 vezes mais reservas que as menos prolíferas.
  • Em períodos de más condições climatéricas continuam a postura convertendo as reservas em criação desnecessária.
  • A fome é um problema mais frequente em colónia com rainhas proliferas.
  • Necessitam maiores áreas para a postura, ou seja colmeias de maiores dimensões ou mais caixas para o ninho.
  • A mudança anual ou bi-anual de rainhas faz sentido com estas rainhas que se esgotam mais rapidamente.

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Fig. 1 — Rainha amarela e sua corte

 

Acerca das rainhas não-prolíferas R. Paterson faz a seguinte análise:

  • Em geral são rainhas negras.
  • As rainhas negras vivem mais tempo, porque não se desgastam tão rapidamente e também por outras razões mais complexas.
  • Em geral as abelhas negras vivem mais tempo (cerca de 50% mais).
  • Em geral dão uma colheita razoável, sem ter que as alimentar tão abundantemente.
  • São abelhas mais frugais.
  • Como consomem menos podem ser mantidas mais colónias no mesmo local/apiário. O mel será armazenado nas alças meleiras, em vez de ser convertido em criação.
  • Geralmente têm reservas no ninho, portanto a fome é muito improvável quando as alças meleiras são retiradas e crestadas.
  • Colónias mais pequenas significa menos trabalho.

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Fig. 2 — Rainha negra e sua corte

Roger Patterson termina com esta reflexão ou chamada de atenção: “Como em muitas outras coisas no domínio da apicultura a prolificidade das rainhas que mantemos é uma questão de escolha pessoal. Está muito bem desde que a escolha tenha sido ponderada e não baseada em informação incompleta.”

fonte: http://www.dave-cushman.net/bee/prolificacy.html

Por cá a nossa abelha ibérica é um híbrido natural, com uma forte ancestralidade que a liga à abelha negra. Não me parece nada desajustado dizer que a nossa abelha se aproxima em grande medida das características da sua ancestral, a abelha negra e se distancia das características da abelha amarela italiana. Alguns gostam que assim seja, outros detestam.

os tratamentos devem demorar pelo menos 16 dias

Sabemos que o ácaro da varroa não é afectado pelos acaricidas durante os 12 dias em que está  protegido pelo opérculo de cera que sela o alvéolo onde se desenvolve a nova abelha por nascer. Isto significa que, para ser eficaz, qualquer tratamento deve ter um tempo de acção que se estenda, pelo menos, por um período de 12 dias. Discutimos aqui os casos representados no Diag. 1.

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Diag. 1 — 12 dias medeiam a entrada e saída da varroa e sua descendência do alvéolo , período durante o qual o ácaro da varroa está totalmente protegido pela capa de cera dos tratamentos aplicados pelo apicultor. Em baixo são descritos 6 casos ( as linhas indicam a eficácia de quatro dias de cada aplicação).

  • Caso 1: O tratamento aplica-se apenas uma vez. O tratamento só é eficaz durante 4 dias, e quando ele termina não faz efeito sobre as varroas que já estavam protegidas pelos opérculos durante o período do tratamento. Estas varroas continuam vivas.
  • Caso 2: O tratamento aplica-se duas vezes. O tratamento mantém-se activo durante 8 dias. Como no caso 1, não afeta as varroas que se encontram protegidas pelos opérculos durante o período do tratamento.
  • Caso 3: O tratamento aplica-se três vezes. O tratamento mantém-se activo durante 12 dias, e desta vez quando a varroa emerge do alvéolo com a jovem abelhas morre. Isto mostra que o tratamento deve ser efectivo pelo menos 12 dias.
  • Caso 4: Aplicamos três vezes, mas por má sorte, foi uma hora depois da varroa entrar no alvéolo. Quando ela sai, já terminou a eficácia do terceiro tratamento, e por isso a varroa não é afetada, continua viva e a multiplicar-se.
  • Caso 5: Aplicamos o tratamento quatro vezes. Agora sim, apanhamos todas as varroas. Assim, todas as varroas desta colmeia entram em contacto com o produto acaricida em algum momento do tratamento. Fica demonstrado que é melhor que um tratamento tenha uma duração mínima de eficácia de 16 dias.
  • Caso 6: Se aplicamos duas vezes seguidas, fazemos um intervalo nos tratamentos e aplicamos novamente um terceiro tratamento corre-se o risco de vermos uma eficácia abaixo do desejado. Durante o intervalo sem tratamento, a varroa teve muito tempo para deixar o alvéolo onde se encontrava e voltar a entrar noutro alvéolo. Isso mostra que o tratamento deve ser continuado, e por razão nenhuma se deve fazer intervalos antes de passados 16 dias seguidos de tratamento.

Em resumo , para que um tratamento seja eficaz , deve manter-se e eficaz durante 16 dias, pelo menos, e não deve haver nenhum intervalo durante a sua aplicação. Para uma melhor eficácia podemos estender o tempo de tratamento para 24 dias.

Isto significa uma mínimos de 4 viagens e até 6 viagens muito rigorosamente calendarizadas para produtos que devam ser renovados a cada quatro dias, como é o caso de muitas formulações caseiras, especialmente com base no ácido fórmico e no ácido oxálico.

Em conclusã0, todos nós ao escolhermos a nossa estratégia de tratamentos devemos:

  • conhecer muito bem o ciclo reprodutivo e fase forética da varroa;
  • conhecer muito bem a estabilidade, durabilidade, condições e modo de actuação do acaricida que aplicamos;
  • desenhar de forma rigorosa o nosso calendário de tratamentos à luz destas variáveis;
  • ter boas garantias que temos a disponibilidade necessária para cumprir com esse calendário.

o comportamento das abelhas (Apis mellifera ligustica) durante o duelo de rainhas

“O conflito é raro entre os membros de uma sociedade altamente cooperativa, como uma colónia de abelhas. No entanto, o conflito dentro de colónia aumenta drasticamente durante a reprodução da colónia (no processo de enxameação) quando rainhas recém-nascidas lutam entre si até que apenas uma rainha permanece no ninho. Este estudo descreve o comportamento de rainhas e obreiras durante a ocorrência natural do combate entre rainhas. Os duelos de cinco pares de rainhas foram observadas em três colónias de observação. Um duelo típico é descrito de forma qualitativa e os eventos de todos os cinco duelos são descritos quantitativamente. Vários aspectos de duelos que são de interesse particular são examinadas em detalhe, incluindo o comportamento das rainhas perto de realeiras seladas, a agressão de obreiras em relação a rainhas, os sonidos da rainha, e a relação da rainha com o comportamento das obreiras para o resultado do duelo. O resultado desta investigação serve como uma base para o teste rigoroso de hipóteses sobre o significado dos comportamentos adaptativos das rainhas e obreiras durante o combate entre rainhas. Os resultados sugerem os seguintes padrões comportamentais:

  • procura de realeiras por parte de jovens rainhas recém-nascidas para matar rainhas rivais enquanto elas estão vulneráveis;
  • as obreiras agridem estas rainhas para as impedir de destruir as realeiras;
  • as rainhas produzem sonidos para inibir a agressão das obreiras;
  • as obreiras imobilizam  algumas rainhas para torná-las alvos fáceis das rainhas rivais;
  • as rainhas ejetam conteúdos do intestino para provocar a imobilização da sua rival por parte das obreiras.”

Fonte: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1046/j.1439-0310.2001.00692.x/abstract?systemMessage=Wiley+Online+Library+will+be+unavailable+on+Saturday+27th+February+from+09%3A00-14%3A00+GMT+%2F+04%3A00-09%3A00+EST+%2F+17%3A00-22%3A00+SGT+for+essential+maintenance.++Apologies+for+the+inconvenience.

construir uma colónia de abelhas produtiva

O princípio de uma colónia produtiva é bem conhecido: só uma colónia com uma população numerosa está em condições de acumular um excedente apreciável de mel para o apicultor (Lei de Farrar).

A preparação de uma colónia produtiva inicia-se verdadeiramente na cresta do ano anterior. Se a cresta for excessiva a colónia dificilmente ultrapassará o período invernal sem ajuda de alimentação suplementar. Caso consiga, muito provavelmente, surgirá à entrada da primavera com uma pequena população, estando em causa a sua produtividade. Terá uma população aquém do necessário para produzir um excedente de mel para o apicultor e todo o néctar entrado na colónia será utilizado para suprir o seu próprio crescimento.  Sabemos que um quadro de criação consome, em média, um quadro de mel. Há colónias que não sobem à primeira meia-alça por esta simples razão: estão a crescer no ninho.

Analisemos agora alguns números e dois cenários que poderão servir de referência para o maneio do apicultor com o objectivo de preparar colmeias produtivas.

Cenário 1) Há colónias que nas 2-3 últimas semanas do inverno apresentam 4-6 quadros de criação e 8-10 quadros de abelhas no ninho. Estas colónias com um enorme  potencial de se tornarem uma colónia muito populosa, acima dos 50 000-60 000 indivíduos,  reúnem as condições para acumular um excedente de 25-35 Kg de mel para o apicultor (Lei de Farrar). Estes valores representam uma produção média que, no patamar inferior, está ao nível da média nacional e que, no patamar superior, está acima da mesma. Estimulante mas não irrealista!

Para concretizar este cenário a colónia deve ter condições para que, 20-30 dias antes do fluxo principal de néctar, apresente 6-8 quadros de criação no ninho. Nestas colmeias que saem fortes do inverno, o apicultor deve estar atento aos possíveis bloqueios do ninho que poderão impedir o seu normal crescimento e/ou suscitar a enxameação. A minha sugestão central para o maneio do ninho em colónias deste tipo passa pelo fornecimento atempado de quadros de cera puxados e/ou laminados que desbloqueiem o ninho, o abram e o expandam. Nestas colónias coloco um quadro numa das extremidades da câmara de criação (geralmente opto pelo lado mais quente da colmeia) com um intervalo de cerca de 7-10 dias, de acordo com o que vou observando. Não devemos descurar também a necessidade de ir aumentando verticalmente o espaço nestas colónias, colocando atempadamente alças ou meias-alças meleiras.

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Fig. 1 — Colónias produtivas 

Cenário 2) Há casos, contudo, de colónias que saem do inverno com uma população bastante mais reduzida. Estou a pensar no caso de colónias que chegam a 20-30 dias de uma floração importante com 3-4 quadros de abelhas. Estas colónias, com populações de 6 000 a 10 000 indivíduos, necessitam de cerca de 4 ciclos de criação para atingirem a população necessária para que se tornem produtivas. Deixadas ao seu destino, sem a nossa intervenção, são colónias que demorariam 80-90 dias a atingir a massa critica necessária para trabalhar adequadamente a floração em questão. Facilmente se conclui que, deixando tudo nas mão da natureza, a floração principal estaria terminada ou a terminar quando a colónia atingisse as condições de a trabalhar em força.

A equalização de colónias é a chave para estes casos. No dia -30 (30 dias antes da floração que nos interessa) coloco um quadro com criação operculada nestas colónias. São mais 4000-5000 jovens abelhas que nascerão durante os próximos 12 dias (lembro que um quadro Langstroth tem 7000-7200 alvéolos). No dia -20 coloco mais 2 quadros com criação (recebem mais 8000 a 10 000 abelhas). No dia -10 coloco mais 3 quadros com criação. No final presenteei esta colónia com 6 quadros com criação operculada (24 000-30 000 abelhas). Estas acções graduais dão-me boas garantias de atingir a almejada população de 50 000-60 000 abelhas (as que lhes ofereci  adicionadas às abelhas que a própria colmeia foi criando) à entrada do fluxo de néctar que me interessa. No caso estou a pensar no fluxo do néctar rosmaninho, que inicia a floração em meados de abril, nos locais onde estão situados os meus apiários.