Vespa velutina: proteger o apiário não é o mesmo que controlar a população

Desde 2011, quando ouvi falar pela primeira vez em Vespa velutina, iniciei as leituras sobre esta espécie exótica. A informação então disponível levou-me, desde logo, a olhar com preocupação para o seu potencial impacto negativo sobre a biodiversidade e, em particular, sobre as colónias de abelhas melíferas. Receios que, infelizmente, se vieram a confirmar nos anos seguintes.

De lá para cá tenho vindo a acompanhar, estudar e refletir sobre diferentes aspetos relacionados com esta espécie: o impacto sobre as colónias de abelhas, as técnicas disponíveis para proteger os apiários, a localização e neutralização dos ninhos, a ação de inimigos naturais e, numa escala mais ampla, as dificuldades em limitar a sua expansão. Desde que comecei a escrever sobre este tema no Abelhas à Beira, em 2016, publiquei mais de 90 textos relacionados com a Vespa velutina. Mais recentemente, vários destes temas foram sendo retomados e desenvolvidos à luz de nova informação científica, documental e da experiência acumulada no terreno.

À primeira vista, os assuntos parecem bastante diferentes: paralisia de voo das abelhas, água, abelharucos, harpas elétricas, Cavalos de Tróia, localização de ninhos, inimigos naturais, doenças ou capacidade reprodutiva da espécie. No entanto, quando se colocam estas peças lado a lado, começa a surgir uma linha comum. Talvez uma das principais dificuldades na discussão sobre a Vespa velutina seja precisamente misturarmos três perguntas diferentes: conseguimos proteger uma colónia de abelhas da pressão das vespas? Conseguimos neutralizar um ninho de V. velutina? E conseguimos reduzir, de forma sustentada, a população de ninhos num território? Estas perguntas remetem para diferentes dimensões, para objetivos e intervenções diferentes.

À frente da colmeia, o problema é relativamente fácil de observar. Há vespas em voo estacionário, há capturas de abelhas e, quando a pressão aumenta, há uma redução muito clara da atividade das campeiras. Mas contar abelhas capturadas não descreve completamente o impacto. Estudos experimentais mostraram que a pressão de V. velutina reduz o forrageio e que a utilização de harpas elétricas, ao diminuir essa pressão, pode produzir benefícios mensuráveis no desenvolvimento e sobrevivência das colónias [1]. Uma velutina não precisa, portanto, de capturar uma abelha para produzir um efeito sobre a colónia. A sua presença repetida diante do alvado é suficiente para alterar o comportamento das campeiras.

Foi neste contexto que coloquei também uma outra hipótese: se as abelhas reduzem fortemente as saídas durante as horas de maior pressão de V. velutina, o efeito poderá não se limitar à entrada de néctar e pólen. Também a recolha de água poderá ser afetada, precisamente em períodos quentes em que a colónia necessita dela para a termorregulação [8].

A mesma forma de pensar surgiu quando analisei a relação entre o abelharuco e a Vespa velutina. Está hoje documentado que o abelharuco captura V. velutina [2]. Isso é um facto. Outra coisa muito diferente é concluir que esta predação beneficia necessariamente o apiário. O abelharuco também exerce pressão sobre as próprias abelhas e pode contribuir para a redução do seu voo. Por isso, a pergunta que me parece mais útil para o apicultor não é quantas velutinas os abelharucos comem, mas quantos minutos ou horas de forrageio as colónias recuperam, se recuperam, como resultado dessa predação [14]. Pode haver menos velutinas à frente das colmeias sem que exista um ganho líquido de tempo de forrageio.

As harpas ajudam-nos a perceber bem esta primeira escala do problema. O seu objetivo principal é proteger o apiário, reduzindo a pressão diante dos alvados e permitindo que as abelhas recuperem parte da sua atividade normal. Mas proteger o apiário não significa necessariamente neutralizar os ninhos que estão a enviar essas vespas. É aqui que entramos numa segunda escala: o ninho de Vespa velutina.

Vespa eletrocutada em harpa (vídeo do autor)

Tenho dedicado bastante atenção aos chamados Cavalos de Tróia desde 2014. É um assunto que me tem interessado particularmente e sobre o qual fiz diversas publicações a partir de 2016 [9, 11, 13]. Conceptualmente, a diferença relativamente à captura direta é importante. Uma vespa eliminada diante de uma colmeia deixa de predar abelhas. Uma vespa que regressa ao ninho transportando um biocida pode, pelo menos em princípio, atingir outros indivíduos e contribuir para comprometer a colónia inteira.

Foi com Francis Ithurburu que me iniciei no conceito do cavalos de Tróia com o seu famoso “appât régulateur”, em 2013 ou 2014

É também por isso que a discussão sobre substâncias biocidas não deve ficar reduzida ao nome da molécula. O risco e a utilidade de uma aplicação dependem da forma como é utilizada, das concentrações utilizadas, da quantidade de biocida utilizada, dos suportes ou matrizes escolhidos para veicular o biocida, das técnicas aplicadas e também do tempo disponível e da perseverança de cada apicultor para atingir o objetivo pretendido.

Por essa razão elaborei o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina (clicar no canto superior direito na palavra «Menu» para aceder à informação sobre este manual), que procura, entre outros assuntos, responder a estas questões de enorme pertinência para uma utilização tecnicamente fundamentada dos Cavalos de Tróia, para a escolha da técnica mais adequada ao tempo que cada apicultor tem disponível e para ultrapassar muitos dos equívocos, simplificações e divergências que ainda existem em torno desta metodologia [18]. O manual resulta da conjugação da literatura científica e técnica disponível com anos de acompanhamento do problema e de experiência prática.

A receção tem sido muito positiva. O manual está a ter uma boa adesão por parte de apicultores portugueses e já chegou também aos Países Baixos, através de um apicultor neerlandês. Este interesse mostra que existe entre os apicultores uma procura real por informação mais estruturada, tecnicamente sustentada e operacional sobre uma metodologia que se encontra cada vez mais presente na discussão do controlo da Vespa velutina.

Ernesto Astiz foi, para mim, uma fonte riquíssima de conhecimento num conjunto diversificado de aspectos verdadeiramente relevantes para o apicultor prático. Aqui a apresentar e conversar sobre biocidas e cavalos de Tróia com um grupo de apicultores espanhóis.

Há, contudo, outro fator que parece tão importante como o produto e a técnica utilizados: o momento da intervenção.

O relatório das Astúrias sobre neutralização remota de ninhos através de exemplares tratados mostrou uma associação muito interessante entre a época de início das intervenções e os resultados obtidos [7]. Os melhores resultados ocorreram onde as operações começaram mais cedo. A leitura que fiz desses dados não foi a de estabelecer julho como uma data universal para iniciar Cavalos de Tróia. Isso dependerá do território, do desenvolvimento anual da espécie e do método utilizado. Mas os resultados ajudam a colocar uma questão biologicamente importante: atingir um ninho quando ainda tem algumas centenas de indivíduos não é provavelmente equivalente a tentar fazê-lo quando já contém milhares.

Há aqui um paradoxo para o apicultor. Setembro pode ser a altura em que é mais fácil capturar V. velutina, porque dezenas delas estão diante das colmeias. Mas essa abundância é precisamente o sinal de que os ninhos atingiram uma dimensão muito maior. Capturar vinte vespas em julho pode ser logisticamente mais difícil; biologicamente, porém, essas vinte vespas podem representar uma fração muito maior da força de trabalho da colónia do que vinte vespas capturadas dois meses depois.

O passo seguinte leva-nos à terceira escala: a população de ninhos existente num território.

Há mais de dez anos que procuro perceber até que ponto outras espécies e organismos poderão contribuir para travar a expansão da Vespa velutina. Há predadores, concorrentes, parasitas e agentes patogénicos [15]. O abelharuco captura adultos [2]. Vespa crabro utiliza parcialmente os mesmos recursos e existe competição. A V. velutina alberga diversos agentes patogénicos comuns a outros himenópteros [4], e foram encontradas formas replicativas de vírus associados às abelhas, incluindo DWV [5]. Até ao momento, nenhum destes fatores naturais demonstrou estar a exercer uma pressão suficiente para fazer diminuir as populações de V. velutina nas regiões europeias onde a espécie se encontra estabelecida.

O caso do bútio-vespeiro (Pernis apivorus) é particularmente esclarecedor. Num estudo recente foram identificados ninhos de V. velutina atacados por estas aves e verificou-se também uma redução significativa da abundância de vespas nas proximidades dos seus territórios de reprodução. Seria tentador parar aqui e concluir que encontramos um controlador natural eficaz. Mas os investigadores procuraram o passo seguinte: verificaram se no outono existiam menos ninhos desenvolvidos. Não encontraram uma redução significativa na densidade desses ninhos [3].

É um resultado extraordinariamente útil porque mostra, numa situação natural, precisamente a diferença entre as três escalas de que tenho vindo a falar. O predador destruiu ninhos. Reduziu localmente o número de vespas. Ainda assim, não foi possível demonstrar que tivesse reduzido a densidade final de colónias maduras no território.

Esta dificuldade começa a compreender-se melhor quando se olha para o potencial de crescimento da espécie.

Franklin e colaboradores estudaram a invasão de Andernos-les-Bains, no sudoeste de França, entre 2007 e 2014. Mesmo existindo uma política local de destruição de ninhos, o número observado aumentou de quatro em 2007 para 111 em 2014. O modelo desenvolvido pelos autores estimou um parâmetro de crescimento interanual de 9,64 em condições de baixa densidade [6]. Este número dá uma ideia da capacidade de crescimento existente quando a densidade ainda não impõe fortes limitações.

É também aqui que alguns resultados aparentemente extraordinários precisam de ser colocados em perspetiva. Na publicação anterior referi os dados do projeto realizado nas Astúrias: nos primeiros 500 metros em redor dos pontos de libertação das vespas tratadas, o número de ninhos passou de 53 para 13, uma redução de 75,5% [7, 16]. É um resultado muito importante. Mas se uma população em baixa densidade tiver capacidade para multiplicar aproximadamente por 9,64 entre gerações, deixar sobreviver 25% dos ninhos reprodutivos não significa necessariamente que haverá menos ninhos no ano seguinte. Num exercício puramente teórico baseado naquele parâmetro, seria necessário neutralizar perto de 90% dos ninhos antes da reprodução apenas para impedir o crescimento entre gerações [16].

É talvez uma das ideias mais importantes de toda esta reflexão: uma técnica, ou mesmo um conjunto de técnicas, pode funcionar e, ainda assim, não ser suficiente para fazer diminuir o número de ninhos no ano seguinte.

Uma harpa pode reduzir a pressão de V. velutina sobre uma colónia e cumprir perfeitamente a sua função. Um Cavalo de Tróia pode neutralizar um ninho e ser eficaz. Um bútio-vespeiro pode destruir ninhos. Uma campanha pode eliminar três quartos dos ninhos existentes numa determinada área. Todos estes resultados podem ser simultaneamente verdadeiros e biologicamente importantes, sem que nenhum deles, isoladamente, garanta que a população regional irá diminuir no ano seguinte.

Isto também ajuda a compreender por que razão a deteção precoce assume uma importância tão diferente da destruição de ninhos numa região já fortemente colonizada. Quando existem um ou dois ninhos numa nova frente de invasão, localizar e neutralizar cada um deles antes da produção de fundadoras pode decidir o futuro dessa invasão. Quando existem centenas ou milhares de ninhos espalhados por um território, localizar mais um continua a ter valor local — sobretudo para reduzir risco e pressão sobre apiários —, mas já não tem o mesmo significado populacional. Foi neste contexto que analisei a utilização de radiotelemetria, radar harmónico e termografia para localização de ninhos [10]. São tecnologias interessantes, algumas delas já demonstraram capacidade real para seguir vespas, mas o seu valor depende muito da escala do problema. Encontrar um de dois ninhos pode ser decisivo. Encontrar um de duzentos é outra coisa.

Chegamos assim a uma distinção que parece simples, mas que talvez devesse estar presente sempre que avaliamos uma técnica de controlo da Vespa velutina.

No apiário, interessa reduzir a pressão diante dos alvados e devolver às abelhas horas de voo, entrada de alimento e capacidade de funcionamento normal.

No ninho, interessa que a intervenção consiga comprometer a colónia inteira e, idealmente, fazê-lo antes da produção das novas fundadoras.

No território, o objetivo é eliminar uma proporção de ninhos superior à capacidade de reposição da população. À luz dos valores discutidos anteriormente, isso poderá significar neutralizar cerca de 90% ou mais dos ninhos antes da reprodução, para que no ano seguinte se formem menos colónias do que no anterior [6, 16]. É um objetivo extremamente difícil de alcançar. Basta pensar que uma parte importante dos ninhos permanece escondida, muitos só são descobertos tardiamente e outros se encontram muito disseminados por florestas, silvados, vales, copas de árvores e terrenos de difícil acesso.

Estas três escalas não competem entre si. São complementares. Um apicultor não pode esperar por uma estratégia regional de controlo enquanto as suas colónias permanecem paralisadas diante de dezenas de velutinas. Precisa de proteger o apiário. Mas também não devemos confundir essa proteção com uma redução da população da espécie no território.

Esta distinção foi-se tornando cada vez mais clara ao longo de anos de observação, leitura, experiência de campo e análise da informação disponível. Grande parte da discussão sobre a Vespa velutina continua centrada em quantas vespas se capturam, quantas se eliminam ou quantos ninhos se destroem. Essas métricas são úteis, mas são incompletas. Para avaliar verdadeiramente uma intervenção é necessário perguntar o que aconteceu depois.

As abelhas voltaram a voar?

O ninho de vespas deixou de estar funcional?

Produziu novas fundadoras?

E, sobretudo, havia menos ninhos reprodutivos no território no final da época ou menos colónias no ano seguinte?

É entre estas perguntas que talvez esteja a diferença entre aliviar o problema, controlar localmente a espécie e conseguir, um dia, fazer a sua população recuar.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Rojas-Nossa, S. V., Dasilva-Martins, D., Mato, S., Bartolomé, C., Maside, X. & Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony development. Pest Management Science, 78(12), 5142–5149. DOI: 10.1002/ps.7132.

[2] Onofre, N., Portugal e Castro, M. I., Nave, A. et al. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906. DOI: 10.3390/ani13121906.

[3] Martín-Ávila, J. Á., Díaz-Aranda, L. M., Fernández-Pereira, J. M. & Rebollo, S. (2025). The European honey buzzard (Pernis apivorus) as an ally for the control of the invasive yellow-legged hornet (Vespa velutina nigrithorax). Pest Management Science, 81(4), 2237–2247. DOI: 10.1002/ps.8622.

[4] Gabín-García, L. B., Bartolomé, C., Guerra-Tort, C., Rojas-Nossa, S. V., Llovo, J. & Maside, X. (2021). Identification of pathogens in the invasive hornet Vespa velutina and in native Hymenoptera (Apidae, Vespidae) from SW-Europe. Scientific Reports, 11, 11233. DOI: 10.1038/s41598-021-90615-7.

[5] Rodríguez-Flores, M. S., Lopes, A. R., Diéguez-Antón, A., Seijo, M. C. & Pinto, M. A. (2024). Honey bee viruses in the yellow-legged hornet Vespa velutina (Lepelieter 1836): Prevalence, loads, and detection of replicative DWV and LSV forms. Journal of Invertebrate Pathology, 207, 108215. DOI: 10.1016/j.jip.2024.108215.

[6] Franklin, D. N., Brown, M. A., Datta, S., Cuthbertson, A. G. S., Budge, G. E. & Keeling, M. J. (2017). Invasion dynamics of Asian hornet, Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae): a case study of a commune in south-west France. Applied Entomology and Zoology, 52, 221–229. DOI: 10.1007/s13355-016-0470-z.

[7] SERPA — Sociedad de Servicios del Principado de Asturias / Principado de Asturias (2023). Neutralización remota de nidos de Vespa velutina mediante ejemplares tratados con insecticida. Evaluación de las actuaciones realizadas en Asturias durante 2023. Principado de Asturias.

Referências — Abelhas à Beira

[8] Gomes, E. (2026). Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle? Abelhas à Beira. Ler.

[9] Gomes, E. (2026). Iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema. Abelhas à Beira. Ler.

[10] Gomes, E. (2026). Chips para velutinas: da ideia sedutora à realidade no terreno. Abelhas à Beira. Ler.

[11] Gomes, E. (2026). Cavalos de Troia contra a velutina: e se a vespa levasse o insecticida dentro de uma cápsula?Abelhas à Beira. Ler.

[12] Gomes, E. (2026). O mesmo fipronil, outra escala: uma contradição que merece ser discutida. Abelhas à Beira. Ler.

[13] Gomes, E. (2026). Cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença. Abelhas à Beira. Ler.

[14] Gomes, E. (2026). Abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo? Abelhas à Beira. Ler.

[15] Gomes, E. (2026). Quem trava a Vespa velutina? Predadores, concorrentes, parasitas e patógenos. Abelhas à Beira. Ler.

[16] Gomes, E. (2026). Do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler.

[17] Gomes, E. (2026). A Vespa velutina é mais perigosa? Talvez o veneno não seja a principal razão. Abelhas à Beira. Ler.

[18] Gomes, E. (2026). Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina: um manual para apicultores. Abelhas à Beira. Ler.

Autor: Eduardo Gomes

Eduardo Gomes é apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

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