aspectos do maneio à entrada do verão ou tratar de forma desigual o que é desigual

Um enxame de abelhas pode ser analisado a diversos níveis, os mais usuais são o nível do indivíduo e o nível do super-organismo. Como cada abelha per si não tem potencial de sobrevivência, uma boa parte das análises são feitas ao nível do enxame — super-organismo. O nível do enxame é também onde, como apicultor, me coloco na observação e maneio das minhas colónias.

Chega a altura este ano de tirar as grelhas de entrada das minhas colónias a 900m de altitude. Até cerca dos 25-27 ºC de temperatura máxima por norma deixo estar as grelhas. Sobre a ventilação das colónias sei muito pouco, e creio que a ignorância é geral, apesar de todos termos opiniões e preferências — é dos temas mais complexos da apicultura mobilista. Se no inverno estas grelhas são essenciais para evitar que os ratinhos do campo entrem nas minhas colmeias, até as temperaturas rondarem 13-15ºC nocturnos e os 25-27ºC diurnos (e as temperaturas mínimas mandam muito no meu maneio, num território com grandes amplitudes térmicas) tenho observado que contribuem frequentemente para ter criação até ao fundo dos quadros, por comparação com colmeias sem as grelhas, onde observava pouca criação na parte inferior dos quadros.
Sobre a ventilação superior tenho optado por esta solução na última meia-dúzia de anos. Tapo 2/3 do óculo da prancheta. O ar quente vindo debaixo sai na mesma e, ao mesmo tempo, as abelhas têm possibilidade de tapar esta pequena fresta se assim o desejarem. Elas, melhor que eu, sabem o que fazer. Tenho verificado que há colónias que propolizam totalmente o terço de abertura que fica, outras pouco propolizam, e outras deixam um pequeno buraco do tamanho de corpo de uma abelha no meio de uma massa de própolis por onde vejo sair uma ou outra abelha. Que concluir desta diversidade comportamental? Para já apenas isso, que é diversa, que não há uma e melhor solução igual para todas as colmeias, mesmo estando no mesmo apiário!
Colocação das redes de captura do própolis — o produto da colmeia mais nobre, ideia que cresceu em mim neste ano de Covid.
Verificação da quantidade de geleia de obreira disponibilizada às larvas.
Quadro com algumas reservas, à esquerda — mel e pão de abelha —, substitui um quadro seco numa jovem colónia. Numa colónia madura, já estabelecida, estaria muito provavelmente a fazer o contrário.
Com tanta abelha para nascer e tanta larva para nutrir este cuidado faz muito sentido para mim numa colónia jovem, com pouco tempo de vida para apresentar um nível confortável de reservas de mel e pão-de-abelha .
A colónia que foi sujeita à técnica Demaree, observada ontem à entrada do verão.
Mel no sobreninho da colónia submetida à técnica Demaree, muito provavelmente de Erica arborea. Falta ainda o fluxo do castanheiro e a melada da azinheira para se lhe juntar. O produto final é complexo e raro! Esta colónia que esteve à beira de enxamear, que por essa razão foi sujeita a uma abordagem diferente, prepara-se para produzir 25-30 kgs de mel.
Compacidade na postura de uma rainha de uma linha precoce (há quem lhes chame linha de enxameação). Estas, pelas suas características mais explosivas, precisam de ser drenadas de quadros com criação um pouco mais frequentemente. Este quadro foi transferido para uma colónia em produção. As linhas precoces a produzirem mel, ainda que indirectamente, pela grande quantidade de abelhas prestes a nascer que dão às colónias em modo de produção! Este quadro tem perto de 6 mil abelhas para nascer.

Tratar de forma igual o que é igual, tratar de forma diferente o que é diferente, é um principio orientador no maneio que vou fazendo por estes dias, assim como também noutras épocas do ano.

a regra não menos de 8

Nesta época do ano, e no território onde se situam os meus apiários, as principais florações nectaríferas têm um período relativamente curto. A da marcavala dura aproximadamente 2 a 3 semanas e a do castanheiro sensivelmente o mesmo. Por esta razão as colónias devem estar muito bem povoadas para aproveitarem estes fluxos intensos mas de curta duração.

Tendo já passado o período crítico da enxameação reprodutiva, deixo de seguir a regra não mais de 6, para passar a seguir a regra não menos de 8 quadros de criação no ninho. Para a alcançar utilizo cada vez mais aqueles núcleos com enxames que foram feitos na primeira ou segunda semana de maio. Servem-me de fonte para aí retirar quadros com áreas extensas de criação operculada que são de imediato colocados em colmeias dedicadas à produção de mel.

Núcleo que doou um quadro com criação operculada e recebeu um quadro com cera laminada.
Colónia em produção que recebeu o quadro com criação operculada.
De forma cada vez mais sistemática os meus apiários são formados com colónias dedicadas à produção de mel, núcleos doadores e colmeias armazém.
Formação de uma colmeia armazém. Os quadros de cera laminada irão sendo colocados gradualmente nos núcleos à velocidade a que estes forem chamados a doar quadros repletos de criação a emergir. As colónias armazém que formo nesta altura do ano receberão os quadros bloqueados ou semi-bloqueados com pólen e mel.
Nesta colónia dedicada à produção de mel o quadro da esquerda foi substituído pelo da direita.
Nos núcleos doadores — que estou a palmerizar — decidi pela primeira vez avançar já com o tratamento contra a varroose. Como não vão produzir mel, pretendo que os quadros com criação levem o menor numero possível de varroas para as colónias em produção que os vão receber.
Colónias Langstroth que estão no território há pouco mais de duas semanas. Ontem coloquei a segunda meia alça na maioria delas. Correndo normalmente o resto do fluxo da marcavala, assim como o do castanheiro, que vai iniciar-se dentro de cerca de 10 dias, conto colocar na maioria delas a terceira meia alça para a encherem.

as flores, as abelhas, o armazenamento… o tempo é agora

Rubus ulmifolius (silva).
Jasione montana.
Digitalis purpurea.
O meu enxame mais belo (a subjectividade é, por vezes, a melhor forma de objectividade)!
A postura de uma rainha oferecida por um criador amador. (by David Marques)
O armazenamento numa caixa colocada por cima de uma excluidora. Felizmente as minhas abelhas não leram o capítulo do livro de apicultura que diz que as excluidoras de rainhas são também excluidoras de néctar!
Venha a terceira que a segunda está feita… apesar de conformada à “regra não mais de 6” durante o período da enxameação reprodutiva! As minhas abelhas sorriem ao Farrar… há já vários anos.

Notas: As fotos são de ontem, 02.06.2021, tiradas em dois apiários situados a 600m de altitude.

“Agora é o único tempo que conheço”( by Fever Ray).

monitorizar o som das abelhas ou o virar da esquina no maneio

Inúmeros sectores da agro-pecuária têm passado nas últimas décadas por desenvolvimentos importantes na “forma de fazer” graças à incorporação de novas tecnologias. No caso da apicultura essa incorporação tem sido escassa e lenta, arriscando-me a afirmar que continua, no essencial, a ser feita no campo como era feita no tempo do reverendo Langstroth — no transporte de colmeias e nas salas de extracção a inovação tem sido mais rápida e notável. Contudo talvez estejamos a dobrar a esquina, e em breve tenhamos acesso a um conjunto de dispositivos que nos ajudem a ouvir, ler e interpretar o “abelhês” em tempo real e, assim, parte importante do trabalho de campo possa ser reduzido e optimizado. Em baixo deixo um excerto com a opinião de Jerry Bromenshenk, um dos maiores especialistas mundiais na monitorização e interpretação do som produzido por colónias de abelhas.

Bee Health Guru, aplicação de smartphone Android e Apple iOS desenvolvida por uma equipe de investigadores em abelhas da Universidade de Montana, que vem desenvolvendo, há quase uma década, uma forma rápida, acessível e em tempo real de monitorar as colónias de abelhas através do som que produzem. 

Eddy Woods, um engenheiro de som do Reino Unido, aparentemente com excelente audição, percebeu uma mudança de frequência nos sons produzidos pelas colónias pouco antes de enxamearem. Ele patenteou, construiu e vendeu o Apidictor em 1964. Nos anos mais recentes, houve até instruções na internet para construir uma versão para iPhone de seu dispositivo. Alguns céticos modernos não acreditam que Eddy ou sua máquina pudessem dizer quando uma colónia estava pronta para enxamear. Precisam de ver melhor o que tem acontecido na área de monitorazação de abelhas e colmeias desde 2012.
Em outubro de 2020, Frank Linton e eu patrocinámos uma 4ª Conferência Internacional de Monitorazação de Abelhas e Colmeias com 50 palestrantes de 14 condados. Todos os vídeos de apresentação são gratuitos para o público em: https://www.umt.edu/sell/programs/bee/monitoringconference_2020/default.php.

Várias empresas estão comercializando conjuntos de sensores com sensores acústicos. Replicaram as observações de Eddy Woods e forneceram uma prova definitiva de seu conceito, usando sofisticadas visualizações de ultrassom em 3-D de colónias antes, durante e depois da enxameação. Huw Evans, da Arnia, foi um dos primeiros a fazê-lo.

Algumas dessas empresas são novas empresas. Alguns são bem financiados, alguns têm financiamento governamental de vários países e alguns têm parceiros e consultores analíticos trabalhando banco de dados bem estabelecidos, como o SAS Institute e a Oracle.

SAS é um desenvolvedor multinacional de software analítico com sede em Cary, Carolina do Norte. A empresa desenvolve e comercializa um pacote de software analítico, que ajuda a monitorar, gerir, analisar e relatar dados para auxiliar na tomada de decisões. Eles fizeram duas apresentações na Conferência de Monitorização de outubro.

Oracle é a corporação multinacional de tecnologia da computação com sede em Austin, Texas. É especializada em infraestrutura em nuvem, softwares como banco de dados Oracle, Java, Linux, MySQL, hardware Exadata e bancos de dados autónomos. De acordo com comunicados à imprensa, a Oracle fez parceria com uma das empresas líderes que atualmente comercializa dispositivos e serviços sensoriais de monitorização de colónias na Europa e nos EUA.

Presumo que empresas bem estabelecidas desse porte fizeram seu trabalho de casa antes de se envolver com ou investir em detectores de sons de colónias. Como tudo isso irá progredir ainda está para se ver.

fonte: Bee-L (27-05-2021, Honey Bee Communications)

einstein, as abelhas e os pássaros ou como replicamos tecnologicamente a natureza

Várias das descobertas e inventos que nos são muito úteis no nosso dia-a-dia procedem de investigações realizadas noutras espécies animais e vegetais ou, no mínimo, foram congeminadas a partir da sua observação. Estou a pensar no radar, no sonar, nas novas soluções construtivas de edifícios com alturas antes julgadas impossíveis. Vem esta publicação a propósito de uma carta recentemente re-descoberta, escrita por Einstein em 1949 a Ghyn Davys.

Nela, o matemático e físico nascido na Alemanha discute abelhas, pássaros e se novos princípios da física poderiam vir do estudo dos sentidos dos animais.

Carta de Einstein a Ghyn Davys.

Em 1933, Einstein deixou a Alemanha para trabalhar na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Foi aqui, em abril de 1949, que conheceu o cientista Karl von Frisch numa palestra.

Karl von Frisch ganhou o Prémio Nobel de Medicina em 1973.

Von Frisch estava de visita a Princeton para apresentar a sua nova pesquisa sobre como as abelhas navegam com mais eficácia usando os padrões de polarização da luz espalhada do céu. Ele usou esta informação para ajudar a traduzir a agora famosa linguagem de dança das abelhas, pela qual recebeu o seu próprio Prémio Nobel.

Um dia depois de Einstein assistir à palestra de von Frisch, os dois pesquisadores compartilharam uma reunião privada. Embora esta reunião não tenha sido formalmente documentada, a carta recentemente descoberta de Einstein fornece algumas dicas sobre o que pode ter sido discutido.

Suspeitamos que a carta de Einstein é uma resposta a uma consulta que ele recebeu de Glyn Davys. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, Davys ingressou na Marinha Real Britânica. Ele formou-se como engenheiro e pesquisou tópicos, incluindo o uso de radar para detectar navios e aeronaves. Essa tecnologia nascente foi mantida em segredo na época.

Por completa coincidência, o sensor de bio-sonar foi descoberto em morcegos ao mesmo tempo, alertando as pessoas para a ideia de que os animais podem ter sentidos diferentes dos humanos. Embora qualquer correspondência anterior de Davys para Einstein pareça perdida, ficámos interessados ​​no que pode tê-lo levado a escrever ao famoso físico.

Então, começamos a vasculhar arquivos online de notícias publicadas na Inglaterra em 1949. Na nossa pesquisa, constatámos que as descobertas de von Frisch sobre a navegação das abelhas já eram grandes notícias em julho daquele ano, e a sua pesquisa tinha até sido divulgada pelo jornal The Guardian em Londres.

A notícia discutiu especificamente como as abelhas usam luz polarizada para navegar. Como tal, pensamos que foi isso que levou Davys a escrever para Einstein. Também é provável que a carta inicial de Davys a Einstein mencionasse especificamente abelhas e von Frisch, pois Einstein respondeu: “Estou bem familiarizado com as admiráveis ​​investigações do Sr. v. Frisch”.

Parece que as ideias de von Frisch sobre a percepção sensorial das abelhas permaneceram nos pensamentos de Einstein desde que os dois cientistas se cruzaram em Princeton seis meses antes.

Na sua carta a Davys, Einstein também sugere que, para as abelhas ampliarem nosso conhecimento da física, novos tipos de comportamento precisariam ser observados. Notavelmente, está claro por meio de seus escritos que Einstein imaginou que novas descobertas poderiam vir do estudo do comportamento dos animais.

Einstein escreveu:

É pensável que a investigação do comportamento das aves migratórias e dos pombos-correio pode, algum dia, levar à compreensão de algum processo físico que ainda não é conhecido.

Agora, mais de 70 anos desde que Einstein enviou sua carta, a pesquisa está realmente revelando os segredos de como as aves migratórias navegam enquanto voam milhares de quilómetros para chegar a um destino preciso.

fonte: https://www.inverse.com/science/long-lost-einstein-letter

o canibalismo, seus efeitos adversos e uma sugestão de maneio

Em abril deste ano foi publicado na revista científica Scientific Reports o artigo Pupal cannibalism by worker honey bees contributes to the spread of deformed wing virus, já referenciado aqui em fevereiro, antes da sua revisão. Volto nesta publicação, de forma sumária, ao seu conteúdo para apresentar uma sugestão de maneio.

Um vírus (VAD) que deixa as abelhas com asas atrofiadas e inúteis, abdómen inchado e cérebro lento antes de as matar aproveita-se de um dos hábitos dos polinizadores – a tendência de canibalizar a sua criação, descobriu um novo estudo.

O comportamento de canibalismo.

O vírus das asas deformadas (VAD) esconde-se no interior dos ácaros que parasitam as larvas e pupas das abelhas; as operárias são infectados quando se alimentam destas, concluiu recentemente uma equipe de pesquisadores.

Esta descoberta pode explicar a razão de o VAD se ter tornado muito mais catastrófico, muitas vezes levando ao colapso das colónias, em comparação com o passado. Esta pesquisa conclui que o aumento da virulência do VAD é devido, em parte, ao comportamento de canibalismo das abelhas.

fonte: https://www.livescience.com/virus-hijacks-bee-cannibalism.html

Sugestão de maneio: Uma maneira de interromper a reinfecção viral por meio da canibalização da criação é fazer um enxame nu, retirando toda a criação presente. As abelhas recuperam muito rapidamente num bom fluxo de néctar ou quando são alimentadas, tão rapidamente que, segundo alguns apicultores experimentados, elas não perdem terreno a longo prazo. Por alguma razão, percebendo que estão sem criação na nova configuração, elas vão empenhar-se quase freneticamente na construção de favos novos e criando novas abelhas a uma velocidade muito superior à que apresentavam no seu ninho estabelecido.

As abelhas, como nós, gostam de desafios, acreditam nas suas possibilidades e, a partir daí, agem tendo o céu como limite.

avanços científicos no controle de infecções por Nosema ceranae (Microsporidia) em abelhas (Apis mellifera)

Deixo em baixo a tradução de excertos de um artigo, relativamente recente, de revisão da literatura acerca dos avanços científicos no controlo de infecções pelo microsporídio Nosema ceranae.

Introdução: Como gado, as abelhas requerem tratamentos veterinários de apicultores ou agricultores quando infectadas com parasitas ou patógenos. Isolada pela primeira vez em 1949 do fungo Aspergillus fumigatus, a fumagilina tem sido usada para tratar a nosemose induzida por Nosema apis em abelhas melíferas durante décadas. No entanto, estudos recentes mostram que este antibiótico pode ser ineficaz contra infecções por Nosema ceranae. Também há evidências de que a fumagilina é bastante tóxica e causa alterações cromossómicas, carcinogenicidade em humanos e alterações na ultraestrutura das glândulas hipofaríngeas em abelhas. Consequentemente, muitos países fora das Américas (incluindo a União Europeia) baniram a fumagilina para uso agrícola (MRL; Regulamento da Comissão, UE, 2010, nº 37/2010).

Pequenas moléculas: O reaproveitamento de medicamentos para abelhas melíferas usados atualmente pode ser outra estratégia para o controle de N. ceranae. Os ácidos oxálico e fórmico, usados como acaricidas pelos apicultores para suprimir os ácaros varroa (ectoparasitas devastadores das abelhas), inativaram a N. ceranae em testes de laboratório e de campo. […]

A maioria dos tratamentos experimentais do Nosema tem como alvo os esporos no trato digestivo das abelhas, deixando esporos viáveis nas estruturas das colmeias, favos de néctar e fezes, livres para infectar ou reinfectar animais não-tratados ou tratados. Consequentemente, estudos futuros deveriam investigar mais profundamente a dosagem e a sinergia entre os tipos de tratamento que atacam os esporos nos vários estágios da vida. O emparelhamento de tratamentos tópicos geradores de vapores (por exemplo, compressas embebidas em ácido oxálico) com medicamentos orais, por exemplo, pode matar tanto os esporos reprodutores quanto os livres no ambiente da colmeia, ao mesmo tempo que controla os ácaros varroa.

RNA de interferência: A investigação de RNAi pode ser útil na descoberta de novos alvos e tratamentos para infecções por N. ceranae em abelhas. O RNAi é um mecanismo de silenciamento genético pós-transcricional que é conduzido pela ligação do RNA de cadeia dupla (dsRNA) a sequências transcritas homólogas de um gene alvo. Além disso, o RNAi é um mecanismo anti-infeccioso natural presente na resposta imunitária das abelhas. O RNAi está a ser investigado para atividade terapeutica na medicina humana e para pesticidas na agricultura. A inibição de ácaros varroa e vários vírus com RNA infecciosos para as abelhas já foi realizada por RNAi. […] Embora muitas aplicações de RNAi tenham sido exaustivamente pesquisadas, nenhum medicamento ou pesticida baseado em RNAi foi aprovado até agora para uso agrícola.

Extratos e suplementos naturais: Dados preliminares sugerem que um suplemento fitofarmacológico comercial, Nozevit®, pode melhorar a saúde das abelhas diminuindo a carga de esporos nas colónias. Mais investigações e um tamanho maior de amostra são necessários para confirmar esses resultados, já que van den Heever et al. relataram haver nenhum efeito de Nozevit® em ensaios com abelhas em laboratório. Uma pesquisa de 2 anos com o suplemento à base de algas marinhas HiveAlive ™ relatou uma diminuição nas cargas de esporos da colónia e um aumento da população da colmeia em relação aos controles após a administração de dois tratamentos semestrais. Surpreendentemente, a sobrevivência não foi comentada neste estudo, embora os autores levem em conta a mortalidade da colónia nas suas análises do desenvolvimento da colónia.

Embora certos extratos naturais e suplementos comerciais tenham demonstrado eficácia contra N. ceranae, existem outros suplementos de produtos naturais anunciados como anti-infecciosos que não têm nenhum efeito benéfico nas abelhas infectadas com N. ceranae. Nosestat® e Vitafeed Gold® foram avaliados num teste de campo e não tiveram impacto na produtividade da colónia e nos níveis de esporos de Nosema. ApiHerb® e Nonosz® também são vendidos para melhorar a saúde das abelhas e talvez tratar a nosemose, mas pesquisas adicionais e mais evidências científicas são necessárias para apoiar as alegações de eficácia. Evidentemente, os apicultores devem ser cautelosos sobre que suplementos e extratos selecionam para o tratamento de infecções por N. ceranae.

Suplementos microbianos: A administração de suplementos microbianos pode ter impactos positivos na saúde das abelhas e prejudicar a viabilidade de N. ceranae. Baffoni et al. sugerem que a suplementação da dieta das abelhas com estirpes de bifidobactérias e lactobacilos, que segregam metabólitos de antibióticos, diminui os níveis de esporos de N. ceranae. Este trabalho soma-se a estudos anteriores que indicam que os ácidos orgânicos e outros metabólitos (por exemplo, surfactina) produzidos por bactérias reduzem a mortalidade das abelhas e as cargas de N. ceranae quando adicionados aos alimentos de abelhas. Foi demonstrado que outras estirpes bacterianas e probióticos (Parasaccharibacter apium, Bacillus sp., Bactocell® e Levucell SB) melhoram a sobrevivência de abelhas infectadas, mas não diminuem a carga de esporos. Um tratamento anti-Nosema bem-sucedido deve melhorar a saúde das abelhas e diminuir os níveis de infecção. Contudo probióticos, prebióticos e substitutos do pólen mal selecionados podem realmente exacerbar as infecções e aumentar a mortalidade das abelhas.

fonte: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fvets.2019.00079/full

Nota: da minha realidade, não tenho tido problemas com nosemose nas minhas colónias, tanto quanto consigo observar. Nos últimos 6 anos, desde que afinei a minha estratégia de controlo da varroose, a taxa de mortalidade invernal não tem ultrapassado os 5%. Na verdade também não utilizo “Probióticos, prebióticos e substitutos do pólen mal selecionados [que] podem realmente exacerbar as infecções e aumentar a mortalidade das abelhas.”, e não faço colecta de pólen.

um território de marcavala

A marcavala.

É num território de marcavala, cheio de promessas, que estou a re-activar o meu quarto apiário. Foi neste local que tudo se iniciou para mim na apicultura e onde regresso sempre, mais ou menos por esta altura do ano.

Com as marcavalas (Echium lusitanicum) a iniciar a floração, só faltavam as abelhas para completar o trinómio território-abelhas-apicultor.

Agora já por ali andam.
Muitas centenas de milhar de abelhas se lhes juntarão nas próximas semanas.
Os enxames prometem, o território também e o apicultor tem ilusão!

Hoje, a parte da manhã passei-a colocar as primeiras meias-alças sobre uma série de ninhos chegados recentemente ao território da marcavala.

Se as abelhas se querem saudáveis, o apicultor será o seu cuidador, já o território, esse, quer-se abundante.

Nada existe isoladamente, tudo se interliga e complementa e, neste jogo vital de interdependências, os ciclos sucedem-se.

as abelhas sentem dor e sofrem? e sobre um resgate…

Os resultados experimentais que conheço acerca da resposta à questão se as abelhas melíferas sentem dor e sofrimento não são convergentes; uns indiciam que sim outros indiciam que não.

Por exemplo, os investigadores têm seguido várias linhas de investigação como: 1) reações motoras protetoras como indicadores de dor; 2) aprendizagem de evitamento.

As reações motoras de proteção incluem coisas como limpeza intensa e prolongada de regiões do corpo que foram feridas. Não há evidências de que as abelhas façam isso.

No entanto, há evidências de que as abelhas aprendem respostas de evitamento. Este traço comportamental advém da aprendizagem de uma resposta de evitamento a um estímulo prejudicial que lhes pode causar ferimentos.

Se uma forrageadora é atacada por um predador numa fonte de alimento (e sobrevive), ela impede outras abelhas de dançar a anunciar essa fonte de alimento quando retorna à colmeia.

Embora a aprendizagem de evitamento não indique que as abelhas sentem dor, ele implica um processamento central em vez de uma simples resposta nociceptiva*. Mostra que as abelhas são capazes de comparar o risco versus a recompensa de algo bom (uma rica fonte de néctar) com algo ruim (a chance de serem comidas ao coletar o néctar). Esse tipo de tomada de decisão demonstra uma capacidade cognitiva que pode tornar mais provável a experiência de dor.

fonte: https://www.theapiarist.org/do-bees-feel-pain/

Estando a questão em aberto, não deixa de me chocar o sofrimento que certas práticas apícolas de grande ingenuidade poderão estar a provocar nas abelhas, quando são abandonadas à sua sorte frente ao varroa e vírus por eles veiculados, numa tentativa vã de promover abelhas resistentes num curto período de tempo.

Neste assunto, como noutros, partilho a opinião de Rusty Burlew: “Na minha opinião, comprar animais que precisam de cuidados e, em seguida, negar-lhes esses cuidados é mau-trato de animais. Eu acredito que é ética e moralmente errado assistir algo morrer só porque você quer se chamar de “treatment free” (apicultor que deliberadamente não utiliza tratamentos contra a varroose), e acho que algumas pessoas estão mais interessadas em usar o rótulo do que em ter sucesso. “Treatment free” não é uma medalha de honra se tudo ao seu redor morre.

fonte: https://www.honeybeesuite.com/so-you-want-to-be-treatment-free/

Friedrich Nietzsche, poeta e filósofo (1844–1900).

Sobre o impacto do sofrimento dos animais em nós o caso mais notável que conheço, pela sua radicalidade, é o de Friedrich Nietzsche, de quem os seus biógrafos dizem ter enlouquecido a 3 de janeiro de 1889, quando presenciou o açoitamento de um cavalo na Praça Carlos Alberto. Nietzsche terá corrido em direção ao cavalo, abraçado o pescoço do animal para o proteger e, de seguida, caiu ao chão num pranto intenso. Talvez, naquele momento eterno, Nietzsche tenha vislumbrado os segredos mais preciosos e belos do universo no olhar de um cavalo sofrido, como Blake os intuiu num grão de areia, e Borges nas listras irregulares de um tigre.

No outro pólo da esfera, na minha realidade, muitas vezes a beleza de um enxame me resgatou da dor e sofrimento e me restituiu um sentimento de suave bem-estar. Este poder dos enxames, tenho-o observado desde que me tornei apicultor e, mais frequente e intensamente, desde que me re-equilibrei com a redução do efectivo, me tornei um amador—profissional, e apaixonei!

*Nocicepção ou algesia é o termo médico para a recepção de estímulos aversivos, transmissão, modulação e percepção de estímulos agressivos. Receptores de danos são chamados de nocireceptores e os estímulos são transmitido pelo sistema nervoso periférico até ao sistema nervoso central onde é interpretado como dor.

transitando: do modo de enxameação para o modo de produção

No dia de ontem transitei entre os 4 apiários que tenho activos neste momento — na terça-feira re-activei o quarto.

Vista parcial do quarto apiário.

E com este transito procuro acompanhar a transição entre o modo de enxameação reprodutiva, a terminar no território, e o modo de produção.

Para ilustrar a gestão que faço nesta época de transição, nada melhor que mostrar o que faço actualmente com colónias que me serviram para realizar desdobramentos pela técnica Doolittle — durante o período da enxameação reprodutiva.

Hoje a maioria dessas colónias permanece com a configuração ninho, excluidora de rainhas e sobreninho — com boa parte delas com uma meia-alça sobre o sobreninho.

Configuração actual das colónias que foram utilizadas para os desdobramentos pela técnica Doolittle.

A gestão da transição nestas colónias passa por um maneio simples: nos sobreninhos, onde antes colocava quadros com criação retirados do ninho da própria e/ou de outras colónias, coloco agora e de forma gradual quadros com cera laminada, que estão a ser puxados para as abelhas aí armazenarem o néctar recolhido.

Quadro colocado recentemente no sobreninho, já semi-puxado e parcialmente preenchido com o néctar recolhido nestes dias.

E assim vou fazendo a minha apicultura, transitando ao ritmo das abelhas. E sinto-me bem a acompanhar este transito e este ritmo. As abelhas recentram-me como ser natural, impelindo-me e lembrando-me que tudo nelas é feito em ciclos de desenvolvimento anuais: primeiro há que fazer a prevenção e o controlo da enxameação, para depois, e só depois, pensar em orientar as colónias para o armazenamento de néctar e mel para crestar — no caso concreto destas colónias o armazém do néctar/mel tem a dimensão de um sobreninho. As abelhas — as minhas ao menos —antes de pensarem em armazenar para o inverno pensam em reproduzir-se. Levei anos para compreender, aceitar e, sobretudo, encontrar soluções para integrar este facto natural na abordagem global de maneio das minhas colónias de abelhas!