Iniciei hoje a minha semana de trabalho no campo. Estive ocupado com a inspecção das colónias instaladas em dois dos quatro apiários activos. Nestes dias tenho no plano realizar um conjunto de tarefas que visam atingir dois objectivos principais:
Preparar as colónias o melhor possível para o período de invernagem que se aproxima;
avaliar o efeito das acções remediativas encetadas para o controlo da varroose.
Para alcançar o primeiro objectivo publico o foto-filme das acções empreendidas e observações realizadas:
Colocação das réguas de entrada da colmeia na posição de inverno.
Se no periodo do ano em que as temperaturas máximas ultrapassa os 25ºC deixo o óculo da prancheta semi-aberto para que elas decidam se querem ou não a ventilação superior…
… e algumas colónias aparentemente desejam esta ventilação superior porque não fecham com própolis este espaço aberto…… outras aparentemente não desejam esta ventilação superior porque fecham com própolis o espaço aberto…
… nesta época em que as temperaturas máximas ficam de forma regular abaixo dos 25ºC fecho completamente o óculo da prancheta.
Outras das tarefas passou por avaliar as reservas de mel e reforçar as colónias que me pareceram escassas neste recurso. Tenho como referência a necessidade de ter 4 quadros bem preenchidos de mel por colónia. Estes 4 quadros garantem um total de 10 a 12 kgs de mel, o suficiente para que as minhas abelhas passem os próximos meses 3 meses com hidratos de carbono de qualidade e na quantidade indispensável para a manutenção dos mecanismos individuais e colectivos a uma eficiente termorregulação. Assim substituo os quadros leves com poucas reservas por quadros pesados bem fornecidos de reservas.
Quadros leves retirados e…… substituídos por quadros pesados com boa quantidade de mel.
De que “cartola mágica” sairam estes quadros com mel?
… das inevitáveis “colmeia armazém“, e que vai receber os quadros leves.
Foi também a oportunidade para verificar/confirmar as novas reservas de pão-de-abelha fresco tão importante para a alimentação desta geração de abelhas de inverno que está agora a ser criada, assim como indispensável para a alimentação da futura primeira geração de abelhas do próximo ano, lá para meados de janeiro.
Criação larvar com aquela boa cor pérola e a “nadar” em papa larval.Stong bees a serem criadas exclusivamente com os recursos naturais do território!
Hoje a chegada ao apiário, onde localizei ontem uma colónia com sinais inequívocos de PMS, foi anunciada novamente pelo levantar voo da comunidade de abelharucos que por ali está instalada. Já os começo a ver com alguma simpatia e até esperança de que possam estar a contribuir para as zero velutinas que vi este ano nos meus apiários.
O que me levou ao apiário não foi contudo a intenção de observar as acrobacias aéreas dos abelharucos. Fui solucionar, o mais rapidamente possível, o caso da colónia com PMS.
Desta colónia, retirei 8 quadros com reservas que não apresentavam criação absolutamente nenhuma e coloquei esses quadros valiosos numa colmeia armazém deste apiário depois de sacudidas todas as abelhas.
A colónia doente, que ficou apenas com os dois quadros que apresentavam criação e respectivas abelhas, foi fechada e retirada do apiário.
Foi transportada para minha casa e colocada num cantinho da horta. Para eliminar as abelhas decidi introduzir água com detergente pelo óculo da prancheta.
Esta foi a solução que achei ser a melhor para este caso concreto de uma colónia já demasiado fragilizada pelo PMS, com uma população de abelhas que não chega para cobrir as duas faces de um quadro e muitas delas doentes pelas viroses, em particular o VAD.
Caso esta colónia tivesse mais abelhas e caso o PMS não estivesse tão avançado, muito provavelmente teria sido tentado a retratar e fazer um esforço mais para a apoiar . Não sendo isso o que vi, decidi retirá-la com a máxima urgência do apiário e eliminar este super-organismo moribundo, como recomenda qualquer manual de boas práticas da pecuária.
Conto em breve, e com um pouco mais de tempo, voltar ao caso desta colónia, que por ser único nos meus apiários nos últimos anos, pretendo aprofundar um pouco mais, agora na perspectiva da formulação de 3 ou 4 hipóteses alternativas que possam explicar as causas deste conjunto infeliz de eventos.
No passado dia 4 de agosto informaram-me que, num dos dois apiários que tenho a 600 m de altitude, as cabras de um pastor que partilham o mesmo território tinham derrubado uma colmeia. Ao final da tarde desloquei-me a esse apiário para recolocar no assento não uma mas duas colmeia que estavam tombadas pelo chão completamente viradas ao contrário. Não mereceria este episódio ser trazido aqui, outros semelhantes já me têm acontecido esporadicamente (nesses outros casos provocados não por cabras mas por vitelos e/ou vacas), não fossem dois aspectos do maneio que julgo poderão interessar outros companheiros de lide.
As duas colmeias que se cruzaram no caminho das cabras sapadores!
Hoje tive oportunidade de regressar ao apiário e analisar o estado do ninhos de todas as colónias deste apiário, nomeadamente as duas colónias que haviam sido tombadas.
Na colónia da esquerda verifiquei que estava zanganeira apresentando criação fechada de zângão em alvéolos de obreira. Fazendo alguns cálculos leva-me a supor que as colmeias foram tombadas por volta de 27 de Julho: a postura das obreiras poedeiras intensifica-se passados cerca de 28 dias após a postura do último ovo da rainha perdida, e as larvas de zângão são operculadas após 9 dias a contar do ovo de primeiro dia; sendo assim e recuando 37 dias a partir do dia de hoje encontramos a data provável do choque frontal entre as cabras e o assento das colmeias tombadas.
Este é um dos três quadros que a colónia apresentava com postura de poedeiras. Ainda que existam sempre abelhas poedeiras em todas as colónias o seu número aumenta, assim como a expressão da sua postura, numa situação de orfandade irresolúvel pelas abelhas. Nesta altura do ano a minha solução passa por eliminar a colónia zanganeira e colocar estes quadros com a criação raspada numa colónia viável para que esta aproveite a proteína destas larvas de zângão.
Na colónia da direita verifico que este acidente não provocou um desfecho semelhante ao da colónia da esquerda. Tem rainha ao dia de hoje, com uma postura vibrante, mas… vi meia-dúzia de abelhas com as asas deformadas e vi “isto” num dos quadros…
… alguns alvéolos com pupas desoperculados pelas abelhas (na foto conto 7 que não me levantam dúvidas).
Este comportamento de desoperculação de alvéolos é a manifestação de um certo grau de comportamento higiénico por parte das abelhas, e surge habitualmente na presença de um grau de infestação pelo ácaro varroa relativamente elevado**. Se alguns apicultores acham que este comportamento é por si só sinónimo de abelhas resistentes ao varroa e/ou de linhas excepcionalmente higiénicas e com genética a explorar e desenvolver, eu e outros achamos que este comportamento é um comportamento banal e padrão presente em quase todas as colónias quando sujeitas a uma taxa de infestação que está a atingir valores elevados. Não há neste comportamento nada de excepcional nem superlativo! Pelo que vou vendo estas colónias irão sucumbir aos ácaros e aos vírus por eles transmitidos, não se fazendo nada para ajudar as abelhas. A natureza, intensidade e extensão deste comportamento nas minhas colónias revelou-se até agora insuficiente para me permitir cruzar os braços e esperar que as colónias resolvam o problema. Como não acho correcto fazer marketing com afirmações despudoradas e mal fundamentadas sobre ter abelhas resistentes e, ao mesmo tempo, devo tirar as devidas implicações desta “filosofia céptica” sobre o que é ou não é um traço de resistência, apoiei esta colónia com os recursos disponíveis no momento: dupliquei a dosagem de Apivar.
Colmeia da direita com 4 tiras de Apivar.
E porque adicionei mais duas tiras de Apivar às duas que já lá estão há cerca de mês e meio? Lembro que esta colónia esteve tombada, de pernas para o ar, cerca de 8 a 10 dias, com as duas tiras de Apivar, que tinha colocado cerca de 15 dias antes, fora do sítio indicado. No dia em que as voltei a recolocar no assento não estive com grandes preocupações de colocar as tiras no sítio adequado dada a agitação das abelhas, e só hoje passados 37 dias da data que estimo ter ocorrido o acidente fiz uma inspecção mais atenta. Como só nesta colónia vi o fenómeno de “cria calva” (designação espanhola para o fenómeno que descrevi) atribuo a causa da falta de eficácia no controlo do ácaro à incorrecta localização das tiras. Como entretanto as tiras foram perdendo “potência” pela exposição ao ar (o amitraz degrada-se na presença do oxigénio) e a infestação foi ganhando “potência” entendi que colocar mais duas tiras iria equilibrar as premissas deste jogo de vida ou morte entre as abelhas e o ácaro.
** a traça da cera também provoca a desoperculação dos alvéolos das pupas. Neste caso surgem habitualmente meia-dúzia de alvéolos adjacentes desoperculados e em linha uns com os outros.
Tendo verificado no início da semana passada a eficácia do tratamento de verão da varroose num dos dois apiários que tenho a 600 m de altitude, hoje fiz essa mesma verificação no segundo apiário que tenho à mesma altitude. Também neste apiário, com cerca de 40 colmeias, as impressões que retirei por observação são francamente animadoras. Para confiar nestas verificações “a olho”, sem recurso a outro tipo de testagem, socorro-me de um conjunto de imagens mentais daquilo que não desejo ver e daquilo que desejo ver.
Não desejo ver:
Padrão de criação irregular;
Criação calva (criação desoperculada);
Ácaros varroa presentes nas abelhas adultas;
Os ácaros deslocando-se sobre os opérculos da criação selada;
Ácaros sobre as larvas (geralmente as larvas apresentam-se distorcidas ou semi-devoradas);
Número relativamente baixo de abelhas adultas;
Ausência de ovos e de larvas (devido à falta de abelhas nutrizes para as alimentarem);
Mestreiros de substituição (parece que as abelhas “culpam” a rainha pelo seu estado deplorável de infestação);
Abelhas rastejando na entrada da colmeia;
Abelhas com asas deformadas.
Quando se começa a ver pupas com a cabeça devorada (em vários alvéolos), isso é um sinal de que os níveis do ácaro estão altos.
Passadas 4 semanas o início do tratamento (com Apivar) não verificar nenhum dos sintomas em cima identificados reforçam em mim duas convicções: primeira, o tratamento foi iniciado num momento oportuno (taxa de infestação das abelhas adultas inferior a 3%) e, segunda, o tratamento está a ser eficaz.
Desejo ver:
Colónias bem povoadas;
Colónias com criação nos três estádios de desenvolvimento (ovos, larvas e pupas);
Colónias com criação operculada compacta;
Colónias equilibradas quanto a reservas (mel e pão-de-abelha) e com espaço para a rainha fazer postura;
Abelhas novas ou a emergir com asas bem formadas.
Foto de uma colónia típica deste apiário à data de hoje. Foto de hoje de um quadro com criação compacta, o que me deixa muito tranquilo acerca da eficácia do tratamento no controle da varroose.
Como trato de acordo com o calendário (não faço tratamentos profiláticos, nem faço tratamentos debaixo da filosofia de gestão integrada de pestes), como tenho muitas dúvidas acerca da fidedignidade da avaliação da taxa de infestação de todas as colónias de um apiário com base numa amostra de 20% a 30% das colónias desse apiário, tenho recorrido este método expedito: durante o período de tratamento, que se prolonga por 10 a 12 semanas, faço em média 3 ou 4 vezes esta verificação a olho de cada uma das colónias do apiário. Esta verificação permite-me também ajustar as tiras à câmara de criação e realizar outras tarefas na preparação para a invernagem, como por exemplo substituir algum quadro por outro mais adequado ao período que se avizinha.
Antes do ajustamento das tiras de Apivar à actual câmara de criação.Depois do ajustamento à actual câmara de criação. Os quadros como os da direita foram retirados e substituídos por quadros como os da esquerda. Acredito que ainda não há suplemento alimentar, por muita qualidade que tenha, que ajude a criar abelhas de inverno mais longevas e saudáveis que o mel e o pão-de-abelha. Os quadros com mel estavam ali ao lado, nas colmeias-armazém!
Surgiu há poucos dias no Bee-L (fórum de apicultura de origem norte-americana) uma questão muito interessante de um apicultor e que serve de motivo para esta publicação. Perguntava esse apicultor o que poderia fazer para evitar que os quadros do ninho ficassem bloqueados com pão-de-abelha. Para o necessário contexto desta questão falta dizer que este apicultor utilizava a configuração ninho+sobreninho, criando assim aquilo que alguns denominam de forma feliz um “ninho infinito”, em colmeias do modelo Langstroth. Ora este bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha é uma situação relativamente inconveniente, e que se agudiza a partir de meio/final do verão. Já passei por isso, já dei voltas à cabeça para encontrar uma solução, e acabou por ser a solução a encontrar-me. O processo, passo a descrevê-lo.
Até há três anos atrás (2017) a grelha excluidora era uma peça do meu equipamento que raramente ía para o apiário e, quando a utilizava, era de forma muito temporária. Neste período anterior a 2017, vinha a encontrar a meio/final do verão, e nas colmeias com ninho+sobreninho, boa parte dos ninhos abandonados pela rainha, que entretanto se tinha instalado de modo permanente no sobreninho. Em resultado deste comportamento natural das rainhas, os ninhos ficavam entregues às obreiras que, provavelmente, viveriam os seus dias mais felizes a encher com pólen todos os alvéolos assim que o último ciclo de cria nascia, enchendo de travessão a travessão os quadros com pão-de-abelha devidamente enzimado e compactado à cabeçada. Tenho ideia que havendo espaço, este é o modo natural de armazenagem das abelhas quando a postura da rainha começa a diminuir com o avançar da época ou quando na presença do ninho infinito: mel na abóbada superior, zona de criação na zona intermédia e pão-de-abelha na abóbada inferior do quadro ou, no caso, na caixa inferior da colmeia.
Nesta foto parcial de um quadro vemos pão-de-abelha armazenado junto ao travessão inferior, alvéolos vazios na zona intermédia e…… pequena abóbada com mel operculado junto ao travessão superior do quadro (quadro invertido relativamente à sua orientação normal).
Em 2017, e para satisfazer a demanda de enxames e quadros com criação optei por utilizar mais frequentemente a grelha excluidora nas colónias que dediquei à produção de abelhas e criação. Para não ter que ter a preocupação de localizar a rainha sempre que retirava abelhas ou quadros com criação de um conjunto de colónias, a grelha excluidora foi uma peça importantíssima desta estratégia. Tendo terminado esta tarefa com sucesso, decidi deixar a excluidora em algumas colónias, até porque já tinha lido um número apreciável de opiniões positivas acerca da mesma, em particular por apicultores norte-americanos, canadianos e australianos. Resolvi testar, ainda que um conjunto de crenças em mim me dissessem que provavelmente iria correr mal. Para minha surpresa já na altura colhi boas impressões, mas como eram ao arrepio de muitas das minhas crenças da altura, decidi continuar o teste nestes últimos anos, antes de assumir para mim próprio e em público as conclusões que tenho vindo a publicar sobre as bem-feitorias das grelhas excluidoras de rainhas. Entre outras que já identifiquei e referi, verifico de forma reiterada que as colónias com a configuração ninho+sobreninho e com a rainha confinada no ninho por uma excluidora me surgem nesta altura do ano muito menos bloqueados pelo pão-de-abelha. Atribuo este efeito ao facto de a rainha, com a sua postura limitada ao ninho, ocupar uma parte significativa do mesmo com a oviposição. Naturalmente nos alvéolos onde a rainha põe um ovo, e as abelhas criam as suas larvas, não podem ser utilizados em simultâneo para armazenar pão-de-abelha. Como as duas tarefas são mutuamente exclusivas, a colónia encontra aquilo que me parece ser um melhor equilíbrio na gestão do espaço do ninho: um compromisso entre o espaço dedicado à oviposição e criação de abelhas e o espaço dedicado à armazenagem de pão-de-abelha.
Em jeito de conclusão, se tivesse que dar uma resposta ao apicultor que colocou a questão no Bee-L, dir-lhe-ía para colocar uma grelha excluidora de rainhas entre o ninho e sobreninho a partir de meio do período da enxameação reprodutiva. Nas minhas colmeias foi esta a resposta natural que as minhas abelhas me deram. O meu trabalho foi apenas ter a atenção necessária para as ouvir, apesar do ruído provocado pelas minhas crenças da altura.
É este o castanheiro que me serve de farol para ter a certeza que os castanheiros da minha terra estão para começar a floração. Ano após ano é dos primeiros a florir. Aprendi com a boa gente da minha terra que o tempo da floração varia um pouco de acordo com as castas dos castanheiros: se a casta é longal mais cedo um pouco, se é martainha mais tarde um pouco.
Dos que eu vejo costuma ser dos primeiros.
Vieram pois na altura certa, espero eu, as colónias com as novas rainhas formadas nos apiários a 600 m, para os dois apiários que neste momento estão activos no território dos soutos. E se nas novas colónias langstroth tive oportunidade e os recursos para “palmerizar” com relativa frequência, os recursos para efectuar esse maneio no apiário das lusitanas foram mais escassos. Como consequência, para além de ter transumado colónias que pesavam mais que um burro, estive hoje a desbloquear os ninhos destas lusitanas que apresentavam quadros a mais de mel no ninho e, portanto, quadros a menos com espaço para a oviposição das novas rainhas.
Como poderá uma rainha num quadro como este…… fazer este lindo serviço?
O maneio é simples, que já não tenho idade nem talento para coisas muito complicadas. Crio uma colmeia armazém, colocando nesta altura e desde logo uma excluidora de rainhas sobre o ninho e um sobreninho no topo. Este sobreninho vai doando quadros com cera laminada aos ninhos parcialmente bloqueados das colónias nas proximidades e recebendo quadros bloqueados com mel ou néctar, de preferência quadros claros para serem posteriormente crestados.
Colmeia armazém, criada hoje, com 4 quadros com mel/néctar recebidos de outras colónias e com 6 quadros com ceras laminadas para doar a mais algumas colónias parcialmente bloqueadas. Colocação hoje de um quadro de cera laminada no ninho porque…… estas rainhas de emergência precisam de uma “tela” adequada para expressarem com toda a liberdade o seu potencial.
Ah, e será a grade excluidora uma merda? como opinou recentemente e publicamente um conhecido apicultor da nossa praça. O que posso dizer é que as minhas abelhas não ligam nenhuma ao que este companheiro diz das excluidoras. Hoje em várias das minhas colónias (friso, das minhas, das de cada um, cada um saberá melhor), com exluidoras colocadas em 17 de maio entre o ninho e sobreninho, constato uma vez mais que o resultado em nada confirma três pré-juízos: não impede/dificulta a armazenagem de mel nas caixas que lhe estão sobrepostas; as excluidoras não aumentaram a taxa de enxameação; não limitaram o potencial de oviposição das minhas rainhas. Se assim não fosse como seria eu capaz de explicar que todas as minhas colónias com ninho e sobreninho, e com grelhas excluidoras colocadas a 17 de maio, tenham neste momento armazenado entre 30 e 50 kgs de mel/néctar?
Com cerca de 50 kgs de mel/néctar já armazenado…… a caminho dos 60… e com o castanheiro todo para fazer!
Nas minhas colónias o grande factor limitante à expressão do potencial de oviposição de rainha é um ninho parcialmente bloqueado… com mel ou pólen, ou os dois em conjunto. Não se verificando este bloqueio, os mais de 3500 alvéolos por face de lâmina de cera (langstroth ou lusitana) são suficientes para as minhas jovens rainhas, expressarem devidamente o seu vigor. A utilização do “ninho infinito”, como já o utilizei inúmeras vezes, mostraram-me vezes e vezes, que as minhas rainhas, assim como as rainhas de criadores profissionais, não precisavam mais que 7 a 8 quadros bastante desbloqueados para completarem um ciclo de 21 dias de postura.
Com 7 a 8 quadros no ninho com este padrão, para elas é suficiente e, portanto, para mim também, que remédio!
Falta fazer este disclaimer: qualquer semelhança das minhas observações, nas minhas colmeias, com as observações nas colmeias de qualquer companheiro de lide, é mera coincidência. Digo isto porque não me recordo de ouvir algum apicultor no nosso país referir que o ninho das suas langstroth ou lusitana é suficiente para albergar o ritmo/quantidade de oviposição das suas rainhas. Mais uma vez me encontro a ver coisas que mais ninguém vê!!! Como hoje quando parei para almoçar eram 14, 15h, e já tinha 8h de trabalho no pêlo, tudo isto pode muito bem ser fruto de uma alucinação por exaustão! Por isso vou fazendo um registo fotográfico porque, tanto quanto é do meu conhecimento, os “smartphones” não sofrem de alucinações. Ficava mais um pouco, mas tenho de ir a um outro apiário ainda hoje. Bom trabalho para todos… e não bloqueiem com os disparates que vou vendo!
Hoje, no dia mundial das abelhas, levantei-me cedo e fui, pelo fresco, fazer o que mais e melhor me apetece fazer: estar como profissional (porque é a actividade que me põe o pão na mesa) a trabalhar as minhas colónias com uma atitude descomprimida e sem pressões económicas. Este contexto permite-me fazer algumas coisas de forma diferente do passado, ensaiar e testar algumas ideias e avaliar, com o melhor rigor que me é possível, os resultados alcançados.
Uma das tarefas no apiário que me preencheu estas horas mais frescas, na manhã de um dia que se prevê atingir 28ºC (e mesmo sem t-shirt por baixo do fato este calor faz-se sentir com alguma violência), foi dar seguimento ao que tinha iniciado há cerca de 4 semanas atrás (aqui descrito) e “palmerizar” um conjunto de núcleos. Basicamente, o maneio passou por transferir um ou dois quadros com criação dos núcleos onde coloquei as rainhas das colónias anteriormente orfanadas, para as colónias actualmente orfanadas. A intenção deste maneio visa alcançar 4 objectivos em simultâneo:
atrasar/arrefecer o crescimento das colónias nos núcleos, forma de prevenir a enxameação não reprodutiva, cuja causa principal e determinante é o excessivo confinamento da colónia. Este tipo de enxameação sucede o período da enxameação reprodutiva. Do ponto de vista do maneio, a enxameação não reprodutiva ocorre sobretudo por falta/atraso de maneio adequado por parte do apicultor. Já a enxameação reprodutiva pode suceder mesmo no caso de um maneio adequado do apicultor;
equilibrar os grupos etários/cohortes das abelhas nas colónias previamente orfanadas. Este equilíbrio visa fornecer às jovens rainhas já nascidas, e a iniciar postura, abelhas com a idade certa para “amamentar” as novas larvas que surgirão da sua postura;
fornecer quadros que ficarão desbloqueados imediatamente depois desta criação, hoje oferecida, emergir, e propiciar uma boa quantidade de alvéolos disponíveis para um novo ciclo de postura das jovens rainhas;
fortalecer estas novas colónias com mais abelhas, com o objectivo de estarem capazes de trabalhar as meladas do castanheiro e azinheira, que surgirão previsivelmente dentro de um mês e meio a dois meses.
Em baixo deixo o foto-filme do que me encantou fazer hoje com as minhas abelhas, no dia mundial das abelhas.
Núcleo onde coloquei, há cerca de 3 semanas atrás, a rainha da colónia orfanada, em baixo.Foto de hoje da colónia orfanada há cerca de 3 a 4 semanas atrás.Abertura de um espaço para colocar dois quadros com criação na colónia orfanada.Quadros com criação retirados de um dos núcleos hoje trabalhados.Foto de detalhe de um dos quadros com criação introduzidos numa das colónias orfanadas.Quadro com cera laminada rígida, muito apreciada pelas abelhas, e mais resistente às elevadas temperaturas dos próximos dias. Recolocação do núcleo em cima da colónia. Será levado para outro apiário assim que se confirme a presença de uma rainha nova em boa postura na colónia em baixo.
Neste dia, envio um abraço a todos os que gostam de passar umas horas junto das abelhas e/ou lhes reconhecem o importante serviço ecossistémico que prestam a todos nós.
Uma palestra que me agradou muito pela simplicidade das mensagens, sabendo evitar os simplismos. Esta palestra reforça muitos aspectos do que faço habitualmente e que por aqui tenho relatado/apresentado.
“As alterações climáticas vêm somar-se aos problemas já “usuais” da apicultura: parasitismo por Varroa, fragmentação do território, poluição ambiental e declínio da biodiversidade floral. Por seu turno, o vespão asiático continua sua expansão por toda a Europa e aumentou esta lista.
Temos vindo a observar nos últimos anos uma mudança no perfil das estações, em grande parte promovida pela mudança climática (ou “aquecimento global”). Suas consequências são numerosas, especialmente para as plantas das quais a alimentação de nossas abelhas depende inteiramente. Ao interromper o acesso ao pólen e ao néctar, esse distúrbio influencia a saúde das colónias de abelhas e, portanto, aumenta as perdas no inverno. Altas temperaturas e outros extremos climáticos são elementos desfavoráveis, como indicado num estudo recente que encontrou uma ligação clara entre “clima mais quente e seco no ano anterior” e “maiores perdas de inverno”.
Uma melada tardia que fez mais mal do que bem
As perdas invernais de 2016-2017 parecem estar também associadas à excepcionalmente tardia melada de abeto/”sapin” neste ano, resultante de um clima alterado.
O sapin
Importa esclarecer que não é a melada de abeto que é prejudicial como tal, mas sim o período tardio em que chegou em 2016, que resultou numa dessincronia relativamente ao padrão e às necessidades habituais das abelhas nesta época do ano. As meladas clássicas de abetos vão de julho a setembro; a de 2016 iniciou-se em setembro e terminou em novembro.
As colmeias viram os seus ninhos encherem-se de melada em detrimento da postura da rainha e da preciosa criação de outono. Isso levou aos riscos usuais da melada tardia: baixas populações de inverno; atraso na colocação dos tratamentos de luta contra o Varroa; risco de diarreia na primavera.
Este atraso da melada de “sapin”, levou mais de metade dos apicultores inquiridos a trataram as suas colónia mais tarde do que o habitual. 52% dos apicultores começaram tratamentos anti-varroa após o período recomendado de julho/agosto, o que é um erro no controlo da infestação, como têm confirmado os dados de mortalidade de colónias quando tratadas tardiamente, obtidos através dos inquéritos dos últimos anos.”
Os gráficos 14 e 15 apresentam as perdas invernais sofridas segundo a data de introdução dos acaricidas. Mostram também o número de colónias tratadas em cada mês.
Um vasto conjunto de técnicas modernas de apicultura foram desenvolvidas simultaneamente com a expansão das subespécies de abelhas mais populares: A. m. ligustica e A. m. carnica.
Fig. 1 : A. m. ligustica
A padronização do tamanho e estrutura das caixas de colmeias levou a técnicas universais de maneio em operações apícolas profissionais, primeiro no Novo Mundo e depois em muitos países europeus. Cursos, materiais didáticos, manuais e periódicos promoveram as novas técnicas. Toda a filosofia de maneio foi pensada e optimizada para as abelhas A. m. ligustica, A. m. carnica e A. m. caucasica.
Fig. 2: A. m. carnica
Estes são alguns exemplos desta filosofia de maneio: incluiu maneio brusco das colónias, evita o desdobramento/arrefecimento das colónias antes do fluxo do néctar principal, defende um grande espaço para a invernagem de colónias (ninho e sobreninho langstroth), exige baixa tendência de enxameação, recorre à remoção dos mestreiros para controle de enxameação e preconiza o uso intenso de fumo durante o maneio.
Muitos desses métodos são muito severos/inadequados para a abelha A. m. mellifera (abelha negra). Apicultores mantendo A. m. mellifera devem conhecer algumas técnicas mais antigas e desenvolver métodos e equipamentos mais ajustados ao maneio destas colónias [Manner, 1925]. A fisiologia, o comportamento e ciclo de vida anual de A. m. mellifera diferem de outras abelhas e devem ser consideradas nas técnicas de maneio. Surpreendentemente, isso não é comumente conhecido pelos apicultores [Ingvar Arvidsson, comunicação pessoal].
Nota: reescrever alguns capítulos do manual de maneio da nossa A. m. iberiensis pode e deve ser feito na minha opinião. Temos bons apicultores na península com conhecimentos para isso. Não tenho ideia da sua motivação para os partilharem.