quadros iscados: vantagens e desvantagens

Na tentativa de atingir um ou vários objectivos em simultâneo alguns apicultores utilizam quadros iscados (quadros com uma tira de cera laminada de 2 cm ou mais), deixando às abelhas a tarefa de completar com favo natural a restante superfície do quadro.

Fig. 1 Quadro iscado

Regra geral esta opção visa um ou vários objectivos:

  • redução dos gastos com cera laminada;
  • reduzir a quantidade de resíduos químicos na cera;
  • deixar às abelhas a escolha da dimensão do alvéolo;
  • combater o varroa;
  • …
Fig.2: Abelhas cerieiras construindo favo

Sendo relativamente consensual entre os apicultores que os quadros iscados permitem atingir estes objectivos, fico com a ideia que alguns de nós leram apenas o primeiro capítulo deste livro e não tiveram tempo para ler ou ignoraram o segundo capítulo da obra. Vejamos com mais amplitude.

Vários apicultores nacionais e estrangeiros, entre os quais me incluo, que tentaram no passado, alcançar um ou vários dos objectivos atrás elencados, depararam-se com um resultado que os surpreendeu. Muitos dos favos construídos pelas abelhas apresentavam um grande número de alvéolos de zângão. Em alguns casos, a nova cria de zangãos situava-se entre os 25% a 50% da população total: por cada duas abelhas foi criado um zângão, nos casos mais extremos. Como não pode deixar de ser, vastas quantidades de recursos da colmeia vão para a alimentação deste mar de larvas de zângão, recursos que continuam a ser gastos durante a sua adultez. Em vez de ter obreira lá fora, colectando mel e criando mais obreiras, o apicultor tem milhares de zângãos (podendo ultrapassar os 10 mil por colónia), deambulando pelas colmeias, transferindo não só o seu charme mas também doenças e parasitas entre colmeias e esperando para serem alimentados.

Está relativamente bem estabelecido que as colónias de abelhas selvagens criam cerca de 25%-30% de zângãos, a maioria no período de pré-enxameação. Esta elevada quantidade de zângãos foi definida por milhões de anos de evolução da espécie. Este comportamento é instintivo e universal. Sempre que o apicultor coloca na sua colmeia quadros iscados no período pré-enxameação, numa colmeia forte, numa colmeia com uma rainha madura e num período de expansão/crescimento da colónia não se deve surpreender que cerca de um terço da criação total da colónia seja de zângãos.

O que fazem os apicultores para contrariar, em parte, este comportamento? Colocam cera estampada com alvéolo de obreira a cobrir praticamente toda a superfície do quadro. Assim conseguem reduzir para 10%-15% a quantidade de alvéolos de zângão produzidos pelas abelhas numa temporada. Existem muitas razões pelas quais os apicultores desenvolveram a cera pré-estampada, e esta é uma delas.

Uma coisa a lembrar é que a maioria da cria de zângão é feita no início da primavera, pouco antes e durante a época da enxameação reprodutiva. Depois desta época a criação de zângãos baixa acentuadamente. Ou porque desejamos poupar algum dinheiro na cera, ou por outro motivo, esta será a janela de oportunidade para utilizar os quadros iscados: no período pós-enxameação reprodutiva, nunca antes e/ou durante este período. Conhecendo mais e melhor as abelhas permite-nos trabalhar lado a lado com elas, numa simbiose cada vez mais completa.

As abelhas em regra dão o que os apicultores desejam, mas devemos conhecer os ciclos, os timings, os mecanismos subjacentes, para os utilizar em nosso favor e tudo isto sem lhes causar dano, pelo contrário ajudando-as a defender-se dos seus inimigos. E na actualidade ter menos criação de zângãos nas colmeias é mais saudável que ter mais criação de zangãos, como todos sabemos.

dicas para encontrar a abelha rainha

Fig.1 : Rainha (Queen); Abelha (Worker); Zângão (Drone)

Começando pelas características únicas da rainha:

  • a. Mais comprida que as abelhas;
  • b. Mais delgada que os zângãos;
  • c. O seu tórax é mais proeminente e visível que o das abelhas;
  • d. As suas asas não se estendem até ao final do abdómen;
  • e. As suas pernas são mais compridas ou do “tipo aranha”.

Quando os objectivos a atingir com o maneio tornam inevitável encontrar a rainha em alguma das minhas colónias tenho por hábito seguir estes procedimentos:

  • abro a colmeia muito suavemente;
  • não utilizo fumo;
  • tiro o quadro mais lateral e do lado quente da da colmeia para ter espaço para deslocar os restantes quadros dentro da mesma; 
  • identifico o primeiro quadro com ovos e/ou larvas e/ou alvéolos vazios mas luzidios pela fina camada de propolis que os prepara para a ovoposição da rainha;
  • chego este quadro para o lado e antes de o levantar dou um rápido vislumbre (cerca de 10 segundos) ao quadro seguinte sem o tirar do lugar. Com alguma frequência a rainha está neste quadro seguinte, e consigo descortiná-la com alguma facilidade dado o seu tórax  mais saliente/proeminente.  Se neste quadro não vislumbrar a rainha levanto o quadro com criação que antes tinha chegado para o lado;
  • neste quadro procuro a rainha varrendo cada face do mesmo com o olhar por cerca de 30 segundos;
  • em regra a rainha é o indivíduo mais calmo na face do quadro e aquele que não procura ingerir mel. Estes aspectos comportamentais distintivos, para além dos morfológicos referidos em cima, ajuda-nos a reparar no que é diferente do resto e neste caso será muito provavelmente a rainha;
  • se não a encontrar neste quadro passo ao adjacente e repito o procedimento;
  • se não encontrar a rainha nos 2 ou 3 quadros existentes com ovos/criação aberta/alvéolos volto a colocar os quadros na mesma posição e fecho a colmeia;
  • se os objectivos não me permitirem aguardar pelo dia seguinte volto a repetir estes procedimentos 15-30 minutos depois.

Com estes procedimentos encontro 80%-90% das rainhas nos primeiros 2 a 4 minutos. Devo acrescentar que a grande maioria das rainhas que tenho não estão marcadas.

Este maneio pressupõe duas atitudes básicas:

  • aceitar que é necessário atenção concentrada, suavidade e algum tempo (cerca de 1 minuto por cada um dos 2 ou 3 quadros com as características referidas atrás)  para encontrar um indivíduo no meio de alguns milhares de indivíduos semelhantes;
  • acreditar que se não vislumbrámos a rainha durante 1 minuto de observação atenta daquele quadro devemos procurá-la no seguinte. Como as rainhas preferem a sombra não devemos demorar demasiado tempo antes de avançar para o quadro seguinte, de forma a evitar que ela se esconda no canto mais escuro da colmeia.

Uma nota a terminar: se a colmeia tiver ninho e sobreninho começo por observar a caixa que aparenta ter mais abelhas. O sobreninho coloco-o sempre sobre um tampo/telhado invertido para evitar o mais possível o esmagamento de abelhas e sobretudo da rainha.

mortalidade de colónias de abelhas nos EUA: que relação com o maneio

Esta palestra dada por Dennis van Engelsdorp, entomólogo e Director do Projecto “Bee Informed Partnership”, dá-nos a conhecer um conjunto de dados e correlações entre opções de maneio e sobrevivência vs. mortalidade de colónias de abelhas. Estes dados foram recolhidos por inquérito aos apicultores dos EUA e ao longo dos últimos anos. Dennis van Engelsdorp apresenta um conjunto de fenómenos que se têm repetido ao longo destes anos em circunstâncias semelhantes. No seu entender esta repetição ajuda a definir tendências e, em última instância, a estabelecer algumas relações fortes e fiáveis entre a sobrevivência ou a morte de uma colónia de abelhas e o maneio levado a cabo pelo apicultor. Não esquecendo que “para cada problema complexo existe uma resposta que é clara, simples… e errada.”

Pontos que destaco:

  • maior perda de colónias durante a primavera e verão que no outono/inverno no último ano inquirido;
  • por ano os apicultores profissionais perdem menos colmeias (cerca de 20%) que os apicultores não-profissionais nos EUA (cerca de 45%);
  • cerca de 60% dos apicultores nos EUA não realiza tratamentos contra a varroa (a maior parte são apicultores não-profissionais);
  • 3 ácaros por 100 abelhas adultas justificam o início do tratamento (ver também aqui);
  • tratar com 5 ácaros por 100 abelhas pode ser tarde demais para algumas colónias (ver também aqui);
  • os ácaros são vectores de transmissão horizontal de virús entre abelhas, aspecto que se julga estar a aumentar a sua virulência;
  • tipicamente atingem-se picos de infestação nos meses de setembro e outubro;
  • apesar dos tratamentos terem sido efectuados nas colmeias, a infestação pode subir enormemente no mês de setembro/outubro devido à transferência de varroas de colónias de apiários vizinhos que estão a colapsar com varroose;
  •  o amitraz,  fórmico e o oxálico são os produtos mais eficazes no controlo dos ácaros;
  • quem alimenta com açucar ou pasta de açucar perde menos colónias do que quem não alimenta;
  • quem alimenta com quadros com mel provenientes das colmeias colapsadas perde mais colónias do que quem não o faz;
  • alimentar com proteínas no outono ou na primavera é uma boa prática;
  • mudar mais de 50% dos quadros do ninho por ano tem um impacto negativo nas colónias;
  • mudar 1 ou 2 quadros do ninho por ano é melhor do que não mudar nenhum;
  • colónias iniciadas partir de pacotes de abelhas apresentam a pior taxa de sobrevivência;
  •  colónias iniciadas por divisão/desdobramento de colónias existentes apresentam a melhor taxa de sobrevivência;
  • quem substituiu as rainhas no ano anterior apresenta menor taxa de mortalidade do que quem não o fez.

Vários dos aspectos destacados nesta apresentação já foram abordados neste blogue. Ainda que a realidade portuguesa seja em parte diferente da norte-americana, muitas das conclusões e pontos destacados têm servido e continuarão a servir-me de orientação no meu maneio. E o resultado tem sido muito positivo até agora (ver aqui e aqui)

falta de eficácia dos acaricidas ou falta de jeito do apicultor?

 

Fig.1: Esquema representando a interacção das abelhas com as tiras de Apivar que funcionam por contacto.

Neste esquema fica evidente que para as tiras de Apivar funcionarem é necessário que as abelhas contactem com as mesmas para se impregnarem com o amitraz  que depois o espalharão também por contacto a outras abelhas . Este é o princípio de funcionamento de todos os tratamentos contra a varroa que funcionam por contacto.

David Quesada, conceituado apicultor e blogger espanhol, apresenta aqui um conjunto de advertências,  feitas já também por aqui, acerca da necessidade de colocar as tiras acaricidas entre quadros com criação, em especial nos tratamentos de de verão/início de outono. Como as tiras acaricidas funcionam por contacto o local indicado para as colocar é onde há mais abelhas: no centro das zonas de criação.

“Por ejemplo, si dice que se utilicen dos tiras, no colocar una porque pensemos que tenemos pocos cuadros de abeja y que con una basta, ya que así estaremos aplicando una dosis menor a la indicada. La colocación adecuada de las tiras anti varroa es también imprescindible, siempre dentro del nido de cría, en contacto con los cuadros con cría. Esto exige, en el momento del tratamiento, buscar y ver cuantos cuadros de cría hay y donde están para insertar entre ellos el tratamiento. Colocar las tiras en cualquier sitio, a ojo, sin realizar esta búsqueda hará que las abejas no entren en contacto con ellas resultando ineficaz, ya que el acaricida que portan las tiras actúa por contacto.

Todo esto puede parecerte obvio, pero aunque te cueste creerlo,  quienes trabajamos codo con codo con los apicultores lo vemos con más frecuencia de la que nos gustaría. La incorrecta aplicación de los tratamientos es uno de los hallazgos y conclusiones que hemos sacado de los últimos estudios llevados a cabo en el marco del Programa de Vigilancia Piloto de las Enfermedades de las Abejas que desde el año 2012 venimos realizando en España bajo la coordinación del Ministerio de Agricultura.”

Como escreve Quesada constata-se que aplicação incorrecta de tratamentos é muito mais frequente que o esperado. Será que em Portugal é muito diferente? Não creio. Quando por cá se fala de ineficácia dos tratamentos acaricidas por contacto, eu leio falta de jeito dos apicultores, senão em todos os casos numa boa parte deles. Ver este post relacionado, entre outros.

Um velho ditado português “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” aplicado a este contexto seria “diz-me onde colocaste as tiras e dir-te-ei que eficácia alcançarás”.

Nota: para aumentar a eficácia dos tratamentos com acaricidas que funcionam por contacto há necessidade de recolocar as tiras sempre que a zona de criação se desloque.

colmeias e suas configurações

As fotografias em baixo pretendem ilustrar as principais configurações de colmeia que utilizo. Apesar da sua importância este é um tema que me parece pouco abordado.

 

 

 

Fig.1 : Imagem geral de um apiário.

 

 

Fig.2: Colmeias com uma só câmara a ninho e meias-alças meleiras.

 

 

 

Fig.3: Colmeia com duas câmaras a ninho e 2 meias-alças meleiras (colmeia mais alta do assento).

 

 

 

Fig.4: Colmeia dividida com tabuleiro divisor (colmeia com pedra sobre o tecto).

 

Na minha opinião a tomada de decisão acerca da configuração a adoptar para esta ou aquela colmeia, mais do que regras escritas na pedra, deve ter em conta a força do enxame e o grau de desenvolvimento que dele se prevê (ver mais detalhes aqui).

como colher abelhas ama sem ter de encontrar a rainha

Como colher abelhas ama sem ter de encontrar a rainha?

Mova a colónia doadora para o lado, e coloque um estrado e corpo de colmeia vazio no seu lugar. Da colónia doadora retire um par de quadros com criação e coloque-os no centro do corpo da nova colmeia e, em seguida, preencha os espaços vazios com quadros puxados e quadros com mel e pólen. Em seguida, coloque outra caixa vazia por cima desta nova colmeia, para atuar como um funil. Sacuda todas as abelhas dos quadros restantes para o “funil”. Quando terminar, escove gentilmente as abelhas dos lados da caixa funil para baixo, para o novo ninho (poderá também utilizar o fumigador para as orientar para o ninho). O objectivo desta operação é ter certeza de que conseguimos colocar a rainha na caixa inferior, o ninho atual.

Uma vez que todas as abelhas estejam no novo ninho, em seguida coloque um grelha excluidora de rainhas sobre esta nova caixa. Sobre a excluidora coloque um corpo com os quadros restantes. As abelhas ama rapidamente subirão através da excluidora para cobrir, aquecer e alimentar a criação existente nesses quadros. Passada uma a duas horas, será fácil colher abelhas amas nesta caixa superior, ou mesmo quadros com criação e abelhas, para equalizar (e também aqui) as colmeias no nosso apiário, entre outros fins.

apis mellifera iberiensis ou a melhor abelha para a península ibérica

A Península Ibérica é povoada naturalmente por uma subespécie de abelhas designado cientificamente apis mellifera iberiensis. É um hibrido natural com linhagem M e A.  Foi este ecotipo que o grande ecossistema peninsular ibérico foi seleccionando e apurando ao longo de milhões de anos.

No entanto este longo e eficaz mecanismo de selecção natural é posto em causa sempre que um de nós decide introduzir linhas exóticas no nosso território (ver aqui). O principal argumento apresentado pelos apicultores que importam outras raças (a ligustica e a cárnica são as preferidas) é o de procuram linhas mais homogéneas e/ou produtivas e gentis. Esta quimera rapidamente se desmonta.

Qualquer apicultor minimamente informado sabe que no território nacional manter linhas exóticas homogéneas obriga a uma de duas coisas: inseminação instrumental ou compra regular de rainhas no estrangeiro. É verdade que se fala da possibilidade de desenvolver zonas de acasalamento dedicadas a estas linhas exóticas mas dada a orografia continental e a elevada densidade de colmeias por Km quadrado, no nosso país essa ideia não passará das boas intenções. Voltando à inseminação instrumental, esta é uma via que requer equipamentos caros e muito sofisticados, a juntar a um conjunto competências muito evoluídas por parte do apicultor-inseminador, só ao alcance de muito poucos. A outra via, a compra regular de rainhas exóticas no estrangeiro, é uma solução que torna o apicultor dependente do criador de rainhas, e sobretudo é uma prática com imensos riscos sanitários, aumentando enormemente a possibilidade de se  introduzirem doenças e/ou patogéneos novos, como já aconteceu no passado com o ácaro varroa e o fungo nosema ceranae, e no futuro poderá vir a acontecer com o  Aethina tumida (pequeno escaravelho da colmeia) já presente em território italiano e o ácaro Tropilaelaps, tão ou mais perigoso que o ácaro varroa. A culminar, a questão do transporte aéreo de rainhas e seu efeito negativo na viabilidade espermática das mesmas poderá dar graves amargos de boca aos inocentes compradores (tema a abordar num post futuro).

Outra das razões mais frequentemente referidas para a compra de linhas exóticas passa pela crença de que serão mais produtivas e menos enxameadoras. Crenças também facilmente desmontáveis. Estudos recentes mostram que as linhas nativas tendem a ser mais produtivas que as linhas exóticas (ver aqui). Mas mesmo que estes estudos não viessem confirmar aquilo  que muitos de nós sabem, os dados das produções espanholas e portuguesas rapidamente demonstram que a nossa abelha ibérica não só produz como produz de forma muito satisfatória. O país com a produção mais elevada de mel na UE é Espanha. Pergunto como será possível um país ser simultaneamente o maior produtor de mel da UE e um dos maiores produtores do mundo com uma abelha pouco produtiva e enxameadora?  Poderá argumentar-se que tal se deve ao maior número de colónias em Espanha. Vejamos então a produção média por colmeia e os dados são elucidativos: Portugal apresentou em 2010 um produção média de 23 Kg por colmeia; Itália com as ligusticas, por alguns intituladas fábricas de fazer mel, ficou atrás com 19 Kg por colmeia; a Áustria, terra das cárnicas e dos grandes mestres apicultores, apresenta apenas 16 Kg. Nós, com uma abelha menosprezada por alguns, estamos à frente de duas raças tão cobiçadas pelos apaixonados das linhas exóticas.

Relativamente à doçura das abelhas das linhas exóticas este é um traço com grande heritabilidade e os inevitáveis cruzamentos com a abelha nativa depressa diluirão esse traço, podendo suceder gerações com comportamentos tão ou mais defensivos que os das nossas abelhas nativas  (falo por experiência pessoal).

Só me apraz uma conclusão: se alguns de nós não conseguem que a abelha ibérica produza, antes de a por em causa faria um grande favor a si próprio se começasse por se por em causa a si e ao seu maneio incompetente.

Num próximo post abordarei outro ângulo desta problemática associado ao impacto negativo que esta prática de importar linhas exóticas tem nos apiários ao redor. Se importar linhas exóticas é um tiro no pé do próprio é também uma facada nas costas do vizinho.

A terminar uma nota de esperança nesta época festiva: estou convencido que a nossa abelha por cá continuará muito depois de termos partido, e seguramente a fazer as alegrias de muitos futuros apicultores… e sem linhas exóticas. É claro para onde as tendências estão a avançar nos meios mais esclarecidos: para a preservação dos ecotipos locais e a proibição de introdução de linhas exóticas, como já acontece na Catalunha e noutras regiões da Europa (ver aqui). As autoridades portuguesas, ou porque estão mal aconselhadas ou porque desconhecem esta problemática, mais tarde ou mais cedo proibirão a importação de linhas exóticas a bem da apicultura nacional.

fazer rainhas de qualidade utilizando o formão/raspador

Como?

Esta técnica foi cunhada com o acrónimo OTS (on the spot) e foi inicialmente divulgada por Mel Disselkoen, apicultor norte-americano.

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Fig. 1 : Mel Disselkoen

Numa colmeia previamente orfanizada, vamos procurar em dois ou três quadros larvas com menos de 36 horas de vida. O mais provável é encontrar estas larvas em zonas adjacentes às zonas com ovos.

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Fig 2: Ovos (Eggs), larvas com menos de 36 h (just right) e larvas com mais de   36 h (too old)

Nas zonas onde encontrarmos estas larvas com menos de 36 h vamos esmagar com o formão os alvéolos logo por baixo como podemos ver exemplificado neste vídeo (a partir dos 4’40”).

Este simples gesto permite que a construção de alvéolos reais se faça o mais possível na vertical, como acontece naturalmente com os alvéolos reais de enxameação ou de substituição (supersedure).

Mel Disselkoen propõe que se realize o OTS  em duas a quatro zonas por quadro e em dois ou três quadros. Tudo dependerá do que cada um de nós pretender.

Se pretender fazer alguma selecção genética recomendo que utilize um quadro com larvas de uma colmeia que aprecie.

Desde há dois anos que utilizo esta técnica e estou satisfeito com a qualidade geral das rainhas que tenho obtido.

Fica assim apresentada uma técnica que requer do apicultor apenas duas coisas: um formão/raspador e uma razoável acuidade visual.

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introduzir rainhas novas em colmeias estabelecidas

Como era minha intenção construí cerca de uma centena de tabuleiros divisores no início da passada primavera.

O tabuleiro divisor é neste momento para mim o mais crucial dos equipamentos apícolas que possuo: pela sua simplicidade, pela sua versatilidade, pelo seu baixo preço. Como estou muito satisfeito com este equipamento continuo a juntar as peças do puzzle para entrever de que forma poderei maximizar e diversificar o âmbito da sua aplicação no maneio que pratico. E somando e juntando as peças daqui e dali julgo que tenho um método bem desenhado e definido na minha cabeça com vista à introdução de rainhas novas, especialmente virgens, em colmeias já estabelecidas e com o auxílio do tabuleiro divisor.

Do saber que foi sendo construído pelas anteriores gerações de apicultores sabemos que em regra é mais fácil uma rainha estranha/nova ser aceite por uma colónia estabelecida durante um fluxo de néctar. Se não houver néctar a entrar na colmeia, a aceitação será facilitada com o fornecimento de xarope de açúcar.

Para aumentar a probabilidade de uma rainha nova ser aceite há ainda um conjunto de outras considerações a ter muito em conta:

  • dar às abelhas o tempo e a oportunidade de se acostumar com sua nova rainha. Durante este período de um a dois dias a rainha deve estar protegida por uma gaiola lhe permite manter contato “físico” com as obreiras (exsudando as feromonas reais no coração da colónia);
  • as abelhas mais jovens aceitam rainhas mais facilmente do que as abelhas velhas;
  • colónias menores aceitam as rainhas mais prontamente do que colónias maiores.

O método que apresentarei seguidamente apresenta estas vantagens:

  • evitará quaisquer interrupções na postura de ovos das rainhas atuais/velhas;
  • dispensará a utilização/aquisição de material dedicado, o que permite simplificar o trabalho do apicultor e torna-lo mais rentável.

(Abrindo parêntesis: Relativamente à dispensa de material dedicado a minha posição de princípio é que o apicultor moderno deve evitar sempre que possível comprar material e equipamentos que sirvam apenas para um maneio/operação específica. Deve privilegiar os métodos que lhe permitam fazer o que pretende com os materiais e equipamentos generalistas que já possui. No caso específico da criação de rainhas há muito equipamentos dedicados por onde nos podemos “despistar”e fazer derrapar orçamentos. Como consequência destas derrapagens orçamentais desejamos e necessitamos que cada colmeia produza 50 Kg de mel/ano para o apicultor, que dê ainda uns bons quilos de pólen e umas gramitas de apitoxina, tudo para que se paguem as despesas do ano. A minha opção é sempre que possível evitar o material dedicado e procurar os métodos de maneio de colónias que levem aos mesmos fins e que exijam materiais e equipamentos que já possuo do maneio habitual e normal das colmeias. Esta recomendação poderá ter interesse para os apicultores que se focam na produção de mel, como é o meu caso. Recomendo a terminar este parêntesis que tenham um quando muito dois focos se querem ter uma apicultura rentável no nosso país. Não se dispersem, nem no território nem nos produtos! Foquem-se na produção de um/dois produtos e concentrem a vossa operação num/dois territórios!)

Equipamento necessário a preparar antes de ir para o apiário:

  • uma alça de dimensões iguais à do ninho da colmeia e com quadros puxados ou laminados;
  • tabuleiro divisor;
  • jaula temporária de rainhas/pinça para apanhar rainhas.

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Fig. 1: Exemplo de uma pinça para apanhar rainhas

No apiário:

  • Coloque a alça que trouxe em cima do tabuleiro divisor e ao lado da colmeia estabelecida onde pretende introduzir a nova rainha;
  • Localize a rainha “velha” e coloque-a numa jaula temporária;
  • Remova 2 – 4 quadros com criação larvar e sobretudo operculada do ninho desta colmeia estabelecida com todas as abelhas aderentes. Estes quadros deverão ser colocados na alça igual ao ninho que trouxe consigo. Os quadros vazios que são removidos são introduzidos no ninho da colmeia estabelecida. Devemos manter a integridade da zona de criação, colocando estes quadros “novos”nas zonas laterais da mesma;
  • Coloque um ou dois quadros adicionais de mel retirados da colmeia estabelecida ou de outra colmeia depois de sacudidas as abelhas aderentes;
  • Se necessário sacuda ainda mais algumas abelhas dos quadros da colmeia estabelecida para os quadros colocados na alça que se encontra em cima do tabuleiro divisor. Pode fazê-lo com toda tranquilidade porque a rainha ainda se encontra na sua jaula temporária;
  • Liberte a rainha velha em cima dos quadros com criação que ficaram no ninho da colmeia estabelecida;
  • Coloque a alça com tabuleiro divisor em cima da colmeia estabelecida. A entrada do tabuleiro divisor deverá ter a direção contrária à entrada da colmeia estabelecida. Isso permitirá que as abelhas mais velhas saiam e voltem para a colmeia estabelecida em abaixo;
  • Passadas umas horas ou até um dia introduza a nova rainha na sua jaula na alça que foi preparada para a receber;
  • Esta nova alça/novo ninho, foi perdendo as abelhas mais velhas que foram sendo drenadas para o ninho estabelecido em baixo, tem uma parcela importante de abelhas novas, e tem um número menor de abelhas. Com este método estão reunidas as condições que garantem maior sucesso na introdução de novas rainhas;
  • Passadas duas ou três semanas, confirmada a boa postura da nova rainha, elimina a velha rainha ou retira-a para um núcleo, tira o tabuleiro divisor e sem mais operações reúne a colónia, agora com nova rainha.

avaliação de rainhas: o caso de rainhas de má qualidade

Tendo lido este post e este outro, não devem restar dúvidas acerca das características de uma rainha de má qualidade. Neste caso a criação não é nem abundante nem compacta. Claramente há uma série de gradações de acordo com o estado mais ou menos avançado de decadência da rainha. É verdade, como não poderia deixar de ser, que a própria natureza encontrou a sua solução para este problema, levando as abelhas a substituir naturalmente a rainha inútil. Muitas vezes as abelhas fazem estas novas rainhas sem que o apicultor chegue a aperceber-se. Sabemos que, em certas colmeias, por várias temporadas consecutivas há sempre boas rainhas, sem a nossa intervenção. Mas, noutros casos, as abelhas chegam demasiado tarde, quando a decadência real já se arrasta há demasiado tempo atrasando toda a colónia, enfraquecendo-a de uma forma que se não interviermos deixará de ter condições para se tornar uma colmeia produtiva. Portanto, sempre que observarmos uma mancha de criação escassa e dispersa devemos pensar em criar as condições para as abelhas (ou nós próprios) mudarem esta rainha antes da sua exaustão se refletir em maior medida na colónia.

Nota: post inspirado por Manuel Oksman.