programas de tratamento do ácaro varroa

Existem 3 tipos de programas de tratamento para controle do ácaro varroa. Neste post vou caracterizá-los de forma sumária e elencar as vantagens e desvantagens de cada um deles.

 

  1. Tratamento profilático

Descrição: Todas as colónias, mesmo as que tenham sido tratadas pouco tempo antes, mesmo que não tenham varroa, ou tenham níveis baixos de varroa, são tratadas novamente de forma preventiva para reduzir os efeitos de eventuais infestações com origem noutras colónias situadas nas proximidades. O tratamento profilático é utilizado mais habitualmente quando as colmeias são transumadas para pomares para aí efectuarem a polinização. Neste contexto as colmeias são frequentemente colocadas em áreas com densidades muito altas. Neste tipo de ambiente, há um risco significativo destas colónias serem invadidas por um grande número de ácaros provenientes de colónias onde a varroa não foi devidamente controlada.

Vantagens: O tratamento profilático reduz o risco de perda de colónias por infestação de varroas provenientes de colónias vizinhas.

Desvantagens: O tratamento profilático aumenta a quantidade de acaricidas utilizados, com consequente aumento dos custos, possibilidade de resíduos e resistência aos mesmos. Muitas das colónias que são tratadas provavelmente não estão em perigo de serem infestadas, e o tratamento pode realmente ser desnecessário.

 

2. Tratamento de acordo com o calendário

Descrição: Todas as colónias infestadas por ácaros são tratadas num determinado momento e numa altura que evite que os ácaros atinjam níveis potencialmente prejudiciais para a colónia e para o seu rendimento (limiar económico). Antes de tratar as colónias, não é feita nenhuma pesquisa para determinar se os limiares económico foram alcançados. O tratamento de acordo com o calendário difere do tratamento profilático na medida em que o tratamento profiláctico de colónias é feito mesmo em colónias que não estão infestadas com varroa.

Vantagens: O método evita o custo/trabalho de monitorização das colónias. É um programa que apresenta boas probabilidades de ser bem sucedido e evitar danos graves causados ​​pela varroa, uma vez que todas as colónias são tratadas e, supostamente, na altura correcta. Se o timing estiver  adequadamente programado, este programa de tratamento é uma boa solução na proteção das colónias, em especial durante a época aguda de crescimento do número de ácaros, no final do verão, início do outono.

Desvantagens: A adequação do timing dos tratamentos pode variar de ano para ano, de local para local e de colónia para colónia.

 

3. Tratamento baseado na monitorização dos limiares económicos (IPM em inglês)

Descrição: As colónias são monitoradas para se avaliar os níveis de infestação pelo ácaro varroa e são tratadas apenas se os valores encontrados atingirem ou ultrapassarem determinados limiares. Existe um certo consenso entre os especialistas dos EUA que 4% a 5% de varroas nos teste de monitorização em abelhas adultas, são o limiar económico para as colónias naquele país.

Vantagens: Apenas as colónias que necessitam são tratadas, reduzindo a quantidade de acaricidas usados e os custos associados. A utilização mais reduzida destes produtos reduz o risco de desenvolvimento de resistências, seja aos acaricidas de natureza sintética, seja aos acaricidas de natureza orgânica.

Desvantagens: A monitorização de colónias é muito exigente do ponto de vista da mão-de-obra que requer. Exige também maior habilidade e um nível de conhecimentos mais elevados do que os outros dois programas. Os limiares económicos do ácaro varroa não estão estabelecidos para o caso português. Os métodos e técnicas de monitorização são falíveis e podem não amostrar fidedignamente e com fiabilidade os níveis de infestação das colónias pela varroa.  Finalmente, a monitorização de colónias pode não ser capaz de prever aumentos rápidos do ácaro durante a época aguda de final de verão, início do outono.

 

No meu caso pessoal trato de acordo com o calendário dado o número de colmeias que possuo. Os dados que obtive da minha experiência dos dois últimos anos de tratamentos, em especial na época aguda de crescimento rápido dos ácaros, levam-me a tirar duas conclusões muito gerais:

  • os timings adequados para os tratamentos são de amplitude muito curta, isto é, 2 a 3 semanas mais cedo ou 2 a 3 semanas mais tarde fazem uma enorme diferença no resultado final obtido com o tratamento;
  • se pretendo ter uma mortalidade de colónias abaixo dos 5%/ano a sua monitorização pré e pós-tratamento deve ir muito além dos 20%-25% recomendados por muitos (ver aqui e aqui).

acaricidas / varroacidas: uma classificação

Podemos classificar os varroacidas das mais diversas maneiras. Já os classificámos de lentos e rápidos. Neste post vamos classificá-los de acordo com as vias utilizadas para atingirem os ácaros da varroa. Este esforço de classificação ajuda-nos a arrumar a informação disponível acerca dos mesmos e, sobretudo, a compreender as semelhanças e diferenças básicas entre eles, a planear a sua utilização, a selecioná-los  de acordo com as suas características.

Os varroacidas podem ser classificados em 3 grandes famílias de acordo com as vias principais que utilizam para atingir os ácaros:

  • por contato — estes acaricidas actuam por contato direto com o ácaro ou indiretamente através de seu hospedeiro (a abelha) que transfere para o ácaro o princípio activo que se impregnou no seu corpo ao tocar nas tiras acaricidas;
  • por evaporação — os acaricidas desta família libertam-se do seu veículo por evaporação e o ácaro é atingido pela exposição a uma dose letal presente na atmosfera interna da colmeia;
  • sistémicos — são acaricidas inicialmente ingeridos pelas abelhas que vão afectar os ácaros da varroa quando estes posteriormente ingerem a hemolinfa e/ou tecidos gordos das abelhas.

Das 3 vias, a de contato é a que apresenta, na maioria dos casos, mais fiabilidade. As abelhas, em geral, contactam frequentemente com as tiras varroacidas impregando-se com o princípio activo, o que permite disseminá-lo pela colónia. A eficácia desta classe de varroacidas está muito pouco dependente das temperaturas externas. Por outro lado, os acaricidas de contacto têm um período de actuação prolongado o que aumenta significativamente a sua eficácia mesmo em colónias com cria presente. Finalmente os limiares entre as doses letais para os ácaros e as doses letais para as abelhas estão muito distantes (na ordem das 1000 vezes, isto é, a dose letal para os ácaros é cerca de um milésimo da dose que mata as abelhas), diminuindo bastante o risco de sobredosagem.

No nosso país os acaricidas de contacto homologados são o Apivar, o Apitraz, o Apistan e o Bayvarol.

Fig. 1: Apivar: embalagem e tiras

Os varroacidas à base de timol (Apiguard, Apivarlife e Thymovar) são mistos no que respeita à via pela qual atingem os ácaros: atingem-nos por evaporação mas também por contacto. Por ex. quando se utiliza o Apiguard é um bom sinal se a maior parte ou todo o gel que contém o timol tiver sido removido da bandeja no final de cada período de tratamento de 2 semanas. Neste caso as abelhas carregam os pequenos pedaços de gel através da colmeia e a fricção/contacto com outras abelhas contribui para espalhar o composto o que aumenta a sua eficácia. Contrariamente à percepção de alguns, a margem de segurança de dosagem para o timol é baixa (abaixo de 10: 1), por isso é necessário seguir estritamente as instruções do fabricante de forma a evitar uma possível sobredosagem.

Fig. 2: Bandeja com um varroacida à base de timol colocado numa colmeia

O ácido oxálico é simultaneamente um varroacida sistémico e de contato. Não se sabe exactamente o seu tempo de vida, segundo uns permanece ativo por apenas algumas horas, outros referem um máximo de um a dois dias. Por esta razão só mata as varroas foréticas e muitos recomendam a utilização do ácido oxálico só nas épocas do ano em que as colónia não têm cria ou apresentam muito pouca cria. O perigo de sobredosagem é elevado, daí as concentrações terem de ser cuidadosamente medidas, especialmente se não é aplicado por sublimação.

Fig. 3: Aplicação de ácido oxálico através do gotejamento

O ácido fórmico é um tratamento que funciona completamente por evaporação. Esta característica confere-lhe uma vantagem sobre todos os outros tratamentos atrás referidos: sendo uma molécula pequena penetra os poros dos opérculos da cria fechada e mata os ácaros dentro dos opérculos. A sua maior desvantagem é que pequenos desvios na concentração torna-o mortal para as abelhas. Se a concentração é muito baixa não mata os ácaros nos alvéolos, neste caso só as varroas foréticas serão eliminadas baixando muito a sua eficácia. No outro extremo, se a concentração de vapores for muito alta pode matar uma parte importante da cria, abelhas adultas e a própria rainha. Se a perda de cria não é demasiado grave, a perda da rainha em certas alturas do ano é desastroso para a sobrevivência da colónia. Por outro lado o ácido fórmico é muito dependente da temperatura externa e da ventilação para atingir a concentração óptima na atmosfera na colmeia, o que aumenta ainda mais a variabilidade nos resultados do tratamento.

Fig. 4: Aplicação de de duas tiras de MAQS, tratamento formulado com ácido fórmico

resíduos de metabolitos de amitraz no mel e uma pergunta

O LMR (Limite Máximo de Resíduos)

A legislação em vigor na Europa define  200µg/kg  como o LMR  para o amitraz e seus metabolitos no mel. Notamos que os especialistas estabelecem os LMR dos resíduos nos alimentos com limites abaixo daqueles que poderão representar um risco para a saúde. Esta é uma medida de precaução que muito estimamos e compreendemos.

O estudo

Neste estudo independente (http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0067007) recentemente publicado, os investigadores decidiram baixar os limite de detecção (LOD) e limite de quantificação (LOQ) para testarem os resíduos de amitraz e seus metabolitos no mel de colmeias tratadas com Apivar. De uma forma simples “apertaram a malha” no seu estudo.

Para os metabolitos do amitraz (compostos que resultam da degradação natural do amitraz) os investigadores encontraram as seguintes quantidades  (ver Tabela 3; Amitraz II):

  • valor máximo: 116,1 ng* / gr;
  • valor médio: 10,21 ng / gr;
  • mediana: 2,30 ng / gr.

*Nota: ng significa nanograma

Convertendo os valores

  • 1 gr= 1 000 000 000 ng;
  • 1 micrograma [µg] = 1 000 ng

Voltando aos valores encontrados pelo estudo e convertendo para as unidades µg/Kg temos:

  1. valor máximo: 0,1161 µg / gr = 116,1 µg/Kg
  2. valor médio: 0,01021 µg / gr = 10,21 µg/Kg
  3. mediana: 0,0023µg / gr = 2,3 µg/Kg

A interpretação dos valores

Os consumidores que consumissem a amostra de mel com a quantidade máxima de resíduos (1) teriam que consumir mais de 1,5 kg de mel por dia para se aproximar do LMR definido.

No entanto, se fizermos os cálculos para os valores médios (2), esses mesmos consumidores teriam que consumir mais de 18 kg de mel por dia para se aproximar do LMR definido.

Em metade das amostras recolhidas (3), o consumo teria que ser um pouco maior do que 80 kg de mel por dia para se aproximar do LMR definido. A mediana deste estudo diz-nos que metade das amostras recolhidas estavam abaixo de 2,30ng/gr.

A pergunta

Que análises fizeram, que cálculos efectuaram, que estudos consultaram todos aqueles que de boca cheia, peito inchado e do alto do púlpito da sua sapiência, clamam que não tratam as abelhas com Apivar para não contaminarem o mel com tóxicos/químicos prejudiciais à saúde humana?

apivar provavelmente o melhor acaricida

De entre todos os acaricidas homologados em Portugal, o Apivar é provavelmente o melhor de entre eles.

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Fig. 1: Saquetas e tiras de Apivar

No caso dos acaricidas eles devem ser avaliados de acordo com um conjunto de critérios que sejam pertinentes. Na minha opinião os critérios a eleger devem ser:

  • segurança alimentar;
  • segurança para o aplicador;
  • baixo impacto na colónia de abelhas;
  • eficácia no controle da varroose;
  • facilidade de aplicação;
  • relação custo/benefício.

Relativamente à segurança alimentar estudos independentes e relatórios produzidos pelo Comité europeu para o uso de medicamentos veterinários são claros quanto a este ponto: a utilização do Apivar em colónias de abelhas antes, durante e após os fluxos de néctar não faz aumentar os níveis de amitraz e seus metabolitos para além dos limites estabelecidos (200µg por Kg de mel).

fontes principais:

  1. http://www.ema.europa.eu/docs/en_GB/document_library/Maximum_Residue_Limits_-_Report/2009/11/WC500010419.pdf
  2. https://hal.archives-ouvertes.fr/hal-00892290/document
  3. http://projectapism.org/wp-content/uploads/2013/06/Final-Report_Pettis-341.pdf

Relativamente à segurança para o aplicador, as tiras de Apivar não obrigam a medidas e equipamentos de protecção individual dedicados ou extraordinários. O aplicador deve ter cuidado para evitar contactar com as mãos nuas nas tiras, o que não é difícil de conseguir porque por hábito já utilizamos luvas no exercício do nosso maneio apícola.

Mesmo em contextos de longa exposição das abelhas, rainhas e larvas de abelhas às tiras de Apivar confirmou-se um baixo impacto na colónia.

fontes principais:

  1. http://scientificbeekeeping.com/

Relativamente à eficácia no controle da varroose do Apivar ela é elevada quando comparada com a eficácia de outros acaricidas disponíveis. Já anteriormente me referi à vantagem de manter as tiras de Apivar 10 a 12 semanas nas colmeias para aumentar e prolongar o seu efeito acaricida. Por outro lado o modo de acção do amitraz (princípio ativo das tiras de Apivar) no ambiente da colmeia parecem tornar mais difícil e/ou demorado o surgimento de varroas resistentes ao mesmo.

fontes principais:

  1. http://gdsa34.e-monsite.com/medias/files/apivar-presentation-produit.pdf
  2. http://www.revmedvet.com/2007/RMV158_283_290.pdf
  3. http://ecbiz193.inmotionhosting.com/~nodglo5/wp-content/uploads/2016/04/FNOSAD-2014-study-high-quality.pdf
  4. http://www.alsace.chambagri.fr/fileadmin/documents_alsace/INTERNET/elevage/flash_abeilles/Bilan_enquete_sur_les_pertes_hivernales_2014-2015.pdf

No que respeita à facilidade na aplicação, para além da grande simplicidade na colocação das tiras, quero referir dois aspectos a ter em consideração para uma melhor eficácia: as tiras de Apivar devem ser colocadas no interior da zona de criação e passadas 6 a 8 semanas devem ser ajustadas caso a zona de criação se tenha deslocado.

fontes principais:

  1. http://gdsa34.e-monsite.com/medias/files/apivar-presentation-produit.pdf
  2. http://www.apivar.co.nz/FAQs.htm

Finalmente a relação custo/benefício: sendo o tratamento eficaz, como tem provado ser, esta relação é muito positiva para o apicultor. No pior cenário serão gastos cerca de 10 € por colmeia (2 tratamentos a 5€ cada, custo que se vê substancialmente reduzido se comparticipado pelo PAN) e será mantido um efectivo que se avalia em 100 € (montante abaixo do actual valor de mercado de uma colónia de abelhas). Por outro lado é um tratamento que obriga apenas a duas viagens, custos que poderão ser minimizados facilmente se complementados com outras tarefas a realizar no apiário.

Mas como nada que o homem construa é perfeito, também o Apivar apresenta um calcanhar de Aquiles: sendo um tratamento de muito lenta libertação do princípio activo é de eficácia imprevisível quando colocado em colónias com um nível de infestação pelo ácaro varroa demasiado avançado.

fontes principais:

  1. http://www.alsace.chambagri.fr/fileadmin/documents_alsace/INTERNET/elevage/flash_abeilles/flash_ABEILLES-n_2-Decembre2011.pdf

Nota: naturalmente não me responsabilizo por qualquer resultado menos bom com a aplicação das tiras de Apivar. Pretendi manifestar a minha opinião com base no que conheço, suportado no que tenho lido e sustentado na minha experiência como apicultor. Cada um de nós é responsável pelo que decide e deve assumir os riscos dessa decisão.

acaricidas rápidos e acaricidas lentos

Em França verificar a eficácia dos medicamentos utilizados na luta contra o ácaro da varroa é, desde 2007, uma atribuição coordenada pela FNOSAD (Fédération Nationale des Organisations Sanitaires Apicoles Départementales) que reúne a grande maioria dos OSAD (Organisations Sanitaires Apicoles Départementales), representando mais de 30.000 apicultores, profissionais e amadores.

Estes tratamentos/acaricidas que beneficiam de homologação são testadas anualmente por forma a mostrarem que garantias dão no controle da infestação pelo ácaro varroa abaixo dos limites considerados  prejudiciais às colónias de abelhas. Os principais parâmetros avaliados por estes testes são a eficácia global, avaliado através dos ácaros residuais encontrados após os tratamentos, assim como a velocidade de ação desses mesmos tratamentos sobre os ácaros.

Em 2014 a FNOSAD avaliou estes dois parâmetros em 4 tratamentos: o Apivar, o Apistan, o Apilife Var e o MAQS. Qualquer um destes 4 tramentos/acaricidas está homologado em Portugal.

Do conjunto de resultados obtidos em cerca de 300 colónias de abelhas testadas surgiu a evidência de que a eficiência média obtido em 2014 pelo Apivar® e Apistan® é elevada (97% e 96%, respectivamente), mas envolve tempos de tratamento longos (70 dias e 56 dias, respectivamente).

Os medicamentos MAQS® e Apilife Var®, que têm tempos de tratamento mais curto (7 e 28 dias, respectivamente) atingem percentagens de eficácia médias um pouco mais baixas (93% e 87% respectivamente).

Contudo um dado de extrema importância, e que nos ajuda a tomar decisões mais ajustadas no terreno, é-nos dado pela velocidade de acção destes acaricidas sobre os ácaros. A este respeito e para estes quatro fármacos testados em 2014, o número de dias necessários para ir abaixo do limiar de 1000 varroas revelou que o Apivar® requer uma média de 29 dias. Esta duração é, respectivamente, 23, 14 e 2 dias com Apilife Var®, Apistan® e MAQS®

Sublinho estes dados: para fazer regredir o número de varroas abaixo do limiar de 1000 o acaricida de acção mais lenta demora 29 dias (o Apivar) e o mais rápido atinge esse limiar em apenas 2 dias (o MAQS).

Estes dados são, na minha opinião, de grande utilidade quando a urgência de uma infestação nos exige a colocação de um acaricida de acção rápida, ou quando pelo contrário o contexto no qual efectuamos o tratamento não nos exige essa rapidez. Finalmente talvez nos ajude também a perceber que muitas das vezes se o tratamento não foi bem sucedido e a colónia acabou por colapsar, não foi por uma questão de resistência dos ácaros ao princípio activo do tratamento por nós escolhido, mas tão só porque chegámos demasiado tarde à corrida e com um cavalo lento, ainda que forte (será o caso do Apivar). Como costumamos dizer “cada coisa é para o que foi feita”.

fonte: http://ecbiz193.inmotionhosting.com/~nodglo5/wp-content/uploads/2016/04/FNOSAD-2014-study-high-quality.pdf

bayvarol: algumas reflexões

Pela primeira vez estou a utilizar o Bayvarol no tratamento da varroose. Vou tratando em parte de acordo com o avanço da cresta mas sobretudo de acordo com o que a minha experiência dos dois últimos anos me tem mostrado.

A minha experiência tem-me mostrado que aguardar até que tenha crestado todas as meia-alças e alças meleiras pode ter custos muito grandes no que diz respeito à infestação das colmeias pelo ácaro varroa. A explicação é simples e a conclusão mais simples ainda:

  1. Nos últimos dois anos tenho terminado a cresta dos meis-escuros (em geral as meladas da azinheira, carvalho e castanheiro) em meados de Setembro;
  2. Nas zonas onde tenho os apiários as rainhas começam a diminuir a postura cerca de dois meses antes desta data. O ratio número de varroas/cria operculada sobe enormente nestas 6 a 8 semanas entre meados/finais de Julho e meados de Setembro.
  3. Tenho encontrado nestes dois últimos anos nas colmeias que trato a partir de Setembro, e de acordo com o ritmo da cresta como referi atrás, algumas colmeias com um número muito significativo de abelhas com asas deformadas.
  4. A conclusão é clara: iniciei o tratamento tarde demais.

Lendo e relendo os documentos oficiais dos acaricidas que tenho utilizado (Apivar, Apistan e agora Bayvarol) assim como os estudos independentes realizados acerca dos resíduos destes acaricidas no mel e nas ceras, concluo que estava a ser mais papista que o papa.

Actualmente estou a antecipar os tratamentos cerca de 4 a 6 semanas. Procurando trabalhar num cenário ideal, é contudo a realidade que se impões e é ela que aos meus olhos dita as leis.

No caso em particular do Bayvarol, o fabricante refere que idealmente as tiras não devem ser utilizadas no pico de um fluxo de néctar mas que em casos de infestações severas pode ser utilizado em qualquer altura do ano e diz também e que nenhum intervalo de segurança existe no que respeita ao mel.

Relativamente aos famosos ácaros resistentes aos princípios activos espero continuar a não os encontrar. Para isso segui um conjunto de procedimentos que julgo que me ajudarão a atingir este fim. Não me esqueci de colocar as 4 tiras que o fabricante recomenda, não me esqueci de, nas colmeias com ninho e sobreninho, passar todos os quadros com criação para o ninho e colocar as tiras bem no meio destes quadros com muitas abelhas amas e criação para nascer, não me esqueci nas colmeias com a criação descentrada de ver onde estavam os quadros com criação para aí colocar as tiras, não me esqueci de só abrir os sacos com as tiras no exacto momento em que as colocava no interior das colmeias; espero também não me esquecer de dentro de 2 a 3 semanas ir verificar numa amostra significativa de colmeias se tudo está bem e se as tiras continuam a estar em contacto com um grande número de abelhas amas e inseridas no seio das zonas de criação.

Com estas precauções espero não esbarrar com os ácaros resistentes… dado que também não fui resistente ao maior trabalho que dá tratar adequadamente as colmeias espero de coração aberto que ainda haja alguma justiça no mundo e que o famigerado Bayvarol se mostre à altura do desafio.

Se assim for, e dado que já utilizei o Apivar e o Apistan com bons resultados, poderei dizer que no meu reino ainda não tenho varroas resistentes aos três sintéticos homologados no nosso país… poderei dizer para mim mesmo que sou um homem tocado pela fortuna… mas que dá uma trabalheira alcançá-la lá isso dá.

mudança do princípio activo do acaricida

Depois de 3 tratamentos consecutivos com Apivar (o princípio activo é o amitraz da família das amidinas), estou a tratar as colmeias crestadas com Bayvarol (o princípio activo é a flumetrina da família dos piretroides semi-sintéticos).

A minha estratégia na escolhas dos tratamentos é clara e eficaz até agora: efectuar um ciclo de 3 a 4 tratamentos com Apivar e depois interromper este ciclo com um acaricida que tenha o princípio activo de uma família diferente (o Apistan ou o Bayvarol).

Para além dos intervalos de segurança dos acaricidas acima referidos serem zero dias (lembro que o intervalo de segurança define o período de espera que deve decorre entre a última aplicação de um produto e a colheita) também as recentes análises ao mel nacional nos devem deixar tranquilos quanto à sua utilização.

O facto de não terem sido detectados acaricidas (cumafos, flumetrina e tau-Fluvalinato) nas amostras de mel nas diferentes regiões portuguesas poderá indicar que os apicultores cumprem as boas práticas apícolas. […] Para além do referido, os acaricidas estudados são compostos lipofílicos, podendo a baixa contaminação do mel com estas substâncias dever-se a esta característica. Em estudos realizados por Bogdanov, Kilchenmann & Imdorf (1999) foi determinada a ordem de lipofilicidade destas substâncias, os níveis de acaricidas encontrados nos vários produtos após tratamento diminuíram na ordem seguinte: cera > favos de mel >> alimento (açucar) ≥ mel, e em termos de lipofilicidade: flumetrina > fluvalinato ≥ cumafos.” in https://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/4036/1/Residuos%20de%20Medicamentos%20Veterinarios%20em%20Mel.pdf

ácido oxálico vaporizado/sublimado: um tratamento (in)eficaz!!??

Sigo e intervenho no fórum norte-americano de apicultura Beesource. Posso dizer, com base no que ali leio, que os tratamentos com os vaporisadores/sublimadores de ácido oxálico estão na moda entre os apicultores norte-americanos de pequena e média dimensão.  Em Portugal, julgo que a utilização destes vaporizadores de ácido oxálico no controle da varroa está a dar ainda os primeiros passos. Tenho ideia que é muito reduzido o número de apicultores que os utiliza por cá. Importa, contudo, ir analisando as experiências dos que, lá fora, já utilizam este método para tirar-mos algumas conclusões. Até porque muitas das vezes, parece-me que as novidades neste campo, quando entram no nosso país, vêm envolvidas numa aura que leva a crer que este novo produto ou novo método de aplicação irá ser a solução de todos os nossos problemas. É uma característica muito nossa: do mais pesado pessimismo/depresssão ao mais despudorado optimismo/euforia vão 5 segundos!

Neste fórum apícola norte-americano as opiniões expressas em geral são positivas acerca da eficácia deste dispositivo/método, sobretudo nos estados a norte do país onde se assiste a uma paragem da postura da rainha durante o inverno. Contudo, há também relatos de infestações de varroa mal controlados após a utilização desta opção de tratamento.

Em baixo deixo um testemunho de um apicultor norte-americano acerca dos resultados que observou após a utilização do ácido oxálico sublimado.

O título diz tudo … Temos uma grande colmeia próspera. As abelhas estão a construir favo tão rápido que eu não sei o que fazer. A rainha está colocando ovos como uma louca. Lotes e lotes de criação saudável, favo, pólen, mel etc. De modo que é uma boa notícia!  Mas, nós também temos lutado com o temido ácaro varroa. O JRG veio e me ajudou [um amigo e mentor incrível]. Ele me mostrou uma percentagem muito pequena do vírus das asas deformadas num número muito pequeno de abelhas. Eu estou-lhe grato que todo o apiário não esteja infectado.

Eu tinha começado com a vaporização de ácido oxálico (AO) há três semanas numa base de intervalos de 5 dias. Vi 10-30 ácaros caindo por dia. Diminuí o intervalo para 4 dias.

Eu instalei duas tiras de Apivar por caixa [todos os dez quadros estavam cheios de abelhas]. De modo que coloquei em 3 caixas com 30 quadros um total de 6 tiras Apivar nesta colmeia forte. Eu verifiquei 24 horas após a instalação das tiras Apivar mais de 300 ácaros mortos por dia. Uau!!…  isso me deixa querendo saber sobre a eficácia da vaporização de AO …  

Aqui estão as minhas perguntas: Porque via apenas 10-30 ácaros mortos diariamente usando a vaporização de AO contra os mais de 300 ácaros mortos por dia usando o Apivar? Por que o vapor de AO não nos dá mais ácaros mortos? Existe alguma coisa que podemos fazer de diferente para garantir que não perdemos esta colmeia para os ácaros Varroa?  Obrigado,

Soar

Fonte: http://www.beesource.com/forums/showthread.php?322531-Wow!-I-am-noticing-a-big-difference-between-Apivar-amp-OA-vaporization-results-Why

Apêndice 1: a utilização de vaporizadores/sublimadores de ácido oxálico obriga a cuidadosas e apertadas medidas de protecção individual, nomeadamente a utilização de uma máscara adequada, para evitar os efeitos nocivos da inalação dos gases de ácido oxálico na saúde do aplicador/apicultor.

Muita prudência na escolha de uma máscara verdadeiramente protectora e mudar os filtros da mesma de forma regular, são os conselhos que deixo para que não prejudiquem a vossa saúde tentando manter as vossas abelhas saudáveis.

Apêndice 2: a utilização de vaporizadores de ácido oxálico contruídos artesanalmente pelos apicultores pode revelar-se uma grande desilusão por dois tipos de razões:

a) estes equipamentos, se mal calibrados, podem estar a queimar o ácido oxálico e não a sublimá-lo, retirando qualquer efeito positivo deste tratamento sobre as varroas;

b) a poupança alcançada com a sua construção caseira pode ser residual.

Apêndice 3: entre os apicultores que utilizam os vaporizadores de ácido oxálico não há consenso acerca do intervalo óptimo entre as diversas vaporizações: as opiniões variam de 3 dias de intervalo a 5-7 dias de intervalo. Mais um dos muitos temas apícolas em que 10 apicultores são capazes de gerar 12 opiniões diferentes e antagónicas.

definições, acaricidas e opções fundamentadas

  • o) Resíduos de medicamentos veterinários: substância farmacologicamente activa, tal como definida na alínea a) do artigo 1.o do Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações, que prevê um procedimento comunitário para o estabelecimento de limites máximos de resíduos de medicamentos veterinários nos alimentos de origem animal;
  • p)  Limite máximo de resíduos (LMR): o teor máximo em resíduos, tal como definido na alínea b) do artigo 1.o do Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações;
  • q)  Intervalo de segurança: período de tempo entre a última administração do medicamento veterinário ao animal, em condições normais de utilização, e a obtenção de alimentos provenientes desse animal, a fim de garantir que os mesmos não contêm resíduos em teor superior aos LMR estabelecidos em conformidade com o Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações.

Fonte: Infarmed (http://ofporto.org/upload/documentos/595029-egime-juridico-dos-med-veterinarios.pdf)

Juntando as peças do puzle temos:

  • para o Apivar o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de amitraz (substância activa no Apivar) no mel é de 200 microgramas por Kg de mel;
  • para o Bayvarol o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de flumetrina (substância activa no Bayvarol) no mel não está definido pela UE;
  • para o Apistan o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de fluvalinato (substância activa no Apistan) no mel não está definido pela UE.

Sem fantasmas e sem alarmismos continuarei a tratar as minhas colmeias com os melhores tratamentos, os de mais garantida eficácia, os mais simples de utilizar, os homologados e os inócuos para a saúde dos meus clientes… ciente que é meu dever, minha obrigação, ouvir quem de facto merece ser ouvido, sobretudo neste aspecto em particular, para fazer opções fundamentadas e não embaladas por modas.

varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas

Afirmei na abertura desta categorias o seguinte: “não considero que haja mel bom e mel menos bom, mais sendo esta classificação feita com base nos tratamentos utilizados. Todo o mel puro é bom até prova em contrário.” Senti necessidade de fazer esta afirmação porque infelizmente no nosso país, e não só, há apicultores que, de uma forma que eu considero irresponsável, mal informada e alarmista, tendem a associar a qualidade do mel ao tipo de tratamentos utilizados pelos apicultores no combate à varroa. Falam em resíduos no mel deixados por esses varroacidas, e chegam a levantar graves suspeitas da perigososidade que estes méis apresentam aos consumidores. No sumário em baixo podemos ver que as análises feitas na Alemanha a méis de colónias tratadas com acaricidas sintéticos, só detectaram vestígios de fluvalinato em 1% das amostras, e que a flumetrina e o amitraz não foram detectados. Refiro-me apenas a estes princípios activos porque são os únicos que estão presentes nas marcas dos tratamentos  homologadas como varroacidas no nosso país.

Sumário: “Em geral, a utilização de varroacidas nas colónias de abelhas deixa resíduos nos vários produtos das abelhas. Entre a variedade de varroacidas disponíveis, três ingredientes são comumente detectáveis no mel e cera de abelha: bromopropilato (Folbex VA), cumafos (Perizin, Asuntol) e fluvalinato (Apistan, Klartan, Mavrik). Estes produtos químicos são solúveis na gordura e não voláteis, e, portanto, acumulam-se a níveis de ppm como resíduos na cera de abelha e com vários anos de tratamento. Através do processo de difusão, estes ingredientes migram a partir do favo de cera para o mel lá armazenado. No mel alemão, o varroacida mais frequentemente encontrado é o cumafos (28%). O bromopropilato é detectável mas com baixa frequência (11%). Devido à sua alta força de ligação com a cera de abelha, a detecção fluvalinato é relativamente rara no mel (1%). Todos os resíduos foram encontrados a baixos níveis de ppb.  Outros ingredientes com um comportamento químico semelhante têm um papel sem importância enquanto resíduos no mel, cera e própolis, devido à quantidade muito baixa de ingredientes utilizados (acrinatrina, flumetrina) ou sua instabilidade (amitraz).”

Fonte: https://hal.inria.fr/file/index/docid/891581/filename/hal-00891581.pdf

Nota: ppm (partes por milhão) é a medida de concentração que se utiliza quando as soluções são muito diluídas.

Exemplo: Quando se afirma que a água poluída de um rio contém 5 ppm em massa de mercúrio significa que 1 g da água deste rio contém 5 µg (0,000005 gr) de mercúrio.