sam: uma ferramenta para melhorar abelhas num futuro próximo

Tendo ficado apeado, com as chaves da pick-up no interior da carrinha, e as portas inexplicavelmente trancadas (tenho um comando de portas com vontade própria?), ocupo-me a limar alguns rascunhos por publicar. Este deu-me algum trabalho, mas muito gosto a escrever. Boa leitura!; eu vou continuar a limar arestas de futuras publicações enquanto espero que me tragam a segunda chave!

Não sou um grande crente nas proclamações de selecção e melhoria de abelhas que se fazem na actualidade, em Portugal e no estrangeiro. Neste cepticismo estou acompanhado por Keith Delaplane, entre outros (ver a palestra nesta publicação de 2019). Por exemplo, nos últimos vinte anos diversos programas de melhoria de abelhas no que respeita à resistência ao ácaro varroa produziram resultados decepcionantes. Como poderei fazer outra avaliação se após duas décadas de trabalho se identifica de forma comprovada apenas uma região onde persistem linhas resistentes: Gorgona, em Itália (ver o artigo Geographical Distribution and Selection of European Honey Bees Resistant to Varroa destructor, publicado em dezembro de 2020, de Yves Le Conte e Ralph Büchler, dois dos maiores especialistas neste domínio)?

Dito isto, acredito que num futuro próximo iremos assistir a desenvolvimentos importantes na nossa capacidade de selecção e melhoramento de abelhas. A genómica em geral e a Seleccção Assistida por Marcador (SAM) em particular fazem já parte do presente, e estão a ser utilizados para nos ajudar e capacitar a fazer esse melhoramento de forma económica e confiável. É sobre esta ferramenta a Seleccção Assistida por Marcador o conteúdo desta publicação.

“Selecção Assitida por Marcador é o uso de um marcador molecular* que é conhecido por estar associado a uma característica comercialmente importante para identificar indivíduos portadores de um genótipo desejado. A capacidade de selecionar indivíduos superiores diretamente e com base nos seus genótipos permite a possibilidade de ganhos substanciais no melhoramento das abelhas. Uma vez que os marcadores moleculares para uma característica estejam identificados, eles podem ser usados para facilitar a avaliação do valor reprodutivo (breeding value) estimado das colónias. Esta capacitação terá o maior valor para características comportamentais que são difíceis de quantificar com precisão. Além disso, rainhas e zângãos podem ser genotipados antes do acasalamento (Oldroyd e Thompson, 2007), proporcionando uma intensidade selectiva muito forte (Lande e Thompson, 1990) e ganhos mais rápidos na melhoria de características.

fonte: The Genetic Architecture of Honeybee Breeding, Peter R. Oxley and Benjamin P. Oldroyd, Behaviour and Genetics of Social Insects Laboratory, School of Biological Sciences, The University of Sydney, New South Wales, Australia

* marcador genético/molecular: historicamente, o princípio da utilização de marcadores genéticos está baseado no dogma central da biologia molecular, no princípio da replicação do DNA, e na pressuposição de que estes marcadores refletem alterações nas sequências do DNA podendo muitas vezes resultar em diferenças fenotípicas. A partir disto, dados morfológicos e bioquímicos também servem como marcadores genéticos. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcador_genético)

Um estudo de caso de colónias de abelhas canadianas

A criação seletiva de abelhas produtoras de mel é atualmente usada por um pequeno grupo de criadores de rainhas que escolhem características com base em comportamentos exibidos por abelhas no campo (Seleção Assistida em Campo ou SAC). Existem diversos obstáculos a esta metodologia como os custos, recursos e eficácia que limitam a adoção generalizada de testes baseados em campo, resultando em que poucos criadores se empenham na metodologia SAC e menos ainda em resultados precisos e eficazes (Spivak e Gilliam 1998, Pernal et al. 2012). O teste de campo para comportamento higiénico, em particular, depende de um teste específico de características que não pode ser usado para testar outras características, como produção de mel ou defensividade, tornando o processo de teste para características múltiplas muito exigente em recursos.

Uma alternativa aos testes de campo é o uso de diagnósticos moleculares, especificamente a Seleção Assistida por Marcador (SAM), que usa marcadores moleculares para auxiliar na identificação de colónias que apresentem características específicas de interesse ou a falta de características indesejáveis ​​(por exemplo, defensividade). A seleção assistida por marcadores em abelhas é baseada em marcadores de proteínas e tem o potencial de fornecer uma capacidade de seleção mais rápida na criação de rainhas do que a metodologia SAC, pois permite aos criadores testar um número maior de colónias, abrangendo e maximizando a diversidade genética no pool de seleção . Uma vez identificados os marcadores adicionais, os testes de marcadores podem incluir uma série de características diferentes simultaneamente (como comportamento higiénico, produção de mel e mansidão) e podem ser avaliados por monitorização de múltiplas reações na mesma análise sem aumento de custo (Parker et al. 2014 ) Uma vez que uma característica hereditária tenha sido identificada e ligada a marcadores específicos de proteína por pesquisadores, os apicultores podem colectar e enviar amostras de abelhas para um laboratório de diagnóstico para teste. Os resultados podem então ser usados ​​para rastrear colónias de reprodutores com potencial, de acordo com as próprias prioridades de reprodução do apicultor ou índice de seleção.

[…]

Uma equipe de cientistas canadianos identificou recentemente marcadores nas antenas de abelhas que correspondem a características comportamentais em abelhas e podem ser testados em laboratório. Esses cientistas demonstraram que esta seleção assistida por marcador (SAM) pode ser usada para produzir colónias de abelhas melíferas higiénicas e resistentes a patógenos. Com base nesta pesquisa, apresentamos um estudo de um caso de apicultura onde a função de lucro de um apicultor é usada para avaliar o impacto económico da adoção de colónias selecionadas para comportamento higiénico usando SAM num apiário. Nossos resultados mostram um ganho de lucro líquido de colónias SAM entre 2% e 5% quando os ácaros Varroa são tratados de forma eficaz. No caso de tratamento ineficaz, o SAM gera um benefício de lucro líquido entre 9% e 96%, dependendo da carga de Varroa. Quando uma população de ácaros Varroa desenvolveu alguma resistência ao tratamento, mostramos que as colónias SAM geram um ganho de lucro líquido entre 8% e 112% dependendo da carga de Varroa e do grau de resistência ao tratamento.

[…]

Ferramentas de reprodução com seleção assistida por marcador (SAM) têm o potencial de aumentar o lucro da colónia e reduzir a mortalidade, o que pode contribuir positivamente para a viabilidade da indústria apícola, particularmente em face do aumento das infestações de Varroa e o risco de resistência aos tratamentos. “[…] 

fonte: https://academic.oup.com/jee/article/110/3/816/3073489

Notas:

  • esta publicação decorre desta outra;
  • em conjunto com um pequeno grupo de amigos, em 2016, talvez tenha sido dos primeiros a tentar introduzir uma linhagem resistente em Portugal. Os resultados foram maus! Ou a proclamação feita pelo criador, John Kefuss, era exagerada ou a hibridação com zãngãos nacionais diluiu ou eliminou o efeito aditivo e/ou epistático dos genes envolvidos na característica. Por feitio acredito mais na segunda hipótese.

a dinâmica de consumo de açucares de uma colónia ao longo do outono e inverno

Cacho invernal numa colónia sem criação. No interior do cacho a temperatura média é de 18ºC. Na zona mais exterior do cacho a temperatura é um pouco mais baixa. No restante espaço da colmeia a temperatura é pouco mais alta que a temperatura exterior. O cacho de abelhas quase não irradia calor para o seu exterior, pelo contrário, tudo faz para o capturar no seu interior.

No território onde tenho os apiários (distrito da Guarda), as colónias deixam de criar novas abelhas, ou abrandam significativamente esta criação, entre novembro e finais de dezembro. Nesta condição, sem criação para aquecer, as abelhas necessitam de manter a temperatura no interior do cacho invernal nos 18ºC para não entrarem em coma térmico, ficarem paralisadas, caírem no estrado da colmeia e aí morrerem.

Pouco depois do solstício de inverno, entre o início de janeiro e primeira/segunda semana de fevereiro, as colónias iniciam gradualmente a criação de novas abelhas e, nesta nova condição, surge a necessidade de manter estas áreas com criação a cerca de 35ºC.

Foto tirada a 27 de janeiro deste ano numa colónia situada a 900 m de altitude, onde se pode ver uma pequena área com criação operculada, geralmente no lado mais quente do quadro.

A partir de meados de fevereiro o fluxo de pólen aumenta significativamente e as áreas dos quadros dedicadas à criação de novas abelhas aumenta também, acompanhando os inputs do exterior, isto é o suprimento crescente de proteína saudável que a natureza lá fora vai disponibilizando. Nesta nova condição a pressão sobre as abelhas adultas aumenta em virtude da necessidade de manter a 35ºC estas áreas em crescimento linear (não exponencial, porque a rainha é só uma).

Foto de 27 de fevereiro do ano passado . Comparar a área dedicada à criação de novas abelhas na foto em cima, com um mês de diferença no calendário.

Em conclusão: a evolução da dinâmica de criação de novas abelhas que assisto regularmente, ano após ano, entre novembro e finais de março, em colónias com desenvolvimento normal, está associada de forma directa à dinâmica de consumo de hidratos de carbono/mel/açucares suplementares disponíveis na colmeia. Sabemos que as abelhas através do seu mecanismo termogénico, a contração rápida dos músculos das asas, fazem subir a temperatura do seu corpo. Este mecanismo é, naturalmente, um grande consumidor de energia, e quanto maior for a necessidade de recorrer a ele maior é o consumo do combustível, isto é o consumo de hidratos de carbono, estejam eles na forma de mel e/ou na forma dos complementos açucarados que lhes fornecemos.

Implicação prática: Nestas próximas 6 a 8 semanas a maior parte das minhas colónias estão/irão transitar para novas condições: as áreas que têm de ser mantidas a 35ºC aumentam consideravelmente, e isto num território em que o fluxo de néctar é habitualmente baixo até meados de abril. Sendo assim o maneio mais crítico para a sua sobrevivência, de agora em diante e até ao início do primeiro fluxo importante de néctar, o do rosmaninho — que surge habitualmente entre a segunda e terceira semana de abril, isto considerando um ano meteorologicamente regular —, é cuidar que cada uma delas tenha o mel e/ou os suplementos de açúcar em quantidade suficiente e sempre presentes. Porque a dura realidade já me mostrou, poucas vezes felizmente, que chegou aquela altura do ano em que colónias saudáveis e populosas podem sucumbir em poucos dias por falta de reservas e morrerem na praia.

eficácia da própolis como tratamento adjuvante para pacientes com COVID-19 hospitalizados: um ensaio clínico randomizado e controlado

Publico o resumo de um estudo recente* que identificou as vantagens da utilização da própolis como tratamento adjuvante em pacientes com COVID-19 hospitalizados, nomeadamente na redução significativa do tempo de internamento e na redução, também significativa, do número de pacientes que desenvolveram lesão renal aguda.

Resumo: Entre as opções de tratamento ao COVID-19, a própolis, produzida por abelhas a partir de exsudatos de plantas bioativas, tem demonstrado potencial contra alvos virais e propriedades imunorregulatórias. Conduzimos um ensaio clínico randomizado, controlado, aberto e de centro único, com um produto de própolis padronizado (EPP-AF) em pacientes adultos com COVID-19 hospitalizados. Os pacientes receberam tratamento padrão mais própolis na dose oral de 400mg / dia (n = 40) ou 800mg / dia (n = 42) por sete dias, ou tratamento padrão isolado (n = 42). O cuidado padrão incluiu todas as intervenções necessárias, conforme determinado pelo médico assistente. O desfecho primário foi o tempo para melhora clínica definido como o tempo de internamento hospitalar ou dependência de oxigenoterapia. Os desfechos secundários incluíram lesão renal aguda e necessidade de terapia intensiva ou drogas vasoativas. O tempo de internamento hospitalar após a intervenção foi significativamente reduzido em ambos os grupos de própolis em comparação com os controles; mediana de 7 dias com 400mg / dia e 6 dias com 800mg / dia, versus 12 dias para o tratamento padrão sozinho. A própolis não afetou significativamente a necessidade de suplementação de oxigénio. Com a dose mais alta, significativamente menos pacientes desenvolveram lesão renal aguda do que nos controles (2 contra 10 de 42 pacientes). A própolis como tratamento adjuvante foi segura e reduziu o tempo de internamento.

fonte: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.01.08.20248932v1.full

Notas:

  • * pela sua recenticidade esta publicação científica ainda não foi sujeita à revisão pelos pares;
  • nestas publicações, aqui e aqui, apresentei outros dois estudos muito credíveis acerca dos benefícios da própolis.

introdução de rainhas: algumas dicas

Há uns anos descrevi nesta publicação os princípios que sigo quando pretendo introduzir rainhas protegidas por gaiolas. Na altura escrevi: “Do saber que foi sendo construído pelas anteriores gerações de apicultores sabemos que em regra é mais fácil uma rainha estranha/nova ser aceite por uma colónia estabelecida durante um fluxo de néctar. Se não houver néctar a entrar na colmeia, a aceitação será facilitada com o fornecimento de xarope de açúcar.

Para aumentar a probabilidade de uma rainha nova ser aceite há ainda um conjunto de outras considerações a ter muito em conta:

  • dar às abelhas o tempo e a oportunidade de se acostumar com sua nova rainha. Durante este período de um a dois dias a rainha deve estar protegida por uma gaiola lhe permite manter contato “físico” com as obreiras (exsudando as feromonas reais no coração da colónia);
  • as abelhas mais jovens aceitam rainhas mais facilmente do que as abelhas velhas;
  • colónias menores aceitam as rainhas mais prontamente do que colónias maiores.

A juntar a estes princípios, Randy Oliver aconselha ainda que na altura da abertura da gaiola se observe atentamente o comportamento das abelhas sobre a mesma. Se as abelhas andam suavemente sobre a gaiola, se se deixam empurrar com um toque suave do nosso dedo, elas aceitaram a rainha. Nestas circunstâncias podemos abrir o acesso das abelhas ao candy da gaiola, para que libertem a sua futura rainha, e voltar a colocar a gaiola tranquilamente na colmeia.

Na foto em cima, as abelhas aceitaram a rainha. Na foto em baixo não a aceitaram. As abelhas denotam um comportamento agressivo para com a rainha e não se movem quando as procuramos afastar; estão a tentar “pelotar” a rainha para a matar por aquecimento e asfixia.

Neste caso, provavelmente haverá uma rainha na colmeia, ou talvez seja necessário deixar a rainha mais um ou dois dias na gaiola antes de a libertar; se o fizermos neste momento ela será morta. 

Se por um acidente uma rainha enjaulada levanta voo, o melhor a fazer é manter a calma, colocar a gaiola sobre os quadros que ela provavelmente retornará à gaiola passados alguns minutos.

interrupção artificial da postura da rainha para aumentar a eficácia do tratamento da varroose: apêndice

Dado o interesse, problematização e dúvidas que suscitou esta publicação justifica-se a meu ver este apêndice, que visa detalhar um pouco mais os equipamentos utilizados assim como reflectir sobre a avaliação do impacto da técnica ao nível da colónia.

Quadro confinador de rainha (modelo construído por Randy Oliver).

A técnica preconiza o confinamento da rainha a um quadro normal (ou mesmo dois), designado quadro armadilha para o varroa, através de um dispositivo/equipamento que permite o trânsito das abelhas obreiras para o exterior-interior da zona confinada mas impede o trânsito da abelha rainha para o exterior da zona confinada. Utilizam-se, para conseguir este objectivo, dispositivos subsidiários das grelhas excluidoras de rainhas Para tal podemos construir quadros falsos, designados por mim quadros confinadores de rainha, à imagem do que propõe Randy Oliver.

Estas imagens ilustram outros modelos:

Este tipo de equipamento é também utilizado por alguns criadores de rainhas que pretendem diminuir o ritmo de oviposição e desgaste das rainhas matriarcas.
Equipamento disponibilizado para um ou dois quadros pelos nossos vizinhos de La tienda del Apicultor, com a designação Cesto Excluidor.

A rainha é transferida para esta zona confinada no mesmo quadro onde anda em postura, ou transferida para um quadro com cera puxada com muitos alvéolos livres para iniciar a oviposiçao.

Cesto excluidor de dois quadros colocado no ninho de uma colónia (La tienda del Apicultor).

Por comparação com a técnica de enjaulamento de rainhas em jaulas dedicadas, como a utilizada por diversos apicultores, em particular os da península itálica, não conheço testemunhos que indiquem a morte e substituição da rainha confinada com recurso a esta técnica.

Sobre o impacto ao nível da colónia, decorrente desta interrupção parcial da postura, é um aspecto de avaliação complexa. O impacto negativo mais imediatamente evidente materializa-se na redução significativa de novas abelhas a nascerem nos 14 dias após o desconfinamento das rainhas. O impacto positivo mais relevante, dado o incremento assinalável da efectividade da desparasitação, verifica-se ao nível da colónia na sanidade e esperança de vida nas novas abelhas a serem criadas. A somar a este efeito positivo soma-se este outro: as abelhas, nascidas durante os 14 dias de confinamento de sua mãe, não estarão sujeitas a um envelhecimento tão rápido como o que ocorreria caso tivessem de nutrir larvas e aquecer as pupas surgidas da postura de uma rainha não confinada durante estes 14 dias.

interrupção artificial da postura da rainha para aumentar a eficácia do tratamento da varroose

Todos nós sabemos que a existência de criação operculada nas colónias diminui a eficácia dos tratamentos contra a varroose, em particular a eficácia dos tratamentos “flash” ou de curta duração. Por exemplo, os tratamentos com ácido oxálico, na forma gotejada ou sublimada, são muito eficazes quando a colónia não apresenta criação fechada, contudo essa eficácia fica seriamente comprometida quando ela está presente.

Algumas técnicas apícolas, ao alcance de todos, permitem promover a interrupção, total ou parcial, da postura. Em baixo deixo a descrição de uma destas técnicas, a partir de uma proposta de Randy Oliver:

  • Dia 1: Com recurso a quadros confinadores de rainha*, confinar a rainha a um quadro normal, que servirá de “quadro armadilha para o varroa”;
  • Dia 14: Solte a rainha;
  • Dia 21: Remover o “quadro armadilha para o varroa” e gotejar (ou sublimar) com ácido oxálico as abelhas da colónia.
* Exemplar de um quadro confinador de rainha, fabricado por Randy Oliver.

Nota: A programação em cima é para facilitar a execução no mesmo dia da semana. Se houver muita criação de zângãos, pode aumentar os intervalos para os dias 17 e 24, para uma eficácia ligeiramente superior. 

a diminuição dos recursos de pólen desencadeia a transição para populações de abelhas de vida longa a cada outono

Deixo a tradução do resumo de uma artigo que li pela primeira vez há uns 5 anos atrás. Na altura achei-o contra-intuitivo e muito “fora-da-caixa”. Este estudo verificou um atraso na criação de abelhas de vida mais longa nas colónias que acederam até mais tarde a fontes de pólen, e a repercussão disso na dinâmica do número de abelhas por colónia nos meses seguintes de inverno. Todo este quadro que ilustra bem a complexidade do mundo das abelhas, da co-existência de fenómenos com várias camadas imbricadas, e da fragilidade e incompletude do nosso conhecimento, muito em especial no que respeita à nutrição do enxames. Neste contexto, em que confesso a minha grande ignorância acerca dos efeitos globais de muitos maneios com alimentação suplementar e alimentação estimulante, a minha divisa é “bee keep it simple“, ou seja, faz só o necessário para que não morram de fome. O resto, a parte mais complicada, deixo para elas.

Resumo:

1. A cada outono nas regiões do norte do hemisfério, as colónias de abelhas mudam de populações de operárias de vida curta para populações de abelhas de inverno de vida longa. Para determinar se os recursos de pólen em declínio desencadeiam essa transição, o desaparecimento natural dos recursos de pólen externos foi artificialmente acelerado ou atrasado e as colónias foram monitoradas para verificar os efeitos sobre a atividade de criação de larvas e o desenvolvimento de populações de abelhas de inverno de vida longa.

2. Atrasar o desaparecimento dos recursos de pólen adiou o declínio na criação de larvas nas colónias. As colónias com um suprimento mais prolongado de pólen criaram abelhas por mais tempo até outubro, antes que a criação das larvas terminasse, do que as colónias de controle ou para as quais o suprimento de pólen foi cortado artificialmente no outono.

3. As colónias com maior suprimento de pólen produziram mais obreiras durante o outono do que as colónias com menos pólen, mas o desenvolvimento da população de abelhas de vida longa no inverno foi adiado até relativamente mais tarde no outono. As colónias apresentaram números semelhantes de abelhas de inverno, independentemente do momento do desaparecimento dos recursos de pólen.

4. A longevidade média das operárias criadas no outono esteve inversamente relacionada com a quantidade de larvas remanescente para ser criada nas colónias quando as operárias eclodiram. Consequentemente, operárias longevas não apareciam nas colónias até que a criação de larvas diminuísse, que por sua vez era controlada pela disponibilidade de pólen.

5. A redução dos recursos de pólen fornece um dado marcante que inicia a transição para as populações de abelhas de inverno, porque afeta diretamente a capacidade de criar larvas das colónias e indica indiretamente a deterioração das condições ambientais associadas à aproximação do inverno.

fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/j.1365-2311.2007.00904.x

Notas:

1. associar à leitura desta e desta publicações anteriores;

2. no território onde tenho as minhas colónias, a fase de crescimento das mesmas inicia-se, em regra, na última semana de dezembro, muito gradualmente como gosto de observar. As abelhas de inverno morrem a uma taxa mais rápida nestes dois meses de janeiro e fevereiro, em razão da sua idade já prolongada assim como pela redução da sua longevidade, uma consequência do aumento gradual das tarefas de nutrição das larvas.

limiares de tratamento em função da fase de vida da colónia

Trato e controlo a varroose de acordo com o calendário (ver aqui outros dois programas, alternativos a este que utilizo). Realizo habitualmente dois tratamentos por ano, o primeiro iniciado no final de janeiro/início de fevereiro e o segundo iniciado no final de julho/início de agosto. Na altura do primeiro tratamento as colónias estão, em geral, na fase de aumento da população de abelhas. Na altura do segundo tratamento estão na fase de diminuição da população de abelhas. Como podemos ver no quadro em baixo não devo deixar que a infestação, medida em abelhas adultas, ultrapasse os 3% para estas alturas do ano em que habitualmente faço os tratamentos.

Este ano, pretendo avaliar mais precisamente a eficácia do apivar e eventualmente efectuar algumas afinações ao calendário de tratamentos. Para isso tenciono fazer a avaliação das taxas de infestação pós-tratamentos e avaliar a taxa de infestação no pico da população (ver estes três excelentes vídeos com os procedimentos). O pico da população ocorre, na generalidade das minhas colónias, na última quinzena de maio (sobre a dinâmica populacional ver mais aqui). Caso a testagem feita nesta fase me dê uma taxa de infestação entre os 2%-3% vou fazer por baixar a taxa de infestação, com um acaricida não-sintético em finais de maio (uma possibilidade aqui referida, entre outras), para que o medicamento colocado no verão, em agosto, não seja colocado em colónias com uma taxa de infestação superior a 3%. Sei que vários dos acaricidas homologados, sintéticos e não-sintéticos, tendem a apresentar resultados de eficácia baixa quando a taxa de infestação ultrapassa os 3% (ver estudo aqui).

Fase da colóniaAceitável
Não é necessário um controle próximo
Cuidado
O controle pode ser necessário
Perigo Controlo urgente
Dormente com criação<1%1%–2%>2%
Dormente sem criação<1%1%–3%>3%
Aumento da População<1%1%–3%>3%
Pico da População <2%2%–5%>5%
Diminuição da População<2%2%–3%>3%
Aceitável: as populações atuais de ácaros não são uma ameaça imediata. 
Cuidado: a população de ácaros está a atingir níveis que podem causar danos em breve; um acaricida não-sintético pode ser utilizado; um acaricida sintético pode ser necessário dentro de um mês. Continue a testar e esteja preparado para intervir. 
Perigo: a perda da colónia é provável, a menos que o apicultor controle o Varroa imediatamente e eficazmente.

fonte*: https://edis.ifas.ufl.edu/in1257

Nota: nesta publicação* da Universidade da Florida é referida também uma fórmula para calcular a taxa de infestação a partir do número de varroas caídas numa cartolina pegajosa ou estrado sanitário. Dizem o que habitualmente é dito acerca desta técnica de cálculo: é muito falível e pode induzir o apicultor a tratar tardiamente. Na fórmula (“x = 3.76-y/-0.01 divided by the number of days in a colony, where y represents the total number of Varroa captured on the sticky board and x represents the actual mite population within the colony. (Dr. Keith Delaplane, personal communication“)) despertou-me interesse o factor 3,76, que representa, no entender do prestigiado entomólogo Dr. Keith Delaplane, a relação entre o número de varroas na fase de dispersão (fase forética) e o número de varroas na fase de reprodução, isto é, o número de varroas alojadas nas abelhas adultas num dado momento é 3,76 vezes menor que o número de varroas que se reproduzem nos alvéolos, protegidas pelos opérculos de cera da acção imediata de quase todos os acaricidas, com excepção do ácido fórmico.

a importância do timing no tratamento da varroose: o testemunho de um amigo apicultor

Em baixo deixo o testemunho, em resposta à minha solicitação, que o meu amigo Rui Martins, apicultor com apiários no distrito da Guarda, enviou no passado dia 27 de janeiro, acerca da sua experiência no combate ao varroa. Na conversa que tivemos lembro-me de lhe referir que seria importante este testemunho para sensibilizar outros companheiros, com apiários em territórios com características edafo-climáticas semelhantes às nossas, e não esqueço a sua imediata e generosa disponibilidade para o fazer.

Há uns dias atrás o meu amigo José Eduardo lançou-me o desafio de escrever um texto para o blog “Abelhas à Beira” sobre o calendário da aplicação dos tratamentos contra a varroose.

Eu e o meu irmão entrámos no mundo da apicultura em 2016 quando nos inscrevemos num curso de iniciação à apicultura na Lousamel. Até lá, não tínhamos tido qualquer contacto com esta realidade.

A nossa aventura começou no ano de 2017 quando compramos os primeiros enxames. Atualmente temos mais de 100 colónias. Mas não foi fácil chegar até aqui. Cometemos muitos erros, apesar da boa formação inicial que tivemos e com a leitura de livros e informação veiculada em sítios da internet (já há vários anos que acompanhamos o blog “Abelhas à Beira”). Também contámos com ajuda e partilha de experiências de apicultores que fomos conhecendo nesta caminhada.

Deparámo-nos desde o início da atividade apícola com grandes perdas invernais de colónias. Inexplicavelmente algumas colmeias ficavam vazias e noutras as abelhas morriam de “frio” em pequenos cachos. Informo que os nossos apiários localizam-se a altitudes que variam entre os 600 m e os 900 m, na zona da Beira Interior. Mas o verdadeiro assassino das colónias tem pelo nome Varroa destructor. Sempre fizemos dois tratamentos um no fim do Inverno (início de março) e o outro no início do Outono (início de Outubro) / fim do Verão (Setembro). O resultado foi catastrófico, todos os anos tivemos perdas anuais superiores a 30 %. Durante este período usámos dois medicamentos diferentes e o resultado foi sempre o mesmo.

Na comunidade apícola não há um consenso, nem relativamente ao medicamento, nem em relação ao timing do tratamento contra a varroose. Este ano até à data as perdas invernais são de apenas 2,9 % e a maioria das colónias estão fortes. O que mudou? Já tínhamos conhecimento da importância dos timings na colocação do tratamento ao lermos as publicações do José Eduardo no blog “Abelhas à Beira” e em conversas informais, onde este alertava para a colocação atempada do tratamento (1º tratamento em início de fevereiro/fim de janeiro e o 2ª tratamento no início de agosto) e a sua duração (10 a 12 semanas). Este ano decidimos seguir os conselhos do José Eduardo e de outros apicultores da região que já praticam esta metodologia e como já mencionei anteriormente a taxa de sucesso do tratamento aumentou significativamente. Já agora, o princípio ativo do medicamento que usámos é o amitraz.

O tema da sanidade apícola é muito complexo e depende de várias variáveis: da genética das abelhas (comportamento higiénico), do maneio, da nutrição das abelhas (floração variada), etc. Não podemos, assim, reduzir este assunto apenas ao tratamento fitofarmacêutico. Mas enfatizo a importância de se tratar a varroose com medicamentos homologados nas alturas certas e com a duração adequada.

Nota: relacionado com o testemunho do meu amigo Rui Martins sugiro a leitura desta publicação.

o frio e a mortalidade de colónias nos meus apiários

Este inverno caracterizou-se, até à data, por uma semana e meia com temperaturas anormalmente baixas um pouco por todo o lado do nosso território continental.

O fenómeno isolation-starvation (fome por isolamento) é frequente no inverno, quando os enxames têm poucas abelhas.

Como todos os anos, também este ano me morreram colónias de abelha neste período de inverno já decorrido. Até ao momento a percentagem de mortalidade é mais elevada que noutros invernos. Seria humano e expectável que culpasse o frio anormal daquela semana e meia pela morte destas colónias. Contudo este tipo de reflexão não promove um bom e completo entendimento do processo da morte das minhas colónias. E só o bom e completo entendimento me coloca no ponto de partida adequado para evitar que o próximo inverno, que deverá caracterizar-se novamente por tempo frio, me venha a matar tantas ou mais colónias.

Como em todos os fenómenos letais podemos e devemos distinguir os factores precipitantes e os factores predisponentes. Os primeiros dizem respeito aos factores mais imediatos e próximos do fenómeno letal e os segundos respeitam aos factores mais distantes que predispuseram o organismo para uma fragilidade e quebra de resistência e capacidade para responder à mais pequena adversidade ambiental, os factores precipitantes mencionados em cima.

Não tenho dúvida que a morte das minhas colónias nestas duas a três semanas tiveram no frio um factor precipitante. Contudo o frio, por si só, não mata uma colónia com um mínimo de dois a três quadros de abelhas saudáveis na minha zona, uma das mais frias do país. O frio sim precipita, isto é, antecipa a morte de colónias muito fracas, aquelas com 500 abelhas que mal cobrem a face de um quadro. Como não consigo controlar o frio que faz no inverno, a alternativa que tenho é controlar melhor a dimensão dos enxames que entram no inverno.

Esta alternativa passa pela adequada e atempada minimização dos factores predisponentes, habitualmente os mais decisivos na morte das colónias no período invernal. Sei para mim três coisas que me garantem uma mortalidade invernal muito baixa: os enxames entram tão mais fortes no inverno quanto mais eficaz tiver sido o tratamento contra a varroose aplicado no verão (um eventual tratamento de inverno não salva as abelhas de inverno, salva as abelhas da primavera); as reservas alimentares devem ser suficientes e de boa qualidade; a rainha, nova ou menos nova, deve apresentar vitalidade e estar em sintonia com os inputs que recebe do exterior por intermédio das suas filhas.

Num dos territórios mais frios do país nunca me morreu uma colónia por causa do frio. As causas primeiras — os factores predisponentes — foram outras, e boa parte delas vou encontrá-las no verão, nos dias quentes, não nos dias frios.