as baixas temperaturas actuais irão matar as abelhas?

Per si não!

As colónias de abelhas são capazes de tolerar temperaturas frias mais extremas do que a maioria dos mamíferos e pássaros. A tolerância a temperaturas muito frias de pelo menos -80 ° C de um cacho de abelhas é tão boa quanto a de animais de “sangue quente” muito preparados para invernos rígidos. Grandes raposas árticas e cães esquimós podem tolerar -80º C, já o Ptarmigan do Alasca (Lagopus lagopus alascensis), uma ave que tem penas até nas patas tem um limite a temperaturas frias de cerca de -50º C. Os humanos nus, em contraste, podem tolerar perto de 0º C temperatura do ar e por apenas uma hora antes que a temperatura corporal comece a cair e entrem em hipotermia.

O mecanismo mais importante que as abelhas utilizam para produzir e controlar a transferência de calor é a formação de cachos ou agrupamentos de abelhas no interior do ninho. Estes cachos de abelhas apresentam um controle térmico praticamente indistinguível de pássaros e mamíferos. Contudo, para sobreviver a baixas temperaturas, é necessário um grupo de pelo menos 2.000 abelhas(Southwick, 1984). Sabemos que 2 mil abelhas é o número de abelhas necessário para cobrir as 2 faces de um quadro do modelo Langstroth ou Lusitano.

Esquema básico da geração e controlo da temperatura nos aglomerados/cachos de abelhas.

Em condições de frio extremo, mesmo os animais com uma espessa camada de pelos ou penas devem gerar calor adicional para manter a temperatura corporal elevada. A eficácia do isolamento da superfície está inversamente relacionada ao tamanho do corpo, portanto, os aglomerados de abelhas, bem como mamíferos menores e pássaros, têm que contar principalmente com a produção de calor para compensar a perda de calor nos dias frios. Nas abelhas, esse calor é geralmente produzido por rápidas contracções geradas no tecido muscular das asas, que aumenta a taxa metabólica por um fator de 25. Nos vertebrados os tremores musculares são uma forma menos eficaz de produção de calor, e produzem um aumento metabólico de apenas duas a cinco vezes as taxas metabólicas basais.

Neste dias frios um grupo de abelhas (abelhas termogénicas ou “abelhas aquecedor”) enfiam-se de cabeça para baixo nos alvéolos e produzem calor através dos tremores referidos. Camadas adicionais de operárias cobrem estas “abelhas aquecedor” e fornecem isolamento para reter o calor. Estas abelhas são alimentadas continuamente por um outro grupo de abelhas que trazem a comida (combustível), recolhida por ex. no mel armazenado em áreas mais ou menos distantes do cacho de abelhas. 

 As abelhas de cabeça enfiada nos alvéolos não estão à procura de mel no fundo dos alvéolos. Abelhas saudáveis, bem alimentadas e com a cabeça dentro dos alvéolos são uma parte normal de um aglomerado de inverno. Jurgen Tautz explicou este fenómeno em detalhes no livro que publicou em 2008, The Buzz about Bees. Filmando um cacho de abelhas com uma câmera sensível à temperatura, Tautz descobriu que algumas abelhas são capazes de elevar suas temperaturas corporais cerca de 10º C acima do normal, usando contrações musculares rápidas. Depois de aquecerem, algumas das abelhas entram de cabeça nos alvéolos vazios, onde permanecem cerca de 30 minutos, ou até que seus corpos voltem à temperatura normal.

Para todas as colónias que vierem a sucumbir nos próximos dias nos meus apiários e, até agora, em território com duas semanas seguidas com temperaturas mínimas abaixo do 0ºC, irei tentar perceber que factor ou factores confluíram e desaguaram nesta altura para que não superassem esta exigente prova. O frio, per si, está ilibado!

  • fontes: https://www.researchgate.net/publication/236984332_Temperature_Control_in_Honey_Bee_Colonies
  • www.honeybeesuite.com/bees-head-down-in-cells-did-they-starve/
  • www.honeybeesuite.com/heater-bees/

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