Varroa, Nosema e o colapso de colónias

Ao longo das últimas duas décadas, várias hipóteses tentaram explicar as perdas anormais de colónias de abelhas. Entre elas, duas surgem repetidamente: Nosema ceranae e Varroa destructor. A diferença entre ambas não está na sua presença — ambas são hoje comuns — mas no seu peso real enquanto causa de colapso. A sequência de estudos abaixo, apresentada por ordem cronológica, permite perceber como a evidência científica foi clarificando esta hierarquia.

2010 — Genersch et al.; Projeto Alemão de Monitorização de Abelhas (Apidologie, 2010)

Este foi um dos primeiros estudos longitudinais de grande escala: mais de 1200 colónias, acompanhadas durante vários anos, com análise simultânea de varroa, vírus, nosema, estado da colónia e fatores ambientais.

Os resultados foram consistentes: as perdas invernais correlacionaram-se fortemente com níveis elevados de Varroa destructor e vírus associados, sobretudo quando a infestação era alta no outono. Nosema spp. não surgiu como fator explicativo robusto nas análises multivariadas.

Conclusão-chave:
À escala populacional e temporal, o colapso de colónias está ligado sobretudo à varroa e às viroses, não à nosema.

2010 — Guzman-Novoa et al.; Invernagem no Ontário, Canadá (Apidologie, 2010)

Neste estudo de campo em condições reais de apicultura comercial, foram acompanhadas centenas de colónias durante o inverno. A análise focou-se na relação entre sobrevivência, níveis de varroa e presença de nosema.

O resultado foi inequívoco: mais de 80% das colónias que morreram apresentavam níveis elevados de varroa no outono. A presença de nosema não diferenciou colónias sobreviventes das colónias perdidas.

Conclusão-chave:
Quando a varroa está presente a níveis elevados, ela domina completamente o risco de mortalidade; a nosema torna-se irrelevante como causa primária.

2015 — Kielmanowicz et al.; Modelo preditivo de colapso (PLOS Pathogens, 2015)

Este estudo prospetivo acompanhou 179 colónias em três regiões climáticas dos EUA, sem tratamentos contra varroa ou antibióticos, permitindo observar a dinâmica natural de colapso. O grande avanço foi a criação de um modelo preditivo multifatorial.

O modelo mostrou que cerca de 70% dos colapsos podiam ser explicados por:

  • Varroa destructor,
  • replicação ativa do vírus das asas deformadas (DWV),
  • e fatores climáticos em combinação com os anteriores.

Nosema ceranae não foi selecionada como variável preditiva relevante, apesar da sua elevada prevalência.

Conclusão-chave:
O colapso não ocorre porque a nosema está presente, mas porque a varroa amplifica viroses letais.

2015 — Dainat et al.; Predictive markers of honey bee colony collapsePLoS ONE (2012)

Este estudo combinou dados de campo, patógenos e sobrevivência de colónias, procurando marcadores preditivos reais de colapso. Embora não seja o mais recente, é importante porque define o enquadramento epidemiológico moderno.

Conclusões relevantes:

  • A replicação de vírus associados à varroa (especialmente DWV) foi o melhor preditor de colapso.
  • Nosema ceranae não surgiu como marcador fiável de perdas.
  • O colapso foi melhor explicado por interações varroa–vírus, não por infeções isoladas.

Conclusão clara: O colapso é um processo epidemiológico dominado por varroa e viroses; a nosema não funciona como marcador principal.

2018 — van Dooremalen et al.; Efeitos isolados e interativos (Ecosphere, 2018)

Neste ensaio experimental de campo, os autores testaram separadamente e em combinação:

  • Varroa destructor,
  • Nosema spp.,
  • e exposição crónica subletal a imidacloprida.

O estudo mostrou que a varroa teve o impacto mais consistente na dinâmica das colónias, enquanto a nosema apresentou efeitos fracos ou contextuais, sem provocar colapso por si só.

Conclusão-chave:
Nem todos os stressores têm o mesmo peso: a varroa continua a ser o fator estruturalmente mais destrutivo.

2018 — Nazzi & Pennacchio; Disentangling multiple interactions in the hive collapseTrends in Parasitology (2018)

Este é um dos artigos de revisão mais influentes da última década sobre colapso de colónias. Não é um estudo experimental, mas integra dados globais e propõe um modelo epidemiológico coerente.

Pontos centrais da revisão:

  • Varroa destructor é o “driver” central que reorganiza todo o ecossistema patogénico da colónia.
  • A varroa altera o panorama viral global, transformando DWV num agente altamente virulento.
  • Nosema ceranae é classificada como stresso r secundário, com impacto dependente do contexto.
  • Não há evidência sólida de que a nosema, isoladamente, cause colapso generalizado.

Conclusão clara:
O colapso de colónias é um fenómeno epidemiológico emergente dominado pela varroa; outros agentes, incluindo a nosema, orbitam esse núcleo causal.

2020 — Traynor et al.; Varroa destructor: A complex parasite, crippling honey bees worldwideTrends in Parasitology (2020)

Categoria: revisão epidemiológica global (últimos 10 anos)

Este artigo revê décadas de dados de campo, genética, virologia e epidemiologia, com foco explícito na pergunta: porque é que as colónias colapsam?

Resultados-chave:

  • A varroa é apresentada como o principal fator causal direto e indireto das perdas globais.
  • O impacto real da varroa ocorre através da amplificação viral, sobretudo DWV.
  • Nosema ceranae é considerada ubíqua, mas sem correlação consistente com colapso em estudos de larga escala.
  • Onde a varroa é controlada eficazmente, as perdas caem drasticamente, mesmo com nosema presente.

Conclusão clara:
Se existe um fator epidemiológico dominante no colapso de colónias a nível mundial, esse fator é a varroa.

2021 — Neumann & Carreck; Honey bee colony lossesJournal of Apicultural Research (2021)

Esta revisão sintetiza dados europeus e globais recentes, incluindo monitorizações nacionais.

Conclusões relevantes:

  • As perdas de colónias são multifatoriais, mas não simétricas.
  • Varroa destructor permanece o fator mais consistentemente associado a perdas.
  • Nosema ceranae é raramente identificada como causa primária, surgindo sobretudo como infeção concomitante.

Conclusão clara:
Multifatorial não significa “tudo pesa o mesmo”: a varroa pesa mais.

2023 — Schüler et al.; “Significativa, mas não biologicamente relevante” (Communications Biology, 2023)

Com base em 15 anos de dados, este estudo avaliou a relação entre infeções por Nosema ceranae e perdas invernais. Embora a nosema apresentasse associação estatística com perdas, o tamanho do efeito foi considerado biologicamente irrelevante.

Quando comparada com a varroa, a nosema não explicou nem previu a mortalidade.

Conclusão-chave:
A nosema pode estar presente, mas não explica o colapso; a varroa explica.


A leitura crítica de Randy Oliver sobre os estudos de Higes

Da hipótese à hierarquia real das causas

Ao longo de mais de uma década de análise de dados e ensaios de campo, Randy Oliver acompanhou criticamente os estudos de Higes e os trabalhos posteriores. A sua posição atual é clara:

  • Nosema ceranae raramente é o motor principal do colapso,
  • atua sobretudo como stressor secundário ou oportunista,
  • enquanto Varroa destructor, através das viroses, é o verdadeiro fator estruturante das perdas globais.

Conclusão-chave:
Se a nosema fosse a causa dominante, os sinais seriam claros e repetíveis — e não são.


Conclusão geral

Quando se olha para estudos epidemiológicos e revisões de alto nível da última década, o padrão é extraordinariamente consistente:

  • Varroa destructor → fator central, estruturante, dominante.
  • Vírus associados (DWV) → mecanismo direto de colapso.
  • Nosema ceranae → comum, por vezes agravante, mas epidemiologicamente secundária.

Perceber esta diferença não é apenas um debate académico: é a base para decisões eficazes no terreno, na investigação e no maneio apícola.

É sobre decisões eficazes no terreno que falaremos na próxima edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, a iniciar-se a 20 de fevereiro. Últimas vagas disponíveis (os interessados solicitem mais informação para o e-mail jejgomes@gmail.com)

varroa, vírus e o colapso silencioso das colónias

Nas últimas décadas, o colapso de colónias de abelhas deixou de ser um fenómeno episódico para se tornar um problema estrutural da apicultura moderna. Um estudo recente, realizado durante um grande evento de colapso de colónias nos Estados Unidos, vem reforçar uma realidade cada vez mais clara: não é apenas a Varroa que mata as colónias, mas sobretudo os vírus que ela transporta e amplifica.

A análise de abelhas recolhidas no epicentro desse colapso revelou uma preponderância esmagadora de vírus de RNA, em particular dois iflavírus altamente patogénicos (DWV-A e DWV-B) e o dicistrovírus responsável pela paralisia aguda das abelhas (ABPV). Estes vírus não são novos, mas o que impressiona é a sua concentração, combinação e virulência, atingindo níveis raramente documentados.

Todos estes vírus têm um fator comum: são transmitidos de forma altamente eficiente pelo ácaro Varroa destructor. A Varroa deixou de ser apenas um parasita; tornou-se um vetor biológico extremamente eficaz, capaz de injetar diretamente partículas virais no sistema circulatório das abelhas, contornando as defesas naturais que normalmente limitariam a infeção.

Os ensaios laboratoriais descritos no estudo são particularmente perturbadores. Inóculos virais obtidos a partir de abelhas moribundas demonstraram replicação ativa e elevada patogenicidade quando inoculados em abelhas saudáveis. Num dos casos mais extremos, uma suspensão viral obtida a partir de uma única abelha doente mesmo quando diluído 10 a 8 vezes em relação à suspensão original, resultou numa taxa de mortalidade de 44% para as abelhas expostas. Por extrapolação, a suspensão desta única abelha foi suficientemente patogénica para provocar a mortalidade em poucos dias de aproximadamente 66 milhões de abelhas expostas.

Este dado é crucial para compreender a dimensão do problema. Por extrapolação, a carga viral presente numa única abelha infetada teria potencial para causar mortalidade em dezenas de milhões de abelhas em poucos dias. A diferença entre uma diluição letal e uma inócua foi de apenas um fator dez, evidenciando uma curva dose-resposta extremamente íngreme e uma virulência excecional.

Estes resultados ajudam a explicar porque tantas colónias entram em colapso de forma aparentemente súbita. As abelhas adultas infetadas por vírus vivem menos tempo. Quando a taxa de mortalidade das operárias ultrapassa a capacidade da colónia em produzir novas abelhas, o colapso torna-se inevitável. Muitas vezes, quando os sintomas se tornam visíveis, o dano já é irreversível.

A Varroa agrava ainda mais este cenário através do seu comportamento alimentar. Particularmente no outono, o ácaro alterna rapidamente entre várias abelhas adultas, parasitando sucessivamente grande parte da colónia. Mesmo um número relativamente reduzido de Varroas é suficiente para infetar a maioria das operárias, criando uma pressão viral intensa e contínua.

O estudo traz também más notícias no que respeita ao controlo químico. Todos os ácaros recolhidos nas colónias em colapso apresentavam um marcador genético associado à resistência ao amitraz, o acaricida mais utilizado atualmente. A mutação Y215H, associada a essa resistência, estava presente de forma praticamente universal.

Este dado é particularmente alarmante, uma vez que o amitraz tem sido a principal ferramenta de controlo da Varroa após a perda de eficácia de outros acaricidas como o coumaphos e o tau-fluvalinato. A evidência sugere que, nestes apiários, o amitraz já não estava a controlar eficazmente a Varroa, permitindo níveis elevados de infestação e, consequentemente, uma explosão viral.

As implicações são profundas. Colónias em colapso tornam-se focos de reinfestação, libertando Varroas e vírus para colónias vizinhas, especialmente em regiões de elevada densidade apícola. O problema deixa de ser individual e passa a ser populacional, exigindo uma abordagem coordenada e tecnicamente fundamentada.

Este trabalho reforça uma mensagem essencial: controlar a Varroa não é opcional, é vital, mas já não pode ser feito de forma simplista ou dependente de uma única molécula. A gestão eficaz da Varroose é, na prática, uma gestão do risco viral, onde o tempo, o método e a estratégia fazem toda a diferença.

fonte: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2025.05.28.656706v1.full.pdf

É precisamente neste contexto que a formação técnica ganha um papel central. Com base na melhor evidência científica disponível e na experiência de campo, em breve serão abertas novas datas para uma nova edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, dirigido a apicultores que procuram compreender o problema em profundidade e aplicar soluções coerentes, proativas e sustentáveis. Num cenário cada vez mais exigente, o conhecimento deixou de ser um complemento — tornou-se uma ferramenta de sobrevivência.

uma das principais causas da falha dos tratamentos contra a varroa

Desde 2017 que escrevo e alerto para que uma das principais causas da falha dos tratamentos está relacionada com o timing incorrecto em que eles são aplicados. Passados estes anos a mensagem chegou a alguns apicultores; ainda assim um número importante continua a aplicar tardiamente os acaricidas.

Este maneio ineficiente não é exclusivo de Portugal, o mesmo se passa em muitos países, nomeadamente em Inglaterra e País de Gales, como revela a análise dos dados recolhidos de um inquérito nacional aos apicultores destes países.

No sumário da publicação feita a partir da análise dos dados disponíveis no BeeBase da National Bee Unit relativos a inquéritos respondidos por 4.339 apicultores de 37 condados, abrangendo um total de 18.700 colónias, no período de 2016 a 2020, escreve-se:

[…] utilizando dados recolhidos de um inquérito anual nacional a apicultores de Inglaterra e País de Gales, avaliámos o impacto relativo da adesão ao tratamento contra a Varroa nos resultados de saúde das colónias. Os resultados demonstram que menores perdas de colónias durante o inverno estão correlacionadas com o timing correto de aplicação do tratamento, e não apenas pela aplicação do produto, reforçando a importância epidemiológica do momento da aplicação.” (fonte: A large-scale study of Varroa destructor treatment adherence in apiculture; fev. 2025)

Varroa destructor, haplotipo coreano, é a mais virulenta das 4 espécies conhecidas e a que se estabeleceu na Europa.

Os investigadores observaram que os apicultores que falharam o timing de tratamento contra o ácaro Varroa sofreram perdas elevadas de colónias, tendo este efeito ocorrido numa vasta gama de medicamentos — mais do que o medicamento escolhido é o momento da sua aplicação que explica o sucesso ou insucesso do mesmo.

Para além do timing há um outro factor de grande relevância a ser considerado no momento de selecção e aplicação dos acaricidas, excluindo o factor resistência ao princípio activo.

Estes e outros aspectos serão analisados em detalhe no percurso formativo “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano”, que irei iniciar via Zoom no próximo dia 12 de setembro, e para o qual há 2 vagas disponíveis neste momento.

Mais informações devem ser solicitadas para o e-mail: jejgomes@gmail.com

os dados sujos estragam as teorias bonitas ou o pequeno monstro que se agiganta

No âmbito da minha pesquisa pessoal desloquei-me ontem ao apiário de um amigo e por ali andei durante 2h30 a medir a infestação por varroa em amostras de cerca de 300 abelhas de diversas colmeias.

E mais uma vez os dados sujos estragam as teorias bonitas, em particular a teoria de que a varroa pode ser controlada com recurso a dois tratamentos anuais, teoria implícita da DGAV e PAN, que com a obrigação e comparticipação de apenas dois medicamentos/ano enviam um sinal errado à comunidade apícola, e a teoria abelheira de que enquanto não se observar varroas a cavalo nas abelhas a colónia está bem e recomenda-se.

Mas os dados sujos que vou colectando em apiários de amigos contam uma história muito diferente. Por ex. os dados recolhidos ontem são elucidativos: uma colónia que na primeira quinzena de abril tinha uma taxa de infestação de 2% (6 varroas caídas de 300 abelhas lavadas com álcool) ontem, apenas um mês passado, está nos 5,6% (21 varroas caídas de 365 abelhas e 9 zângãos lavados com álcool). Este é um dos meses em que a taxa de infestação triplica num período de cerca de 30 dias.

Como fiquei um pouco admirado com a queda tão elevada de varroas, fiz questão de contar uma a uma as abelhas e zângãos da amostra. Os 9 zângãos na amostra não são demais, pelo contrário, deveriam ser mais, para aumentar a representatividade da mesma.
Nesta amostra caíram 13 pequenos monstros mais os 8 que ficaram agarrados às paredes do copo de testes.
E é neste ninho que a população de varroas se agiganta a passos muito largos e em períodos muito curtos. Bee careful!

varroose: repliquem os números, não a estratégia

Na publicação anterior descrevi o caso de um apicultor amigo que depois de 5 tratamentos anuais chegou à última contagem de varroas do ano (em 22 de dezembro) com uma infestação abaixo dos 0,3%.

É possível que alguns leitores tenham feito uma leitura enviezada do fulcro da mensagem, que julguei ter deixado clara. A mensagem para nos lembrarmos é: não deixar a taxa de infestação subir acima de 1% para decidir tratar, tratar um a dois meses antes desta atingir os 3 a 4%, tratar quando a contagem de varroas por 300 abelhas nos dá 3 a 4 varroas e não 9 a 12 — ter bem presente que o número de varroas duplica a cada 30 dias.

Naturalmente que a estratégia tem a sua importância, quanto mais não seja para comunicar aos outros o caminho que seguimos para chegar aos resultados. Mas o caminho pode ser outro, e até um caminho melhor. Dito isto, o que mais deve relevar do caso descrito não são os meios mas sim os números, a taxa de infestação quando iniciamos os tratamentos e a taxa de infestação quando concluímos os tratamentos, e esta na minha opinião e de outros, como Russel Heitkam, desejavelmente não deve ultrapassar 1% em qualquer circunstância.

Se para isso são necessários cinco, três ou dez tratamentos é uma reposta que cada um tem que ser capaz de dar em função das avaliações que fizer das taxas de infestação nas suas colónias.

Para ilustrar estas ideia recorro uma vez mais ao simulador do Randy para nos ajudar a perceber que o que mais importa é replicar os números (os resultados, as taxas de infestação que o meu amigo atingiu a partir de agosto) e não o caminho (os caminhos podem ser outros).

Exemplo de um caso simulado em que 5 tratamentos ao longo do ano não salvam as colónias. Quando tratamos colónias demasiado tarde (com mais de 3 a 5 % de infestação) a eficácia dos tratamentos é mais baixa e o número de varroas presentes no final do tratamento mantém-se elevado. Nestes casos a escalada da infestação para valores estratosféricos acontece rapidamente (num intervalo de tempo de um a dois meses), levando os apicultores à perda do controlo da situação e à perda de quantidade apreciável de suas colónias.

a montanha russa da infestação por varroa em dois apiários de um amigo

A primeira imagem que me ocorre de uma montanha russa são aqueles picos elevados antecedidos e seguidos por vales profundos, isto é uma estrutura com altos e baixos. Esta imagem pode ser aplicada com toda a pertinência às taxas de infestação por varroa em abelhas adultas, avaliadas por lavagem, em dois apiários de um amigo do distrito de Bragança. Uma nota prévia: os dois apiários foram submetidos ao mesmo programa de tratamentos durante o ano e até agora.

Vamos aos dados que me fez chegar: num dos apiários as amostragens realizadas em três das cerca de 50 colónias ali assentes deram resultados de infestação baixos, uma varroa no conjunto das 3 amostras de abelhas — infestação abaixo de 1%.

No outro apiário os dados parecem ser de outro planeta: de 6 amostras feitas, num apiário com uma dimensão semelhante ao anterior, temos uma colónia com 98 varroas em 222 abelhas, isto é uma infestação de 44,1% e, no pólo oposto, uma outra colónia com 1 varroa em 260 abelhas, 0,4% de infestação. As taxas de infestação nas restantes 4 colónias são: 1,8%, 4,8%, 5,7%, 7,8%.

As 98 varroas que sairam das 222 abelhas após a sua lavagem.

Relembro, todas as colónias destes dois apiários receberam o mesmo programa de tratamentos até à data. Por razões que dispensam mais explicações, o meu amigo está a re-tratar todas as colónias deste segundo apiário e aplicar-lhe em simultâneo uma medida de urgência conhecida como “rasca la cria”.

O meu amigo, e bem, fez a avaliação da taxa de infestação no seu segundo apiário, mesmo tendo obtido resultado muito positivos no primeiro. É esta realidade não-linear, rugosa, com altos e baixos que torna o controlo da varroose tão complexo.

o caso australiano e o vilão do síndrome do colapso das colónias (colony collapse disorder)

Beekeeping in Australia

Na Austrália utilizam-se neonicotinóides e outros pesticidas. Na Austrália a Nosema apis e Nosema ceranae está presente. Na Austrália a varroa era um parasita ausente até ao ano passado. Na Austrália não se verificou o Síndrome do Colapso das Colónias (Colony Collapse Disorder).

Na UE e nos EUA utilizam-se neonicotinóides e outros pesticidas. Na UE e nos EUA a Nosema apis e Nosema ceranae está presente. Na UE e nos EUA a varroa é um parasita presente desde os anos 80 e 90, respectivamente. Na UE e nos EUA verificou-se o Síndrome do Colapso das Colónias.

Não é preciso ter o talento do Sherlock Holmes para descobrir o principal vilão do Síndrome do Colapso das Colónias!

Recomendo esta publicação, o capítulo seguinte deste policial.

vírus da criação ensacada

Já viu este cenário? Se sim, viu larvas afectadas pela doença da criação ensacada.

A doença da criação ensacada é pouco conhecida pelos apicultores , pelo que vou percebendo nos grupos de apicultores. É, no entanto, uma virose relativamente frequente nas abelhas. Foi a primeira virose descrita em abelhas, no início de sec. XX. Geralmente não é letal ao ponto de condenar uma colónia ao colapso.

O vírus da criação ensacada é causado por um vírus do género Iflavirus. O vírus afeta principalmente larvas de operárias, mas também pode infectar abelhas adultas. Acredita-se que as larvas sejam infectadas pela alimentação já contaminada com o vírus. A partir deste momento o vírus multiplica-se no interior das larvas infectadas. Estas larvas morrem logo após a operculação do alvéolo. O vírus da criação ensacada pode permanecer viável em larvas mortas, mel ou pólen até quatro semanas.

O vírus da criação ensacada pode infectar abelhas adultas, mas não produz sintomas visíveis. As infecções do vírus da criação ensacada são mais observáveis quando o vírus infecta as larvas.

Opérculo ligeiramente removido numa pupa infestada com o vírus da criação ensacada.

Os sintomas típicos do vírus da criação ensacada são:

  • Um padrão de criação irregular com opérculos descoloridos, afundados ou perfurados espalhados nos quadros com criação. Isto geralmente é provocado pelas abelhas adultas que procuram remover a criação infectada;
  • As larvas infectadas morrem logo após a operculação e não conseguem pupar;
  • A larva morre com a cabeça caracteristicamente levantada em direção ao topo do alvéolo e esticada de costas no alvéolo (isto é, em forma de banana);
  • Após a morte, as larvas infectadas mudam de um branco pérola e saudável para amarelado e depois para acastanhado. O escurecimento inicia-se na cabeça da larva morta e espalha-se para o resto do corpo;
  • A cutícula da larva morta transforma-se num saco resistente, cheio de líquido. É esta fase da infecção que dá nome ao vírus. O saco pode ser cuidadosamente removido do alvéolo intacto;
  • As abelhas ama geralmente abrem o opérculo expondo ou removendo as larvas mortas. A abertura geralmente é irregular;
  • Após o estágio de saco, as larvas começam a secar, formando uma escama quebradiça, de cor castanho-escura, que é facilmente removida do opérculo; Estas larvas em decomposição não libertam um odor forte, ao contrário das larvas em decomposição por loque americana.
Larva infectada no opérculo mostrando a mudança de cor e as peças bucais a ficarem pretas e a apontar para cima.

O vírus da criação ensacada também pode afetar as abelhas adultas:

Abelhas adultas com menos de oito dias de idade são infectadas quando ingerem o vírus. O vírus pode ser ingerido através de alimentos contaminados ou pela remoção de larvas que foram mortas pelo vírus da criação ensacada.
As abelhas adultas infectadas não apresentam sintomas óbvios. No entanto, as glândulas hipofaríngeas (são as glândulas que produzem geleia real/alimento para a criação) das abelhas ama são infectadas. Acredita-se que as abelhas ama infectadas possam passar o vírus para as larvas enquanto as alimentam. As abelhas adultas que foram infectadas com o vírus tendem a não alimentar as larvas por muito tempo; geralmente param de comer pólen (uma mudança comportamental associada ao vírus) e tornam-se forrageadores ainda jovens. Durante o forrageamento, as operárias infectadas geralmente tendem a não colectar pólen, no entanto, qualquer pólen coletado pode estar contaminado com o vírus e pode actuar como uma fonte de infecção para outras abelhas na colónia.

As larvas infectadas mudam para castanho-escuro-escuro à medida que a doença progride.

As abelhas geralmente são capazes de controlar o vírus vírus da criação ensacada na maioria das colónias por meio do comportamento higiénico e da capacidade de detectar e remover larvas infectadas. No entanto, esta virose pode tornar-se grave quando combinado com outros stressores, como escassez de néctar ou pólen, condições climáticas desfavoráveis, ou infestação por outras pragas e/ou doenças, em particular a varroose. Quando estas situações ocorrem, os apicultores devem tomar medidas para restaurar a população da colónia, aumentando a população de abelhas operárias ou fornecendo xarope de açúcar e/ou pólen.

Os apicultores podem proteger as suas colmeias inspecionando regularmente os sinais da doença. Se o vírus da criação ensacada for detectado em mais de 5% da criação, os quadros com criação infectados devem ser removidos e derretidos.

fonte: https://beeaware.org.au/archive-pest/sacbrood/#ad-image-0

Nota: os especialistas para esta e outras viroses, e até outras doenças, recomendam a mudança de rainha como medida resolutiva. Cada vez mais me parece que esta estratégia surge como panaceia, como a “chave que tudo resolve”. Não afirmo que não possa contribuir em alguns casos para a resolução, mas os resultados desta estratégia estão longe de serem garantidos.

nova estirpe de vírus mais virulenta espalha-se pelas colónias de abelhas na Europa

Os vírus são das principais causas de mortalidade em espécies sociais (ver o caso da recente pandemia COVID-19). Também as colónias de abelhas são afectadas por vírus, e entre outros destaca-se o Vírus das Asas Deformadas (VAD), que pela sua virulência e ubiquidade está fortemente associado ao colapso de muitos enxames de abelhas melíferas europeias. Como sabemos, um dos mais importantes vectores do VAD entre as abelhas são os ácaros varroa.

Devemos estar cada vez mais conscientes que os vírus em geral, e o VAD em particular, são uma bomba de destruição massiva de colónias de abelhas. As abelhas infectadas com este vírus apresentam dois sintomas, um que afecta as asas e outro o sistema nervoso:

  • as asas das abelhas afetadas pelo VAD encolhem e deformam-se, as abelhas ficam impedidas de voar e com a vida substancialmente encurtada;
  • noutros casos os vírus atacam o sistema nervoso das abelhas, a tal ponto que acabam por perder o sentido de orientação. Resultado, elas não conseguem encontrar o caminho de regresso à sua colmeia.

Estes fenómenos provocam, obviamente, o despovoamento acelerado das colmeias, que é confundido com a deserção/abandono das abelhas da colmeia por muitos apicultores.

Uma nova estirpe de vírus mais virulenta ocupa o lugar da anterior estirpe

Como sabemos da nossa recente experiência pandémica, os vírus sofrem mutações frequentes, das quais emergem novas estirpes mais ou menos virulentas, algumas das quais tendem a tornar-se prevalentes na população dos hospedeiros. Ora foi o que aconteceu recentemente com o VAD: sofreu uma mutação, mutação essa que está a tomar o lugar da estirpe anterior (VAD-A), a tornar-se prevalente nas colónias de abelhas pela Europa fora. Infelizmente esta nova estirpe (VAD-B) é mais virulenta: transmite-se mais facilmente e mata mais rapidamente os seus hospedeiros (em regra em 48h). Com esta nova estirpe as colónias de abelhas estão em maior risco do que estavam num passado recente.

Como referido no artigo Virus des ailes déformées (DWV-B) : le variant mortel qui menace les abeilles dans le monde entier, publicado em 2022: “Em entrevista à Bee Culture (revista americana de apicultura), os autores do estudo* apontam que a nova variante (DWV [VAD]-B) mata as abelhas mais rapidamente e é transmitida com mais facilidade que o DWV [VAD]-A. Eles identificam claramente o DWV [VAD] como a maior ameaça às colónias de abelhas“.

(fontes: https://www.blog-veto-pharma.com/virus-des-ailes-deformees-dwv-un-nouveau-variant-mortel-menace-les-abeilles-dans-le-monde-entier/; https://www.apiculture.net/blog/un-nouveau-virus-menace-les-colonies-d-abeilles-n410)

* Paxton, Robert J., et al. “Epidemiology of a major honey bee pathogen, deformed wing virus: potential worldwide replacement of genotype A by genotype B.” International Journal for Parasitology: Parasites and Wildlife 18 (2022): 157-171.

Na ausência de tratamento para este e outros vírus que fragilizam e reduzem de forma significativa a longevidade e funcionalidade das abelhas fazendo perigar a sobrevivência das colónias, a solução para reduzir o impacto desta ameaça passa por baixar a presença dos seus vectores, neste caso o ácaro varroa. Para tal o apicultor deve fazer os tratamentos atempadamente, com eficiência e eficácia, para salvaguardar o estado sanitário das abelhas, em particular as de inverno que começam a ser criadas no final de agosto/princípio de setembro em muitas das nossas colónias.

les virus, première cause de mortalité des abeilles (os vírus, a principal causa de mortalidade das abelhas)

Deixo em baixo a tradução de uma entrevista a Philippe Lecompte, apicultor profissional no Marne e presidente da Réseau biodiversité pour les abeilles (RBA), publicada no início deste ano. Sobre os vírus e a varroa tenho escrito muito, sobre os neonics pouco ou nada. Esta opção é reveladora do meu pensamento e do alinhamento do pensamento de Philippe Lecompte com o meu. Está na hora de dar um passo em frente e ultrapassar o debate conflituoso e mal orientado entre a agricultura e a apicultura.

“A mortalidade das abelhas nunca foi tão alta como no inverno passado, diz Philippe Lecompte, apicultor profissional no Marne e presidente da Réseau biodiversité pour les abeilles (RBA). Ao contrário da crença popular, os produtos fitossanitários e, em particular, os neonicotinóides (NNI), não são responsáveis ​​por esta mortalidade sem paralelo. O desenvolvimento de populações de vírus é a principal causa. »

60 vírus letais estão permanentemente presentes numa colmeia. A partir de certo limiar, as defesas imunológicas das abelhas não são suficientes para os enfrentar. Elas desenvolvem patologias e enfraquecem até morrer. Philippe Lecompte não entende. “Há mais de 10 anos que os cientistas alertam sobre o desenvolvimento de populações virais e as consequências devastadoras associadas, mas ninguém quer ouvir isso.”

O apicultor acredita que o conhecimento científico enfrenta dificuldades para ser divulgado aos apicultores. Apenas 12% deles acham que os vírus representam um problema para as colmeias, segundo a ANSES. “Infelizmente é muito pouco, lamenta Philippe Lecompte. Estamos em negação. Precisamos mudar nosso raciocínio e ter outra visão da apicultura e suas questões.”


Desde a década de 1980, vários parasitas exóticos colonizaram a França, incluindo o ácaro varroa. Eles representam verdadeiras portas abertas para os vírus. Em território francês, as abelhas não evoluíram com esses parasitas, o que explica as suas dificuldades para se proteger contra eles. “Um vírus multiplica-se intensamente, o que inegavelmente leva a erros de multiplicação genética e ao desenvolvimento de novas estirpes”, explica o apicultor. Transmissor direto e indireto, o varroa recombina vírus e amplifica sua patogenicidade. Isso cria uma competição entre os vírus e os hospedeiros que os combatem.

Estamos a assistir a um verdadeiro problema viral que merece ser explicado aos apicultores e por eles combatido”, adverte Philippe Lecompte. Ele fica aborrecido ao observar que, nos últimos dois anos, muitas publicações se concentraram no vírus das asas deformadas (vírus DWV), transmitidos pelo ácaro varroa, são esquecidas. Em níveis baixos, este vírus causa grandes distúrbios na orientação espacial e no sistema nervoso das abelhas*. “Ainda temos pouco conhecimento e, no entanto, o alerta sobre esta questão da virologia existe desde a década de 1980 e foi ampliado desde os anos 2000! Hoje, cerca de 30% do orçamento para pesquisa em apicultura é dedicado ao combate à varroa. Mas nada está planeado para estudar as consequências dos vírus e seus efeitos devastadores na saúde das abelhas”.

Os restantes 70% do orçamento destinam-se a financiar estudos sobre o impacto dos produtos fitossanitários na mortalidade das abelhas. “Esta pesquisa é altamente divulgada. Assim, podemos compreender facilmente porque os produtos fitossanitários (NNI, SDHI e até o glifosato) provocam tanto descontentamento entre os apicultores, protesta Philippe Lecompte. Os produtos fitossanitários são o bode expiatório da apicultura quando não há comprovação científica de que sejam os responsáveis ​​pela massiva e recorrente mortalidade das abelhas. É certo que os laboratórios conseguem medir uma ínfima concentração de produtos fitossanitários nas colmeias. Mas e quanto ao seu efeito na saúde da colmeia?

Para o apicultor profissional, a implantação de técnicas como a espectrometria de massa permitiria determinar a presença e o impacto de ataques virais e outros stressores, a fim de antecipar problemas relacionados com a saúde da colméia. “Precisamos investir nessa nova tecnologia extremamente promissora”, explica o apicultor. Esta é uma das condições para sair dos debates conflituosos entre agricultura e apicultura.

fonte: https://www.cultivar.fr/sinformer/les-virus-premiere-cause-de-mortalite-des-abeilles

Excelente Philippe Lecompte! Chapeau!

Uma amostra da importância que tenho dado neste blog à questão dos vírus, em particular o vírus das asas deformadas (VAD).

Nota: sobre os impactos da varroose na orientação das abelhas publiquei em 2019.