tabuleiros divisores: como os construo

Escrevi aqui a propósito dos tabuleiros divisores simples: “Podemos fazer este tabuleiro a partir de prancheta normal com algumas modificações muito simples, ou fazê-lo de raiz, desde que esteja de acordo com as características referidas.”

Vou descrever com mais algum detalhe como os faço a partir de pranchetas, geralmente as mais usadas.

Acerca das molduras:

  1. Numa carpintaria profissional mando cortar ripas de pinho, com 1 cm de altura, 2,5 cm de largura e perímetro com as dimensões exactas de 3 dos lados da moldura das pranchetas;
  2. No lado 4 (lado menor nos caso das Langstroth) mando cortar 2 ripas com um cumprimento que permita deixar uma abertura/espaço livre com 10 cm no centro para fazer a entrada;
  3. Prego estas ripas sobre a moldura original da prancheta e apenas numa das faces. Para o efeito utilizo um agrafador automático ligado a um compressor de ar. Esta moldura fica, no final, com uma altura de cerca de 1,5cm em relação ao plano formado pelo fundo/platex da prancheta (1 cm das ripas+0,5 cm da moldura original da prancheta);
  4. Na entrada, com cerca de 10 cm e que fica sempre aberta, não estou a utilizar a pequena ripa que se vê na imagem para a fechar.

Acerca do orifício aberto no centro da prancheta:

  1. Faço um corte quadrado com cerca de 10 cm de lado no centro da prancheta;
  2. Corto 2 quadrados de rede mosquiteira de metal, com uma malha não superior a 3mm, com cerca de 12 cm de lado, para cada tabuleiro;
  3. Colo estes 2 quadrados de rede, um em cada face da prancheta, com recurso à cola térmica e respectiva pistola.

Notas:

  1. No início e para tapar o orifício central  utilizei rede em plástico rígido em alguns tabuleiros. Verifiquei que as abelhas conseguiram roe-la quando os tabuleiro ficaram mais tempo nas colmeias;
  2. Com as redes em metal não verifiquei este problema, mas em alguns dos tabuleiros que ficaram mais tempo as abelhas propolisaram parcialmente a rede, diminuindo, julgo eu, a troca de odores entre as duas colónias. Neste caso e se pretendermos juntar as colónias, poderá ser necessário utilizar algumas das outras técnicas conhecidas para o efeito.

o tabuleiro de Snelgrove: uma introdução

Tenho de confessar que sou um adepto cada vez mais arraigado da utilização de tabuleiros divisores para as mais diversas situações, entre as quais destaco a prevenção e o controle da enxameação, o desenvolvimento de colmeias produtivas, a renovação de rainhas e a gestão do número de efectivos/colónias que disponho, no sentido de o aumentar ou de o manter.

Neste enquadramento, a meu ver é perfeitamente justo fazer aqui uma singela homenagem ao homem que levou a utilização do tabuleiro divisor a um patamar de genialidade, refiro-me a Louis Edward Snelgrove. Ao iniciar esta temática espero que, para lá da homenagem a este grande nome da apicultura moderna, nos ajude a todos a ver caminhos que nos permitam ter e fazer uma apicultura cada vez mais produtiva, simples e económica.

O tabuleiro de Snelgrove: O método Snelgrove foi inicialmente descrito por Snelgrove no seu livro de 1934, “Enxameação: controle e prevenção”. Este método surge na sequência de décadas de manipulação de colmeias usando vários tipos de tabuleiros e grelhas excluidoras para separar a rainha da criação. Leonard Snelgrove apresentou o seu tabuleiro divisor na obra mencionada em cima. A maior novidade do tabuleiro de Snelgrove é que apresenta entradas superiores e inferiores com o objectivo de “sangrar/drenar” abelhas campeiras entre o ninho e sobreninho/alça. Este método foi originalmente concebido para fazer a prevenção da enxameação (como por ex. o método Demarée), para ser utilizado pelos apicultores nos dias prévios à enxameação. No entanto mais tarde Snelgrove descreve outras variações que permitem controlar não só a enxameação mas também realizar o aumento do efectivo apícola. Portanto, não há um “método Snelgrove” específico, mas em vez disso um conjunto de técnicas e procedimentos com objectivos diversos baseados na utilização do  tabuleiro de Snelgrove.

wp306af705_06wp43bc9479_06

Fig. 1 e 2 : Exemplo de um tabuleiro Snelgrove e detalhe das suas entradas

No futuro voltarei a este tema para abordar alguns dos princípios, objectivos, técnicas e procedimentos de utilização deste tabuleiro.

um sistema de registo dos apiários, precisa-se…

Se tivesse que escolher um equipamento que ilustre a velha regra 20% das causas produzem  80% dos efeitos sem qualquer dúvida e sem a mais pequena hesitação escolheria o sistema de recolha de dados e de registo que utilizo. Quando iniciei o meu projecto apícola, foi das primeiras questões/problemas que me coloquei. A verdade é que a felicidade que tive na opção que fiz há cerca de 7 anos foi tanta que ainda hoje o mantenho praticamente inalterado nas suas linhas mestras. Serviu-me para as 50 colónias com que iniciei a minha actividade de apicultor profissional e mostrou-se adequado ao longo destes anos de crescimento da minha operação apícola.

Não me devo enganar muito se afirmar que um número considerável dos apicultores não mantém um registo adequado dos aspectos gerais dos seus apiários e dos aspectos particulares de cada colónia nesses apiários. Informações gerais, abrangentes e plurianuais da gestão/maneio dos apiários a juntar a informações mais detalhadas de cada uma das colónias são tão cruciais como os registos financeiros (aquisições e vendas, grosso modo) para maximizar a eficiência do maneio de qualquer empreendimento apícola do mais pequeno ao maior, com maioria de razão se pensarmos nos empreendimentos de natureza profissional.

Uma visita a muitos apiários geralmente revela colónias marcadas por paus, pedras ou outros materiais prontamente disponíveis colocados nos telhados de cada colónia. O arranjo específico desses materiais pode indicar tudo, desde o estatuto da rainha até à necessidade de uma colónia ser alimentada. Dois problemas surgem com este tipo de manutenção de registos. É de curto alcance: uma vez que o estatuto da colónia mude e os materiais sejam rearranjados, a informação anterior é perdida. O sistema também é exclusivo para cada operador, tornando-o não transferível e não-traduzível para outros, como por exemplo empregados/ajudantes a tempo parcial.

Somente se os registos forem escritos terão algum valor histórico. Este é um ponto importante, ainda que colocá-los no papel/computador leve o seu tempo. Infelizmente, não há substituto. Manter registos é tão necessário quanto visitar os apiários para o apicultor que quer ter mais do que uma ideia superficial do estatuto atual das suas colónias. Talvez o maior problema com a manutenção de registo seja decidir quais informações e dados recolher e registar. O grande volume de dados potenciais que podem ser coletados é surpreendente. O apicultor deve escolher cuidadosamente o que é mais importante com base na sua experiência e nos seus objectivos. Os objectivos ajudam a criar registos focados no que é importante, a experiência ajuda a discernir quais os dados que importa registar e quais ignorar.

tabuleiro simples para desdobramento/divisão de uma colónia de abelhas

Este tabuleiro é usado pelos apicultores para dividir uma colónia em duas partes, uma inferior e outra superior, que funcionarão de forma independente.

20150619-31-4-150x150

Fig. 1 — Tabuleiro simples para divisão de uma colónia de abelhas

Este equipamento é utilizados na apicultura desde o final do século 19 e há muitos modelos diferentes. O objectivo básico deste tabuleiro é o de nos permitir isolar uma colónia em duas partes, de modo a que as abelhas não passem de um piso para o outro. Esta característica essencial significa que o tabuleiro tem de incorporar uma entrada própria, que é feita no seu lado superior. A regra usual do espaço abelha deve ser observado tanto no lado inferior como no lado superior do tabuleiro, sendo recomendado que as molduras do mesmo garantam 9mm de espaço entre o plano do tabuleiro e os planos formados pelas duas caixas da colmeia. Para que as abelhas tenham maior facilidade de circulação, pode dar-se um espaço extra, e aumentar até 15 milímetros a altura da moldura no lado superior do tabuleiro. No centro do mesmo deve ser feito um orifício quadrado com 8-10cm de lado que deverá ser tapado de ambos o lados com uma rede com uma malha não superior a 3mm. Este buraco permite dois ganhos fundamentais: por um lado permite que calor gerado pelas abelhas no piso inferior ascenda ao piso superior; por outro lado mantém um odor comum em toda a colmeia o que facilita a reunião do enxame, se necessário for. O tabuleiro de Snelgrove (com suas 8 entradas controláveis) é provavelmente o tabuleiro de divisão mais avançado que conhecemos, mas para um propósito mais simples, como o nosso neste momento, uma única entrada e um só orifício de ventilação é tudo o que é necessário.

images-10

Fig. 2 — Pormenor da entrada no tabuleiro de desdobramentos  (neste caso foram realizadas duas entradas nos dois lados do tabuleiro)

Podemos fazer este tabuleiro a partir de  prancheta normal com algumas modificações muito simples, ou fazê-lo de raiz, desde que esteja de  acordo com as características referidas.

A utilização deste tabuleiro de desdobramentos tem as seguintes vantagens:

  • Para efectuarmos o desdobramento não é necessário um novo assento, ou mais espaço nos assentos existentes;
  • Economiza vários equipamentos, como os estrados e os telhados que são os da colmeia original;
  • O andar superior da divisão é aquecido pelo andar debaixo e, portanto, pode conter menos abelhas;
  • Facilita a re-combinação da colónia, se necessário.

A desvantagem de usar este tipo de tabuleiro é a relativa dificuldade que levanta  à inspecção do andar inferior da colmeia, que não pode ser efectuada sem remover o andar de cima.

unnamed

Fig. 3 — Colónia de abelhas dividida por um tabuleiro de desdobramentos

Contudo, na prática o controle da enxameação pode ser mais espaçado dado que dividimos a colónia, o que significa que a parte inferior requer pouca atenção durante 4-6 semanas, desde que tenha espaço suficiente para armazenar o mel. Para este efeito podemos adicionar uma ou mais alças meleiras, no momento da divisão, por debaixo do tabuleiro de desdobramentos.

a colmeia Dadant nas palavras do seu inventor

A colmeia Dadant, actualmente comercializada em Portugal pelo nome de Jumbo, tem evoluído desde que foi inicialmente concebida nos finais do sec. XIX por Charles Dadant. Em Portugal, e para aqueles que não conhecem o “caixotão”, tem a largura e comprimento de uma Langstroth e a altura de uma Lusitana.

No nosso país é um modelo de colmeia com pouca expressão. No entanto parece estar a renascer um interesse cada vez maior em torno desta colmeia. O Sr. Abílio, da Colmeicentro, referiu-me há uns meses atrás que nos últimos 8 anos tem vindo a reconverter os seus apiários Langstroth para Dadant, e nas suas palavras com vantagens assinaláveis ao nível da produção, enxameação e invernagem. Não há muitos dias, o João Tomé no seu blogue Vale do Rosmaninho, deixa no ar a ideia que também está a amadurecer a ideia de uma possível reconversão do modelo de colmeia que utiliza nos seus apiários. Entre outros, eu próprio já há uns meses, e depois da referida conversa que tive com o Sr. Abílio, apicultor com uma enorme experiência, que já viu mais abelhas que eu verei em 10 vidas juntas, que ando a maturar seriamente a ideia de ensaiar as colmeias Dadant/Jumbo.

Dado este meu interesse consegui obter o livro de C. Dadant, de 1920, intitulado “Dadant System of Beekeeping” e li na fonte o que o inventor refere a propósito das vantagens da Dadant quando comparada com o modelo mais usado na altura, o modelo Langstroth.

Charles_Dadant

Fig. 1 — Charles Dadant (1817-1902), considerado um dos pais fundadores da apicultura moderna

Pelo que se pode ler no livro, a Dadant de 10 quadros tem mais cerca de 1370 cm quadrados (se a conversão das unidades de inches para centímetros foi feita correctamente) que a Langstroth de 10 quadros. Na opinião deste conceituado apicultor, o ninho da Dadant é suficiente para uma rainha prolífera e o ninho da Langstroth é insuficiente. C. Dadant refere a sua experiência de 1876, ano em que trabalhou lado a lado várias centenas de colmeias Dadant e 110 colmeias Langstroth. No mês de Maio escreve que as rainhas nas colmeias Langstroth subiram ao sobreninho, e nas Dadant, pelo contrário, nenhuma rainha tinha subido ao andar superior para aí fazer postura. No seu entender esta foi uma demonstração clara que é necessário mais que um ninho da Langstroth para dar espaço a uma rainha prolífera, numa altura em que o apicultor tem de fornecer as condições para o grande aumento da população de abelhas que lhe permitam a melhor colheita possível. Mais adiante C. Dadant confirma que observaram melhores produções nas colmeias Dadant quando comparadas com as produções obtidas nas Langstroth.

Dadant comenta ainda as desvantagens do duplo ninho nas Langstroth, as quais tenho também observado. Relata que quando uma rainha sobe ao segundo ninho hesita em voltar para o ninho debaixo. Em colmeias deste modelo com o ninho, sobreninho e um terceiro corpo igual ao ninho (colmeia com 3 andares ou 3 corpos) refere inclusive a possibilidade de a rainha dispersar a postura pelo três andares. Estas opções dão espaço excessivo à rainha, mas obriga o apicultor a várias manipulações de transferência de quadros de cima para baixo e vice-versa e/ou inversão da posição do ninho e sobreninho.

Dadant conclui dizendo que quer um ninho que não seja demasiado largo nem demasiado pequeno, capaz de acomodar uma rainha prolífera nesta divisão principal da colmeia, reservando o espaço superior das meias-alças para o armazenamento do mel.

Concluo este post dizendo que a minha experiência com as Dadant é nula, mas quero experimentar, porque os sinais que vou obtendo ao longo de seis anos com abelhas, parecem-me indicar que os ninhos Dadant me poderão trazer mais alegrias que as alegrias que tenho tido com os ninhos Langstroth e os ninhos Lusitanos. Esta experiência me dirá que caminho seguir depois.

colmeias de poliestireno denso

As colmeias de poliestireno denso já se utilizam há várias décadas na Europa central, e nos últimos vintes anos tem-se assistido à sua massificação.

blog_Pre-Flipped-Hive-150x150

Fig. 1 — Colmeia de poliestireno

Contudo a Península Ibérica tem resistido, como uma célebre aldeia gaulesa resistiu ao avanço do Império Romano, à invasão deste tipo de colmeias. Desconheço quais as razões, mas não me custa a crer que entre outras esteja o seu preço três vezes mais elevado que o de uma colmeia em madeira, assim como o desconhecimento por parte dos apicultores de algumas das vantagens apontadas pelos que as utilizam há anos.

Estes apicultores referem que as colmeias de poliestireno trazem um conjunto de vantagens à apicultura quando comparadas com a tradicionais colmeias fabricadas em madeira:

  • as colónias, em regra, começam a desenvolver-se 2 a 3 semanas antes;
  • as abelhas são mais madrugadores e começam a sair da colmeia mais cedo no dia;
  • as colónias tornam-se mais produtivas porque aproveitam melhor os fluxos de néctar (alguns referem aumentos de produtividade na ordem dos 25%).

 

As colmeias construídas em poliestireno são colmeias que pelo seu maior coeficiente de isolamento (várias vezes superior ao da madeira) também apresentam vantagens na criação de novos enxames e rainhas:

  • ­o desenvolvimento mais temporão dos enxames significa uma temporada mais longa para fazer divisões de enxames e criar rainhas;
  • o maior isolamento do poliestireno quando comparado com a madeira significa que não existem quadros frios nas zonas mais  laterais das colmeias, permitindo à rainha fazer postura nestes quadros, e consequentemente permite ao apicultor fazer mais divisões do enxame mãe.

O coeficiente de isolamento mais elevado do poliestireno permite aumentos importantes na força de trabalho e consequentemente na produção de mel. Nos dias mais quentes as abelhas dispendem menos tempo e energia a manter a colmeia fresca, passando a estar disponíveis durante mais horas para a colecta do néctar. No inverno estas colmeias permitem à colónia permanecer mais aquecida com um consumo mais baixo de calorias, necessitando de menor quantidade de reservas para passarem o inverno.

Os apicultores do centro da europa referem que as colmeias de poliestireno permitem à colónia passar o inverno num ambiente interno menos húmido, mais seco e saudável. Por fim referem que as colmeias feitas neste material duram anos e anos, com pouca ou nenhuma manutenção.

Não tenho experiência com estas colmeias de poliestireno de alta densidade mas espero testar em breve algumas colmeias fabricadas pela Paradise Honey e pela Lyson.

search

Fig. 2 — Colmeia de poliestireno da Paradise Honey

Se alguém já experimentou este tipo de colmeia, porque não aproveitar para fazer um comentário com a sua avaliação acerca da performance destas colmeias em território luso.