o efeito de diferentes varroacidas na acidez das reservas de mel de inverno e nas reservas de mel da primavera e verão

Este estudo de 2012 ajuda-nos a avaliar um outro ângulo em torno do impacto dos tratamentos com ácidos orgânicos nas nossas abelhas.

Resumo: O objetivo do estudo foi avaliar o efeito de varroacidas selecionados sobre o pH (grau de acidez) nas reservas de mel de inverno, nas reservas de mel da primavera e nas reservas de mel de verão de colónias de abelhas. Com este objectivo estabeleceram-se cinco grupos experimentais, cada um constituído por cinco colónias. O grupo controle foi composto por colónias que não foram tratados contra a varrose. Os outros grupos foram tratados com ácido oxálico, ácido fórmico,  Apivarol (tratamento à base de amitraz) e Bee Vital Hive Clean. A acidez das reservas de mel foi determinada. […] Verificou-se que o ácido oxálico reduz significativamente o pH das reservas de mel de inverno (grupo de controle: pH = 3,65; grupo tratado com ácido oxálico: pH = 3,29) assim como no mel da primavera (controlo pH = 3,87, grupo tratado com ácido oxálico: pH = 3,73). O ácido fórmico diminuiu significativamente o pH do mel de verão (grupo de controlo: pH = 3,73; grupo tratado com ácido fórmico: pH  = 3,56). O Apivarol e o Bee Vital Hive Clean não exibiram qualquer impacto significativo sobre o pH nas reservas de mel de inverno, nas reservas de mel da primavera e nas reservas de mel de verão.

CONCLUSÃO: Até agora, acerca dos ácidos orgânicos considerados eficazes no tratamento da varroose, tem sido dito que não afetam a qualidade do mel. Contudo, os ácidos orgânicos estudados (ácido oxálico e ácido fórmico)apresentam um impacto a longo prazo sobre as colónias de abelhas, porque diminuem o pH do mel até 7 meses após a sua aplicação.

Fonte: http://wydawnictwo.up.lublin.pl/annales/Zootechnica/2012/1/annales_2012(1)_zoot_art_02.pdf

morte de colónias de abelhas ligada à baixa viabilidade espermática nas rainhas e análise de potenciais fatores causais

A saúde da rainha está intimamente ligada ao desempenho das colónias de abelhas, uma vez que uma única rainha é normalmente responsável por toda a criação na colónia. Nos Estados Unidos, nos últimos anos, as rainhas têm falhado a um ritmo elevado, com 50% ou mais de rainhas substituídas nos primeiros 6 meses, quando historicamente uma rainha se mantém prolífica durante o primeiro e segundo ano de vida. Esta alta taxa de falha das rainhas coincide com a alta taxa de mortalidade das colónias nos EUA, alguns anos superando os 50%. No presente estudo, investigou-se se a viabilidade espermática em rainhas dos EUA desempenha um papel nas perdas de colónias. Observou-se uma ampla variação na viabilidade espermática nos quatro grupos de rainhas retiradas de colónias classificadas pelos apicultores em duas categorias: colónias de boa saúde e colónias a falhar.

As rainhas removidas de colónias com boa saúde apresentaram uma média alta de viabilidade espermática (cerca de 85% dos indivíduos), enquanto aquelas consideradas deficientes ou com má saúde apresentaram uma média significativamente menor (apenas cerca de 50% dos indivíduos). A baixa viabilidade espermática foi correlacionada positivamente com o desempenho da colónia. Para investigar a fonte de baixa viabilidade dos espermatozóides, rainhas de seis criadores de rainha foram avaliadas tendo sido documentada ​​uma grande variação na viabilidade espermática (faixa entre 60-90%). Esta variabilidade pode ter origem nos zangãos com que as rainhas acasalam ou nas temperaturas extremas que as rainhas estão expostas durante a expedição (habitualmente por avião). O papel da temperatura de expedição como possível explicação para a baixa viabilidade espermática foi analisada. Foi documentado que durante a expedição as rainhas são expostas a picos de temperatura (de 8ºC até 40°C) e estes picos podem matar 50% ou mais do esperma armazenado na espermateca das rainha. A viabilidade esperada dos espermatozóides está claramente ligada ao desempenho das colónias e os dados laboratoriais e de campo fornecem evidências de que as temperaturas extremas a que estão sujeitas durante o transporte são um potencial factor causal da baixa viabilidade espermática num número significativo de rainhas.

fonte: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0147220

P.S.: Os apicultores portugueses ao fazerem encomendas de rainhas estrangeiras, que habitualmente transitam durante horas/dias em aviões e/ou transportes rodoviários correm os riscos acima referidos? Não será demasiado audacioso pensar que a realidade europeia não deverá diferir em nada da realiadade norte-americana.

variação na produção de mel por colmeias de abelhas africanizadas em função da época de introdução de rainhas jovens

Como forma de retribuir a simpatia que os apicultores brasileiros têm demonstrado através do elevado número de consultas ao meu blog deixo este resumo de um estudo realizado no Brasil e recentemente publicado.

RESUMO:

O objetivo deste trabalho foi avaliar a produção de mel por colmeia e as taxas de postura de ovos das rainhas produzidas nos anos de 2007, 2008 e 2010. Foram utilizadas 30 colônias iniciadas com uma rainha/colônia por estação climática, durante os três anos. A cada ano, iniciou-se em: janeiro (verão), abril (outono), julho (inverno) e outubro (primavera) e encerrouse doze meses depois, nos mesmos períodos referentes a cada estação dos anos posteriores. As melgueiras foram pesadas antes e depois da centrifugação para avaliar a quantidade do mel estocado. As colônias com rainhas introduzidas durante o outono e o inverno nos três anos produziram 57,2±6,0kg e 60,7±7,5kg de mel, respectivamente, no primeiro ano de atividade de produção após a introdução das rainhas nas colônias iniciais, valores significativamente superiores aos obtidos para as colônias com rainhas introduzidas no verão (39,3±7,6kg) e na primavera (41,8±3,7kg). As taxas de postura de ovos das rainhas foram mais altas na primavera e no verão (98,2±3,9% e 88,4±7%, respectivamente), indicando maior fluxo de alimento (floradas) nessas épocas, quando comparadas às médias do outono e inverno (30,3±8,1% e 24,5±7,2%, respectivamente). Constatou-se que é economicamente viável produzir rainhas e introduzir em colônias iniciais de Apis mellifera africanizada durante o outono e inverno. Além da produção de mel das colônias iniciadas nesses períodos ser superior, elas terão maior estabilidade populacional em épocas de escassez de floradas.

fonte: http://www.scielo.br/pdf/cr/v46n5/1678-4596-cr-0103_8478cr20151126.pdf

Aproveito a oportunidade para perguntar aos companheiros brasileiros se a varroa já é um problema grande no Brasil. Um abraço a todos e a melhor sorte para esta safra.

abelhas estrangeiras: um tiro no pé?

A COLOSS (http://www.coloss.org/), uma associação em rede de investigadores europeus, foi criada para estudar as causas de perdas de colónias de abelhas. Dentro desta rede, um grupo de trabalho dedicado à Criação Sustentável de Abelhas, (http://www.beebreeding.net/) concentra-se na área “Diversidade Genética e Vitalidade”. Desde há muito que parece existir uma interação entre o genótipo (herança genética) e o meio ambiente, com impacto na vitalidade das colónias. Na Europa têm-se verificado algumas variações importantes nas perdas de colónias em diferentes regiões/países. A principal hipótese avançada foi que a saúde das colónias de abelhas não pode ser entendida sem considerar a variabilidade genética das populações de abelhas e sua adaptação a fatores locais como o clima, a vegetação e doenças prevalecentes.

Nos últimos anos foi elaborado um abrangente plano de pesquisa em torno das interações genótipo-ambiente nas abelhas a uma escala europeia. Os resultados deste grupo de experimentos deu origem a seis artigos já publicados. Eles revelam a existência de interações significativas entre a origem genética das abelhas o meio ambiente. Um total de 621 colónias de 16 origens genéticas diferentes foram colocadas em 21 apiários, em 11 países europeus diferentes e geridos por 15 parceiros de pesquisa. Cada local abrigava um conjunto de colónias de origem local (nativas), juntamente com pelo menos dois conjuntos de colónias de origem não-local, menos adaptadas às condições ambientais. As colónias foram criadas no final do verão de 2009 e foram avaliadas de acordo com um protocolo padrão utilizado por todos os parceiros. Nenhum tratamento químico contra ácaros ou doenças foi realizado para permitir a expressão de fatores de tolerância. Além de parâmetros como a hibernação e a formação de colónias, foi dada atenção a parâmetros de vitalidade, como o nível de infestação de ácaros, comportamento e a ocorrência de outras doenças.

As conclusões deste extenso experimento de campo confirmou a maior vitalidade das abelhas locais em comparação com as estirpes não-locais. Estes resultados indicam que é possível uma apicultura mais sustentável utilizando abelhas e rainhas das populações locais. Estas interações genótipo-ambiente nunca antes tinham sido provadas numa escala tão grande. Estas conclusões podem surpreender alguns apicultores que acreditam que rainhas compradas de fontes fora de sua própria região são de alguma forma “melhores” do que as abelhas que já têm nos seus próprios apiários.

Existem agora evidências crescentes dos efeitos adversos do comércio internacional de abelhas, que levaram num passado mais ou menos recentes à propagação de novas pragas e doenças como o ácaro varroa e o nosema ceranae. A equipa de investigadores está esperançados que as provas fornecidas nestes artigos inspirem apicultores e cientistas a explorar e apreciar o valor das abelhas criadas localmente e a desenvolver e apoiar programas de melhoramento dos ecotipos/raças locais. As importações que podem resultar na introdução de novas pragas e agentes patogénicos, apresentam outros perigos como a inevitável perturbação da integridade genética das populações locais. A disseminação de genes importados na população local é provável, e o aumento da diversidade genética não é necessária e universalmente benéfica. Uma vez que genes mal adaptados serão selecionados/eliminados através da elevada mortalidade/menor longevidades das abelhas, esse processo a curto prazo pode contribuir para a perda de colónias, e a longo prazo, revela-se insustentável.

Fonte: http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.3896/IBRA.1.53.2.01

uma nova formulação de ácido oxálico (Aluen CAP) para controle de Varroa destructor aplicada em colónias de Apis mellifera na presença de criação operculada

Sabemos que a eficácia dos tratamentos com ácido oxálico é diretamente influenciada pela presença de criação operculada porque o ácido oxálico não mata os ácaros na criação operculada (Imdorf et al., 2003). A sua eficácia quando a criação operculada está presente é de cerca de 60% (Charrière 1997, Rademacher e Harz 2006). Assim, a utilidade do ácido parece limitada em climas quentes com um longo período de criação. Tendo em conta que o ácido oxálico é um composto adequado para o controle de V. destructor em colónias sem criação operculada durante o período de outono e inverno, dentro do conceito de Controlo Integrado da Varroa, o maior desafio para os cientistas passa por desenvolver uma nova formulação que possa ser usada durante a presença de criação operculada em colónias de A. mellifera. O objetivo principal do estudo que abaixo apresento o sumário foi avaliar a eficácia de uma nova formulação de libertação lenta (Aluen CAP), baseada no ácido oxálico, para utilizar na presença de criação operculada.

Sumário: Um produto orgânico à base de ácido oxálico foi avaliado para uso no controle de Varroa sob condições climáticas de primavera/verão na Argentina. A formulação consiste em quatro tiras feitas de celulose impregnada com uma solução à base de ácido oxálico. Quarenta e oito colmeias foram utilizadas para avaliar a eficácia do produto. Os resíduos do produto também foram testados em mel, abelhas e cera. Cada ensaio teve respectivos grupos de controlo sem tratamento oxálico. No início da experiência, foram aplicadas quatro tiras da formulação às colónias pertencentes ao grupo tratado. Os ácaros caídos/mortos foram contados após 7, 14, 21, 28, 35 e 42 dias. Após a última contagem, as tiras foram removidas e as colónias receberam duas tiras de flumetrina durante 45 dias. Os ácaros caídos/mortos foram contados ao longo deste período. A eficácia média do produto orgânico foi de 93,1% com baixa variabilidade. Este produto é um tratamento orgânico concebido para o controlo de Varroa durante a presença de criação e representa uma boa alternativa aos tratamentos sintéticos.

fonte: http://link.springer.com/article/10.1007/s13592-015-0405-7

luta contra a Varroa destructor: comparando os medicamentos MAQS ™, HopGuard® e ApilifeVar®

Da análise dos resultados deste estudo/ensaio técnico conduzido na Alsácia (França) rapidamente se constata a grande variabilidade de eficácia obtida com a utilização de três acaricidas orgânicos. Cito:

“As eficiências obtidas foram altamente variáveis de uma colmeia para outra:

  • ApiLifeVar® (3 aplicações com 1 semana de intervalo): 73% de eficiência * (± 17% de Desvio Padrão) ;
  • MAQS ™ (1 aplicação): eficiência de 49% (29% ± SE). As variações na eficácia entre colmeias são importantes (variam de eficiência de 97% para 7%).
  • HopGuard® (3 aplicações com 1 semana de intervalo): eficiência de 29% (15% ± SE). Este medicamento é administrado a EUA como um tratamento eficaz no inverno (sem criação/postura). Neste teste, utilizou-se com criação, multiplicando aplicações.”

fonte: Essai technique 2013 : comparaison MAQS™, HopGuard® et ApilifeVar® – Conseiller apicole – Chambre Agriculture de Région Alsace 

Quer o ApiLifeVar quer o MAQS  fazem parte do menu de acaricidas homologados no nosso país na luta contra a varroose. Desse menu fazem parte também outros acaricidas orgânicos assim como sintéticos. Neste aspecto a DGAV está a seguir as melhores práticas recomendadas pelo comité Europeu de Veterinários, a saber, homologar e disponibilizar aos apicultores a maior diversidade possível de princípios activos.

Apetece-me dizer com base nos resultados destes ensaios comparativos na Alsácia que ainda bem que dispomos de outros orgânicos e sintéticos para além do ApiLifeVar e do MAQS  porque a variabilidade de eficiência que os resultados demonstram neste ensaio não são para deixar quem quer que seja tranquilo. Se para alguns de nós estes acaricidas  fazem parte do plano A, será muito confortável ter outras famílias de acaricidas disponíveis para que um eventual plano B seja posto em marcha.

Em conclusão, julgo que neste particular a DGAV está a fazer o que deve ser feito alargando cada vez mais o menu de acaricidas disponíveis e homologados, seja a sua natureza sintética ou orgânica. Em sentido contrário vão alguns países europeus, como por exemplo na Áustria onde se restringiu os homologados a uns poucos medicamentos orgânicos, e que nos últimos anos tem aparecido entre os países com os índices mais elevados de mortalidade invernal de colónias de abelhas (ver COLOSS). E como bem sabemos a mortalidade invernal tem por detrás um protagonista principal: o ácaro da varroa.

avaliação da eficácia relativa de diferentes acaricidas contra o varroa destructor em apis mellífera carnica

Como já referi noutro post anterior, utilizei pela primeira vez no combate e controlo da varroa o acaricida homologado no nosso país com a marca Bayvarol. Dado que o estava a utilizar pela primeira vez procurei recolher informação prévia acerca do mesmo. Se às vezes as minhas abelhas perdoam e corrigem os meus erros, quando se trata de varroa são incapazes de o fazer. Ou faço bem os tratamentos e evito erros ou já sei que elas e eu iremos pagar uma factura bem cara mais adiante. Ora, entre outras fontes de informação acerca do Bayvarol, encontrei este estudo levado a cabo na Arábia Saudita e que na minha opinião apresenta dados muito interessantes.

“Sumário: A eficácia de cinco acaricidas Apistan, Bayvarol, Apivar, Perizine e Bee Strips no combate contra o Varroa destructor foi avaliada durante três temporadas consecutivas (outubro – dezembro de 2003 , 2004 e 2005). Durante a primeira estação Apistan, Bayvarol (apenas 2 tiras aplicadas), Bayvarol (aplicação de 4 tiras) e Apivar foram comparados e o Bayvarol (4 tiras aplicadas) mostrou o nível de eficácia máximo (96%), seguido por Apivar (95%) e 2 tiras de Bayvarol (89%), enquanto Apistan permaneceu no nível mínimo (85%). Durante 2ª temporada foram avaliadoso Apistan, 4 Bayvarol (4 tiras), Apivar e Perizin. O Apivar apresentou a eficácia máxima (95%), seguido pelo Perizine (94%), ao passo que o Apistan e Bayvarol (4 tiras) mostraram apenas 80% de eficácia. Durante a 3ª temporada, Apistan, Bayvarol (4 tiras), Apivar e Bee Strips foram comparados e a Bee Strips apresentaram a maior eficácia (95%), seguidas pelo Apivar (92%) e 4 tiras de Bayvarol (70%), ao passo que o nível de eficácia do Apistan baixou para os 60%. Os resultados revelaram uma diminuição na eficácia do Apistan e Bayvarol, que foi atribuída ao desenvolvimento de resistências no Varroa destructor contra fluvalinato e flumetrina, enquanto o Apivar ficou provado ser um acaricidas muito eficaz. O Perizine e Bee Strips demonstraram revelar-se muito eficazes no controle do Varroa.”

fonte: EVALUATION OF THE RELATIVE EFFICACY OF DIFFERENT ACARICIDES AGAINST VARROA DESTRUCTOR ON APIS MELLIFERA CARNICA; AHMAD A. Al -GHAMDI; Bee Research Unit, Department of Plant Protection, College of Agriculture, King Saud University, Riyadh, Saudi Arabia.

Alguns aspectos que gostaria de destacar do estudo em relação ao Bayvarol:

  • uma primeira utilização do Bayvarol mostrou ser muito eficaz;
  • a utilização de 4 tiras de Bayvarol (como recomendado pelo fabricante) garante uma maior eficácia que a utilização de apenas 2 tiras;
  • de acordo com os dados os ganhos de resistência ao princípio activo do Bayvarol são muito rápidos e significativos, desaconselhando a sua utilização em tratamentos consecutivos.

resíduos de acaricidas nas ceras de abelha: comentário e resposta

Transcrevo em baixo o comentário acerca do acumulo de resíduos de acaricidas nas ceras e a resposta dada pelo Comité Europeu dos Medicamentos para Uso Veterinário (CMV) a este comentário.

Comentário geral: “A grande maioria dos apicultores fornece lâminas de cera às suas abelhas feitas a partir da cera reciclada de cera velha dos quadros fundidos no final da época. Alguns medicamentos veterinários hidrofóbicos ou seus metabolitos podem contaminar esta cera e levar ao aumento dos seus níveis por via da reciclagens repetida da cera de colónias tratadas com acaricidas. A acumulação é dependente da estabilidade destes compostos mesmo durante o tratamento térmico e fusão da cera no processo. As concentrações de tais MUV (Medicamento de Uso Veterinário) ou dos seus metabolitos na cera de abelha pode aproximar-se dos níveis tóxicos para as abelhas e/ou níveis onde a contaminação do mel é provável que ocorra. Além disso a presença constante dos resíduos destes MUV na cera pode acelerar o desenvolvimento de ácaros da varroa resistentes aos mesmos. Desta forma, a eficácia a longo prazo e a segurança dos animais alvo destes MUV pode ser comprometida. Sugerimos, portanto, que a orientação deve incluir estudos para avaliar os MUV e estas propriedades adversas. Problemas com acúmulo de MUV na cera reciclada foram discutidos no Workshop EMA sobre medicamentos para as abelhas, 14-15 de dezembro de 2009 em Londres (EMA / 28057/2010). Estudos sobre o acúmulo em cera (sem reciclagem) foram solicitados pelo CMV para o relatório de síntese sobre Amitraz (EMEA / MRL / 572/99 e EMEA / MRL / 187/97). ”

Vejamos a resposta dos especialistas do Comité Europeu dos Medicamentos para Uso Veterinário (CMV) a este comentário.

“De facto a utilização de alguns acaricidas pode levar ao surgimento de resíduos no mel. O mel contém sempre cera. Estas substâncias solúveis em água e em solventes orgânicos podem acabar no mel. Em relação ao potencial de contaminação do mel com resíduos transferidos da cera para o mel deve notar-se que o LMR (Limite Máximo de Resíduos) para o mel não faz distinção entre os resíduos decorrentes do tratamento em si mesmo e resíduos decorrentes da transferência da cera. Além disso, reconhece-se que a partículas de cera podem estar presentes no mel. Para as substâncias para as quais foram estabelecidos limites máximos de resíduos no mel, o cumprimento do LMR continua, portanto, a garantir a segurança do consumidor.

No entanto sublinhamos que para um determinado número de substâncias, o CMV concluiu que não há uma necessidade de estabelecer um LMR no mel. Estas substâncias considera-se não representarem uma preocupação de segurança alimentar do consumidor, porque ou a sua toxicidade é baixa e, consequentemente, a exposição, mesmo em níveis elevados, não representará um risco para o consumidor, ou porque é aceite que a sua concentração no mel será sempre baixa (por exemplo, porque eles são não-lipofílico e não se acumulam). A transferência de resíduos de substâncias deste tipo da cera de abelhas para o mel, concluiu-se não representar uma preocupação de segurança alimentar para o consumidor. Deve também ser notado que existem dados que mostram que os valores destes resíduos no mel proveniente dos favos de mel contaminados são cerca de 1700 vezes menores do que as concentrações de resíduos existentes nos favo de mel. Além disso, a transferência de resíduos dos varroacidas a partir da cera para o mel, ocorrerá se o nível de resíduos na cera atingir 2 dígitos de ppm (10 a 60 mg/kg) para chegarmos a concentrações no mel entre 0,6 a 36 µg/kg. Por conseguinte, considera-se que o potencial para a transferência de resíduos da cera para o mel é limitada e não representa uma preocupação de segurança alimentar do consumidor.

No que diz respeito à cera de abelhas, é prática comum reciclá-la. Desta forma, os resíduos podem persistir na cera ao longo dos anos. O problema não é novo e está relacionada com substâncias que não são solúveis em água. Como a reciclagem é feita geralmente por aquecimento, o nível de resíduos de uma substância pode ser reduzida (por evaporação). Não há informação científica que indique riscos dos resíduos de acaricidas na cera de abelha, e não têm sido identificados quaisquer efeitos tóxicos em abelhas e/ou indução de resistências nos ácaros Varroa. Ao invés de ser relacionada com resíduos em cera, esses efeitos adversos possíveis parecem estar relacionados ao uso inadequado dos acaricidas. Estes níveis que foram observadas na cera são geralmente demasiado baixo para induzir esses efeitos. Assim, a probabilidade dos resíduos se acumularem até níveis que são tóxicos para as abelhas (criação) e/ou selecção de resistências nos ácaros é considerado baixo. Além disso, abelhas e ácaros não entram em contacto com a cera de uma forma que possa provocar os efeitos acima mencionados. Embora seja possível estudar a persistência de substâncias na cera em relação à reciclagem, a probabilidade de encontrar efeitos tóxicos sobre as abelhas e/ou redução da sensibilidade nos ácaros, devido a resíduos na cera de abelhas, é considerado muito baixo, tendo em conta todos efeitos adversos que podem afetar as colónias de abelhas. Portanto, nenhuma recomendação sobre a necessidade de se efectuarem estudos acerca dos efeitos dos resíduos da cera de abelha com relação com a toxicidade para as abelhas e /ou indução de resistência em ácaros Varroa é feita. Estudos de longo prazo sobre as abelhas são limitados no tipo de informação que pode fornecer sobre o risco devido à presença de resíduos de cera. Boas práticas de apicultura, bem como o uso adequado de acaricidas é uma questão importante na redução da presença de resíduos na cera de abelha “.

A terminar recordo de um post anterior:

  • para o Apivar o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de amitraz (substância activa no Apivar) no mel é de 200 microgramas por Kg de mel;
  • para o Bayvarol o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de flumetrina (substância activa no Bayvarol) no mel não está definido pela UE;
  • para o Apistan o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de fluvalinato (substância activa no Apistan) no mel não está definido pela UE.

e sublinho deste post:

“No entanto sublinhamos que para um determinado número de substâncias, o CMV concluiu que não há uma necessidade de estabelecer um LMR no mel. Estas substâncias considera-se não representarem uma preocupação de segurança alimentar do consumidor, porque ou a sua toxicidade é baixa e, consequentemente, a exposição, mesmo em níveis elevados, não representará um risco para o consumidor, ou porque é aceite que a sua concentração no mel será sempre baixa (por exemplo, porque eles são não-lipofílico e não se acumulam).”

qualidade das rainhas e seu peso: que correlação?

Muito frequentemente apicultores, criadores de rainhas e até investigadores associam o maior peso, o maior tamanho do tórax, o maior comprimento de asas e outras características morfológicas das rainhas, sejam virgens ou fecundadas, à sua prolificidade. Uns e outros defendem que as rainhas com um peso maior produzem mais ovos e desenvolvem colónias mais numerosas e num menor espaço de tempo.
Alguns investigadores encontraram uma correlação positiva entre o peso das rainhas e o número de ovaríolos: Weaver, 1957; Avetisyan, 1961; Woyke, 1971; Szabo, 1973; Wen-Cheng and Chong-Yuan, 1985; Gilley et al., 2003. Estes investigadores, com recurso a técnicas de dissecação, contagem dos ovaríolos presentes nos dois ovários e subsequentes análises estatísticas concluíram que as rainhas mais pesadas apresentavam um maior número de ovaríolos. Cada ovaríolo produz em média 3 a 5 ovos por dia.  Como facilmente se conclui um maior número de ovaríolos está associado directamente com a capacidade da rainha apresentar diariamente taxas mais elevadas de postura de ovos fecundados. Finalmente sabemos que mais ovos fecundados significa uma prole mais numerosa, logo mais abelhas na colmeia, portanto maior quantidade de néctar  e outros produtos colectados; enfim uma produção acrescida.
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Tudo estaria bem neste reino de medições e pesagem de rainhas com vista ao seu melhoramento e sua selecção se todos os estudos efectuados até às data fossem convergentes. Contudo na verdade não são. Alguns investigadores não encontraram qualquer tipo de correlação entre o peso das rainhas e o número de ovaríolos: Corbella and Gonçalves, 1982; Hatch et al.1999; Jackson et al ., 2011. 
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Sendo assim parece-me cedo de mais para afirmar “diz-me qual o peso da tua rainha e dir-te-ei o seu valor”. Mais tendo eu já visto rainhas de pequenas dimensões fazendo um grande trabalho de postura nas minhas colmeias.
Não digo que as rainhas mais pequenas são as melhores. Não tenho esse atrevimento. O que digo é outra coisa: avaliar a qualidade potencial e seleccionar com base no peso das rainhas é um caminho que deve ser percorrido, mas sem a presunção que é o único e o melhor. Ainda me parece cedo para proclamar isso. Não sou eu que o digo, são os dados divergentes das investigações.

o efeito do favo com alvéolos de zangão sobre a produção de mel numa colónia de abelhas do mel

Apresento em baixo o resumo/sumário de um estudo levado a cabo por um dos mais prestigiados investigadores norte-americanos na área da apicultura, e refiro-me ao Dr. Thomas Seeley.

Mais do que a questão acerca do impacto negativo na produção de mel da criação intensiva de zângãos, importa-me neste momento sublinhar um outro aspecto que resulta da sua investigação: uma colónia com favos/quadros de criação intensiva de zângãos aparenta produzir mais zângãos do que os produzidos por colónias que não são providas com este tipo de favos/quadros. Estes dados de Thomas Seeley confirmam o que eu tenho visto em colmeias em que coloco um quadro iscado na posição 2 ou 9 para a produção intensiva de zângãos: observo uma quantidade de zângãos muito superior nestas colónias quando comparo este número com o de colónias sem estes quadros “especiais” para a criação intensiva de zângãos. Com base nestes dados estou convicto que a tese de que as abelhas conhecem e e não ultrapassam um determinado número de zângãos a criar deverá ser substituída pela ideia que o número de criação de zângão é alterado quando se introduz na colmeia quadros com a finalidade de promoverem a criação de zângãos, ou seja, um pretenso determinismo genético é facilmente manipulado com a introdução de quadros “especiais” que  promovem a criação de zângãos.

“Resumo: Este estudo examinou o impacto sobre a produção de mel de uma colónia ao provê-la com uma quantidade natural (20%) de favos com alvéolos de zangão. Durante 3 verões, no período de meados de maio a finais de agosto, eu medi os ganhos de peso de 10 colónias, 5 com favo de zângão e 5 sem ele. As colónias com favo de zangão ganharam apenas 25,2 kg ± 16,0 kg de peso (mel) enquanto aquelas que não provi de favos com alvéolos de zangão ganharam 48,8 kg ± 14,8 kg de peso.

As colónias com favo de zângão também apresentavam uma maior taxa média de voos de zângão** e uma menor incidência de construção de favo de zângão. A menor produção de mel de colónias com favo de zângão aparentemente surge, pelo menos em parte, porque os favos com alvéolos de zângão promove a criação de zângãos e manutenção de zângãos é cara. Eu sugiro que o fornecimento de favos com alvéolos de zângão, como parte de um programa de controle da Varroa destructor, sem pesticidas, pode ainda ser desejável uma vez que eliminando a criação zangão para matar os ácaros pode eliminar grande parte do efeito negativo do favo com alvéolo de zangão na produção de mel.”

fonte: https://hal.archives-ouvertes.fr/hal-00891902/document

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Fig. 1: Quadro de meia-alça que quando introduzido no ninho funciona como quadro de criação intensiva de zângãos

 

** Segundo as medições levadas a cabo por Seeley, a taxa média de saída de zângãos das colmeias foi 4-13 vezes maior nas colónias com favo/quadro com alvéolos de zângãos do que em colónias sem favo/quadro com alvéolos de zângãos.