James Ellis e Emily Noordyke, viram o seu artigo de revisão da literatura sobre a eficácia dos substitutos de pólen na saúde e produtividade das colónias ser publicado recentemente. Deixo a tradução do sumário de um artigo que merece uma leitura integral.
“Bife” substituto do pólen colocado em cima do ninho de criação de uma colónia de abelhas.
“Sumário: As abelhas melíferas ocidentais (Apis mellifera L.) coletam o pólen das flores como sua fonte de proteína, gordura, vitaminas e minerais. Os apicultores fornecem substitutos do pólen às suas colónias de abelhas para mitigar a falta de recursos naturais de pólen no meio ambiente. Apesar de seu uso difundido, não está claro se os substitutos do pólen são benéficos para a saúde e produtividade da colónia. Aqui, revemos a literatura a respeito da eficácia dos substitutos do pólen em quatro categorias principais: (1) consumo / palatabilidade dos substitutos do pólen, (2) produtividade da colónia, (3) resposta a pragas e doenças e (4) resposta fisiológica. Globalmente, a literatura mostra uma mistura de impactos positivos, neutros e negativos dos substitutos do pólen na saúde das colónias de abelhas. Além disso, recomendamos áreas para melhoria na pesquisa de substitutos do pólen. Esperamos que esta revisão leve a mais pesquisas sobre substitutos do pólen, uma vez que a nutrição é um fator-chave que afeta a saúde das abelhas geridas por apicultores.”
Junto ao solstício de inverno, esta publicação, que traduz excertos de um estudo de revisão muito citado na literatura da especialidade, visa sumariar o conhecimento mais actual em torno do impacto de factores abióticos, temperatura e humidade relativa (HR), nas actividades das abelhas no interior e exterior das colmeias.
A faixa normal de temperatura no interior de uma colónia de abelhas melíferas varia de 33 a 36 ° C (Kleinhenz et al. 2003; Petz et al. 2004), mais precisamente 34,5 ± 1,5 ° C (Jones et al. 2005);
Ao nível individual, quando a temperatura no interior da colmeia sobe acima de 36 ° C, a criação sofre de sobreaquecimento;
Quando a temperatura sobe acima de 36 ° C, as abelhas começam a mitigar a carga de calor usando o comportamento de abanar, vibrando rapidamente suas asas. As operárias assumem posições específicas durante o abanamento para serem mais eficazes (Southwick e Moritz 1987);
Outro mecanismo é o arrefecimento evaporativo, as operárias coletam água, permitindo o arrefecimento evaporativo dentro da colónia (Nicolson 2009);
Em caso de temperatura inferior a 33 ° C no interior da colmeia, as abelhas melíferas precisam de aumentar a temperatura para manter a criação, o que é realizado aumentando a densidade das abelhas no ninho (comportamento de agrupamento) e aumentando a endotermia de acordo com a necessidade (Harrison 1987; Stabentheiner et al. 2010);
Há um equívoco em torno da ideia de que o papel dos zângãos é apenas o acasalamento da rainha. Os zângãos participam da termorregulação da colónia sob condições específicas (Harrison 1987). Kovac et al. (2009) encontraram zângãos aquecendo os seus tórax, especialmente zângãos com mais de 2 dias, para auxiliar no aquecimento da criação em situação de baixas temperaturas;
A temperatura da criação é regulada não apenas pelo comportamento de agrupamento das operárias, mas também pelo aquecimento ativo dos músculos torácicos de voo. Essa estratégia, segundo Kleinhenz et al. (2003), inclui: (a) aquecimento superficial dos opérculos da criação enquanto as abelhas estão imóveis sobre esses opérculos, e (b) aquecimento de alvéolos de criação por aquecimento dentro dos alvéolos. No último caso, as abelhas com tórax aquecido (temperatura torácica de 34,1–42,5 ° C) entram em alvéolos vazios entre os alvéolos de criação operculada. Estas abelhas podem permanecer imóveis por até 45 minutos para aumentar a temperatura da criação dos alvéolos adjacentes em 2,5 ° C em 30 minutos. O fluxo de calor, neste caso, consegue-se a até três alvéolos de criação de distância da abelha aquecedora (Humphrey e Dykes 2008). A presença de alvéolos vazios não garante a manutenção da temperatura ideal do ninho de criação, mas podem reduzir o tempo e a energia gasta pelas abelhas para aumentar o aquecimento da criação (Fehler et al. 2007);
Foto (12/11/2021) de um quadro de uma colónia minha, onde se podem observar diversos alvéolos vazios no interior da zona de criação operculada.
As pupas em alvéolos operculados são mais sensíveis à baixa temperatura do que ovos ou larvas (Groh et al. 2006; Tautz et al. 2003). Li et al. (2016) relataram que as temperaturas da criação de operárias eram mais altas do que as de zângãos, e que é regulada de forma mais precisa;
Outro fator importante para o desenvolvimento da criação é a humidade relativa (HR) dentro das colónias. Li et al. (2016) descobriram que a HR é amplamente regulada pelas operárias. A HR é particularmente importante para a incubação dos ovos. HR abaixo de 50% impede a eclosão dos ovos, a faixa ótima de HR para incubação normal é de 90 a 95%. HR mais alta ou mais baixa reduz significativamente o número de ovos chocados normalmente (Doull 1976);
Nenhum ovo eclodiu a 30% de HR. Em caso de condições de baixa HR, as abelhas apresentam comportamento específico, como evaporação da água do néctar e forrageamento para coleta de água para aumentar a HR (Human et al. 2006). Com a HR elevada, o comportamento de ventilação é utilizado para reduzir a HR para ficar dentro da faixa ideal. Vale ressaltar que para a criação in vitro de larvas de abelhas melíferas, a temperatura de 34 ° C e HR de 96% (Aupinel et al. 2005; Silva et al. 2009) ou HR de 90% (Kaftanoglu et al. 2011) foram sugeridos;
O comportamento de forrageamento inclui as abelhas coletando néctar, pólen, própolis ou água para atender às necessidades da colónia. O forrageamento ocorre numa ampla faixa de temperaturas de 10 a 40 ° C (conforme revisto por Abou-Shaara 2014). Abaixo de 10 ° C, as abelhas reduzem as viagens de forrageamento (Joshi e Joshi 2010). O início da atividade de forrageamento foi registrado em uma média de 6,57 ° C, enquanto a atividade mais alta foi a 20 ° C (Tan et al. 2012). Num outro estudo, Woyke et al. (2003) descobriram que 10 ° C é a temperatura na qual o forrageamento é iniciado. Estes autores também notaram que o número de forrageadoras aumentou dez vezes quando a temperatura aumentou para 12 ° C. Contrariamente, a uma temperatura de 43 ° C, foi observada a menor atividade de forrageamento (Blazyte-Cereskiene et al. 2010);
A vida útil das abelhas forrageiras varia de 2 a 17 dias (média de 7,7 dias; Visscher e Dukas 1997). A exposição contínua de abelhas forrageiras a temperaturas elevadas pode levar a uma vida útil curta. Remolina et al. (2007) expôs as abelhas melíferas a 42 ° C até a morte e descobriram que o tempo de vida variou de 31 a 91 h (cerca de 1,29-3,79 dias);
Em condições de campo, Alattal e Alghamdi (2015) observaram as maiores perdas de colónias em abelhas carníolas (92%), seguidas por abelhas italianas (84%) e, em seguida, por abelhas iemenitas (indígenas) (46%) nas condições de temperatura de Reino da Arábia Saudita . Embora esses autores tenham relatado mais adequação das abelhas italianas a essas regiões quentes em comparação com as abelhas carníolas, as abelhas indígenas mostraram a maior adequação. Da mesma forma, Alqarni (2006) descobriu que as abelhas iemenitas são mais tolerantes a temperaturas elevadas durante o período de verão em Reino da Arábia Saudita do que as abelhas carníolas e italianas;
Outro fator abiótico, a humidade do ar, provavelmente não desempenha um papel tão importante num clima temperado, mas é importante em condições secas e quentes. A uma temperatura de 35 ° C, as abelhas melíferas sobrevivem melhor com 75% de HR, enquanto com mais baixa HR de 50% a 15%, a sobrevivência das operárias foi afetada negativamente, especialmente a 15% (Abou-Shaara et al. 2012);
O acasalamento de rainhas ocorre principalmente em temperaturas abaixo de 25 ° C (Tibor et al. 1987), portanto, altas ou baixas temperaturas têm um impacto negativo no voo da rainha (Heidinger et al. 2014);
A época do ano ou estação também influencia o acasalamento das rainhas, ou seja, rainhas acasaladas na primavera são mais vigorosas do que aquelas acasaladas no outono (Moritz e Ku ̈hnert 1984; Jhajj et al. 1992). Além disso, o maior número de acasalamentos bem-sucedidos foi registrado em maio, enquanto o menor ocorreu em julho e agosto (Al-Ghzawi e Zaitoun 2008). Se as rainhas estão enjauladas, a presença de amas é muito importante, Gontarz et al. (2005), por exemplo, descobriram que adicionar abelhas amas a rainhas em gaiolas aumentava a temperatura dentro da gaiola para quase 35 ° C ou mais em poucas horas;
A enxameação é a forma natural de reprodução das colónias de abelhas, pois a abelha rainha não é capaz de encontrar independentemente um ninho e as operárias não são capazes de se reproduzir (c.f. Grozinger et al. 2014). Existem diferentes razões para a enxameação: em colmeias pequenas, a sobrepopulação causa a enxameação, ao passo que a falta de alvéolos para a postura de ovos não (Simpson e Riedel, 1963);
O pequeno volume da colmeia e a baixa ventilação promovem a enxameação, bem como o superaquecimento que ocorre em de colónias com abelhas aglomeradas (Lensky e Seifert 1980). A enxameação ocorre principalmente da primavera ao início do verão;
As abelhas europeias (de clima temperado) geralmente têm baixa propensão para desertarem. No caso de deserção, as abelhas saem da colmeia e voam para outro local (relocação do ninho).
De acordo com a revisão acima, estudos futuros devem incluir os seguintes aspectos: (1) impactos da temperatura e humidade relativa nas características morfológicas (corpo e asa), aprendizagem, sobrevivência e parâmetros fisiológicos (propriedades da cutícula, espessura da cutícula e teor de água corporal ) das diferentes subespécies reconhecidas e para diferentes estágios (ou seja, ovos, larvas, pupas e adultos) e castas (operárias, zângãos e rainhas); (2) comparações diretas entre as subespécies de abelhas e a tolerância de seus híbridos à temperatura alta e muito baixa ou HR, especialmente considerando a mudança climática global prevista; (3) a capacidade das abelhas melíferas em diferentes idades tolerarem condições adversas; (4) novos projetos de colmeias (por exemplo, maior isolamento ou usando aquecimento ou ventiladores de refrescamento) para ajudar a sobrevivência das abelhas sob condições severas de verão ou inverno; (5) impactos das temperaturas e HR na atividade de armazenamento de alimentos sob diferentes condições ecológicas; (6) criação da rainha e maturidade dos zângãos sob várias temperaturas e HR; e (7) os impactos das temperaturas e HR no forrageamento, comportamentos de acasalamento, enxameação e deserção das subespécies reconhecidas das abelhas.
Não sou dado a auto-elogios como não sou dado a auto-comiserações. Sei de há muito que “santos da casa não fazem milagres” e que “pior que estar errado é ter razão antes do tempo”, e convivo sem perder o sono com esta realidade. O que não me mata torna-me mais resistente!
Depois de ler de ponta a ponta um guia publicado recentemente, em 2021, pela francesa FNOSAD (Fédération Nationale des Organisations Sanitaires Apicoles Départementales) acerca dos mais actuais avanços que a ciência nos disponibiliza sobre o ácaro varroa, confirmo que o trabalho persistente de pesquisa e divulgação que disponibilizo aos leitores assíduos deste blog acerca do que de mais importante se tem descoberto nos últimos anos neste domínio, tem acompanhado os tempos. Sem falsas e hipócritas modéstias, estou a fazer um trabalho de que me orgulho muito. Em baixo destaco algumas publicações deste blog (em hiper-ligação) em associação com os conteúdos deste guia francês tão actual, rico e valioso, escrito com recursos que não tenho, por uma instituição estatal francesa, guia este que me foi dado a conhecer há uns dias atrás pelo meu querido amigo João Gomes.
Entre outros avanços recentes no conhecimento do principal inimigo das abelhas, terei sido dos primeiros a publicar em português estes aspectos, entre outros:
Que 2022 nos permita controlar devidamente este parasita e inimigo mortal das nossas abelhas! Este desejo é dirigido, em particular, aos meus leitores e amigos que, através das suas mensagens públicas e privadas, me interpelam, me ensinam e me estimulam a continuar.
A partir dos 40m30s deste webinar, Jamie Ellis, Professor de Entomologia no Departamento de Entomologia e Nematologia da Universidade da Flórida, apresenta-nos uma proposta para solucionar os casos de colónias zanganeiras, que enxamearam ou com rainha com mau padrão de postura — colónias disfuncionais. Nas centenas de vezes em que utilizou esta técnica Ellis afirma que resultou em todos os casos. Posso afirmar que já utilizei o mesmo procedimento 3 ou 4 vezes, há cerca de meia-dúzia de anos atrás, para salvar colónias zanganeiras e que, comigo, também resultou sempre.
Pré-requisitos: ter enxames funcionais em núcleos de 5 quadros. Ellis recomenda ter um enxame funcional em núcleo por cada 5 a 10 colónias com 10 quadros.
Procedimentos:
Fase A — 1 e 2) colocar o núcleo funcional junto da colónia disfuncional de 10 quadros; 3) retirar 5 quadros da colónia disfuncional. Um destes quadros, pelo menos, deverá ter mestreiros se pretendermos que o núcleo para onde serão transferidos crie autonomamente uma nova rainha. Os outros quadros deverão ter pólen (1 ou 2 quadros) e criação (2 ou 3 quadros) . O objectivo é utilizar estes quadros retirados da colónia disfuncional para reiniciar uma nova colónia no núcleo com 5 quadros. Devemos retirar/destruir os restantes mestreiros, caso estejam presentes nos restantes 5 quadros que mantemos na colónia de 10 quadros. Fase B — 1) Puxar os 5 quadros da colónia disfuncional para um dos lados do corpo da colmeia. 2) Introduzir os 5 quadros do núcleo, com abelhas e rainha, no espaço vazio do corpo da colmeia. 3) Colocar os 5 quadros tirados da colónia disfuncional no núcleo. 4) Transferir o núcleo para um outro local (3 a 5 km de distância) e deixá-lo criar a sua rainha [ou introduzir uma]. *Alguns apicultores colocam a rainha transferida do núcleo numa gaiola preocupados com a sua aceitação. [Ellis não utiliza este procedimento e não tem encontrado problemas de não-aceitação da rainha do núcleo por parte das abelhas residentes da colónia disfuncional.]
Notas: 1) No casos de desejarmos resolver com estes procedimentos uma situação de uma colónia zanganeira, com uma população já relativamente pequena, proponho que deixemos o núcleo resultante, aquele que irá criar uma nova rainha, no local de origem do núcleo. Neste local receberá as abelhas de campo que retornarão ao local original nas horas seguintes e/ou nos dois a três dias seguintes. Estas abelhas irão reforçar a população deste núcleo e, por esta via, aumentar a sua viabilidade.
2) Nunca utilizei este procedimento para dar um “boost” em colónias enxameadas, para evitar a sua “paragem” enquanto é criada e fecundada a sua nova rainha. Esta forma de colocar colónias enxameadas rapidamente nos carris na véspera ou durante um fluxo de néctar intenso tem muitos méritos aos meus olhos e prevejo utilizá-lo na próxima temporada em alguns casos, que me servirão de estudo-piloto. Para que resulte é absolutamente indispensável que sejam eliminados previamente todos os mestreiros existentes. No caso de já terem nascido rainhas virgens não utilizarei o procedimento porque é praticamente impossível garantir que se tenham eliminado todas as rainhas virgens presentes. Sem esta garantia, a aceitação da nova rainha transferida do núcleo é improvável e corre um risco muito grande de se tornar uma vítima das abelhas que não são suas filhas. A experiência assim me o diz, a Kin selection theory assim o prediz.
As abelhas batem as asas 250 vezes por segundo. A câmera Phantom v2511 pode gravar mais de 1 milhão de imagens por segundo (criando câmera lenta na reprodução). Aqui, foi utilizada uma para capturar imagens para um documentário sobre as abelhas.
O comentário de J. F. a este vídeo numa conversa no Bee-L: “Depois que a abelha abre suas asas, o movimento da asa não é “para cima/para baixo” para mantê-la no ar, mas um “8 figurado”, semelhante ao movimento dos remos ao remar.”
Através destas imagens de leveza e graciosidade desejo aos que me acompanham um Feliz Natal!
Há coincidências interessantes. Dois ou três dias depois de tirar as fotos que vão ver para preparar esta publicação vejo um apicultor da lista do Bee-L escrever por lá o seguinte: “Na palestra de novembro para os apicultores da Associação Empire State, Tom Seeley focou-se nas abelhas coletoras de água. Ele mencionou que a dança mais “entusiástica” que ele já observou (em termos da intensidade e persistência da dança) foi numa forrageadora num inverno numa colmeia de observação. Ela dançava para anunciar a disponibilidade de água doce no primeiro dia quente da temporada. Qualquer pessoa informada da pesquisa de Tom tem uma noção de quantas danças ele observou de perto no último meio século ou mais, fazendo desta observação uma informação ainda mais relevante para as nossas considerações sobre a necessidade de água de uma colónia.” Vi rapidamente a pertinência em começar esta publicação com esta citação pela relação que tem com o tema que hoje me motiva a escrever.
Apiário a 900 m de altitude, no passado dia 12, um dia ensolarado.
E por que carga de água precisam as abelhas da água nesta altura do ano? Para liquefazerem o mel, para melhor o consumirem e assimilarem.
Mel, transferido para este quadro mais central depois de lhe ter sido adicionada alguma água pelas abelhas. Os três ou quatro alvéolos destruídos no centro resultam da prova que uma vez mais fiz deste mel diluído: da prova não me ficou dúvida de se tratar de um “monofloral” de castanheiro da colheita de verão de 2021.
Qualquer um de nós pode fazer esta observação. Reparem nos quadros com mel operculado nos quadros mais afastados do centro ou do aglomerado de abelhas. Reparem nos alvéolos vazios com os opérculos perfurados. Daí saiu o mel, depois de previamente aquecido e diluído em água por um enxame com abelhas suficientes para procederem a estas tarefas.
Alvéolos vazios com os opérculos perfurados. Só um enxame com um número suficiente de abelhas consegue aquecer os opérculos, para depois os perfurar, aquecer a água para depois a misturar ao mel e, assim, tornar o mel até aí frio numa mistura tépida para ser ingerido e assimilado, sem o perigo de induzir as pequenas abelhas num coma por ingerirem alimentos frios. Como nós não consumimos alimentos vindos do congelador, sem previamente os aquecermos nos dias frios de inverno, as abelhas também não o fazem.
Quando as abelhas não são suficientes morrem de fome com o mel operculado a milímetros de distância. A pergunta a fazer é por que razão as abelhas não são suficientes. Muito provavelmente por efeito diferido no tempo de varroose e viroses associadas.
Foto que me foi enviada pelo meu amigo Pedro Miguel. Abelhas com mel operculado a milímetros de distância e que morreram de fome e frio há dias atrás, numa colónia com abelhas insuficientes, por efeito diferido de varroose e viroses associadas.
O voo estacionário da V. velutina nigrithorax em frente às colmeias provoca uma resposta comportamental nas nossas abelhas pouco adaptativa, que é conhecida como “paralisia de forrageamento/voo”. Para atenuar esta resposta, pouco funcional do ponto de vista da colónia, os apicultores utilizam um conjunto de dispositivos variados, entre outros, as “focinheiras” (do francês muselière). Estes dispositivos visam atenuar a pressão das velutinas à saída/entrada da colmeia, proteger as abelhas naqueles centímetros iniciais/finais de voo mais lento, ocultar em parte a sua saída/entrada, e encorajar um comportamento mais elevado de forrageamento, uma resposta mais adaptativa da colónia à pressão da velutina. Estes dispositivos aumentam a probabilidade de sobrevivâncias das colónias em mais 50%*.
A experiência do meu amigo Jorge Pino com este equipamento levou-me a solicitar-lhe que escrevesse umas linhas para aqui publicarmos. Ele aceitou de imediato o meu pedido, com a gentileza e solidariedade que o caracterizam, e enviou o texto em baixo.
“A necessidade de defesa das colmeias de uma das pragas mais conhecidas na apicultura Ibérica, vai aguçando alguns engenhos e vamos percebendo ao longo do percurso, que para continuar a agir é necessário adaptarmo-nos e desenvolver novas abordagens ou melhorar as existentes, para ter como objectivo alcançar resultados satisfatórios e adequados no combate à vespa velutina, que depende do colectivo de apicultores, é um percurso que revela caminhos possíveis, amadurecimento, entender e interpretar os imensos desafios que se colocam.
Com base nesse pressuposto evolutivo e o facto de estar inserido enquanto apicultor “Hobbista” no Parque Natural de Sintra / Cascais, zona de forte presença da vespa velutina, levou a que interiorizasse a premissa de implementar um plano, uma estratégia, talvez com etapas evolutivas e a devida resiliência, para a defesa das colmeias, e, a focinheira, (como lhes chama o André Gonçalo), de concepção simples e ao alcançe de todos com o devido engenho e algumas ferramentas, protegerá as colónias da invasão das vespas Velutinas e de outros possíveis predadores tais como ratos ou borboletas caveira, por exemplo, estas últimas inofensivas. A dupla rede de diâmetros de 16mm e 6mm, exterior e interior respectivamente, permite uma passagem rápida das abelhas do exterior para o interior e dificulta a transposição da velutina devido à sua envergadura em voo ser superior ao diâmetro da rede exterior de 16mm, enquanto que a rede interior de #6mm impede completamente a passagem da vespa velutina e desta penetrar nas colónias.
É claro e consensual que existem equipamentos similares, contudo o aspecto evolutivo deste, sobressai nos buracos concebidos de diâmetro de 7mm, para que, tanto zângãos como rainhas os possam transpor permitindo a permanência das focinheiras ao longo do ano sem a necessidade de as remover em períodos de fecundação.
Vista frontal.
Vista lateral.
Vista do lado interior.
Alargamento da malha para permitir o transito de zângãos e rainhas.
Atente-se que não resolve o problema na totalidade nem refreia o ímpeto de predação, apenas defende as colónias, até porque, a vespa velutina acaba por adaptar a sua hostilidade predativa fazendo pressão no exterior, e, se as colónias estiverem menos fortes, acaba este, por ser um meio fisico de disuasão de invasão das mesmas, retardando ou evitando talvez, o ponto de não retorno das colónias.
Estou certo que o estudo deste problema começa a dar alguns resultados noutras formas de combate, mas como diz o autor deste “blog” e inspirador de práticas coerentes, simples e equilibradas, até lá “O apicultor deverá ser o cuidador das abelhas” cuja missão é demasiado nobre para se furtar a essa condição.”
* Nota: Nesta publicação retiro este excerto “Medimos a FR (falha no retorno das abelhas devido à predação de vespas) e PF (paralisia de forrageamento: paragem da atividade de voo em colmeias devido às vespas pairando em frente da entrada) e estimámos a probabilidade de mortalidade das colónias usando uma abordagem de modelagem mecanicista. A “protecção da entrada da colmeia” não reduziu a FR associada à vespa, mas reduziu drasticamente a PF. Além disso, a “protecção da entrada da colmeia” aumentou a probabilidade de sobrevivência de colónias stressadas por vespas até 51% em contexto de alta abundância de vespas asiáticas com base em simulações teóricas. Esses resultados sugerem que a instalação de “protecção da entrada da colmeia” pode atenuar o efeito prejudicial do vespão asiático nas abelhas europeias.”
Há um mês atrás fiz esta publicação. Ontem, voltei a abrir esta colónia.
É uma colónia bem povoada para a altura do ano.
Tendo identificado este padrão de criação salpicado, duvidoso, a 9 de setembro, nem por um momento suspeitei de loque americana; desde essa altura não vi, em momento algum, sintomas específicos de loque americana.
Também não vejo sintomas de loque europeia, criação de giz ou criação ensacada. Reparo agora que nunca fiz uma publicação sobre a loque europeia. Tenho ideia que é uma doença que não tem sido identificada laboratorialmente em Portugal.
Abelhas novas e abelhas a emergir. Não fosse este padrão de criação, aparenta ser uma colónia saudável.
Sua majestade passeando tranquilamente deixando a feromona da pegada.
Pão de abelha recente e com cores vibrantes.
Benditas leiras de nabiças nas proximidades!
Questões: Poderão algumas populações da A. m. iberiensis apresentar a combinação genética e correspondentes comportamentos resistentes ao varroa? Não tenho qualquer dúvida que sim; algures haverá colónias resistentes na nossa sub-espécie nativa. Será o caso desta colónia? Não me parece. Não vejo sinais dos mecanismos que mais comumente conferem resistência. Posso sonhar que o mecanismo encontrado por esta colónia para resistir ao varroa seja de outra natureza? Com certeza que sim; vou sonhar. A natureza encontra sempre um caminho, por vezes caminhos vários. Em fevereiro/março começarei a ter as primeiras respostas.
No seguimento desta publicação apresento a minha proposta de solução: a rainha virgem/não fecundada/mal fecundada está na extremidade da seta.
Sobre a foto em baixo escrevi: “Intrigou-me o facto de alguma desta criação parecer criação de obreira à vista desarmada. Os opérculos estão muito pouco salientes em relação ao plano da cera. Julgo saber a razão, mas vou deixar em aberto este aspecto para os meus leitores.” A razão que descortino vai ao encontro da mencionada pelo João Paulo na caixa dos comentários. Estes zângãos estão mal-nutridos, são praticamente do tamanho de obreiras e, como tal, as abelhas não estão a fechar os alvéolos com um opérculo mais saliente em relação ao plano da cera por não ser necessário. Na minha opinião é um caso cristalino em que a “nature”/genética do indivíduo é fortemente determinada pelo “nurture”/ambiente. Apesar de terem todo o aparato genético para serem uns matulões, estes zângãos nascem pequenos por deficiências nutricionais e por o “ventre”/alvéolo onde são criados ser mais pequeno que o normal.
Para reflectir: as abelhas “ratinhas” de que o meu pai me falava, abelhas mais pequenas, será um caso de “nature” ou um caso de “nurture”?
Agradeço aos meus leitores, muito especialmente aos que participaram fazendo o seu comentário.
No meu histórico dos últimos 7 anos a maior parte das minhas perdas invernais deve-se a problemas com rainhas. Dos habituais 4 a 5% do total de perdas invernais, 2 a 3% devem-se a problemas com rainhas. Ou a colmeia fica absolutamente órfã, ou fica funcionalmente órfã, isto é, tem uma rainha não fecundada. Hoje tirei um conjunto de fotos de uma colónia nestas condições.
Na inspecção de 19 de outubro verifiquei que tinha uma rainha virgem.
Nas fotos em baixo anda uma rainha virgem. Faço esta publicação a pensar nos companheiros que se convenceram que não conseguem encontrar as rainhas. Nada mais errado e derrotista. Só é preciso um pouco de paciência e, sobretudo, acreditar que a vão localizar. As minhas dicas: tem o abdómen ligeiramente mais comprido; as asas estão fechadas e assentes sobre o abdómen; os círculos beije que dividem os segmentos do abdómen são mais finos; o tórax, muito importante, não tem pelos e é mais saliente; as patas são maiores. Conseguindo identificar e localizar uma rainha virgem, identificar e localizar uma rainha fecundada é para meninos ; -). Aproveitam para treinar o olhar nestas imagens paradas. A dificuldade vai sendo maior à medida que vão avançando nas fotografias.
Na foto em baixo, vemos a criação desta rainha não fecundada. Intrigou-me o facto de alguma desta criação parecer criação de obreira à vista desarmada. Os opérculos estão muito pouco salientes em relação ao plano da cera. Julgo saber a razão, mas vou deixar em aberto este aspecto para os meus leitores. Se desejarem dar a vossa opinião façam-no através dos comentários. Serão muito bem vindos. Que orgulho e honra me dão em me acompanharem!