Em baixo deixo uma palestra que Umberto Moreno, apicultor colombiano, investigador avançado em programas de genética da abelha, deu recentemente para a Apicultura sin Fronteras.
Entre outros, esclarece os seguintes conceitos:
F1, F2,F3,
Raça pura, híbrido e linha.
Ao mesmo tempo desmistifica e traz-nos à terra acerca da possibilidade/dificuldade de melhoria genética das nossas abelhas, sem um suporte em processos contínuos e demorados, levados a cabo por profissionais com elevados conhecimentos e apetrechados com recursos e tecnologia dedicada. A este propósito aborda:
a dificuldade de fazer selecção e melhoria de comportamentos, como a defensividade e a produção de mel, porque 1) estes comportamentos têm uma origem poligénica; 2) pela baixa heritabilidade; 3) pela complexidade trazida pelo sistema haplo-diploide, poliandria e panmixia de reprodução destes super-organismos;
a ideia de que para potencializar comportamentos desejáveis, como a produtividade das nossas colónias, a qualidade do maneio é uma peça crucial (defesa que fiz também aqui).
Para esta lição magistral de um geneticista, que conhece muito bem os limites e as potencialidades da selecção das nossas abelhas pela abordagem genética, fui todo ouvidos. Desafio-vos a fazerem o mesmo!
Um agradecimento aos organizadores pelo convite para participar, onde descreverei as técncicas de prevenção da enxameação e as técnicas de controlo da enxameação que utilizei ao longo de vários anos num cantinho da Serra da Estrela.
Para mais informações ficam o número de telefone e o endereço electrónico no canto inferior direito do cartaz. Apareçam!
Ontem, escrevi o seguinte no meu mural do facebook:
“A abelha doméstica europeia não está em perigo de extinção, mas tal não se deve à qualidade do ambiente como se sabe. Deve-se aos apicultores que cuidam delas. E os apicultores estão a ficar desalentados por diversas razões, principalmente pela falta de retorno do investimento que fazem ano após ano. E se assim continuar, com o abandono e falta de substituição dos apicultores mais velhos por apicultores mais novos, a abelha doméstica europeia poderá vir a correr riscos de extinção. Para que tal não aconteça importa evitar a extinção dos seus cuidadores, os apicultores.”
Uma colónia de abelhas domésticas europeias (A.m. iberiensis). A terminologia doméstica é utilizada neste contexto para identificar as colónias de abelhas que são acompanhadas e geridas pelo apicultor, e distingui-las das colónias de abelhas assilvestradas e/ou selvagens que se desenvolvem sem esse acompanhamento.
Num artigo recente da Comissão Europeia (2022), surge este quadro com a evolução do número de colónias domésticas de abelhas no período de 2016 a 2020 e no espaço da UE. Fica evidente que nos últimos 3 anos avaliados o número de colónias domésticas tem aumentado.
Contudo as razões deste aumento do número de colónias devem ser bem identificadas e melhor compreendidas.
Primeiro ponto: o efectivo tem aumentado não porque o ambiente tenha melhorado. Segundo ponto: o efectivo tem aumentado porque as colónias de abelhas têm tido, genericamente, cuidadores à altura das exigências do momento, os apicultores.
Vejamos com algum detalhe. Muitos aspectos do ambiente têm-se detriorado nos últimos anos, entre outros: o principal inimigo das abelhas melíferas, o ácaro Varroa destructor, adquire resistência a medicamentos e veicula vírus mais virulentos (tipo 2 do VAD, por exemplo); as alterações climáticas retiram potencial apícola onde antes ele existia (zonas de clima mediterrânico, entre outras); os predadores ultrapassam geografias por via do comércio global e invadem a Europa (V. velutina, entre outros); os custos e esforços para a manutenção de efectivos produtivos são cada vez maiores (custos de diversos equipamentos e produtos essenciais à apicultura e manutenção dos enxames).
Ao mesmo tempo é evidente, para os que conhecem a realidade, que o aumento de colónias de abelhas melíferas depende exclusivamente do aumento de colónias domésticas. O aumento das colónias de abelhas na Europa não se deve ao aumento dos enxames assilvestrados. Estes enxames, que surgem dos processos de enxameação de colónias domésticas, têm taxas de sobrevivência muito baixas, e a grande maioria não sobrevivem durante o primeiro ano. Os enxames de abelhas melíferas selvagens, aqueles que sobrevivem durante anos seguidos sem intervenção do homem, contam-se pelos dedos.
Nos dias de hoje a dependência da sobrevivência dos enxames de abelhas melíferas dos cuidados dos a apicultores é um aspecto por demais evidente. E este é um copo meio cheio. Por enquanto, conseguimos sustentar e até aumentar o número de colónias. Contudo esta relação é frágil, porque um dos maiores motivadores para a sua manutenção é económica, e este motivo tem sofrido uma erosão forte nos últimos anos. Sei que outros motivos, desde os espirituais, aos emocionais e ecológicos, também estão presentes nos apicultores. Tenho muitas dúvidas, contudo, se estes serão suficientes para manter os 19 milhões de colónias de abelhas domésticas existentes em 2020 na UE.
Os mestreiros de substituição surgem quando as colónias necessitam substituir uma rainha envelhecida e/ou com postura fraca.
As abelhas apercebem-se deste declínio e/ou falha da rainha através da diminuição das feromonas glandulares da rainha e das feromonas da criação. Ao contrário da condição de emergência que se caracteriza pela sua natureza súbita e inesperada, a condição de substituição da rainha caracteriza-se pela sua natureza gradual e previsível. As colónias produzem mestreiros de substituição por razões diferentes, como por exemplo:
a rainha está envelhecida;
a rainha é nova mas está mal fecundada;
a rainha não produz feromonas suficientes;
a rainha produz demasiados zângãos;
o padrão de postura é irregular;
…
O número de mestreiros de susbstituição geralmente não ultrapassa os 4 e estão frequentemente localizados na zona do topo e/ou central do quadro. Estes mestreiros formam-se a partir de cálices reais pré-existentes, aspecto distintivo dos mestreiros de emergência.
Exemplo de um mestreiro de substituição formado a partir de um cálice real.
Localização mais frequente dos mestreiros nos quadros: os de substituição no topo e/ou centro dos quadros; os de enxameação no fundo e/ou laterais dos quadros.
Ao contrário dos mestreiros de enxameação, os mestreiros de substituição podem surgir em qualquer época do ano. Durante algumas épocas do ano, a fecundação da rainha tem poucas probabilidades de sucesso porque há poucos zângãos disponíveis e/ou porque a metereologia não é a ideal para os voos de fecundação. Nestas situações, o apicultor pode intervir introduzindo uma nova rainha fecundada se a tiver disponível, ou juntando o enxame orfão a um enxame funcional.
A apicultura, assim como outras actividades humanas, não escapa a falsas verdades que vão sendo perpetuados por sucessivas gerações. Por exemplo, acredita-se que numa condição de emergência, por perda súbita e inesperada de sua rainha, as abelhas entram em pânico, produzem rainhas a partir de larvas demasiado velhas, dando origem a rainhas de qualidade inferior que, por serem as primeiras a emergir dos mestreiros, irão eliminar as suas irmãs ainda por nascer e de melhor qualidade. Portanto e segundo esta crença, as abelhas depois do estado de pânico inicial e do erro cometido debaixo dessa circunstância de desespero, nada mais fazem para rectificar a estupidez cometida atrás, ficam a assistir passivamente ao desenrolar dos acontecimentos e condenam-se a ter uma mãe de má qualidade. Este é o mito!
Já há cerca de um século atrás, apicultores de grande crédito como G. Doolittle, C. Miller, J. Smith, M. Quinby, entre outros, questionavam este mito.
Viremos a página, actualizemo-nos e aprendamos com o que hoje se sabe através dos dados obtidos empiricamente, por observações devidamente planeadas e controladas. Numa situação de emergência as abelhas calmamente, sem pânico e sem desespero:
escolhem os ovos e larvas melhor nutridas para daí criarem as suas rainhas;
eliminam mestreiros de pior qualidade antes de as rainhas emergirem;
depois das rainhas nascidas, contribuem para a selecção das rainhas mais vigorosas por via das vibrações que imprimem nos quadros de cera.
Estes comportamentos mostram à saciedade o papel activo das abelhas, desde o ovo até à rainha adulta, na selecção de suas rainhas de emergência.
Um aparte: não estou nesta publicação a defender que os apicultores devem multiplicar os enxames por via desta técnica em lugar de utilizarem o translarve ou rainhas compradas a criadores. Não! Não defendi isso, nem nesta publicação nem em qualquer outra feita por mim. Aqueles que assim o entenderam, entenderam mal. Sei uma coisa de há muito: controlo o que escrevo, não controlo, nem o quero controlar, as ilações que cada um tira do que escrevo, estejam elas certas ou erradas.
A terminar: há rainhas de emergência de fraca qualidade? Sim, eu encontrei umas poucas nas minhas colmeias. Quando foram criadas em condições sub-óptimas, com poucas abelhas e/ou poucos recursos nutritivos. Apesar de fazerem muito bem o que fazem, rainhas entre outras coisas, as abelhas ainda não fazem omeletes sem ovos!
Nota: Podem ler mais aprofundadamente aqui: https://www.beeculture.com/a-closer-look-9/
Ontem o Marcelo Murta teve a gentileza de me convidar a fazer com ele a inspecção pré-cresta das colónias de seu apiário, situado nas proximidades de Coimbra. Meti no carro o fato, as luvas, as botas e ala-que-se faz-tarde.
Deixo em baixo algumas fotos que fui tirando durante esta visita às abelhinhas. Obrigado Marcelo pelo convite e as cerca de 3 horas que trabalhámos lado a lado, abrindo colmeias, confirmando a madureza do mel, o padrão de postura das novas rainhas, o estado sanitário dos enxames.
Observando o padrão de postura de uma rainha nova…
… uma rainha criada em condições de emergência. Ah, pobres rainhas de emergência!
Algumas das colónias do apiário.
Abrindo as colónias para avaliar a madureza do mel e o estado sanitário das mesmas.
Muitas vezes é difícil identificar exatamente por que razão as colónias produzem mestreiros de emergência. Contudo um aspecto é comum: a colónia ficou súbita e inesperadamente orfã. Estas são algumas das razões mais frequentes por detrás desta circunstância:
A rainha morreu de repente;
A rainha foi esmagada durante as inspeções;
Rainha perdeu-se durante a inspeção;
A rainha voou e não regressou à colónia;
A rainha virgem não conseguiu voltar do voo de acasalamento;
…
Exemplo de mestreiros de emergência
Os mestreiros de emergência surgem geralmente na periferia externa de uma ou mais áreas com criação operculada, zona onde em geral as abelhas encontram as larvas mais novas e/ou ovos. Estes mestreiros não são iniciados a partir de cálices reais pré-existentes (ao contrário dos mestreiros de substituição, como veremos numa publicação próxima), mas sim a partir dos alvéolos onde se encontram as larvas e/ou ovos. Nesta circunstância de orfandade súbita e inesperada as abelhas constroem um número elevado de mestreiros. Uma boa parte deles será destruído pelas próprias abelhas no decurso do intervalo de tempo até à emergência das rainhas.
Ao contrário do que se pensa, nesta circunstância de emergência as abelhas tendem a preferir os ovos de três dias de idade para iniciarem o processo de criação de rainhas e emergência. Nesta circunstância não preferem larvas mais velhas do que 48h (ver gráfico em baixo).
Em situação de emergência as abelhas escolhem predominantemente ovos para iniciarem o processo de criação de rainhas. Quase 70% dos mestreiros iniciados foram iniciadas quando o alvéolo continha um ovo, em vez de uma larva. Além disso, a maioria dos ovos escolhidos tinha três dias (dados de Hatch, S., Tarpy, D. & Fletcher, D. Worker regulation of emergency queen rearing in honey bee colonies and the resultant variation in queen quality). Sobre este estudo ver esta publicação.
Em baixo, um pequeno vídeo ilustrativo do processo de construção de mestreiros de emergência.
Encontrar um ponto de equilíbrio ou compromisso entre colónias bem povoadas (40-45 mil abelhas) antes e durante um fluxo importante de néctar, colónias capazes de produzir um excedente de mel para o apicultor e, simultaneamente, evitar que enxameiem no início/durante esse fluxo é um dos desafios mais exigentes que encontrei na apicultura.
A prevenção da enxameação, isto é, evitar que a colónia produza mestreiros de enxameação, é posta em prática pelos apicultores por intermédio de variadas técnicas, entre as quais:
em colónias com dois ninhos, inversão quadro a quadro ou inversão à caixa;
checkerboarding (W. Wright);
regra “não mais de 6”;
drenar quadros com criação fechada e/ou abelhas amas para colónias mais atrasadas;
expandir/abrir o ninho, com quadros puxados vazios ou com ceras laminadas;
colocar atempadamente as primeiras meias alças com ceras puxadas;
colocar um quadro de meia alça no ninho;
no início de fluxo, retirar do ninho alguns quadros com largas abóbadas de mel e pólen;
retirar quadros com criação operculada e substituí-los por quadros com ovos e criação não operculada;
trocar colónias de lugar;
…
Aplicação da “regra não mais de 6” numa das minhas colónias.
Todas estas técnicas apresentam um ponto comum, de acordo com a minha percepção: visam criar nas abelhas/colónia uma “sensação” de que a sua casa ainda não está acabada ou completa, que ainda há mais alguma coisa para fazer. Ou têm cera para puxar no ninho, ou o sobreninho está vazio, ou a população de abelhas amas ainda é pequena, ou há um número apreciável de ovos para eclodir e larvas para alimentar, ou o mel/néctar armazenado é pouco face ao espaço disponível nas meias alças, ou…
Resumidamente, estas técnicas visam aproveitar um comportamento das colónias bem enraizado por milhares de anos de evolução: enxamear/ reproduzir-se sempre que atinjam um conjunto de condições óptimas em casa. Condições que garantam o melhor possível a sobrevivência de todas as abelhas, não só as que partem mas também as que ficam na colmeia, assim como das novas gerações de abelhas a nascer e da futura rainha, que permanecerão naquela colmeia durante os duros meses de escassez que virão pela frente.
Ao apicultor, e na medida do que lhe for possível e respeitando a vida do enxame, cabe o papel de ir desarrumando um pouco a casa durante a época de enxameação reprodutiva. Este modo de agir visa prevenir o mais possível a enxameação. Deste esforço para atingir o equilíbrio e o compromisso, colónias populosas e que não enxameiem, resulta uma apicultura mais rentável e um sentimento de competência e de trabalho bem feito, aspectos extremamente gratificantes e motivadores.
Sob o caramanchão de glicínia lilás As abelhas e eu Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas Doiradas e pequenas Não se ocupavam de mim Iam de flor em flor E cá em baixo eu Sentada no banco de azulejos Entre penumbra e luz Flor e perfume Tão ávida como as abelhas
Sei da minha experiência, assim como da experiência partilhada por outros companheiros de lides, que uma das principais causas do insucesso na introdução de rainhas em desdobramentos decorre da presença de mestreiros nos quadros do núcleo aquando da libertação da rainha da gaiola. Para evitar o mais possível que as abelhas puxem mestreiros a partir das larvas e ovos presentes nos quadros do desdobramento passei a proceder da forma que passo a descrever, isto sempre que os timings se ajustavam e o permitiam.
A partir de 2017/2018 passei a utilizar a técnica Doolittle sempre que necessitava produzir núcleos para introduzir rainhas virgens (a maioria) ou fecundadas (a minoria) em gaiola. Para tal elegia várias colónias muito fortes do apiário. A seleção destas colónias começava a ser feita em finais de fevereiro/início de março.
Colónia com população a ocupar todo o ninho e com mais de 6 quadros com criação. São os sinais que quero ver para saber que estou na presença de uma colónia de uma linhagem precoce. Uma das quatro que tenho neste momento neste apiário. (foto de 6 março de 2022)
O passo seguinte passa por colocar-lhes um sobreninho com quadros puxados vazios.
Colocação do sobreninho. Nas posições 4, 5 e 6 coloco os quadros com a maior quantidade possível de alvéolos vazios. Calculo que nos próximos 8-10 dias a rainha subirá ao sobreninho para encher de ovos dois ou três destes quadros (foto de 6 março de 2022.).
Em geral, passadas uma a duas semanas a rainha inicia a postura em vários destes quadros no sobreninho. Nessa altura confino a rainha ao ninho por via de uma excluidora de rainhas.
Coloco os quadros com abelhas e criação no sobreninho.
A colónia permanece nesta condição durante 5 a 9 dias antes de as utilizar para fazer os desdobramentos pela técnica Doolittle.
Ao tirar os quadros para os núcleos inspeccionava-os com cuidado com vista a eliminar todos os mestreiros que as abelhas pudessem ter puxado nessa condição de semi-orfanação. Nem sempre puxam mestreiros no estado de semi-orfanação, mas não é absolutamente certo que não os puxem. Por outro lado e como introduzia a rainha em gaiola fechada durante 48 a 72 h garantia sem qualquer dúvida que todas as larvas presentes nos quadros já teriam 7 ou mais dias. Nesta condição, as abelhas do núcleo não tinham matéria prima para puxarem mestreiros, isto é larvas com menos de três de dias de idade. Assim, a propensão para aceitarem aquela rainha estranha que vai emergir de uma gaiola de plástico, uma rainha que não criaram, aumenta. Neste contexto, a aceitação da rainha é a única alternativa de que dispõem para não ficarem irremediavelmente órfãs e condenadas enquanto enxame.
Ainda que confrontadas com este contexto artificial criados pelo homem nos últimos 100 anos, as abelhas apresentam uma plasticidade comportamental admirável para darem a volta a esta situação concreta e específica para a qual a evolução de milhões de anos as não preparou. Tiro o chapéu!