Uma das principais preocupações quando se fala na aplicação de tiras de ácido oxálico com glicerina durante o fluxo de néctar é a eventual contaminação do mel. A evidência científica disponível começa, contudo, a clarificar esta questão de forma objetiva.

Num estudo recente publicado na revista Pathogens (Efficacy and Safety of an Oxalic Acid and Glycerin Formulation for Varroa destructor Control in Honey Bee Colonies During Summer in a Northern Climate, 2025), verificou-se que as colónias tratadas com tiras de ácido oxálico e glicerina não apresentaram níveis significativamente superiores de resíduos de ácido oxálico no mel quando comparadas com colónias controlo, quer em amostras recolhidas antes quer durante e após o tratamento. Mais ainda: nenhuma das concentrações registadas ultrapassou o intervalo considerado normal para o ácido oxálico naturalmente presente no mel (11,3–160 μg/g).
Estes resultados estão em linha com trabalhos anteriores. Maggi et al. (2016) não encontraram aumento significativo de resíduos de ácido oxálico no mel, cera ou abelhas de colónias tratadas. Da mesma forma, Plamondon et al. (2024) demonstraram que nem o ácido oxálico nem a glicerina apresentaram níveis residuais superiores no mel das colónias tratadas quando comparadas com o controlo — utilizando formulações semelhantes.
Importa recordar que o ácido oxálico é um composto naturalmente presente no mel, variando a sua concentração consoante a origem botânica e geográfica. Ou seja, estamos perante uma substância que já faz parte da matriz natural do produto. A questão científica relevante não é a sua presença, mas sim se o tratamento altera os níveis naturais de forma significativa — e os dados disponíveis sugerem que, nas doses estudadas, isso não acontece.
Reflexão: Dos cerca de 20 medicamentos homologados em Portugal para o controlo da varroose, nenhum está autorizado para utilização durante os fluxos de néctar e respetivo armazenamento para consumo humano.
Perante a evidência científica disponível sobre determinadas formulações, será legítimo perguntar se, em Portugal e na Europa, não estaremos perante um excesso de prudência — talvez até medo da própria sombra — nos processos de homologação.
Também nos próximos dias 13, 20 e 27 de março, no curso Nutrição Apícola Aplicada (via zoom), analisaremos com base em evidência científica sólida várias práticas correntes na apicultura moderna, questionando pressupostos instalados e apresentando alternativas técnicas inovadoras, economicamente sustentáveis e fisiologicamente fundamentadas.
Tal como no domínio da gestão sanitária, também na nutrição das colónias importa distinguir tradição de ciência, hábito de evidência (contacte através do e-mail jejgomes@gmail.com para receber mais informação sobre o curso).




















