amiflex – primeiro tratamento “flash” com amitraz contra ácaros varroa

Quando há dois ou três meses atrás chegou ao meu conhecimento este novo medicamento à base de amitraz hesitei em fazer uma publicação acerca dele, por estas duas razões: (i) tanto quanto sei não está homologado em Portugal à data desta publicação; (ii) pelo facto de estarem homologados três medicamentos com base no amitraz e este ser “apenas” mais um.

Contudo acredito que o Amiflex, produzido por uma conhecida farmacêutica, a Véto-pharma, venha a ser proposto para homologação e que possa contribuir para o cada vez mais difícil combate contra a varroose e viroses associadas. Segundo a Véto-pharma a rapidez de actuação deste novo medicamento pode e deve ser utilizado para contrabalançar a lentidão de actuação de outros medicamentos acaricidas, como por exemplo o Apivar.

É de realçar o alinhamento da Véto-pharma com o meu pensamento quando a propósito da categorização dos acaricidas lentos e rápidos escrevia há 7 anos, nesta publicação, o seguinte: “Estes dados são, na minha opinião, de grande utilidade quando a urgência de uma infestação nos exige a colocação de um acaricida de acção rápida, ou quando pelo contrário o contexto no qual efectuamos o tratamento não nos exige essa rapidez. Finalmente talvez nos ajude também a perceber que muitas das vezes se o tratamento não foi bem sucedido e a colónia acabou por colapsar, não foi por uma questão de resistência dos ácaros ao princípio activo do tratamento por nós escolhido, mas tão só porque chegámos demasiado tarde à corrida e com um cavalo lento, ainda que forte (será o caso do Apivar). Como costumamos dizer “cada coisa é para o que foi feita”.”

Segundo o fabricante:

“Este é o resultado de 6 anos de pesquisa e desenvolvimento. O objetivo era fornecer um produto “flash” com amitraz, legal, seguro e pronto para uso.

O novo gel Amiflex oferece uma maneira fácil de tratar as colmeias antes, entre ou depois dos fluxos de mel, ou imediatamente antes de iniciar um tratamento de libertação lenta, sem restrições de temperatura.

Em caso de alta infestação, pode-se fazer até 2 aplicações, com intervalo de 7 dias entre elas.

Pode usar o Amiflex no final da temporada, antes do tratamento de libertação lenta, para obter um efeito de choque antes de aplicar o tratamento de ação longa. A combinação de um tratamento flash + tratamento de libertação lenta garante uma redução rápida dos ácaros e proteção a longo prazo por várias semanas.

Pode aplicar Amiflex até 4 vezes por ano na mesma colónia. Não substitui os tratamentos de longa duração. É uma ferramenta adicional para a estratégia de controle de varroa.

A aplicação do Amiflex é rápida e fácil. Basta inserir o cartucho na pistola doseadora e está pronto.

A pistola de dosagem, incluída no pacote inicial, foi projetada para fornecer uma dose específica de 3ml por aplicação.

Aplicar 2 doses de 3mL de gel Amiflex por caixa de abelhas. Isso significa um total de 6mL para uma colmeia de corpo único e 12mL para uma colmeia de corpo duplo.

Cada cartucho contém 120mL de gel. Não há mistura ou equipamento adicional necessário.

Embora os tratamentos caseiros flash de amitraz sejam proibidos, eles são amplamente utilizados há muitos anos, pois nenhum produto legal foi registrado anteriormente para esse fim.

Agora, os apicultores dos EUA finalmente têm um tratamento “flash” legal, seguro e pronto para uso. A segurança de Amiflex foi rigorosamente avaliada para:

  1. as abelhas: sem impacto na população de abelhas, na rainha ou no desenvolvimento da criação. O Amiflex também pode ser usado na presença de rainhas, realeiras ou rainhas jovens não acasaladas.
    2. Os produtos da colmeia: não tem impacto na quantidade de mel armazenado e nenhum resíduo detectado no mel ou nos favos que exceda os limites da EPA.”

fonte: https://www.veto-pharma.com/products/amiflex/#

Este novo medicamento pode ser muito útil na estratégia anual de tratamentos porque, assim como outros tratamentos flash já disponíveis em Portugal, foi concebido para eliminar rapidamente as varroas que estejam na fase de dispersão (forética). Fazer baixar a taxa de infestação para um nível de 3% ou inferior permite criar as condições para uma actuação mais eficaz de medicamentos de libertação lenta. Ao mesmo tempo e como não tem restrições de temperatura pode ser utilizado em dias de temperaturas elevadas, como por exemplo entre o fluxo de néctar da primavera e o de verão. Uma restrição que encontro: nos EUA só pode ser manuseado por aplicadores certificados para a utilização de fitofármacos.

a exposição a agroquímicos na cera laminada causa efeitos insignificantes no crescimento e na sobrevivência no inverno de colónias de abelhas melíferas (Apis mellifera)

As investigações levadas a cabo em abelhas são realizadas em diversos tipos de ambientes. Dos menos naturais aos mais naturais temos, respectivamente: in silico; em laboratório; quasi-campo; em campo. Por vezes os investigadores utilizam uma abordagem híbrida, por ex. com investigação em laboratório e no campo. Deixo em baixo a tradução do sumário de um estudo publicado em 2019, onde a avaliação do impacto de resíduos de químicos de actividades agrícolas e acaricidas nas lâminas de cera foi feita em colónias reais no campo, comprovando uma vez mais que os resultados de campo não replicam resultados laboratoriais.

O uso generalizado de agroquímicos nos EUA levou à contaminação quase universal de cera de abelha em colmeias de abelhas. Os agroquímicos mais comumente encontrados na cera incluem acaricidas aplicados por apicultores contendo tau-fluvalinato, cumafos ou amitraz, e pesticidas aplicados em campo contendo clorotalonil ou clorpirifos. A cera contaminada com esses pesticidas afeta negativamente a qualidade reprodutiva de rainhas e zângãos. No entanto, os efeitos sinérgicos desses pesticidas no crescimento e sobrevivência de colónias jovens permanecem pouco estudados. Estabelecemos novas colónias usando lâminas de cera livre de pesticidas ou contaminadas com concentrações relevantes de campo de amitraz isolado, uma combinação de tau-fluvalinato e cumafos ou uma combinação de clorotalonil e clorpirifos. O crescimento da colónia foi avaliado pela estimativa da produção de favo e criação, armazenamento de alimentos e população de abelhas adultas durante a primeira temporada de uma colónia. Também medimos a sobrevivência de hibernação da colónia. Não encontrámos diferenças significativas no crescimento ou sobrevivência das colónias entre colónias estabelecidas em lâminas de cera livre de pesticidas versus contaminadas com pesticidas. No entanto, as colónias que tinham níveis de Varroa destructor acima de 3% no outono eram mais propensas a morrer durante o inverno do que aquelas com níveis abaixo desse limite, indicando que a alta infestação de Varroa no outono desempenhou um papel mais importante do que a exposição inicial a pesticidas nas lâminas de cera na sobrevivência no inverno de colónias recém-estabelecidas.

fonte: https://www.mdpi.com/2075-4450/10/1/19

Na Austrália, até recentemente livre da varroa, não me recordo de alguma vez ter lido notícias acerca do Colony Colapse Disorder (CCD) que afectou a Europa e os EUA, ainda que por lá os agricultores também utilizem pesticidas. Como explicar ainda que na mesma zona, apicultores vizinhos, uns tenham mortalidade invernal de +50% das colónias e outros inferior a 5%. Se é verdade que nem toda a mortalidade de colónias de abelhas se deve à varroa, também é verdade que os resíduos químicos presentes nas ceras são pequenos responsáveis pelo definhamento de colónias no grande quadro das coisas.

vírus da criação ensacada

Já viu este cenário? Se sim, viu larvas afectadas pela doença da criação ensacada.

A doença da criação ensacada é pouco conhecida pelos apicultores , pelo que vou percebendo nos grupos de apicultores. É, no entanto, uma virose relativamente frequente nas abelhas. Foi a primeira virose descrita em abelhas, no início de sec. XX. Geralmente não é letal ao ponto de condenar uma colónia ao colapso.

O vírus da criação ensacada é causado por um vírus do género Iflavirus. O vírus afeta principalmente larvas de operárias, mas também pode infectar abelhas adultas. Acredita-se que as larvas sejam infectadas pela alimentação já contaminada com o vírus. A partir deste momento o vírus multiplica-se no interior das larvas infectadas. Estas larvas morrem logo após a operculação do alvéolo. O vírus da criação ensacada pode permanecer viável em larvas mortas, mel ou pólen até quatro semanas.

O vírus da criação ensacada pode infectar abelhas adultas, mas não produz sintomas visíveis. As infecções do vírus da criação ensacada são mais observáveis quando o vírus infecta as larvas.

Opérculo ligeiramente removido numa pupa infestada com o vírus da criação ensacada.

Os sintomas típicos do vírus da criação ensacada são:

  • Um padrão de criação irregular com opérculos descoloridos, afundados ou perfurados espalhados nos quadros com criação. Isto geralmente é provocado pelas abelhas adultas que procuram remover a criação infectada;
  • As larvas infectadas morrem logo após a operculação e não conseguem pupar;
  • A larva morre com a cabeça caracteristicamente levantada em direção ao topo do alvéolo e esticada de costas no alvéolo (isto é, em forma de banana);
  • Após a morte, as larvas infectadas mudam de um branco pérola e saudável para amarelado e depois para acastanhado. O escurecimento inicia-se na cabeça da larva morta e espalha-se para o resto do corpo;
  • A cutícula da larva morta transforma-se num saco resistente, cheio de líquido. É esta fase da infecção que dá nome ao vírus. O saco pode ser cuidadosamente removido do alvéolo intacto;
  • As abelhas ama geralmente abrem o opérculo expondo ou removendo as larvas mortas. A abertura geralmente é irregular;
  • Após o estágio de saco, as larvas começam a secar, formando uma escama quebradiça, de cor castanho-escura, que é facilmente removida do opérculo; Estas larvas em decomposição não libertam um odor forte, ao contrário das larvas em decomposição por loque americana.
Larva infectada no opérculo mostrando a mudança de cor e as peças bucais a ficarem pretas e a apontar para cima.

O vírus da criação ensacada também pode afetar as abelhas adultas:

Abelhas adultas com menos de oito dias de idade são infectadas quando ingerem o vírus. O vírus pode ser ingerido através de alimentos contaminados ou pela remoção de larvas que foram mortas pelo vírus da criação ensacada.
As abelhas adultas infectadas não apresentam sintomas óbvios. No entanto, as glândulas hipofaríngeas (são as glândulas que produzem geleia real/alimento para a criação) das abelhas ama são infectadas. Acredita-se que as abelhas ama infectadas possam passar o vírus para as larvas enquanto as alimentam. As abelhas adultas que foram infectadas com o vírus tendem a não alimentar as larvas por muito tempo; geralmente param de comer pólen (uma mudança comportamental associada ao vírus) e tornam-se forrageadores ainda jovens. Durante o forrageamento, as operárias infectadas geralmente tendem a não colectar pólen, no entanto, qualquer pólen coletado pode estar contaminado com o vírus e pode actuar como uma fonte de infecção para outras abelhas na colónia.

As larvas infectadas mudam para castanho-escuro-escuro à medida que a doença progride.

As abelhas geralmente são capazes de controlar o vírus vírus da criação ensacada na maioria das colónias por meio do comportamento higiénico e da capacidade de detectar e remover larvas infectadas. No entanto, esta virose pode tornar-se grave quando combinado com outros stressores, como escassez de néctar ou pólen, condições climáticas desfavoráveis, ou infestação por outras pragas e/ou doenças, em particular a varroose. Quando estas situações ocorrem, os apicultores devem tomar medidas para restaurar a população da colónia, aumentando a população de abelhas operárias ou fornecendo xarope de açúcar e/ou pólen.

Os apicultores podem proteger as suas colmeias inspecionando regularmente os sinais da doença. Se o vírus da criação ensacada for detectado em mais de 5% da criação, os quadros com criação infectados devem ser removidos e derretidos.

fonte: https://beeaware.org.au/archive-pest/sacbrood/#ad-image-0

Nota: os especialistas para esta e outras viroses, e até outras doenças, recomendam a mudança de rainha como medida resolutiva. Cada vez mais me parece que esta estratégia surge como panaceia, como a “chave que tudo resolve”. Não afirmo que não possa contribuir em alguns casos para a resolução, mas os resultados desta estratégia estão longe de serem garantidos.

cresta 2023: no litoral centro

Na passada segunda-feira o Marcelo Murta, comigo a dar uma mãozinha, fez a cresta das colmeias que tem no seu apiário nas proximidades de Coimbra. Deixo em baixo algumas fotos que ilustram o trabalho que efectuámos.

Crestámos 10 colmeias do modelo Langstroth.
Há cerca de 45 dias atrás o Marcelo optou por colocar grelhas excluidoras em todas as colónias em produção. Confessa ter ficado muito satisfeito com esta opção.
Também neste apiário verificámos que a utilização da grelha excluidora permite alcançar um ninho mais organizado do ponto de vista do apicultor, com a criação mais compacta, sem o bloqueio do ninho com pão-de-abelha e meias-alças livre de criação, com pouco ou nenhum pólen.
Já na sala de extracção.
Mel de mil flores, muito aromático, com um bouquet floral notável que apreciei muito.

Das 20 meias-alças foram extraídos 180 kgs de mel, a melhor produção que alcançou nos anos que leva de apicultura. Uma das razões que encontra passa por ter utilizado este ano de forma mais sistemática e planeada as colmeias armazém que lhe permitiram desbloquear mais eficientemente os ninhos no período da enxameação reprodutiva (março e abril este ano e nesta zona). A utilização das grelhas excluidoras também deu o seu contributo, porque permitiu crestar todas as meia-alças, inclusivé as primeiras logo sobre o ninho, onde se encontravam muitos quadros com mel a encher os alvéolos, quando 45 dias antes se encontravam ocupados com criação.

do controlo da enxameação às fábricas de quadros com criação

O meu maneio preferido para fazer o controlo da enxameação, passava por encontrar a rainha e transferi-la para um núcleo. Este maneio simula a enxameação natural, diminuição da força de trabalho e mudança de casa, e refreia absolutamente o impulso enxameador.

Quadro com a rainha retirado da colónia que estava para enxamear em 23-03-2021.
3 a 4 semanas adiante estes núcleos são fábricas de fornecimento de quadros com criação a outras colónias, em particular às colónias em produção. Dadas as características das rainhas, dadas as dimensões dos núcleos e, sobretudo, porque estas colónias mais pequenas têm mais fome de crescer do que uma colónia de 10 quadros, a produção de quadros repletos de criação é mais rápida e intensa.
Desde que geridos com regularidade, tirando semanalmente ou quinzenalmente um a dois quadros com criação, estas colónias explosivas não tendem a atingir o limiar que as predispõe a enxamear novamente no ano em que são criadas. É um maneio no fio da navalha, mas para quem tem disponibilidade e gosto é muito gratificante. Por regra, no ano seguinte continuavam a apresentar um padrão de criação bastante satisfatório no final do inverno, com uma rainha provavelmente no seu terceiro ano de postura (foto de 08-03-2022).

Publiquei e descrevi esta estratégia de maneio em várias publicações que podem encontrar neste blog a partir de 2018/2019. Provavelmente terei suscitado um vasto leque reações, desde as mais interessadas às do tipo “este gajo é doido em não deixar crescer o núcleo para colmeia “. Para fazer justiça a todos, uma vez mais repito que não inventei nada, esta estratégia de maneio aprendia-a das leituras que fiz de Michael Palmer, um apicultor do Vermont (EUA) que julgo que tem uma operação com cerca de 700 colónias, e que nos seus apiários tem permanentemente um conjunto de núcleos para este fim. Por cá na Europa sei que estou bem acompanhado nesta opção de controlo da enxameação e utilização dos núcleos, que é também a de David Evans, aquele que melhor escreve sobre abelhas no mundo virtual. É o que o David refere na última publicação do The Apiarist, esta semana.

De acordo com o Dr. Google serei o único a escrever sobre esta técnica em português. Sei que alguns amigos a passaram a utilizar quando me referiram a sua satisfação com os resultados.

o mundo agrícola unido pela biodiversidade ou uma breve história de um apicultor do Marne

Apicultor orgânico/bio em Ville-en-Tardenois, no Marne, Philippe Lecompte conta com uma estreita colaboração com o setor agrícola como um todo para preservar a fauna e a flora (ver aqui entrevista).

A jornada de Philippe Lecompte, apicultor orgânico perto de Reims!
Este especialista em abelhas e amante teve sua primeira colmeia em 1975 e tornou-se profissional em 1979. Preocupado com a qualidade do mel e o bem-estar de suas abelhas, tornou-se orgânico/bio em 1995. Philippe também é presidente da Réseau Biodiversité pour les Abeilles, e vice-presidente da associação Symbiose para paisagens e biodiversidade, que reúne representantes do mundo agrícola e vitivinícola, várias autoridades regionais do Grand Est e indústrias de proteção de plantas.

Este ano em França, as beterrabas, inclusive as orgânicas, foram parasitadas por pulgões, com quedas espetaculares de rendimento. Existem apenas dois tratamentos: os piretroides sintéticos, que são administrados por pulverização e, portanto, podem envenenar vários insetos com facilidade, e as sementes revestidas com neonicotinoides, menos prejudiciais porque permanecem no solo.

Mas esta polémica, acima de tudo, impede que se pense nas verdadeiras causas da mortalidade das abelhas. A Plataforma de Epidemiologia de Saúde Animal, uma organização independente sob a égide do Ministério da Agricultura e do INRAE (Instituto Nacional de Investigação para a Agricultura, Alimentação e Ambiente), publica um estudo anual sobre as causas de mortes de abelhas:

  • 1º responsável: parasitas, em particular a varroa, cuja fêmea se alimenta da abelha, e transmite um vírus mortal (nova estirpe de vírus mais virulenta espalha-se pelas colónias de abelhas na Europa).
  • Na 2ª posição, a Plataforma aponta para as más práticas apícolas, cada vez mais difundidas. A abelha é o terceiro animal doméstico em França há vários anos. Muitas pessoas iniciam a apicultura sem ter as habilidades e os conhecimentos necessários, o que tem graves consequências na mortalidade do seu efectivo.

Quais são as relações entre o apicultor do Grand-Est e outros atores do mundo agrícola?
A agricultura é um castelo de cartas: se uma cai, as outras seguem. Por exemplo, o desaparecimento do setor francês de beterraba teria sérias consequências na produção de alfafa, uma planta muito benéfica para a preservação da biodiversidade, porque as unidades de desidratação da alfafa também produzem polpa de beterraba, essencial para assegurar a sua rentabilidade.

Na nossa região, os atores do setor agropecuário em sentido amplo trabalham juntos há vários anos nestas questões. A associação Symbiose lançou assim iniciativas e experiências para promover a biodiversidade nos nossos territórios, como a instalação de faixas intra-parcela com floração escalonada, de forma a garantir a alimentação dos polinizadores durante todo o ano, sebes ou faixas de alfafa na orla das parcelas.”

fonte: https://www.lunion.fr/id201075/article/2020-10-23/marne-le-monde-agricole-uni-pour-la-biodiversite

como batem as asas para outras coisas que não voar: vídeo em ultra slow motion

No artigo Wings as impellers: honey bees co-opt flight system to induce nest ventilation and disperse pheromones, 2020, Jacob M. Peters e colegas filmaram os movimentos das asas das abelhas em movimento muito lento. Quando as abelhas estão a ventilar a colmeia ou a dispersar as feromonas produzidas na glândula Nasonov (feromona de chamamento e/ou de alerta) o movimento das asas cria um fluxo de ar no sentido da retaguarda. Esta publicação é um complemento visual a esta publicação.

As abelhas melíferas (Apis mellifera) são voadoras notáveis que carregam regularmente cargas pesadas de néctar e pólen, apoiadas por um sistema de voo – as asas, tórax e músculos de voo – que se pode supor é otimizado para locomoção aérea. No entanto, as abelhas também usam esse sistema para realizar outras tarefas cruciais que não estão relacionadas com o voo. Ao ventilar o ninho, as abelhas agarradas à superfície do favo ou à entrada do ninho abanam as suas asas para direccionar o fluxo de ar através do ninho ou expulsá-lo do ninho. Um comportamento semelhante de abanar as asas é usado para dispersar feromonas voláteis da glândula Nasonov.

Visualização do fluxo de ar impulsionado para a retaguarda, marcado com uma cruz vermelha. Movimento desacelerado aproximadamente 400 vezes.

ventilação do ninho: dois apontamentos

Nesta publicação deixei a pergunta: “o comportamento de ventilação das abelhas expulsa o ar quente e saturado de CO2 do interior da colmeia, como se o aspirasse para o exterior ou, ao contrário, força a entrada de ar fresco e oxigenado do exterior para o interior da colmeia?”

A questão surgiu-me da leitura do artigo Collective ventilation in honeybee nests, de 2019, Jacob M. Peters e colegas. Os investigadores tiram duas conclusões dos dados que recolheram da ventilação auto-organizada em colónias de abelhas melíferas europeias:

“Existem dois componentes comportamentais que são críticos para a ventilação auto-organizada.

  • “Primeiro, com o batimento de asas à entrada da colmeia as abelhas devem (e fazem) a extracção do ar para fora da entrada do ninho, e não para dentro. Isso permite-lhes sentir a temperatura do ninho a montante. Se as abelhas introduzissem o ar pela entrada do ninho, não teriam nenhuma informação sobre o estado da colmeia. ” Por palavras minhas, as abelhas ventiladadoras aspiram/expulsam activamente o ar do interior da colmeia e despejam-no no exterior. Ao fazerem assim recolhem informação da temperatura deste ar [humidade e CO2 também, digo eu] e o ar do exterior entra passivamente para ocupar o espaço do ar extraído. Esta utilização da mecânica dos fluídos pelas abelhas é de uma elegância e inteligência inquestionável, na minha opinião.
  • “Em segundo lugar, a função que determina a probabilidade de uma abelha ventilar a uma determinada temperatura provavelmente foi ajustada por meio da seleção natural. […] De fato, sabe-se que colónias com alta diversidade genética têm mais variação nos limiares individuais de temperatura para ventilação e são capazes de atingir uma temperatura de colmeia mais estável ao longo do tempo. Nossa teoria sugere que essa diversidade também é crítica para a estabilidade da padronização espacial do comportamento de ventilação, necessária para uma ventilação eficiente.” Mais um aspecto que associa a diversidade genética da colónia, isto é a presença de diversas sub-famílias, ao bem-estar e sanidade das colónias. Vamos a ver o que o nosso afã para selecionar, afunilando a diversidade genética, nos está a trazer e nos trará no futuro. Por exemplo nos EUA, vários especialistas e apicultores já se questionam se a selecção para abelhas menos propolizadoras não será uma das causas para os problemas sanitários e mortalidade de suas abelhas.

Deixo outra questão: em que medida o apicultor ao promover a ventilação superior, com a abertura por exemplo do óculo da prancheta e promovendo o efeito chaminé, não está a perturbar estes comportamentos de auto-organização? Se sim, que significado e impacto tem essa perturbação?

ventilação da colmeia ou a persuasão das influencers

As abelhas batem as asas 230 vezes por segundo.

Rachael Kaspar, no artigo Experienced individuals influence the thermoregulatory fanning behaviour in honey bee colonies, 2018, mostra que as abelhas mais velhas influenciam as abelhas mais jovens e inexperientes a ventilar a sua colónia para a arrefecer nos dias mais quentes. O seu estudo testou a hipótese de que uma abelha individual/ou pequeno grupo de abelhas pode influenciar outros membros do grupo a realizar um comportamento termorregulador de batimento de asas à entrada da colmeia na abelha ocidental, Apis mellifera L.

Kaspar mostrou-nos que as abelhas amas são influenciadas ao ver as abelhas operárias mais velhas e experientes na tarefa de batimento de asas e ocupação de locais precisos para promover um maior fluxo de saída e de entrada de ar na colmeia.

“As operárias mais velhas influenciam definitivamente as abelhas ama mais jovens”, disse Kaspar. “Eu estava interessada em analisar como grupos de diferentes idades interagiam socialmente, quais são as variações entre grupos de diferentes idades e como eles interagem para alcançar uma resposta adequada aos stressores ambientais”.

“Nós pensávamos que as abelhas como insetos não teriam a capacidade de aprender, memorizar ou ter estas influências sociais. Mas, na verdade, elas fazem-no. As abelhas são um ótimo modelo para estudar outras sociedades, como a nossa.”

Kaspar teve a ideia de um influenciador ou iniciador do comportamento da colmeia quando observou o comportamento humano no campus. Um grupo de pessoas esperava que o sinal mudasse para poderem atravessar. Muito impaciente por ter de esperar, uma pessoa atravessou a rua. Um ou dois segundos depois, os outros pedestres também atravessaram, influenciados pelo comportamento da primeira pessoa a atravessar.”

fonte: https://www.colorado.edu/today/2018/08/02/pushing-boundaries-honeybee-hive-mates-influenced-fan-wings-keep-hive-cool

Notas: 1) também o comportamento defensivo parece ter uma componente de aprendizagem/imitação social. Abelhas menos defensivas transferidas para colónias mais defensivas tornam-se mais defensivas.

2) o comportamento de ventilação das abelhas expulsa o ar quente e saturado de CO2 do interior da colmeia, como se o aspirasse para o exterior ou, ao contrário, força a entrada de ar fresco e oxigenado do exterior para o interior da colmeia?

3) sobre a ventilação superior e seu maneio há muitos apicultores norte-americanos, entre outros, a baterem o pé que ela é benéfica no seu território.

óculo da prancheta, fechado ou aberto?

A ventilação das colónias e o seu maneio é um clássico nas conversas entre apicultores. Quando se fala de ventilação há que discriminar entre (i) a ventilação inferior, ao nível do estrado — sólido ou em rede? — e do alvado — com ou sem grelha de entrada?; (ii) a ventilação superior — óculo da prancheta, fechado ou aberto?

Vou apresentar as minhas opções relativamente à ventilação superior, que não são nem melhores nem piores que outras, são as que me pareceram favorecer mais os meus enxames no seu território. Lembro que é um território no distrito da Guarda, de temperaturas bastante baixas no inverno e altas no verão. As amplitudes térmicas diárias são elevadas no final do inverno, primavera e outono. É um clima de ar seco, aspecto a que dou particular importância, porque não tão atreito ao desenvolvimento de bolores e micoses no ninho. Lembro ainda que tinha as colmeias em assentos a cerca de 30 cm do solo, aspecto que também potencia a ventilação.

Tendo em conta estas particularidades, as minhas colónias no final da primavera (desde que as temperaturas diurnas atingiam os 25-27ºC e as noturnas se estabilizavam acima dos 13-15ºC) passavam a ter o óculo aberto em apenas cerca de 1/3 do seu diâmetro. Esta opção permitia às abelhas escolherem a sua ventilação superior. Quem melhor do que elas para decidir?

… e algumas colónias aparentemente desejam esta ventilação superior porque não fechavam com própolis este espaço aberto…
… enquanto outras aparentemente não desejam esta ventilação superior porque fecham com própolis o espaço aberto.

No outono/inverno e parte da primavera, com temperaturas nocturnas estabilizadas abaixo do 10-12ºC e diurnas abaixo dos 23-25ºC, fechava o óculo da prancheta. Com esta opção procurava evitar o efeito chaminé, a saída rápida pelo orifício da prancheta do ar quente e húmido proveniente do ninho. Como sabemos a criação de larvas beneficia muito por dispor de um nível relativamente alto e estável de humidade no ninho. Caso deixasse o óculo aberto, o ar seco do território entraria mais intensamente no ninho, podendo desidratar demasiado o ambiente interno do ninho e criar dificuldades suplementares às abelhas no cuidado às larvas.

Óculo fechado para estabilizar o mais possível a temperatura, mas sobretudo a humidade relativa no ninho. A humidade relativa no ninho de uma colónia forte e saudável situa-se entre os 50% e 60%. Com níveis inferiores a 50% de humidade relativa os ovos não eclodem. Com o óculo aberto o efeito de chaminé no ninho intensifica-se, podendo desidratá-lo em demasia.