as coisas que eu vejo!!!

É este o castanheiro que me serve de farol para ter a certeza que os castanheiros da minha terra estão para começar a floração. Ano após ano é dos primeiros a florir. Aprendi com a boa gente da minha terra que o tempo da floração varia um pouco de acordo com as castas dos castanheiros: se a casta é longal mais cedo um pouco, se é martainha mais tarde um pouco.

Dos que eu vejo costuma ser dos primeiros.

Vieram pois na altura certa, espero eu, as colónias com as novas rainhas formadas nos apiários a 600 m, para os dois apiários que neste momento estão activos no território dos soutos. E se nas novas colónias langstroth tive oportunidade e os recursos para “palmerizar” com relativa frequência, os recursos para efectuar esse maneio no apiário das lusitanas foram mais escassos. Como consequência, para além de ter transumado colónias que pesavam mais que um burro, estive hoje a desbloquear os ninhos destas lusitanas que apresentavam quadros a mais de mel no ninho e, portanto, quadros a menos com espaço para a oviposição das novas rainhas.

Como poderá uma rainha num quadro como este…
… fazer este lindo serviço?

O maneio é simples, que já não tenho idade nem talento para coisas muito complicadas. Crio uma colmeia armazém, colocando nesta altura e desde logo uma excluidora de rainhas sobre o ninho e um sobreninho no topo. Este sobreninho vai doando quadros com cera laminada aos ninhos parcialmente bloqueados das colónias nas proximidades e recebendo quadros bloqueados com mel ou néctar, de preferência quadros claros para serem posteriormente crestados.

Colmeia armazém, criada hoje, com 4 quadros com mel/néctar recebidos de outras colónias e com 6 quadros com ceras laminadas para doar a mais algumas colónias parcialmente bloqueadas.
Colocação hoje de um quadro de cera laminada no ninho porque…
… estas rainhas de emergência precisam de uma “tela” adequada para expressarem com toda a liberdade o seu potencial.

Ah, e será a grade excluidora uma merda? como opinou recentemente e publicamente um conhecido apicultor da nossa praça. O que posso dizer é que as minhas abelhas não ligam nenhuma ao que este companheiro diz das excluidoras. Hoje em várias das minhas colónias (friso, das minhas, das de cada um, cada um saberá melhor), com exluidoras colocadas em 17 de maio entre o ninho e sobreninho, constato uma vez mais que o resultado em nada confirma três pré-juízos: não impede/dificulta a armazenagem de mel nas caixas que lhe estão sobrepostas; as excluidoras não aumentaram a taxa de enxameação; não limitaram o potencial de oviposição das minhas rainhas. Se assim não fosse como seria eu capaz de explicar que todas as minhas colónias com ninho e sobreninho, e com grelhas excluidoras colocadas a 17 de maio, tenham neste momento armazenado entre 30 e 50 kgs de mel/néctar?

Com cerca de 50 kgs de mel/néctar já armazenado…
… a caminho dos 60… e com o castanheiro todo para fazer!

Nas minhas colónias o grande factor limitante à expressão do potencial de oviposição de rainha é um ninho parcialmente bloqueado… com mel ou pólen, ou os dois em conjunto. Não se verificando este bloqueio, os mais de 3500 alvéolos por face de lâmina de cera (langstroth ou lusitana) são suficientes para as minhas jovens rainhas, expressarem devidamente o seu vigor. A utilização do “ninho infinito”, como já o utilizei inúmeras vezes, mostraram-me vezes e vezes, que as minhas rainhas, assim como as rainhas de criadores profissionais, não precisavam mais que 7 a 8 quadros bastante desbloqueados para completarem um ciclo de 21 dias de postura.

Com 7 a 8 quadros no ninho com este padrão, para elas é suficiente e, portanto, para mim também, que remédio!

Falta fazer este disclaimer: qualquer semelhança das minhas observações, nas minhas colmeias, com as observações nas colmeias de qualquer companheiro de lide, é mera coincidência. Digo isto porque não me recordo de ouvir algum apicultor no nosso país referir que o ninho das suas langstroth ou lusitana é suficiente para albergar o ritmo/quantidade de oviposição das suas rainhas. Mais uma vez me encontro a ver coisas que mais ninguém vê!!! Como hoje quando parei para almoçar eram 14, 15h, e já tinha 8h de trabalho no pêlo, tudo isto pode muito bem ser fruto de uma alucinação por exaustão! Por isso vou fazendo um registo fotográfico porque, tanto quanto é do meu conhecimento, os “smartphones” não sofrem de alucinações. Ficava mais um pouco, mas tenho de ir a um outro apiário ainda hoje. Bom trabalho para todos… e não bloqueiem com os disparates que vou vendo!

o que faz a qualidade de uma rainha?

Mais um dia de trabalho a começar com o sol a nascer por detrás de um céu muito nublado, e debaixo de uma chuva miudinha que parecia ter passado por um coador de malha fina ao cair.

Com vários objectivos para cumprir, nomeadamente “palmerizar” alguns núcleos, retorno a este em concreto:

Núcleo que em 24.03 não apresentava postura e que em 02.04 classifico a rainha como fraca de acordo com o padrão de postura que observo. Nestas situações costumo dar mais 15 a 20 dias para ver se o padrão de postura da rainha evolui e me faz alterar a ideia que se trata de uma rainha a eliminar. E muitas das vezes altero! Este foi mais um desses casos.
De lá para cá este núcleo já doou vários quadros com criação e hoje voltou a fazê-lo, este quadro que vemos na foto. O que provocou a reviravolta na qualidade da postura? Há muito me convenci que são as abelhas, isto é, a qualidade e a quantidade de abelhas que compõem a colónia, que fazem, na grande maioria dos casos que observo nos meus apiários, a qualidade das rainhas.

A este propósito, deixo a tradução do sumário de um estudo muito interessante, publicado há pouco mais de um ano na revista Insects.

Título: O padrão de postura numa colónia de abelhas é um indicador confiável de qualidade da rainha?

Sumário: “A falta de qualidade da rainha é frequentemente identificada como uma das principais causas de mortalidade das colónias de abelhas. No entanto, os fatores que podem contribuir para a “falta de qualidade da rainha” estão mal definidos e geralmente estão mal compreendidos. Estudámos um aspecto específico associado à falta de qualidade da rainha: padrão de postura fraco. Em 2016 e 2017, identificámos pares de colónias com padrões de criação “bom” e “fraco” em apiários de profissionais de apicultura e usamos métricas padrão para avaliar a saúde das rainhas e colónias. Não encontrámos dados da qualidade das rainhas associadas de maneira confiável a colónias com padrão de postura fraco. No segundo ano (2017), trocámos rainhas entre pares de colónias (n = 21): rainhas de colónias com padrão de postura fraco foram introduzidas em colónias com padrão de postura bom e vice-versa. Observámos que os padrões de criação de rainhas originárias de colónias com padrão de postura fraco melhoraram significativamente após a colocação em colónias com padrão de postura bom após 21 dias, sugerindo outros fatores que não a rainha contribuíram para a alteração do padrão de postura. Nosso estudo desafia a noção de que o padrão de postura é suficiente para julgar a qualidade da rainha. Nossos resultados enfatizam os desafios que se colocam na determinação da raiz dos problemas associados à rainha ao avaliar a saúde das colónias de abelhas.

Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30626029/

produção média nos apiários a 600 m de altitude

Hoje, por volta da 6,15 h, encontrava-me a caminho dos meus dois apiários a 600 m de altitude com dois objectivos em mente: identificar colmeias para transumar para os dois apiários que tenho neste momento em território de castanheiro e a cerca de 900 m de altitude, e fazer uma estimativa do mel armazenado à data.

Quando o desnível nos permite ver com alguma frequência o lado de cima das nuvens!

Nestes dois apiários a altitude mais baixa desdobrei cerca de 70% das colónias e deixei as restantes dedicadas à produção de mel, o que me deixou com 24 colónias, contas exactas, dedicadas ao mel. Tendo hoje visto com algum detalhe a quantidade de mel armazenado nas alças e nas meias-alças, verifico que a média não sendo nenhum sonho realizado, também não confirma o pesadelo que se afigurava até meados de maio.

Não tenho memória de neste local ter começado a colocar meias-alças a partir somente de meados de maio, e ter necessidade de alimentar a grande maioria das colónias até essa altura.
Praticamente pronto para seguir para a extracção.
Colmeia lusitana com ninho e sobreninho com grade excluidora. Várias das colmeias nesta configuração serviram dois propósitos em momentos diferentes: durante o mês de abril e até meados de maio contribuíram com quadros com criação e abelhas para os desdobramentos, e dessa altura até à data orientei-as para a produção de mel. Para me auxiliar nessa mudança de objectivo socorri-me da grade excluidora.

Quanto à produção global dos dois apiários a minha previsão aponta para os 400 kgs de mel claro. Se dividir este valor pelas 24 colónias dedicadas a este fim a média por colónia ronda os 16,5 kgs. Estou francamente convicto que esta média será ultrapassada pelas colónias dos dois apiários a 900 m de altitude, que a meteorologia deste ano está a favorecer claramente.

Configuração de uma de várias colónias no primeiro apiário a 900 m de altitude, com grade excluidora colocada a 17.05. Com o castanheiro nos “beginnings”, e com um belíssimo ano de marcavala, que está a dar as últimas.

o território

Como uma cadeira, que tem de ter 4 pernas para não se desequilibrar e cumprir a sua função, também a apicultura, como a entendo, assenta em 4 pernas: a meteorologia, as abelhas, o apicultor e o território. A meteorologia quer-se pouco alterada, a abelha quer-se adaptada, o apicultor quer-se cuidador, o território quer-se abundante.

É para este território abundante que vou, a pouco e pouco e à medida das minhas energias, transumando algumas das minhas colónias.

Um território ainda verdejante, cheio de frescor e riachos a rumorejar.
Onde alguma marcavala ainda persiste nos locais mais húmidos e na sombra do folhedo das árvores.
Com arvoredo de vária espécie, enraizado em terra amiga.
Onde coexistem soutos centenários e soutos recentes.

E são estas muito simples razões que me levam a ver o sol a nascer, já no apiário, para iniciar mais uma pequena transumância. Pequena na distância (cerca de 30 km desta feita) e pequena no número de colmeias (12 de cada vez que é o número que a minha carrinha carrega de forma confortável quer para as abelhas, quer para mim, que já fui mais novo, e as langstroth para um homem só não são brinquedo a carregar e a descarregar!).

4+4+4
Colónias, que neste momento e para esta transumância, procuram obedecer à regra “não menos de 8 quadros de criação”. Várias com 9 e uma ou outra com 10. São rainhas novas e o período da enxameação reprodutiva está a terminar.
Postura de rainha nova. Um detalhe: nesta altura já se começa a ver a abóbada de mel e pólen, que irá crescendo à medida que o verão for entrando. De imprevidente, a estas abelhas adaptadas, não lhes conheço nada.
Já assentes… no território dos castanheiros, à espera das candeias que florirão dentro de dias.
Tempo de ir ao armazém carregar meias-alças com cera puxada…
… para acabar de fazer o que tem de ser feito.
Não esquecendo alguns detalhes… como deixá-las decidir se desejam ou não ventilação superior (que eu disso nada percebo!).

com os dias a começaram cedo e a terminarem debaixo de um céu de fogo!

Nesta semana tenho repartido o tempo na realização de um conjunto variado de tarefas. Os dias têm começado cedo e têm terminado debaixo de um céu de fogo!

Com os dias a começaram cedo e a terminarem debaixo de um céu de fogo!
Introdução de um segundo lote de rainhas que me foram oferecidas pelo meu amigo David Marques.
Palmerização de núcleos para fortalecimento de colónias a transumar para o território do castanheiro.
Montagem de colmeias.
Preparação de quadros do ninho com cera laminada.
Limpeza do acesso a um apiário.
Limpeza do apiário para receber colónias num território de castanheiro e azinheira, em pleno Parque Natural da Serra da Estrela.
Transumância de pequena distância (cerca de 15 km e com ganhos de 300 m de desnível) que permite às colónias aproveitar as florações mais tardias do castanheiro e da silva.

o efeito da alimentação/ingestão de xarope de açúcar em colónias de abelhas

Só tenho acesso ao sumário do estudo, e desconheço qual a proporção de açúcar em relação à água presente no xarope mais concentrado e no xarope menos concentrado**. Achei particularmente interessante os pontos 4 e 5 deste artigo de 1961, porque me parece confirmam as minhas observações e reflexões. Nos meus apiários tenho verificado que as colónias que alimento com pasta de açúcar aparentam ter mais área de criação à saída do inverno (fevereiro e março) do que as colónias que não alimento ou alimento menos frequentemente. E para o explicar já tinha colocado a hipótese que isso se deveria ao facto das colónias alimentadas a pasta poderem disponibilizar mais abelhas para a colecta de pólen. Assim sendo, estas colónias estarão em condições de fornecer uma dieta mais adequada tanto às abelhas amas como às larvas em desenvolvimento, porque têm acesso a uma maior quantidade e diversidade de aminoácidos.

  1. “As colónias de abelhas foram alimentadas com xarope de açúcar concentrado ou diluído, ou permaneceram não alimentadas, na primavera, verão e outono de 1958 e 1959.
  2. O xarope mais concentrado foi mais aceite que o diluído em todos os grupos experimentais, mas a desproporção de aceitação de xarope concentrado para o diluído diminuiu ao longo dos dois anos.
  3. A concentração do xarope fornecido não fez diferença aparente no ganho de peso das colónias, provavelmente porque a maior eficiência no armazenamento de xarope concentrado foi compensada pela diminuição no forrageamento produzido nas colónias assim alimentadas.
  4. A alimentação de xarope diluído ou concentrado aumentou a área de criação durante e após a alimentação num ano (mau tempo), mas não teve efeito na área de criação no outro ano (bom tempo).
  5. Enquanto eram alimentadas, as colónias geralmente colectavam mais pólen do que as não alimentadas.
  6. A alimentação de qualquer concentração de xarope provavelmente diminuiu a coleta de néctar quando as condições de forrageamento eram boas e o xarope concentrado pode ter diminuído mais do que o xarope diluído o comportamento de forrageamento.”

fonte: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-agricultural-science/article/effect-of-feeding-sugar-syrup-to-honeybee-colonies/4A944C6F558D3DB78C3801A03D33AD83

** actualização em 13-01-2021: o grupo A foi alimentado xarope de açúcar concentrado (62% de açúcar) e grupo B xarope de açúcar diluído (40% de açúcar).

quando as abelhas não lêem os mesmos livros que o apicultor

Sempre gostei de ler, e de há 11 anos para cá iniciei a leitura intensiva do tema “abelhas” e “apicultura” aquando da minha profissionalização. E foram, e continuam a ser, as leituras a fonte de principal da minha aprendizagem, a par com as horas e horas passadas nos apiários a trabalhar e observar “in loco” colónia após colónia.

O que ganho com as leituras? Mais do que serei capaz de descrever. Na grande maioria das vezes a minha observação no local é orientada e afinada pelas leituras realizadas em casa. Como todos creio eu, geralmente presto atenção e procuro descodificar o que observo, porque estou municiado de uma grelha de observação que decorre de algo que li, e assim precavido, munido desse “olhar” intencional e não ingénuo ou desatento, dou um sentido e uma interpretação aos dados em bruto que uma colónia de abelhas me oferece.

Contudo estou também cada vez mais ciente que as abelhas são muito plásticas, que os seus comportamentos, ainda que relativamente bem conhecidos, seguem quase sempre os seus próprios desígnios, algumas vezes à margem do que está escrito. Vou constatando aqui e ali, pelas observações que vou fazendo, que por vezes as abelhas não leram os mesmos livros que eu li.

Vem isto a propósito de uma observação que fiz hoje no meu apiário a 900 m de altitude. Na literatura que eu conheço, vem referido de uma forma muito consensual que a abelha rainha sai com o enxame primário poucas horas após os primeiros mestreiros terem sido operculados. Contudo, com alguma frequência, tenho observado que nem sempre as minhas abelhas e nos meus apiários “seguem o livro”. Ainda hoje o constatei e ilustrei neste conjunto de fotografias em baixo.

No dia 06.06 constatei que esta colónia apresentava vários mestreiros de enxameação operculados. Dividi-a com recurso ao tabuleiro divisor. E a rainha, ainda por lá andava? Como vi ovos, que me pareceram ter um dia ou dois (isso dos ovos na vertical serem do 1º dia e os inclinados serem ovos do segundo dia não será bem assim), e porque já vi este filme várias vezes, não parti do princípio que a rainha já tinha saído com o enxame primário só porque encontrei mestreiros operculados. O meu princípio é o oposto: se há ovos recentes e muitas abelhas, há uma boa probabilidade de a rainha ainda estar presente. Quando verifico a ocorrência destes dois aspectos não deixo de fazer uma inspecção quadro a quadro para ver se encontro a rainha. Cada vez é mais fácil encontrá-las (sim, rainhas não marcadas, as marcadas é para meninos!! :)) até porque, cada vez mais, o comportamento das abelhas no quadro me indiciam que é naquele quadro que a rainha anda.
Sim andava, e coloquei-a neste núcleo. No dia 06.06.
No dia 06-06, fica registado a colocação do tabuleiro divisor (TD) com mestreiros na caixa inferior e na caixa superior.

Ora, se as minhas abelhas lessem os livros que eu leio sobre elas, no dia 06.06 os mestreiros que encontrei teriam sido operculados há poucas horas. Teriam portanto 9 a 10 dias a contar do dia da oviposição e as rainhas emergiriam cerca de 6 a 7 dias depois, lá para os dias 12.06 ou até 13.06. Mas parece que não lêem, ou por vezes algumas não lêem.

Hoje, 08.08, e como tinha deixado este desdobramento e mais outros dois com muitas abelhas e vários quadros com mestreiros de grande qualidade no dia 06.06 nas caixas por cima dos tabuleiros divisores, voltei ao apiário com a intenção de voltar a desdobrar estes três enxames. E assim fiz. Neste enxame em particular, constato que há alguns mestreiros com as rainhas prestes a emergir (ver pequeno rasgo na extremidade deste mestreiro, sinal que a rainha está prestes a sair do seu casulo), como veio a acontecer passado cerca de 1 a 2 minutos a foto tirada.

Voltando aos números e datas e para este caso, a rainha mãe encontrada no enxame a 06.06, não saiu com o enxame primário pouco após os primeiros mestreiros terem sido operculados. O que esta observação me diz é que as abelhas após a operculação deste mestreiro (assim como outros que vi neste enxame, em condições semelhantes) adiaram a enxameação primária. Por vezes este adiamento decorre de más condições meteorológicas, segundo alguns especialistas. Neste caso, sei que os dias 4 e 5 deste mês, os dias em que segundo os livros a enxameação deveria ter ocorrido, me pareceram dias agradáveis para enxamear, com temperaturas a rondar os 20-22ºC de máxima e com pouco vento. Mas como não sou eu que enxameio , são elas, a minha opinião nada conta. E elas lá terão tido as suas razões para não terem seguido o livro à letra.

“é mesmo possível viver da apicultura?”

Um jovem apicultor, amigo e cliente, colocou-me ontem a questão do título da publicação. Hoje respondi-lhe: alguns conseguem viver da apicultura e outros não. Eventualmente este jovem, assim como outros, desejam uma resposta sim ou não. Mas essas respostas de sim ou não para aspectos complexos, que dependem de inúmeras variáveis, sendo sedutoras para quem as ouve porque fica com o assunto resolvido logo ali, e tentadoras para quem as dá porque reforçam o seu estatuto de autoridade e conhecimento, são na realidade respostas parvas (do étimo pequeno).

Por exemplo, hoje saí de casa depois de tomar o café e comer uma barrita de cereais, estavam a bater as 9h30 no relógio da torre. A manhã esteve relativamente fresca e o trabalho corria bem e, quando dei por mim, eram 13h10. Parei um pouco para reflectir se deveria continuar ou parar e fazer 15 km de regresso a casa para almoçar e retornar depois de almoço. Decidi continuar o trabalho e concluí-o por volta das 14h00. Contudo e como ainda faltava uma tarefa que tinha mesmo que fazer hoje noutro apiário, a cerca de 4 km de distância, decidi castigar um pouco mais o corpo e ir fazê-lo, antes de regressar a casa para almoçar. Terminei por lá por volta das 16h00. Regressei a casa e almocei por volta das 17h00. Voltei de novo a esses dois apiários já próximo das 18h00 e conclui a principal tarefa que hoje me comprometi fazer, seriam cerca das 19h45. Agora, que já estou em casa, dou comigo a pensar que este está longe de ter sido um dos dias duros, dos muitos que já tive na apicultura. Alturas houve em que os dias duros vinham em cachos de 5 ou 6 dias seguidos ao longo de 4 a 5 meses.

Voltando à questão: sim para alguns é possível viver da apicultura e, acredito, que o factor decisivo, como não poderia deixar de ser, é o humano, isto é, é a ética profissional, o conhecimento, o pragmatismo, a vontade de superação, a resiliência e, para mim a mais importante na apicultura, a paciência. Paciência para esperar pela natureza, porque quem toca a música é a natureza, o ritmo é marcado por ela.

Vista geral parcial do apiário que trabalhei hoje de manhã.
Vista geral parcial do apiário que trabalhei da parte da tarde.

Não acredito nos “mecânicos/melhoradores da genética” da natureza, não acredito nos “criadores” de naturezas exóticas alternativas. Acredito e admiro os “amadores” da natureza local, aqueles que pacientemente a prescrutam e, sem lhe alterar a génese, ou introduzir exotismos, se apercebem dos carreiros mais escondidos por onde devem fazer o seu caminho. Tenho para mim cada vez mais certo que o apicultor que quer viver da apicultura em Portugal mais tarde ou mais cedo vai confirmar aquilo que já confirmei há algum tempo: não é sobretudo uma questão de genética, é mais uma questão de maneio. Mesmo que isso implique adiar a hora do almoço!

quantidade da dieta influencia a determinação de castas em abelhas (Apis mellifera)

Abelha rainha ou abelha mãe.

“Nas espécies que cuidam da sua prole/descendentes, o aprovisionamento de alimento disponível para o seu desenvolvimento tem efeitos profundos nas características da prole. O aprovisionamento é importante nas abelhas porque os aspectos nutricionais determinam se uma fêmea se torna uma rainha reprodutora ou operária estéril. Pensa-se que uma diferença qualitativa entre as dietas larvais de rainhas e operárias conduza a essa divergência (1); no entanto, nenhum composto isolado parece ser responsável pela diferenciação (2). A quantidade da dieta pode ter um papel durante a determinação das castas de abelhas, mas nunca foi formalmente estudada. Nosso objetivo era determinar as contribuições relativas da quantidade e qualidade da dieta para o desenvolvimento da rainha. As larvas foram criadas in vitro com nove dietas variando a proporção de geleia real e açúcares [aspecto qualitativo da dieta], e foram alimentados com oito quantidades diferentes [o que perfaz 72 regimes alimentares distintos] (3) . Para a dieta situada a meio da escala [na escala de proporção de proteína e açucares/carboidratos da dieta] (4), foi incluído um tratamento com quantidade ad libitum [à vontade]. Após a emergência, as características de rainha foram determinadas usando uma análise de componentes principais (CP) através de sete medidas morfológicas (5). Descobrimos que as larvas alimentadas com uma quantidade ad libitum de dieta eram indistinguíveis das rainhas criadas comercialmente, e que as características de rainha eram independentes da proporção de proteína e açucares na dieta (6). Nem o teor de proteínas nem os carboidratos tiveram influência significativa no primeiro componente principal (CP1), aquele que explicou 64,4% da diferença entre rainhas e operárias (7). Por outro lado, a quantidade total de alimento explicou uma quantidade significativa da variação no CP1 (8). Grandes quantidades de dieta no instar final [o que ocorre no 6º dia de desenvolvimento larvar] foram capazes de induzir os traços da rainha, contrariamente à sabedoria recebida de que a determinação da rainha só pode ocorrer até ao terceiro instar [o que ocorre no 3º dia de desenvolvimento larvar] (9). Estes resultados indicam que a quantidade total de dieta/alimento fornecida às larvas pode regular [condicionar] a diferença entre castas de rainhas e operárias nas abelhas. (10)”

O conhecimento convencional refere que a diferenciação entre as castas de abelhas fêmeas ocorre, o mais tardar, até ao 3º instar larvar. De acordo com os dados obtidos pelos autores deste estudo esta diferenciação pode ocorrer até ao último instar larvar, isto é, até ao 6º dia de desenvolvimento larvar, e se as larvas forem alimentadas com grandes quantidades de dieta apropriada.

(1) Desde a década de 1890, acredita-se que a qualidade da dieta determina casta nas abelhas através de uma ‘substância ativa biológica’ encontrada apenas na geleia real que ativa uma chave [epigenética] de desenvolvimento das rainhas.

(2) Embora os estudos tenham mostrado inicialmente que as proteínas eram reguladoras-chave da casta, os estudos de acompanhamento/aprofundamento falharam em reforçar estes dados iniciais.

(3) A menor quantidade de dieta (160 µl) foi adoptada a partir de métodos in vitro anteriores, porque essa quantidade produz abelhas operárias. A quantidade foi aumentada em incrementos de 30 µl de 160 µl até 370 µl para produzir os outros tratamentos. Houve um tratamento ad libitum adicional no qual as larvas eram alimentadas com um excesso acima do que podiam consumir. Todas as larvas foram alimentadas com a mesma quantidade durante os primeiros 5 dias de desenvolvimento: dia 1: 10 µl, dia 2: 10 µl, dia 3: 20 µl, dia 4: 30 µl e dia 5: 40 µl, totalizando 110 µl de dieta durante os 5 dias. Durante o sexto dia de desenvolvimento, as larvas foram alimentadas com quantidades diferentes, dependendo do tratamento da quantidade da dieta, de modo que a quantidade total da dieta variou de 160 µl a 370 µl. No tratamento ad libitum, as larvas foram alimentadas com 200 µl por dia até à purga intestinal. Os tratamentos com grande quantidade de alimento produziram uma alta proporção de rainhas. Por exemplo, o tratamento ad libitum produziu 100% (20 de 20) rainhas e o tratamento de 370 µl produziu 58% de rainhas (19 de 33). Nos tratamentos de menor quantidade de alimento (220, 190, 160 µl), apenas três rainhas foram produzidas.

(4) A dieta de referência (dieta com proteínas e carboidratos em níveis médios) foi baseada num estudo anterior que estabeleceu o desenvolvimento de operárias induzidas pela dieta. A geleia real continha 12,35% de proteína, 27% de carboidratos e 56% de água. Esses valores foram utilizados para calcular a percentagem de macronutrientes em cada dieta.

(5) A morfometria de adultos pode separar e classificar castas. As mandíbulas, o basitarso e a cabeça dos adultos foram dissecados e fotografados. As medidas morfométricas incluíram peso húmido corporal total, largura e comprimento do basitarso, largura e comprimento da mandíbula e largura e comprimento da cabeça.

(6) Os resultados indicam que esses componentes qualitativos parecem não determinar a casta quando a quantidade de alimentos é controlada. Dietas ricas em carboidratos produzem mais rainhas quando a quantidade da dieta não é controlada. Royalactin (MRJP-1) e Major Royal Jelly Protein-3 (MRJP-3) são considerados os principais componentes da geleia real que influenciam o desenvolvimento da rainha, mas nenhum estudo controlou a quantidade da dieta. Nossos resultados indicam que esses componentes qualitativos parecem não determinar a casta quando a quantidade de alimentos é controlada e esses fatores qualitativos devem ser reavaliados para determinar se desempenham ou não um papel importante no desenvolvimento da casta.

(7) Quando o conteúdo de proteínas e carboidratos é alterado em quantidades controladas na dieta, o desenvolvimento e a sobrevivência são afetados, particularmente em dietas com pouca proteína. Observamos um resultado semelhante de alta mortalidade em dietas com pouca proteína. No entanto, a proporção de proteínas e carboidratos não parece determinar a casta nas abelhas.

(8) Nosso estudo corrobora outros estudos que indicaram que o teor relativo de proteínas não controla a diferenciação da rainha. Nossos resultados indicam que a quantidade da dieta tem um papel maior no desenvolvimento da rainha do que a qualidade, e estudos futuros devem controlar a quantidade da dieta ao testar sistematicamente macronutrientes no desenvolvimento de castas.

(9) O terceiro dia foi considerado a janela crítica para a determinação da rainha, mas nossos resultados sugerem que o status reprodutivo pode ser mantido até ao sexto dia se houver comida suficiente.

(10) Os miRNAs e o ácido p-cumárico encontrados no pólen inibem o desenvolvimento dos ovários e estão presentes apenas na dieta de larvas destinadas às operárias. No nosso estudo, baixas quantidades de alimentos inibiram o desenvolvimento da rainha. Nos tratamentos com menor quantidade de alimento (220, 190, 160 µl), apenas três rainhas foram produzidas.

fonte: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2020.0614

Nota: este estudo, com um desenho experimental elegante e complexo, aprofunda uma linha de investigação, que visa identificar as variáveis independentes que melhor explicam a diferenciação de castas nas abelhas fêmeas. Do que entendi e procurando simplificar e resumir, a quantidade de alimento influencia de forma importante a diferenciação até ao 5º instar larvar, isto é, quantidades elevadas de dieta apropriada, mesmo que fornecidas no 6º dia do estádio larvar, contribuíram para que 58% dessas larvas tenham evoluído para abelhas-rainha. Este estudo reforça a ideia que tal como noutros insectos sociais (vespas e vespões, por ex.), também nas abelhas melíferas a quantidade de alimento, não apenas a sua qualidade, tem um papel decisivo na diferenciação entre fêmeas reprodutivas e fêmeas estéreis. Verificou-se também que dietas ricas mas em quantidades baixas não foram suficientes para fazer evoluir as larvas no sentido da formação de abelhas-rainha num número significativo de casos. Este estudo, e outros nesta linha, visam fornecer a indústria de criadores de rainhas (em especial a norte-americana) de conhecimentos que lhe permita melhorar a qualidade das rainhas que coloca no mercado e que tem sido alvo de críticas num passado recente.

hora de dar espaço de armazenamento: a 900 m de altitude

Ontem, 25 de maio, percorridos os 150 km que me separam de Coimbra dos apiários na Beira Alta, cheguei ao local onde decidi iniciar o maneio esta semana. Dirigi-me ao único apiário que tenho, neste momento, a 900 m de altitude. Cheguei por volta da 14.30h e por lá andei até às 19.00h. Depois da última visita, a 18 de maio (ver aqui), data em que coloquei as primeiras meia-alças sobre as colmeias direccionadas para a produção de mel (este ano direccionei a maior parte das colónias para a produção de enxames), verifiquei que uma boa parte delas estava já a “pedir” outra meia-alça. Com a marcavala no auge, com boas temperaturas (entre os 23-28ºC), com a varroa controlada de forma muito decente, com boas populações de abelhas e com rainhas em “andamentos altos”, tudo se conjuga para uma armazenagem rápida e muito satisfatória. Para este resultado contribui também o facto de estar a fornecer meias-alças com ceras puxadas às colmeias.

A marcavala (Echium lusitanicum), uma “vaca leiteira” nas palavras do meu grande Mestre, o meu pai, com quem comecei a visitar as abelhas, teria eu 7-8 anos.
Algumas das meias-alças que coloquei ontem.
Colónia no ninho e na qual coloquei a primeira meia-alça.
Colónia com a primeira meia-alça, colocada na visita anterior a 18.05.
Uma das meia-alças colocada a 18.05 e já com uma quantidade bastante apreciável de néctar. Verifiquei também a total ausência de criação nas primeiras meias-alças.
Esta foto serve para ilustrar como a combinação de quadros desbloqueados no ninh0 (modelos Langstroth e Lusitana) e fluxos intensos, que rapidamente ocupam as meias-alças, tendem a manter as rainhas, mesmo as mais prolíficas, no local desejado, o ninho.
A segunda meia-alça, para além de aumentar a capacidade de armazenagem da colónia, contribuindo para ninhos pouco bloqueados, facilita também o trabalho das abelhas na desidratação do néctar.
Inclusive colónias orientadas para a produção de enxames, com ninho e sobreninho, são utilizadas em simultâneo para a produção de mel em casos que o justificam.
Colmeia lusitana com ninho+sobreninho+meia alça/alça.