xaropes de açúcar: quais escolher ou quando mais caro e alegações de marketing não significa mais nutritivo

Preferência por açúcares e efeitos na digestibilidade alimentar e e longevidade das abelhas-mel

As abelhas-mel dependem fortemente de fontes externas de energia para sustentar as suas actividades metabólicas, o desenvolvimento das glândulas e a manutenção da colónia. Em condições naturais, essa energia é obtida sobretudo a partir do néctar floral, cuja composição é dominada por sacarose, glucose e frutose, em proporções variáveis consoante a espécie vegetal. Quando o néctar escasseia, a alimentação suplementar com xaropes de açúcar torna-se uma prática essencial em apicultura.

Os resultados deste estudo demonstram de forma consistente que as abelhas apresentam uma preferência marcada pela sacarose, especialmente quando fornecida em concentrações elevadas. Em todos os ensaios de escolha, tanto em gaiolas como em contexto de colónia, a solução de sacarose foi consumida em maiores quantidades do que as soluções de glucose, frutose ou misturas destes monossacarídeos.

Esta preferência alimentar não é apenas comportamental, mas está intimamente ligada à eficiência nutricional. As abelhas alimentadas com sacarose consumiram mais alimento energético e, simultaneamente, ingeriram maiores quantidades de pólen, o que sugere uma relação positiva entre a disponibilidade de sacarose e o estímulo da alimentação proteica.

Um dos resultados mais relevantes discutidos no artigo diz respeito à digestibilidade do pólen. As abelhas alimentadas com sacarose apresentaram melhores índices de digestão, evidenciados por uma menor quantidade de resíduos não digeridos no trato digestivo. Isto indica que a sacarose favorece um ambiente digestivo mais eficiente, potenciando a assimilação dos nutrientes do pólen.

Em contraste, as dietas baseadas exclusivamente em frutose ou glucose revelaram pior aproveitamento digestivo, apesar de serem açúcares simples. Estes resultados sugerem que a facilidade química de absorção dos monossacarídeos não se traduz necessariamente numa melhoria da digestão global da dieta sólida associada, como o pólen.

A sacarose, sendo um dissacarídeo, necessita de ser hidrolisada pelas invertases das abelhas antes de ser absorvida. Este processo parece desempenhar um papel regulador benéfico no metabolismo digestivo, promovendo uma libertação de energia mais equilibrada e compatível com os ritmos fisiológicos das abelhas-operárias.

Além disso, a presença de sacarose pode estimular a actividade das enzimas digestivas envolvidas na degradação das paredes do pólen, facilitando o acesso às proteínas, lípidos e micronutrientes nele contidos. Este efeito é particularmente importante para abelhas jovens, responsáveis pela produção de geleia real e pela alimentação da criação.

Outro aspecto discutido prende-se com a longevidade. As abelhas alimentadas com sacarose apresentaram maior sobrevivência ao longo do tempo, o que sugere que este açúcar não só é preferido, como também mais seguro e adequado do ponto de vista fisiológico quando comparado com frutose ou glucose isoladas.

Embora as abelhas alimentadas com frutose tenham apresentado, em alguns casos, níveis corporais de lípidos ligeiramente mais elevados, este efeito não se traduziu numa melhoria funcional da saúde ou da longevidade. Pelo contrário, pode reflectir alterações metabólicas menos eficientes ou até desequilíbrios energéticos.

É importante salientar que o teor de água corporal não diferiu significativamente entre os tratamentos, indicando que os efeitos observados se devem sobretudo ao tipo de açúcar ingerido e não a alterações na hidratação das abelhas.

Do ponto de vista da apicultura prática, estes resultados reforçam a ideia de que a sacarose é o substituto mais adequado do néctar natural. Não só é mais bem aceite pelas abelhas, como promove maior consumo de pólen e uma digestão mais eficiente, factores essenciais para a vitalidade da colónia.

A utilização de glucose ou frutose isoladas, apesar de energeticamente viáveis, pode comprometer o aproveitamento da dieta proteica e, a longo prazo, afectar negativamente o desenvolvimento das abelhas e a sua capacidade de trabalho.

Os autores sublinham ainda que a composição do xarope não deve ser avaliada apenas em termos de energia imediata, mas também pelo seu impacto indirecto na digestão do pólen e no equilíbrio nutricional global da abelha.

Em períodos críticos, como o final do inverno ou durante fluxos de néctar fracos, a escolha correcta do tipo de açúcar pode fazer a diferença entre colónias resilientes e colónias debilitadas. A sacarose surge, assim, como a opção mais segura e fisiologicamente compatível.

Em síntese, a discussão deste estudo confirma que a sacarose não é apenas preferida pelas abelhas-mel, mas desempenha um papel central na optimização da digestão, da ingestão proteica e da sobrevivência, reforçando a sua importância como base dos xaropes de alimentação suplementar em apicultura moderna.

fonte: https://www.researchgate.net/publication/385033023_Sucrose_glucose_and_fructose_preference_in_honeybees_and_their_effects_on_food_digestibility

Este estudo constitui um exemplo claro do que estamos a falar de competências de nutrição de nível avançado, precisamente o nível de exigência e profundidade que fundamenta as propostas formativas do curso Nutrição Apícola Aplicada / Nutrição Suplementar de Abelhas (3.ª edição — arranca a 16 de janeiro). A análise crítica dos dados científicos, como a relação entre o tipo de açúcar, a digestibilidade do pólen e a resposta fisiológica das abelhas, vai muito para além das alegações frequentemente repetidas — e nem sempre devidamente evidenciadas — pelo poderoso marketing das empresas de substitutos alimentares para abelhas. No curso, estes temas são abordados de forma rigorosa, mas com uma linguagem clara e acessível, permitindo ao apicultor compreender os mecanismos subjacentes às escolhas nutricionais. Essa abordagem é reforçada por ferramentas práticas, incluindo calculadoras inovadoras e exclusivas, que transformam o conhecimento científico em critérios de decisão concretos, ajudando a distinguir entre evidência sólida e simples argumentos comerciais.

a geleia real e as lições que devemos tirar para nutrir as nossas abelhas

Do ponto de vista do consumidor, é fundamental reconhecer a importância da manutenção da cadeia de frio para preservar inalteradas as características naturais da geleia real.

A geleia real é uma substância gelatinosa e viscosa, parcialmente solúvel em água, com uma densidade aproximada de 1,1 g/mL. A sua cor varia entre o branco e o amarelo, sendo que o tom amarelado tende a intensificar-se com o tempo de armazenamento. O odor é ácido e penetrante, e o sabor simultaneamente ácido e ligeiramente doce. Estas características sensoriais constituem critérios essenciais de qualidade. Geleia real envelhecida ou mal armazenada tende a escurecer e pode desenvolver sabores rançosos, sinal inequívoco de degradação. Para garantir uma qualidade ótima, a geleia real deve ser conservada em estado congelado.

A viscosidade da geleia real varia em função do seu teor de água e da idade do produto, aumentando progressivamente quando armazenada à temperatura ambiente ou mesmo sob refrigeração a cerca de 5 °C. Estas alterações estão associadas à continuação da atividade enzimática e à interação entre as frações lipídica e proteica, processos que conduzem à perda gradual das suas propriedades originais.

(fonte: Royal Jelly, Bee Brood: Composition, Health, Medicine: A Review; Stefan Bogdanov, 2011)

Do ponto de vista do apicultor que pretende ir muito além de “alimentar às cegas” e que tem como objetivo maximizar o efeito nutricional dos suplementos e substitutos alimentares utilizados nas suas colónias, saber “ler” a geleia real é uma competência absolutamente basilar.

Essa leitura não é simbólica nem intuitiva: trata-se de compreender a relação entre os seus constituintes, usando a geleia real como referência biológica para perceber quais os equilíbrios nutricionais que sustentam uma criação intensa e de qualidade.

Uma leitura competente e fundamentada, associada a uma calculadora simples mas rigorosa, que permita calcular com precisão os ingredientes necessários para atingir um “bolo” ou “bife” proteico equilibrado, constitui o pré-requisito para transformar o ato de alimentar numa ação verdadeiramente nutricional — e até nutricêutica.

Quando a alimentação deixa de ser um gesto automático e passa a ser uma estratégia pensada, adaptada ao estado da colónia e aos objetivos pretendidos, o impacto na vitalidade, na longevidade das abelhas e no desempenho global da colónia torna-se evidente.

É precisamente esta abordagem que será trabalhada no curso Nutrição Apícola Aplicada, com início no próximo dia 16. Ao longo da formação, os participantes adquirirão a competência de “ler” corretamente a geleia real e outros produtos da colmeia e terão acesso a uma calculadora exclusiva e inovadora (entre outras), concebida para apoiar decisões nutricionais fundamentadas.

Deixo abaixo uma imagem da versão atualizada dessa calculadora, que será explorada em detalhe durante a formação e que tem capacidade para:

  • calcular a quantidade proteica e PB respectiva da bolo/bife proteico;
  • calcular a componente açucarada, lipídica e húmida e ajustar dentro de limiares de acordo com os objectivos pretendidos e o estado da colónia;
  • calcular com grande rigor o equilíbrio dos diversos componentes para obter um efeito nutritivo de estimulação ou um efeito de manutenção;
  • calcular o consumo semanal tendo em conta a dimensão do enxame

necessidades alimentares da colónia de abelhas

Uma tradução das primeiras linhas deste texto fundamental!

“As abelhas-melíferas, tal como outros insectos, não apresentam exigências nutricionais invulgares. Necessitam de hidratos de carbono, proteínas, lípidos (gorduras), minerais, vitaminas e água para o crescimento, desenvolvimento, manutenção e reprodução. O néctar e a melada são as principais fontes de hidratos de carbono na dieta das abelhas, enquanto o pólen fornece todos os outros constituintes indispensáveis.

As abelhas adultas conseguem sobreviver apenas com hidratos de carbono (isto é, mel ou sacarose) e água; no entanto, as proteínas, os lípidos ou gorduras, os minerais e as vitaminas são essenciais para o crescimento e desenvolvimento das abelhas jovens e para a criação das larvas.

As abelhas adultas obtêm energia principalmente a partir dos hidratos de carbono, que são utilizados para o voo, para a manutenção da temperatura corporal e para todas as actividades metabólicas normais. As fontes naturais destes hidratos de carbono são o néctar e a melada, que são transformados em mel e armazenados nos favos da colmeia.

As proteínas são necessárias sobretudo para o crescimento e desenvolvimento das abelhas jovens e para a produção de geleia real pelas operárias nutrizes. As proteínas alimentares são também essenciais para a formação e manutenção dos tecidos corporais, para a produção de enzimas e para o correcto funcionamento do sistema imunitário. O pólen é a única fonte natural significativa de proteínas para as abelhas.

Os lípidos, embora presentes em menores quantidades na dieta das abelhas, desempenham funções importantes no crescimento e desenvolvimento, particularmente na formação das membranas celulares e como fonte concentrada de energia. O pólen fornece igualmente os lípidos necessários, bem como vitaminas e minerais indispensáveis à nutrição adequada da colónia.

As vitaminas são necessárias em pequenas quantidades, mas são essenciais para o metabolismo normal das abelhas. A maioria das vitaminas necessárias às abelhas encontra-se no pólen, embora algumas possam também ser sintetizadas pela microbiota associada ao trato digestivo. Deficiências vitamínicas podem conduzir a um desenvolvimento deficiente da cria e a um enfraquecimento geral da colónia.

Os minerais são igualmente componentes essenciais da dieta das abelhas, embora sejam necessários apenas em quantidades reduzidas. Estes elementos desempenham um papel importante em numerosos processos fisiológicos, incluindo a actividade enzimática, a transmissão nervosa e a manutenção do equilíbrio osmótico. Tal como as vitaminas, os minerais são fornecidos principalmente pelo pólen.

A água é indispensável para a vida da colónia e é utilizada para diluir o mel durante a alimentação da cria, para regular a temperatura interna da colmeia e para satisfazer as necessidades fisiológicas das abelhas adultas. As colónias necessitam de um fornecimento contínuo de água, especialmente durante períodos de clima quente ou seco.”

fonte: Standifer, L. N., Moeller, F. E., Kauffeld, N. M., Herbert, E. W., Jr., and Shimanuki, H. 1977. Supplemental Feeding of Honey Bee Colonies. United States Department of Agriculture Agriculture Information Bulletin No. 413

porque usar açúcar branco na alimentação das abelhas

A alimentação suplementar com xarope de açúcar faz parte da prática apícola de muitos de nós. Seja para apoiar colónias em períodos de escassez, estimular a postura ou ajudar na formação de reservas, o xarope é uma ferramenta útil. No entanto, ao longo dos anos, uma coisa ficou clara para mim: nem todos os açúcares são iguais do ponto de vista das abelhas.

O açúcar branco refinado é, basicamente, sacarose quase pura. Isto significa que fornece energia de forma simples, direta e previsível. É um alimento que as abelhas conseguem digerir sem esforço adicional e sem deixar resíduos problemáticos no intestino.

Um dos conceitos-chave nesta discussão é o teor de “cinzas”. Em nutrição e análise alimentar, “cinzas” não significam resíduos de combustão no sentido vulgar, mas sim o resíduo mineral que permanece após a queima completa de um alimento. Esse resíduo é composto essencialmente por minerais como potássio, cálcio, magnésio, sódio e ferro. Quanto mais escuro e menos refinado é um açúcar, maior é o seu teor de cinzas.

O açúcar branco refinado é praticamente sacarose pura e apresenta um teor de cinzas muito baixo, da ordem de 0,01%. Em contraste, o açúcar amarelo e o açúcar mascavado contêm melaço residual, o que eleva significativamente o teor mineral. No melaço, esse valor pode atingir 5 a 10%, uma diferença de várias ordens de grandeza. Para as abelhas, esta diferença não é irrelevante — é fisiologicamente determinante.

As abelhas não estão adaptadas a lidar com dietas ricas em minerais dissolvidos. Ao contrário dos mamíferos, as abelhas não urinam; os resíduos metabólicos acumulam-se no intestino e só são eliminados durante voos de limpeza. Durante o inverno ou períodos de mau tempo prolongado, esse mecanismo fica limitado, aumentando drasticamente o risco de disenteria quando a dieta contém excesso de cinzas.

Um argumento frequentemente usado para defender o açúcar amarelo é o de que “contém mais minerais e por isso é mais nutritivo”. Este raciocínio é incorrecto no caso das abelhas. Os minerais essenciais são obtidos a partir do pólen, não do néctar nem do xarope. Introduzir minerais através do açúcar não só é desnecessário como potencialmente prejudicial, por alterar a osmolaridade e o equilíbrio intestinal.

Para além disso, açúcares escuros apresentam maior risco tecnológico. Quando aquecidos para preparar xarope, formam HMF mais rapidamente do que o açúcar branco, devido à presença de frutose e impurezas. O HMF é um composto tóxico para as abelhas em concentrações elevadas, acrescentando mais um motivo para evitar açúcares não refinados.

Dito isto, importa deixar uma coisa bem clara. Isto não significa que seja errado usar aditivos nutricionais no xarope. Há uma grande diferença entre resíduos indesejáveis vindos de açúcares impuros e produtos especificamente formulados para abelhas. Aditivos proteicos e vitamínicos, quando usados nas doses recomendadas, podem ser uma ajuda válida em situações de escassez de pólen, stress nutricional ou recuperação de colónias.

A chave está no controlo e no objetivo. Um aditivo bem formulado não tem nada a ver com o melaço presente no açúcar mascavado. São coisas completamente diferentes do ponto de vista biológico. O erro é misturar conceitos e achar que tudo o que não é açúcar branco é automaticamente “mais natural” e, por isso, melhor.

aos ombros de gigantes, ou revendo De Groot

Sempre que me é possível e tenho a fortuna de os encontrar, a minha opção é estar acompanhado e aos ombros dos gigantes, os melhores entre os melhores, no que respeita à minha auto-aprendizagem.

Sobre as necessidades de Aminoácidos Essenciais (AAE) e suas proporções relativas o clássico dos clássicos foi apresentado por A. De Groot há cerca de 70 anos, numa obra de investigação memorável, ainda pouco conhecida.

Sobre a revisita e proposta de actualização de alguns pressupostos e conclusões ali apresentadas por De Groot, escreveu Randy Oliver numa publicação de 2021 do American Bee Journal, artigo também ele memorável, e ainda menos conhecido do que a obra que o inspirou.

Com base nos ensaios comparativos de substitutos de pólen, R. Oliver mostra que as dietas com melhor desempenho apresentam perfis de AAE muito próximos das proporções revistas que propõe, reforçando a relevância prática do ajuste do aminograma, mais do que do simples teor total de proteína. Estou confiante que os impactos do artigo do Randy Oliver venham a alargar-se, à imagem das ondulações provocadas por uma pedra atirada num lago de águas paradas. Eu dou o meu singelo contributo para que assim aconteça.

A aprendizagem/ensino sobre a aplicação prática destas análises de R. Oliver na elaboração de pastas/tortas proteicas caseiras afinadas ao (amino)grama c0m a ajuda fundamental de calculadoras intuitivas (exclusivas do curso e únicas no mundo) que tornam simples o complexo, será feita na 3ª edição do curso Nutrição Suplementar de Abelhas / Nutrição Apícola Aplicada, que se realizará via Zoom nos dias 16, 23 e 31 de janeiro, com início às 20h30.

Mais informações devem ser solicitadas para o e-mail: jejgomes@gmail.com

as abelhas preferem verdadeiramente água “suja”?

Publicado há pouco mais de um mês “Study of honey bee (Apis mellifera) water preferences: do bees really like dirty water?” os resultados colocam em causa algumas crenças apícolas muito enraizadas de que as abelhas preferem consumir água “suja”, muito mineralizada.

Faço um resumo deste interessante artigo.

A água é um recurso essencial para as colónias de abelhas, desempenhando funções críticas na termorregulação da colmeia, na diluição do alimento larvar e na manutenção do equilíbrio fisiológico dos indivíduos. Apesar disso, a escolha das fontes de água pelas abelhas tem sido pouco estudada, sendo frequentemente observadas a recolher água em poças, charcos ou locais aparentemente “sujos”, o que levanta questões sobre os critérios que orientam esse comportamento.

O estudo “Study of honey bee (Apis mellifera) water preferences: do bees really like dirty water?” procurou compreender se as abelhas preferem de facto águas contaminadas ou se essa preferência resulta de factores específicos como a composição química, a mineralização ou a presença de determinados compostos dissolvidos.

Para responder a esta questão, os investigadores realizaram ensaios controlados em condições de semi-campo e de campo, disponibilizando simultaneamente às abelhas diferentes tipos de água: água destilada, água da chuva, água de piscina, água de charco natural, poças de explorações pecuárias e águas com diferentes níveis de diluição de chorume bovino.

Os resultados mostraram de forma clara que as abelhas não preferem águas altamente contaminadas ou muito mineralizadas. Pelo contrário, a água destilada e a água da chuva foram consistentemente as mais visitadas, revelando uma forte preferência por fontes de água quimicamente simples e com baixa carga mineral.

As águas provenientes de poças de bovinos e cavalos, ricas em sais, matéria orgânica e compostos nitrogenados, foram praticamente evitadas pelas abelhas. Mesmo em condições de temperaturas elevadas, que aumentam a necessidade de água da colónia, estas fontes continuaram a ser rejeitadas.

Um resultado particularmente interessante foi a elevada atratividade de águas com chorume extremamente diluído (0,1%). Esta observação sugere que não é a “sujidade” em si que atrai as abelhas, mas sim a presença de determinados compostos em concentrações muito baixas, possivelmente relacionados com micronutrientes ou sinais químicos específicos.

O estudo demonstrou também que a temperatura ambiente influencia o número total de visitas às fontes de água, mas não altera a hierarquia de preferências. Em dias mais quentes, as abelhas recolhem mais água, mas continuam a escolher preferencialmente as mesmas fontes de melhor qualidade.

A análise química das águas revelou que fontes muito mineralizadas, especialmente ricas em potássio, cálcio, cloretos e azoto, tendem a ser evitadas. Estes resultados reforçam a ideia de que as abelhas possuem mecanismos sensoriais finos que lhes permitem avaliar a composição da água, evitando concentrações potencialmente prejudiciais.

Este comportamento desafia a ideia simplista de que as abelhas “gostam de água suja”. Na realidade, o estudo mostra que as abelhas fazem escolhas altamente seletivas, procurando água que satisfaça necessidades fisiológicas específicas sem expor a colónia a riscos químicos ou biológicos.

Do ponto de vista da apicultura, os resultados têm implicações práticas importantes. Fornecer água limpa, estável e acessível no apiário pode reduzir a procura de fontes externas potencialmente perigosas, como águas contaminadas por pesticidas ou efluentes agrícolas.

O estudo também sugere que a composição da dieta, nomeadamente o pólen disponível, pode influenciar as preferências das abelhas por determinados tipos de água. Quando as necessidades minerais são satisfeitas pela alimentação, a procura de água mineralizada diminui.

Em síntese, este trabalho mostra que a recolha de água pelas abelhas é um comportamento complexo, adaptativo e finamente regulado, integrando necessidades nutricionais, sensoriais e ambientais. A água não é apenas um recurso funcional, mas uma peça integrada na ecologia nutricional da colónia.

Compreender estas preferências ajuda-nos a olhar para as abelhas com maior rigor científico e reforça a importância de práticas apícolas que respeitem não apenas a alimentação, mas também a gestão adequada da água como elemento essencial da saúde e resiliência das colónias.

A 3.ª edição do curso Nutrição Suplementar de Abelhas / Nutrição Apícola Aplicada, a realizar via Zoom nos dias 16, 23 e 31 de janeiro, com início às 20h30, irá aprofundar esta e outras questões frequentemente envoltas em mitos e simplificações excessivas na apicultura. Ao longo do curso serão analisados, de forma crítica e fundamentada, vários pressupostos comuns sobre alimentação, suplementação e necessidades nutricionais das abelhas, à luz da literatura científica mais recente e da experiência prática.

Para além do enquadramento teórico, o curso irá apresentar dados testados, ferramentas de cálculo, exemplos práticos e propostas economicamente vantajosas, pensadas para a realidade dos apiários. O objetivo é autonomizar e qualificar os apicultores, permitindo-lhes tomar decisões mais informadas, apoiar melhor as colónias ao longo do ano e, de forma consistente, aumentar o seu potencial produtivo e a resiliência das colmeias, sem recorrer a soluções simplistas ou descontextualizadas.

Enviar pedido de mais informações/interesse por via de mensagem através do blog ou para o e-mail jejgomes@gmail.com

levedura de cerveja inactivada: um bom alimento?

Uma vez mais o meu amigo Umberto Moreno abre as portas a uma conversa muito elucidativa, desta feita com o especialista Carlos Contreras, Zoólogo da Universidade Nacional da Colômbia e estudante de Mestrado em Apicultura na Universidade de Cornell dos Estados Unidos. Nesta conversa em torno dos probióticos, e na fase das perguntas e respostas, uma interveniente questionou o especialista sobre se o açucar e as tortas proteicas podem afectar o microbioma existente no intestino das abelhas (1.10.58 do vídeo). A resposta do especialista é que as leveduras inactivadas de cerveja, habitualmente presentes nas tortas proteicas, podem ser prejudiciais às abelhas e portanto há que ter cuidado com a sua utilização. Em 2016, nesta publicação, tinha indicado o mesmo: “a adição de leveduras e malte de cerveja encurta a vida das abelhas, deste modo recomendamos a utilização de alimentação suplementar sem a sua utilização destes dois aditivos“.

Sobre o cerne desta conversa, os probióticos, escrevi aqui e aqui, e espero fazer uma publicação em breve.

1.700 km de faixas de alfafa não cortadas para polinizadores ou cultivando a convergência

A sensibilidade para a necessidade de uma mão ecológica para com os polinizadores vem crescendo. O projecto Stripes, referido nesta publicação de 2019, é a materialização desta sensibilidade. Outros projectos com objectivos semelhantes têm aparecido, nomeadamente o Apiluz em França, que é objecto desta publicação.

“Em 2021, foram preservados 1.700 km de faixas de alfafa (luzerna)* não cortadas no projeto Apiluz, lançado pela associação Symbiose. O objetivo: aliviar a escassez de alimentos dos polinizadores em junho e julho. Isto representa 560 ha não cultivados nos oito departamentos envolvidos (Aisne, Ardennes, Marne, Seine-et-Marne, Aube, Haute-Marne, Yonne e Val-de-Marne).

No leste da França, a associação Symbiose está a trabalhar para financiar o projeto Apiluz para os próximos anos. Em 2021, conseguiu instalar 1.700 km de faixas de alfafa não cortadas para polinizadores

Lançado entre 2014 e 2016, o Apiluz consistiu inicialmente no lançamento de protocolos experimentais. Estes permitiram determinar as características técnicas do projeto (largura da faixa, localização na parcela para limitar a sujidade, etc.) e verificar a sua eficácia.

Ajuda financeira
“Sem o dinheiro vivo dos parceiros, incluindo o Lidl, não teríamos conseguido o que fizemos”, disse Philippe Lecompte, apicultor e presidente da Réseau Biodiversité pour les Abeilles (RBA) (ver aqui entrevista).

A Apiluz teve, de facto, vários financiadores para a sua implantação: Lidl (€ 114.000 dos € 350.000 do projeto), as fundações Avril e Crédit Agricole Nord Est, a Câmara de Agricultura do Marne, Cérèsia, a região do Grand Est e as cooperativas de alfafa (Luzeal , Sundeshy, Capdéa, Prodeva, Cristal Union, Tereos).

Estes apoios permitiram compensar as perdas associadas à manutenção destas faixas aos agricultores (–2 t/ha) e pelas plantas desidratadas (qualidade impactada pela queda do teor de proteína da alfafa em floração).

Trabalho no período pós-2021
“Estamos demonstrando a possibilidade de uma política de interesses convergentes, com uma abordagem económica da biodiversidade”, disse Philippe Lecompte. Mas também buscamos financiamento de longo prazo. Desenvolvimentos em benefício da biodiversidade têm um custo e a pergunta é: quem paga? Os nossos impostos através da política agrícola comum, os nossos agricultores dos seus próprios rendimentos? Através de sinais de qualidade, responsabilidade social empresarial? Presumivelmente, vamos mover-nos em direção a uma mistura de todos. Trabalharemos nesse sentido no período pós-2021. »

Projeto multiparceiro
Hervé Lapie, presidente da Symbiose e presidente da FDSEA de la Marne, destacou a força da rede de múltiplos parceiros para realizar tais projetos por meio de consultas. Criada em 2012, a Symbiose reúne vários atores do leste da França: agricultores, apicultores, caçadores, naturalistas, administração

A Symbiose procura que o interesse deste projeto pela biodiversidade seja reconhecido à escala nacional. Hervé Lapie, no entanto, lamentou a ausência de representantes dos Ministérios da Agricultura e da Transição Ecológica durante a apresentação em 2 de julho de 2021.”

fonte: https://www.lafranceagricole.fr/engins-agricoles/article/770786/apiluz-veut-prenniser-son-action-pour-les-pollinisateurs

*Medicago sativa, conhecida pelos nomes comuns de luzerna e alfafa, é uma leguminosa perene, pertencente à família Fabaceae e subfamília Faboideae, amplamente utilizada como alimento para ruminantes em regiões de clima temperado e seco. O nome alfafa significa em árabe “O melhor alimento”.

as flores das abelhas

Esta é uma das mais belas publicações que já fiz!

As fotos são do meu amigo Fernando Moreira. O poema, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Trifolium angustifolium (trevo vermelho, rabo-de-gato)
Ruta graveolens (arruda)
Chenopodium album (ansarina-branca)
Citrus sinensis (laranjeira-doce)
Taraxacum officinali (dente de leão)
Convovulus arvensis (corriola, verdiselha)
Arbutus unedo (medronheiro)
Castanea sativa (castanheiro)
Arbutus unedo (medronheiro)
Rubus ulmifolius (silva)
Erica arborea (urze, queiroga, torga)
Lavandula pedunculata (rosmaninho, arçã)

Naquele tempo

Sob o caramanchão de glicínia lilás
As abelhas e eu
Tontas de perfume

Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas

pólen O estimulante da criação de novas abelhas e O detalhe

É consensual entre os apicultores mais informados que o pólen é O estimulante da criação de novas abelhas. Contudo como diz Randy Oliver “Não parece haver um benefício em alimentar com substitutos de pólen quando já existe um fluxo natural e substancial de pólen em andamento. Por outro lado, durante uma escassez, os substitutos de pólen têm um desempenho melhor quando as forrageadoras ainda são capazes de trazer uma pequena quantidade de pólen natural. A questão então é: por que essa pequena quantidade de pólen faz a diferença? […]

Os profissionais de marketing fizeram um ótimo trabalho em nos convencer de que “natural” é sempre melhor. Portanto, é tentador chegar à conclusão de que a pequena quantidade de pólen natural que chega fornece alguns elementos nutricionais essenciais que faltam.

Mas Randy, e outros, em testes de campo verificou que mesmo alimentando com “bifes” proteicos que têm incorporados 15%-20% de pólen natural, o que daria os elementos que faltam, as colónias pouco cresceram durante o período de extrema escassez de pólen ao longo do teste.

Portanto, Randy suspeita que algo mais do que a falta de algum nutriente “natural” esteja envolvido.

Imagem de um quadro com criação com a habitual abóbada de pólen. Nenhuma abelha jamais viu esta vista (está escuro dentro da colmeia). Só porque costumamos ver esta linha de pão de abelha num arco ao redor da ninhada, não significa que esse seja o pólen ao qual as abelhas amas prestam mais atenção.Reparem nO detalhe… alguns alvéolos com pólen bem no interior da área de criação.

O detalhe: o pólen armazenado nos alvéolos no interior da área de criação é o pólen que primeiro será consumido pelas abelhas amas. É este pólen, ali armazenado, que dá a pista às abelhas amas que está a ocorrer um fluxo de pólen. O pólen/pão de abelha armazenado a mais de 5cm da área de criação, nas abóbadas dos quadros ou em quadros adjacentes só tende a ser consumido quando a expansão da área de criação e as abelhas amas se aproximarem dessas áreas mais afastadas.

Implicações práticas:

  • O pólen fresco, colocado aleatoriamente pelas forrageadoras nos alvéolos no interior da área de criação, permite que as amas produzam geleia abundante.
  • A facilidade com que as amas encontram pólen fresco ao lado da criação que estão alimentando estimula-as a alimentar (modo de expansão), ao invés de consumir larvas jovens, (modo de acumulação).
  • A presença de uma abóbada de pólen indica que há um excedente de pólen a chegar à colónia. A borda interna dessa abóbada indica a distância à criação que as abelhas amas precisam (ou estão dispostas) percorrer até se alimentarem.
  • Todas estas descobertas acima indicam a importância de colocar os suplementos de pólen ou as dietas artificiais o mais próximo possível dos alvéolos com criação, isto é, a menos de 5 cm.

fonte: https://scientificbeekeeping.com/observations-on-pollen-subs-part-3-placement-of-the-pollen/