“O ácaro Varroa destructor é a maior causa per se do declínio global da saúde das abelhas melíferas. Uma melhor compreensão da relação entre este parasita e seu hospedeiro é fundamental para o desenvolvimento de práticas de maneio sustentável. O nosso trabalho mostra que este parasita externo não consome hemolinfa, como se pensava, mas prejudica as abelhas hospedeiras consumindo o corpo gordo, um tecido aproximadamente análogo ao do fígado nos mamíferos. Na nossa investigação tanto a hemolinfa como o corpo gordo das abelhas foram marcados com bio-sinalizadores fluorescentes. O perfil de fluorescência nos intestinos dos ácaros que se alimentaram destas abelhas era muito diferente do introduzido na hemolinfa da abelha hospedeira, e correspondia consistentemente ao perfil de fluorescência exclusivo do corpo gordo. Através da microscopia eletrónica de transmissão, observámos tecido do corpo gordo parcialmente digerido nas feridas de abelhas parasitadas. Os ácaros na sua fase reprodutiva foram então alimentados com uma dieta composta de um ou de outro dos tecidos. Ácaros alimentados com hemolinfa mostraram (in)capacidade de se reproduzir semelhantes às do grupo controle não alimentado. Ácaros alimentados com tecido do corpo gordo sobreviveram por mais tempo e produziram mais ovos do que aqueles alimentados com hemolinfa, sugerindo que o corpo gordo é parte integrante de sua dieta quando se alimentam também de larvas de abelhas. No conjunto, estas descobertas sugerem fortemente que o Varroa consome o corpo gordo como sua principal fonte de sustento: o corpo gordo éum tecido essencial para a adequada função imunológica, desintoxicação de pesticidas, sobrevivência no inverno e vários outros processos essenciais em abelhas saudáveis. Estas descobertas realçam a necessidade de revisitar a nossa compreensão deste parasita e seus impactos, diretos e indiretos, sobre a saúde das abelhas melíferas.”
fonte: https://www.pnas.org/content/116/5/1792
Fig. 1: Vista ao microscópio electrónico do corpo gordo de uma abelha
As mudanças climáticas podem influenciar o ciclo de desenvolvimento das abelhas. É geralmente aceite que cada raça de abelhas melíferas se desenvolve ao seu próprio ritmo. Qualquer tipo de mudança climática ou importação de uma raça de abelhas para uma região geográfica onde não é nativa está fadada a ter consequências mensuráveis, muitas delas negativas inclusivamente para os ecotipos locais. Em regiões com estações frias (com semanas seguidas abaixo dos 10ºC), as abelhas devem “saber” passar o inverno agrupadas num “cacho” apertado, onde produzem o calor que precisam para sobreviver até a primavera e, ao mesmo tempo, ter uma rainha que não teime em fazer muita postura nesta época. A capacidade da abelha melífera acumular reservas de energia/alimento e administrar o desenvolvimento da colónia decorre de uma significativa pressão adaptativa. As raças autóctones, fruto da lenta selecção natural, foram afinando esta co-evolução entre as condições ambientais locais e o genótipo/fenótipo (comportamento autóctone). Nestes ecotipos locais, no final de inverno/início da primavera, quando o clima fica mais ameno, a rainha aumenta gradualmente a postura e a colónia desenvolve-se e aumenta o tamanho da população de obreiras.
Fig. 1: Abelha prestes a regressar a casa por ameaça de chuva.
Fruto das alterações climáticas, inesperadas ondas de frio e/ou chuva com duração de várias semanas podem ocorrer durante o final do inverno/início da primavera. Nesta época o grande tamanho da população de abelhas provoca um esgotamento muito rápido das reservas e a colónia pode morrer de fome. Esta mortalidade, já na praia, ocorreu, infelizmente, a vários apicultores no ano passado (2018), fruto dos meses de março e abril mais frios e chuvosos que o habitual. Lembro-me que nestes meses, nestes dois últimos anos, andei vários dias debaixo de alguma chuva a suplementar com alimento pastoso as minhas colmeias. Se assim não tivesse feito teria perdido um número apreciável de colónias.
As colónias dos ecótipos locais, as melhor adaptadas às condições ambientais da região, terminado o período de escassez, desenvolvem-se muito rapidamente. Desta forma, evitam colocar em risco a sobrevivência da colónia. Em determinados anos de clima alterado, mesmo estas colónia bem adaptadas necessitam do apicultor ao seu lado, especialmente nas semanas chuvosas de final de inverno/início de primavera, quando elas não conseguem ir ao exterior buscar o seu alimento.
Nota: os períodos de escassez, que colocam as colónias em perigo, também podem estar associados a secas longas e ondas de calor mais frequentes e em épocas inabituais. Tema para um outro post.
Depois deste relatório relativo às perdas invernais em três regiões francesas no inverno de 2015-2016, surge o novo relatório, produzido pela Chambre d’Agriculture d’Alsace, relativo às perdas invernais no inverno 2016-2017 nas mesmas três regiões, inseridas na região Grand Est (Alsace, Champagne-Ardenne et Lorraine).
Fig.1: A região Grand Est
Este relatório apresenta a análise e discussão dos dados recolhidos através das respostas de 430 apicultores ao inquérito apresentado, e que descrevem 20.787 colmeias repartidas por 1.616 apiários. A amostra aumentou significativamente face à do ano anterior, e deu origem a um documento que recomendo fortemente a sua leitura.
Deixo um apanhado de alguns aspectos salientes do relatório.
Uma panorâmica geral Com 24,4% de perdas de inverno nas 3 regiões inquiridas (incluindo 14,3% de colmeias mortas e 10,1% de colmeias sem valor à entrada da primavera), a perda de colmeias durante o inverno de 2016-2017 é mais elevadas que em anos anteriores. As respostas dos 430 participantes indicam diferenças significativas entre os apicultores, que se traduzem em maiores perdas para os apicultores com menos colmeias em comparação com aqueles com um número alto de colmeias. As escolhas técnicas do apicultor, especialmente as que dizem respeito à luta contra o Varroa está uma vez mais associado às perdas invernais (este resultado é sistematicamente encontrado em cada levantamento de perdas de inverno). Um segundo fator explicativo e que também emerge: a melada excepcionalmente tardia do sapin em 2016 (o mel de melada de sapin é muito valorizado e apreciado em França). Extraordinariamente, esta melado aparece associada às perdas de inverno. Em 2016 esta melada atrasou-se no calendário, fruto de um clima anormal.
As condições climáticas anormais, vividas na região, em 2016 e seu impacto nas perdas invernais serão tema de um post a publicar em breve. Analisemos agora com algum detalhe os dados do relatório acerca das escolhas técnicas do apicultor, especialmente as que dizem respeito à luta contra o Varroa, e seu impacto na mortalidade invernal das colónias.
Corte de criação de zângãos
No que concerne à pratica do corte de zângãos como medida de controlo do Varroa, 8,2 % dos inquiridos responderam que a utilizavam e 91,8% responderam não. Esta medida foi implementada por vários apicultores, mas apenas 36 deles realizaram 3 ou 4 cortes sucessivos (uma condição essencial para retardar significativamente a progressão do parasita). Comparando as perdas invernais do grupo de apicultores que realizaram 3 ou 4 cortes de zângão com as perdas de outros apicultores que não efectuaram o referido corte verifica-se que as perdas invernais foram de 26,76% no grupo de apicultores que a aplicou e de 24,34% nos apicultores que não utilizaram o corte de zângão para controlar o Varroa. A medida não tem influência significativa na diminuição das perdas de inverno quando comparada. Esta observação é consistente com a realizada no inquérito do ano anterior.
Timing dos tratamentos
Em 2016, 48% dos apicultores aplicaram o tratamento em julho (período ideal) e agosto. A maioria dos tratamentos, contudo, foi aplicada em setembro ou, pior, em outubro ou novembro (no total, 52% dos apicultores).
As colónias tratadas em julho estão associadas às melhores taxas de sobrevivência no inverno. As perdas invernais foram: 16,4% para as colónias tratadas em julho; 21, 2% para as tratadas em agosto; 26,7% para as tratadas em setembro; e 41,1% para as tratadas em outubro (ver gráfico 14).
A escolha do medicamento e as perdas invernais
A escolha do medicamento anti-varroa é decisiva (ver gráficos 16 e 17). Como em anos anteriores, o Apivar está associado aos melhores resultados (22,4% de perdas invernais este ano), enquanto os tratamentos com timol ou ácido fórmico estão associados a maiores perdas (31,5% e 36,4% respectivamente) em virtude das limitações e perigos dos seus princípios ativos. Colónias não tratadas mostram as taxas mais elevada de perdas (51,1%).
A análise global dos vários elementos do relatório
A análise global dos dados destaca a infestação por varroa como o factor mais relacionado com as perdas de inverno. Por outro lado, vários parâmetros aparentemente não estão relacionados com as perdas de inverno: a prática da transumância, a colocação das colónias numa cultura agrícola específica, o número de quadros renovados/substituídos no ninho ou mesmo o fato de ter uma rainha jovem.
“Mudanças climáticas, pesticidas e mudanças no uso da terra por si só não podem explicar totalmente o declínio nas populações de insetos na Alemanha (ver aqui estudo alemão). Os cientistas do Instituto Leibniz de Ecologia de Água Doce e Pesca Interior (IGB) descobriram agora que as regiões que experimentaram um declínio agudo dos insetos voadores também têm altos níveis de poluição luminosa. Muitos estudos têm sugerido que a luz artificial à noite tem impactos negativos sobre os insetos, e os cientistas devem prestar mais atenção a esse fator ao explorar as causas do declínio da população de insetos no futuro.
[…] a equipe liderada pelo pesquisador do IGB, Dr. Maja Grubisic, analisou as localizações das áreas envolvidas no estudo de 2017: áreas que têm um nível de poluição luminosa acima da média. “Metade de todas as espécies de insetos são noturnas. Como tal, elas dependem da escuridão e da luz natural da lua e das estrelas para orientação e movimento ou para escapar aos predadores, e para realizar as suas tarefas noturnas como procurar comida e se reproduzir. A luz artificial nocturna perturba esse comportamento natural e tem um impacto negativo em suas chances de sobrevivência “, explica Maja Grubisic, referindo-se ao ponto de partida de sua investigação.
Os cientistas analisaram todos os estudos recentes sobre os efeitos da luz artificial à noite nos insetos, e descobriram que há fortes evidências que sugerem uma ligação credível entre a poluição luminosa e o declínio nas populações de insetos. Por exemplo, insetos voadores são atraídos por luzes artificiais – e, ao mesmo tempo, são removidos de outros ecossistemas – e morrem de exaustão ou por se tornarem presa fácil. Além disso, linhas de luz ao longo de estradas e/ou ruas impedem que os insetos voadores se espalhem causando uma falta de troca genética dentro das populações de insetos o que pode reduzir sua resistência a outras influências ambientais negativas, que são especialmente pronunciadas em áreas agrárias.”
Há cerca de 3 anos atrás verifiquei, numa povoação francesa perto de Lyon, que os candeeiros de iluminação pública noturna eram desligados por volta da meia-noite. Quando indaguei sobre as razões de tal procedimento informaram-me que era uma medida que visava proteger os insectos e aves com hábitos noturnos.
Fig. 1: Mapa da poluição luminosa – Europa. Créditos: Esri / HERE / DeLorme / NGA / USGS
Nota: neste link https://www.galeriadometeorito.com/2016/07/novo-mapa-da-poluicao-luminosa.html é abordada a problemática da poluição luminosa.
“Destaques: A base de dados da FAO mostra que o declínio das abelhas é:
• Regional, mas não global.
• Afetado pelo comércio global de mel.
• Impulsionado por mudanças políticas e socioeconómicas.
Pintura de Banksy
Perdas recentes de colónias de abelhas (Apis mellifera) têm sido associadas a vários fatores não-exclusivos; tais como pragas, parasitas, pesticidas (por exemplo, neonicotinóides) e outras toxinas. Enquanto essas perdas representam uma ameaça à apicultura, o número de colónias geridas globalmente parece ser menos afetado porque os apicultores substituem as colónias perdidas. De uma perspectiva socioeconómica e ecológica, o número de colónias manejadas é discutivelmente mais relevante quando se trata da questão dos serviços de apicultura e polinização fornecidos pelas abelhas. Aqui, usamos o banco de dados da FAO para dissecar as interações entre o mercado global de mel e o número de colónias. Análises à escala global não mostram um declínio geral de colónias. Enquanto a Europa Ocidental e os EUA mostram declínios nas colónias, outras regiões mostram um aumento considerável. Não foi possível encontrar qualquer ligação entre a dinâmica do número de colónias e a ocorrência de patógenos específicos ou o uso de pesticidas. Em contraste, mudanças no sistema político e socio-económico mostram fortes efeitos sobre a apicultura. Além disso, muitos países mostram uma estreita correlação negativa entre a importação de mel e o número de colónias geridas. Para alguns países, a quantidade de mel produzida por colónia está altamente correlacionado positivamente com a quantidade de importações de mel, e não podemos excluir a re-rotulagem em larga escala de mel importado para mel nacional. É muito claro que o comércio de mel é um fator preponderante para o número de colónias manejadas, já que os países com uma forte relação de importação e exportação são aqueles que mais sofrem com o declínio de colónias.”
Onde já estacionei 90 colónias… hoje estaciono nenhuma! [foto e legenda adicionada à publicação em 16/06/2023]
Nota: importa destrinçar entre declínio do número de colónias de abelhas e mortalidade de colónias de abelhas. O declínio não ocorre se os apicultores substituírem as colónias mortas por novas colónias, por exemplo através dos desdobramentos das sobreviventes. No caso vertente, o artigo correlaciona o declínio do número de colónias de abelhas em certas regiões do mundo com o comércio internacional do mel. Este, como sabemos, está mal regulado, o que provoca distorções aleatórias e de difícil acomodação com os custos reais da actividade em certas regiões do mundo, como é o caso europeu. Como já referido por mim anteriormente, a sustentabilidade económica da actividade apícola tem um papel decisivo na decisão do apicultor de aumentar, manter ou diminuir o seu efectivo de colmeias. Temo que em Portugal venhamos a assistir, num futuro muito próximo, ao declínio do efectivo apícola português, resultado de uma percepção da difícil sustentabilidade económica da actividade.Mudanças na política de apoios ao sector são vitais e urgentes para o evitar. Aqui ao lado, Espanha é um exemplo de como os apoios estatais contribuem para uma maior vitalidade da sua fileira apícola.
“Os pesticidas são há muito tempo objeto de debate público e científico. As opiniões variam desde a crença de que o dano ambiental potencial que pode resultar de seu uso justifica o abandono dessas ferramentas centrais de produção agrícola até ao endosso de seu uso continuado sob os procedimentos atuais de registro (que são apoiados por uma avaliação de risco rigorosa e robusta). Desde sua introdução, os inseticidas neonicotinóides têm sido submetidos aos mesmos procedimentos de registro que outros grupos de pesticidas, mas não obstante, durante os últimos dez anos eles tornaram-se um foco particular, com o debate cada vez mais polarizado. À primeira vista, um aspecto intrigante da discussão em torno dos neonicotinóides centra-se no reconhecimento de que os resultados de estudos individuais têm sido frequentemente usados para apoiar pontos de vista muito diferentes e aparentemente contraditórios, levando a uma barragem de reivindicação e contra-reivindicação na mídia. Neste contexto, legisladores e políticos em toda a Europa têm enfrentado a necessidade de equilibrar as evidências disponíveis para estabelecer se o registro de alguns ou todos os inseticidas dessa classe deve continuar. Como esta situação surgiu, e que novas informações são necessárias para chegar a um consenso, tornaram-se questões centrais. O atual debate em torno do efeito dos inseticidas neonicotinóides sobre os polinizadores e a consequente moratória sobre seu uso sob circunstâncias definidas parece ter sido baseado, às vezes, em conjuntos de dados estritamente focados, incompletos e, em alguns casos, não representativos. É, no entanto, um debate importante e é vital que cheguemos a um consenso cientificamente baseado sobre o real impacto desta classe de pesticidas, de modo que conclusões realistas possam ser tiradas sobre seu uso futuro. Se tal consenso for alcançado, é essencial que mais pesquisas sejam realizadas com urgência para preencher as lacunas atuais no nosso conhecimento e fornecer conjuntos de dados robustos sobre os quais a tomada de decisão informada se possa basear. Também é importante reconhecer que a concentração nos possíveis efeitos nos polinizadores resultou em menor destaque para as conseqüências mais amplas da perda desses pesticidas. Por exemplo, a proibição proposta aumentará o uso (e, portanto, a pressão de seleção) de outros ingredientes ativos, aumentando assim o risco de resistência e deixando-nos com menos opções para gerir a sua disseminação, um risco que é composto por abordagens alternativas de manejo de pragas atualmente disponíveis. O manejo integrado de pragas (MIP ou IPM) e o controle biológico têm sido promovidos como componentes importantes da futura produção de culturas sustentáveis. No entanto, muita pesquisa é necessária antes que seu potencial possa ser avaliado e totalmente implementado, particularmente em culturas de campo. Alguns neonicotinóides também são componentes importantes de alguns protocolos IPM atuais (sendo usados em conjunto com predadores naturais ou introduzidos) e sua perda atrasaria a introdução de novos sistemas que reduzirão a dependência de pesticidas. Assim, as decisões sobre o futuro desses inseticidas não devem basear-se apenas em evidências científicas substanciais e confiáveis sobre o seu impacto sobre os polinizadores, mas equilibradas, quando necessário, com os resultados de pesquisas urgentes sobre alternativas à sua utilização. Em resumo, fornecer aos legisladores e políticos uma base confiável para a tomada de decisões. O planeamento experimental futuro precisa levar em conta os riscos reais colocados por cada rota de exposição para cada substância ativa, sob as restrições atuais de registro. Terá de reflectir cenários, perfis e taxas de exposição realistas em experiências laboratoriais, semi-campo e de campo, para apoiar o estabelecimento de conclusões sólidas sobre os prováveis efeitos sub-letais no terreno. Uma compreensão da importância do metabolismo dos insetos de substâncias ativas na melhoria de respostas sub-letais também deve ser refletida no desenho experimental e na interpretação dos dados, e os dados apropriados de resíduos de inseticida devem ser coletados rotineiramente como parte de experimentos de campo. Também é importante investigar e obter uma melhor compreensão da relevância biológica (tanto no nível individual quanto no nível da colónia) das respostas comportamentais e fisiológicas usadas nas avaliações dos efeitos subletais desses inseticidas.
A pesquisa deve ser estendida para abranger toda a gama de grupos de polinizadores e inseticidas, já que a extrapolação atual dos resultados foi obtida principalmente do trabalho que investiga o imidaclopride e a Apis é inadequada. Além disso, também não deve concentrar-se apenas nas respostas biológicas dos insetos, mas incorporar desenvolvimentos tecnológicos para limitar as exposições, como o recente trabalho para reduzir a dispersão de poeiras no semeio. Os formuladores de políticas e os legisladores também têm um papel no estabelecimento de uma solução para a situação atual; por exemplo, para aumentar a confiança (em alguns trimestres) no procedimento de avaliação de risco, reavaliação e, se justificado, a alteração dos métodos pelos quais os PECs são calculados para tratamentos de sementes seria vantajosa. Embora existam muitas lacunas de pesquisa e problemas na interpretação de trabalhos publicados existentes, há uma oportunidade de usar o período da moratória para gerar os dados necessários para estabelecer uma base para decisões equilibradas sobre o futuro desse grupo de inseticidas. Questões semelhantes surgirão inevitavelmente no futuro para outros grupos de pesticidas, de modo que o trabalho dos próximos dois anos pode estabelecer um importante precedente. Assim, é vital que a ciência seja robusta.”
Neste artigo https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ps.4583, publicado em 2017, os autores questionam a relação entre a utilização dos neonicotinóides e o declínio dos polinizadores em geral e colónias de abelhas em particular. Concluem:
O declínio dos polinizadores silvestres não aumentou durante a era neonicotinóide;
O mesmo foi concluído para o declínio das colónias de abelhas, e os declínios observados podem estar ligados a outros fatores que não os pesticidas;
As perdas de colónias de abelhas, que aumentaram desde 2000, foram associadas mais com pragas e parasitas, bem como com as práticas de apicultura, do que com o uso de neonicotinóides.
Vejamos alguns excertos do artigo traduzidos que sustentam as afirmações em cima:
“O declínios de espécies de polinizadores silvestres e de espécies de plantas relacionadas com estes polinizadores foram relatados por Biesmeijer et al., comparando dados de observação de campo do Reino Unido e Holanda pré e pós-1980. Estudos mais detalhados mais tarde mostraram fortes declínios na riqueza destas espécies, especialmente durante as primeiras décadas do pós-guerra (1950-1970), menos de 1970-1990, e quase nenhum entre 1990 e 2009. O principal determinante do declínio de abelhas silvestres e da riqueza de espécies tem sido a intensificação da agricultura, resultando numa perda de habitat e plantas fornecedoras de pólen. A tendência de declínio dos polinizadores parece ter abrandado nas últimas duas décadas (1990-2010), o período que viu a introdução e o uso crescente de neonicotinóides Além disso, as espécies de polinizadores comuns em ambientes agrícolas, e possivelmente contribuindo mais para a polinização das culturas, que provavelmente também são as espécies mais expostas, não mostraram tendências declinantes em comparação com as outras espécies encontradas principalmente fora das áreas agrícolas.
[…]
… as perdas de um número elevado de colónias de abelhas durante o inverno são consideradas um problema em si para os apicultores e estimularam a fundação da rede Coloss. Assim, as perdas de colónias de abelhas experimentadas pelos apicultores podem ser atribuídas ao uso de neonicotinóides? Smith et al. apontam que a evidência não é forte para o caso. Mesmo um projeto de monitoramento de 4 anos muito extenso com a intenção de lançar luz sobre os possíveis fatores envolvidos nas perdas de colónias de abelhas melíferas, e focando especificamente resíduos de produtos químicos, não foi capaz de mostrar qualquer relação com estes, mas mostram efeitos da infestação com o ácaro Varroa, alguns vírus e a idade da rainha: na verdade, todos eles se relacionam com as escolhas de gestão/maneio do apicultor, um fator decisivo e muitas vezes negligenciado. Evidência circunstancial de uma investigação por telefone de perdas de inverno entre uma amostra aleatória do apicultores holandeses desde 2013 também sugere que a exposição a pesticidas não é uma explicação provável das diferenças entre os apicultores no número de colónias perdidas: verificou-se que 60-70% dos apicultores não perderam quaisquer colónias, e os apicultores com e sem perdas estavam distribuídos uniformemente pelo país, independentemente da intensidade agrícola e do provável uso de neonicotinóides.”
Recentemente foi descoberto em ensaios laboratoriais e um pouco por acaso que o cloreto de lítio (LiCL) tem um elevado efeito acaricida. Esta descoberta acidental* foi efectuada no âmbito de uma linha de investigação, já com alguns anos, em torno da modificação de alguns genes da varroa, com a intenção de manter a população de ácaros controlada (um tema a abordar num futuro post).
Nesta investigação, e de acordo com os protocolos experimentais, o cloreto de lítio (LiCL) foi usado como precipitante do RNA. Inesperadamente verificou-se que o LiCL é muito eficaz na eliminação dos ácaros Varroa, quando as abelhas são alimentadas com xarope onde estão dissolvidas concentrações muito baixas deste composto. No seguimento foram realizadas várias experiências para avaliar melhor os efeitos acaricidas do LiCL, assim como a tolerância das abelhas a este composto. Até agora os resultados obtidos sustentam o optimismo dos investigadores (que inclusive já patentearam a descoberta e seus desenvolvimentos futuros) e dão uma base promissora para o desenvolvimento de um método de controle efetivo e de fácil aplicação no controlo dos ácaros que tanto nos afligem.
Os autores da descoberta escrevem o seguinte a propósito desta descoberta surpreendente: “Como um varroacida, o LiCl apresenta algumas potencialidades únicas: (i) O LiCl atua de forma sistémica através da alimentação de abelhas (“fácil de aplicar”); (ii) é solúvel em água e não se acumulará na cera da abelha; (iii) a toxicidade oral da maioria dos compostos de lítio para mamíferos é relativamente baixa; (iv) não tem efeito repelente no xarope onde se encontra dissolvido dentro do intervalo de concentração relevante e (v) está disponível a preços moderados.
[…] Um desafio para novas pesquisas será o desenvolvimento de uma técnica de aplicação dedicado a enxames e colónias de tamanho natural para garantir que todas as abelhas recebam a quantidade crítica do composto ativo.“
Nota: *Acerca das descobertas acidentais em ciência, recordo-me de alguém dizer que a célebre maçã que caiu sobre a cabeça de Newton e o levou a formular a teoria gravitacional, caiu sobre uma cabeça preparada.
Actualização acerca do lítio na dieta humana: o lítio é essencial na dieta humana e as evidências científicas actuais defendem o consumo de 1000 μg/dia de lítio para um adulto médio com 70 Kg. O consumo de litio propicia benefícios na saúde da população em geral.
Fonte: Gerhard N. Schrauzer (2002) Lithium: Occurrence, Dietary Intakes, Nutritional Essentiality, Journal of the American College of Nutrition
Actualização em 28-02-2020:
Desde a altura da publicação há pouco mais de dois anos, em janeiro de 2018, pouco ou nada mais li de substantivo sobre a utilização do cloreto de lítio na luta contra a varroa. Em geral isso quer dizer uma de duas coisas: ou a investigação foi descontinuada por alguma razão, ou os dados preliminares são muito promissores e avançou-se para a fase de pedido de patente. No caso vertente é a segunda hipótese a que é válida. O processo de patente foi submetido por três cidadãos alemães, entre os quais está um dos maiores especialistas mundiais de varroa, Peter Rosenkranz. Ver aqui: http://www.freepatentsonline.com/20200008429.pdf
“O vírus das asas deformadas (VAD) contribui de forma significativa para as perdas de colónias de abelhas. Frequentemente a morte/falha das rainha está associadas à perda da colónia. Nesta investigação examinámos se a transmissão sexual durante o acasalamento é uma forma possível de infecção de rainhas com o VAD. Num ambiente com alta prevalência de VAD, as rainhas (n = 30) foram examinadas após o retorno dos vôos de acasalamento realizados em condições naturais. O endofalo do último zângão (n = 29), quando ainda presente nas rainhas, foi removido para a quantificação do VAD, levando à detecção de infecção de nível elevado em 3 endofalos. Após o início da ovodeposição das rainhas deste grupo experimental, a quantificação viral revelou que sete das 30 rainhas tinham infecções de VAD a um nível elevado, em todos os tecidos, incluindo no sémen armazenado nas espermatecas. Dois grupos de rainhas, um com rainhas não fecundadas (n = 8) com a postura de ovos induzida artificialmente, outro com as rainhas (n = 12) fecundadas em ambiente isolado com zângãos com infecções de VAD comparativamente baixas serviram como controle. Nenhuma das rainha deste grupo de controle apresentou infecções virais a nível elevado. Os nossos resultados demonstram que os zângãos com VAD a níveis elevados estão aptos para competir nas zonas de congregação, compartilhar e transmitir os vírus juntamente com o sémen, o que ocasionalmente leva a infecções das rainhas. A transmissão do VAD às rainhas durante o acasalamento pode ser comum e pode contribuir de forma notável para a mortalidade das rainhas.”
Entre outros aspectos, destaco a importância de ter os níveis de varroa muito baixos também na época de criação de zângãos nas nossas colónias de abelhas. Desta forma estamos a promover a esperança de vida das rainhas e a diminuir a possibilidade de transmissão vertical do VAD das rainhas às suas filhas.
Fig.1: Momento do acasalamento de uma rainha de abelhas melíferas.
Nesta palestra a Patrícia Wolf-Veiga, investigadora e microbióloga brasileira, a trabalhar no Canadá no National Bee Diagnostic Center, apresenta os dados de uma investigação conduzida durante 2014 e 2015 em torno da comparação da qualidade de rainhas importadas dos EUA com a qualidade de rainhas produzidas localmente . Um tema que me tem interessado e continua a interessar.
Aspectos que destaco:
fizeram a contagem e analisaram a viabilidade de espermatozoides e testaram a presença de organismos patogénicos (agentes que podem provocar uma doença) causadores de nosemose assim como virús diversos;
compararam também o desempenho das obreiras filhas de rainhas importadas e filhas de rainhas locais;
uma rainha bem fecundada deve conter no mínimo 3 milhões de espermatozoides na sua espermateca;
no que respeita à qualidade das rainhas constata-se uma maior variação nas rainhas importadas, isto é, a probabilidade de se adquirir rainhas de má qualidade é maior no lote de rainhas importadas que no lote de rainhas locais;
em algumas rainhas importadas apenas 20% dos espermatozoides estavam vivos (possível explicação aqui);
o desempenho de colónias lideradas por rainhas com mais baixa viabilidade espermática, menor número de espermatozoides ou com maior carga viral é pior;
em algumas das abelhas amas que acompanhavam a rainha foram encontrados mais de 100 milhões de esporos de nosema ceranae por abelha (uma colónia de abelhas com 10 milhões de esporos por abelha tende a colapsar durante o inverno, para termos uma noção dos valores que estão em causa);
rainhas importadas apresentam uma carga viral superior.
Como diz a Patrícia Wolf-Veiga as rainhas importadas podem trazer alguns “presentes” envenenados. Estas rainhas podem funcionar como cavalos de troia para a entrada em território nacional de uma diversidade de virus desconhecidos ou mal conhecidos (na palestra é feita referência a um que eu desconheço).