avaliar a prevalência no mercado de mel adulterado com açúcares na UE

Nesta publicação não levantei suspeitas acerca da qualidade analítica do mel de linha branca identificado na foto. Como poderia? Não fiz análises fisico-químicas ao mesmo, portanto sobre este aspecto calei-me como devia. Falei do que devia: para os apicultores europeus, entre os quais os portugueses, é insustentável concorrer com o mel comprado a 1,50€ aos apicultores mexicanos e argentinos. Disse mais, os apicultores mexicanos e argentinos também sofrem com esta cotação nos mercados grossistas internacionais porque são valores que não lhes permitem pagar os seus custos de produção. Sumariamente, os mercados grossistas internacionais estão a asfixiar o sector apícola um pouco por todo o lado, sector que já se debate com outras dificuldades de monta e dispensava bem esta “ajuda” de parceiros de negócio.

Dito isto, digo que o mercado grossista de mel não tem uma boa imagem e por razões válidas. Pode pôr a melhor fragância mas é um sector que cheira mal. Evidências de adulteração de mel importado são muitas. Entre outras, uma acção recente de fiscalização levada a cabo por entidades da UE, bem coordenada e com os meios necessários, conclui uma vez mais que este sector ligado à importação-exportação de mel está parcialmente apodrecido, chegando ao ponto do sector contratar os serviços de laboratórios credenciados para saber como adulterar o mel de forma a que passe nas análises físico-químicas convencionais. Suspeito que não são os apicultores mexicanos, argentinos, ou outros, a adulterar o mel da sua produção. Os grossistas depressa o detectariam, porque estas adulterações ao nível do apicultor são grosseiras e facilmente “apanhadas” nas análises feitas ou pedidas pelos grossistas antes da compra dos bidões de mel. Suspeito que é ao nível de alguns dos grossistas que se fazem adulterações e de forma sofisticada. Por exemplo, como fazer para alcançar o melhor racio 13C/12C de sacarídeos, ou que percentagem de açucares C4 ou C3 adicionar ao mel por forma a passar nas análises que são feitas mais rotineiramente. E passam!

Vejamos o que diz o relatório recente da UE a propósito das acções inspectivas que conduziu junto de importadores de mel com origem no espaço extra-comunitário.


Em 2021, a Comissão Europeia organizou a ação coordenada da UE denominada “From the Hives” para avaliar a prevalência no mercado de mel adulterado com açúcares.

A ação coordenada incluiu três etapas:

  1. Recolha de amostras de mel nas fronteiras da UE e sua análise pelo Centro Comum de Investigação da Comissão (JRC), em Geel – Bélgica.
  2. Recolha pelos Estados-Membros e pela equipa de Fraude Alimentar da DG SANTE do local de destino das remessas controladas e informações sobre operadores suspeitos (operações anteriores de importação registadas no sistema TRACES, incumprimentos e suspeitas de fraude alimentar já registadas no Alerta e Rede de Cooperação).
  3. Investigações pelos Estados Membros e autoridades dos Estados da EFTA com apoio investigativo do Organismo Europeu Antifraude (OLAF)EN••• no local de importação, processamento, mistura e embalagem na UE.
A linha de tempo das acções levadas a cabo neste âmbito

Conclusões da ação da UE
A ação coordenada confirmou a suposição inicial de que uma parte significativa do mel importado para a UE é suspeita de não cumprir as disposições da “Diretiva do Mel” (46% com base em 320 amostras).

Esta taxa foi consideravelmente superior à obtida em 2015-17 (14%). O maior número absoluto de remessas suspeitas veio da China (74%), embora o mel originário da Turquia tenha a maior proporção relativa de amostras suspeitas (93%). O mel importado do Reino Unido teve uma taxa de suspeita ainda maior (100%), provavelmente o resultado do mel produzido em outros países e misturado no Reino Unido antes de sua reexportação para a UE.

Mais de metade (57%) dos operadores tinham exportado remessas de mel suspeitas de estarem adulteradas com açúcares estranhos e mais de 60% (66), dos operadores importaram pelo menos uma remessa suspeita.

Até à data, 44 operadores da UE foram investigados e sete foram sancionados. As investigações forenses realizadas pelos Estados-Membros e pelo OLAF com base em inspeções no local, amostragem e exame minucioso de computadores e registos telefónicos demonstraram cumplicidade entre exportadores e importadores e as seguintes práticas ilícitas:

  • utilização de xaropes de açúcar para adulterar o mel e baixar o seu preço, tanto em países terceiros como no território da UE;
  • análise em laboratórios credenciados para adaptar as misturas de mel/açúcar para evitar a possível detecção por clientes e autoridades oficiais antes das operações de importação;
  • uso de aditivos e corantes para adulterar a verdadeira fonte botânica do mel;
  • mascaramento da verdadeira origem geográfica do mel, falsificando informações de rastreabilidade e removendo pólens.
  • Com base no exposto, há uma forte suspeita de que grande parte do mel importado de países não pertencentes à UE e considerado suspeito pelo CCI de ser adulterado permanece presente e não detectado no mercado da UE.

fonte: https://food.ec.europa.eu/safety/eu-agri-food-fraud-network/eu-coordinated-actions/honey-2021-2022_en

apicultores da Europa Ocidental temem pelo futuro

Excelente artigo! Por esta razão deixo a tradução (os sublinhados/negrito são meus). Foi publicado em 2022.

“Em frente à loja de mel Api Douceur em Giromagny, em França, está um recipiente de vidro incomum ao lado do caminho que leva às colmeias. Trata-se de uma vending machine, instalada pelos donos do apiário em 2019. “Como éramos apenas dois, inicialmente não conseguíamos abrir a loja em horários regulares, então tivemos a ideia de uma vending machine, para permitir que os transeuntes, ou mesmo os caminhantes de domingo, comprem seu pote de mel”, diz Flavien Durant, 31 anos, que administra a empresa ao lado de Patrick Giraud desde 2017. A máquina de venda automática ajuda a expandir sua base de clientes e tentar lucrar com um comércio cada vez mais precário.

Embora Flavien e Patrick produzam em média oito toneladas de mel por ano, em 2021 o número caiu para 300 quilos. A maioria das 400 colmeias que tinham no final do inverno não produziram mel. A maioria dos apicultores teve o mesmo destino. A colheita de mel da França em 2021 foi de cerca de 7.000 a 9.000 toneladas, de acordo com a União Nacional de Apicultura da França (UNAF). Em 2020, foram cerca de 19.000 toneladas.

Condições climáticas adversas foram as responsáveis por uma colheita tão ruim. O inverno foi particularmente ameno, mas foi seguido por períodos de geada, frio e chuva durante a primavera e no verão. Junho chegou e Flavien ainda não tinha colhido um quilo de mel. Pior ainda, ele teve que alimentar suas abelhas, e elas já tinham consumido todas as reservas de mel de sua colmeia. “É um ano perdido, um ano pobre como nunca vimos antes.”

A situação era tal que Flavien decidiu procurar um emprego extra. Ele agora está trabalhando na indústria da construção e espera voltar a cuidar de suas abelhas na primavera. “Sendo gerente, é mais fácil para mim ir e vir do apiário. E isso me permite manter nossos dois funcionários, que realmente queremos manter.”

O departamento do Territoire de Belfort está atualmente analisando a declaração de uma “calamidade apícola”, o que poderia abrir caminho para a ajuda do Estado. Por enquanto, Flavien e seu parceiro de negócios receberam € 4.000 em ajuda da autoridade local para compensar as perdas causadas pela geada tardia. “Para produtores como nós, que vivem do que produzimos, quando não produzimos, a solução é viver das nossas reservas. Mas quando você acabou de começar, eles são muito limitados”, diz Flavien. Eles só tinham reservas suficientes para durar até dezembro.

O prelúdio de um desastre ambiental


Não é apenas na França que os apicultores estão lutando, mas em toda a Europa, refletindo uma tendência mais ampla. A produção de mel e a sobrevivência das abelhas têm diminuído constantemente nas últimas décadas. A taxa de mortalidade das abelhas é atualmente de cerca de 30 por cento. Em 1995, era de 5%, segundo a UNAF. E, no entanto, as abelhas contribuem com cerca de € 22 mil milhões para o setor agrícola europeu a cada ano – não graças ao mel que produzem, mas aos serviços de polinização que fornecem para as plantações. Os cientistas estimam que uma em cada três dentadas de comida depende de polinizadores.

A perturbação climática não é a única responsável por esse declínio. Os pesticidas usados em grande escala desde a década de 1990 também desempenharam seu papel. Numerosos estudos demonstraram a toxicidade dessas substâncias, como o realizado pela Universidade de Maryland em 2016, que também destaca os perigos do efeito sinérgico dos pesticidas.

Sébastien Guillier está mais do que familiarizado com o assunto. Em 2008, ele perdeu a maior parte de suas colónias, provavelmente devido a envenenamento. Ele trabalhava como apicultor profissional há dez anos em Haute-Saône, no nordeste da França. “No outono de 2007, as abelhas estavam com sede. Tratamentos foram aplicados na área para combater os ácaros vermelhos do trigo, e as abelhas beberam das poças, como costumam fazer. A dose deve ter sido muito alta”, explica o apicultor.

Os estados membros da UE podem conceder autorizações de emergência por até 120 dias quando houver “um perigo que não pode ser controlado por nenhum outro meio razoável”, de acordo com a diretiva da UE que rege essas medidas de emergência. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) identificou 17 medidas de emergência desde 2020, todas para a beterraba sacarina. Entre 2018 e 2020, no entanto, o projeto de jornalismo Unearthed da Greenpeace registou pelo menos 67 autorizações de emergência nos vários estados membros da UE.

Após sua derrota em 2008, Sébastien procurou levantar a questão no parlamento francês e na mídia. De pouco adiantou. Recebeu 45€ por colmeia em compensação do Estado, embora o montante necessário para reconstruir a colónia rondasse os 150€ por colmeia. Ele também teve que encontrar um segundo emprego. Ele agora trabalha como inspetor de leite e mantém cerca de 100 colméias na zona rural de Haute-Saône.

Na França, apenas três por cento dos 70.000 apicultores do país eram profissionais em 2019. O restante era amador (92 por cento) ou pluriativo (5 por cento). E embora o número de apicultores esteja aumentando em quase toda a Europa, o padrão permanece o mesmo da França: eles são principalmente amadores. Os apicultores europeus têm em média 21 colmeias.

Competição insustentável


Outro fator stressante para os apicultores é a concorrência barata do exterior. Os preços dos supermercados são muito baixos para os apicultores locais ganharem a vida, especialmente para aqueles que produzem em pequena escala.

Alguns dos produtores que mantêm os preços muito baixos estão baseados em países do Leste Europeu, como a Ucrânia, mas muitos também estão na China. Um quilo de mel importado da China custou aos grossistas € 1,40, em média, em 2020. A maioria dos apicultores da União Europeia não pode competir com esses preços. Seu custo médio de produção já é de € 3,90 por quilo, segundo a Copa-Cogeca, que representa agricultores e cooperativas agrícolas na UE. Cerca de 40 por cento do mel no mercado europeu é importado.” (ver esta publicação a propósito)

fonte: https://www.equaltimes.org/beekeepers-in-western-europe-fear

mercado internacional do mel: a insustentável barateza do mel?

Quais são as razões que explicam que o mel de marca branca possa estar a 3,49€ o frasco de meio quilo? Foi esta a pergunta que me coloquei a mim próprio quando ontem vi o que a foto em baixo retrata.

Diz que é mel de flores… uma mistura da Argentina, Cuba, Espanha, Ucrânia e México.

Sei por experiência que a produção de mel a uma determinada escala, a escala das toneladas, coloca o apicultor português que não tem um estabelecimento certificado (a maioria dos apicultores) e, simultaneamente, uma estrutura comercial que lhe permita escoar essas toneladas de mel da sua produção (a imensa maioria dos apicultores), na contingência de escoar o seu mel a granel, em bidões de 300-320 kgs. E, nesta escala, o mel português concorre com o mel proveniente de zonas distantes do mundo, entre outras as atrás referidas. A concorrência deixa de ter a escala da rua, da aldeia ou da vila, como acontece para as pequenas produções, a concorrência passa a ter a escala de países e continentes. E assim sendo, importa-me perceber como conseguem os apicultores de outros cantos do mundo, por exemplo, os da a Argentina e os do México (dois dos maiores produtores mundiais de mel ) conviver neste mercado de preços insustentavelmente baratos. Pelo que consegui perceber convivem muito mal. Não me surpreende!

Neste artigo é referido que os apicultores argentinos vendem o seu mel a 400 pesos argentinos o kg (1,53€) para o mercado internacional e, neste outro artigo, indica-se que os apicultores mexicanos não conseguem mais que 28 pesos mexicanos (1,50€). Com estes valores pagos ao produtor, os intermediários têm uma boa margem comercial, assim como o distribuidor que vende ao cliente final o quilograma de mel a 7€.

O facto de mercado internacional pagar 1,53 € por kg de mel argentino e a 1,50 € por kg de mel mexicano tem um efeito estrangulador e sufocante na apicultura profissional destes dois países: no México “En este mes de Abril, con la floración en pleno, los precios van de 25 a 28 pesos el kilo, por lo que entre los propios apicultores recomiendan no vender. Incluso ofrecen tambores para almacenar y trabajar en red y no venderle a los a acopiadores, ya que el precio es muy bajo y ni siquiera cubre el gasto de la cosecha.”; na Argentina ” Bichos de Campo levantó el velo sobre el preocupante estado de esta actividad: durante casi dos años los productores de miel vieron el precio de su producto planchado, al tiempo que sus insumos aumentaron más de un 300%. Con una inflación anual del 100%, esa actividad entró en rojo.”

Este mercado do mel, que não serve os apicultores exportadores, não serve também os apicultores dos países importadores europeus, entre outros os apicultores portugueses. Concorrer com valores internacionais de 1,5€ o kg é ruinoso. Uma solução está nos mercados de nicho. Mas os mercados de nicho não recebem mel envasado em bidões e/ou enfrascado fora dos assépticos estabelecimentos certificados e fora de uma estrutura comercial sofisticada, como é o caso da imensa maioria das explorações apícolas do nosso país. Outra alternativa está nas cooperativas, para assim se ganhar escala e estabelecer contratos com as grandes distribuidoras. Não faço ideia como estão as cooperativas de mel em Portugal, pouco ou nada oiço acerca delas. Espero que estejam bem e que sejam uma boa alternativa para este contexto intoxicante do mercado internacional de mel.

tipos de mestreiros: os mestreiros de enxameação

Os mestreiros de enxameação surgem quando a colónia tenciona dividir-se, dando origem a uma ou mais novas colónias. A enxameação é o mecanismo reprodutivo ao nível da colónia ou do super-organismo.

Ao contrário dos mestreiros de emergência e dos mestreiros de substituição que podem surgir em qualquer altura do ano, os mestreiros de enxameação surgem habitualmente em épocas do ano que se caracterizam por abundância de recursos alimentares, presença de zângãos e boas condições meteorológicas para os vôos de acasalamento, condições que por norma se verificam à entrada e durante a primavera.

Ao contrário dos mestreiros de emergência, os mestreiros de enxameação são iniciados a partir de cálices reais pré-existentes, à semelhança do que acontece com os mestreiros de substituição.

Mestreiros de enxameação.

Os mestreiros de enxameação distinguem-se dos mestreiros de substituição pelo conjunto dos aspectos seguintes:

  • são mais numerosos, habitualmente mais de 5;
  • surgem frequentemente nas extremidades inferiores e laterais dos favos;
  • surgem em períodos de abundância, isto é na época da enxameação reprodutiva.

Nota: só depois de começar esta série de publicações localizei esta outra, de há anos atrás, onde abordei a distinção entre tipos de mestreiros.

a selecção de abelhas resistentes por via de… ovos de obreiras

Os esforços para seleccionar abelhas resistentes ao varroa têm sido muitos nos últimos 30 anos, contudo o progresso tem sido exasperadamente lento, com avanços e retrocessos de geração para geração. Uma das razões para a pouca solidez nos avanços está no facto de a selecção ser feita ao nível da colónia, segundo Kasper Bienefeld, investigador na área Genética, Bioinformática, Zootecnia e criopreservação de sémen de abelhas. Segundo este especialista:

A desoperculação e a remoção da cria infestada assume-se ser características importantes para a resistência ao Varroa. Tradicionalmente, a seleção em programas de melhoramento de abelhas é realizado com base no desempenho da colónia […] mas a seleção ao nível da colónia pode não ser muito eficiente para criação de resistência ao Varroa porque há variações significativas intracoloniais, causadas pelos
múltiplos acasalamentos da rainha e consequentemente as colónias são compostas por diversas sub-famílias de operárias com diversas origens paternas.
Tendo este aspecto em conta, começámos a selecionar linhas para a resistência ao Varroa assente no comportamento higiénico de abelhas operárias individuais
( ver foto em baixo) durante uma observação de vídeo de infravermelhos durante 6 dias (Bienefeld et al., 2016).

Estas abelhas operárias muito higiénicas, identificadas individualmente através da visualização do vídeo, foram induzidas a fazer postura de ovos não fertilizados. Estes ovos não fertilizados são deixados terminar o seu ciclo de desenvolvimento, dão origem a zângãos, cujo esperma é usado para inseminação de rainhas. Consequentemente, estas abelhas operárias raras, com elevada capacidade sensorial para detectarem larvas/pupas infestadas pelo Varroa, são usadas como pais para a próxima geração.”

Imagem capturada do vídeo mostrando uma abelha operária, que desoperculou um alvéolo de criação infestadapor Varroa (marcada em verde).
Os alvéolos marcados a vermelho estão livres de Varroa e são utilizados como controlo.

É óbvio para mim que esta metodologia de selecção está apenas ao alcance de uma equipa de investigação. Contudo interessou-me por: (i) destacar que este ou aquele traço que nos interessam quando observamos uma colónia podem depender sobretudo de uma das várias sub-famílias que compõe aquela colónia e (ii) nos ajudar a compreender as razões dos avanços e retrocessos que temos assistido nestes últimos 30 anos de esforços para ter linhas estáveis de abelhas resistentes ao varroa, quando fazemos selecção ao nível da colónia e com base no seu pedigree.

fonte: https://dergipark.org.tr/tr/download/article-file/859474

do Parque Natural de Montesinho ao Parque Natural da Serra da Estrela, um cenário de escassez

Li ontem, no jornal Brigantia, este testemunho de Carlos Alves: “Carlos Alves é o maior apicultor do Parque Natural de Montesinho. Tem 1200 colmeias, em Passos de Lomba, concelho de Vinhais. A apicultura começou por ser um passatempo, mas há cerca de sete anos decidiu profissionalizar-se, quando a actividade ainda era “rentável”. Agora, os prejuízos são grandes. “Pelas minhas contas anuais, o ano passado, na minha exploração, que se dedica exclusivamente à produção de mel, tive prejuízos entre os 12 a 15 mil euros”.

A continuar assim, pondera deixar a actividade, porque começa a ser intolerável aguentar os custos de produção. “Se este ano tiver perdas, em 2024 tenho que pensar seriamente se posso continuar ou não na actividade porque está a deixar de ser rentável. As produções estão a ser muito baixas, o custo de produção está elevadíssimo, os materiais para a apicultura estão muito caros, os alimentos também, o preço deles duplicou”.

O apicultor não compreende a falta de apoios do Ministério da Agricultura. “A falta de apoios, que temos pela parte do Estado, não se compreende porque nós temos que seguir as normas europeias, a nível de produção, tanto de bens derivados da apicultura como a forma como tratamos as colmeias. Quando se trata de direitos… não temos os mesmos direitos que os apicultores europeus”.

Foi um mero acaso, mas ontem em conversa o meu amigo Pires Veiga confirmou um cenário muito semelhante nos seus apiários situados no Parque Natural da Serra da Estrela. Meias alças vazias em junho, com as abelhas a não subirem apesar dos ninhos estarem bem povoados, com as abelhas paradas na frente das colmeias, sem vontade de saírem para o campo. A explicação que me adiantou foi a escassez de néctar no mês de abril, com o rosmaninho e outras florações a durar meia dúzia de dias, consequência das ondas de calor que também ali se sentiram. E como uma desgraça nunca vem só, as fortes chuvadas e as trovoadas do mês de maio lavaram as flores, piorando mais ainda as condições de pasto para as abelhas. Dizia-me a terminar que as coisas a continuarem assim, com fracas produções e os materiais cada vez mais caros, sem qualquer apoio digno desse nome (porque um apoio não é uma esmolinha) a apicultura será para aqueles com meia-dúzia de colmeias, que desejem passar algum do seu tempo livre a cuidar delas.

A terminar esta publicação dizer, caro amigo, que acompanho a tua análise da época e o teu sentimento acerca do futuro próximo. Haverá seguramente algumas zonas com produções razoáveis, infelizmente uma excepção à regra.

trabalho de apiário: colocação de grelhas excluidoras e marcação de rainhas

Ontem, o Marcelo desafiou-me a ir ao seu apiário para o acompanhar e ajudar na realização de duas tarefas: colocar grelhas excluidoras em todas as colónias do apiário, com a óbvia excepção de alguns enxames novos que se mantêm no ninho, e aproveitar a oportunidade para marcar e remarcar algumas rainhas de 2023 e de 2022, respectivamente.

O Marcelo e as excluidoras novas a estrear.

E porque está o Marcelo a universalizar a utilização das excluidoras? Porque também neste litoral está a ver o que eu via na beira. As excluidoras são peças fundamentais para ter ninhos muito organizados, com quadros desbloqueados, com excelentes áreas para excelentes padrões de postura, quadros com o pólen/pão de abelha nas bordaduras e não espalhado um pouco por toda a superfície dos mesmos, meias alças preenchidas de néctar/mel sem a presença de indesejável criação e/ou pólen/pão de abelha.

Estou consciente que iniciei uma renovação/outra forma de fazer e pensar em vários aspectos do maneio de colónias de abelhas no nosso país, por ex. com as colmeias armazém, a regra não mais de 6, os desdobramentos com recurso à técnica Doolittle. No caso das excluidoras parece-me que os apicultores estão a acreditar e a experimentar cada vez mais as virtualidades da utilização adequada das mesmas, a ultrapassar preconceitos como este por exemplo: estou a criar turbo-rainhas que põem um mínimo de 4 mil ovos/dia e não as quero limitadas! WTF bro!!

Exemplo de um quadro langstroth de uma colónia com a rainha confinada ao ninho por uma excluidora.
Remarcação de uma rainha de 2022.
Rainha remarcada. Alguns criadores de rainhas defendem a tese que a limpeza desta marca do tórax das rainhas indica um bom comportamento higiénico das abelhas daquela colónia! What?? Seria tão confortável se assim fosse. Aqueles que utilizam os testes de refrigeração da criação, os testes de perfuração da criação para testar o comportamento higiénico, são ultrapassados pela direita e a grande velocidade por estes espertos que dizem n’import quoi! Para todos nós, o comportamento higiénico é bastante complexo, envolve várias operações por parte das abelhas, envolve uma combinação de genes relativamente rara e em nada se assemelha a este comportamento de (suposta) limpeza de tinta do tórax da rainha.

A foto da excluidora em baixo, é a testemunha silenciosa de um acontecimento inesperado. Uma rainha que passa através dela como água por areia fina. Defeito da excluidora? Não nos parece, nem ao Marcelo nem a mim. Esta já é a segunda excluidora que colocamos nesta colmeia, porque também com a excluidora anterior a rainha passava do ninho para as meias alças e novamente para o ninho. Na altura e apesar não vermos nenhum defeito nessa excluidora decidimos trocá-la e colocar esta da foto em baixo. Ontem decidimos trocar esta por uma nova. Para ver o resultado numa próxima oportunidade.

Até à próxima visita a um apiário, do Marcelo ou de outro companheiro que deseje que o acompanhe neste prazeroso trabalho, ficam-me na retina e na memória o muito que as abelhas me mostraram e ensinaram… juntamente com o que aprendi dos vários Mestres com quem tive a felicidade de me ir cruzando.

rainhas de emergência: põem menos ovos e gastam-se mais depressa?

Ontem com um bom amigo e criador de rainhas conversámos sobre a qualidade das rainhas de emergência.

Em publicações passadas, esta entre outras pobres rainha de emergência revisitado, apresentei dados que não confirmam a crença de que as abelhas numa situação de orfandade súbita e inesperada produzem mestreiros de pouca qualidade a partir de larvas com 6 ou mais dias de idade, contados a partir da oviposição. Mais, é defendido que são estas rainhas morfologicamente e nutricionalmente comprometidas que eliminam as suas irmãs mais novas e que acabam por ser aceites pelas abelhas. Esta crença tão profundamente instalada nos apicultores como a crença de que o mel cristalizado está misturado com açucar de mesa nos consumidores, não é confirmada por estudos empíricos devidamente controlados. O que estes estudos confirmam é de que as abelhas seleccionam os mestreiros e seleccionam a melhor rainha de emergência que têm disponível.

Mas será a melhor rainha de emergência suficientemente boa? Não irá pôr menos ovos e/ou durante menos tempo, isto é, não tendem a ser menos prolíficas e menos longevas?

Para responder a estas duas questões importa conhecer o número médio de ovaríolos presentes em cada ovário e o volume da espermateca em rainhas de reputada qualidade. O número de ovaríolos determina a prolificidade, isto é o potencial de oviposição de uma rainha; o volume da espermateca determina o potencial de armazenamento de sémen, portanto a longevidade das rainhas.

Contagem de ovaríolos. Da esquerda para a direita: um ovário após a coloração, um ovário durante a contagem dos ovaríolos, detalhe da estrutura dos ovaríolos. (fonte:
Investigating Genetic and Phenotypic Variability of Queen Bees: Morphological and Reproductive Traits, 2021)

Num estudo recente (Investigating Genetic and Phenotypic Variability of Queen Bees: Morphological and Reproductive Traits, 2021) são apresentados, entre outros, os valores médios para estas duas características resultantes da análise de 147 rainhas criadas por translarve de um reputado criador italiano*: (i) o número médio de ovaríolos é 282 (141 por ovário); (ii) o volume médio da espermateca é 1,27 milímetros cúbicos.

Tomando estes números como referência, 282 ovaríolos e 1,27 mílimetros cúbicos para o volume da espermateca, comparemo-los com os dados referidos num estudo de Tarpy e colegas, estudo já aqui mencionado (Worker regulation of emergency queen rearing in honey bee colonies and the resultant variation in queen quality, 1999), onde avaliaram estes mesmo parâmetros em 89 rainhas criadas naturalmente e numa situação de emergência: (i) o número médio de ovaríolos não desceu abaixo de 305; (ii) o volume médio da espermateca não desceu abaixo de 1,21 milímetros cúbicos (na categoria rainhas criadas a partir de larvas com até 24 h) e, em todas as outras categorias analisadas, foi sempre igual ou superior a 134 milímetros cúbicos (ver quadro em baixo)

Fonte: Worker regulation of emergency queen rearing in honey bee colonies and the resultant variation in queen quality, 1999.

Em conclusão e respondendo resumidamente às duas questões do título: as rainhas criadas naturalmente num processo de emergência têm potencial morfológico (número de ovaríolos) para porem os mesmo ovos que as rainhas criadas por translarve e, simultaneamente, têm o mesmo potencial para durarem tanto como as rainhas criadas por translarve (volume da espermateca).

Na minha prática apícola foram muitas as vezes que recorri aos criadores de rainhas para fazer novas colónias. Comprei mais rainhas de boa qualidade do que rainhas de pouca qualidade, o que revela que o trabalho está a ser bem feito. Contudo, nunca reneguei umas nem outras por preconceitos baseados em crenças de maior ou menor qualidade de umas ou de outras. As minhas opções guiavam-se por critérios de custo-oportunidade para atingir os objectivos do momento. Numas alturas esta análise levava-me a adquirir rainhas de criadores, noutras alturas levava-me a criar as minhas rainhas de forma natural. Como não estou aqui a vender nada, digo isto sem estar a puxar a brasa à minha sardinha, digo-o com sustentação em evidências empíricas, de outros e minhas, e não porque ouvi dizer nas avenidas e nos becos da conversação apícola, tão alimentada por mitos e interesses, mais ou menos expressos ou latentes.

Nota: * a propósito do método de criação de rainhas do referido criador italiano lê-se no artigo: “As rainhas foram fornecidas por uma empresa italiana de criação de rainhas e apicultura que produz e vende cerca de 400 a 600 rainhas por semana, da primavera ao final do verão. A criação das rainhas foi caracterizada por um sistema de produção padronizado e pela rastreabilidade das linhagens materna e paterna de cada rainha (o pedigree). O sistema de criação padronizado consiste em utilizar apenas colónias finalizadoras sem rainha.”

sobre a epidemia de enxameação e sobre as abelhas domésticas no Reino Unido

Em baixo deixo a tradução de um artigo publicado ontem na BBC News intitulado “Beekeepers ‘run out of equipment’ as swarms rise“. Muito interessante a explicação do apicultor Alan Deeley — eu também atrasei/adiei algumas vezes o meu maneio de prevenção da enxameação em alguns apiários por razões devidas à metereologia difícil e, quando finalmente o podia fazer, algumas colónias estavam já em modo de enxameação. Muito interessante também a opinião do professor David Chandler, sobre o papel dos apicultores na sobrevivência das abelhas melíferas domésticas.

“Os apicultores dizem que estão a ficar sem equipamentos para albergar o aumento do número dos enxames de abelhas após um período de calor.

Uma primavera longa e fria seguida do aumento das temperaturas significa que um número grande de enxames agora procuram novas localizações, dizem especialistas da Universidade de Warwick.

O público está sendo aconselhado a não entrar em pânico se avistar as abelhas e, em vez disso, chamar profissionais para as retirar.

“Foi um ano muito incomum para enxames”, disse o apicultor Alan Deeley.

Alan Deeley diz que uma longa primavera fria seguida de clima quente levou a um aumento de enxames.

Os apicultores inspecionaram as colmeias assim que se atingiram 15°C, no entanto, no início da primavera, as temperaturas permaneceram baixas, e por essa razão eles não conseguiram fazer o maneio de prevenção da enxameação, disse Deeley.

“Assim que o tempo melhorou, a enxameação aumentou de forma louca”, acrescentou.

O professor David Chandler, microbiologista e entomologista da Universidade de Warwick, disse: “Agora só existem abelhas por causa dos apicultores.

“Não há abelhas selvagens neste país porque as abelhas são afetadas por um ácaro parasita que se alimenta de seu sangue – é uma espécie invasora”.

O meu acordo total com o professor David Chandler, como se pode confirmar pelo que escrevi aqui há uma semana atrás.

Fonte: https://www.bbc.com/news/uk-england-coventry-warwickshire-65746081

quadros de cera laminada no ninho: como interpretar a sua utilização pelas abelhas

Na época da enxameação reprodutiva (abril e maio no território onde tinha os meus apiários), a aplicação da regra não mais de 6 para fazer a prevenção da enxameação de forma sistemática permitiu-me ir fazendo um conjunto numeroso de observações acerca da utilização e finalidade que as abelhas davam aos quadros de cera laminada que lhes ía colocando regularmente no ninho. Havia colónias que aproveitavam estes quadros para a rainha aí fazer postura de travessão a travessão num primeiro ciclo de postura, e nos ciclos seguintes ía aumentando a abóbada de mel permanecendo uma área generosa desses quadros para a postura da rainha. Contudo outras colónias aproveitavam estes quadros com cera nova sobretudo para armazenarem pólen e/ou néctar.

Das minhas observações verifiquei que esta apropriação e utilização diferente entre colónias dos quadros de cera laminada que ía colocando com intervalos de 15 dias e durante o período da enxameação reprodutiva (período com cerca de 45 dias no território onde tinha os apiários) estava associada frequentemente a dois modos diferentes das colónias:

  • as colónias que aproveitavam os quadros para a rainha aí fazer abundante postura não estavam em modo de enxameação;
  • as colónias que aproveitavam os quadros para aí armazenarem pólen e néctar estavam em modo de enxameação.
Quadro langstroth com cera laminada colocado na posição 2 do ninho 10 dias antes desta fotografia. Está cheio de larvas de travessão a travessão.
Quadro lusitana colocado na posição 9 no âmbito da aplicação da regra não mais de 6 com criação em mais de 90% da sua área. As abóbadas de mel aparecem somente no ciclo posterior de postura nesta época do ano.

A utilização que as colónias faziam dos quadros com cera laminada que lhes ía colocando em intervalos de cerca de 15 dias funcionavam para mim como bio-sensores do modo em que estavam as minhas colónias: em modo de crescimento ou em modo de enxameação.