como colher abelhas ama sem ter de encontrar a rainha

Mova a colónia doadora para o lado, e coloque um estrado e corpo de colmeia vazio no seu lugar. Da colónia doadora retire um par de quadros com criação e coloque-os no centro do corpo da nova colmeia e, em seguida, preencha os espaços vazios com quadros puxados e quadros com mel e pólen. Em seguida, coloque outra caixa vazia por cima desta nova colmeia para atuar como um funil. Sacuda todas as abelhas dos quadros restantes para o “funil”. Quando terminar, escove gentilmente as abelhas dos lados da caixa de funil para baixo, para o novo ninho (poderá também utilizar o fumigador para as orientar para o ninho). O objectivo desta operação é ter certeza de que conseguimos colocar a rainha na caixa inferior.

Uma vez que todas as abelhas estejam na caixa inferior, em seguida, coloque um grelha excluidora de rainhas sobre esta nova caixa, que passará a cumprir as funções de ninho. Sobre a excluidora coloque um corpo com os quadros restantes. As abelhas amas rapidamente subirão através da excluidora para cobrir, aquecer e alimentar a criação. Passada uma a duas horas, será fácil colher abelhas amas nesta caixa superior, ou mesmo quadros com criação e abelhas, para equalizar (e também aqui) as colmeias no nosso apiário, entre outros fins.

debaixo do sol: fim do inverno?

A cerca de um mês do fim oficial do inverno, nestes dias já cheira e bem a primavera.

Aproveito para fazer um breve balanço do estado das coisas nos meus apiários na beira alta e no meu apiário na beira litoral.

Acerca das minhas colmeias na beira alta:

  • em cerca de 600 colmeias a mortalidade até à data pouco ultrapassa os 2,5% (16 colmeias eliminadas até à data de hoje);
  • cerca de 60% destas colmeias apresentavam sinais de mortalidade por efeitos da varroa e, sobretudo, dos vírus por elas veiculados, em especial o vírus das asas deformadas;
  • as restantes 40% apresentavam sinais claros de orfandade, que nesta época do ano redunda inevitavelmente num estado zanganeiro;
  • cerca de 30% a 40% destas 600 colmeias estão a “pedir” espaço. Num primeiro momento irei colocar as primeiras meias-alças com ceras puxadas, por forma a garantir nestas colmeias mais desenvolvidas o espaço necessário para armazenarem os néctares iniciais,  assim como espaço para postura no caso das colónias com rainhas excessivamente prolíferas;
  • continuei a renovar a alimentação com fondant nas colónias que sinalizaram essa necessidade. A mortalidade no final do inverno/início da primavera está muito associada à falta de alimento em quantidade suficiente para suprir o crescimento explosivo de criação e abelhas, típico nesta altura do ano nos meus apiários na beira alta. Esperar o melhor mas estar preparado para o pior foi um lema há muito aprendido e que me tem trazido um bom retorno.

E na beira litoral… onde tenho 10 colmeias e um núcleo

Pouco mais de um mês depois da minha última visita, estive hoje neste pequeno apiário e venho de lá com um sentimento muito positivo, por ter feito tudo o que levava planeado fazer. Simultaneamente confirmei a excelente resposta das minhas abelhinhas ao apoio que lhes tenho dado, ainda que a intervalos relativamente longos. Passo a concretizar:

  • em todas as colmeias não vi sinais absolutamente nenhuns de varroa; as tiras de apivar colocadas à cerca de um mês estão a fazer o seu trabalho;
  • cerca de 70% das colmeias (7 em 10) aproximaram-se do pico máximo da população (40 000-45 000 abelhas), enchendo de abelhas o ninho e sobreninho igual ao ninho, nos dois modelos de colmeia que utilizo: langstroth e lusitana;
  • não vi sinais alguns de enxameação; a resposta positiva ao espaço que antecipadamente lhes dei nos últimos dois meses convencem-me cada vez mais que num fluxo longo e lento, como o que caracteriza o local em que as minhas colmeias estão, a enxameação é perfeitamente controlável (o mesmo não direi nos fluxos muito intensos e por norma curtos, como os da beira alta);
  • com recurso a 4 tabuleiros divisores e a 4 caixas núcleo iniciei hoje a formação de oito novas colónias neste apiário;
  • correndo tudo normalmente vou conseguir entregar em breve os primeiros 8 núcleos que me foram solicitados nos últimos dias por dois apicultores.

Voltando à beira alta: apesar dos dias primaveris não esqueço que o inverno ainda só vai a 2/3 e que a entrada da primavera, dentro de um mês, nem sempre traz dias primaveris. Todas as minhas colmeias que não morreram (98%) podem morrer em grande quantidade nestes dois próximos meses se as reservas forem escassas. Vencida a batalha na fase aguda da varroose, a minha atenção agora, mais do que noutra qualquer época do ano, está focada nos suprimentos (mel em particular) que as minhas colmeias têm ou não têm.

Debaixo do sol: fim do inverno? Quem sabe verdadeiramente?

pistas e limiares relacionados com a enxameação

Estou a aproximar-me a grande velocidade da “época de enxameação”. Nada melhor que ler e ouvir os que entre nós sabem um pouco mais do assunto (entre outros, Randy Oliver) e agir em conformidade com as suas orientações.

O timing da enxameação

A enxameação apresenta picos e ocorre normalmente na primavera, mas não é necessariamente determinada pelo mês do ano. O timing tem menos a ver com o calendário do que tem a ver com a fenologia da flora local, que por sua vez é determinada não só pelo comprimento do dia, mas também pela temperatura e precipitação. A preparação da enxameação é provavelmente decidida e realizada por obreiras que nunca se aventuraram para fora da escuridão e da temperatura regulada do centro do ninho. Que pistas terão elas acerca de como as coisas estão lá fora? Bem, elas estão muito cientes da oferta de néctar fresco e pólen que entra diariamente na colmeia. A sazonalidade do acúmulo de abelhas nas colónias e seu declínio é determinado em grande medida pela entrada de pólen e néctar: quando o pólen e o néctar são abundantes, a população das colónias crescem; quando é escasso, as colónias encolhem.

Fig. 1: A população da colónia (linha negra) segue a disponibilidade de pólen (área amarela)

Aplicação prática: Dependendo da fenologia da flora local e do contingente de abelhas, a “época de enxameação” pode ocorrer antes, no início ou mesmo durante o fluxo principal de néctar. E o chamado tempo “normal” de enxameação pode estar completamente desajustado num ano em particular. Isto significa que não existe uma fórmula única para o calendário de gestão da enxameação .

Olhando para a demografia das colónias verificamos que o timing mais favorável para uma colónia enxamear ocorre quando ela atinge o pico de criação selada e apresenta uma grande proporção de obreiras jovens. Isso ocorre cerca de 6-8 semanas após o início do crescimento linear, no designado turnover da Primavera.

 

A condição do ninho e a quantidade de quadros com áreas disponíveis para a postura da rainha

Winston refere: É notável que a criação de realeiras começa precisamente quando a criação de operárias está no seu auge, e quase não há alvéolos desocupados na área central do ninho … Assim, as colónias sincronizam a produção de realeiras de forma a coincidir com os picos populacionais.

Aplicação prática: certificando-se de que há sempre abundância de alvéolos desocupados no ninho, o apicultor pode induzir a colónia a pensar que deve continuar a crescer, em vez de enxamear. Ao fazê-lo, pode até mesmo incentivar as abelhas a reverter a pulsão de enxameação e levá-las a destruir todas as realeiras existentes.

Normalmente, a enxameação não ocorre a menos que a colmeia esteja cheia de quadros com criação fechada. Lembre-se que as pupas num quadro de criação fechada, quando emergirem como abelhas adultas, cobrem cerca de três quadros. Esta expansão de um para três significa que não só a população de colónias está prestes a explodir, mas também que ela pode recuperar rapidamente a sua população de obreiras depois da enxameação ter ocorrido (1).

Aplicação prática: a remoção criação fechada pode deter a pulsão da enxameação. Os apicultores que pretendem que as suas colónias produzam mel em favo, removem os quadros com criação, e confinam a rainha e todas as abelhas numa caixa cheio de mel, colocando a alça meleira por cima. Apesar de as abelhas e rainha estarem numa caixa completamente bloqueadas pelo mel, essas colónias não enxameiam, devido à inexistência de criação.

Fonte: http://scientificbeekeeping.com/understanding-colony-buildup-and-decline-part-7b/

(1) Caso o apicultor evite que a colónia forme os enxames secundários ou “garfos”. De acordo com as minhas observações e experiência são os enxames secundários os que mais impacto têm na produção de mel, reduzindo a praticamente zero a possibilidade de o apicultor colher mel dessa(s) colónia(s) no ano.

tabuleiros divisores: como os construo

Escrevi aqui a propósito dos tabuleiros divisores simples: “Podemos fazer este tabuleiro a partir de prancheta normal com algumas modificações muito simples, ou fazê-lo de raiz, desde que esteja de acordo com as características referidas.”

Vou descrever com mais algum detalhe como os faço a partir de pranchetas, geralmente as mais usadas.

Acerca das molduras:

  1. Numa carpintaria profissional mando cortar ripas de pinho, com 1 cm de altura, 2,5 cm de largura e perímetro com as dimensões exactas de 3 dos lados da moldura das pranchetas;
  2. No lado 4 (lado menor nos caso das Langstroth) mando cortar 2 ripas com um cumprimento que permita deixar uma abertura/espaço livre com 10 cm no centro para fazer a entrada;
  3. Prego estas ripas sobre a moldura original da prancheta e apenas numa das faces. Para o efeito utilizo um agrafador automático ligado a um compressor de ar. Esta moldura fica, no final, com uma altura de cerca de 1,5cm em relação ao plano formado pelo fundo/platex da prancheta (1 cm das ripas+0,5 cm da moldura original da prancheta);
  4. Na entrada, com cerca de 10 cm e que fica sempre aberta, não estou a utilizar a pequena ripa que se vê na imagem para a fechar.

Acerca do orifício aberto no centro da prancheta:

  1. Faço um corte quadrado com cerca de 10 cm de lado no centro da prancheta;
  2. Corto 2 quadrados de rede mosquiteira de metal, com uma malha não superior a 3mm, com cerca de 12 cm de lado, para cada tabuleiro;
  3. Colo estes 2 quadrados de rede, um em cada face da prancheta, com recurso à cola térmica e respectiva pistola.

Notas:

  1. No início e para tapar o orifício central  utilizei rede em plástico rígido em alguns tabuleiros. Verifiquei que as abelhas conseguiram roe-la quando os tabuleiro ficaram mais tempo nas colmeias;
  2. Com as redes em metal não verifiquei este problema, mas em alguns dos tabuleiros que ficaram mais tempo as abelhas propolisaram parcialmente a rede, diminuindo, julgo eu, a troca de odores entre as duas colónias. Neste caso e se pretendermos juntar as colónias, poderá ser necessário utilizar algumas das outras técnicas conhecidas para o efeito.

contagem de varroas foréticas: instrumentos, procedimentos e cálculos

Estes três vídeos apresentam-nos de forma rápida e esclarecedora 3 técnicas, os instrumentos, os procedimentos e os cálculos para proceder à estimativa da infestação das abelhas adultas pelo varroa.

Os limiares para a decisão de tratar situam-se, no meu caso, entre os 2% e 3% de infestação das abelhas adultas (ver aqui).

Os vídeos estão legendados em francês e qualquer dúvida que tenham acerca do seu conteúdo utilizem por favor os comentários para as colocarem. Procurarei responder rápida e claramente às vossas dúvidas.

evolução anual de parâmetros populacionais em colónias de Apis mellifera L. (Hymenoptera: Apidae) parasitadas por Varroa jacobsoni Oud. (Mesostigmata: Varroidae)

Este estudo despertou-me um grande interesse por várias razões, a começar pelo facto de ter sido realizado em colónias de de abelhas localizadas na Comunidade Valenciana, isto é, em colónias de abelhas do mesmo ecotipo que o nosso: a.m. iberiensis. Somado a este facto, todos os gráficos mereceram e merecem a minha melhor atenção, em particular os respeitantes às colónias não tratadas. Para todos os que desejam conhecer de forma séria o principal inimigo das nossas abelhas, tem neste artigo um excelente auxiliar.

Resumo: Realizou-se um acompanhamento da evolução da população do ácaro Varroa jacobsoni Oud. em colónias de abelhas localizadas na Comunidade Valenciana. Avaliou-se regularmente a mortalidade natural do parasita e a percentagem de infestação em abelha adulta. Para testar o efeito do ácaro sobre as colónias foram determinados valores mensais de cria de abelhas, população de abelhas adultas, peso das colónias e peso médio de abelhas. O pico da população de ácaro verificou-se nos meses da primavera. O ácaro diminuiu o número de cria de abelhas, a população de abelhas e o peso médio de abelhas. As colónias não foram tratadas com acaricidas morreram num espaço de 10 e 12 meses após a infestação inicial.

fonte: http://www.mapama.gob.es/ministerio/pags/biblioteca/plagas/BSVP-18-04-777-788.pdf

Acerca deste estudo quero sublinhar estes aspectos:

  • as colónias para este estudo foram formadas/criadas com uma população baixa de ácaros em junho/julho;
  • os meses de fevereiro e março são os meses em que se assiste ao pico da criação para esta região de acordo com o ecotipo de abelhas, as condições climáticas, e as florações (predominância de laranjeiras) segundo os autores;
  • as colmeias não tratadas não enxameiam e a diminuição da população de abelhas adultas é gradual ao longo de quatro meses, março a junho (ver fig. 6 no artigo), até à sua morte.
  • a infestação pela varroa das abelhas adultas quase que triplica no período de um mês apenas, entre abril e maio (ver fig. 6 no artigo);
  • as colónias não tratadas não aumentaram de peso no período de fluxo de mel;
  • a queda natural/mortalidade de ácaros varroa mais que quadriplica entre o início de fevereiro e meados de março (ver fig. 9 no artigo);
  • quando a infestação das abelhas adultas ultrapassa os 20% as abelhas nascem mais pequenas e pesam menos (ver fig. 11 no artigo);
  • as colónias não tratadas morreram entre 10 a 12 meses após terem sido formadas/criadas.

duração do tratamento com apivar: 6 a 8 semanas ou 10 a 12 semanas?

Para além de muitos outro dados com muito interesse que este estudo, realizado em França e publicado em 2007, nos apresenta, sublinho as conclusões tiradas relativamente à duração do tratamento com Apivar: os autores recomendam deixar as tiras nas colmeias durante 10 a 12 semanas, em particular no tratamento de final de verão.

Resumo: Para verificar a validade das suspeitas sobre uma perda de eficiência do Apivar (substância activa: amitraz), devido ao aparecimento de resistência no Varroa destructor, contámos o número de ácaros varroa caídos em 10 colmeias tratadas durante o outono e início do inverno de 2005 e o número de ácaros residuais nessas colmeias após o tratamento no início de 2006. Estes dados foram comparados com os obtidos em 5 colmeias não tratados no mesmo apiário, localizado em Sophia Antipolis (Alpes Marítimos – França). Todas as colmeias são provenientes do mesmo apiário e foram tratada da mesma maneira com Apivar ao longo dos quatro anos anteriores. No início da experiência existia nos dois grupos [grupo experimental e grupo de controlo] um número semelhante de ácaros (média de 1 104 varroas por colónia); no grupo tratado/experimental, assistiu-se a uma elevada mortalidade de ácaros, principalmente no início do tratamento, enquanto no grupo não tratado/controlo a mortalidade apenas diminuiu ligeiramente. Após o tratamento, as colónias de controlo/não tratadas apresentavam em média 622 ácaros contra 2.8 para as colónias tratadas. Comparando estes valores da carga parasitária, deduzimos que o Apivar apresentou uma eficiência equivalente a 99,5% nas colónias tratadas, portanto a eventual resistência do Varroa destructor aos tratamentos com Apivar não é confirmada pelos resultados, de acordo com o protocolo seguido. A correlação entre o número de parasitas recolhidos diariamente na grelha inferior do estrado e o nível de parasitação na colmeia é confirmada neste estudo e justifica a contagem de varroas como um método de alerta ao apicultor e como instrumento de decisão sobre a aplicação do tratamento. […]

A duração do tratamento

Vários estudos têm demonstrado a capacidade do varroa re-infestar as colmeias com frequência variável, dependendo da época: os dados mais extremos publicados referem 2 varroas por semana na primavera e 70 no verão. Se a estes números de re-infestação se adicionarem os varroas que se reproduzem nas colónias ainda com criação, eles podem a pôr em causa a sobrevivência da mesma no inverno. Esta é a razão pela qual recomendamos manter as tiras nas colmeias 10 a 12 semanas, em vez das 6 recomendadas. No nosso ensaio verificámos a destruição de 2 a 42 ácaros por colónia durante o intervalo que vai das 6 semanas às 12 semanas. É verdade que, apesar das precauções tomadas, a re-infestação das colmeias tratadas é mais provável se existirem colmeias não tratadas na vizinhança. [p. 288]

fonte: http://www.revmedvet.com/2007/RMV158_283_290.pdf

Em vários ensaios franceses realizados em 2014 e 2015 que tenho consultado constato que as tiras de Apivar são mantidas pelo menos durante 70 dias; para o Apitraz também é recomendado a sua permanência durante 10 a 12 semanas (Federico Casillas, palestra proferida no III dia da APICAVE, 28 Jan., 2017). Em vários fóruns de apicultura, franceses e espanhóis, também os apicultores referem que estão a deixar os tratamentos destas marcas 10 a 12 semanas.

nem todas as varroas são iguais: implicações para uma nova família de tratamentos

Como muitos de nós, estou informado que em vários países da América do Sul, entre os quais a Argentina e o Chile, os apicultores locais estão a utilizar um novo veículo para ministrar o ácido oxálico. Refiro-me às tiras de cartão com uma mistura de ácido oxálico e glicerina. Na Argentina já surgiu inclusivamente o Aluen Cap, produto actualmente homologado naquele país (ver mais aqui e aqui). Contudo, como habitualmente os apicultores fazem réplicas caseiras procurando fazer igual e mais barato. Nos EUA, Randy Oliver fez e está a fazer ensaios com uma formulação e veículo algo diferentes, as “blue shop towels”, para libertar de forma lenta o ácido oxálico, o que e está a suscitar um enorme interesse e a criar uma grande expectativa na comunidade apícola de língua inglesa (EUA, Canadá e Nova Zelândia).

Por cá, falando sobre esta nova família de tratamentos com alguns apicultores experimentados e credíveis, que já realizaram alguns ensaios com tiras caseiras de oxálico e glicerina, relataram-me que os resultados não foram muito animadores. O efeito acaricida ficou aquém do esperado, tendo em conta os níveis de eficácia relatados pelos nossos companheiros sul americanos. A razão que encontram é que o sul da américa está colonizado por uma estirpe de varroa destructor (tipo japonês/tailandês) menos destrutiva/virulenta que a presente no nosso continente e no nosso país (tipo coreano). Também em Espanha os resultados são por enquanto pouco animadores, segundo me referiram.

Fig. 1: Colmeia com tiras de cartão embebidas na mistura de ácido oxálico com glicerina

Para os que estão a testar ou pensar testar esta nova formulação e este novo veículo recomendo as seguintes precauções:

  • muito cuidado ao manipularem o ácido oxálico;
  • acompanhem de perto as colónias tratadas com esta formulação e façam avaliações da taxa de infestação antes, durante e após os tratamentos e tirem as vossas conclusões com base nos números e não nas aparências;
  • não se esqueçam que apesar do ácido oxálico estar homologado, este veículo, as tiras de cartão com uma mistura de ácido oxálico e glicerina, não está.

o timing do tratamento contra a varroa: juntando as peças

Há medida que vou lendo, ouvindo, cruzando os dados com a minha experiência, fazendo cálculos e reflectindo, procuro encaixar as peças do puzzle para definir os momentos mais ajustados (timing) para colocar os tratamentos/acaricidas, de modo a que estes não sejam colocados demasiado cedo ou tarde de mais nas colmeias. Trato de acordo com o calendário, logo a definição do momento certo é crítico para obter os melhores resultados. Neste post (que em grande medida expressa as ideias por mim apresentadas no passado sábado, no III dia da APICAVE, onde fui escutado por mais de uma centena de apicultores atentos e  interessados — renovo os meus agradecimentos a todos: apicultores, direcção da APICAVE, colegas de painel, moderadores, pelo dia muito gratificante que passei na sua companhia) importa-me reflectir e concluir qual o timing mais adequado para iniciar os tratamentos, em especial o tratamento de final de verão, em função do cálculo da taxa de infestação. Se quisermos elaborar uma fórmula simples teremos: timing= função (população de ácaros/população de abelhas).

Fig. 1: Momento da minha apresentação do tema “Controlo da varoose: estratégias para o sucesso”, no III dia da APICAVE, 18 janeiro, 2017.

A eficácia dos tratamentos à entrada do outono: a minha experiência  nos anos de 2014, 2015 e 2016

As observações nos meus apiários (dados dos anos 2014, 2015 e 2016) mostraram-me que, em alguns apiários na beira alta, em geral os situados a cotas mais baixas,  o tratamento iniciado entre a segunda semana de setembro e a última semana de setembro não é eficaz em 10% a 20% das colmeias, com algumas variações entre os apiários.

Estes valores de ineficácia são relativamente transversais. Os dados deste ensaio francês em torno das perdas invernais de 2014/2015 apontam na mesma direcção.

Nestas colmeias onde o primeiro tratamento de outono não foi suficientemente eficaz (10% a 20%), re-tratadas com outro tratamento sobreviveram cerca de um terço no inverno de 2014/2015; no inverno de 2015/2016 sobreviveram mais de dois terços re-tratadas com o mesmo tratamento. A melhoria na taxa de sobrevivência, de um ano para o outro, atribuo-a ao facto de ter dispendido um maior esforço na sua despistagem, ter apoiado mais vezes estas colónias com alimentação artificial, factores estes associados a um inverno menos rigoroso em 2015/2016. No inverno de 2016/2017, que ainda decorre, a mortalidade invernal ultrapassa até agora pouco mais de 1%. Estes dados de permitem-me desvalorizar, até agora, a hipótese dos resultados se deverem à existência de uma estirpe de ácaros resistentes aos princípios activos utilizados (tenho utilizado, predominantemente, o amitraz libertado das tiras de Apivar).

Junto outros dados: em 2015 realizei uma avaliação da taxa de infestação pré e pós-tratamento no tratamento de final de inverno/início da primavera. Coloquei as tiras de acaricida na primeira semana de Fevereiro e retirei-as na primeira semana de abril.  Os números que encontrei na avaliação pré-tratamento variaram entre 1,8% e 2,6%, de acordo com os apiários monitorizados. A avaliação pós-tratamento nos mesmos apiários revelou uma infestação entre os 0,2% e os 0,4%. A monitorização foi feita com a recolha de abelhas adultas e posterior lavagem das mesmas em água com detergente para as varroas se soltarem das abelhas, filtradas através de um coador de mel com duas malhas (técnica com boa fiabilidade).

A dinâmica populacional das colónias de abelhas entre abril e setembro.

A evolução do número de abelhas nas colónia está dependente da relação entre o número de abelhas que nascem e o número de abelhas que morrem num determinado período de tempo. Não nos podemos esquecer que esta relação está fortemente dependente dos fluxos de néctar e pólen que entram na colmeia. Estes por sua vez estão dependentes da flora nectarífera e/ou polinífera do local assim como das condições ambientais no período de tempo considerado. Esta relação varia de local para local e mesmo de ano para ano.

De acordo com as minhas observações, aqui apresentada com maior detalhe, as colónias dos meus apiários, em particular as situadas em cotas mais baixas (entre 600 e 700 metros de altitude), apresentam em geral o ninho cheio de abelhas e muitas delas já têm as abelhas a subirem generosamente à primeira meia-alça, no final de abril. Estou convicto que a população de abelhas adultas nesta altura do ano rondará os 23 000 indivíduos, pelo menos. Assim em baixo, fica a minha proposta para o crescimento e declínio da população de abelhas entre finais de abril e finais de setembro:

  • final de abril= 23 000 abelhas adultas;
  • final de maio= 45 000 abelhas adultas;
  • final de junho=39 000 abelhas adultas;
  • final de julho=33 000 abelhas adultas;
  • final de agosto=27 000 abelhas adultas;
  • final de setembro =21 000 abelhas adultas.

Estes números são em boa medida confirmados pelas minhas observações, em particular as realizadas no final de julho e final de setembro.

Retomo esta ideia: se quisermos elaborar uma fórmula simples para definirmos o melhor momento para efectuar os tratamentos temos: timing= função (população de ácaros/população de abelhas). Neste momento falta-nos estimar o número aproximado de ácaros presentes nas colónias no período de tempo em causa.

A dinâmica populacional dos ácaros varroa entre abril e setembro

Em 2015, a avaliação pós-tratamento revelou uma infestação entre os 0,2% e os 0,4%. Nesta altura do ano as minhas colmeias apresentavam muita criação fechada/selada, como habitualmente. Há um elevado consenso na comunidade científica que na presença de criação fechada/selada 80-90% das varroas estão protegidas pelos opérculos. O método que eu utilizei de monitorização de varroas em abelhas adultas permite-me ficar com uma boa ideia dos números da infestação de apenas 15% da população total. Fazendo os cálculos, com base numa taxa de infestação de 0,2%, obtenho 46 varroas foréticas (15% em 23 000 abelhas), logo 100% da população de varroas serão 307 varroas.

Existe um bom consenso na comunidade científica que a população de ácaros varroa duplica o seu número, em colónias com criação, por cada 30 dias passados. Aceitando como fidedigno que a população total de varroas no final de abril é de 307 varroas, temos estes números nos meses seguintes:

  • final de maio= 614 varroas população total;
  • final de junho= 1228 varroas população total;
  • final de julho= 2456 varroas população total;
  • final de agosto= 4912 varroas população total;
  • final de setembro = 9824 varroas população total.

Juntando os dados e concluindo

Estamos, nesta altura, em condições de calcular a taxa de infestação nas abelhas adultas pelo ácaro varroa nas colónias que apresentem uma dinâmica populacional aproximada da que apresentei.

  • final de abril=307 varroas para 23 000 abelhas; infestação de 0,2%;
  • final de maio= 614 varroas para 45 000 abelhas; infestação de 0,2%;
  • final de junho= 1228 varroas para 39 000 abelhas; infestação de 0,47%
  • final de julho= 2456 varroas para 33 000 abelhas; infestação de 1,12%
  • final de agosto= 4912 varroas para 27 000 abelhas; infestação de 2,72%
  • final de setembro = 9824 varroas para 21 000 abelhas;infestação de 7%.

Neste artigo científico os autores concluem dizendo que uma taxa de infestação pelo ácaro da varroa superior a 3% aumenta em cinco vezes a probabilidade do tratamento ser ineficaz, portanto o timing com que o mesmo é efectuado é crítico/decisivo quanto à sua eficácia.

Concluo que o momento/o timing ajustado para iniciar o tratamento contra a varroa, nas minhas colónias na beira alta, especialmente as situadas a cotas mais baixa, e com um acaricida lento tem uma boa janela de oportunidade ao longo do mês de agosto. Mais tarde poderá ser tarde demais. Não só pelos ácaros mas também pelos vírus por eles veiculados. Estas abelhas que irão nascer devem ser o mais saudáveis possível para viverem os 100 a 120 dias até à primavera seguinte.

fatores de risco associados às falhas dos tratamentos para o controlo da varroa em colónias de abelhas sem período de paragem de postura

Li este estudo, levado a cabo na Argentina, pela primeira vez à cerca de duas semanas e é, na minha opinião, muitíssimo interessante, em especial pela correlação que estabelece entre o timing do tratamento e a sua maior ou menor eficácia, ideia que tenho sublinhado em vários posts (por exemplo aqui e aqui).

Resumo- O tratamento contra o Varroa destructor tem-se tornado uma ferramenta básica nas práticas apícolas, principalmente durante o outono. A eficácia do tratamento deve ser melhorada através da identificação de variáveis ​​que afectem o resultado final. O objetivo deste estudo foi identificar os fatores de risco associados ao resultado do tratamento obtido durante o controle de outono do Varroa destructor. A infestação de ácaros após o tratamento foi avaliada em 62 apiários e os dados referentes às práticas de maneio foram coletados por meio de um questionário. […] As colónias com níveis elevados de ácaros antes do tratamento (P = 0,002) e pertencentes a apicultores que não substituíam frequentemente rainhas (P = 0,001) estavam associadas a um maior risco de falha do tratamento. Outras práticas apícolas melhoraram indiretamente a eficácia do tratamento. Uma estratégia integrada para controlar os ácaros que inclui tratamentos sintéticos/químicos e o maneio adequado por parte dos apicultores é necessária para manter as populações de ácaros baixa durante o inverno.

fonte: http://link.springer.com/article/10.1007/s13592-015-0347-0

Deste artigo científico, que aconselho a fazerem o download, retiro os seguintes dados, que muito me interessam para um post a surgir em breve:

  • A prevalência de colónias com mais de 1% de infestação por V. destructor após um tratamento com um acaricida no outono foi estimada a partir do exame de diagnóstico de 377 colónias de abelhas. As colónias com infestação por Varroa superior a 1% após o tratamento de controlo foram consideradas como colónias onde o tratamento falhou. Este limiar foi estabelecido, supondo que as colónias que passam o inverno com postura e criação disponível devem manter os níveis de Varroa tão baixos quanto possível, uma vez que 85-90% das Varroa estão nos alvéolos fechados, durante um ciclo de criação da varroa [de 12 dias na criação de obreira: ver aqui e aqui].
  • Um total de 76 (20,2%) das 377 colónias apresentou infestação superior a 1% (1 ácaro por 100 abelhas) após tratamento contra V. destructor e foram consideradas como colónias onde o tratamento falhou. A média de V. destructor (por colónia) antes do tratamento foi de 0,05 ± 0,06 ácaros por abelha adulta (5 ácaros por 100 abelhas).
  • O acaricida mais utilizado pelos apicultores durante o outono de 2013 foi a flumetrina (43 dos 62 apicultores), seguido de amitraz (10 apicultores), ácido oxálico (5 apicultores) e coumaphos (4 apicultores). A maioria dos apicultores (90,5%) aplicou um acaricida comercial: 69,8% utilizaram Flumevar® (tiras com flumetrina, 0,34 g/100 g de produto), 14,3% Amivar® (Amitraz, 4,13 g/100 g de produto), 3,2% Cumavar® (tiras com cumafos, 8,5 g/100 g de produto) e 3,2% de Oxavar® (pó de ácido oxálico 97 g/ 100 g de produto). As formulações caseiras foram raras (9,5%).
  • Conforme evidenciado pelos nossos resultados, as colónias onde o tratamento falhou apresentaram 4,9 vezes mais risco desta ocorrência quando a percentagem de infestação de Varroa antes do tratamento era superior a 3%.