o crash do sector apícola neo-zelandês

Na Nova Zelândia, a terra do mel mais caro do mundo, o mel de manuka, o sector apícola está a atravessar uma dura crise. A história conta-se em poucos parágrafos.

Nos primeiros anos de 2000, um pouco antes do mel de manuka começar a subir de preço, existiam na Nova Zelândia cerca de 200.000 colmeias. Na altura o sector apícola estava em declínio, com baixas margens de lucro, e muitos apicultores estavam velhos e a aposentar-se. Eram poucos os novos apicultores a entrarem no sector. A maioria das diferentes variedades de mel tinha o mesmo preço, de modo que não havia estímulo para distinguir os diferentes tipos de mel e não havia regras para isso.

Então o mel de manuka ganhou reputação e tornou-se cada vez mais valioso, muito valioso mesmo. Os embaladores de mel que vendiam o mel de manuka por muito dinheiro descobriram que se fosse diluído 50/50 com outro mel, poderiam continuar a chamá-lo de manuka, quem saberia da fraude??, e teriam 2 frascos com preço alto em vez de um.

Mel de Manuka: preços médios de 300 € o kg

A competição entre os embaladores para comprar mel não manuka dos tipos adequados para fazer a mistura inflaccionou o preço de todo o mel na Nova Zelândia. Os apicultores aumentaram os seus efectivos para produzir mais e mais, ganhando muito dinheiro, independentemente do tipo de mel que estavam produzindo. Houve apicultores que se viram milionários da noite para o dia. Este dinheiro todo que o sector estava a gerar atraiu novos atores, e o número de colmeias subiu para cerca de um milhão.

Os problemas começaram a surgir quando os clientes estrangeiros começaram a perceber que nem todo o mel de manuka pelo qual estavam pagando muito dólares/euros era um artigo genuíno. Para proteger a reputação e a base de clientes, o governo interveio e obrigou a testes para determinar a pureza do mel de manuka. Todo o mel de manuka exportado passou a ser testado em laboratório. Isso reduziu enormemente a procura de mel não manuka do dia para a noite e, com todas as colmeias extras, a Nova Zelândia confrontou-se com um excesso de produção e colmeias.

Como resultado, a maioria dos apicultores está sendo forçada a vender sua colheita não manuka das últimas temporadas por preços abaixo do custo de produção, ou até não a consegue vender.

Até os produtores de manuka atravessam dificuldades, porque a única opção agora é tentar produzir manuka, ou seja, qualquer lugar com um pedaço de manuka está sendo bombardeado por um grande número de colmeias pertencentes a apicultores desesperados e neste cenário a produção por colmeia está muito abaixo do que era há poucos anos atrás.

Nota: post inspirado num post publicado no beesource por OT, um apicultor veterano neo-zelandês.

autópsia de uma colmeia morta no inverno

Neste blog http://blog.exometeofraiture.net/blog/2018/12/09/autopsie-ruche-morte-hivernage/ Fred l’apiculteur faz um conjunto de observações e apresenta um grupo de fotos que me parecem muito didácticos, em especial para a época invernal em que estamos a entrar. A todos, ou quase todos nós nos irão morrer colmeias neste período. Em muitos casos o enigma da causa da morte poderá ser resolvido com uma observação simples mas competente e qualificada dos quadros dos ninhos dessas colmeias. A identificação correcta da causa de mortalidade das colónias durante o inverno é uma boa parte do caminho para evitar que o mesmo volte a acontecer no ano seguinte. E, para mim, o mais importante objectivo que me coloco como apicultor é manter as minhas colónias vivas durante o inverno.

O inverno é um período sombrio para o apicultor; a maioria das perdas de colónias ocorre durante o inverno.

O cenário é sempre o mesmo: colmeias dinâmicas e populosas durante o verão, reservas suficientes e… em novembro / dezembro, é o desastre, essas mesmas colmeias ficam vazias de abelhas. Às vezes, encontramos uma pequena bola de abelhas com a rainha, e muitas vezes permanece alguma criação. Também existem quadros bem fornecidos de mel, mas em muitos casos, o apicultor não consegue fornecer dados sobre a eficácia do tratamento contra Varroa.

Nesse tipo de situação, todos têm a sua teoria para explicar o desastre: pesticidas aplicados no final da temporada, falta de qualidade das rainhas, alimento artificial de inverno de baixa qualidade, ambiente degradado, envenenamento, ondas electromagnéticas GSM,”teríamos que alimentar com mel “,” é uma pulverização do agricultor local “, … mas nunca a varroa é mencionado como causa plausível; “Tenho muito poucas varroas nas colmeias, não as vi sobre as abelhas! »….

Afinal o que matou realmente a colónia? Quais os elementos objetivos que ajudam a esclarecer qual a causa plausível? O que o apicultor pode fazer para analisar objetivamente o problema e mudar o que for necessário para parar de ter essas mortalidades na temporada seguinte?

No início do inverno de 2018 e 2019 Renaud Lavend’homme, palestrante apícola conhecido pelo seu envolvimento no projeto Arista Beeresearch, ofereceu-se para fazer a “autópsia” de uma colónia vítima desta doença de inverno. Com o equipamento necessário para realizar essa operação, ele oferece-nos uma série de documentos, fotos e vídeos, a fim de solucionar o enigma.

Uma descrição do estado geral quadros da colónia morta no início do inverno: criação operculada esparsa, bastante mel e pólen, poucas abelhas mortas encontradas na colmeia. A declaração típica do dono da colmeia:
Intrigado com a total ausência de abelhas na entrada de uma das minhas colmeias, eu olhei para dentro e… o ninho estava vazio. Ainda cheio de reservas e muito ativo durante a minha última visita do outono. Estou extremamente chateado e triste. Alguém tem uma explicação? Obrigado

As imagens em baixo foram tiradas com um simples telemóvel. Vemos imediatamente pequenos pontos brancos nas paredes da grande maioria dos alvéolos, o olho inexperiente concluirá erradamente que são cristais de açúcar. Na verdade, são cristais de guanina**, que nada mais são do que excrementos do ácaro Varroa !!!


Então, a criação restante é desoperculada para confirmar as nossas primeiras suspeitas. O suspense é de curta duração! Neste caso, Renaud encontrou apenas 3 pupas não infestadas em cerca de 30 alvéolos com criação operculada, ou seja, cerca de 90% da criação infestada …

A língua da pupa estirada é um dos sintomas de uma mortalidade por infestação maciça de Varroa. E a presença de cristais de guanina indica claramente que há “companhia” no alvéolo …”


Nota: Também este apicultor chegou à conclusão que o mês de agosto é crítico para o controlo da varroose com tratamentos de longo prazo, 10 a 12 semanas, como resposta às reinfestações (ver caixa de comentários). Conclusões que estão alinhadas com as que tirei de há uns anos para cá e que vou relembrando por aqui com alguma regularidade.

** Guanina: “O que diabos é a guanina?” Muito simplesmente, a guanina é uma das quatro bases que contêm nitrogénio encontradas no DNA. Provavelmente já viu sequências de letras representando a estrutura do DNA que se parecem com isto: ATGGATGTCGACGGT e assim por diante. As quatro letras representam as quatro bases: adenina, citosina, guanina e timina. Acontece que o excremento dos ácaros Varroa contém cerca de 95% de guanina. Guanina tão pura que aparece como um globo branco brilhante – um depósito que os ácaros deixam no interior dos alvéolos. Afinal, não há “WC” para serem usadas enquanto estão fechados sob uma tampa, espremidos entre uma pupa de abelha e uma parede de cera, de modo que os deixam onde estão.

as abelhas produzem… solo e água

Ainda na senda da minha intervenção na Mesa Redonda — A PAC pós 2020 — Perspectivas para o sector apícola, no XX Fórum Nacional de Apicultura, e a propósito da questão colocada, pelo jornalista do Observador, Paulo Ferreira, acerca das perspectivas que tenho da apicultura como uma actividade reconhecida como prestadora de serviços do ecossistema referi que as abelhas produzem… solo e água.

Praticamente todas as plantas que se reproduzem por sementes no mundo necessitam ser polinizadas. Entre estas estão muitas das plantas silvestres que crescem um pouco por todo o lado, nomeadamente nas encostas das nossas serras, e que sem a polinização levada a cabo pelos insectos, não se renovariam ou expandiriam.

As relações de interdependência entre o solo, a água e as plantas são mediadas pelos polinizadores. Estas relações podem descrever-se de forma sumária: as plantas com flores ajudam a purificar a água e impedir a erosão através de raízes que mantêm o solo no lugar e folhagens que amortecem o impacto da chuva quando ela cai na terra. O ciclo da água depende das plantas para devolver a umidade à atmosfera, e as plantas dependem de polinizadores para ajudá-las a reproduzirem-se.

Faixas de plantas nativas incorporadas nas pradarias

Um caso exemplar: As faixas de plantas na pradaria são uma prática de conservação que protege o solo e a água, enquanto fornece habitat para a vida selvagem. A equipe do STRIPS […] realiza pesquisas sobre faixas da pradaria há mais de dez anos e mostramos que a integração de pequenas faixas de pradaria em locais estratégicos nos campos de milho e soja — na forma de tiras de amortecimento de contorno em campo e tiras de filtragem nas bordas de campo — podem gerar grandes benefícios para o solo, a água e a biodiversidade. As faixas de pradaria fornecem esses benefícios em maior grau do que outros tipos de vegetação perene, devido à diversidade de espécies de plantas nativas incorporadas, seus sistemas radiculares profundos e multicamadas e seus caules rígidos que suportam chuvas fortes. A pesquisa STRIPS também mostra que as faixas de pradaria são uma das práticas de conservação agrícola mais acessíveis e ambientalmente benéficas disponíveis. Fonte: https://www.nrem.iastate.edu/research/STRIPS/content/what-are-prairie-strips

as abelhas produzem… carne de vaca

No seguimento do XX Fórum Nacional de Apicultura, que decorreu este ano na cidade de Viseu, onde tive o prazer e honra de participar na Mesa Redonda — A PAC pós 2020 — Perspectivas para o sector apícola, gostaria de aproveitar para aprofundar um pouco mais alguns aspectos que os limites de tempo, próprios destes eventos, não permitem.

Questionado, pelo jornalista do Observador, Paulo Ferreira, acerca das perspectivas que tenho da apicultura como uma actividade reconhecida como prestadora de serviços do ecossistema comecei por referir que as abelhas produzem… carne de vaca. Um facto verdadeiro ainda que estranho, mas um facto que se deve entranhar na consciência de todos, a começar nos apicultores, no sentido de reivindicar com argumentos fortes e racionais os apoios directos por colmeia, apoios justos e necessários, como defendeu o João Casaca da FNAP nessa mesma mesa redonda.

À pergunta qual é a colheita mais importante que necessita de ser polinizada por insectos? a melhor respostas não é a colheita de frutos ou vegetais de nosso consumo directo, mas sim a de alfafa. Sim, alfafa, não porque consumimos grandes quantidades dos seus brotos, mas porque o gado precisa desse alimento. A alfafa é designada por alguns como a rainha das forrageiras. Assim, sem alfafa a produção de carne e leite ficaria gravemente comprometida.

Flor de alfafa

Um caso exemplar: na Nova Zelândia, quando por lá se começou a cultivar alfafa para alimentar o gado introduzido no território, verificou-se que os poucos polinizadores nativos não eram atraídos por aquelas novas flores. Ano após ano, o feno crescia exuberantemente mas sem sementes. Os produtores de alfafa tiveram que recorrer à importação de algumas espécies de abelhas da Europa para reduzir as despesas na compra de sementes todos os anos. Assim, estas pequenas trabalhadoras salvaram o dia naquele país.


o valor económico e ambiental das abelhas para a comunidade

As atividades de polinização das abelhas valem 143 vezes mais do que o valor do mel e da cera que as abelha produzem (18,9 mil milhões vs. 140 milhões). Frutas e nozes, sementes e fibras, produtos derivados de sementes que requerem polinização por abelhas e uma parte das mercadorias indiretamente dependentes da polinização por abelhas estão listados com seus valores no boletim do USDA” fonte: Bulletin of the Entomological Society of America, Volume 29, Issue 4, Winter 1983, Pages 50–51 

Sem os polinizadores, mais de 39 culturas diferentes sofreriam um declínio na produção. Sem eles e para atender à procura, a agricultura moderna teria de utilizar práticas mais intensivas e ambientalemente menos sustentáveis. Provavelmente, mais terras seriam necessárias para atender aos níveis atuais de procura. Cultivar essas maiores massas terrestres também resultaria em mais emissões com o aumento da operação com tratores e outras máquinas. E, ao expandir a pegada física das fazendas, o habitat selvagem corre o risco de ser deslocado ou interrompido/fragmentado. Estes pequenos insetos desempenham um grande papel na ajuda ao crescimento da agricultura moderna , utilizando menos recursos naturais.” fonte: https://modernag.org/biodiversity/beeconomy-economic-value-pollination/

Os produtos de origem animal […] carne bovina, suína, aves, cordeiros e laticínios são derivados de uma maneira ou de outra de leguminosas polinizadas por insetos, como alfafa, trevo, lespedeza e trevo.[…] as leguminosas polinizadas por insetos têm a capacidade de coletar o nitrogênio da atmosfera, armazená-lo nas raízes e, finalmente, contribui para enriquecer o solo de outras plantas. Sem esse efeito benéfico, os solos não fertilizados por estes minerais processados rapidamente se esgotariam e se tornariam economicamente improdutivos. […] Gates (1917) alertou o agricultor de que “ele pode fertilizar e cultivar o solo, podar, afinar e pulverizar as árvores; numa palavra, ele pode fazer todas as coisas que a prática moderna defende, mas sem seus agentes polinizadores, entre as quais se destacam as abelhas melíferas, para transferir o pólen dos estames para o pistilo das flores, sua colheita pode falhar. […] O valor da polinização na geração seguinte de culturas também é frequentemente ignorado. O valor da semente híbrida não é refletido até a geração subsequente. O vigor ao brotar e emergir do solo geralmente é um fator vital na sobrevivência precoce da planta. Outras respostas ao vigor híbrido incluem rapidez no desenvolvimento, saúde das plantas e maior produção de frutas ou sementes. […] O valor da polinização por insectos, o único tipo de polinização sobre o qual o homem pode exercer muita influência, não se limita às culturas cultivadas. Bohart (1952) apontou que o efeito mais drástico decorrente da ausência de insectos polinizadores estaria em áreas não cultivadas, onde, como resultado, a maioria das plantas silvestres que fazem a retenção e enriquecimento de solo desapareceria. […] As culturas dependentes da polinização por insetos foram avaliadas por Levin (1967) em US $ mil milhões, com uma produção adicional beneficiada pela polinização por abelhas avaliada em aproximadamente US $ 6 mil milhões. O mel e a cera de abelha produzidos foram avaliados em cerca de US $ 45 milhões. Por outras palavras, as colónias de abelhas valem aproximadamente 100 vezes mais para a comunidade do que para o apicultor.” fonte: https://www.ars.usda.gov/ARSUserFiles/20220500/OnlinePollinationHandbook.pdf

um grande debate em conservação: por que vale a pena proteger a natureza?

“Uma pergunta muito básica que ecologistas e conservacionistas ponderam há mais de um século: por que devemos proteger a natureza?

Alguns conservacionistas sustentam há muito tempo que devemos proteger a natureza porque ela é valiosa em si mesma. Num influente ensaio de 1985 intitulado “O que é Biologia da Conservação?” o biólogo Michael Soulé argumentou que a biodiversidade “tem valor intrínseco, independentemente do seu valor instrumental …”. Ou seja, devemos proteger ecossistemas ameaçados, porque é a coisa ética a fazer.

Mais recentemente, alguns ecologistas criticaram essa abordagem. Veja, por exemplo, o ensaio de 2012 de Peter Kareiva e Michelle Marvier, que argumenta que apenas argumentos éticos não foram capazes de conter a crescente onda de desmatamento e extinções. Se os conservacionistas querem progredir melhor, precisam apelar com mais força ao interesse próprio da humanidade. Noutras palavras, devemos nos concentrar mais na conservação da natureza, porque é útil para nós [o valor instrumental].

Uma possibilidade é colocar o foco nos “serviços ecossistémicos” que a natureza fornece – o facto de que as abelhas polinizam nossas colheitas, ou as áreas húmidas ajudam a conter inundações, ou os recifes de coral ajudam a sustentar a pesca. Colocando um valor em dólares [ou euros] nesses serviços, podemos defender com mais força a conservação.

Então, como se encaixam as abelhas neste debate? Por um lado, não há dúvida de que estes argumentos económicos para a conservação são poderosos. O presidente Obama interessou-se pessoalmente pela situação das abelhas – e, no seu plano de ajuda aos polinizadores, destacou o facto de que eles fornecem bilhões de dólares em serviços agrícolas. Sem dúvida, isso foi uma grande motivação.” fonte: https://www.vox.com/2015/7/6/8900605/bees-pollination-ecosystem-services

Ligando as pontas de um fluxo: a polinização é um dos dezassete serviços vitais que o ecossistema global presta à comunidade humana. Estar num ranking tão restrito é muito elucidativo da importância da mesma para todos nós. Está bem estabelecido também que as abelhas melíferas domesticadas têm um papel de destaque neste serviço. O problema é que as abelhas melíferas estão muito ameaçadas, e são os apicultores que vão mitigando e controlando, como podem, os perigos que as cercam. E cada vez mais este desafio de manter as abelhas vivas, saudáveis e produtivas exige dos apicultores maior conhecimento, maior comprometimento, maiores gastos. Sendo este o actual e difícil cenário, a UE deve colocar as necessárias ferramentas económico-financeiras se deseja séria e verdadeiramente sustentar a apicultura, para poder preservar as abelhas, e assim assegurar a polinização, um serviço ecossistémico de vital importância para toda a comunidade.

as ameaças aos serviços de polinização, os números, a pergunta, a resposta

“Os insectos polinizadores de culturas e plantas selvagens estão ameaçados globalmente e seu declínio ou perda pode ter profundas consequências económicas e ambientais. Aqui, argumentamos que várias pressões antropogénicas – incluindo a intensificação do uso da terra, as mudanças climáticas e a disseminação de espécies e doenças exóticas – são as principais responsáveis ​​pelo declínio dos insectos-polinizadores. Mostramos que uma interação complexa entre pressões (por exemplo, falta de fontes de alimentos, doenças e pesticidas) e processos biológicos (por exemplo, dispersão e interações entre espécies) em várias escalas (dos genes aos ecossistemas) está na origem do declínio geral das populações de insectos polinizadores. Serão necessárias pesquisas interdisciplinares sobre a natureza e os impactos dessas interações para preservar a segurança alimentar humana e a função do ecossistema. Destacamos áreas-chave que requerem foco na pesquisa e delineamos algumas etapas práticas para aliviar as pressões sobre os polinizadores e os serviços de polinização que eles prestam às plantas silvestres e agrícolas.” fonte: https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1890/120126

A UE atribuiu ao sector apícola europeu, e para o triénio 2020-2022, um total de 120 milhões de euros, ou seja 40 milhões de euros por ano a distribuir pelos 28 estados-membros. Por outro lado, o relatório adotado pela Comissão da Agricultura da UE estima que os polinizadores, onde se destacam as abelhas melíferas, produzem uma mais valia económica de 14 mil e 200 milhões de euros por ano. Cálculos simples permitem concluir que as abelhas e outros polinizadores produzem mais-valias 355 vezes superiores ao valor do apoio que recebem.

Terei alguma dúvida que este apoio de 40 milhões/ano mais não é que uma encenação de apoio da UE, para ficar bem na fotografia? Não, não tenho!

vespa velutina: a dinâmica de pressão predatória

Continuando a ler, a pesquisar, a reflectir (pensar duas vezes) sobre este magnífico e terrível inimigo da biodiversidade dos insectos em geral e das abelhas melíferas em particular, proponho a leitura deste trabalho de Karine Monceau e colegas, publicado em 2013, que apresenta alguns aspectos que devemos considerar para mais e melhor compreendermos esta praga.

“Aqui, propomos analisar com mais detalhes a dinâmica da pressão de predação do VPA (vespão de patas amarelas) na área invadida em França. Este estudo foi realizado em colmeias durante o período de predação nos estágios iniciais da invasão (2008) e foi projetado para identificar períodos-chave específicos durante os quais a predação em abelhas pode ser limitada. Um procedimento de captura foi usado para monitorar a dinâmica da pressão de predação. A predação em dois apiários foi comparada, um numa área urbana e a outra numa área suburbana à beira de uma floresta e de terrenos agrícolas. Nosso primeiro objetivo foi avaliar a eficiência da técnica de captura com recurso a armadilhas iscadas [ver modelo de armadilha utilizado, no artigo linkado em baixo]. Para validar esse método, o número de VPAs perseguidores em cada apiário foi anotado e comparado com o número dos capturados. Vários estudos em Vespidae documentaram a relação entre condições climáticas (temperatura, humidade, precipitação, insolação solar etc.) e atividades de forrageamento (Ishay 2004; da Rocha e Giannotti 2007; Kasper et al. 2008; de Castro et al. 2011); o impacto dos parâmetros abióticos na predação efectuada pelos VPAs foi considerado. Finalmente, a variação na massa corporal dos VPAs capturados também foi analisada para entender a relação entre pressão de predação e dinâmica populacional. […]

“Nos dois ambientes diferentes, a predação durou mais de 5 meses. No geral, a dinâmica da pressão de predação do VPA pode ser aproximadamente dividida em três fases. Na primeira fase, muito poucos VPAs foram capturados desde o início da temporada até meados de junho / início de julho. Posteriormente surge um grande aumento na predação nas colónias de abelhas do início de agosto ao início de novembro, quando a predação diminuiu drasticamente até dezembro [ver dados muito elucidativos em quadros apresentados no artigo linkado em baixo]. […] A primeira fase da dinâmica da pressão de predação do VPA corresponde ao surgimento da primeira geração/coorte de obreiras. Uma vez que eles surjam no campo, a rainha pode dedicar-se exclusivamente à postura. Portanto, o atraso entre o primeiro VPA capturado e o aumento da pressão de predação corresponderá ao estágio larval, avaliado em 48,1 dias para o VPA (Archer 2010), variando com a qualidade dos alimentos e o clima. Apesar dessa variação, os “primeiros 40 dias” (Spradbery 1973) parecem ser consistentes com nossos dados. Assim, pode ser usado para prever o momento do maior risco de predação. Durante o período de predação nas colmeias, a maioria dos VPAs capturados era composto principalmente por obreiras com poucos machos e rainhas em junho. Foi possível confirmar a dinâmica populacional através da variação da massa corporal. Os VPAs capturados em junho foram por um lado os mais pesadas (exceto os capturados no mês de novembro) e as mais variáveis, devido a uma mistura de rainhas com maior massa corporal e uma primeira coorte/geração de obreiras mais leves. Esse ponto é importante, pois indica que as rainhas apareceram nas armadilhas durante esse período e depois desapareceram progressivamente. Isso pode corresponder ao final da fase da colónia primária da rainha (Spradbery, 1973). Outra interpretação envolve uma estratégia de “jogo de apostas” (Gourbière e Menu 2009): a saída tardia da dormência no inverno é uma estratégia ideal para prolongar o período de predação e adaptar-se eficientemente a novos ambientes. Noutros Vespidae (Spradbery 1973), vôos da rainha foram observados até meados de junho/início de julho e pode assumir-se um padrão semelhante para V. velutina. Tal ponto pode ser de importância, portanto acreditamos que deve receber atenção em pesquisas futuras.

A massa corporal das obreiras aumentou ao longo da temporada; isso pode ser o resultado de um aumento na qualidade dos alimentos e na quantidade de alimentos fornecidos às larvas. Esse grupo de obreiras maiores, encontrado mais tardiamente nas armadilhas, provavelmente foi alimentado com abelhas caçadas […]. O tamanho larval, relacionado com a reserva de gordura, é influenciado pelo fornecimento de alimento e está relacionado ao número de abelhas caçadas (Strohm, 2000). Em várias espécies de Vespidae, a proporção larva / obreira ainda é alta após o surgimento das primeiras obreiras e diminui progressivamente até ao final do ciclo de vida do ninho (Matsuura e Yamane 1990). Assim, nas etapas mais precoces, as larvas recebem menos alimentos e/ou alimentos de menor qualidade, resultando em indivíduos menores. Quando essa coorte de obreiras surge em número suficiente, a proporção larva/obreiras diminui, resultando num aumento na qualidade e/ou quantidade dos alimentos fornecidos e um aumento correspondente na produção de obreiras com maior massa corporal. No final da temporada, em novembro, adultos mais pesados ​​foram capturados novamente, correspondendo à nova geração de fundadoras e machos.


O número total de VPAs presos durante o curso da temporada diferiu nos dois locais. Cerca de metade da quantidade de VPAs foi capturado na ART [um dos apiários] quando comparado com o número de capturas no VIL [o outro apiário] (916 e 1.894, respectivamente). A dinâmica de captura começou três semanas mais cedo no ART do que no VIL e terminou nove dias depois. Metade das capturas foram realizadas 30 dias antes no ART do que no VIL. A pressão de predação no VIL aumentou mais lentamente do que no ART durante a primeira metade do período de captura e mais rapidamente durante o segundo semestre. Essas diferenças podem ser atribuídas às colmeias mais numerosas no apiário da ART do que na VIL (14 vs. 9), bem como a um ecossistema potencialmente mais rico de presas de artrópodes no ART (paisagens de floresta), que tem o efeito de diluir pressão de predação. […]

Sabe-se que temperatura, humidade e velocidade do vento afetam as atividades de vários Vespidae (da Rocha e Giannotti 2007; Kasper et al. 2008; de Castro et al. 2011) e Apidae (Lundberg 1980; Burrill e Dietz 1981; Omoloye e Akinsola 2006; Neves et al. 2011). Nesta pesquisa, o único fator que parece modular a pressão de predação é a velocidade do vento, provavelmente porque é um fator limitante para voar e, principalmente, porque o vôo estacionário necessário para a captura de abelhas pode ser mais difícil em dias de vento. O vento também é um fator-chave para indivíduos que precisam retornar ao seu ninho de alta altitude. Descobrimos que a temperatura e a humidade não tiveram efeito per se, mas tiveram alguma influência quando ligadas à variação sazonal. Embora a atividade predadora possa ser dirigida pelo seu próprio relógio biológico (Giller e Sangpradub 1993), ela também pode estar relacionada com a atividade da presa (Kotler et al. 2002). Assim, o efeito sazonal observado no comportamento de caça do VPA pode resultar de outro efeito: o VPA associa sua atividade à atividade de forrageamento das abelhas, que depende do clima. Assim, acreditamos que essas relações devem ser estudadas diariamente, a fim de identificar as “janelas climáticas ótimas” correspondentes ao aumento ou redução do risco de predação.”

fonte: https://hal.archives-ouvertes.fr/hal-01201288/document

Notas: Deste trabalho quero destacar três aspectos:

  • o surgimento de ninhos secundários desfasados no tempo (uns mais cedo que outros) aumenta a eficiência de sobrevivência da espécie; diria, usando uma imagem, que não vão todos no mesmo dia ao supermercado à imagem do que acontece connosco no “black friday”;
  • nos últimos meses do ciclo de vida do ninho (novembro, dezembro,…) pretender distinguir as futuras fundadoras das obreiras só com base em fotos, para além de errado é sinal de pouco conhecimento da dinâmica alimentar e predatória dos VPAs;
  • o comportamento de predação dos VPAs nos apiários é influenciado por factores abióticos, como a temperatura e humidade, mas não podemos nem devemos descartar da equação a importante influência do vento, que em dias menos frios e chuvosos de outono/inverno poderá ser o único factor limitante.

acaricidas naturais: três reflexões

R. C, apicultor norte-americano, escreveu recentemente no Bee-L o seguinte acerca do Hopguard, um acaricida orgânico/biológico, que tem sido criticado pela sua falta de eficácia:

Princípios activos do Hopguard: Potassium Salt of Hop Beta Acids. Segundo o fabricante pode ser utilizado durante o fluxo de néctar.

“Você precisa se lembrar de que os registros de pesticidas em todo o mundo não dizem nada sobre a eficácia do produto. Toda agência reguladora de pesticidas vê a eficácia como algo entre o vendedor e o utilizador e, se o utilizador não estiver satisfeito, estará livre para ir a tribunal e processar o fabricante por danos.
As agências de registro de pesticidas estão preocupadas com três coisas:1. O produto é seguro para o aplicador quando aplicado de acordo com as instruções da etiqueta? 2. O produto é seguro para o consumidor de alimentos tratados com esse pesticida de acordo com o rótulo? 3. O produto é seguro para o meio ambiente?
Se falhar num desses aspectos significa que nenhum registro é concedido.
Para produtos naturais como o Hopguard, o regulador diminui consideravelmente o nível de exigência dos três itens listados. A suposição é que é um produto natural, e que você é exposto a ele na comida normal que come. No caso do Hopguard, suponho que todos os componentes estejam na cerveja, por exemplo. Portanto, para produtos naturais, você tem muito menos certeza de que, se usado de acordo com o rótulo, o produto será realmente seguro.”


As reflexões do companheiro norte-americano são de três tipos, como fica bem claro:

  • a satisfação/insatisfação acerca da eficácia de um acaricida natural, e sobre isso os companheiros apicultores que estão em biológico poderão dizer mais e melhor que eu;
  • o foco da entidade reguladora no processo de registro/aprovação de um acaricida/pesticida, natural ou sintético ;
  • a segurança alimentar, sabendo que o escrutínio por parte das entidades reguladoras parece ser menor que o desejável, quando comparado por exemplo com o escrutínio feito aos acaricidas sintéticos. Sobre esta última questão já aqui escrevi, ainda que noutro contexto, e que coincidem na opinião do questionável “baixo” escrutínio a que estão sujeitos os químicos naturais presentes nos produtos alimentares.

serviços ecossistémicos: uma visão da UE, uma constatação e duas perguntas

Fico muito agradado que no próximo Fórum Nacional de Apicultura, que irá decorrer em Viseu nos próximos dias 22, 23 e 24 de Novembro, os serviços ecossistémicos seja um tema do programa do mesmo. A este propósito apresento em baixo a visão que a Comissão Europeia já apresentava em 2009 acerca da necessidade de uma maior consciencialização sobre o valor económico dos bens e serviços do ecossistema entre os tomadores de decisão e o público em geral.

  • Os ecossistemas sustentam toda a vida e atividades humanas. Os bens e serviços que eles fornecem são vitais para a manutenção do bem-estar e para o futuro desenvolvimento económico e social.
  • Os benefícios que os ecossistemas oferecem incluem comida, água, madeira, purificação do ar, formação do solo e polinização.
  • Mas as atividades humanas estão destruindo a biodiversidade e alterando a capacidade dos ecossistemas saudáveis ​​de fornecer essa ampla gama de bens e serviços.
  • No passado, as sociedades frequentemente não levavam em conta a importância dos ecossistemas. Eles eram frequentemente vistos como propriedade pública e, consequentemente, subvalorizados.
  • Os cientistas prevêem que um aumento da população mundial para 8 mil milhões em 2030 pode levar a uma escassez dramática de alimentos, água e energia.
  • A perda de serviços dos ecossistemas naturais exigirá alternativas caras. Investir em nosso capital natural economizará dinheiro a longo prazo e é importante para nosso bem-estar e sobrevivência a longo prazo.
  • É necessária uma maior consciencialização sobre o valor económico dos bens e serviços do ecossistema entre os tomadores de decisão e o público em geral. Se deixarmos de agir agora para impedir o declínio, a humanidade pagará um preço alto no futuro.

fonte: https://ec.europa.eu/environment/nature/info/pubs/docs/ecosystem.pdf

A minha constatação e depois as minhas perguntas:

  • em todo o mundo, pelo menos 75% das culturas alimentares dependem, de alguma forma, da polinização. A produção agrícola dependente de animais polinizadores aumentou 300% durante os últimos 50 anos. Só a produção de cereais e frutas, que depende diretamente da polinização entre 5% a 8%, representa cerca de 213 a 523 mil milhões de euros.
  • será que em 10 anos, de 2009 a 2019, os decisores europeus interiorizaram devidamente o valor económico dos serviços do ecossistema, em particular o da polinização? Se sim onde estão os apoios justos, tendo em conta as mais-valias alcançadas com a polinização, para a conservação e protecção dos polinizadores e do sector apícola europeu? — sector que passa por uma crise de sustentabilidade económica, que não me lembro de ver nos dez anos que levo como apicultor profissional, e que tanto precisa dessa mão amiga e ecológica da UE.
À esquerda uma banca com produtos “feitos” pelas abelhas e outros polinizadores. À direita uma banca que ilustra a pobreza que seria não termos abelhas para polinizarem as nossas hortas, pomares e demais espaços silvestres.