o mel de melada ou o mel do bosque

O mel de melada (também designado mel do bosque) provém de um líquido açucarado secretado por insetos, como os pulgões/afídeos, que sugam a seiva de certas plantas/árvores. Este líquido açucarado é, por seu turno, coletado pelas abelhas nos afídeos ou directamente nas plantas e árvores e depois convertido em mel de cor escura com reflexos avermelhados à contraluz, malteado no palato e muito denso ou de viscosidade forte. Este mel de melada é também conhecido como mel do bosque ou mel de floresta e pode ter origens diversas, tendo como ponto comum ser um mel não-floral, ou como outros indicam um mel extra-floral. Algumas variedades são nomeados de acordo com a fonte vegetal a partir do qual as abelhas recolhem a melada (por exemplo o famoso e valorizado mel de “sapin” francês, que pessoalmente acho muito semelhante ao mel de azinheira que produzo).

A composição, propriedades e benefícios do mel de melada são diferentes das que habitualmente encontramos no mel derivado do néctar das flores.

Em geral os méis de melada não cristalizam devido ao menor teor de glicose e contém uma alta concentração de minerais, uma característica identitária destes méis. Possuem um sabor forte amadeirado e persistente na boca. Apresentam uma cor escura, um menor aroma e são uma solução altamente viscosa  muito pegajosa ao toque.

As principais diferenças entre o mel de néctar floral e o mel de melada são:

  • Composição: os méis de melada contêm um elevado teor de sais minerais, açúcares complexos tais como rafinose e melezitose e aminoácidos.
  • Sabor e cor: é de cor escura e menos doce em comparação com o mel de flores.
  • A cristalização: a presença de açúcares complexos impede a cristalização. Em geral o alto teor de frutose em relação com a glicose e menor quantidade de água impede a cristalização deste tipo de mel.

Contudo a melada de carvalho e azinheira (a mais comuns no nosso país), ao contrário de outras variedades de mel derivadas de melada, fica cristalizada muito facilmente formando cristais grandes e firmes, é um mel de cor escura, com um aroma intenso e sabor malteado (a mim lembra-me bastante a cerveja preta).

As condições climáticas mais propícias à produção deste tipo de mel não se verificaram este ano na zona dos meus apiários. Faltaram as névoas matinais e maior fresquidão e em seu lugar tive/tivemos dias tórridos e sem humidade no ar, que se instalaram em especial a partir do final de Junho.

Estranhamente, o mel de melada não é considerado um bom alimento de inverno para as abelhas, porque pode ser bastante elevado em cinzas, a principal causa de disenteria nas abelhas. Os apicultores muitas vezes removem o mel de melada das suas colmeias antes do início do inverno .

No que respeita ao mercado, o mel de melada é geralmente um pouco mais valorizado nos mercados internacionais, sobretudo no centro e norte da europa, quando comparado com a generalidade dos méis mais claros. A razão pode estar no facto de apresentarem uma condutividade eléctrica maior, o que pode facilitar o trabalho dos grandes grossistas na sua homogeneização e mistura com outros lotes de méis.

A terminar uma dica para quem desejar produzir estes méis: tenham preparados quadros com cera limpa e já puxada para colocar nas alças meleiras, pois na altura das meladas (Julho a Setembro) as abelhas têm já muita dificuldade em puxar cera.

avaliação da eficácia relativa de diferentes acaricidas contra o varroa destructor em apis mellífera carnica

Como já referi noutro post anterior, utilizei pela primeira vez no combate e controlo da varroa o acaricida homologado no nosso país com a marca Bayvarol. Dado que o estava a utilizar pela primeira vez procurei recolher informação prévia acerca do mesmo. Se às vezes as minhas abelhas perdoam e corrigem os meus erros, quando se trata de varroa são incapazes de o fazer. Ou faço bem os tratamentos e evito erros ou já sei que elas e eu iremos pagar uma factura bem cara mais adiante. Ora, entre outras fontes de informação acerca do Bayvarol, encontrei este estudo levado a cabo na Arábia Saudita e que na minha opinião apresenta dados muito interessantes.

“Sumário: A eficácia de cinco acaricidas Apistan, Bayvarol, Apivar, Perizine e Bee Strips no combate contra o Varroa destructor foi avaliada durante três temporadas consecutivas (outubro – dezembro de 2003 , 2004 e 2005). Durante a primeira estação Apistan, Bayvarol (apenas 2 tiras aplicadas), Bayvarol (aplicação de 4 tiras) e Apivar foram comparados e o Bayvarol (4 tiras aplicadas) mostrou o nível de eficácia máximo (96%), seguido por Apivar (95%) e 2 tiras de Bayvarol (89%), enquanto Apistan permaneceu no nível mínimo (85%). Durante 2ª temporada foram avaliadoso Apistan, 4 Bayvarol (4 tiras), Apivar e Perizin. O Apivar apresentou a eficácia máxima (95%), seguido pelo Perizine (94%), ao passo que o Apistan e Bayvarol (4 tiras) mostraram apenas 80% de eficácia. Durante a 3ª temporada, Apistan, Bayvarol (4 tiras), Apivar e Bee Strips foram comparados e a Bee Strips apresentaram a maior eficácia (95%), seguidas pelo Apivar (92%) e 4 tiras de Bayvarol (70%), ao passo que o nível de eficácia do Apistan baixou para os 60%. Os resultados revelaram uma diminuição na eficácia do Apistan e Bayvarol, que foi atribuída ao desenvolvimento de resistências no Varroa destructor contra fluvalinato e flumetrina, enquanto o Apivar ficou provado ser um acaricidas muito eficaz. O Perizine e Bee Strips demonstraram revelar-se muito eficazes no controle do Varroa.”

fonte: EVALUATION OF THE RELATIVE EFFICACY OF DIFFERENT ACARICIDES AGAINST VARROA DESTRUCTOR ON APIS MELLIFERA CARNICA; AHMAD A. Al -GHAMDI; Bee Research Unit, Department of Plant Protection, College of Agriculture, King Saud University, Riyadh, Saudi Arabia.

Alguns aspectos que gostaria de destacar do estudo em relação ao Bayvarol:

— uma primeira utilização do Bayvarol mostrou ser muito eficaz;

— a utilização de 4 tiras de Bayvarol (como recomendado pelo fabricante) garante uma maior eficácia que a utilização de apenas 2 tiras;

— de acordo com os dados os ganhos de resistência ao princípio activo do Bayvarol são muito rápidos e significativos, desaconselhando a sua utilização em tratamentos consecutivos.

resíduos de acaricidas nas ceras de abelha: comentário e resposta

Transcrevo em baixo o comentário acerca do acumulo de resíduos de acaricidas nas ceras e a resposta dada pelo Comité Europeu dos Medicamentos para Uso Veterinário (CMV) a este comentário.

Comentário geral: “A grande maioria dos apicultores fornece lâminas de cera às suas abelhas feitas a partir da cera reciclada de cera velha dos quadros fundidos no final da época. Alguns medicamentos veterinários hidrofóbicos ou seus metabolitos podem contaminar esta cera e levar ao aumento dos seus níveis por via da reciclagens repetida da cera de colónias tratadas com acaricidas. A acumulação é dependente da estabilidade destes compostos mesmo durante o tratamento térmico e fusão da cera no processo. As concentrações de tais MUV (Medicamento de Uso Veterinário) ou dos seus metabolitos na cera de abelha pode aproximar-se dos níveis tóxicos para as abelhas e/ou níveis onde a contaminação do mel é provável que ocorra. Além disso a presença constante dos resíduos destes MUV na cera pode acelerar o desenvolvimento de ácaros da varroa resistentes aos mesmos. Desta forma, a eficácia a longo prazo e a segurança dos animais alvo destes MUV pode ser comprometida. Sugerimos, portanto, que a orientação deve incluir estudos para avaliar os MUV e estas propriedades adversas. Problemas com acúmulo de MUV na cera reciclada foram discutidos no Workshop EMA sobre medicamentos para as abelhas, 14-15 de dezembro de 2009 em Londres (EMA / 28057/2010). Estudos sobre o acúmulo em cera (sem reciclagem) foram solicitados pelo CMV para o relatório de síntese sobre Amitraz (EMEA / MRL / 572/99 e EMEA / MRL / 187/97). ”

Vejamos a resposta dos especialistas do Comité Europeu dos Medicamentos para Uso Veterinário (CMV) a este comentário.

“De facto a utilização de alguns acaricidas pode levar ao surgimento de resíduos no mel. O mel contém sempre cera. Estas substâncias solúveis em água e em solventes orgânicos podem acabar no mel. Em relação ao potencial de contaminação do mel com resíduos transferidos da cera para o mel deve notar-se que o LMR (Limite Máximo de Resíduos) para o mel não faz distinção entre os resíduos decorrentes do tratamento em si mesmo e resíduos decorrentes da transferência da cera. Além disso, reconhece-se que a partículas de cera podem estar presentes no mel. Para as substâncias para as quais foram estabelecidos limites máximos de resíduos no mel, o cumprimento do LMR continua, portanto, a garantir a segurança do consumidor.

No entanto sublinhamos que para um determinado número de substâncias, o CMV concluiu que não há uma necessidade de estabelecer um LMR no mel. Estas substâncias considera-se não representarem uma preocupação de segurança alimentar do consumidor, porque ou a sua toxicidade é baixa e, consequentemente, a exposição, mesmo em níveis elevados, não representará um risco para o consumidor, ou porque é aceite que a sua concentração no mel será sempre baixa (por exemplo, porque eles são não-lipofílico e não se acumulam). A transferência de resíduos de substâncias deste tipo da cera de abelhas para o mel, concluiu-se não representar uma preocupação de segurança alimentar para o consumidor. Deve também ser notado que existem dados que mostram que os valores destes resíduos no mel proveniente dos favos de mel contaminados são cerca de 1700 vezes menores do que as concentrações de resíduos existentes nos favo de mel. Além disso, a transferência de resíduos dos varroacidas a partir da cera para o mel, ocorrerá se o nível de resíduos na cera atingir 2 dígitos de ppm (10 a 60 mg/kg) para chegarmos a concentrações no mel entre 0,6 a 36 µg/kg. Por conseguinte, considera-se que o potencial para a transferência de resíduos da cera para o mel é limitada e não representa uma preocupação de segurança alimentar do consumidor.

No que diz respeito à cera de abelhas, é prática comum reciclá-la. Desta forma, os resíduos podem persistir na cera ao longo dos anos. O problema não é novo e está relacionada com substâncias que não são solúveis em água. Como a reciclagem é feita geralmente por aquecimento, o nível de resíduos de uma substância pode ser reduzida (por evaporação). Não há informação científica que indique riscos dos resíduos de acaricidas na cera de abelha, e não têm sido identificados quaisquer efeitos tóxicos em abelhas e/ou indução de resistências nos ácaros Varroa. Ao invés de ser relacionada com resíduos em cera, esses efeitos adversos possíveis parecem estar relacionados ao uso inadequado dos acaricidas. Estes níveis que foram observadas na cera são geralmente demasiado baixo para induzir esses efeitos. Assim, a probabilidade dos resíduos se acumularem até níveis que são tóxicos para as abelhas (criação) e/ou selecção de resistências nos ácaros é considerado baixo. Além disso, abelhas e ácaros não entram em contacto com a cera de uma forma que possa provocar os efeitos acima mencionados. Embora seja possível estudar a persistência de substâncias na cera em relação à reciclagem, a probabilidade de encontrar efeitos tóxicos sobre as abelhas e/ou redução da sensibilidade nos ácaros, devido a resíduos na cera de abelhas, é considerado muito baixo, tendo em conta todos efeitos adversos que podem afetar as colónias de abelhas. Portanto, nenhuma recomendação sobre a necessidade de se efectuarem estudos acerca dos efeitos dos resíduos da cera de abelha com relação com a toxicidade para as abelhas e /ou indução de resistência em ácaros Varroa é feita. Estudos de longo prazo sobre as abelhas são limitados no tipo de informação que pode fornecer sobre o risco devido à presença de resíduos de cera. Boas práticas de apicultura, bem como o uso adequado de acaricidas é uma questão importante na redução da presença de resíduos na cera de abelha “.

A terminar recordo de um post anterior:

  • para o Apivar o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de amitraz (substância activa no Apivar) no mel é de 200 microgramas por Kg de mel;
  • para o Bayvarol o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de flumetrina (substância activa no Bayvarol) no mel não está definido pela UE;
  • para o Apistan o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de fluvalinato (substância activa no Apistan) no mel não está definido pela UE.

e sublinho deste post:

“No entanto sublinhamos que para um determinado número de substâncias, o CMV concluiu que não há uma necessidade de estabelecer um LMR no mel. Estas substâncias considera-se não representarem uma preocupação de segurança alimentar do consumidor, porque ou a sua toxicidade é baixa e, consequentemente, a exposição, mesmo em níveis elevados, não representará um risco para o consumidor, ou porque é aceite que a sua concentração no mel será sempre baixa (por exemplo, porque eles são não-lipofílico e não se acumulam).”

bayvarol: algumas reflexões

Pela primeira vez estou a utilizar o Bayvarol no tratamento da varroose. Vou tratando em parte de acordo com o avanço da cresta mas sobretudo de acordo com o que a minha experiência dos dois últimos anos me tem mostrado.

A minha experiência tem-me mostrado que aguardar até que tenha crestado todas as meia-alças e alças meleiras pode ter custos muito grandes no que diz respeito à infestação das colmeias pelo ácaro varroa. A explicação é simples e a conclusão mais simples ainda:

  1. Nos últimos dois anos tenho terminado a cresta dos meis-escuros (em geral as meladas da azinheira, carvalho e castanheiro) em meados de Setembro;
  2. Nas zonas onde tenho os apiários as rainhas começam a diminuir a postura cerca de dois meses antes desta data. O ratio número de varroas/cria operculada sobe enormente nestas 6 a 8 semanas entre meados/finais de Julho e meados de Setembro.
  3. Tenho encontrado nestes dois últimos anos nas colmeias que trato a partir de Setembro, e de acordo com o ritmo da cresta como referi atrás, algumas colmeias com um número muito significativo de abelhas com asas deformadas.
  4. A conclusão é clara: iniciei o tratamento tarde demais.

Lendo e relendo os documentos oficiais dos acaricidas que tenho utilizado (Apivar, Apistan e agora Bayvarol) assim como os estudos independentes realizados acerca dos resíduos destes acaricidas no mel e nas ceras, concluo que estava a ser mais papista que o papa.

Actualmente estou a antecipar os tratamentos cerca de 4 a 6 semanas. Procurando trabalhar num cenário ideal, é contudo a realidade que se impões e é ela que aos meus olhos dita as leis.

No caso em particular do Bayvarol, o fabricante refere que idealmente as tiras não devem ser utilizadas no pico de um fluxo de néctar mas que em casos de infestações severas pode ser utilizado em qualquer altura do ano e diz também e que nenhum intervalo de segurança existe no que respeita ao mel.

Relativamente aos famosos ácaros resistentes aos princípios activos espero continuar a não os encontrar. Para isso segui um conjunto de procedimentos que julgo que me ajudarão a atingir este fim. Não me esqueci de colocar as 4 tiras que o fabricante recomenda, não me esqueci de, nas colmeias com ninho e sobreninho, passar todos os quadros com criação para o ninho e colocar as tiras bem no meio destes quadros com muitas abelhas amas e criação para nascer, não me esqueci nas colmeias com a criação descentrada de ver onde estavam os quadros com criação para aí colocar as tiras, não me esqueci de só abrir os sacos com as tiras no exacto momento em que as colocava no interior das colmeias; espero também não me esquecer de dentro de 2 a 3 semanas ir verificar numa amostra significativa de colmeias se tudo está bem e se as tiras continuam a estar em contacto com um grande número de abelhas amas e inseridas no seio das zonas de criação.

Com estas precauções espero não esbarrar com os ácaros resistentes… dado que também não fui resistente ao maior trabalho que dá tratar adequadamente as colmeias espero de coração aberto que ainda haja alguma justiça no mundo e que o famigerado Bayvarol se mostre à altura do desafio.

Se assim for, e dado que já utilizei o Apivar e o Apistan com bons resultados, poderei dizer que no meu reino ainda não tenho varroas resistentes aos três sintéticos homologados no nosso país… poderei dizer para mim mesmo que sou um homem tocado pela fortuna… mas que dá uma trabalheira alcançá-la lá isso dá.

qualidade das rainhas e seu peso: que correlação?

Muito frequentemente apicultores, criadores de rainhas e até investigadores associam o maior peso, o maior tamanho do tórax, o maior comprimento de asas e outras características morfológicas das rainhas, sejam virgens ou fecundadas, à sua prolificidade. Uns e outros defendem que as rainhas com um peso maior produzem mais ovos e desenvolvem colónias mais numerosas e num menor espaço de tempo.
Alguns investigadores encontraram uma correlação positiva entre o peso das rainhas e o número de ovaríolos: Weaver, 1957; Avetisyan, 1961; Woyke, 1971; Szabo, 1973; Wen-Cheng and Chong-Yuan, 1985; Gilley et al., 2003. Estes investigadores, com recurso a técnicas de dissecação, contagem dos ovaríolos presentes nos dois ovários e subsequentes análises estatísticas concluíram que as rainhas mais pesadas apresentavam um maior número de ovaríolos. Cada ovaríolo produz em média 3 a 5 ovos por dia.  Como facilmente se conclui um maior número de ovaríolos está associado directamente com a capacidade da rainha apresentar diariamente taxas mais elevadas de postura de ovos fecundados. Finalmente sabemos que mais ovos fecundados significa uma prole mais numerosa, logo mais abelhas na colmeia, portanto maior quantidade de néctar  e outros produtos colectados; enfim uma produção acrescida.
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Tudo estaria bem neste reino de medições e pesagem de rainhas com vista ao seu melhoramento e sua selecção se todos os estudos efectuados até às data fossem convergentes. Contudo na verdade não são. Alguns investigadores não encontraram qualquer tipo de correlação entre o peso das rainhas e o número de ovaríolos: Corbella and Gonçalves, 1982; Hatch et al.1999; Jackson et al ., 2011. 
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Sendo assim parece-me cedo de mais para afirmar “diz-me qual o peso da tua rainha e dir-te-ei o seu valor”. Mais tendo eu já visto rainhas de pequenas dimensões fazendo um grande trabalho de postura nas minhas colmeias.
Não digo que as rainhas mais pequenas são as melhores. Não tenho esse atrevimento. O que digo é outra coisa: avaliar a qualidade potencial e seleccionar com base no peso das rainhas é um caminho que deve ser percorrido, mas sem a presunção que é o único e o melhor. Ainda me parece cedo para proclamar isso. Não sou eu que o digo, são os dados divergentes das investigações.

características físico-químicas do mel, legislação e atitude

Para colocarmos no mercado o nosso mel este deve cumprir com uma série de requisitos. A legislação nacional define as características fisico-químicas que o mel deve apresentar. Apresento em seguida algumas das principais.

O mel é uma solução saturada de frutose e glucose. Dissacarídeos como maltose e sacarose, trealose e isomaltose, trissacarídeos como a melezitose e os oligossacarídeos existem em muito pequena quantidade. Segundo a legislação portuguesa, o teor mínimo de frutose e glucose no mel de néctar é de 60 g/100g e o teor máximo de sacarose é de 5 g/100g.

O teor máximo de água permitido nos méis em geral é de 20%, exceto no mel de urze (Calluna spp.), que é de 23% . O teor de água constitui um parâmetro determinante para o estabelecimento do prazo de validade. Os méis com um teor de água elevado, superior a 20% , têm tendência a separar-se em duas fases: uma granulada, no fundo do recipiente, e uma líquida, no topo, o que permite o desenvolvimento de leveduras que provocam a deterioração do mel por fermentação.

O teor de matérias insolúveis em água, partículas de cera suspensas e/ou resíduos de insetos e vegetais, no mel, não deve, segundo a legislação portuguesa, exceder os 0,1 gramas por 100 gramas de mel, com exceção do mel prensado cujo valor máximo é de 0,5 gramas por 100 gramas de mel.

A condutividade elétrica legislada para o mel de melada (substância açucarada natural produzida pelas abelhas da espécie Apis mellifera a partir de secreções de partes vivas das plantas ou de excreções de insetos sugadores de plantas), mel de flores de castanheiro e mistura desses méis é de 0,8 mS.cm-1, no mínimo, e para os restantes méis ou sua mistura é de 0,8 mS.cm-1, no máximo . Este parâmetro está intimamente relacionado com a concentração de sais minerais, ácidos orgânicos e proteínas, apresentando uma grande variabilidade de acordo com a origem floral.

A acidez do mel deve-se à presença de ácidos orgânicos, principalmente ácido glucónico, em equilíbrio com as suas lactonas. Apesar de não se encontrar legislado, o pH do mel varia entre 3,4 e 6,1 e tem um valor médio de 3,98.

Segundo a legislação portuguesa, um dos critérios de composição ao qual o mel deve obedecer diz respeito ao teor de hidroximetilfurfural (HMF) e índice diastásico (ID, hidrólise enzimática do amido ou glicogénio em maltodextrinas), parâmetros que são determinados após tratamento e mistura de méis, caso se realizem. Relativamente ao teor de HMF, este é um parâmetro que está relacionado com a menor frescura do mel uma vez que se não se encontra no mel fresco e tem tendência para aumentar durante o processamento e/ ou envelhecimento do produto. A sua concentração é influenciada por: i) temperatura e tempo de processamento, ii) condições de armazenamento, iii) pH, e iv) fonte floral. O teor máximo permitido para o HMF é de 40 mg/kg para os méis em geral. Se os níveis de HMF se verificarem superiores aos legislados, tal indica que o mel sofreu sobreaquecimento e/ou más práticas de armazenamento.

Por outro lado, tal como o teor de HMF, a atividade de diastase pode ser usada como um indicador do envelhecimento e sobreaquecimento do mel, No que diz respeito ao índice diastásico, e segundo a legislação portuguesa, este é medido recorrendo ao uso da escala de Schade. Para os méis em geral, o índice diastásico deverá ser, no mínimo, 8 unidades de Schade.

A prestação de informação aos consumidores sobre os géneros alimentícios consta do Regulamento (UE) n.º 1169/201123, o qual menciona a informação obrigatória sobre os géneros alimentícios. No caso do mel deverão constar da rotulagem informações como: i) o nome do produto, ii) o seu país de origem, iii) o lote a que pertence, iv) o número de controlo veterinário, v) o peso líquido, vi) a data de durabilidade mínima ou data-limite de consumo, vii) as condições especiais de conservação, viii) a informação nutricional e ix) o nome ou a firma e o endereço do operador do setor alimentar.

fonte: http://www.azores.gov.pt/NR/rdonlyres/475AF000-15ED-4E8E-B813-45CB5B7B6F9C/0/i005904.pdf

Se estes dados importam a todos nós apicultores porque todo o mel que colocamos no mercado deve ser íntegro, importam sobretudo aos que vendem a sua produção por grosso para o mercado nacional ou estrangeiro. Podemos colocar a nossa reputação e o negócio em questão quando incorporamos na encomenda de “n” bidões de mel um lote de mel que dificilmente cumprirá estes critérios, na expectativa que passará sem ser detectado no meio de todo o outro.

Se a boa reputação demora anos a ser conquistada pode levar apenas alguns segundos a ser destruída. Saibamos ser pacientes e íntegros, porque esta é seguramente a nossa mais-valia perante os nossos parceiros comerciais.

 

mudança do princípio activo do acaricida

Depois de 3 tratamentos consecutivos com Apivar (o princípio activo é o amitraz da família das amidinas), estou a tratar as colmeias crestadas com Bayvarol (o princípio activo é a flumetrina da família dos piretroides semi-sintéticos).

A minha estratégia na escolhas dos tratamentos é clara e eficaz até agora: efectuar um ciclo de 3 a 4 tratamentos com Apivar e depois interromper este ciclo com um acaricida que tenha o princípio activo de uma família diferente (o Apistan ou o Bayvarol).

Para além dos intervalos de segurança dos acaricidas acima referidos serem zero dias (lembro que o intervalo de segurança define o período de espera que deve decorre entre a última aplicação de um produto e a colheita) também as recentes análises ao mel nacional nos devem deixar tranquilos quanto à sua utilização.

O facto de não terem sido detectados acaricidas (cumafos, flumetrina e tau-Fluvalinato) nas amostras de mel nas diferentes regiões portuguesas poderá indicar que os apicultores cumprem as boas práticas apícolas. […] Para além do referido, os acaricidas estudados são compostos lipofílicos, podendo a baixa contaminação do mel com estas substâncias dever-se a esta característica. Em estudos realizados por Bogdanov, Kilchenmann & Imdorf (1999) foi determinada a ordem de lipofilicidade destas substâncias, os níveis de acaricidas encontrados nos vários produtos após tratamento diminuíram na ordem seguinte: cera > favos de mel >> alimento (açucar) ≥ mel, e em termos de lipofilicidade: flumetrina > fluvalinato ≥ cumafos.” in https://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/4036/1/Residuos%20de%20Medicamentos%20Veterinarios%20em%20Mel.pdf

os meus números da cresta de meis claros até à data de hoje

Iniciei a cresta de meis claros nos meus apiários no dia 21 de Junho. Até à data de hoje extraí o mel de 379 meias-alças. Vou mais ou menos a meio da cresta das meias-alças com mel claro. Destas 228 são do modelo Langstroth e 151 são do modelo Lusitana.

A produção média das meias-alças do modelo Langstroth é de 14,38 Kg por meia-alça até à data.

A produção média das meias-alças do modelo Lusitana é de 9,74 Kg por meia-alça até à data.

Como o método de extracção “old-fashion” que ilustrei e me referi no post anterior está a ser mais lento do que é desejável e um pouco mais cansativo do que é tolerável vou ensaiar na próxima 3ª feira extrair o meu mel numa cooperativa com uma linha de extracção automática “new-fashion”.

Se tiver autorização do proprietário para a nomear e até ilustrar com fotos alguns dos momentos da extracção aqui voltarei em breve.

aspectos da minha cresta de meis claros de 2016

Iniciei há cerca de 2 semanas a cresta de meis claros. Ficam em baixo algumas fotos ilustrativas do processo “old fashion” que estou a utilizar para crestar as mais de 800 meias alças de meis claros que tenho em cima das minhas colmeias. Mais adiante virão as meias alças dos meis escuros e conto voltar a apresentar mais algumas fotos.

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Foto 1: As 38 1/2 alças que vieram do apiário neste dia.

 

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Fotos 2, 3 e 4: Aspectos concretos do “estado” das 1/2 alças e dos quadros.

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Fotos 5 e 6: Desoperculação com recurso à faca (ainda estou à espera que o Pai Natal me ofereça uma linha de desoperculação e extracção!).

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Fotos 7, 8 e 9: Da centrifugação, em extractor radial eléctrico, para o balde.

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Foto 10: Já enfrascado e à mesa.

o futuro da apicultura (por Gilles Ratia)

Numa entrevista publicada na Abeilles et Fleures (ed. nº 779 de Fevereiro de 2016), a Gilles Ratia, presidente da Apimondia até muito recentemente, foi-lhe colocada a seguinte questão: Como vê a apicultura no mundo e o seu futuro, à luz das muitas viagens que realizou pelo mundo?

Porque achei a resposta deste experimentado e viajado apicultor muito interessante, deixo aqui a tradução da sua resposta.

“Na verdade, existem várias apiculturas. Há países onde ainda existem os api-coletores — você sabe, aqueles que sobem a árvores para colher o mel das Apis dorsata, ou o ainda mais temerário como suspender escadas feitas de cordas improváveis para re-colectar o mel da Apis laboriosa que vivem agarradas às altas falésias nepalesas.

Há também a apicultura tradicional onde as colmeias sem quadros, feitos de todos os tipos de material, utilizando raças locais (cerana, andansonii, etc.), sem qualquer selecção ou insumo (não utiliza cera laminada, alimentação artificial, tratamento veterinário, etc.).

Em terceiro lugar há a chamada apicultura “intermédia”, com as colónias instaladas em colmeias minimalistas como a famosa KTBH (colmeia queniana de barras superiores) ou as Warré, às vezes alimentadas artificialmente.

Finalmente, há a apicultura como a conhecemos em França, com colmeias Dadant e Langstroth. Este última categoria é altamente afetada no seu lado intensivo e muitas vezes é levantada a questão do seu futuro. Embora eu não seja um adivinho, nem um futurólogo, existem cenários mais ou menos complexos/difíceis de definir, esta é a minha visão quadripartida face ao declínio das colónias de abelhas:

  • Ou os apicultores nada fazem além de se adaptar continuamente, mal ou bem, às novas pressões da profissão: pesticidas cada vez mais perniciosos, globalização das doenças e das parasitoses, produtos veterinários de eficácia questionável, climatologia aleatória, legislação cada vez mais rigorosa a respeito da qualidade dos produtos apícolas, deixando passar simultaneamente as adulterações industriais vindas do Extremo Oriente, custos de produção crescentes, etc. Poucos sobreviverão …
  • Ou os apicultores se voltam para a “apicultura slow”: abandono da criação de rainhas, das ceras laminadas, da alimentação artificial que não seja a estritamente necessária à sobrevivência dos enxames, da redução da transumância e dos tratamento alopáticos, etc., com os outros agricultores a fazerem o mesmo ao seu nível e na sua prática, como parte de uma abordagem holística e cautelosa sobre o futuro da biodiversidade,  e assim de toda a humanidade. Todos sobreviverão…
  • Ou os apicultores se tornam grandes consumidores de alta tecnologia para arrancar com a apicultura 2.0: abelhas geneticamente modificadas, produtos para todos os estádios da colónia e personalizados para cada uma de acordo com o seu estado fisiológico — à imagem das vacas equipadas com coleiras de identificação —, todas as colmeias equipadas com vários sensores para monitorar 24/24 e 7 dias/7 por satélite, previsões metereológicas finas, diversificação de produtos para venda, como sabem fazer os chineses: o pólen + geleia real + ginseng + placenta humana, etc.. Não se sabe se se tratará da sobrevivência a longo prazo ou de um suicídio a curto prazo …
  • Ou ninguém precisa dos apicultores e os políticos vão deixá-los morrer no altar do progresso: plantas GM auto-férteis que não requerem polinização, e nos casos raros em que tal não será possível, micro-drones tocarão o pistilo das flores em vez desses insetos traquinas que picam! Como para o mel, ele é tão facilmente substituído pelo “xarope de frutose de milho” com sabor, não é cavalheiros das fraudes?
  • É óbvio que haverá (na verdade, já existe) uma re-partição dos apicultores na arte das três primeiras apiculturas referidas acima, de acordo com a sua cultura, crença, idade, experiência passada e conta bancária. A verdadeira pergunta que todos devem fazer será: “Em que tipo de mundo viverão os nossos filhos se a quarta opção se impuser?”