vespa asiática: (in)eficácia de diferentes armadilhas no apiário

Em 49 apiários situados metade nos Alpes-Maritimes (zona de elevada pressão do vespão asiático) e outra metade em Haute-Garonne (zona de baixa pressão do vespão exótico) avaliou-se o efeito da utilização de diversos tipos de armadilhas (ver aqui em detalhe as armadilhas utilizadas e respectivos iscos http://itsap.asso.fr/wp-content/uploads/2016/03/cr_evaluation_piegeage_vvelutina_2014.pdf) por comparação com um apiário de controlo (“temoin”) onde se não utilizou qualquer tipo de armadilha para as velutinas. Todas as armadilhas de captura foram instalados entre 19 de agosto e 16 de setembro de 2014 e foram retiradas entre 7 de novembro e 15 de dezembro, quando a ausência de capturas indicou que V. velutina havia parado a predação.

Quanto ao desenvolvimento das colónias de abelhas não há diferenças significativas nas diferentes modalidades de armadilhas no que se refere a alterações no peso e o número de quadros ocupadas por abelhas. Por outro lado, as variações de peso e o número de quadros ocupados por abelhas nos apiários de controle é maior (ainda que não significativamente) que nos apiários equipados com armadilhas. Estes dados, portanto, não permitem concluir por um efeito positivo das modalidades de armadilha testadas no que se referes ao desenvolvimento das colónias.

Relativamente à mortalidade de colónias de abelhas o primeiros dado a destacar é que a mortalidade antes e à saída do inverno tem sido muito alta. No entanto, os valores de mortalidade pré e pós-inverno, medidos nos apiários de controle, são inferiores aos apiários equipados com armadilhas (ainda que não significativamente). Novamente, não é possível concluir que as modalidades de armadilhas testadas para a protecção de colónias de abelhas sejam efectivas.

O objetivo prático deste método de controle é manter o desenvolvimento normal das colónias e limitar a mortalidade. Sua eficiência foi medida em condições práticas de produção, com altas densidades de armadilhas, em áreas de baixa e alta pressão. No entanto, comparações entre apiários de controle sem armadilhas de captura e os apiários que tinham essas armadilhas não revelam nenhum efeito protetor da captura dos vespões na atividade de forrageamento, ou no desenvolvimento ou sobrevivência das colónias. Estes resultados levam a concluir pela ineficácia dos métodos de captura testados para proteger o apiário contra a Vespa velutina.

fonte: http://itsap.asso.fr/wp-content/uploads/2016/03/cr_evaluation_piegeage_vvelutina_2014.pdf

Nota: Entre os métodos/armadilhas inicialmente pensados pelo grupo de trabalho, os baseados num sistema elétrico (armadilhas Apiprotection e Technic-Joules), vulgo harpas eléctricas não puderam ser testados devido à falta de um acordo com os fabricantes. O segredo será a alma do negócio destes dois fabricantes de harpas?

vespa velutina: categorias de armadilhas e determinantes das escolhas

“Todas as técnicas […] têm seus prós e contras, e podem ser divididas em duas categorias principais: aquelas que afectam o ninho da V. velutina e larvas (por ex. “técnica Judas”, triangulação para localizar ninhos, colocação de sensores no vespão, localização de ninhos com recurso a drones, radar harmónico, iscos envenenados, controlo biológico, siRNA, Crispr-Cas9 ) e aqueles que só afectam as vespas obreiras (raquetes, todas as armadilhas de captura de obreiras, redes à entrada das colmeias, etc.). Considerando que um ninho de V. velutina abriga 1.500 a 2.500 vespas e produz 12.000 a 15.000 vespas durante uma estação, é óbvio que métodos destinados a localizar ou destruir os ninhos à distância devem ser privilegiados em termos de eficiência (Rome et al. 2015).

As opções de escolha dependem se se é um apicultor em busca de soluções simples, rápidas e baratas, ou um cidadão incomodado pela V. velutina ou sensível à ameaça atual aos polinizadores, ou mesmo um decisor político que deve tomar decisões estratégicas. De fato, uma combinação de várias das técnicas descritas aqui geralmente é a melhor escolha.


No que diz respeito aos apicultores, o custo do tratamento (ácaros, traças, cria podre, etc.) já é bastante alto, e é difícil prever investimentos adicionais em armadilhas ou dispositivos caros. Portanto, muitos deles usam armadilhas caseiras ou iscas envenenadas. Essas armadilhas não são muito seletivas e eficazes, e até contraproducentes, se colocadas perto das colmeias. Se um apicultor insistir em colocar armadilhas, seria útil colocá-las distantes do apiário. De fato, parece que as vespas são atraídas pela isca, mas rapidamente se concentram nas abelhas. As iscas de carne/peixe envenenadas por biocidas são mais seletivas, pois atraem apenas insetos carnívoros, se não acessíveis a animais carnívoros terrestres ou aves. No entanto, sua principal desvantagem é que eles podem levar à disseminação dos biocidas utilizados. Embora o nível de biocidas disseminados por estas práticas esteja bem abaixo do que geralmente é usado no tratamento das culturas, as larvas contaminadas podem entrar na cadeia alimentar se os ninhos não forem removidos após serem envenenados. Assim, neste caso, os biocidas de baixa premanência devem ser preferidos.

Os cidadãos confrontados com os vespas ou conscientes de seus danos devem ter em mente que o pouco que podem fazer sem arriscar ameaçar a entomofauna ou o meio ambiente é, em caso de descoberta de ninhos, informar sua administração local […]. No entanto, em caso de grande inconveniente, podem equipar os jardins com uma armadilha o mais seletiva possível (armadilhas caseiras com saídas para os insetos menores), […], mas devem estar cientes de possíveis efeitos colaterais na entomofauna. O uso de armadilhas envenenadas não é recomendado, pois apresenta riscos para os utilizadores, mas também para possíveis vítimas colaterais (animais selvagens, animais domésticos, crianças). As raquetes elétricas comerciais normalmente destinadas a mosquitos podem ser eficazes nas operárias, mas é necessário esmagá-las, pois elas recuperam rapidamente.

Por fim, no que diz respeito aos decisores, há que recomendar que invistam muito rapidamente na pesquisa e na busca de soluções para destruir de maneira limpa os ninhos de vespas. De fato, essa estratégia é de longe a mais eficiente, a mais barata e a mais segura para o ambiente, […] Esperemos que as instituições nacionais e europeias tomem consciência rapidamente da extensão deste problema e invistam seriamente para limitar a disseminação de vespas de patas amarelas que já ameaçam toda a Europa.”

fonte: Options for the biological and physical control of Vespa velutina nigrithorax (Hym.: Vespidae) in Europe: A review

Nota: Na próximas publicação irei apresentar propostas e hipóteses de novas armas e novas estratégias para fazer frente à velutina. Em regra estas novas armas pressupõem um investimento pesado em Inovação e Desenvolvimento, e portanto exigem a coordenação e fundos que deverão ser europeus para evitar replicar trabalho e gasto de recursos de forma desnecessária. Entre estas novas armas, umas mais desenvolvidas que outras, destacam-se as armadilhas com feromonas específicas, localização de ninhos com recurso a drones e sensores, radar harmónico para localização de ninhos, controlo biológico, siRNA e Crispr-Cas9.

Armadilha com recurso a feromonas sexuais específicas para atrair machos de vespa velutina.

vespa velutina: novas armas precisam-se

“Outra omissão notável da lista da União Europeia de espécies exóticas invasoras é a vespa asiática de patas amarelas, Vespa velutina nigrithorax (ver J. Pergl et al. Nature 531, 173; 2016). Desde sua chegada à Europa, há mais de uma década, esse voraz predador de abelhas já causou mortes humanas por causa de sua picada (ver K. Monceau et al., J. Pest. Sci. 87, 1–16; 2014).
O impacto do vespão é severo nos países do Mediterrâneo, onde a apicultura é uma fonte crucial de renda. Os apicultores locais têm seus próprios métodos de erradicação improvisados (como armadilhas caseiras), mas que matam também outros insectos polinizadores.
A espécie precisa ser oficialmente classificada como invasora em todos os países europeus, para que fundos possam ser aplicados no seu estudo e controle. As campanhas públicas são essenciais para aumentar a consciencialização e a compreensão das pessoas sobre essa ameaça – por exemplo, sobre as diferenças entre espécies de vespas, muitas das quais são vitais para as funções e serviços do ecossistema.
Precisamos urgentemente de um plano coordenado da UE para controlar esta invasão de vespas e mitigar seus impactos económicos e ecológicos potencialmente graves.”
Frederico Santarém, investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO).

… para deixarmos de andar a lutar com fisgas (as nossas armas de momento) contra carros de assalto (as velutinas). Até ao momento a expansão pelo território europeu tem sido imparável, o que demonstra bem que outro arsenal é necessário para a controlar e até erradicar. Para tal é necessário investir seriamente em soluções diferentes, alternativas e complementares, resultantes de inovação e desenvolvimento.

os impactos económicos, ambientais e sociais da vespa velutina em França

“Os desafios relacionados com o controlo deste predador [vespa velutina] são de vária ordem:

(i) económico: os serviços de polinização de abelhas são estimados em 1,5 mil milhões de euros/ano e a perda direta dos apicultores é calculada ultrapassar os 100 milhões de euros/ano, ambos apenas para a França;

(ii) ambiental: danos às abelhas, polinizadores e fauna endémica de insectos; e

(iii) saúde pública: vários óbitos/ano, embora o número de casos não pareça adequar-se completamente à expansão de V. velutina (de Haro et al., 2010; Viriot, Sinno-Tellier & de Haro, 2015).

Se hoje é ilusório tentar eliminar esta espécie, é claro que um controle focado poderá reduzir sua expansão e, portanto, seu impacto. Atualmente, não existem estudos disponíveis sobre o impacto da predação por V. velutina na atividade das colónias de abelhas europeias. No entanto, um estudo realizado na China mostrou que a presença deste predador poderá reduzir a atividade de forrageamento até 79% (Tan et al., 2013). […]

[…] o controle atual do vespão asiático é baseado na localização visual e supressão dos ninhos. Este controlo é limitado porque a sua localização preferida, no alto das árvores e baixa visibilidade na primavera-verão devido à folhagem, de modo que menos de 5% do ninho de vespas são avistados (Robinet, Suppo, Darrouzet e Diekotter, 2017). Esse controle direcionado deve limitar fortemente a predação exercida pela V. velutina em apiários e em locais sensíveis (escolas, mercados de peixe/carne, praias etc.) e, portanto, limitar seu impacto económico e social.[…]

Apesar das advertências da comunidade científica (Salles, 2016), as autoridades francesas e europeias não parecem muito preocupadas com a progressão deste predador (Santarém, 2016). Apenas alguns programas de pesquisa sobre o controle de V. velutina (Decante, 2015; Milanesio et al., 2016) (IRBI-Universidade de Tours, França; Universidade de Turim, Itália; INRA- Bordeaux, França; MNHN-Paris, França ) e algumas iniciativas institucionais locais (notavelmente o “Plano Frelon 06” do Conselho de Departamento dos Alpes Marítimos) com o objetivo de localizar e destruir ninhos foram financiadas até agora. Enquanto isso, nossos colegas da Nova Zelândia lançaram grandes projectos de pesquisa com o objectivo de reduzir a população de V. germanica e V. vulgaris (Barlow et al., 1998; Beggs et al., 2008; Fan et al., 2016; Fan et al., 2016; Ward, 2014) , cuja ameaça provavelmente não é tão grande. Isso enfatiza o facto de que investimentos sérios em pesquisa devem ser feitos rapidamente.” (sublinhado meu)

fonte: Options for the biological and physical control of Vespa velutina nigrithorax (Hym.: Vespidae) in Europe: A review

opções para o controle biológico e físico de Vespa velutina nigrithorax na Europa: uma revisão

Inicio uma série de publicações de revisão de algumas das mais populares opções utilizadas para o controle da vespa velutina, também conhecida por vespa asiática, socorrendo-me deste artigo: Options for the biological and physical control of Vespa velutina nigrithorax (Hym.: Vespidae) in Europe: A review (agradeço ao Prof. Paulo Russo de Almeida e ao Dr. João Gomes a ajuda dada).

“Sumário : Recentemente, o economista ambiental JM Salles (Salles, 2016) declarou que “o vespão asiático provavelmente era o inseto invasor mais ameaçador em França”. Treze anos após a introdução acidental em França, o vespão asiático (Vespa velutina nigrithorax) invadiu a maioria dos países da Europa Ocidental. Até agora, pouco foi feito para limitar sua progressão e seu impacto económico, ecológico e social. Embora seja ilusório tentar erradicar essa espécie, sabe-se que um controle direcionado limitará sua tendência ameaçadora. O atual controle da V. velutina na França baseia-se principalmente em (i) captura voluntária em larga escala pelos cidadãos e (ii) detecção voluntária do ninho. A avaliação das estratégias de armadilhas desenvolvidas até o momento para controlar a expansão de V. velutina destacou sua falha e demonstrou a necessidade de otimizar as técnicas de detecção de ninhos e investigar novas estratégias de controle. Esta revisão descreve a maioria dos meios destinados a controlar a predação e expansão de V. velutina, independentemente de terem sido cientificamente avaliados ou testados apenas em campo com razoável sucesso . Métodos de controle prospectivo publicados e técnicas de controle biológico também são apresentados.”

colmeias à saída do verão/entrada do outono: fotofilme do que desejo ver

Ouriços a desenvolverem-se à entrada do outono.
Colónias muito bem povoadas.
Postura compacta, sinal entre outras coisas da vitalidade da rainha.
Acaricidas colocados no seio da câmara de criação e a tempo e horas.
Acaricidas amarelados um sinal evidente do contacto das abelhas com os mesmos.
Um belo quadro de outono: postura compacta, rodeada de pólen recente e com a respectiva abóbada de mel.
Pão de abelha recentemente ensilado.
Reservas de mel para passarem o outono e inverno.

apimondia 2019: pesticidas, um tema em destaque

Não me surpreende que um dos temas privilegiado e mais discutido na Apimondia, este ano realizada no Canadá, seja o impacto dos pesticidas utilizados na agricultura sobre as colónias de abelhas melíferas. E não me surpreende por 4 razões sobretudo:

— é uma temática que tem sido alvo de numerosos estudos de natureza científica e a Apimondia é um dos palcos mais importante e natural para a apresentação destes estudos;

— estamos numa encruzilhada a este respeito, entre produtos e práticas ditas mais amigas das abelhas mas com impactos negativos na rentabilidade dos agricultores, segundo alguns, e a manutenção com melhorias muito gradualistas e lentas de algumas práticas culturais, sem rupturas e interdições radicais, mas que não salvaguardam as abelhas melíferas e outros polinizadores segundo outros, entre os quais muitos apicultores;

— porque sendo o Canadá, país com enormíssimas extensões de monocultura de canola, entre outras, onde se aplicam pesticidas da mais variada natureza, fará todo o sentido para os organizadores canadianos trazerem este tema para cima da mesa;

— porque, nesta área de estudo em particular, os resultados não são concludentes e não apresentam a convergência necessária para que suportem inequivocamente e com garantia decisões políticas, sejam num ou noutro sentido, decisões essas que podem ter impactos financeiros enormes e que os políticos não desejam tomar de ânimo leve.

Vejamos em baixo o que escreve P.B., um participante regular e respeitado no Bee-L, acerca de uma recente investigação apresentada na Apimondia, a decorrer nestes dias em Montreal no Canadá, sobre o impacto nas abelhas melíferas dos pesticidas utilizados pelo sector Agro-Industrial numa região dos EUA.

“O presente estudo descreve a exposição potencial a substâncias químicas no território de forrageamento de colónias de abelhas localizadas numa zona agrícola no sul dos Estados Unidos. Os locais de estudo foram selecionados para representar a diversidade da agricultura do Sul, bem como áreas com pouca ou nenhuma agricultura.

Dado que os pesticidas agrícolas eram aplicados rotineiramente em grande parte da paisagem ao redor do apiário, esperávamos que as abelhas fossem expostas a eles enquanto procuravam alimento nomeadamente através do néctar ou pólen contaminado ao redor das colmeias. Amostras de cera de abelha, pão de abelha, mel e abelhas foram pesquisadas quanto a 174 pesticidas agrícolas comuns e seus metabolitos. Desses, apenas 26 compostos foram detectados durante o estudo de dois anos:

um desfoliante, um regulador de crescimento de insectos, cinco herbicidas, seis fungicidas, seis inseticidas nunca utilizados na apicultura e cinco insecticidas / acaricidas e seus metabolitos, utilizados na apicultura e para diversos outros fins agrícolas, além de dois acaricidas usados ​​exclusivamente pelos apicultores para controlar o Varroa.

No geral, considerando o uso generalizado de pesticidas na paisagem ao redor do apiário no local da Alta Agro-indústria, as amostras de abelhas continham muito pouca contaminação.

No mel amostrado no local Alta Agro-indústria, os únicos contaminantes detectados foram flubendiamida (em 2014) e DMPF (2,4-dimetilfenil formamida) (em 2015). Isso concorda com Rissato et al. e Alburaki et al., que também consideraram as concentrações de pesticidas no mel muito baixas ou indetectáveis.

Isso é provável porque muitos pesticidas sintéticos são lipofílicos e se acumulam rapidamente na cera de abelha, mas não são especialmente solúveis no mel. Além disso, muitos insecticidas aplicados foliarmente actuam por contato e é improvável que estejam presentes no néctar coletado pelas abelhas.

Não foram detectados resíduos de pesticidas em amostras de abelhas adultas em 2014, nos locais de alta e baixa densidade agrícola. No entanto, como as abelhas adultas têm vida curta no verão, nossa amostragem limitada no final da temporada pode não ter detectado aplicações feitas anteriormente. Da mesma forma, em 2015, apenas produtos aplicados por apicultores foram detectados nas amostras de abelhas adultas.

[…]

Não surgem na lista de compostos encontrados os insecticidas da família dos neonicotinóides, que têm recebido uma atenção especial pelo seu papel suspeito no declínio de população de abelhas.

Apesar do amplo uso desses produtos químicos, apicultores amadores e profissionais continuam a manter colónias produtivas de abelhas em áreas com práticas agrícolas intensivas. Além disso, foi demonstrado que a produtividade das colónias aumenta com a proximidade das terras cultivadas, e as pesquisas também mostraram que as culturas em massa podem beneficiar abelhas silvestres e abelhas melíferas maneadas pelo homem, apesar de outros riscos decorrentes das práticas agrícolas e do maneio da terra.”

quantificação do intervalo de distâncias de acasalamento das abelhas melíferas e isolamento em vales semi-isolados por análise de paternidade por microssatélites de DNA

“Os machos e as rainhas de abelhas melíferas acasalam no ar e podem voar muitos quilómetros nos seus voos nupciais. A conservação de abelhas nativas, como a abelha preta europeia (Apis mellifera mellifera), portanto, requer grandes áreas isoladas para evitar a hibridização com outras subespécies, como A. m. ligustica ou A. m. carnica, que pode ter sido introduzida pelos apicultores. Este estudo utilizou marcadores microssatélites de DNA para determinar o intervalo de distâncias no acasalamento de A. m. mellifera em dois vales semi-isolados adjacentes (Edale e Hope Valley) no Peak District National Park, Inglaterra, a fim de avaliar sua adequação para a conservação de abelhas nativas e como locais de acasalamento isolados. Três apiários foram montados em cada vale, cada um contendo 12 colónias cada com uma rainha virgem e 2 colmeias com rainhas fecundadas que produziam zângãos. As rainhas virgens tinham permissão para acasalar naturalmente com zângãos das colmeias que havíamos montado e com zângãos de colmeias de propriedade de apicultores locais. Após o acasalamento, amostras de larvas de operárias foram retiradas das 41 rainhas que fecundaram com sucesso e foram genotipadas em 11 locus microssatélites de DNA. Análises de paternidade foram então realizadas para determinar distâncias de acasalamento e isolamento dos apiários. […] a média da frequência de acasalamento efetiva das rainhas de teste foi estimada em 17,2, o que é um valor normal para as abelhas. Noventa por cento dos cruzamentos ocorreram a uma distância até 7,5 km e cinquenta por cento até 2,5 km. A distância máxima de acasalamento registada foi de 15 km. Rainhas e zângãos ocasionalmente cruzavam as fronteiras entre os dois vales, mostrando que a cordilheira montanhosa de Losehill não oferece isolamento completo. No entanto, na parte mais isolada de Edale, sessenta por cento de todos os acasalamentos eram de zângãos das colmeias de Edale. A grande maioria das distâncias de acasalamento observadas situou-se na faixa de Hope Valley, tornando este local um local adequado para a conservação a longo prazo de uma população reprodutora de abelhas negras.”

fonte: https://socialevolution.ku.dk/papers/2006/jensen2006_congen.pdfh

Acasalamento natural

Reflexão: O “pool” genético das abelhas de um determinado apiário, como fica claro da leitura em cima, depende em boa medida dos zângãos presentes num raio de cerca de 7 km. Em Portugal, um dos países europeus com maior densidade de colónias por quilómetro quadrado, estes dados ilustram bem como a genética das nossas abelhas não depende apenas da selecção que promovemos, mas também da selecção que os apicultores nossos vizinhos estão a fazer. Aceitando que nós e os nossos vizinhos estamos de acordo nas características que uma “boa” abelha deve apresentar no futuro, temos as condições mínimas para avançar de forma solidária e complementar.

A característica que na minha opinião mais sentido faz apurar e melhorar num futuro de médio prazo (10 a 20 anos) passa por aumentar a resistência da abelha ao ácaro varroa. Entre os vários mecanismos a seleccionar, eles devem contribuir para um conjunto de comportamentos da colónia que diminua o potencial de fecundidade, fertilidade e longevidade do ácaro. Ao mesmo tempo que esta selecção e melhoramento é realizado é necessário manter muitas das características já hoje presentes como a produtividade e resistência a outras doenças. Muitos poucos desejarão uma abelha resistente ao ácaro e pouco produtiva, por exemplo. Esta demanda depende, como todos sabemos, da genética “adequada” não só do lado materno mas também da genética “adequada” no lado paterno, até porque alguns dados actuais indicam que a “resistência” ao ácaro será a expressão fenotípica de vários genes recessivos. Estando estes indivíduos “resistentes” presentes no nosso apiário, pelo exposto em cima, torna-se indispensável que esta qualidade esteja presente também nos restantes apiários da região.

Não sendo assim arriscamos a dar um passo para a frente e, logo depois, dois para trás. O melhoramento sustentável de abelhas neste aspecto em particular, mas também noutros, é resultado de um esforço colectivo que vai muito para além do nível do nosso apiário.

a indústria do mel mal explicada

Narrativa vegana sobre a indústria do mel

Os seguidores da ortodoxia vegana não consomem mel. Até aqui nada a criticar nem a exorbitar. Comem o que entendem que devem comer. O que já não é aceitável é que alguns deles defendam essa opção alimentar sustentados num conjunto de mentiras, meias-verdades, omissões e generalizações. No vídeo em cima podemos ver um exemplo dessa narrativa ignorante, canhestra e ofensiva para a grande maioria da apicultura nacional. Desmontemos alguns pontos dessa narrativa:

  • ao contrário do que se diz as rainhas são na sua grande maioria fecundadas naturalmente;
  • ao contrário do que se diz muitos apicultores produzem as suas próprias rainhas, não necessitando de as comprar on-line;
  • ao contrário do que se diz a maior parte dos apicultores não corta as pontas das asas às rainhas;
  • ao contrário do que se diz muitos apicultores não marcam as rainhas;
  • ao contrário do que se diz as abelhas não transportam o néctar no seu estômago, mas sim no saco nectarífero;
  • ao contrário do que se diz a colheita de mel não provoca a morte de centenas de abelhas;
  • ao contrário do que se diz não são os neonicotinoides a maior causa de mortalidade de abelhas, é a parasitação pelo ácaro varroa. São os apicultores que eliminam este ácaro, mantendo as colónias de abelhas saudáveis, impedindo assim a sua provável extinção.

Para terminar uma pequena nota: há uma nova fronteira na biologia, botânica e neuro-ciências a ser desbravada, designada de neurobiologia das plantas. Esta entusiasmante nova área científica está a fazer o seu caminho e vai, para já, afirmando que as plantas têm neurotransmissores e mecanismos que funcionam de forma análoga aos mecanismos neuronais dos animais. Vamos esperar mais um pouco, mas não me surpreenderia nada que, em breve, se torne consensual na comunidade científica que o mundo vegetal é também sensível à dor. Quando tal acontecer estarei atento às reacções dos veganos mais ortodoxos e extremistas. Acerca deste tema ver: https://www.pbs.org/video/university-place-plant-neurobiology/

um efeito materno na produção de abelhas rainhas (nem todos os ovos nascem iguais)

Será que os ovos que originarão rainhas e os ovos que originarão obreiras são exactamente iguais? Esta interrogação acompanha-me praticamente desde que me iniciei na apicultura, há 10 anos atrás. Em junho de 2017 atrevi-me a colocar publicamente esta interrogação (ver aqui). Hoje vejo confirmado neste estudo, publicado há poucos dias atrás, neste ano de 2019, que a minha interrogação de há 10 anos é pertinente, tem razão de ser, e é realista.

“O paradigma dominante para as abelhas (Apis mellifera) é que as castas são ambientalmente e não geneticamente determinadas, estando o ambiente e a dieta de larvas jovens na origem da diferenciação de castas. Um papel para os efeitos maternos não foi considerado, mas aqui mostramos que o tamanho do ovo também influencia o desenvolvimento da rainha. Verificámos que as rainhas depositavam ovos significativamente maiores nas taças/cálices reais que nos alvéolos de operárias. Ovos depositados em taças/cálices reais, ovos depositados em alvéolos de obreiras e larvas de 2 dias de alvéolos de obreiras foram transferidos para cúpulas artificiais de rainhas para serem criados como rainhas num ambiente padronizado. As rainhas adultas, recém-emergidas, originárias de taças/cálices reais, eram mais pesadas que as dos outros dois grupos e tinham mais ovaríolos, indicando uma consequência do tamanho do ovo na morfologia da rainha adulta. Análises de expressão génica identificaram vários genes com uma expressão significativamente diferente entre rainhas originárias de taças/cálices reais e aquelas originárias dos outros dois grupos experimentais. Estas diferenças incluíam um número maior de genes envolvidos na sinalização hormonal, desenvolvimento do corpo e níveis mais altos de imunidade, que são traços-chave que diferem entre rainhas e operárias. Em conclusão, o tamanho do ovo influencia a morfologia e fisiologia da rainha recém-nascida/emergida e o facto de as rainhas depositarem ovos maiores em taças/cálices reais demonstram um efeito materno da rainha na expressão do fenótipo e um papel mais ativo desta na produção da sua descendência real do que previamente se julgava.”

fonte: https://www.cell.com/current-biology/pdfExtended/S0960-9822(19)30673-6