apicultores da Europa Ocidental temem pelo futuro

Excelente artigo! Por esta razão deixo a tradução (os sublinhados/negrito são meus). Foi publicado em 2022.

“Em frente à loja de mel Api Douceur em Giromagny, em França, está um recipiente de vidro incomum ao lado do caminho que leva às colmeias. Trata-se de uma vending machine, instalada pelos donos do apiário em 2019. “Como éramos apenas dois, inicialmente não conseguíamos abrir a loja em horários regulares, então tivemos a ideia de uma vending machine, para permitir que os transeuntes, ou mesmo os caminhantes de domingo, comprem seu pote de mel”, diz Flavien Durant, 31 anos, que administra a empresa ao lado de Patrick Giraud desde 2017. A máquina de venda automática ajuda a expandir sua base de clientes e tentar lucrar com um comércio cada vez mais precário.

Embora Flavien e Patrick produzam em média oito toneladas de mel por ano, em 2021 o número caiu para 300 quilos. A maioria das 400 colmeias que tinham no final do inverno não produziram mel. A maioria dos apicultores teve o mesmo destino. A colheita de mel da França em 2021 foi de cerca de 7.000 a 9.000 toneladas, de acordo com a União Nacional de Apicultura da França (UNAF). Em 2020, foram cerca de 19.000 toneladas.

Condições climáticas adversas foram as responsáveis por uma colheita tão ruim. O inverno foi particularmente ameno, mas foi seguido por períodos de geada, frio e chuva durante a primavera e no verão. Junho chegou e Flavien ainda não tinha colhido um quilo de mel. Pior ainda, ele teve que alimentar suas abelhas, e elas já tinham consumido todas as reservas de mel de sua colmeia. “É um ano perdido, um ano pobre como nunca vimos antes.”

A situação era tal que Flavien decidiu procurar um emprego extra. Ele agora está trabalhando na indústria da construção e espera voltar a cuidar de suas abelhas na primavera. “Sendo gerente, é mais fácil para mim ir e vir do apiário. E isso me permite manter nossos dois funcionários, que realmente queremos manter.”

O departamento do Territoire de Belfort está atualmente analisando a declaração de uma “calamidade apícola”, o que poderia abrir caminho para a ajuda do Estado. Por enquanto, Flavien e seu parceiro de negócios receberam € 4.000 em ajuda da autoridade local para compensar as perdas causadas pela geada tardia. “Para produtores como nós, que vivem do que produzimos, quando não produzimos, a solução é viver das nossas reservas. Mas quando você acabou de começar, eles são muito limitados”, diz Flavien. Eles só tinham reservas suficientes para durar até dezembro.

O prelúdio de um desastre ambiental


Não é apenas na França que os apicultores estão lutando, mas em toda a Europa, refletindo uma tendência mais ampla. A produção de mel e a sobrevivência das abelhas têm diminuído constantemente nas últimas décadas. A taxa de mortalidade das abelhas é atualmente de cerca de 30 por cento. Em 1995, era de 5%, segundo a UNAF. E, no entanto, as abelhas contribuem com cerca de € 22 mil milhões para o setor agrícola europeu a cada ano – não graças ao mel que produzem, mas aos serviços de polinização que fornecem para as plantações. Os cientistas estimam que uma em cada três dentadas de comida depende de polinizadores.

A perturbação climática não é a única responsável por esse declínio. Os pesticidas usados em grande escala desde a década de 1990 também desempenharam seu papel. Numerosos estudos demonstraram a toxicidade dessas substâncias, como o realizado pela Universidade de Maryland em 2016, que também destaca os perigos do efeito sinérgico dos pesticidas.

Sébastien Guillier está mais do que familiarizado com o assunto. Em 2008, ele perdeu a maior parte de suas colónias, provavelmente devido a envenenamento. Ele trabalhava como apicultor profissional há dez anos em Haute-Saône, no nordeste da França. “No outono de 2007, as abelhas estavam com sede. Tratamentos foram aplicados na área para combater os ácaros vermelhos do trigo, e as abelhas beberam das poças, como costumam fazer. A dose deve ter sido muito alta”, explica o apicultor.

Os estados membros da UE podem conceder autorizações de emergência por até 120 dias quando houver “um perigo que não pode ser controlado por nenhum outro meio razoável”, de acordo com a diretiva da UE que rege essas medidas de emergência. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) identificou 17 medidas de emergência desde 2020, todas para a beterraba sacarina. Entre 2018 e 2020, no entanto, o projeto de jornalismo Unearthed da Greenpeace registou pelo menos 67 autorizações de emergência nos vários estados membros da UE.

Após sua derrota em 2008, Sébastien procurou levantar a questão no parlamento francês e na mídia. De pouco adiantou. Recebeu 45€ por colmeia em compensação do Estado, embora o montante necessário para reconstruir a colónia rondasse os 150€ por colmeia. Ele também teve que encontrar um segundo emprego. Ele agora trabalha como inspetor de leite e mantém cerca de 100 colméias na zona rural de Haute-Saône.

Na França, apenas três por cento dos 70.000 apicultores do país eram profissionais em 2019. O restante era amador (92 por cento) ou pluriativo (5 por cento). E embora o número de apicultores esteja aumentando em quase toda a Europa, o padrão permanece o mesmo da França: eles são principalmente amadores. Os apicultores europeus têm em média 21 colmeias.

Competição insustentável


Outro fator stressante para os apicultores é a concorrência barata do exterior. Os preços dos supermercados são muito baixos para os apicultores locais ganharem a vida, especialmente para aqueles que produzem em pequena escala.

Alguns dos produtores que mantêm os preços muito baixos estão baseados em países do Leste Europeu, como a Ucrânia, mas muitos também estão na China. Um quilo de mel importado da China custou aos grossistas € 1,40, em média, em 2020. A maioria dos apicultores da União Europeia não pode competir com esses preços. Seu custo médio de produção já é de € 3,90 por quilo, segundo a Copa-Cogeca, que representa agricultores e cooperativas agrícolas na UE. Cerca de 40 por cento do mel no mercado europeu é importado.” (ver esta publicação a propósito)

fonte: https://www.equaltimes.org/beekeepers-in-western-europe-fear

do Parque Natural de Montesinho ao Parque Natural da Serra da Estrela, um cenário de escassez

Li ontem, no jornal Brigantia, este testemunho de Carlos Alves: “Carlos Alves é o maior apicultor do Parque Natural de Montesinho. Tem 1200 colmeias, em Passos de Lomba, concelho de Vinhais. A apicultura começou por ser um passatempo, mas há cerca de sete anos decidiu profissionalizar-se, quando a actividade ainda era “rentável”. Agora, os prejuízos são grandes. “Pelas minhas contas anuais, o ano passado, na minha exploração, que se dedica exclusivamente à produção de mel, tive prejuízos entre os 12 a 15 mil euros”.

A continuar assim, pondera deixar a actividade, porque começa a ser intolerável aguentar os custos de produção. “Se este ano tiver perdas, em 2024 tenho que pensar seriamente se posso continuar ou não na actividade porque está a deixar de ser rentável. As produções estão a ser muito baixas, o custo de produção está elevadíssimo, os materiais para a apicultura estão muito caros, os alimentos também, o preço deles duplicou”.

O apicultor não compreende a falta de apoios do Ministério da Agricultura. “A falta de apoios, que temos pela parte do Estado, não se compreende porque nós temos que seguir as normas europeias, a nível de produção, tanto de bens derivados da apicultura como a forma como tratamos as colmeias. Quando se trata de direitos… não temos os mesmos direitos que os apicultores europeus”.

Foi um mero acaso, mas ontem em conversa o meu amigo Pires Veiga confirmou um cenário muito semelhante nos seus apiários situados no Parque Natural da Serra da Estrela. Meias alças vazias em junho, com as abelhas a não subirem apesar dos ninhos estarem bem povoados, com as abelhas paradas na frente das colmeias, sem vontade de saírem para o campo. A explicação que me adiantou foi a escassez de néctar no mês de abril, com o rosmaninho e outras florações a durar meia dúzia de dias, consequência das ondas de calor que também ali se sentiram. E como uma desgraça nunca vem só, as fortes chuvadas e as trovoadas do mês de maio lavaram as flores, piorando mais ainda as condições de pasto para as abelhas. Dizia-me a terminar que as coisas a continuarem assim, com fracas produções e os materiais cada vez mais caros, sem qualquer apoio digno desse nome (porque um apoio não é uma esmolinha) a apicultura será para aqueles com meia-dúzia de colmeias, que desejem passar algum do seu tempo livre a cuidar delas.

A terminar esta publicação dizer, caro amigo, que acompanho a tua análise da época e o teu sentimento acerca do futuro próximo. Haverá seguramente algumas zonas com produções razoáveis, infelizmente uma excepção à regra.

sobre a epidemia de enxameação e sobre as abelhas domésticas no Reino Unido

Em baixo deixo a tradução de um artigo publicado ontem na BBC News intitulado “Beekeepers ‘run out of equipment’ as swarms rise“. Muito interessante a explicação do apicultor Alan Deeley — eu também atrasei/adiei algumas vezes o meu maneio de prevenção da enxameação em alguns apiários por razões devidas à metereologia difícil e, quando finalmente o podia fazer, algumas colónias estavam já em modo de enxameação. Muito interessante também a opinião do professor David Chandler, sobre o papel dos apicultores na sobrevivência das abelhas melíferas domésticas.

“Os apicultores dizem que estão a ficar sem equipamentos para albergar o aumento do número dos enxames de abelhas após um período de calor.

Uma primavera longa e fria seguida do aumento das temperaturas significa que um número grande de enxames agora procuram novas localizações, dizem especialistas da Universidade de Warwick.

O público está sendo aconselhado a não entrar em pânico se avistar as abelhas e, em vez disso, chamar profissionais para as retirar.

“Foi um ano muito incomum para enxames”, disse o apicultor Alan Deeley.

Alan Deeley diz que uma longa primavera fria seguida de clima quente levou a um aumento de enxames.

Os apicultores inspecionaram as colmeias assim que se atingiram 15°C, no entanto, no início da primavera, as temperaturas permaneceram baixas, e por essa razão eles não conseguiram fazer o maneio de prevenção da enxameação, disse Deeley.

“Assim que o tempo melhorou, a enxameação aumentou de forma louca”, acrescentou.

O professor David Chandler, microbiologista e entomologista da Universidade de Warwick, disse: “Agora só existem abelhas por causa dos apicultores.

“Não há abelhas selvagens neste país porque as abelhas são afetadas por um ácaro parasita que se alimenta de seu sangue – é uma espécie invasora”.

O meu acordo total com o professor David Chandler, como se pode confirmar pelo que escrevi aqui há uma semana atrás.

Fonte: https://www.bbc.com/news/uk-england-coventry-warwickshire-65746081

jornadas apícolas marienses

Um agradecimento aos organizadores pelo convite para participar, onde descreverei as técncicas de prevenção da enxameação e as técnicas de controlo da enxameação que utilizei ao longo de vários anos num cantinho da Serra da Estrela.

Para mais informações ficam o número de telefone e o endereço electrónico no canto inferior direito do cartaz. Apareçam!

o papel dos apicultores na sobrevivência de enxames de abelhas domésticas europeias

Ontem, escrevi o seguinte no meu mural do facebook:

“A abelha doméstica europeia não está em perigo de extinção, mas tal não se deve à qualidade do ambiente como se sabe. Deve-se aos apicultores que cuidam delas. E os apicultores estão a ficar desalentados por diversas razões, principalmente pela falta de retorno do investimento que fazem ano após ano. E se assim continuar, com o abandono e falta de substituição dos apicultores mais velhos por apicultores mais novos, a abelha doméstica europeia poderá vir a correr riscos de extinção. Para que tal não aconteça importa evitar a extinção dos seus cuidadores, os apicultores.”

Uma colónia de abelhas domésticas europeias (A.m. iberiensis). A terminologia doméstica é utilizada neste contexto para identificar as colónias de abelhas que são acompanhadas e geridas pelo apicultor, e distingui-las das colónias de abelhas assilvestradas e/ou selvagens que se desenvolvem sem esse acompanhamento.

Num artigo recente da Comissão Europeia (2022), surge este quadro com a evolução do número de colónias domésticas de abelhas no período de 2016 a 2020 e no espaço da UE. Fica evidente que nos últimos 3 anos avaliados o número de colónias domésticas tem aumentado.

Contudo as razões deste aumento do número de colónias devem ser bem identificadas e melhor compreendidas.

Primeiro ponto: o efectivo tem aumentado não porque o ambiente tenha melhorado. Segundo ponto: o efectivo tem aumentado porque as colónias de abelhas têm tido, genericamente, cuidadores à altura das exigências do momento, os apicultores.

Vejamos com algum detalhe. Muitos aspectos do ambiente têm-se detriorado nos últimos anos, entre outros: o principal inimigo das abelhas melíferas, o ácaro Varroa destructor, adquire resistência a medicamentos e veicula vírus mais virulentos (tipo 2 do VAD, por exemplo); as alterações climáticas retiram potencial apícola onde antes ele existia (zonas de clima mediterrânico, entre outras); os predadores ultrapassam geografias por via do comércio global e invadem a Europa (V. velutina, entre outros); os custos e esforços para a manutenção de efectivos produtivos são cada vez maiores (custos de diversos equipamentos e produtos essenciais à apicultura e manutenção dos enxames).

Ao mesmo tempo é evidente, para os que conhecem a realidade, que o aumento de colónias de abelhas melíferas depende exclusivamente do aumento de colónias domésticas. O aumento das colónias de abelhas na Europa não se deve ao aumento dos enxames assilvestrados. Estes enxames, que surgem dos processos de enxameação de colónias domésticas, têm taxas de sobrevivência muito baixas, e a grande maioria não sobrevivem durante o primeiro ano. Os enxames de abelhas melíferas selvagens, aqueles que sobrevivem durante anos seguidos sem intervenção do homem, contam-se pelos dedos.

Nos dias de hoje a dependência da sobrevivência dos enxames de abelhas melíferas dos cuidados dos a apicultores é um aspecto por demais evidente. E este é um copo meio cheio. Por enquanto, conseguimos sustentar e até aumentar o número de colónias. Contudo esta relação é frágil, porque um dos maiores motivadores para a sua manutenção é económica, e este motivo tem sofrido uma erosão forte nos últimos anos. Sei que outros motivos, desde os espirituais, aos emocionais e ecológicos, também estão presentes nos apicultores. Tenho muitas dúvidas, contudo, se estes serão suficientes para manter os 19 milhões de colónias de abelhas domésticas existentes em 2020 na UE.

eficácia de harpas elétricas na redução da pressão de predação de Vespa velutina e consequências para o desenvolvimento de colónias de abelhas

Recentemente publicado, este estudo levado a cabo na Galiza vem confirmar os resultados que diversos apicultores encontram com a utilização de harpas eléctricas em apiários fortemente pressionados pela Vespa velutina. Realça ainda a importância das medidas de protecção que diminuem a paralisia dos voos de forrageamento. Finalmente, dizer que não se conhecendo uma medida super-eficaz, é da utilização atempada, correcta e diversificada de algumas delas que se retira os melhores resultados (ver outras medidas mencionadas neste blog e nesta categoria “predadores e inimigos”).

Foco: Avaliámos a pressão de predação e comparámos o desempenho da colónia de abelhas, o peso corporal das operárias e a sobrevivência no inverno para colónias protegidas versus desprotegidas em 36 colmeias experimentais em três apiários.”

Resultados: As harpas elétricas protegeram as abelhas, reduzindo a pressão de predação e, portanto, mitigando a paralisia de forrageamento. Consequentemente, a atividade de forrageamento, colecta de pólen, produção de cria e peso corporal de operárias foram maiores em colónias protegidas que por sua vez apresentaram maior sobrevivência de inverno do que aquelas que não foram protegidas, especialmente em locais com níveis intermédios a altos de predação.”

Detalhes do estudo

“As harpas elétricas foram colocadas perpendicularmente às entradas das colmeias, entre duas colmeias contíguas (a). Estes dispositivos foram colocados nos apiários 1 mês antes das primeiras observações. Durante a primeira semana as harpas foram desligadas para permitir que as abelhas se habituassem à sua presença. A armadilha consiste numa armação com fios verticais paralelos conectados alternadamente aos pólos positivo e negativo de um circuito elétrico. O modelo aqui utilizado possui uma modificação para minimizar as capturas acessórias. As vespas voadoras recebem um choque elétrico sempre que tocam dois fios consecutivos (b), paralisando-as por alguns segundos e caindo numa gaiola em baixo com paredes de malha que permitem a fuga de insetos menores. Em seguida, as vespas rastejam dentro da gaiola até cair numa garrafa coletora.”

Sistema de proteção: seis colmeias colocadas em linha, separadas de 20 a 30 cm cada, protegidas com cinco harpas elétricas (a). Ao caçar abelhas na frente das colmeias, as vespas voam entre fios eletrificados que as paralisam (b). Depois caem numa gaiola da qual insetos menores escapam enquanto vespas caem numa garrafa de coleta.

Atividade de forrageamento: O número de forrageiras foi afetado pela pressão de caça e mês em questão. A paralisia forrageira registada nas colmeias desprotegidas no local de maior predação (Gondomar) iniciou-se em agosto e manteve-se durante todo o estudo apesar da diminuição da predação observada em setembro. A paralisia de forrageamento ocorreu principalmente em colónias de abelhas que sofreram taxas de caça superiores a 0,8 vespas/colmeia/10 min . No local com maior pressão predatória, as colónias protegidas apresentaram maiores tamanhos populacionais dentro da colmeia do que as não protegidas durante agosto e setembro, precisamente quando estas colónias apresentaram paralisia. Observámos operárias de todas as idades permanecendo dentro da colmeia em colónias paralisadas. Além do forrageamento, outros comportamentos comuns, como coleta de resinas para produção de própolis ou atividades higiénicas, como voos higiénicos, remoção de indivíduos doentes ou cadáveres, também foram interrompidos.”

Recursos armazenados: Colmeias desprotegidas apresentaram menor colecta de pólen. Os depósitos de pólen e mel não foram significativamente afetados pela predação de V. velutina.”

Desenvolvimento da colónia: A quantidade de cria e a atividade de forrageamento foram significativamente afetadas pela pressão de predação e pelo mês em questão. A quantidade de cria apresentou níveis mais baixos nas colmeias desprotegidas do que nas colmeias protegidas no apiário com maior pressão das V. veluitnas.”

Peso das abelhas: As operárias de colmeias desprotegidas eram 6,7% mais leves do que as de colmeias protegidas.”

Sobrevivência: A sobrevivência no inverno foi de 77,8% para colónias protegidas e 55,6% para colónias desprotegidas. A sobrevivência de colónias desprotegidas foi menor nos locais com pressão de caça intermédia e alta (Fig. 5). A sobrevivência das colónias de abelhas foi ligada à pressão geral de caça e à interação entre pressão de caça e peso das abelhas, mas não apenas ao peso das abelhas.”

Sobrevivência de inverno de colónias de abelhas em três apiários, com pressão elevada, média e baixa, (desprotegidas e protegidas com harpas elétricas).

Conclusões

“Os dados revelaram que, além da predação, fatores temporais também desempenharam papéis importantes na quantidade de recursos disponíveis na colmeia e na sobrevivência da colónia. A redução na colecta de pólen coincidiu com a paralisia de forrageamento em colónias desprotegidas e provavelmente está relacionada com a baixa quantidade de cria observada durante os últimos meses do estudo. Estes resultados suportam a ideia da paralisia de forrageamento como a principal razão para os processos de enfraquecimento e subsequente colapso que afetam as colónias sob ataque de vespas. Nossas evidências sugerem que em apiários com baixas taxas de predação (menos de 1 vespa/colmeia/10 min), as abelhas foram mais capazes de lidar com o predador e o uso de harpas elétricas é de menor utilidade. No entanto, em locais onde a estação de floração é mais curta e o inverno é mais longo e com temperaturas mais baixas (como em Oia, o local de maior altitude do nosso estudo), taxas intermédia de predação levam a uma menor sobrevivência de colónias em colmeias protegidas e particularmente em colónias desprotegidas (ver gráfico em cima).

O menor peso corporal das operárias em colónias desprotegidas fornece novas evidências do stresse fisiológico que as abelhas sofrem sob esta nova ameaça. O pólen é um recurso de capital relevância para as abelhas, pois é uma importante fonte de proteínas, lipídios, vitaminas e outros nutrientes, necessários para a produção de geleia real, com a qual as larvas são alimentadas. Além disso, a qualidade e a diversidade do pólen influenciam as abelhas. Sabe-se que a saúde e a longevidade e a qualidade do pólen afetam o peso das larvas e das abelhas. Assim, a escassez de nutrientes durante a criação das larvas é um mecanismo plausível que está por trás das operárias mais leves. Além disso, a menor quantidade de criação observada em colmeias desprotegidas no final do estudo sugere que o número de operárias para hibernar é menor do que em colónias protegidas. Assim, nossos resultados revelaram que, além do baixo armazenamento de recursos alimentares, dois fatores estão por trás das mortes no inverno de colónias de abelhas desprotegidas: uma deficiência nos níveis nutricionais de adultos invernantes e um número reduzido de operárias.

Além disso, fornecemos evidências de que o estado fisiológico das operárias das abelhas é afetado pela predação de vespas. Portanto, incentivamos os apicultores a facilitar o acesso das abelhas a diversos recursos florais e de água doce, contribuindo assim para diminuir seu stresse fisiológico e falhas no regresso à colmeia. Por isso, quando as colónias sofrem de paralisia de forrageamento é recomendável a suplementação de uma dieta diversificada e rica em todos os nutrientes necessários. Isso deve ser fornecido não apenas durante o inverno para evitar a fome de colónias fracas, mas também no outono, quando as operárias que vão suportar o inverno estão em fase larval.

A instalação de harpas elétricas representa um importante investimento económico inicial para os apicultores que depende do número de harpas e seu preço comercial. Isto, por sua vez, está relacionado ao número e localização das colmeias. Tem sido sugerido um racional de uma harpa a cada duas ou três colmeias, o que provavelmente é inviável para grandes apiários. Além disso, é necessário tempo para manter um sistema funcional. Os apiários precisam ser adaptados frequentemente, e sugere-se formar linhas com distância reduzida entre as colmeias para diminuir a distância das entradas das colmeias à harpa, para obter um maior efeito protetor. Contudo, observámos que em apiários colocados em locais com alta abundância de V. velutina, com uma linha compacta de colmeias (20–30 cm de separação entre elas) e uma harpa entre duas colmeias consecutivas, a redução da pressão de caça foi significativa, mas ainda não suficiente para atingir uma predação nula. Portanto, em áreas altamente invadidas, este método de controle deve ser implantado em conjunto com medidas adicionais, como detecção e destruição de ninhos de V. velutina no entorno dos apiários, a fim de reduzir o número de vespas caçadoras e suas consequências prejudiciais à colónia de abelhas, desempenho e sobrevivência.”

fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ps.7132

ajudas à renovação do efectivo apícola… em França

Em França, país com uma realidade apícola próxima da nossa, em particular no que respeita a médias de produção e às dificuldades decorrentes do actual contexto meteorológico, os decisores atrevem-se a cometer a “heresia” de dar ajudas forfetárias e a fundo perdido aos apicultores que desejam efectuar a renovação do efectivo apícola.

Que me desculpem alguns campeões da apicultura portuguesa, que desdenham desta tipologia de ajudas, vir aqui falar novamente do “bizarro” caso francês… A razão é simples: pretendo comparar o que é razoavelmente comparável.

Não comparo com os EUA, onde os serviços de polinização dos amendoais são pagos a +200€/colónia; não comparo com o Canadá onde são habituais médias de +100kg/colónia nos campos de canola; não comparo com a Nova Zelândia onde mercado paga o mel de manuka a +400 €/kg; não comparo com a China onde o mel é maturado em fábricas; … comparo com França, com uma realidade próxima, onde os apicultores não desdenham destas ajudas, agradecem-nas e utilizam-nas.

Programa francês de ajuda à renovação do efectivo apícola, com recursos comunitários e nacionais

Ajuda forfetária para compras realizadas entre 01/08/2021 e 31/12/2022

Colmeias novas vazias: 20€
Núcleos novos vazios: 13€
Nucléolos: 8€
Enxames: 40€
Enxames Bio certificados: € 55
Pacotes de abelhas sem rainha: 32€
Rainhas: 8€

fonte: https://www.franceagrimer.fr/Autres-filieres/Apiculture/Accompagner/Dispositifs-par-filiere/Programme-apicole-europeen-PAE-2020-2022/Repeuplement-du-Cheptel

bem-hajam e mais umas coisas

A propósito desta publicação no mural do FB, o meu bem-haja aos que, das mais diversas formas, manifestaram a sua solidariedade e conforto.

Pretendi com esta publicação:

1) chamar a atenção para que num incêndio como este da Serra da Estrela a onda de morte não se resume às florestas e matos. Muita fauna e entomofauna, doméstica e selvagem, morre num primeiro momento ou fica com a sua vida muito dificultada e em perigo nos próximos tempos;

2) ilustrar o que se terá passado em dezenas ou centenas de apiários espalhados pela Serra por via do que se passou no meu;

3) antecipar que a ajuda que o estado possa vir a dar a todos os apicultores que perdem colónias nos incêndios, se a vier a dar, deve ir além do habitual fornecimento de alimento.

Deixo algumas notas justas:

Nota 1: agradeço a todos aqueles que se prontificaram de forma franca a doar-me enxames. Na minha opinião essa ajuda será melhor direccionada a outros companheiros que terão perdido uma parcela maior do seu efectivo.

Nota 2: não sendo especialista em ordenamento florestal, pergunto se este não seria um desastre anunciado. Com tanto combustível no território, com tanta continuidade de floresta e matos, estava escrito por toda a Serra que o incêndio seria gigantesco se a intervenção inicial de combate falhasse, como veio a falhar.

Nota 3: não sendo perito em conservação de parques naturais, pergunto como pode a conservação fazer-se ao arrepio dos interesses sociais e económicos da população lá residente.

Nota 4: como pode o representante da Protecção Civil pretender defender-se com uma análise Macro do que se passou neste incêndio? A análise Macro que possa querer fazer é evidente para todos: o incêndio que começou no extremo Sul da Serra, terminou no extremo Norte da mesma. Mais Serra houvesse mais Serra arderia.

vespa velutina: anestesia de um ninho com recurso a algodão embebido em gasolina

Neste vídeo, Fred Soulat, descreve os procedimentos para levar a cabo a destruição de um ninho primário de vespas asiáticas em 01-08-2022 por introdução na entrada do ninho de algodão embebido em gasolina.


“Os vapores anestesiam as vespas, só resta colocá-las no congelador para matá-las…” diz este apicultor francês.

a invasão da Austrália pela varroa: o ponto de vista de Randy Oliver

Tenho conversado diariamente com um dos dois apicultores cujas operações estão infestadas, assim como outros do setor.
Até agora, mais de 1000 de suas colónias foram sacrificadas, com muitas outras com planos para serem queimadas. Como se pode imaginar, isto é muito difícil para os apicultores, que também foram impedidos de vender os seus enormes stoks de mel armazenados.

O Departamento de Indústrias Primárias (DIP) australiano parece estar a fazer um bom trabalho de “rastreamento de contatos” (links epidemiológicos) e, até agora, todas as detecções estavam ligadas a estas duas operações. A questão-chave é definir o perímetro até onde os ácaros se afastaram destas colónias infestadas. Meu próprio rastreamento de abelhas marcadas indica que há uma deriva considerável de abelhas de colmeia em colmeia para pelo menos 800m, e algumas para 1500m. Sem mencionar que uma abelha carregando um ácaro pode forragear a distâncias de vários quilómetros de distância de sua colmeia e talvez até esbarrar com outra abelha não infestada numa flor.

As perguntas óbvias são se os ácaros saíram da zona de contenção ou se estabeleceram na população silvestre de abelhas. Se ainda estiverem limitados a uma pequena zona, há uma chance viável de erradicação. A preocupação é que atualmente é inverno na Austrália, e algumas das colmeias infestadas tinham contagens de ácaros já muito altas sendo óbvio que tiveram varroa desde pelo menos o início do verão passado. Isso teria dado tempo para uma deriva considerável, talvez para o setor de hobistas em Newcastle.

Aqueles de nós que viveram as invasões de ácaros da traqueia e varroa entendem a futilidade da erradicação se um ácaro já estiver bem estabelecido. A prole de mesmo uma única fêmea de ácaro pode-se espalhar de forma relativamente rápida por um continente, especialmente se auxiliada por transporte inadvertido por humanos.

Para uma melhor triagem de detecção, o DIP acaba de receber uma grande remessa de estrados sanitários dos EUA (que deixei claro que são mais eficazes na detecção de infestações baixas do que as lavagens com álcool). Eles também estão a trabalhar para obter tratamentos de colónias registrados no país. Nos últimos dias, conversei com um fornecedor na América do Norte, cujo telefone tocava sem parar com pedidos de casas de suprimentos de apicultura australianas.

Quando me pediram há vários anos pelo Departamento recomendações para seus planos de incursão, afirmei que se eles não estivessem dispostos a tomar medidas fortes — incluindo o uso de iscas de fipronil para matar colónias silvestres* — suas chances de erradicação seriam zero.
Embora só tenha tido comunicação indireta com o DIP durante esta incursão, estou encorajado que eles estejam de fato se preparando utilizar estas iscas.

Os apicultores profissionais do país estão bem cientes de que a possibilidade de erradicação completa é pequena, mas é claro que a agência, com base na falta de detecções fora da zona de contenção, sente que ainda tem uma chance de lutar.

Uma vez que os apicultores em breve terão de começar a deslocar as colónias para polinizar os pomares de amendoeiras, será necessário impor restrições à circulação, para evitar a dispersão da varroa pelo país. Todos sabemos que basta um único apicultor para estragar tudo num continente inteiro, então vamos cruzar os dedos para que ninguém o faça!

Os apicultores australianos gostam de ter seu mel e cera de abelha livres de acaricidas. Foram feitas sugestões para o tratamento de todas as colmeias que vão para a polinização de amêndoas com tiras de Apivar. É claro que é um retrocesso, já que os apicultores não querem resíduos nos seus produtos de colmeia.

Uma grande dúvida é se a linhagem de ácaros da incursão é resistente a algum acaricida, por isso estão a ser realizados testes. Se os ácaros introduzidos são sensíveis ao amitraz, isso pode ser uma consideração que vale a pena, já que tal tratamento em minha própria operação sem amitraz realmente elimina completamente todos os ácaros de uma colónia.

Se houver algum apicultor australiano que leia isto, aqui estão algumas sugestões:

  • Mantenha a cabeça fria. O DPI parece estar bem informado e fazendo um bom trabalho. Eu elogio-os por tentarem agir com transparência e manterem o público informado. Os apicultores podem ajudá-los cooperando plenamente, especialmente porque haverá agentes não familiarizados com as abelhas.
    Como a maioria dos apicultores australianos não estão familiarizados com os ácaros, eles devem ver fotos de ácaros em lavagens com álcool ou em estrados sanitários, para treinar o seu olhar a reconhecê-los. Eles são difíceis de serem vistos por olhos destreinados, e você não quer perder nenhum!

  • Lavagens com álcool ou shakes de açúcar de 300 abelhas podem não identificar uma infestação leve. Uma contagem com estrados sanitários, usando ácido fórmico, amitraz de libertação rápida ou até mesmo açúcar em pó numa colónia inteira, terá menos falsos negativos.
  • Falando como alguém que realiza milhares de lavagens de ácaros, a melhor recuperação é com álcool a 90% ou detergente Dawn Ultra** (que preferimos, pois oferece mais fácil recuperação, é barato e não inflamável). Eu recomendo usar Dawn em vez de álcool. Requer muito pouca agitação e muito menos trabalho por parte do apicultor.
  • Embora a possibilidade de erradicação desta incursão de varroa seja pequena, ainda é possível e vale a pena fazer o esforço.
  • Os apicultores que são obrigados a sacrificar suas colónias serão compensados*** e devem considerar o sacrifício como um esforço heróico para salvar sua indústria. A Austrália inevitavelmente será infestada pela varroa, mas quanto mais tempo puderem evitá-la melhor para os apicultores. Vamos todos torcer pelo sucesso nesta contenção e erradicação desta incursão!” — Randy Oliver

* Ainda penso que teria sucedido com a expansão da Vespa velutina se os franceses em 2005 tivessem utilizado medidas mais radicais — fipronil, ou inibidores ou reguladores do crescimento da quitina e outros insecticidas em iscos proteicos, colocados massivamente em 2005 e na região de Bordéus.

** Dawn Ultra é um detergente de louça. Desconheço se esta marca em particular é comercializada em Portugal.

*** Espero que o DIP australiano seja conhecedor do caso canadiano no que diz respeito à compensação dos apicultores. No Canadá como as compensações dadas aos apicultores para a eliminação de colónias, aquando das primeiras deteções de varroa naquele país, eram baixas teve como efeito alguns apicultores não declarem a presença de varroa nas suas colónias. O desfecho desta “avareza” é o conhecido.