produção global de mel e apicultura global

A análise detalhada da produção total de mel e das exportações indica contradições sérias e óbvias. Como mostra o gráfico abaixo, houve um enorme aumento no total de exportações globais de mel (61%), sem um aumento correspondente no número de colmeias em todo o mundo (8%).

ihm-5-2016

Graf. 1: A evolução do número de colmeias no mundo (linha castanha) entre 2007 e 2014 foi de 8%; por seu lado no mesmo período a evolução das exportações de mel (linha azul) foi de 61%.

Esta aberração é mais preocupante ainda sabendo que a população global de abelhas está sob tremendo stresse e em declínio. Nas operações de apicultura mais avançadas e profissionais do mundo, como na América do Norte e na Argentina, a produtividade por colmeia diminuiu substancialmente. Nestas zonas do mundo onde médias de 55Kg/colmeia eram típicas, atualmente produzem-se 22-32 Kg/colmeia, e em circunstâncias climáticas adversas esta média baixa ainda mais. As perdas de abelhas relacionadas com os neonicotinóides, pesticidas, ácaros, colapso das colónias, redução da área cultivada para forragem, monoculturas e monodietas, stresse, poluição ambiental e mudanças climáticas contribuíram para esta perda de produtividade por colmeia. O aumento das exportações globais de mel neste contexto associado a um número estável de colmeias e a quedas de produtividade por colmeia nos principais países produtores cria uma anomalia que sugere uma adulteração generalizada do mel.

O fato dos apicultores chineses extraírem mel com níveis de humidade muito alta na ordem dos 35-40% (quando o standard de humidade num mel maduro se situa em torno dos 17%) e posteriormente reduzirem em fábricas aquele alto teor de humidade pode ser um fator que contribui para esta anomalia. A extração de mel imaturo e não amadurecido pode aumentar as quantidades produzidas, mas diminuiem as qualidades e privam o mel dos benefícios para a saúde e o seu estatuto de produto puro e natural. Felizmente, a tecnologia de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) pode fornecer uma ferramenta eficaz para distinguir o mel imaturo e inautêntico do mel natural. Padrões para as práticas globais de apicultura profissional e metodologias de teste eficazes para o mel precisam de evoluir para preservar a integridade do mel.

Fonte: http://www.ahpanet.com/page/IntlHoneyMarket

mistura de meis UE e não UE

A concorrência dos méis de origem duvidosa, que as nossas autoridades e as autoridades de outros países permitem que sejam rotuladas como todos nós sabemos de “mistura de méis UE e não UE”, tem nos últimos anos distorcido o mercado do mel na Europa e noutras zonas do mundo (EUA e Canadá, por ex.).

Há alguns dias atrás apicultores portugueses em Lisboa e apicultores espanhóis em Mérida manifestaram-se publicamente nas ruas destas duas cidades exigindo aos respectivos governos que mudem as regras do jogo e que legislem no sentido de a rotulagem do mel indicar de forma clara e inequívoca os países de origem deste mel que se encontra à venda um pouco por todo o lado. Actualmente é o Decreto-Lei nº 214/2003 que regulamenta a rotulagem do mel.

A justeza desta exigência numa sociedade avançada e madura democraticamente faz todo o sentido uma vez que os consumidores devem ser informados com clareza acerca da origem e características dos produtos que são colocados ao seu dispôr nas diversas superfícies comerciais.

Não tendo uma bola de cristal para adivinhar o futuro, prevejo no entanto que estas iniciativas, ainda que justas e pertinentes torno a dizer, poderão esbarrar naquilo que alguns chamam de “real politic” ou a “diplomacia dos interesses”. Temo que que os nossos governantes fingindo dar-nos atenção irão adiar uma e outra vez a reposta ao problema. Julgo mesmo que esta é uma questão que só poderá ser resolvida no âmbito europeu com legislação de Bruxelas, porque a norma actual é europeia também. Por outro lado se os chineses continuam a injectar no país muito capital através de aquisições imobiliárias, se o governo procura estimular o investimento chinês nos sectores produtivos da nossa economia, se temos o NovoBanco para vender e os chineses estão na corrida, se os chineses têm uma. forte presença noutros sectores relevantes para a economia nacional, porque razão iria o governo português comprar uma quezília com os chineses por causa dos rótulos de frascos de mel? Poderá acontecer uma cena bíblica, como a de Davide e Golias; mas isso só acontece uma vez, e os apicultores não têm a mão de Deus por trás como teve Davide e a China é muito maior que Golias. Ou muito me engano, e quero enganar-me, ou tudo isto dará uma boa história para alguns contarem mas de frutos nada. Não deveremos preparar um plano B no caso deste falhar? Porque a solução não é ficar de braços cruzados, claro que não. Sugiro portanto o apoio do estado para uma campanha nos canais de comunicação social por ele tutelados (rádio e televisão públicas) para a importância do consumo do mel e particularmente do mel nacional, a exemplo da campanha que foi feita para o sector do leite.

A juntar a esta campanha que estará sempre dependente da boa vontade e interesse de terceiros  julgo que nós próprios podemos fazer mais do que fizemos até agora para alertar os consumidores. Porque não colocar um contra-rótulo nas costas dos frascos de nosso mel nacional e que colocamos no mercado a chamar a atenção dos consumidores para evitar consumir mel que não identifique claramente os países de origem do mesmo e sensibilizar os consumidores para que prefira o mel nacional porque as abelhas dos outros países não polinizam as árvores e flores de Portugal.

Fica este espaço em aberto para sugestões que possam estimular o consumo do nosso mel, e se andar por aí alguém com formação em Direito que nos diga por favor se podemos “contra-rotular” nos termos que eu sugiro.

Este post foi inspirado no Monte do Mel e pelo post do António Marques acerca do seu encontro de 3º grau com uma mistura de meis UE e não UE numa casa de turismo rural no nosso país (ver http://montedomel.blogspot.pt/2016/10/turismo-rural-descaracterizado.html) e no post do Afonso no Abelhas do Agreste acerca da manifestação em Lisboa.

o mel de melada ou o mel do bosque

O mel de melada (também designado mel do bosque) provém de um líquido açucarado secretado por insetos, como os pulgões/afídeos, que sugam a seiva de certas plantas/árvores. Este líquido açucarado é, por seu turno, coletado pelas abelhas nos afídeos ou directamente nas plantas e árvores e depois convertido em mel de cor escura com reflexos avermelhados à contraluz, malteado no palato e muito denso ou de viscosidade forte. Este mel de melada é também conhecido como mel do bosque ou mel de floresta e pode ter origens diversas, tendo como ponto comum ser um mel não-floral, ou como outros indicam um mel extra-floral. Algumas variedades são nomeadas de acordo com a fonte vegetal a partir do qual as abelhas recolhem a melada (por exemplo o famoso e valorizado mel de “sapin” francês, que pessoalmente acho muito semelhante ao mel de azinheira que produzo).

A composição, propriedades e benefícios do mel de melada são diferentes das que habitualmente encontramos no mel derivado do néctar das flores.

Em geral os méis de melada não cristalizam devido ao menor teor de glicose e contém uma alta concentração de minerais, uma característica identitária destes méis. Possuem um sabor forte amadeirado e persistente na boca. Apresentam uma cor escura, um menor aroma e são uma solução altamente viscosa  muito pegajosa ao toque.

As principais diferenças entre o mel de néctar floral e o mel de melada são:

  • Composição: os méis de melada contêm um elevado teor de sais minerais, açúcares complexos tais como rafinose e melezitose e aminoácidos.
  • Sabor e cor: é de cor escura e menos doce em comparação com o mel de flores.
  • A cristalização: a presença de açúcares complexos impede a cristalização. Em geral o alto teor de frutose em relação com a glicose e menor quantidade de água impede a cristalização deste tipo de mel.

Contudo a melada de carvalho e azinheira (a mais comuns no nosso país), ao contrário de outras variedades de mel derivadas de melada, fica cristalizada muito facilmente formando cristais grandes e firmes, é um mel de cor escura, com um aroma intenso e sabor malteado (a mim lembra-me bastante a cerveja preta).

As condições climáticas mais propícias à produção deste tipo de mel não se verificaram este ano na zona dos meus apiários. Faltaram as névoas matinais e maior fresquidão e em seu lugar tive/tivemos dias tórridos e sem humidade no ar, que se instalaram em especial a partir do final de Junho.

Estranhamente, o mel de melada não é considerado um bom alimento de inverno para as abelhas, porque pode ser bastante elevado em cinzas, a principal causa de disenteria nas abelhas. Os apicultores muitas vezes removem o mel de melada das suas colmeias antes do início do inverno .

No que respeita ao mercado, o mel de melada é geralmente um pouco mais valorizado nos mercados internacionais, sobretudo no centro e norte da europa, quando comparado com a generalidade dos méis mais claros. A razão pode estar no facto de apresentarem uma condutividade eléctrica maior, o que pode facilitar o trabalho dos grandes grossistas na sua homogeneização e mistura com outros lotes de méis.

A terminar uma dica para quem desejar produzir estes méis: tenham preparados quadros com cera limpa e já puxada para colocar nas alças meleiras, pois na altura das meladas (Julho a Setembro) as abelhas têm já muita dificuldade em puxar cera.

características físico-químicas do mel, legislação e atitude

Para colocarmos no mercado o nosso mel este deve cumprir com uma série de requisitos. A legislação nacional define as características fisico-químicas que o mel deve apresentar. Apresento em seguida algumas das principais.

O mel é uma solução saturada de frutose e glucose. Dissacarídeos como maltose e sacarose, trealose e isomaltose, trissacarídeos como a melezitose e os oligossacarídeos existem em muito pequena quantidade. Segundo a legislação portuguesa, o teor mínimo de frutose e glucose no mel de néctar é de 60 g/100g e o teor máximo de sacarose é de 5 g/100g.

O teor máximo de água permitido nos méis em geral é de 20%, exceto no mel de urze (Calluna spp.), que é de 23% . O teor de água constitui um parâmetro determinante para o estabelecimento do prazo de validade. Os méis com um teor de água elevado, superior a 20% , têm tendência a separar-se em duas fases: uma granulada, no fundo do recipiente, e uma líquida, no topo, o que permite o desenvolvimento de leveduras que provocam a deterioração do mel por fermentação.

O teor de matérias insolúveis em água, partículas de cera suspensas e/ou resíduos de insetos e vegetais, no mel, não deve, segundo a legislação portuguesa, exceder os 0,1 gramas por 100 gramas de mel, com exceção do mel prensado cujo valor máximo é de 0,5 gramas por 100 gramas de mel.

A condutividade elétrica legislada para o mel de melada (substância açucarada natural produzida pelas abelhas da espécie Apis mellifera a partir de secreções de partes vivas das plantas ou de excreções de insetos sugadores de plantas), mel de flores de castanheiro e mistura desses méis é de 0,8 mS.cm-1, no mínimo, e para os restantes méis ou sua mistura é de 0,8 mS.cm-1, no máximo . Este parâmetro está intimamente relacionado com a concentração de sais minerais, ácidos orgânicos e proteínas, apresentando uma grande variabilidade de acordo com a origem floral.

A acidez do mel deve-se à presença de ácidos orgânicos, principalmente ácido glucónico, em equilíbrio com as suas lactonas. Apesar de não se encontrar legislado, o pH do mel varia entre 3,4 e 6,1 e tem um valor médio de 3,98.

Segundo a legislação portuguesa, um dos critérios de composição ao qual o mel deve obedecer diz respeito ao teor de hidroximetilfurfural (HMF) e índice diastásico (ID, hidrólise enzimática do amido ou glicogénio em maltodextrinas), parâmetros que são determinados após tratamento e mistura de méis, caso se realizem. Relativamente ao teor de HMF, este é um parâmetro que está relacionado com a menor frescura do mel uma vez que se não se encontra no mel fresco e tem tendência para aumentar durante o processamento e/ ou envelhecimento do produto. A sua concentração é influenciada por: i) temperatura e tempo de processamento, ii) condições de armazenamento, iii) pH, e iv) fonte floral. O teor máximo permitido para o HMF é de 40 mg/kg para os méis em geral. Se os níveis de HMF se verificarem superiores aos legislados, tal indica que o mel sofreu sobreaquecimento e/ou más práticas de armazenamento.

Por outro lado, tal como o teor de HMF, a atividade de diastase pode ser usada como um indicador do envelhecimento e sobreaquecimento do mel, No que diz respeito ao índice diastásico, e segundo a legislação portuguesa, este é medido recorrendo ao uso da escala de Schade. Para os méis em geral, o índice diastásico deverá ser, no mínimo, 8 unidades de Schade.

A prestação de informação aos consumidores sobre os géneros alimentícios consta do Regulamento (UE) n.º 1169/201123, o qual menciona a informação obrigatória sobre os géneros alimentícios. No caso do mel deverão constar da rotulagem informações como: i) o nome do produto, ii) o seu país de origem, iii) o lote a que pertence, iv) o número de controlo veterinário, v) o peso líquido, vi) a data de durabilidade mínima ou data-limite de consumo, vii) as condições especiais de conservação, viii) a informação nutricional e ix) o nome ou a firma e o endereço do operador do setor alimentar.

fonte: http://www.azores.gov.pt/NR/rdonlyres/475AF000-15ED-4E8E-B813-45CB5B7B6F9C/0/i005904.pdf

Se estes dados importam a todos nós apicultores porque todo o mel que colocamos no mercado deve ser íntegro, importam sobretudo aos que vendem a sua produção por grosso para o mercado nacional ou estrangeiro. Podemos colocar a nossa reputação e o negócio em questão quando incorporamos na encomenda de “n” bidões de mel um lote de mel que dificilmente cumprirá estes critérios, na expectativa que passará sem ser detectado no meio de todo o outro.

Se a boa reputação demora anos a ser conquistada pode levar apenas alguns segundos a ser destruída. Saibamos ser pacientes e íntegros, porque esta é seguramente a nossa mais-valia perante os nossos parceiros comerciais.

 

vendo mel claro da colheita de 2016 já enfrascado

Nos próximos dias iniciarei a cresta dos meis claros (a floração predominante é o rosmaninho, ainda que não possa garantir que é um mel que cumpra os requisitos necessários a um monofloral).

Neste momento inicial vou comercializar o meu mel só na modalidade enfrascado em frascos sem rótulo, a pensar no potencial mercado de companheiros apicultores que necessitem de uns frascos para satisfazer as necessidades dos seus clientes.  Os frascos que terei ao dispôr serão de 1Kg, o,5Kg e 0,25 Kg.

Deixo a tabela de preços* aos interessados:

1 Kg = 4,80 €;

0,5 Kg = 2,80 €;

0,25 Kg = 1,80 €.

* (ao qual acrescem os 6% do IVA)

Aceitam-se encomendas para quantidades não inferiores a 48 Kg, a entregar no distrito da Guarda ou no distrito de Coimbra.

Estou disponível neste endereço electrónico para receber as encomendas e detalhar o que entenderem necessário: jejgomes@gmail.com

mercado do mel: mel ou adoçantes??!!

Inicio este nova categoria intitulada “mercado do mel” dado que a comercialização a retalho ou por grosso do mel que as nossa abelhas produzem é um tema que a todos nós importa.

Deixo também já clara a minha declaração de interesses: por norma serei um defensor convicto do mel produzido em Portugal, um mel de grande qualidade que tem na sua origem florações predominantemente silvestres, e um observador muito desconfiado do mel que a nossa lei permite que seja designado “não UE”. O que se quer esconder por detrás do biombo desta designação que encontramos tão frequentemente nos rótulos do mel importado? Estou consciente que a maior parte dos meus leitores (apicultores também) pensam como eu, e que para poder ter algum impacto teria de chegar a outro público, o público dos que consomem mel e não são apicultores. Contudo caso por aqui passe um consumidor de mel, menos prevenido e informado acerca do mercado do mel, espero que no final faça como os consumidores chineses que estão a mudar as suas opções de compra e a comprar sempre que podem directamente ao apicultor. As razões de tal opção estão bem sustentadas como podemos ver de seguida.

ESTRANHÍSSIMO!!! Estudos em torno da produção e consumo de mel chinês têm indicado que a China consome muito mais mel do que produz, e muito mais mel do que a soma da sua produção e importações.

COMO SE FAZ A QUADRATURA DO CIRCULO??? Conforme relatado ao longo dos últimos anos, a comunicação social chinesa indicou que em numerosas cidades onde foram realizados testes à pureza do mel vendido no mercado de retalho, em mais de metade das amostras de mel analisadas foram encontradas adulterações com até 70-100 % de outros adoçantes.

ELES RECLAMAM!!! E NÓS??? Isto levou a reclamações dos consumidores chineses e a uma tendência para comprar o mel diretamente aos apicultores.

Fonte: http://us1.campaign-archive1.com/?u=5fd2b1aa990e63193af2a573d&id=78b929f20f&e=5229dfa01a

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Fig. 1 — Se nem todos os que se vestem como Batman são o Batman porque é que uma embalagem rotulada como sendo mel de origem “não UE” teria de ser mel puro?