A sensibilidade para a necessidade de uma mão ecológica para com os polinizadores vem crescendo. O projecto Stripes, referido nesta publicação de 2019, é a materialização desta sensibilidade. Outros projectos com objectivos semelhantes têm aparecido, nomeadamente o Apiluz em França, que é objecto desta publicação.
“Em 2021, foram preservados 1.700 km de faixas de alfafa (luzerna)* não cortadas no projeto Apiluz, lançado pela associação Symbiose. O objetivo: aliviar a escassez de alimentos dos polinizadores em junho e julho. Isto representa 560 ha não cultivados nos oito departamentos envolvidos (Aisne, Ardennes, Marne, Seine-et-Marne, Aube, Haute-Marne, Yonne e Val-de-Marne).
No leste da França, a associação Symbiose está a trabalhar para financiar o projeto Apiluz para os próximos anos. Em 2021, conseguiu instalar 1.700 km de faixas de alfafa não cortadas para polinizadores
Lançado entre 2014 e 2016, o Apiluz consistiu inicialmente no lançamento de protocolos experimentais. Estes permitiram determinar as características técnicas do projeto (largura da faixa, localização na parcela para limitar a sujidade, etc.) e verificar a sua eficácia.
Ajuda financeira “Sem o dinheiro vivo dos parceiros, incluindo o Lidl, não teríamos conseguido o que fizemos”, disse Philippe Lecompte, apicultor e presidente da Réseau Biodiversité pour les Abeilles (RBA) (ver aqui entrevista).
A Apiluz teve, de facto, vários financiadores para a sua implantação: Lidl (€ 114.000 dos € 350.000 do projeto), as fundações Avril e Crédit Agricole Nord Est, a Câmara de Agricultura do Marne, Cérèsia, a região do Grand Est e as cooperativas de alfafa (Luzeal , Sundeshy, Capdéa, Prodeva, Cristal Union, Tereos).
Estes apoios permitiram compensar as perdas associadas à manutenção destas faixas aos agricultores (–2 t/ha) e pelas plantas desidratadas (qualidade impactada pela queda do teor de proteína da alfafa em floração).
Trabalho no período pós-2021 “Estamos demonstrando a possibilidade de uma política de interesses convergentes, com uma abordagem económica da biodiversidade”, disse Philippe Lecompte. Mas também buscamos financiamento de longo prazo. Desenvolvimentos em benefício da biodiversidade têm um custo e a pergunta é: quem paga? Os nossos impostos através da política agrícola comum, os nossos agricultores dos seus próprios rendimentos? Através de sinais de qualidade, responsabilidade social empresarial? Presumivelmente, vamos mover-nos em direção a uma mistura de todos. Trabalharemos nesse sentido no período pós-2021. »
Projeto multiparceiro Hervé Lapie, presidente da Symbiose e presidente da FDSEA de la Marne, destacou a força da rede de múltiplos parceiros para realizar tais projetos por meio de consultas. Criada em 2012, a Symbiose reúne vários atores do leste da França: agricultores, apicultores, caçadores, naturalistas, administração…
A Symbiose procura que o interesse deste projeto pela biodiversidade seja reconhecido à escala nacional. Hervé Lapie, no entanto, lamentou a ausência de representantes dos Ministérios da Agricultura e da Transição Ecológica durante a apresentação em 2 de julho de 2021.”
*Medicago sativa, conhecida pelos nomes comuns de luzerna e alfafa, é uma leguminosa perene, pertencente à família Fabaceae e subfamília Faboideae, amplamente utilizada como alimento para ruminantes em regiões de clima temperado e seco. O nome alfafa significa em árabe “O melhor alimento”.
Os vírus são das principais causas de mortalidade em espécies sociais (ver o caso da recente pandemia COVID-19). Também as colónias de abelhas são afectadas por vírus, e entre outros destaca-se o Vírus das Asas Deformadas (VAD), que pela sua virulência e ubiquidade está fortemente associado ao colapso de muitos enxames de abelhas melíferas europeias. Como sabemos, um dos mais importantes vectores do VAD entre as abelhas são os ácaros varroa.
as asas das abelhas afetadas pelo VAD encolhem e deformam-se, as abelhas ficam impedidas de voar e com a vida substancialmente encurtada;
noutros casos os vírus atacam o sistema nervoso das abelhas, a tal ponto que acabam por perder o sentido de orientação. Resultado, elas não conseguem encontrar o caminho de regresso à sua colmeia.
Uma nova estirpe de vírus mais virulenta ocupa o lugar da anterior estirpe
Como sabemos da nossa recente experiência pandémica, os vírus sofrem mutações frequentes, das quais emergem novas estirpes mais ou menos virulentas, algumas das quais tendem a tornar-se prevalentes na população dos hospedeiros. Ora foi o que aconteceu recentemente com o VAD: sofreu uma mutação, mutação essa que está a tomar o lugar da estirpe anterior (VAD-A), a tornar-se prevalente nas colónias de abelhas pela Europa fora. Infelizmente esta nova estirpe (VAD-B) é mais virulenta: transmite-se mais facilmente e mata mais rapidamente os seus hospedeiros (em regra em 48h). Com esta nova estirpe as colónias de abelhas estão em maior risco do que estavam num passado recente.
Como referido no artigo Virus des ailes déformées (DWV-B) : le variant mortel qui menace les abeilles dans le monde entier, publicado em 2022: “Em entrevista à Bee Culture (revista americana de apicultura), os autores do estudo* apontam que a nova variante (DWV [VAD]-B) mata as abelhas mais rapidamente e é transmitida com mais facilidade que o DWV [VAD]-A. Eles identificam claramente o DWV [VAD] como a maior ameaça às colónias de abelhas“.
* Paxton, Robert J., et al. “Epidemiology of a major honey bee pathogen, deformed wing virus: potential worldwide replacement of genotype A by genotype B.” International Journal for Parasitology: Parasites and Wildlife 18 (2022): 157-171.
Na ausência de tratamento para este e outros vírus que fragilizam e reduzem de forma significativa a longevidade e funcionalidade das abelhas fazendo perigar a sobrevivência das colónias, a solução para reduzir o impacto desta ameaça passa por baixar a presença dos seus vectores, neste caso o ácaro varroa. Para tal o apicultor deve fazer os tratamentos atempadamente, com eficiência e eficácia, para salvaguardar o estado sanitário das abelhas, em particular as de inverno que começam a ser criadas no final de agosto/princípio de setembro em muitas das nossas colónias.
Deixo em baixo a tradução de uma entrevista a Philippe Lecompte, apicultor profissional no Marne e presidente da Réseau biodiversité pour les abeilles (RBA), publicada no início deste ano. Sobre os vírus e a varroa tenho escrito muito, sobre os neonics pouco ou nada. Esta opção é reveladora do meu pensamento e do alinhamento do pensamento de Philippe Lecompte com o meu. Está na hora de dar um passo em frente e ultrapassar o debate conflituoso e mal orientado entre a agricultura e a apicultura.
“A mortalidade das abelhas nunca foi tão alta como no inverno passado, diz Philippe Lecompte, apicultor profissional no Marne e presidente da Réseau biodiversité pour les abeilles (RBA). Ao contrário da crença popular, os produtos fitossanitários e, em particular, os neonicotinóides (NNI), não são responsáveis por esta mortalidade sem paralelo. O desenvolvimento de populações de vírus é a principal causa. »
60 vírus letais estão permanentemente presentes numa colmeia. A partir de certo limiar, as defesas imunológicas das abelhas não são suficientes para os enfrentar. Elas desenvolvem patologias e enfraquecem até morrer. Philippe Lecompte não entende. “Há mais de 10 anos que os cientistas alertam sobre o desenvolvimento de populações virais e as consequências devastadoras associadas, mas ninguém quer ouvir isso.”
O apicultor acredita que o conhecimento científico enfrenta dificuldades para ser divulgado aos apicultores. Apenas 12% deles acham que os vírus representam um problema para as colmeias, segundo a ANSES. “Infelizmente é muito pouco, lamenta Philippe Lecompte. Estamos em negação. Precisamos mudar nosso raciocínio e ter outra visão da apicultura e suas questões.”
Desde a década de 1980, vários parasitas exóticos colonizaram a França, incluindo o ácaro varroa. Eles representam verdadeiras portas abertas para os vírus. Em território francês, as abelhas não evoluíram com esses parasitas, o que explica as suas dificuldades para se proteger contra eles. “Um vírus multiplica-se intensamente, o que inegavelmente leva a erros de multiplicação genética e ao desenvolvimento de novas estirpes”, explica o apicultor. Transmissor direto e indireto, o varroa recombina vírus e amplifica sua patogenicidade. Isso cria uma competição entre os vírus e os hospedeiros que os combatem.
“Estamos a assistir a um verdadeiro problema viral que merece ser explicado aos apicultores e por eles combatido”, adverte Philippe Lecompte. Ele fica aborrecido ao observar que, nos últimos dois anos, muitas publicações se concentraram no vírus das asas deformadas (vírus DWV), transmitidos pelo ácaro varroa, são esquecidas. Em níveis baixos, este vírus causa grandes distúrbios na orientação espacial e no sistema nervoso das abelhas*. “Ainda temos pouco conhecimento e, no entanto, o alerta sobre esta questão da virologia existe desde a década de 1980 e foi ampliado desde os anos 2000! Hoje, cerca de 30% do orçamento para pesquisa em apicultura é dedicado ao combate à varroa. Mas nada está planeado para estudar as consequências dos vírus e seus efeitos devastadores na saúde das abelhas”.
Os restantes 70% do orçamento destinam-se a financiar estudos sobre o impacto dos produtos fitossanitários na mortalidade das abelhas. “Esta pesquisa é altamente divulgada. Assim, podemos compreender facilmente porque os produtos fitossanitários (NNI, SDHI e até o glifosato) provocam tanto descontentamento entre os apicultores, protesta Philippe Lecompte. Os produtos fitossanitários são o bode expiatório da apicultura quando não há comprovação científica de que sejam os responsáveis pela massiva e recorrente mortalidade das abelhas. É certo que os laboratórios conseguem medir uma ínfima concentração de produtos fitossanitários nas colmeias. Mas e quanto ao seu efeito na saúde da colmeia?
Para o apicultor profissional, a implantação de técnicas como a espectrometria de massa permitiria determinar a presença e o impacto de ataques virais e outros stressores, a fim de antecipar problemas relacionados com a saúde da colméia. “Precisamos investir nessa nova tecnologia extremamente promissora”, explica o apicultor. Esta é uma das condições para sair dos debates conflituosos entre agricultura e apicultura.”
Um exemplo e um modelo, o caso francês. Com uma estrutura sócio-demográfica do sector apícola bastante próxima da nossa, isto é, um sector predominantemente não-profissional, com uma distribuição de colónias por tipologia de apicultor semelhante à nossa, com um sector com gente mais madura que jovem, com as mesmas ameaças bióticas (varroa e velutina) e abióticas (aumentos da imprevisibilidade metereológica e extremos climáticos mais frequentes e duradouros), os decisores políticos estão relativamente atentos e actuantes, o que se materializa num orçamento de apoios directos à apicultura fortemente revisto em alta em duas áreas críticas: 1) apoios à manutenção do efectivo apícola; 2) apoios à modernização das operações de transumância. Por cá é o desprezo na atenção devida, a mediocridade das vistas curtas.
“O ano de 2023 marcará uma mudança na ajuda à apicultura Para 2023-2027, as ajudas à manutenção do efectivo apícola e à transumância mantêm-se, com novas despesas elegíveis e um orçamento fortemente revisto em alta.
Equipamento para transumância na floresta. Novos equipamentos serão elegíveis para ajuda a partir de 2023.
Desde 2004, a Europa acompanha e financia um programa destinado a melhorar as condições de produção e comercialização de produtos apícolas. Cada Estado-Membro dispõe de um orçamento anual indexado ao número de colónias presentes no seu território, devendo apresentar à Comissão Europeia um programa, detalhando a implementação no seu território das principais ações enquadradas pela UE. Sucederam-se assim os vários programas europeus de apicultura, com a duração de três anos, nomeadamente duas ajudas directas aos apicultores: a ajuda à manutenção do efectivo apícola e a ajuda à transumância.
A partir de janeiro de 2023, as medidas de apicultura serão integradas na política agrícola comum (PAC) e, portanto, serão objeto de um programa setorial de apicultura (PSA) de cinco anos. Uma mudança significativa no apoio público à indústria apícola!
Gestão do ano civil A partir de 2023, o PSA será gerido por ano civil. Assim, para 2023, os investimentos devem ser feitos e pagos pelos apicultores entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2023. Mesmo que os pedidos de ajuda possam ser apresentados já no outono de 2023, os apicultores terão um prazo adicional em janeiro de 2024 para apresentar seus casos. É, portanto, o fim dos processos a serem apresentados em pleno verão, em plena época apícola.
A ajuda à transumância e manutenção do efectivo será alargada a novos materiais e equipamentos. Para ajudar a manter a apicultura no contexto das alterações climáticas e para dispositivos anti-roubo, por exemplo. Assim, além de manter os investimentos habituais (colmeias, enxames, rainhas, etc.), deverão surgir novos investimentos: isolamento de colmeias, bebedouros, colmeias conectadas à rede e vários dispositivos anti-roubo.
Uma lista mais ampla de investimentos elegíveis Este não é o momento para imprudência ou gastos excessivos. A Europa exige que a FranceAgriMer regule o uso dos orçamentos. Isso requer uma lista precisa de investimentos elegíveis para assistência à transumância. Quanto à ajuda à manutenção do efectivo apícola, a FranceAgriMer garante que o apicultor assegurou uma boa gestão de Varroa, pedindo prova de compra de um medicamento anti-Varroa homologado. A implementação de uma auditoria de sanidade a partir de 2024 também está sendo considerada, em alguns casos.
Lado do orçamento O desenvolvimento mais marcante desse novo programa continua sendo o modelo orçamentário. A partir de 2023 as duas ajudas diretas terão um orçamento total de 4,375 milhões de euros por ano: 1) Com um aumento de 67% para ajuda à manutenção do efectivo apícola; 2) E um aumento de 119% para ajuda à transumância; 3) Um aumento semelhante está previsto para as outras medidas do futuro programa setorial da apicultura.“
Em baixo deixo dois gráficos retirados de um documento intitulado L’apiculture à travers les questions adressées au gouvernement par les députés (Apicultura através das questões dirigidas ao governo pelos deputados).
A partir da legislatura de 2002-2007, a apicultura “entrou” na Assembleia Nacional Francesa. Nessa legislatura os deputados colocaram cerca de 300 questões sobre o sector ao governo. Na legislatura seguinte o número de questões atingiu o pico, chegando perto das 700. De lá para cá o número tem descido e na última legislatura, de 2017-a 2022, as questões aproximaram-se das 300. Com uma taxa de resposta superior a 90% a partir da 12.ª legislatura, a apicultura é um tema sobre o qual o Governo mais responde às questões colocadas pelos deputados. A título de comparação, 78% de todas as questões escritas produzidas durante a 15ª legislatura tiveram resposta do Governo.Na última legislatura (2017-2022) verifica-se uma alteração na temática das questões colocadas pelos deputados, que se re-orientaram para uma partilha entre questões sanitárias e questões económicas.
Hipótese de explicação: Nestes anos mais próximos, a multiplicação de episódios climáticos extremos (geadas tardias, precipitações, secas, etc.) resulta em episódios de escassez de alimentos para os enxames de abelhas, devido à redução do pasto alimentar. As consequências são económicas e de saúde. Traduzem-se num aumento dos custos de produção com a alimentação das abelhas e na renovação dos efectivos, redução do rendimento das colónias, tanto mais significativo quanto a gestão sanitária é crescentemente mais exigente. Actualmente, observam-se altas taxas de mortalidade no final da invernada, que também podem ser causadas por outros fatores epidemiológicos. Também contribuem o aparecimento de novos bioagressores (Vespa orientalis, aethina thumida), o reforço da pressão dos já existentes (Vespa velutina nigrithorax) ou as consequências do stress químico, ligado à utilização de pesticidas nas culturas ou na pecuária que implicam uma alta taxa de mortalidade de colónias e um enfraquecimento dos apiários, principalmente entre os apicultores amadores. Em termos de questões parlamentares, isto traduz-se em questões sobre as medidas previstas pelo Governo para apoiar a economia apícola e reduzir os factores de stress das abelhas.
Por cá, em Portugal, o diagnóstico faz-se rapidamente: as questões dos deputados ao governo são próximo do inexistente. A atenção dos governos mais recentes ao sector tem sido nenhuma.
Num período de interregno da minha actividade apícola no campo, o bichinho permanece, e uma parte do meu tempo é ocupado a pesquisar, ler, reflectir, sonhar sobre abelhas. Como mestre em Ciências da Educação, é natural que me interesse muito a faceta pedagógica/andragógica, interesse que consigo expressar em boa medida com este blog. Sem o apoio de minha mulher e de meu filho tudo seria muito mais difícil. Um beijo para Vós!
Agradeço a todos os que acompanham as publicações que vou fazendo, são uma grande motivação para continuar. Nos últimos dois meses a maior parte das 20 mil visitas são expectavelmente leitores de Portugal… mas não só. Fica em baixo o escalonamento por país de origem das visitas ao abelhas à beira. Muita saúde para todos e muita saúde para as vossas abelhas onde quer que estejam.
Os apoios à transumância são críticos para a sustentabilidade do sector, porque cada vez mais o apicultor tem de “andar atrás” de fluxos. Se os fluxos da primavera não dão (como não deram este ano) transuma-se as colónias para zonas onde os fluxos de verão poderão dar alguma coisa. Se nem uns nem outros dão, transuma-se para a polinização de pomares,… e outras combinações possíveis. Para fazer a transumância de colónias são muito úteis alguns equipamentos dedicados, geralmente dispendiosos, indispensáveis para fazer um trabalho com melhores condições de higiene e segurança e com mais eficiência e eficácia. Estes apoios à sua aquisição fazem uma grande diferença no momento da decisão para avançar.
Nesta publicação apresento a actualização para 2023 dos apoios ao dispor dos apicultores franceses para modernizarem as suas operações de transumância. Em baixo deixo a tradução (para aceder ao documento original clique na imagem em baixo).
“Este dispositivo visa ajudar a financiar equipamentos para modernizar os apiários e reduzir a dureza do trabalho durante as operações de transumância.
O auxílio é de no máximo 40% do montante sem impostos do investimento elegível.
A ajuda financeira é co-financiada: 50% com créditos europeus (FEAGA) e 50% com créditos nacionais.
Investimentos elegíveis
Gruas
Empilhadores todo o terreno de 4 rodas
Carrinhos com motor elétrico
Empilhadores elétricos
Reboques
Plataformas elevatórias
Bandeja de carga para veículos
Paletes
Roçadeira com autopropulsão
Roçadeira de mochila
Melhoramento/adaptação dos locais de transumância
Balanças eletrónicas com informação remota
Valor mínimo de ajuda: € 700 por pedido (representa um valor mínimo de investimentos elegíveis de € 1.750) Montante máximo da ajuda: a ajuda é limitada anualmente por exploração aos seguintes montantes:
Até 150 colónias declaradas: 7.000€ de ajuda correspondente a um montante total de investimentos elegíveis de 17.500€ excluindo impostos;
Mais de 150 colónias declaradas: 15.000€ de ajuda correspondente a um montante total de investimentos elegíveis de 37.500€ excluindo impostos.
Nota: nesta publicação indiquei os equipamentos e valores máximos elegíveis para o ano de 2021.
Notas: 1) O FEAGA também abrange Portugal. 2) Estive a ler e reler as condições/regulamento dos actuais apoios aos apicultores transumantes portugueses e não entendi as normas/artigos* (ver aqui, na pag. 301-302, secção IV). Se alguém quiser explicar pode utilizar a caixa de comentários para o fazer. Desde já o meu bem-haja!
não deixa de ter alguma ironia não ter compreendido, num documento escrito na minha língua materna, que apoios em concreto tem o apicultor português, e facilmente ter entendido os apoios que tem um apicultor francês, e escritos numa língua que não é minha.
Como sabemos, a poliandria, a panmixia e o sistema haplodiploide conduzem a uma elevada diversidade genética dentro do enxame. O enxame é a soma de diversas sub-famílias de abelhas de diferentes linhas paternas mais ou menos aproximadas do ponto de vista genético. Esta diversidade traduz-se em ganhos de adaptabilidade e performance dos enxames face aos desafios ambientais. Contudo, esta diversidade introduz dificuldades na selecção de traços/comportamentos desejáveis quando os critérios de escolha de que dispomos estão limitados à observação do comportamento da colónia como um todo, isto é, quando a selecção é feita ao nível da colónia. Quando seleccionamos esta ou aquela colónia porque gostamos do seu comportamento X ou Y, quer para nos dar larvas para o translarve, quer para nos dar zângãos para saturar uma zona de congregação, partimos do pressuposto de que esse comportamento que desejamos selecionar está igualmente presente na herança genética de todos os indivíduos daquela colónia. Temos fé que qualquer zângão ou qualquer larva escolhida para futura rainha transporta consigo, na sua bagagem genética, esse comportamento em potência. Ora não é assim tão simples nem tão linear. Sabemos hoje que a proximidade genética entre indivíduos da mesma colónia pode ser muito baixa. Por exemplo, entre duas ou mais larvas escolhidas para translarve de uma colónia seleccionada a proximidade genética ronda os 0,15, isto para uma rainha que acasalou com 12 zângãos (a escala utilizada vai de 0 a 1, em que zero é nenhuma proximidade genética e 1 é proximidade genética total). A proximidade genética das obreiras com os zângãos filhos de uma mesma rainha é de 0,25. Fica claro porque razão selecionar ao nível da colónia pode provocar resultados tão diferentes nas colónias filhas, umas com o comportamento que desejamos e outras com pouco ou nada desse comportamento almejado.
Estes dados estão incluídos num estudo a que acedi e como o achei muito interessante e pedagógico decidi traduzir um pequeno excerto.
“Colónias com níveis mais altos de diversidade genética entre as operárias, resultado de maior número de acasalamentos, são melhor sucedidas na regulação da temperatura (Jones et al., 2004), são mais resistentes a doenças (Palmer e Oldroyd, 2003; Seeley e Tarpy, 2007) e mostram melhor eficiência de forrageamento (Mattila et al., 2008), armazenamento de alimentos e crescimento da colónia (Oldroyd et al., 1992b; Mattila e Seeley, 2007).
Acredita-se que o aumento do desempenho seja resultado de diferenças geneticamente influenciadas na propensão das operárias para realizar tarefas específicas (revisto em Beshers e Fewell, 2001; Myerscough e Oldroyd, 2004; Oldroyd e Fewell, 2007). A variação nas propensões das operárias para realizar uma tarefa significa que, para um certo nível de estímulo para realizar uma tarefa, apenas um subconjunto particular de operárias se envolverá nessa tarefa. Esta modulação do número de operárias que executam um determinado comportamento particular permite uma alocação mais eficiente de operárias às tarefas (Myerscough e Oldroyd, 2004; Graham et al., 2006). Operárias com limiar suficientemente baixo para uma tarefa podem até se tornar especialistas, a ponto de retardar sua maturação e progressão para outras tarefas da colónia (Arathi et al., 2000; Beshers e Fewell, 2001).
Algumas tarefas, como comportamento higiénico e defesa da colónia, são frequentemente realizadas por operárias de um pequeno subconjunto do número total de linhas paternas das operárias (Arathi et al., 2000; Hunt et al., 2003). Assim, quando as rainhas são escolhidas com base no fenótipo da colónia [isto é, com base no comportamento observável da colónia], elas podem não ser das linhas paternas que contribuem para a característica desejada. Populações reprodutoras pequenas, portanto, correm o risco de perder alelos desejáveis mais raros antes que eles se fixem/predominem na população. Como a seleção continuada numa população fechada aumenta a homogeneidade genética, o desempenho da colónia decorrente da diversidade genética de linhas paternas diminuirá, reduzindo os ganhos obtidos pela seleção.”
O eixo x (horizontal) indica o número de zângãos acasalados com a rainha. A linha tracejada indica o parentesco genético entre uma operária e os zângãos nascidos da postura de uma mesma rainha [0,25]. A linha sólida indica parentesco médio entre uma operária e todos as operárias nascidas da postura de uma mesma rainha [para uma rainha que acasalou com 12 zângãos, a proximidade genética entre operárias é de 0,15 numa escala de 0 a 1, em que zero é proximidade nenhuma e 1 é proximidade total] (Ratnieks, 1988).
As abelhas melíferas são dos animais domésticos sujeitos a selecção para o incremento de determinadas características, uma das espécies mais complicadas. Contudo e talvez pela complexidade inerente à sua melhoria (do ponto de vista pecuário) o desconhecimento dos obstáculos é grande na comunidade apícola. E esse desconhecimento é terreno fértil para o “comércio” de muitas ilusões. Randy Oliver referia recentemente que após 8 anos de um intenso e rigoroso trabalho de selecção do comportamento de resistência à varroa, selecção que está a fazer ao nível da colónia, tinha apenas 15% das suas colónias resistentes. Tendo partido de uma população com menos de 1% de colónias resistentes, como afirma, a evolução não deixa de ser notável. Contudo não podemos deixar de pensar que o caminho é demorado, que requer muita resiliência e meios financeiros e que está ao alcance de muito poucos fazê-lo.
Haverá um caminho menos demorado? Sim há; a selecção ao nível do indivíduo. A selecção por inseminação instrumental com o sémen de um único zângão é uma delas (ver Harbo, J., The value of single-drone insemination in selective breeding of honey bees). Mas há outras opções mais recentes e que dão provavelmente mais garantias. Não é por acaso que Kaspar Bienefeld, um dos mais notáveis especialistas europeus em genética das abelhas, está a utilizar ovos não fertilizados de obreiras higiénicas e não ovos/larvas de rainhas de colónias higiénicas para acelerar e garantir ganhos mais rápidos na selecção de abelhas resistentes (ver aqui). Contudo esta estratégia, apesar de mais rápida, também tem obstáculos na complexidade dos meios e conhecimentos que envolve.
Chegado aqui interrogo-me: os procedimentos de selecção ao nível da colónia vão ser descontinuados para passarem a ser feitos ao nível do indivíduo? Não quero fazer nenhuma afirmação peremptória sobre um futuro que desconheço, e não quero deixar a ideia de que um procedimento exclui o outro, até porque hoje os sinais que temos são do uso complementar dos dois níveis de selecção, através da selecção sustentada no pedigree (ao nível da colónia) e através da selecção com recurso aos marcadores genéticos (ao nível do indivíduos, ver aqui).
A realidade hoje é que seleccionamos ao nível da colónia pela sua praticabilidade, ainda que os ganhos sejam lentos e sujeitos a avanços e retrocessos. Simultaneamente, alguns de nós, aqueles com recurso a ferramentas e conhecimentos sofisticados, seleccionam ao nível do indivíduo, e assim obtém ganhos mais rápidos e lineares.
Notas: 1) no caso específico do comportamento de resistência à varroa, um dos mais desejados e procurados na comunidade apícola, fiz esta publicação sobre os avanços, retrocessos e pedras que têm surgido no caminho dos últimos 40 anos. 2) admito que o título mais adequado seria este: “da estratégia de selecção ao nível da colónia e da estratégia de selecção ao nível do indivíduo”.
Resposta à questão do título: o sémen dos diversos zângãos com que a rainha acasalou é misturado na espermateca. Por esta razão as larvas escolhidas para translarve, aquelas ali no mesmo quadro e ao lado umas das outras, podem provir de diferentes linhas paternas, umas com os pais “certos” outras com os pais “errados” para aquele comportamento em particular que visamos ter nas futuras colónias. Enquanto essa característica não predominar na população de onde provém as rainhas e os zângãos progenitores, enquanto essa característica for rara, pouco frequente na população, são necessários anos e anos de trabalho de selecção ao nível da colónia. Até este trabalho estar realizado, seleccionar larvas de colónias que gostamos tem algo de semelhante a uma roleta russa, umas dão e outras não. É da natureza das coisas.
Genericamente, sobre a problemática dos resíduos de amitraz no mel há uma enorme ignorância na comunidade apícola. Entre outros aspectos desconhece-se que: (i) os resíduos de amitraz no mel não são estáveis, que o amitraz se degrada nos seus metabolitos (DMF e DMPF); (ii) o Limite Máximo de Resíduos (LMR ou MRL) relativo ao amitraz e seus metabolitos é de 200 nanogramas por grama de mel; (iii) o LMR nos alimentos é calculado com uma enorme margem de segurança, 100 vezes abaixo das concentrações que provocam os primeiros danos observáveis.
Dito isto, no quadro em baixo são apresentados os valores das concentrações de vários resíduos encontrados em diversas amostras de mel grego recolhidas entre 2015-2020. Como seria expectável não foi detectado amitraz nas amostras, apenas os seus metabolitos, o DMF e o DMPF, com concentrações entre os 4,9-11,2 ng/g e 6,9 ng/g, respectivamente.
Concluindo, a concentração dos metabolitos de amitraz nestas amostras está muitíssimo abaixo do LMR definido pela European Food Safety Authority (EFSA)* . Este padrão de baixos valores é replicado por vários outros estudos realizados noutros países, incluindo Portugal. Tranquilamente, vamos colher o nosso mel e tratar as nossas colónias!
fonte: Pesticide Residues and Metabolites in Greek Honey and Pollen: Bees and Human Health Risk Assessment, 2023
Até há quatro anos atrás, 3 dos meus 12 apiários estavam situados numa pequena freguesia do distrito da Guarda, num território com condições edafo-climáticas muito particulares, povoado por alguns sobreiros, muitas azinheiras, e onde não se viam castanheiros — a 10 Km da Guarda! Estes três apiários albergavam em média 130 colmeias. Anos houve de terem produzido cerca de 1200 kgs de mel de melada de azinheira. Esta melada começava a ver-se nas meias-alças no início de julho e terminava no início de agosto. Todos os anos colhia mel desta melada, mas os melhores anos estiveram associados a uma primavera sem ondas de calor e um mês de julho quente e com madrugadas enevoadas.
Quercus ilex rotundifolia (azinheira)
A propósito da coleta pelas abelhas da melada das azinheiras esta tem duas origens, de acordo com os especialistas: 1) as secreções da planta, em particular durante processo de formação das bolotas; 2) as excreções dos afídeos.
Bolotas de Quercus ilex mostrando secreções de melada. a. Bolota seca (esquerda) e bolota em desenvolvimento secretando melada, que surge entre a cúpula e a bolota. b. Desenvolvimento de melada na bolota. c. Bolota seca secretando melada. d. Cúpula com melada após a queda da bolota. Fotografias: P. López (a) e A. Gómez Pajuelo (b–d). Fonte: The profile of phenolic compounds by HPLC-MS in Spanish oak (Quercus) honeydew honey and their relationships with color and antioxidant activity, (2023).
Abelha libando a melada excretada pelos afídeos nas folhas de uma árvore .