Ontem, numa das muitas visitas técnicas que tenho feito aos apiários da Quinta da Machada, na região de Coimbra, algumas imagens chamaram particularmente a minha atenção. Trabalhei em três dos apiários e quase todas as fotografias que acompanham esta publicação são originais e foram tiradas durante esse mesmo dia de trabalho. Num dos quadros havia uma quantidade apreciável de pão de abelha recentemente armazenado, destacando-se numerosos alvéolos com pólen de cor laranja intensa; noutro, algumas abelhas transportavam cargas corbiculares claramente amarelas; e encontrei também aquilo que, neste território, considero perfeitamente normal nesta altura do ano quando as colónias estão em boas condições: colónias a avançarem para três a quatro quadros com boas áreas de criação. A pergunta impõe-se: o que significa para estas colónias receberem agora, no início de setembro, uma entrada apreciável e diversificada de pólen, acompanhada também por algum néctar?

A fotografia da criação é importante para compreender tudo o resto. No nosso território, setembro não significa necessariamente uma colónia a encerrar rapidamente a criação. É habitual encontrar três a quatro quadros com boas áreas de criação, naturalmente com diferenças entre anos e colónias, desde que dois dos principais factores que nesta época podem comprometer o seu desenvolvimento estejam devidamente controlados: a varroose e a pressão da Vespa velutina. Isto distingue o nosso contexto mediterrânico da imagem clássica, muitas vezes construída a partir da apicultura do Centro e Norte da Europa, de uma colónia que, terminado o verão, entra rapidamente numa redução muito acentuada da criação. E se ainda temos criação em quantidade apreciável, temos milhares de larvas para alimentar. É aqui que aquilo que encontrei nos restantes quadros ganha particular significado.

Nas proximidades destes apiários encontro nesta altura bastante tágueda (Dittrichia viscosa). O seu pólen é descrito como amarelo, pelo que constitui uma hipótese plausível para algumas das cargas que fotografei. A coincidência entre cor, época de floração e abundância da planta torna-a uma candidata interessante, mas não permite fazer uma identificação segura: para isso seria necessário observar as abelhas directamente nas flores ou recorrer à identificação microscópica do pólen.
Mais intrigante é aquilo que aparece noutra das fotografias.

Uma possibilidade para este laranja é a calêndula-dos-campos (Calendula arvensis), cujo pólen é efectivamente descrito como laranja. Outra encontra-se entre algumas Asteraceae da tribo Cichorieae, onde se incluem Taraxacum, Crepis, Picris e Hypochaeris. Sabemos que algumas destas plantas podem originar cargas corbiculares nitidamente alaranjadas. O dente-de-leão propriamente dito (Taraxacum) não me parece, pela época, o candidato mais provável para explicar uma entrada importante no início de setembro em Coimbra, mas alguns dos seus parentes mediterrânicos continuam a florir nesta altura. Por enquanto deixaria, portanto, duas ou três possibilidades em aberto: Calendula, alguma Cichorieae ou outra Asteraceae tardia ainda não identificada. A cor é uma pista, não uma identificação botânica.
Também identifiquei nas proximidades grandes trepadeiras cobrindo muros e vedações, com flores grandes, rosadas a arroxeadas e em forma de funil, muito provavelmente Ipomoea purpurea, a glória-da-manhã. Estas plantas fornecem pólen e também néctar. Em I. purpurea foram medidos experimentalmente cerca de 2,4 µL de néctar por flor, com uma concentração próxima de 39% de açúcares [1]. Uma flor representa pouco, mas um muro coberto por centenas ou milhares delas já constitui um recurso diferente. Nas próximas semanas deverá juntar-se a este mosaico a hera (Hedera helix), uma das fontes europeias mais importantes de pólen e néctar no final da estação.

A identificação das plantas interessa-me, mas não é o cerne destas fotografias. Setembro e outubro podem constituir no nosso território uma segunda janela nutricional depois da escassez estival. Um estudo recente realizado na Sardenha acompanhou durante um ano o pólen efectivamente recolhido pelas colónias e encontrou uma segunda fase de desenvolvimento no final do verão, característica das condições mediterrânicas. Em setembro a hera começou a adquirir importância e em outubro tornou-se a principal origem polínica nos quatro locais estudados. Mais importante ainda, a quantidade, a riqueza de origens botânicas e a diversidade do pólen recolhido estavam positivamente relacionadas com o desenvolvimento das colónias [2]. Coimbra não é a Sardenha, mas esta comparação mediterrânica parece-me bastante mais próxima daquilo que observo nos nossos apiários do que transpor directamente os calendários biológicos do Norte da Europa.
O pólen que entra agora pode constituir parte da matéria-prima utilizada para produzir as abelhas que terão de atravessar o outono e o inverno. Estas abelhas não são simplesmente operárias de verão que vivem durante mais tempo. A sua fisiologia caracteriza-se por maiores reservas no corpo gordo, níveis elevados de vitelogenina e uma longevidade muito superior. No nosso clima esta transição é mais gradual e a criação prolonga-se durante mais tempo, mas isso não diminui a importância da nutrição nesta fase. Aquilo que a colónia conseguir construir fisiologicamente durante setembro e outubro terá consequências vários meses depois.
E quando escrevo nutrição não estou a falar apenas de proteína. O pólen fornece também lípidos, esteróis e ácidos gordos essenciais. Um caso particularmente interessante é o ácido α-linolénico (ALA), da família ómega-3. Trabalhos experimentais mostraram que dietas deficientes em ómega-3 podem prejudicar o desenvolvimento das glândulas hipofaríngeas e algumas capacidades de aprendizagem das abelhas [3]. Num estudo realizado em ambiente mediterrânico foram encontrados níveis relativamente baixos de ácido linolénico na dieta polínica durante o outono [4]. Isto não significa que todos os pólenes de outono sejam pobres em ALA; significa que podemos ter bastante pão de abelha armazenado e, apesar disso, existir uma limitação nutricional específica.
É precisamente um dos aspectos que abordo nos meus cursos de Nutrição Apícola Aplicada. Não se trata apenas de saber quanto de proteína tem uma pasta. Abordamos os diferentes componentes da dieta e, entre outros aspectos, como corrigir um défice ou desequilíbrio em ácido α-linolénico/ómega-3, escolhendo e combinando adequadamente as fontes lipídicas. Proteína bruta não é sinónimo de dieta completa. Também por isso gosto de encontrar várias cores de pólen nestes quadros. Não demonstram, por si mesmas, uma dieta equilibrada, mas sugerem diversidade botânica e a possibilidade de diferentes pólenes compensarem algumas das limitações nutricionais uns dos outros.
O néctar que acompanha estas florações também não deve ser desprezado simplesmente porque provavelmente nunca dará origem a uma cresta. Fornece energia para o voo, termorregulação, processamento dos alimentos e manutenção da criação, permite poupar reservas já existentes e, havendo excedente, acrescenta alguma coisa ao que estará disponível nos meses seguintes. Avaliamos demasiadas vezes uma planta pelo mel que poderá chegar ao extractor. Uma floração pode valer pouco para o extractor e valer muito para as abelhas.
Mas há uma razão adicional para a fotografia da criação ter, para mim, particular significado. Não chegámos a setembro simplesmente à espera que estas colónias encontrassem pólen. Nas semanas anteriores estivemos a trabalhar para que estivessem sanitariamente preparadas para o aproveitar. Temos vindo a tratar as colónias da Quinta da Machada com o Protocolo Inovador (PI) para controlo da varroose, com um objectivo muito concreto: entrar no período de criação das abelhas que constituirão uma parte importante da população de inverno com taxas de infestação em abelhas adultas não superiores a 0,3%.
Uma boa entrada de pólen permite manter criação, mas essa criação representa simultaneamente novas oportunidades reprodutivas para Varroa destructor. Trabalhos realizados no Sul de Espanha mostram como setembro e outubro podem coincidir precisamente com níveis elevados de infestação [5]. Uma boa floração de outono pode, portanto, ter consequências muito diferentes: com varroa baixa ajuda a produzir novas abelhas bem nutridas; com varroa elevada sustenta também criação onde o parasita continuará a reproduzir-se, precisamente quando começamos a produzir abelhas que deveriam ser particularmente longevas.
É por isso que o nosso objectivo de ≤0,3% de infestação em abelhas adultas antes desta fase não é apenas um número numa folha de registo. Pretendemos começar esta janela nutricional com uma população de varroa suficientemente baixa para que a nova criação possa ser convertida, tanto quanto possível, em abelhas e não em varroas. Naturalmente, uma taxa baixa hoje não dispensa novas monitorizações: continuamos a ter criação e existe também o risco de reinvasão. Mas é muito diferente começar setembro com 0,3% ou menos de infestação do que chegar a esta fase com uma população de varroa já elevada.
E a varroa não é o único problema que pode impedir as colónias de aproveitar esta oportunidade.

A fotografia mostra uma Vespa velutina a ser eliminada por uma das harpas eléctricas que utilizamos na protecção destes apiários. A ligação com as fotografias do pólen é mais directa do que poderá parecer. Podemos ter tágueda, Ipomoea, Asteraceae e, dentro de pouco tempo, hera em floração; mas esses recursos só têm valor se as abelhas conseguirem sair, trabalhar e regressar ao alvado. Quando uma pressão elevada de velutina desencadeia comportamento defensivo e reduz fortemente a actividade de voo, uma paisagem rica em flores pode coexistir com uma colónia que recebe muito menos pólen e néctar do que teria disponível
É por isso que, neste território e nesta altura do ano, associo cada vez mais três variáveis: criação, varroa e pressão de velutina. Podemos acrescentar uma quarta, que condiciona as restantes: a disponibilidade de recursos florais. Não basta que existam flores; as abelhas têm de conseguir explorá-las. Não basta que entre pólen; a colónia tem de estar suficientemente saudável para o transformar em boas abelhas. E não basta produzir muita criação; interessa que essa criação não esteja a servir simultaneamente para multiplicar uma população elevada de varroa.
As fotografias que acompanham esta publicação são, por isso, mais do que imagens escolhidas para ilustrar posteriormente um texto. São todas fotografias originais (com excepção da Ipomoea purpurea) tiradas ontem durante o meu trabalho técnico em três apiários da Quinta da Machada, e representam diferentes momentos daquilo que encontrei no mesmo território e no mesmo dia: boas áreas de criação, abelhas a chegar com pólen amarelo, alvéolos preenchidos com pão de abelha laranja recentemente armazenado e uma velutina a ser eliminada por uma harpa eléctrica.
Continuarei curioso para descobrir quem está a fornecer aquele pólen laranja. Mas essa já não é, para mim, a questão principal. No início de setembro, a paisagem está novamente a oferecer pólen fresco de várias origens e algum néctar; as colónias estão/vão crescer para dois a três quadros com boas áreas de criação muito provavelmente nestes dois próximos meses; procurámos que chegassem a esta janela com a varroa muito baixa e estamos simultaneamente a tentar impedir que a velutina lhes retire a capacidade de explorar esses recursos. Se conseguirmos reunir estas condições, o verdadeiro valor destas florações provavelmente não aparecerá no extractor. Aparecerá daqui a 4 a 6 semanas, na quantidade e, sobretudo, na qualidade das abelhas que encontrarmos dentro das colmeias.
Referências
- Galetto, L. & Bernardello, G. Estudos sobre produção e composição do néctar em espécies de Ipomoea, incluindo I. purpurea.
- Satta, A. et al. (2024). How seasonality, semi-natural habitat cover and compositional landscape heterogeneity affect pollen collection and development of Apis mellifera colonies in Mediterranean agro-sylvo-pastoral systems. Landscape Ecology, 39.
- Arien, Y., Dag, A., Zarchin, S., Masci, T. & Shafir, S. (2015). Omega-3 deficiency impairs honey bee learning. Proceedings of the National Academy of Sciences.
- Avni, D., Hendriksma, H. P., Dag, A., Uni, Z. & Shafir, S. (2014). Nutritional aspects of honey bee-collected pollen and constraints on colony development in the eastern Mediterranean. Journal of Insect Physiology, 69, 65–73.
- Barroso-Arévalo, S. et al. (2019). High Load of Deformed Wing Virus and Varroa destructor Infestation Are Related to Weakness of Honey Bee Colonies in Southern Spain. Frontiers in Microbiology, 10.
Publicações relacionadas no Abelhas à Beira: Na prática e no terreno: o controlo da varroose ao longo de mais de 8 meses; A eficácia e consistência de um protocolo inovador de controlo da varroose; e publicações anteriores sobre nutrição, pólen, Vespa velutina e acompanhamento técnico das colónias da Quinta da Machada.
















