o espaço abelha: o que nos dizem as abelhas naturalmente

Quando um enxame de abelhas enxameia e ocupa um buraco numa árvore, numa parede, etc., a primeira tarefa a que se dedica é à construção de um conjunto de favos. Independentemente do local onde os constroem, o espaçamento dos favos apresenta uma grande regularidade: 30 a 32 milímetros entre os centros dos mesmos. Somente nos favos nos lados de fora do ninho surge um espaçamento ligeiramente maior, mas estes são usados ​​quase exclusivamente para o armazenamento de mel ou para a criação de zângãos.

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Fig. 1 — Medição da distância entre os centros de dois favos de abelhas

Os favos que que as abelhas constroem em condições naturais raramente são planos. Os favos são muitas vezes curvados em arcos graciosos e apresentam uniões entre si, o que lhes dá integridade estrutural, para que possam suportar o peso do mel e resistam às altas temperaturas nos dias quentes de verão.

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No que respeita à sua utilização, os favos num ninho natural são multiuso e a postura da rainha surge quase em qualquer lugar, com a possível excepção dos favos externos. Os alvéolos onde antes houve criação são, habitualmente, ocupados com néctar, impedindo a rainha de aí fazer postura imediatamente a seguir, obrigando-a a procurar outros alvéolos. Isto significa que a rainha está constantemente a ser reconduzida para um outro favo, componente importante do comportamento higiénico da colónia.

Por que é que os favos naturais apresentam um espaçamento de 30-32mm entre os seus centros? As medições dos alvéolos preparados para a postura da rainha mostram que eles apresentam 11-12mm de profundidade. As medições mais detalhadas revelam que a profundidade não é uniforme e que a relação entre a largura/profundidade é aproximadamente de 1 / 2 — os alvéolos de diâmetro mais pequeno são alvéolos menos profundos, os alvéolos com um diâmetro maior são mais profundos.

Qual é a razão desta relação? Como sabemos, o alvéolo fica plenamente ocupado nos estágios finais de desenvolvimento da criação e estas são as proporções que se adequam exatamente ao seu ocupante — a pupa ou abelha pré-emergente. Alvéolos com diâmetros menores produzem abelhas mais pequenas. Em conclusão, é a relação largura/profundidade, e não somente a profundidade, que determina se a abelha é um pouco maior ou um pouco menor.

Assumindo que a profundidade média dos alvéolos é de 11,5 milímetros, a largura do favo, com ambos os lados preparados para receber criação, é de 23 milímetros (2 x 11,5 = 23). Se subtrairmos ao espaçamento entre favos (32 mm) estes 23 mm, resulta um espaço excedente de 9 milímetros entre as suas faces opostas (32-23 = 9). Estes 9 mm não acontecem por acaso (Deus não joga aos dados, dizia frequentemente Einstein).  O espaço de 9 mm é exatamente a distância adequada para que as abelhas sejam capazes de trabalhar nas faces opostas de dois favos, de costas umas para as outras, apenas com um ligeiro roçar de asas.

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Ilustração 1 — Duas abelhas de costas uma para a outra a trabalharem nas faces opostas de dois favos

Isto significa que as abelhas nutrizes se podem mover livremente nas duas faces do favo, sem se atropelarem mutuamente, aumentando a eficácia dos seus esforços nos cuidados que prestam à criação. Este espaço de 9 milímetros também é importante para a termorregulação. Esta distância permite que, com apenas duas camadas de abelhas entre os favos, o espaço entre eles fique quase totalmente preenchido e aquecido. Como sabemos em ambientes ou épocas mais frias as abelhas são chamadas a ocupar o espaço entre-favos, onde geram calor e retardam o fluxo convectivo do ar. Um espaçamento entre-favos maior exige mais abelhas ­— mais de duas camadas — para manter a criação quente. Como sabemos as colónias de abelhas são altamente sensíveis a este aspeto. Se aumentarmos o espaço entre favos muito provavelmente será produzida menos criação, particularmente durante o crescimento primaveril da colónia, o que implicará menos abelhas forrageiras disponíveis para os primeiros fluxos de néctar. Este é um aspecto com um grande impacto prático, nomeadamente no que respeita à opção por colocar 9, 10 ou 11 quadros no ninho de uma colmeia (tema a que voltaremos num futuro próximo).

Quando os favos de criação (ou partes deles) são utilizados para o armazenamento de mel no fim do verão (na preparação para o inverno), os alvéolos são estirados com maior profundidade restando um único espaço abelha entre eles (5-6 mm). O mesmo acontece nas alças meleiras. Antes destes alvéolos poderem ser reutilizados para a criação, na primavera seguinte, eles têm de ser aparados para uma profundidade correcta. Nesta época do ano podemos descortinar este comportamento, quando nos apercebemos dos fragmentos de cera sob os pisos em malha de rede ou à entrada da colmeia.

o estatuto de rainha única e o efeito da sua mensagem química (feromona mandibular da rainha) na supressão da criação de novas rainhas e na enxameação

Muitas sociedades de insetos são monogínicas, o que significa que uma única rainha (fêmea fecundada) está presente em cada colónia. Em sociedades pequenas e primitivas a manutenção da dominância de uma determinada rainha é conseguido através da luta e competição física entre elas; em contraste, em grandes colónias monogínicas este tipo domínio não é possível e evoluíram para um sistema mais eficiente de manutenção da dominância de uma só rainha que se baseia em sinais feromonais.

Sabemos que a remoção da rainha de uma colónia de A. Melífera provoca nas abelhas operárias um comportamento específico: constroem alvéolos especiais (realeiras ou mestreiros) para a criação de novas rainhas (Winston, 1992), mas a forma exacta como tudo isto acontece ainda é desconhecida em parte.

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Fig.1 — Realeira operculada em primeiro plano e cálice real num segundo plano

A criação de novas rainhas numa colónia tem dois objectivos principais: a reprodução da colónia através enxameação ou a substituição da rainha quando está velha ou fraca (este fenómeno é conhecido como supersedure), ou morre por algum motivo apícola ou patológico (emergência).

A dispersão por toda a colónia da feromona mandibular da rainha (FMR) suprime tanto a supersedure da rainha como a enxameação (Winston et al., 1989). Vários estudos foram efectuados para nos elucidar acerca dos mecanismos de dispersão da FMR no seio da colónia e sua transferência entre as obreiras. Em 1991 Naumann et al. identificou o grupo de obreiras amas da rainha como as primeiras intervenientes na transferência da feromona da rainha para as outras obreiras. A auto-limpeza (grooming) é o meio através do qual a feromona é transferida das peças bucais e da cabeça para o abdómen das obreiras (Naumann, 1991). A distribuição da FMR parece ser influenciada pelo tamanho da colónia, uma vez que as obreiras na periferia de colónias populosas obtêm uma menor quantidade de feromona do que em ninhos menos populosos (Naumann et al., 1993). Isso explica a razão da enxameação em colónias populosas: o sinal da feromona que comunica “a rainha está presente” tende a diminuir quando a colónia cresce porque a dispersão da feromona é reduzida. As obreiras apercebendo-se de uma menor quantidade de feromona, iniciam a construção de realeiras e a colónia dá inicio ao processo de enxameação e reprodução. Quando a rainha morre ou é removida, o sinal da feromona desaparece completamente e as obreiras são rapidamente estimulados a criar novas rainhas.

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Fig. 2 — Rainha e suas amas

O papel da FMR na supressão do comportamento de criação de novas rainha foi confirmada por vários estudos que mostraram que a administração de FMR sintético em colónias órfãs (ou seja, colónias, sem uma rainha) suprime a produção de realeiras (Pettis et al., 1995), se a administração ocorrer no prazo de 24 horas a partir de perda de rainha. Verificou-se ainda que se e a FMR sintética for aplicada 4 dias após a perda de rainha não é observado nenhum efeito, indicando que a FMR inibe o início da criação das rainhas mas não produz efeitos na maturação de realeiras já estabelecidas (Melathopolous et al., 1996).

Fonte: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK200983/

tabuleiro simples para desdobramento/divisão de uma colónia de abelhas

Este tabuleiro é usado pelos apicultores para dividir uma colónia em duas partes, uma inferior e outra superior, que funcionarão de forma independente.

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Fig. 1 — Tabuleiro simples para divisão de uma colónia de abelhas

Este equipamento é utilizados na apicultura desde o final do século 19 e há muitos modelos diferentes. O objectivo básico deste tabuleiro é o de nos permitir isolar uma colónia em duas partes, de modo a que as abelhas não passem de um piso para o outro. Esta característica essencial significa que o tabuleiro tem de incorporar uma entrada própria, que é feita no seu lado superior. A regra usual do espaço abelha deve ser observado tanto no lado inferior como no lado superior do tabuleiro, sendo recomendado que as molduras do mesmo garantam 9mm de espaço entre o plano do tabuleiro e os planos formados pelas duas caixas da colmeia. Para que as abelhas tenham maior facilidade de circulação, pode dar-se um espaço extra, e aumentar até 15 milímetros a altura da moldura no lado superior do tabuleiro. No centro do mesmo deve ser feito um orifício quadrado com 8-10cm de lado que deverá ser tapado de ambos o lados com uma rede com uma malha não superior a 3mm. Este buraco permite dois ganhos fundamentais: por um lado permite que calor gerado pelas abelhas no piso inferior ascenda ao piso superior; por outro lado mantém um odor comum em toda a colmeia o que facilita a reunião do enxame, se necessário for. O tabuleiro de Snelgrove (com suas 8 entradas controláveis) é provavelmente o tabuleiro de divisão mais avançado que conhecemos, mas para um propósito mais simples, como o nosso neste momento, uma única entrada e um só orifício de ventilação é tudo o que é necessário.

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Fig. 2 — Pormenor da entrada no tabuleiro de desdobramentos  (neste caso foram realizadas duas entradas nos dois lados do tabuleiro)

Podemos fazer este tabuleiro a partir de  prancheta normal com algumas modificações muito simples, ou fazê-lo de raiz, desde que esteja de  acordo com as características referidas.

A utilização deste tabuleiro de desdobramentos tem as seguintes vantagens:

  • Para efectuarmos o desdobramento não é necessário um novo assento, ou mais espaço nos assentos existentes;
  • Economiza vários equipamentos, como os estrados e os telhados que são os da colmeia original;
  • O andar superior da divisão é aquecido pelo andar debaixo e, portanto, pode conter menos abelhas;
  • Facilita a re-combinação da colónia, se necessário.

A desvantagem de usar este tipo de tabuleiro é a relativa dificuldade que levanta  à inspecção do andar inferior da colmeia, que não pode ser efectuada sem remover o andar de cima.

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Fig. 3 — Colónia de abelhas dividida por um tabuleiro de desdobramentos

Contudo, na prática o controle da enxameação pode ser mais espaçado dado que dividimos a colónia, o que significa que a parte inferior requer pouca atenção durante 4-6 semanas, desde que tenha espaço suficiente para armazenar o mel. Para este efeito podemos adicionar uma ou mais alças meleiras, no momento da divisão, por debaixo do tabuleiro de desdobramentos.

razões para aprender a fazer desdobramentos/divisões de colónias de abelhas

Desdobrar/dividir uma colónia é uma competência básica que todos os apicultores devem possuir. Contudo, ainda hoje, alguns apicultores dependem exclusivamente dos enxames que apanham para aumentar o número das suas colónias.

Há várias razões para corrigir esta situação, quer ao nível do apicultor individual como ao nível sectorial/nacional. Identifico algumas:

Para o apicultor individual os desdobramentos são a oportunidade para:

  • aumentar o seu número de colónias (e a baixo custo);
  • substituir as perdas ocorridas no inverno;
  • fornecer colónias a outras pessoas — como por exemplo novos apicultores;
  • melhorar as características das suas abelhas — comportamento higiénico e produtividade, entre as mais importante;
  • aumentar o interesse e satisfação com a actividade apícola;
  • aumentar suas habilidades e competências apícolas.

Ao nível sectorial/nacional o desdobramento das melhores colónias justifica-se porque:

  • permite reduzir o número de rainhas que são importados e melhorar as abelhas nacionais localmente adaptadas;
  • a maioria dos problemas atuais na apicultura são o resultado da globalização, isto é, ter abelhas em movimento por todo o mundo;
  • diminui o potencial para introduzir novos problemas no sector apícola nacional, como a introdução de pragas exóticas (por exemplo o escaravelho das colmeias e o Tropilaelaps, ácaro tão ou mais perigoso que a varroa);
  • permite limitar a propagação de novas estirpes de virús com diferentes níveis de patogenicidade.

Ainda que os certificados veterinários tenham que acompanhar as importações legais, estes são uma salvaguarda relativamente limitada. Ainda não há muitos anos, uma importação de rainhas dos EUA, devidamente certificada, introduziu no nosso país o pequeno escaravelho das colmeias (Aethina tumida). Por um princípio de precaução devemos evitar o mais possível a importação de rainhas, ou qualquer outros animais/insectos, de outros países. Será paranóia colocar a possibilidade que aquela bonita rainha que acabámos de importar possa transportar consigo organismos ou microorganismos exóticos do sul de Itália ou do centro da Alemanha?

a termorregulação na criação de novas abelhas no período outono-inverno: aspectos específicos

A temperatura da criação no ninho é de extrema importância para a colónia de abelhas e é controlada com a maior precisão. As abelhas mantêm a temperatura da câmara de criação entre os 32°C e os 35°C, de modo a que a sua prole se desenvolva em condições óptimas. Quando a temperatura no ninho é demasiado elevada, as abelhas ventilam o ar quente para o exterior, ou usam mecanismos de arrefecimento por evaporação da água do néctar ou da água simples temporariamente colocada nos alvéolos. Quando a temperatura é muito baixa, as abelhas geram calor metabólico, contraindo e relaxando os músculos das asas. A vibração resultante gera calor nesses músculos. Muitos insetos aquecem os seus músculos de voo antes de levantar voo, mas as abelhas têm explorado essa função para termorregular o seu ambiente.

A investigação tem mostrado que mesmo pequenos desvios (superiores a 0,5°C) a partir das temperaturas óptimas tem influência significativa sobre o desenvolvimento da criação e a saúde das abelhas adultas resultantes. Abelhas criadas em temperaturas sub-ótimas são mais suscetíveis a certos pesticidas quando adultos. Curiosamente, a temperatura de desenvolvimento da pupa também afeta a atribuição de tarefas nas abelhas adultas resultantes.

Vejamos com maior detalhe como a termorregulação é levada a cabo pelas abelhas adultas, afim de originar condições de temperatura óptima para a criação da sua prole no período invernal. A termorregulação da temperatura no ninho e, especificamente, na área da criação, a qual é altamente sensível às flutuações na temperatura como referido em cima, é conseguido através das duas formas descritas de seguida:

  • a criação operculada é aquecida por abelhas que pressionam os seus tórax firmemente para baixo sobre os opérculos dos alvéolos e transferem o calor para as pupas no seu interior. Desta forma, apenas um alvéolo é aquecido por cada abelha aquecedor que consegue manter esta posição até 30 minutos e mantém a temperatura do seu tórax estabilizada em torno de 43° C. A fim de minimizar a dissipação do calor produzido por estas abelhas aquecedoras, as restantes abelhas estão densamente aglomeradas, sobrepondo-se em camadas, sobre esta área de criação a aquecer.
  • outra maneira mais eficiente ainda de aquecer a criação, é conseguido através da ocupação dos alvéolos vazios, aí deixados estrategicamente no seio da área de criação, pelas abelhas aquecedor. A área de criação operculada no favo normalmente contém 5-10% de alvéolos vazios. Esta percentagem varia de acordo com o clima exterior. Estes alvéolos vazios são ocupados pelas abelhas aquecedor que se inserem de cabeça para baixo no alvéolo e mantêm o seu abdómen a pulsar. Estas abelhas também mantêm uma temperatura média do tórax de cerca de 43°C.

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Fig. 1 — Abelhas-aquecedor no interior dos alvéolos nas proximidades de uma área com criação operculada

Estas abelhas aquecedor que actuam como descrito para aquecer a criação gastam enormes quantidades de energia na forma de mel maduro altamente concentrado. Ocasionalmente usam néctar não maduro, mas este combustível não é de tão alta qualidade como é a do mel maduro, que é transferida de boca em boca pelas abelhas (trofalaxia).

Para concluir realço os seguintes aspectos práticos:

  1. a colmeia deve estar bem povoada para aquecer as novas abelhas de inverno a criar, portanto é necessário fazer os tratamento da varroa atempadamente e evitar os desdobramentos tardios;
  2. os quadros centrais do ninho não devem estar bloqueados com mel e/ou pólen, devem ter um número razoável de alvéolos vazios, portanto devemos evitar o fornecimento excessivo de xarope no final do verão/início do outono.  

Fontes consultadas:

  • Medrzycki P, Sgolastra F, Bortolotti L, Bogo G, Tosi S, et al. (2009) Influence of brood rearing temperature on honey bee development and susceptibility to poisoning by pesticides. J Apic Res 49: 52–60.
  • Matthias AB, Holger S, Robin FAM (2009) Pupal developmental temperature and behavioral specialization of honeybee workers (Apis mellifera L.). Journal of Comparative Physiology A 195: 673–679
  • Tautz J (2008) The Buzz about Bees. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg.
  • Winston ML (1987) The Biology of the Honey Bee. Harvard University Press, Cambridge Massachusetts.

aluen CAP para quando em Portugal?

Aluen Cap é um novo tratamento acaricida, formulado com ácido oxálico e desenvolvido por uma cooperativa de apicultores argentinos em estreita ligação com a Universidade local. Terei lido acerca deste novo tratamento há cerca de um ano. A propósito de uma questão do Bernardino, decidi fazer uma referência a este tratamento, que me parece muito promissor. Munido desta informação cada um de nós poderá falar do mesmo junto da sua Associação de Apicultores e estas, por sua vez, poderão fazer chegar os nossos anseios junto dos técnicos da DGAV, para que possam analisar a pertinência de iniciar o seu processo de homologação em Portugal, caso confirmem todas as características referidas pelos seus inventores e que transcrevo/traduzo em baixo.

“Aluen CAP” é um novo acaricida orgânico para combater a varroa, que elimina a necessidade de aplicação de produtos sintéticos, sem perder o potencial de produção. O tratamento, que atinge mais de 95% de eficácia e pode ser usado por décadas, foi recentemente aprovado pelo Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Alimentar (SENASA) para a sua produção e distribuição.

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Fig. 1 — Rótulo/logotipo actual do acaricida Aluen CAP

O Dr. Elian Tourn observa: “o Aluen CAP é a única formulação acaricida orgânica do mundo que é eficaz em colmeias com grande desenvolvimento da criação e sem restrições ambientais”. Além do mais, indica que a sua utilização não exige que as abelhas o consumam, evitando a sua intoxicação; reduz de cinco para uma as visitas necessárias para a sua aplicação, reduzindo em 20% o consumo de combustível fóssil em apicultura.

Como funciona?

O tratamento que acaba de ser aprovado pelo SENASA, é aplicado por meio de tiras de celulose de libertação lenta, impregnadas com uma solução acaricida à base de ácido oxálico. Essas tiras devem ser colocados entre os quadros com criação e deixam-se ficar durante 42 dias.

Resumo Técnico do tratamento

  • Requer uma única aplicação e a eficiência é superior a 95%, mesmo em colónias com muita criação;
  • É orgânico e não contamina o mel, mesmo que seja usado durante a melada;
  • Não gera resistência, pois é uma molécula (ácido oxálico) naturalmente presente em todos os seres vivos;
  • Não tem restrições ambientais na sua aplicação. O produto foi testado na Patagónia, no Litoral, Cuyo e nas Pampas húmidas e semi-áridas;
  • Não interfere no desenvolvimento da criação e/ou da abelha adulta.”

Fonte: http://inta.gob.ar/noticias/apicultura-aluen-cap-fue-aprobado-por-senasa

prevalência e persistência do vírus das asas deformadas (VAD) em colónias de abelhas melíferas infestadas, não tratadas ou tradadas contra o ácaro Varroa destructor

“O ácaro Varroa destructor é uma praga grave da abelha Apis mellifera. A ocorrência natural do vírus conhecido como Vírus das asas deformadas (VAD) tem sido associada ao colapso de colónias de abelhas infestadas pelo ácaro. Nós, pesquisámos a prevalência e persistência de VAD em quatro colónias altamente infestados não tratadas (Pesquisa 1), e cinco colónias altamente infestados que foram tratados com um acaricida (Pesquisa 2). A presença do VAD em amostras de abelhas adultas, criação operculada e ácaros foi detectada usando uma Enzima Linked Immunosorbent Assay (ELISA). Vinte indivíduos de cada amostra foram analisados mensalmente em cada colónia ao longo do estudo. Durante o verão, a proporção de adultos, criação operculada e ácaros em que o VAD foi detectado aumentou, até que a colónia ou morreu ou foi tratada. Quando as colónias foram tratadas, removendo assim os ácaros da colónia, o VAD deixou de se detectar na criação operculada a uma taxa semelhante à perda/eliminação dos ácaros. A velocidade com que o VAD se tornou indetectável em abelhas obreiras adultas dependia, no entanto, da estação do ano, verificando-se diferenças na esperança de vida entre as obreiras adultas emergentes no verão ou emergentes no inverno. Se o tratamento foi retardado até Outubro, o VAD ainda foi detectada em abelhas adultas durante o inverno, mesmo na ausência de ácaros. Para reduzir a carga viral da colónia, portanto, o tratamento de ácaros deve ser iniciado o mais tardar no final de agosto, a fim de remover os ácaros antes da criação das abelhas de inverno começar.”

fonte: https://www.researchgate.net/publication/229086938_Prevalence_and_persistence_of_deformed_wing_virus_DWV_in_untreated_or_acaricide-treated_Varroa_destructor_infested_honey_bee_Apis_mellifera_colonies

sumo de limão: um verdadeiro acaricida?

Ainda não há muitos dias vi, pela primeira vez, um vídeo no youtube onde um apicultor fazia a promoção da utilização do sumo de limão (ácido cítrico) no combate à varroa. Afirma que este tratamento na primavera e/ou no verão controla a varroa. Fiquei muito surpreendido que a simples aplicação do sumo de limão possa ser suficiente para controlar a varroa ao longo de um ano. A minha dúvida prende-se com o facto de na primavera/verão, na generalidade dos apiários do nosso país, haver muita criação operculada no ninho. Sabemos que, nestas condições, 90% das varroas estão abrigadas e protegidas dentro dos alvéolos operculados. Como pode a aplicação de sumo de limão permitir que a colónia siga saudável neste período e, em especial, entrar com níveis baixos de varroa no outono? Há algo que me está a escapar ou então a informação dada nesse vídeo é muito insuficiente. Se algo me escapa tenho a certeza que algum dos companheiros me irá elucidar. Se a informação do referido vídeo é incompleta é lamentável, porque com mais de 5500 visualizações (à data do meu visionamento),  e assumindo que apenas 1% dos que o viram decidiram seguir estritamente o que lá é recomendado, significa que mais de 50 apicultores poderão ter posto em risco as suas colónias de abelhas. Eu pessoalmente conheço um companheiro, que por ter sido crente, perdeu até agora 8 das 13 colmeias que possuía com os tratamentos com sumo de limão.

Tanto quanto sei os tratamentos com outros ácidos orgânicos obrigam a 3 a 4 aplicações intervaladas por 4-7 dias. E são ácidos com um efeito acaricida muito superior ao do ácido cítrico a acreditar em vários estudos devidamente controlados. Em baixo ficam alguns dados recolhidos por esses estudos.

Vários ácidos orgânicos que têm mostrado atividade acaricida têm sido utilizados na luta contra a varroa destructor. Os ácidos mais eficazes, desde que em concentrações não prejudiciais para as abelhas, são o ácido oxálico e o ácido fórmico.

O ácido cítrico tem actividade acaricida contra a varroa, mas em muito menor grau do que o ácido oxálico. Milani (2001) identificou no laboratório que uma dose letal de ácido citrico para varroa necessita de ser três vezes superior à de ácido oxálico e, especialmente, o ácido cítrico apresenta uma grande variabilidade na eficácia. Highes et al. (2006), comparando diversas soluções de açúcar com vários ácidos orgânicos, incluindo o cítrico, concluíram que o único ácido orgânico com uma eficácia apreciável, pelo método de gotejamento, foi o ácido oxálico. A solução de ácido cítrico, apesar de ter um pH menor do que a solução de ácido oxálico não induziu uma queda de varroa significativamente superior à das colónias não tratadas, o que sugere que não é só a acidez mas também outros mecanismos metabólicos os que podem estar na base de maior susceptibilidade da varroa ao ácido oxálico.

Em alguns países europeus é autorizado a utilização do produto austríaco Hive Clean enquanto acaricida. Este produto contém ácido cítrico e vários outros ingredientes, como o ácido oxálico. A sua eficácia média é semelhante ao de uma solução normal de açúcar com ácido oxálico (Howis e Nowakowski de 2009). Podemos, portanto, pensar que o ácido cítrico não acrescenta nada ao Hive Clean.

Há uns anos cheguei a comprar uma garrafa de Hive Clean, que acabei por não utilizar depois de alguns companheiros se terem mostrado muito insatisfeitos com os resultados que obtiveram com a sua utilização.

Com base nestes dados, e neste momento em que escrevo, para mim é pouco crível que o ácido cítrico possa ser considerada uma ferramenta adicional na luta contra a varroa. Por maioria de razão digo o mesmo em relação ao sumo de limão, dado que nestes não é possível uma dosagem precisa de ácido cítrico.

Ressaltamos, a concluir, que não existe em Portugal, qualquer produto autorizado à base de ácido cítrico e, portanto, a legislação dos acaricidas existente no nosso país não permite a sua administração nas colmeias para tratar a infestação pela varroa. Quando muito podemos dar-lho como uma bebida refrescante… juntamente com um acaricida de créditos comprovados!

Fontes consultadas:

  • Higes, M., R. Martin Hernandez, and A. Meana. 2006. “Effectiveness of Organic Acids in Varroa (Acarina: Varroidae) Mite Control.” Revista Ibérica de Parasitología 66 (1-4): 3–7.
  • Howis, Maciej, and Piotr Nowakowski. 2009. “Varroa Destructor Removal Efficiency Using Beevital Hive Clean Preparation.” Journal of Apicultural Science 53 (2): 15–20.
  • Milani, Norberto. 2001. “Activity of Oxalic and Citric Acids on the Mite Varroa Destructor in Laboratory Assays.” Apidologie 32 (2): 127–38.

humidade no ninho das abelhas: um prejuízo? uma benesse?

A humidade na câmara de criação é um factor crítico para a boa qualidade das condições físicas-ambientais tão necessárias a um desenvolvimento saudável das colónias de abelhas. Numerosos estudos demonstraram que os níveis extremos de humidade, sejam elevados, sejam baixos, afectam a saúde das abelhas e da sua criação. Por exemplo, a níveis inferiores a 50% de humidade relativa os ovos não eclodem (Doul, 1976), o que é particularmente impactante nos pequenos núcleos de abelhas. Outro exemplo, a humidade entre 68% a 87% aumenta a percentagem de mumificação das larvas em 8%, também conhecida por criação de giz. Um dado interessante, a taxa de reprodução da varroa destructor diminui com o aumento da humidade.

A humidade no ninho numa colónia forte e saudável situa-se entre os 50% e 60%. Raramente se encontra abaixo dos 40% ou acima dos 80%. Numa colónia forte e em condições normais, este valor é estável e não está dependente das condições ambientais. Pelo contrário, numa colónia fraca as condições internas são muito influenciadas pelas condições ambientais externas.

Um fator importante que influencia o nível de humidade no ninho é a quantidade de criação não operculada/selada. Sabemos que os ovos e as larvas são altamente sensíveis à dissecação. Pensa-se que as áreas de criação têm um microclima com uma humidade relativa significativamente maior que o conjunto do ninho. Isto é conseguido pela presença de geleia real, que tem um conteúdo de água alto. Por outro lado os casulos são higroscópicos e promovem a absorção de água (Human, 2006). Além disso, as abelhas nutrizes/amas que cobrem os quadros de criação limitam a quantidade de água que se evapora.

Sabe-se que as colónias de abelhas regulam a humidade interna do ninho pelo batimento das asas, pelo transporte e depósito de água para o ninho, e pelos dissipadores de humidade, como o néctar e os casulos (Ellis, 2008).

Ouvimos dizer frequentemente que durante o inverno é a humidade, não o frio, que mata as abelhas. O que pode o apicultor fazer nesta estação do ano para ajudar as abelhas a regular a humidade no ninho?

As orientações são variadas e há duas escolas principais de pensamento. Uma defende a ventilação assistida da colmeia, deixando orifícios de ventilação na zona superior da colmeia, quer através da inserção de palitos de fósforo ou cunhas nos cantos inferiores das pranchetas, ou deixando o óculo da prancheta semi-aberto. Este conselho é geralmente dado por apicultores que usam pisos sólidos.

Por outro lado, se as colmeias estão equipadas com estrados de rede, o pensamento é que os métodos de ventilação nas zonas superiores da colmeia são desnecessárias dado que o estrado de rede atua como um sistema de ventilação inferior.

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Fig. 1 — Exemplar de um estrado em malha de rede metálica

Portanto, o tipo de colmeia e, obviamente, o clima ambiente vai determinar se é necessário um sistema de ventilação ou isolamento que permita uma renovação mais rápida do ar saturado com humidade que se produz habitualmente no interior da colmeia.

Fontes consultadas:

  • Doul KM (1976) The effects of different humidities on the hatching of the eggs of honeybees. Apidologie 7 (1) 61-66
  • Ellis MB (2008) Homeostasis: Humidity and Water Relation in Honeybee Colony, Master Thesis (University of Pretoria)
  • Human H, Nicolson SW, Dietemann V (2006) Do honeybees, Apis mellifera scutellata, regulate humidity in their nest? Naturwissenschaften 93(8):397-401.
  • Tautz J (2008) The Buzz about Bees. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg.
  • Winston ML (1987) The Biology of the Honey Bee. Harvard University Press, Cambridge Massachusetts.

 

Independentemente do tipo de estrado utilizado, acrescento estas orientações que têm ajudado as minhas abelhas a regular a humidade no ninho:

  • colocação das colmeias em assentos 15-30 cm acima do solo;
  • construir os assentos com uma ligeira inclinação descendente no sentido do alvado/entrada da colmeia;
  • substituir, particularmente no final do verão, as colmeias com rachas nas paredes, com a pintura estalada ou o óleo de linhaça já sumido, por outras devidamente restauradas;

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Fig. 2 — Exemplo de um assento que protege as colmeias da humidade do solo

… e outras medidas que se justifiquem localmente, e que os companheiros desejem acrescentar.

perigos de alimentar com açúcar invertido

O especialista espanhol António Pajuelo colocou recentemente na sua página de facebook considerações acerca da utilização do açúcar invertido na alimentação das abelhas. Fica aqui a tradução.

“Ultimamente na nossa apicultura está na moda alimentar com açúcar invertido. Existem diferentes fórmulas caseiras para o fazer e os fornecedores industriais cantam seus louvores.

O açúcar invertido é um produto para uso em padaria-pastelaria, para se conseguir algumas texturas interessantes. É uma sacarose, açúcar branco, submetido a um processo de acidificação, temperatura, e, industrialmente, é submetida à ação da enzima beta-frutofuranosidase , que divide a sacarose nos seus dois componentes, glicose e frutose.

Os vendedores deste produto descobriram há algum tempo este novo segmento de mercado, e entrou com um argumento de vendas: “está desdobrado, tornando-o mais fácil de assimilar”. De fato, a abelha e nós temos que dividir a sacarose em glucose e frutose, e em seguida, a glucose em frutose, para poder fragmenta-la e usá-la em outros compostos ou queimá-la para produzir energia. Para isso temos umas enzimas na saliva, elas e nós. Mas o organismo não vai parar de fabricar estas enzimas e colocá-los na saliva consuma-se o açúcar que se consumir. E as enzimas são não se “gastam”, são uma espécie de vai e vem que transportam as moléculas ao seu local de e ficam livres para voltar a atuar; embora haja uma certa perda de moléculas ao longo do tempo. Ou seja, ao ser dada sacarose “desdobrada” é mais um argumento de vendas do que uma vantagem.

Além disso, o processo de aquecimento da sacarose para a “desdobrar” produz HMF, em quantidades variáveis, dependendo de como foi feito o açúcar invertido. E o HMF é tóxico para as abelhas, para nós não (pudins, doces, caramelo … seriam letais se assim fosse). Apesar de não haver consenso na literatura sobre o nível de toxicidade, há dados bibliográficos sobre a toxicidade para as abelhas enjaulado laboratório a partir de cerca de 50mg/kg de HMF. Para mim os valores mais realistas são de 150 mg/kg.

O açúcar de beterraba invertido também é usado para adulterar mel, por isso o mercado possui técnicas analíticas muito avançados que são usualmente utilizadas ​​para detectar a sua presença no mel. Os laboratórios de análises do mel oferecem esta detecção desde 2009, com base na presença da enzima beta-frutofuranosidase (exógena ao mel, mas usada industrialmente para “desdobrar”) e pelos níveis de ácido utilizados na acidificação.

Portanto, se há um armazenagem do açúcar invertido nos favos, pode haver níveis elevados de HMF no mel, se você o inverteu caseiramente e restos de ácidos. E, especialmente, quando se usou açúcar invertido industrialmente em quantidade, ficam presentes no mel enzimas que o mel não possui, que o inabilitam para o mercado. Esta situação já aconteceu, de hás uns anos a esta parte, mas aumentou este ano pela campanha de vendas agressiva destes açúcares invertidos. Tenho clientes que tiveram este problema e os compradores devolveram-lhe o mel. E eu sei que outros colegas passaram pelo mesmo.”

fonte: António Gomez Pajuelo, pg. do facebook