A propósito da questão colocada pelo Alessandro: “eu queria saber se usar duas câmaras de postura é vantagem, se o enxame fica maior?” volto a um post anterior (este) onde escrevi:
“Ao contrário das populações que se expandem exponencialmente devido a um número cada vez maior de reprodutores, a colónia de abelhas tem apenas uma fêmea que produz ovos férteis. Este facto per si estabelece um limite na taxa máxima de nascimentos (o limite é o número de ovos que o rainha põe a cada dia). […]

Analisemos com algum detalhe as limitações ao número de nascimentos de abelhas. O desenvolvimento das colónias e a manutenção de grandes populações depende de: (1) a capacidade da rainha de pôr ovos, (2) capacidade da população nutrir e manter a temperatura favorável da criação, (3) reservas de pólen e mel, e (4) espaço suficiente e no local adequado para a postura da rainha.
As investigações levadas a cabo para definir o número de ovos que uma rainha põe por dia (ovoposição) fazem-se contando o número de alvéolos com criação operculada/fechada. Os dados não são completamente convergentes: Nolan refere que o número máximo de alvéolos com criação operculada é de cerca de 15.000, Harris cerca de 17.000, Winston cerca de 21.000. Estes números sugerem que uma rainha de boa qualidade e em condições ideais põe 800-1100 ovos por dia (supondo 90% de sobrevivência das larvas), valores que são convergentes com as contagens efectuadas por Farrar, que refere cerca de 900 ovos por dia. Há, naturalmente, rainhas excepcionais que ultrapassam estes números.
Segundo os dados do investigador canadiano Harris […] Quando as rainhas atingem o máximo de ovoposição as colónias apresentam cerca de 16 000 alvéolos operculados (de acordo com as medições de Nolan e Harris). Se bem junta nos quadros esta criação operculada, mais os ovos e a criação larvar aberta, não ocuparia mais que 5-6 quadros do ninho Langstroth. Verdadeiramente surpreendente. Outro dado muito interessante é que neste momento a colónia atingiu cerca de metade da sua população máxima, isto é cerca de 30 000 abelhas. Estas abelhas ocupam 15-17 quadros de ninho do modelo Langstroth.

Aplicação prática: o apicultor durante este período de aumento linear da ovoposição deve certificar-se de que a rainha tem espaço e que este espaço está concentrado no ninho. O rearranjo dos quadros no ninho e o fornecimento de quadros puxados ao ninho na posição correta, maximiza a postura da rainha. Inverter o ninho e sobreninho e/ou adicionar quadros puxados (na ausência destes, adicionar quadros laminados com cera de qualidade), é o maneio mais adequado nesta época do ano. Aceitemos que se uma rainha precisa colocar um ovo a cada minuto, ela não pode gastar muito tempo à procura de um lugar onde fazê-lo. O ninho deve estar aberto e o espaço para a postura concentrado.

Uma pergunta perene da apicultura é exatamente quanto espaço uma rainha realmente exige? A partir dos números acima podemos calcular quantos quadros Langstroth são necessários para satisfazer a necessidade de espaço da rainha. Nestes quadros há quase 7000 alvéolos (segundo Randy Oliver mais precisamente 6960 numa base padrão) nos dois lados de um quadro de alça/ninho. Se esse quadro está 70% cheio com criação (nos restantes 30% é o espaço para o pólen e néctar), ficam de 4.875 alvéolos para a criação, ou 43.875 em nove quadros (por exemplo, 10 quadros na caixa, mas sem cria nos dois lados mais externos) . Uma rainha colocando 1500 ovos por dia pode encher 30.000 alvéolos em 20 dias; A 2300 ovos / dia, temos 46.000 em 20 dias. Sendo assim, a matemática diz-nos que um único corpo/alça Langstroth fornece espaço suficiente para qualquer rainha, desde que não esteja bloqueado com mel ou pólen.

Randy Oliver refere que esta é a configuração preferida por muitos apicultores australianos, que hoje em dia preferem as colmeias de uma só câmara de criação, com uma excluidora por cima desta, e fazem enormes colheitas de mel. Diz também que ele próprio raramente encontra mais de 10 quadros com criação.”
Voltando à questão do Alessandro fica claro, julgo eu, que uma só câmara de criação nas colmeias do modelo Langstroth ou do modelo Lusitana oferece o espaço suficiente para a postura de uma boa rainha, desde que não bloqueada com mel e/ou pólen.
Contudo nem sempre os ninhos oferecem estas condições desejáveis, portanto alguns apicultores que utilizam estes modelos de colmeia preferem trabalhar com duas câmaras de criação (ninho e sobreninho).
Sei o seguinte de várias fontes confiáveis, assim como das minhas observações:
- colónias com rainhas com 2 anos tendem a enxamear mais;
- colónias que habitam ninhos de pequenas dimensões tendem a ficar congestionadas de abelhas mais rapidamente e a enxamear mais cedo e/ou mais frequentemente.
Qual a minha opção? Uma ou duas câmaras de criação? No passado e neste ano a minha opção tem sido mista: nem todas as colmeias com ninho duplo nem nenhuma colmeia com ninho duplo.

Nas colmeias que neste momento estão a entrar na primavera com 7 a 8 quadros com criação e/ou com rainhas com 2 anos estou a colocar um sobreninho. Espero com a segunda câmara de criação atrasar ou mesmo eliminar a pulsão para enxamearem. A minha experiência com esta medida no ano passado foi positiva. Em parte por isso, este ano e até à data, já tenho 86 colmeias com sobreninho (conto colocar ainda mais 40 a 50) quando no ano passado não coloquei mais do que 61 sobreninhos.

