Muitos apicultores já experimentaram inúmeras vezes o quão árduo é acompanhar devidamente as colónias de abelhas nos seus apiários ao longo do ano. Abrir colmeia após colmeia debaixo de um sol abrasador enfiado num fato quase hermético faz do maneio apícola uma tarefa mutíssimo extenuante. No outro extremo do calendário, nos dias frios, ventosos e chuvosos o acompanhamento das colónias para avaliar a necessidade de as suprir com alimentação suplementar, entre outras tarefas, acresce a exigência de o apicultor estar presente quando as suas abelhas mais precisam dele, nos dias de tempo feio.
Ao longo das últimas décadas tem-se assistido ao surgimento de novas máquinas e tecnologias que reduziram o esforço e aumentaram a rapidez das tarefas efectuadas nas salas de extracção. Observar uma fotografia de uma sala de extracção de há 30 ou 40 anos atrás com as salas de hoje é bem ilustrativa do que digo. Muitos equipamentos surgiram neste domínio. Já no campo, tirando os veículos para transporte de material e transumância, tudo se mantém muito semelhante ao que era há 100 anos atrás. Lembro-me bem como era esse trabalho no campo quando há cerca de 45 anos comecei a ajudar o meu pai em tarefas simples no seu apiário de Langstroth e Reversíveis. Muito pouco mudou de lá para cá, aí no campo!
Ora actualmente projectos como o B-GOOD “Giving Beekeeping Guidance by Computational Assisted Decision Making” visam testar e aperfeiçoar um conjunto de dispositivos de monitorização remota de colónias de abelhas, como acontece já noutros sectores produtivos da agricultura, com o objectivo de fornecer dados críticos e fidedignos em tempo real que auxiliem os apicultores nas decisões e operações de maneio. Estes dispositivos diminuirão de forma significativa o tempo, os custos e sobretudo o desgaste pessoal que ainda hoje está associado ao trabalho de campo nos apiários.
Em Portugal, no âmbito doB-GOOD estão a ser testados estes dispositivos num apiário de 10 colmeias situado no Douro. Os enxames foram por mim fornecidos o que me liga afectivamente a este projecto. Aos investigadores espero e desejo as melhores felicidades e que alcancem os resultados pretendidos, pois o trabalho de campo há muito que pede e precisa este tipo de instrumentos.
Contudo o que achei mais surpreendente neste vídeo foi o que o investigador Frank Rinkevich refere a partir do minuto 22 e 35 segundos na resposta à questão: os ácaros são mais ou menos resistentes em diferentes meses do ano?
Os dados recolhidos e apresentados indicam que os ácaros testados nos meses de outubro e novembro de 2018 são menos susceptíveis/sensíveis, isto é são mais resistentes ao amitraz que os ácaros recolhidos no mesmo apiário (Baton Rouge) nos meses de abril e maio do ano seguinte. Dados de grande interesse na minha opinião que merecem ser revisitados através de mais investigação.
Confirmando-se os resultados será interessante, seguidamente, procurar esclarecer as razões para tal acontecer com o amitraz e sobretudo verificar se o mesmo fenómeno se verifica com outros acaricidas. Aos meus olhos o que se vier a concluir será de extrema importância para as decisões de maneio que todos temos de tomar para manter as nossas colónias vivas e, o mais possível, saudáveis.
Neste vídeo em baixo vemos e ouvimos Ernesto Astiz, afamado especialista espanhol no estudo desta espécie invasora, identificar três pontos-chave da estratégia para controlo da vespa velutina: (i) captura de velutinas fundadoras na primeira fase do seu ciclo de vida; (ii) utilização de cavalos de troia na fase de maior predação, para eliminar ou fragilizar ninhos não identificados; (iii) autorização/indicação pelas autoridades competentes de princípios activos eficazes para utilização na “fabricação” de cavalos de troia. O produto e o princípio activo proposto por Ernesto Astiz coincide com o que já havia mencionado aqui há dois anos atrás.
Na Nova Zelândia, a terra do mel mais caro do mundo, o mel de manuka, o sector apícola está a atravessar uma dura crise. A história conta-se em poucos parágrafos.
Nos primeiros anos de 2000, um pouco antes do mel de manuka começar a subir de preço, existiam na Nova Zelândia cerca de 200.000 colmeias. Na altura o sector apícola estava em declínio, com baixas margens de lucro, e muitos apicultores estavam velhos e a aposentar-se. Eram poucos os novos apicultores a entrarem no sector. A maioria das diferentes variedades de mel tinha o mesmo preço, de modo que não havia estímulo para distinguir os diferentes tipos de mel e não havia regras para isso.
Então o mel de manuka ganhou reputação e tornou-se cada vez mais valioso, muito valioso mesmo. Os embaladores de mel que vendiam o mel de manuka por muito dinheiro descobriram que se fosse diluído 50/50 com outro mel, poderiam continuar a chamá-lo de manuka, quem saberia da fraude??, e teriam 2 frascos com preço alto em vez de um.
Mel de Manuka: preços médios de 300 € o kg
A competição entre os embaladores para comprar mel não manuka dos tipos adequados para fazer a mistura inflaccionou o preço de todo o mel na Nova Zelândia. Os apicultores aumentaram os seus efectivos para produzir mais e mais, ganhando muito dinheiro, independentemente do tipo de mel que estavam produzindo. Houve apicultores que se viram milionários da noite para o dia. Este dinheiro todo que o sector estava a gerar atraiu novos atores, e o número de colmeias subiu para cerca de um milhão.
Os problemas começaram a surgir quando os clientes estrangeiros começaram a perceber que nem todo o mel de manuka pelo qual estavam pagando muito dólares/euros era um artigo genuíno. Para proteger a reputação e a base de clientes, o governo interveio e obrigou a testes para determinar a pureza do mel de manuka. Todo o mel de manuka exportado passou a ser testado em laboratório. Isso reduziu enormemente a procura de mel não manuka do dia para a noite e, com todas as colmeias extras, a Nova Zelândia confrontou-se com um excesso de produção e colmeias.
Como resultado, a maioria dos apicultores está sendo forçada a vender sua colheita não manuka das últimas temporadas por preços abaixo do custo de produção, ou até não a consegue vender.
Até os produtores de manuka atravessam dificuldades, porque a única opção agora é tentar produzir manuka, ou seja, qualquer lugar com um pedaço de manuka está sendo bombardeado por um grande número de colmeias pertencentes a apicultores desesperados e neste cenário a produção por colmeia está muito abaixo do que era há poucos anos atrás.
Nota: post inspirado num post publicado no beesource por OT, um apicultor veterano neo-zelandês.
Neste blog http://blog.exometeofraiture.net/blog/2018/12/09/autopsie-ruche-morte-hivernage/ Fred l’apiculteur faz um conjunto de observações e apresenta um grupo de fotos que me parecem muito didácticos, em especial para a época invernal em que estamos a entrar. A todos, ou quase todos nós nos irão morrer colmeias neste período. Em muitos casos o enigma da causa da morte poderá ser resolvido com uma observação simples mas competente e qualificada dos quadros dos ninhos dessas colmeias. A identificação correcta da causa de mortalidade das colónias durante o inverno é uma boa parte do caminho para evitar que o mesmo volte a acontecer no ano seguinte. E, para mim, o mais importante objectivo que me coloco como apicultor é manter as minhas colónias vivas durante o inverno.
“O inverno é um período sombrio para o apicultor; a maioria das perdas de colónias ocorre durante o inverno.
O cenário é sempre o mesmo: colmeias dinâmicas e populosas durante o verão, reservas suficientes e… em novembro / dezembro, é o desastre, essas mesmas colmeias ficam vazias de abelhas. Às vezes, encontramos uma pequena bola de abelhas com a rainha, e muitas vezes permanece alguma criação. Também existem quadros bem fornecidos de mel, mas em muitos casos, o apicultor não consegue fornecer dados sobre a eficácia do tratamento contra o Varroa.
Nesse tipo de situação, todos têm a sua teoria para explicar o desastre: pesticidas aplicados no final da temporada, falta de qualidade das rainhas, alimento artificial de inverno de baixa qualidade, ambiente degradado, envenenamento, ondas electromagnéticas GSM,”teríamos que alimentar com mel “,” é uma pulverização do agricultor local “, … mas nunca a varroa é mencionado como causa plausível; “Tenho muito poucas varroas nas colmeias, não as vi sobre as abelhas! »….
Afinal o que matou realmente a colónia? Quais os elementos objetivos que ajudam a esclarecer qual a causa plausível? O que o apicultor pode fazer para analisar objetivamente o problema e mudar o que for necessário para parar de ter essas mortalidades na temporada seguinte?
No início do inverno de 2018 e 2019 Renaud Lavend’homme, palestrante apícola conhecido pelo seu envolvimento no projeto Arista Beeresearch, ofereceu-se para fazer a “autópsia” de uma colónia vítima desta doença de inverno. Com o equipamento necessário para realizar essa operação, ele oferece-nos uma série de documentos, fotos e vídeos, a fim de solucionar o enigma.
Uma descrição do estado geral dos quadros da colónia morta no início do inverno: criação operculada esparsa, bastante mel e pólen, poucas abelhas mortas encontradas na colmeia. A declaração típica do dono da colmeia: “Intrigado com a total ausência de abelhas na entrada de uma das minhas colmeias, eu olhei para dentro e… o ninho estava vazio. Ainda cheio de reservas e muito ativo durante a minha última visita do outono. Estou extremamente chateado e triste. Alguém tem uma explicação? Obrigado“
As imagens em baixo foram tiradas com um simples telemóvel. Vemos imediatamente pequenos pontos brancos nas paredes da grande maioria dos alvéolos, o olho inexperiente concluirá erradamente que são cristais de açúcar. Na verdade, são cristais de guanina**, que nada mais são do que excrementos do ácaro Varroa !!!
Então, a criação restante é desoperculada para confirmar as nossas primeiras suspeitas. O suspense é de curta duração! Neste caso, Renaud encontrou apenas 3 pupas não infestadas em cerca de 30 alvéolos com criação operculada, ou seja, cerca de 90% da criação infestada …
A língua da pupa estirada é um dos sintomas de uma mortalidade por infestação maciça de Varroa. E a presença de cristais de guanina indica claramente que há “companhia” no alvéolo …”
Nota: Também este apicultor chegou à conclusão que o mês de agosto é crítico para o controlo da varroose com tratamentos de longo prazo, 10 a 12 semanas, como resposta às reinfestações (ver caixa de comentários). Conclusões que estão alinhadas com as que tirei de há uns anos para cá e que vou relembrando por aqui com alguma regularidade.
** Guanina: “O que diabos é a guanina?” Muito simplesmente, a guanina é uma das quatro bases que contêm nitrogénio encontradas no DNA. Provavelmente já viu sequências de letras representando a estrutura do DNA que se parecem com isto: ATGGATGTCGACGGT e assim por diante. As quatro letras representam as quatro bases: adenina, citosina, guanina e timina. Acontece que o excremento dos ácaros Varroa contém cerca de 95% de guanina. Guanina tão pura que aparece como um globo branco brilhante – um depósito que os ácaros deixam no interior dos alvéolos. Afinal, não há “WC” para serem usadas enquanto estão fechados sob uma tampa, espremidos entre uma pupa de abelha e uma parede de cera, de modo que os deixam onde estão.
Ainda na senda da minha intervenção na Mesa Redonda — A PAC pós 2020 — Perspectivas para o sector apícola, no XX Fórum Nacional de Apicultura, e a propósito da questão colocada, pelo jornalista do Observador, Paulo Ferreira, acerca das perspectivas que tenho da apicultura como uma actividade reconhecida como prestadora de serviços do ecossistema referi que as abelhas produzem… solo e água.
Praticamente todas as plantas que se reproduzem por sementes no mundo necessitam ser polinizadas. Entre estas estão muitas das plantas silvestres que crescem um pouco por todo o lado, nomeadamente nas encostas das nossas serras, e que sem a polinização levada a cabo pelos insectos, não se renovariam ou expandiriam.
As relações de interdependência entre o solo, a água e as plantas são mediadas pelos polinizadores. Estas relações podem descrever-se de forma sumária: as plantas com flores ajudam a purificar a água e impedir a erosão através de raízes que mantêm o solo no lugar e folhagens que amortecem o impacto da chuva quando ela cai na terra. O ciclo da água depende das plantas para devolver a humidade à atmosfera, e as plantas dependem de polinizadores para ajudá-las a reproduzirem-se.
Faixas de plantas nativas incorporadas nas pradarias
Um caso exemplar: As faixas de plantas na pradaria são uma prática de conservação que protege o solo e a água, enquanto fornece habitat para a vida selvagem. A equipe do STRIPS […] realiza pesquisas sobre faixas da pradaria há mais de dez anos e mostramos que a integração de pequenas faixas de pradaria em locais estratégicos nos campos de milho e soja — na forma de tiras de amortecimento de contorno em campo e tiras de filtragem nas bordas de campo — podem gerar grandes benefícios para o solo, a água e a biodiversidade. As faixas de pradaria fornecem esses benefícios em maior grau do que outros tipos de vegetação perene, devido à diversidade de espécies de plantas nativas incorporadas, seus sistemas radiculares profundos e multicamadas e seus caules rígidos que suportam chuvas fortes. A pesquisa STRIPS também mostra que as faixas de pradaria são uma das práticas de conservação agrícola mais acessíveis e ambientalmente benéficas disponíveis. Fonte: https://www.nrem.iastate.edu/research/STRIPS/content/what-are-prairie-strips
No seguimento do XX Fórum Nacional de Apicultura, que decorreu este ano na cidade de Viseu, onde tive o prazer e honra de participar na Mesa Redonda — A PAC pós 2020 — Perspectivas para o sector apícola, gostaria de aproveitar para aprofundar um pouco mais alguns aspectos que os limites de tempo, próprios destes eventos, não permitem.
Questionado, pelo jornalista do Observador, Paulo Ferreira, acerca das perspectivas que tenho da apicultura como uma actividade reconhecida como prestadora de serviços do ecossistema comecei por referir que as abelhas produzem… carne de vaca. Um facto verdadeiro ainda que estranho, mas um facto que se deve entranhar na consciência de todos, a começar nos apicultores, no sentido de reivindicar com argumentos fortes e racionais os apoios directos por colmeia, apoios justos e necessários, como defendeu o João Casaca da FNAP nessa mesma mesa redonda.
À pergunta qual é a colheita mais importante que necessita de ser polinizada por insectos? a melhor respostas não é a colheita de frutos ou vegetais de nosso consumo directo, mas sim a de alfafa. Sim, alfafa, não porque consumimos grandes quantidades dos seus brotos, mas porque o gado precisa desse alimento. A alfafa é designada por alguns como a rainha das forrageiras. Assim, sem alfafa a produção de carne e leite ficaria gravemente comprometida.
Flor de alfafa
Um caso exemplar: na Nova Zelândia, quando por lá se começou a cultivar alfafa para alimentar o gado introduzido no território, verificou-se que os poucos polinizadores nativos não eram atraídos por aquelas novas flores. Ano após ano, o feno crescia exuberantemente mas sem sementes. Os produtores de alfafa tiveram que recorrer à importação de algumas espécies de abelhas da Europa para reduzir as despesas na compra de sementes todos os anos. Assim, estas pequenas trabalhadoras salvaram o dia naquele país.
“As atividades de polinização das abelhas valem 143 vezes mais do que o valor do mel e da cera que as abelha produzem (18,9 mil milhões vs. 140 milhões). Frutas e nozes, sementes e fibras, produtos derivados de sementes que requerem polinização por abelhas e uma parte das mercadorias indiretamente dependentes da polinização por abelhas estão listados com seus valores no boletim do USDA” fonte: Bulletin of the Entomological Society of America, Volume 29, Issue 4, Winter 1983, Pages 50–51
“Sem os polinizadores, mais de 39 culturas diferentes sofreriam um declínio na produção. Sem eles e para atender à procura, a agricultura moderna teria de utilizar práticas mais intensivas e ambientalemente menos sustentáveis. Provavelmente, mais terras seriam necessárias para atender aos níveis atuais de procura. Cultivar essas maiores massas terrestres também resultaria em mais emissões com o aumento da operação com tratores e outras máquinas. E, ao expandir a pegada física das fazendas, o habitat selvagem corre o risco de ser deslocado ou interrompido/fragmentado. Estes pequenos insetos desempenham um grande papel na ajuda ao crescimento da agricultura moderna , utilizando menos recursos naturais.” fonte: https://modernag.org/biodiversity/beeconomy-economic-value-pollination/
“Os produtos de origem animal […] carne bovina, suína, aves, cordeiros e laticínios são derivados de uma maneira ou de outra de leguminosas polinizadas por insetos, como alfafa, trevo, lespedeza e trevo.[…] as leguminosas polinizadas por insetos têm a capacidade de coletar o nitrogênio da atmosfera, armazená-lo nas raízes e, finalmente, contribui para enriquecer o solo de outras plantas. Sem esse efeito benéfico, os solos não fertilizados por estes minerais processados rapidamente se esgotariam e se tornariam economicamente improdutivos. […] Gates (1917) alertou o agricultor de que “ele pode fertilizar e cultivar osolo, podar, afinar e pulverizar as árvores; numa palavra, ele pode fazer todas as coisas que a prática moderna defende, mas sem seus agentes polinizadores, entre as quais se destacam as abelhas melíferas, para transferir o pólen dos estames para o pistilo das flores, sua colheita pode falhar. […] O valor da polinização na geração seguinte de culturas também é frequentemente ignorado. O valor da semente híbrida não é refletido até a geração subsequente. O vigor ao brotar e emergir do solo geralmente é um fator vital na sobrevivência precoce da planta. Outras respostas ao vigor híbrido incluem rapidez no desenvolvimento, saúde das plantas e maior produção de frutas ou sementes. […] O valor da polinização por insectos, o único tipo de polinização sobre o qual o homem pode exercer muita influência, não se limita às culturas cultivadas. Bohart (1952) apontou que o efeito mais drástico decorrente da ausência de insectos polinizadores estaria em áreas não cultivadas, onde, como resultado, a maioria das plantas silvestres que fazem a retenção e enriquecimento de solo desapareceria. […] As culturas dependentes da polinização por insetos foram avaliadas por Levin (1967) em US $ mil milhões, com uma produção adicional beneficiada pela polinização por abelhas avaliada em aproximadamente US $ 6 mil milhões. O mel e a cera de abelha produzidos foram avaliados em cerca de US $ 45 milhões. Por outras palavras, as colónias de abelhas valem aproximadamente 100 vezes mais para a comunidade do que para o apicultor.” fonte: https://www.ars.usda.gov/ARSUserFiles/20220500/OnlinePollinationHandbook.pdf
“Uma pergunta muito básica que ecologistas e conservacionistas ponderam há mais de um século: por que devemos proteger a natureza?
Alguns conservacionistas sustentam há muito tempo que devemos proteger a natureza porque ela é valiosa em si mesma. Num influente ensaio de 1985 intitulado “O que é Biologia da Conservação?” o biólogo Michael Soulé argumentou que a biodiversidade “tem valor intrínseco, independentemente do seu valor instrumental …”. Ou seja, devemos proteger ecossistemas ameaçados, porque é a coisa ética a fazer.
Mais recentemente, alguns ecologistas criticaram essa abordagem. Veja, por exemplo, o ensaio de 2012 de Peter Kareiva e Michelle Marvier, que argumenta que apenas argumentos éticos não foram capazes de conter a crescente onda de desmatamento e extinções. Se os conservacionistas querem progredir melhor, precisam apelar com mais força ao interesse próprio da humanidade. Noutras palavras, devemos nos concentrar mais na conservação da natureza, porque é útil para nós [o valor instrumental].
Uma possibilidade é colocar o foco nos “serviços ecossistémicos” que a natureza fornece – o facto de que as abelhas polinizam nossas colheitas, ou as áreas húmidas ajudam a conter inundações, ou os recifes de coral ajudam a sustentar a pesca. Colocando um valor em dólares [ou euros] nesses serviços, podemos defender com mais força a conservação.
Então, como se encaixam as abelhas neste debate? Por um lado, não há dúvida de que estes argumentos económicos para a conservação são poderosos. O presidente Obama interessou-se pessoalmente pela situação das abelhas – e, no seu plano de ajuda aos polinizadores, destacou o facto de que eles fornecem bilhões de dólares em serviços agrícolas. Sem dúvida, isso foi uma grande motivação.” fonte: https://www.vox.com/2015/7/6/8900605/bees-pollination-ecosystem-services
Ligando as pontas de um fluxo: a polinização é um dos dezassete serviços vitais que o ecossistema global presta à comunidade humana. Estar num ranking tão restrito é muito elucidativo da importância da mesma para todos nós. Está bem estabelecido também que as abelhas melíferas domesticadas têm um papel de destaque neste serviço. O problema é que as abelhas melíferas estão muito ameaçadas, e são os apicultores que vão mitigando e controlando, como podem, os perigos que as cercam. E cada vez mais este desafio de manter as abelhas vivas, saudáveis e produtivas exige dos apicultores maior conhecimento, maior comprometimento, maiores gastos. Sendo este o actual e difícil cenário, a UE deve colocar as necessárias ferramentas económico-financeiras se deseja séria e verdadeiramente sustentar a apicultura, para poder preservar as abelhas, e assim assegurar a polinização, um serviço ecossistémico de vital importância para toda a comunidade.
“Os insectos polinizadores de culturas e plantas selvagens estão ameaçados globalmente e seu declínio ou perda pode ter profundas consequências económicas e ambientais. Aqui, argumentamos que várias pressões antropogénicas – incluindo a intensificação do uso da terra, as mudanças climáticas e a disseminação de espécies e doenças exóticas – são as principais responsáveis pelo declínio dos insectos-polinizadores. Mostramos que uma interação complexa entre pressões (por exemplo, falta de fontes de alimentos, doenças e pesticidas) e processos biológicos (por exemplo, dispersão e interações entre espécies) em várias escalas (dos genes aos ecossistemas) está na origem do declínio geral das populações de insectos polinizadores. Serão necessárias pesquisas interdisciplinares sobre a natureza e os impactos dessas interações para preservar a segurança alimentar humana e a função do ecossistema. Destacamos áreas-chave que requerem foco na pesquisa e delineamos algumas etapas práticas para aliviar as pressões sobre os polinizadores e os serviços de polinização que eles prestam às plantas silvestres e agrícolas.” fonte: https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1890/120126
A UE atribuiu ao sector apícola europeu, e para o triénio 2020-2022, um total de 120 milhões de euros, ou seja 40 milhões de euros por ano a distribuir pelos 28 estados-membros. Por outro lado, o relatório adotado pela Comissão da Agricultura da UE estima que os polinizadores, onde se destacam as abelhas melíferas, produzem uma mais valia económica de 14 mil e 200 milhões de euros por ano. Cálculos simples permitem concluir que as abelhas e outros polinizadores produzem mais-valias 355 vezes superiores ao valor do apoio que recebem.
Terei alguma dúvida que este apoio de 40 milhões/ano mais não é que uma encenação de apoio da UE, para ficar bem na fotografia? Não, não tenho!