avaliação de alimentos comerciais utilizados em apicultura (em Portugal)

Este estudo, levado a cabo por uma equipa de investigadores portugueses liderada pelo Prof. Paulo Russo de Almeida (UTAD, Vila Real), já é do conhecimento de alguns entre nós. Ainda assim, e nesta altura em que me encontro a suplementar frequentemente as minhas colónias com pasta de açúcar (fondant), achei muito oportuno voltar a relê-lo e publicá-lo. O estudo definiu como critério de avaliação da qualidade dos alimentos os seus efeitos na longevidade das abelhas. Nós no campo não conseguimos utilizar este critério, por razões óbvias. Substituímos um critério pertinente por este outro de pertinência muito duvidosa: “é um alimento muito bom porque o comem muito depressa”. Como nós, as abelhas também podem ser enganadas pela boa palatibilidade de um determinado alimento, consumirem-no rapidamente, ainda que do ponto de vista nutricional o alimento seja medíocre e eventualmente tóxico.

Pão-de-abelha de diversas origens botânicas, o melhor alimento proteico que as abelhas conhecem até à data. Muito abundante no território onde tenho as minhas colónias, em especial a partir de meados de fevereiro, aspecto que me dispensa a utilização de suplementos proteicos.

Resumo: O estado nutricional de uma colónia é reconhecido como um fator chave para garantir uma colmeia saudável. Assim, é natural que se verifique por parte dos apicultores um incremento na procura de suplementos alimentares para colmatar os desequilíbrios nutricionais de acordo com os objetivos desejados pelos mesmos. As empresas ligadas à apicultura têm demonstrado uma enorme capacidade para responder a essa procura, verificando-se uma escalada crescente e agressiva no número de produtos comercializados, fruto também da baixa regulamentação de produtos alimentares para animais. Atualmente estão disponíveis mais de 40 produtos no mercado Português, com uma composição muito variável e por vezes mesmo indefinida, alegando um conjunto de ações ao nível de estimulo à criação, suplemento energético, suporte à criação de rainhas, melhoria da qualidade de postura redução de níveis de reprodução de varroa, melhoria da microflora intestinal das abelhas, prevenção da Nosemose, melhoria da saúde de colmeias infestadas por Loque americana, entre outras. Face a esta realidade o projeto ApisCibus, financiado pelo PAN (Programa Apícola Nacional), no qual intervêm a FNAP, como entidade preponente, o IPB como coordenador científico e a UTAD como parceira científica, pretende avaliar nutricionalmente alimentos presentes no mercado português. Neste trabalho são apresentados os resultados preliminares entretanto obtidos.

A metodologia utilizada segue as recomendações de um grupo de especialistas apícolas da comunidade científica internacional COLOSS. Os alimentos são avaliados de acordo com a longevidade das abelhas que os ingerem. As abelhas (Apis mellifera iberiensis) utilizadas neste estudo, nasceram em estufa à temperatura de 35 oC e humidade de 70%, num período de 10 horas sem acesso a alimento. Após o nascimento foram homogeneizadas e aleatoriamente distribuídas por gaiolas num total de 50 abelhas por gaiola.

Foram realizados 2 ensaios, no primeiro forneceu-se um alimento e água a cada gaiola com abelhas e envolveu 14 alimentos (9 energéticos e 5 proteicos); no segundo ensaio, a cada gaiola foi fornecido um alimento proteico e um energético, mais água, num total 20 gaiolas, tendo-se efetuado 2 réplicas.

Os resultados sugerem que com a utilização de alimentos energéticos se obtém uma longevidade superior à dos alimentos proteicos. Em geral, observou-se uma sinergia positiva quando se associou um alimento energético a um proteico, mas verificou-se uma exceção em que alimentos energéticos sozinhos apresentaram maior longevidade do que quando associados a um proteico o que sugere uma eventual toxicidade do segundo. O pólen quando combinado com um alimento energético mostrou ser o alimento proteico com maior capacidade para manter as abelhas vivas.

fonte: https://www.uc.pt/ffuc/congresso_iberico_de_apicultura/documentos/V_CIA_2018_livro_resumos.pdf

Nota: ainda que tenha deixado de utilizar alimentação líquida há uns anos, para aqueles que entre nós fazem “xarope caseiro” com água e açúcar branco refinado, refiro que não é necessário fervê-lo e invertê-lo. A fervura pode tornar a mistura tóxica, a inversão dos açucares diminui a longevidade das abelhas. Um caso mais em que as abelhas são enganadas pela palatabilidade de um alimento que o apicultor tornou medíocre e/ou tóxico.

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