o timing do tratamento contra a varroa: juntando as peças

À medida que vou lendo, ouvindo, cruzando os dados com a minha experiência, fazendo cálculos e reflectindo, procuro encaixar as peças do puzzle para definir os momentos mais ajustados (timing) para colocar os tratamentos/acaricidas, de modo a que estes não sejam colocados demasiado cedo ou tarde de mais nas colmeias. Trato de acordo com o calendário, logo a definição do momento certo é crítico para obter os melhores resultados. Neste post (que em grande medida expressa as ideias por mim apresentadas no passado sábado, no III dia da APICAVE, onde fui escutado por mais de uma centena de apicultores atentos e  interessados — renovo os meus agradecimentos a todos: apicultores, direcção da APICAVE, colegas de painel, moderadores, pelo dia muito gratificante que passei na sua companhia) importa-me reflectir e concluir qual o timing mais adequado para iniciar os tratamentos, em especial o tratamento de final de verão, em função do cálculo da taxa de infestação. Se quisermos elaborar uma fórmula simples teremos: timing= função (população de ácaros/população de abelhas).

Fig. 1: Momento da minha apresentação do tema “Controlo da varroose: estratégias para o sucesso”, no III dia da APICAVE, 18 janeiro, 2017.

A eficácia dos tratamentos à entrada do outono: a minha experiência  nos anos de 2014, 2015 e 2016

As observações nos meus apiários (dados dos anos 2014, 2015 e 2016) mostraram-me que, em alguns apiários na beira alta, em geral os situados a cotas mais baixas,  o tratamento iniciado entre a segunda semana de setembro e a última semana de setembro não é eficaz em 10% a 20% das colmeias, com algumas variações entre os apiários.

Estes valores de ineficácia são relativamente transversais. Os dados deste ensaio francês em torno das perdas invernais de 2014/2015 apontam na mesma direcção.

Nestas colmeias onde o primeiro tratamento de outono não foi suficientemente eficaz (10% a 20%), re-tratadas com outro tratamento sobreviveram cerca de um terço no inverno de 2014/2015; no inverno de 2015/2016 sobreviveram mais de dois terços re-tratadas com o mesmo tratamento. A melhoria na taxa de sobrevivência, de um ano para o outro, atribuo-a ao facto de ter dispendido um maior esforço na sua despistagem, ter apoiado mais vezes estas colónias com alimentação artificial, factores estes associados a um inverno menos rigoroso em 2015/2016. No inverno de 2016/2017, que ainda decorre, a mortalidade invernal ultrapassa até agora pouco mais de 1%. Estes dados de permitem-me desvalorizar, até agora, a hipótese dos resultados se deverem à existência de uma estirpe de ácaros resistentes aos princípios activos utilizados (tenho utilizado, predominantemente, o amitraz libertado das tiras de Apivar).

Junto outros dados: em 2015 realizei uma avaliação da taxa de infestação pré e pós-tratamento no tratamento de final de inverno/início da primavera. Coloquei as tiras de acaricida na primeira semana de Fevereiro e retirei-as na primeira semana de abril.  Os números que encontrei na avaliação pré-tratamento variaram entre 1,8% e 2,6%, de acordo com os apiários monitorizados. A avaliação pós-tratamento nos mesmos apiários revelou uma infestação entre os 0,2% e os 0,4%. A monitorização foi feita com a recolha de abelhas adultas e posterior lavagem das mesmas em água com detergente para as varroas se soltarem das abelhas, filtradas através de um coador de mel com duas malhas (técnica com boa fiabilidade).

A dinâmica populacional das colónias de abelhas entre abril e setembro.

A evolução do número de abelhas da colónia está dependente da relação entre o número de abelhas que nascem e o número de abelhas que morrem num determinado período de tempo. Não nos podemos esquecer que esta relação está fortemente dependente dos fluxos de néctar e pólen que entram na colmeia. Estes por sua vez estão dependentes da flora nectarífera e/ou polinífera do local assim como das condições ambientais no período de tempo considerado. Esta relação varia de local para local e mesmo de ano para ano.

De acordo com as minhas observações, aqui apresentada com maior detalhe, as colónias dos meus apiários, em particular as situadas em cotas mais baixas (entre 600 e 700 metros de altitude), apresentam em geral o ninho cheio de abelhas e muitas delas já têm as abelhas a subirem generosamente à primeira meia-alça, no final de abril. Estou convicto que a população de abelhas adultas nesta altura do ano rondará os 23 000 indivíduos, pelo menos. Assim em baixo, fica a minha proposta para o crescimento e declínio da população de abelhas entre finais de abril e finais de setembro:

  • final de abril= 23 000 abelhas adultas;
  • final de maio= 45 000 abelhas adultas;
  • final de junho=39 000 abelhas adultas;
  • final de julho=33 000 abelhas adultas;
  • final de agosto=27 000 abelhas adultas;
  • final de setembro =21 000 abelhas adultas.

Estes números são em boa medida confirmados pelas minhas observações, em particular as realizadas no final de julho e final de setembro.

Retomo esta ideia: se quisermos elaborar uma fórmula simples para definirmos o melhor momento para efectuar os tratamentos temos: timing= função (população de ácaros/população de abelhas). Neste momento falta-nos estimar o número aproximado de ácaros presentes nas colónias no período de tempo em causa.

A dinâmica populacional dos ácaros varroa entre abril e setembro

Em 2015, a avaliação pós-tratamento revelou uma infestação entre os 0,2% e os 0,4%. Nesta altura do ano as minhas colmeias apresentavam muita criação fechada/selada, como habitualmente. Há um elevado consenso na comunidade científica que na presença de criação fechada/selada 80-90% das varroas estão protegidas pelos opérculos. O método que eu utilizei de monitorização de varroas em abelhas adultas permite-me ficar com uma boa ideia dos números da infestação de apenas 15% da população total. Fazendo os cálculos, com base numa taxa de infestação de 0,2%, obtenho 46 varroas foréticas (15% em 23 000 abelhas), logo 100% da população de varroas serão 307 varroas.

Existe um bom consenso na comunidade científica que a população de ácaros varroa duplica o seu número, em colónias com criação, por cada 30 dias passados. Aceitando como fidedigno que a população total de varroas no final de abril é de 307 varroas, temos estes números nos meses seguintes:

  • final de maio= 614 varroas população total;
  • final de junho= 1228 varroas população total;
  • final de julho= 2456 varroas população total;
  • final de agosto= 4912 varroas população total;
  • final de setembro = 9824 varroas população total.

Juntando os dados e concluindo

Estamos, nesta altura, em condições de calcular a taxa de infestação nas abelhas adultas pelo ácaro varroa nas colónias que apresentem uma dinâmica populacional aproximada da que apresentei.

  • final de abril=307 varroas para 23 000 abelhas; infestação de 0,2%;
  • final de maio= 614 varroas para 45 000 abelhas; infestação de 0,2%;
  • final de junho= 1228 varroas para 39 000 abelhas; infestação de 0,47%
  • final de julho= 2456 varroas para 33 000 abelhas; infestação de 1,12%
  • final de agosto= 4912 varroas para 27 000 abelhas; infestação de 2,72%
  • final de setembro = 9824 varroas para 21 000 abelhas;infestação de 7%.

Neste artigo científico os autores concluem dizendo que uma taxa de infestação pelo ácaro da varroa superior a 3% aumenta em cinco vezes a probabilidade do tratamento ser ineficaz, portanto o timing com que o mesmo é efectuado é crítico/decisivo quanto à sua eficácia.

Concluo que o momento/o timing ajustado para iniciar o tratamento contra a varroa, nas minhas colónias na beira alta, especialmente as situadas a cotas mais baixa, e com um acaricida lento tem uma boa janela de oportunidade ao longo do mês de agosto. Mais tarde poderá ser tarde demais. Não só pelos ácaros mas também pelos vírus por eles veiculados. Estas abelhas que irão nascer devem ser o mais saudáveis possível para viverem os 100 a 120 dias até à primavera seguinte.

fatores de risco associados às falhas dos tratamentos para o controlo da varroa em colónias de abelhas sem período de paragem de postura

Li este estudo, levado a cabo na Argentina, pela primeira vez à cerca de duas semanas e é, na minha opinião, muitíssimo interessante, em especial pela correlação que estabelece entre o timing do tratamento e a sua maior ou menor eficácia, ideia que tenho sublinhado em vários posts (por exemplo aqui e aqui).

Resumo- O tratamento contra o Varroa destructor tem-se tornado uma ferramenta básica nas práticas apícolas, principalmente durante o outono. A eficácia do tratamento deve ser melhorada através da identificação de variáveis ​​que afectem o resultado final. O objetivo deste estudo foi identificar os fatores de risco associados ao resultado do tratamento obtido durante o controle de outono do Varroa destructor. A infestação de ácaros após o tratamento foi avaliada em 62 apiários e os dados referentes às práticas de maneio foram coletados por meio de um questionário. […] As colónias com níveis elevados de ácaros antes do tratamento (P = 0,002) e pertencentes a apicultores que não substituíam frequentemente rainhas (P = 0,001) estavam associadas a um maior risco de falha do tratamento. Outras práticas apícolas melhoraram indiretamente a eficácia do tratamento. Uma estratégia integrada para controlar os ácaros que inclui tratamentos sintéticos/químicos e o maneio adequado por parte dos apicultores é necessária para manter as populações de ácaros baixa durante o inverno.

fonte: http://link.springer.com/article/10.1007/s13592-015-0347-0

Deste artigo científico, que aconselho a fazerem o download, retiro os seguintes dados, que muito me interessam para um post a surgir em breve:

  • A prevalência de colónias com mais de 1% de infestação por V. destructor após um tratamento com um acaricida no outono foi estimada a partir do exame de diagnóstico de 377 colónias de abelhas. As colónias com infestação por Varroa superior a 1% após o tratamento de controlo foram consideradas como colónias onde o tratamento falhou. Este limiar foi estabelecido, supondo que as colónias que passam o inverno com postura e criação disponível devem manter os níveis de Varroa tão baixos quanto possível, uma vez que 85-90% das Varroa estão nos alvéolos fechados, durante um ciclo de criação da varroa [de 12 dias na criação de obreira: ver aqui e aqui].
  • Um total de 76 (20,2%) das 377 colónias apresentou infestação superior a 1% (1 ácaro por 100 abelhas) após tratamento contra V. destructor e foram consideradas como colónias onde o tratamento falhou. A média de V. destructor (por colónia) antes do tratamento foi de 0,05 ± 0,06 ácaros por abelha adulta (5 ácaros por 100 abelhas).
  • O acaricida mais utilizado pelos apicultores durante o outono de 2013 foi a flumetrina (43 dos 62 apicultores), seguido de amitraz (10 apicultores), ácido oxálico (5 apicultores) e coumaphos (4 apicultores). A maioria dos apicultores (90,5%) aplicou um acaricida comercial: 69,8% utilizaram Flumevar® (tiras com flumetrina, 0,34 g/100 g de produto), 14,3% Amivar® (Amitraz, 4,13 g/100 g de produto), 3,2% Cumavar® (tiras com cumafos, 8,5 g/100 g de produto) e 3,2% de Oxavar® (pó de ácido oxálico 97 g/ 100 g de produto). As formulações caseiras foram raras (9,5%).
  • Conforme evidenciado pelos nossos resultados, as colónias onde o tratamento falhou apresentaram 4,9 vezes mais risco desta ocorrência quando a percentagem de infestação de Varroa antes do tratamento era superior a 3%.

as novas velhas regras de rotulagem

Com este esclarecimento a DGAV vem tirar as poucas ilusões que eu acalentava em torno das mudanças necessárias e justas na rotulagem do mel com origem em países terceiros: Esclarecimento N.º1/DGAV/2017.

Recordo uma coisa que nós sabemos mas muitos esquecem ou desvalorizam: as abelhas estrangeiras não polinizam as nossas árvores, plantas e flores.

Ver assunto relacionado.

a dinâmica populacional de uma colónia de abelhas entre março e setembro

Não são muitos os estudos credíveis e com dados quantificados que eu conheço em torno do crescimento e declínio populacional de abelhas adultas no período que vai do fim do inverno até à entrada do outono, isto é, de março a setembro. Para as abelhas da nossa península não conheço nenhum. Contudo, juntando dados de várias fontes e cruzando-os com as observações que tenho feito nos meus apiários na beira alta, avanço com a proposta que agora apresento.

Qual o número máximo de abelhas adultas presentes por colmeia quando trabalhamos com a nossa abelha ibérica? Segundo António Pajuelo, nas jornadas do Vale do Rosmaninho, em regra não passam das 45 000. Na altura em que o ouvi pareceu-me pouco, dado as várias referências que conheço de populações de 60 000  e mais abelhas… mas em locais diferentes (EUA e Canadá) e com outras raças de abelhas. Decidi  fazer alguns cálculos em casa e cruzá-los com as minhas observações. Os quadros do ninho Langstroth, em regra, apresentam 7 000 alvéolos. Sabemos que uma abelha adulta ocupa uma área que corresponde, grosso modo, a 3 alvéolos, portanto um quadro bem preenchido de abelhas tem cerca de 2 300 abelhas (7000/3= 2333). Feitos os cálculos um ninho Langstroth, com 10 quadros bem cobertos de abelhas, comporta cerca 23 000 abelhas. Uma colmeia Langstroth, com um ninho e uma alça igual ao ninho (ou cerca de 2,5 meias alças), bem cheia de abelhas tem cerca de 46 000 abelhas. Nas minhas colmeias é este máximo que em regra tenho observado. Para mim, é agora claro que Pajuelo tem razão.

Fig. 1: Exemplo de um ninho e um quadro bem cheio de abelhas

Em que altura do ano as colónias atingem o pico populacional? Segundo os dados do investigador canadiano Harris o ritmo de oviposição de uma rainha vai em crescendo até 60 dias após o início do aumento linear de postura. Quando as rainhas atingem o máximo de oviposição as colónias apresentam cerca de 16 000 alvéolos operculados (de acordo com as medições de Nolan e Harris). Estes valores são relativos a outras “raças” de abelhas, mas vou considerá-los fidedignos no caso das rainhas de raça ibérica (desconheço se existem dados para o nosso caso). Outro dado muito interessante apresentado por estes investigadores é que neste momento a colónia atingiu cerca de metade da sua população máxima, isto é cerca de 30 000 abelhas (ver mais aqui). Como já referido em cima a população máxima das minhas ibéricas, em regra, situa-se nos 45 000 indivíduos. O crescimento linear das minhas colmeias na beira alta inicia-se, em regra, no início de março. Chega ao seu topo 60 dias depois, no início de Maio, coincidente com o período de enxameação, e a população máxima de abelhas adultas (45 000) acontece  2 a 3 semanas depois, por volta da 3ª semana de Maio. Estou convicto que a partir desta altura, inevitavelmente, a população de abelhas adultas começa a decrescer.

Fig. 2: Exemplo de um quadro típico de uma rainha no pico da postura

A  que ritmo e quais os números a que declina a população de abelhas a partir dos finais de maio. O declínio de uma população de abelhas resulta da diferença entre o número de abelhas nascidas e o número de abelhas que morrem no período de tempo analisado. Como já vimos no período de crescimento de uma colónia ela aumenta, em regra, dois quadros de abelhas por semana, o equivalente a cerca de 4600 abelhas por semana no modelo Langstroth (ver mais aqui).

As minhas observações têm confirmado que, em condições normais, as rainhas mantêm a postura, ainda que em  declínio, entre os meses de maio e novembro. Entre finais de maio e finais de novembro continuam a nascer abelhas, mas a uma taxa que não permite compensar as abelhas que vão morrendo no mesmo período.  Sabendo que a colónia cresce a um ritmo de dois quadros de abelhas até atingir o número máximo da sua população, parece-me razoável propor que a partir do início de junho morrem cerca de 4600 abelhas por semana (o equivalente a dois quadros de abelhas).

A minha proposta é credível? Entre finais de maio e finais de setembro, período das abelhas de verão, a colónia perde por semana o equivalente a 4600 abelhas e ganha nesse mesmo período de tempo, presumo, cerca de 3000 novas abelhas. A perda líquida de abelhas entre início de junho e finais de setembro é de cerca de 1500 abelhas por semana, isto é, 6000 abelhas por mês. Sustentado nestes valores calculo a seguinte população aproximada de abelhas adultas entre finais de maio (pico da população) e finais de setembro:

  • final de maio= 45 000 abelhas adultas;
  • final de junho=39 000 abelhas adultas;
  • final de julho=33 000 abelhas adultas;
  • final de agosto=27 000 abelhas adultas;
  • final de setembro =21 000 abelhas adultas.

Estes são números elaborados através de cálculos indiretos e de uma presunção baseada no que observo nas minhas colmeias. Nos últimos anos tenho terminado a cresta dos méis claros na última semana de julho. Nesta altura, crestadas as meias-alças, por norma deixo ficar as colmeias com uma meia-alça, para as abelhas armazenarem ainda alguns néctares/meladas mais tardios. Tenho verificado que as abelhas se acomodam bem nesta configuração de colmeia: ninho + meia-alça. Se o ninho albergar 23 000 abelhas e a meia-alça metade dessa população não ultrapassamos em muito as 33 000 abelhas referidas no cálculos anteriores. No final de setembro, em regra a configuração das minhas colmeias apresenta apenas o ninho, espaço mais do que suficiente para albergar as abelhas existentes, que ocupam 8 a 10 quadros, observação que não diverge das 21 000 abelhas atrás calculadas.

da beira alta à beira litoral, com passagem pela beira baixa

Na passada semana estive na beira alta onde efectuei mais uma ronda pelas minhas colmeias. As principais tarefas realizadas foram:

  • renovar com fondant/pasta de açucar as colmeias necessitadas. Coloquei cerca de 280 Kg em cerca de 600 colmeias.
  • retirar dos apiários colmeias mortas. Retirei 4 colmeias. Estas juntam-se às 3 colmeias retiradas desde a entrada do outono. A mortalidade outono-invernal está neste momento pouco acima de 1%. Para 3 destas colmeias a razão da sua morte foi a varroa. Foram colmeias onde o tratamento contra a varroa não teve a eficácia desejada, perderam muitas abelhas e o cacho invernal era demasiado pequeno para conseguirem passar o frio das últimas semanas. Na outra colmeia a razão foi ter ficado zanganeira numa altura do ano demasiado tardia para intervir e tentar reverter a situação.
  • verificar se os telhados e réguas de entradas estavam no sítio. Sim estavam.
  • identificar sinais de nosemose apis e de ascosferiose na inspecção junto aos alvados/entradas das colmeias. Não vi absolutamente nada, nem o mais pequeno sinal.

Uma nota importante a terminar: as abelhas estavam a trazer pólen (de cor amarelo desmaiado).

Passei pela beira baixa para me encontrar com o Davide, da Meltagus, que me levou a conhecer a melaria/central de extracção de Castelo Branco. No dia seguinte fui um dos muitos participantes nas Jornadas do Vale do Rosmaninho. Os meus parabéns ao João Tomé por esta iniciativa. Por lá conheci pessoalmente o Milton, com quem já tinha conversado várias vezes ao telemóvel. Dos apicultores mais apaixonados que conheci até hoje.

Finalmente, e já na beira litoral, fui ver as minhas colmeias. Na visita anterior vim de lá muito satisfeito e volto a trazer essa mesma satisfação. Todas as colmeias, com excepção de uma que continua orfã, tinham entre 4 e 7 quadros com criação, cheias de abelhas, néctar/mel a aumentar nas alças e meias-alças, e nem o mais pequeno sinal de enxameação. A colmeia mais forte, com duas alças da Langstroth em cima, tinha 13 quadros com criação, uma coisa que raramente vejo nesta altura do ano. Expandi/abri vários ninhos com quadros de cera laminada. Os colocados na visita anterior puxaram-nos muito bem. Em duas colmeias lusitanas, com muito néctar/mel nas meias-alças, coloquei uma alça e expandi/abri os ninhos de cada uma.

critérios para o estabelecimento de estações de acasalamento

Em território continental, as estações de acasalamento/fecundação dirigida, com o objectivo de garantir o isolamento indispensável à execução de um programa criterioso de seleção e melhoria de raças de abelhas, devem cumprir um conjunto de critérios. Elenco agora alguns dos mais importantes critérios:

  • Ausência ou presença mínima de colónias de “outras” abelhas num raio de pelo menos 6 km;
  • A zona circundante deve ter abundantes recursos de pólen e néctar;
  • A temperatura ambiente deve ter longos períodos superiores a 20 ° C e a velocidade do vento não superior a 24 km/h;
  • A paisagem deve ser ondulada e apresentar áreas abrigadas para o posicionamento de caixas de fecundação. Pedras, árvores, arbustos ou objetos especialmente instalados ajudam a minimizar a deriva das rainhas;
  • As colónias dedicadas à criação de zângãos devem ser em número suficiente para garantir uma forte população de zângãos selecionados para os acasalamentos. De acordo com Tiesler e Englert (1989) deve haver uma colónia de zângãos por cada 25 rainhas a fecundar;
  • Baixa presença de outras espécies predadoras de abelhas.

Fonte: http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.3896/IBRA.1.52.1.07?needAccess=true

Notas breves sobre os períodos de vida dos zângãos

Os zângãos atingem a sua maturidade cerca dos 16 dias da sua vida adulta (D0 + 16 dias), e tornando-se menos férteis ou até inférteis após os 28 dias de idade (D0 + 28 dias). A duração média da vida de um zangão é de 55 dias (D0 + 55 dias), variando com condições do contexto.

Fig. 1: Eclosão de um zângão ou dia zero (D0)

a seleção e melhoria de abelhas: uma estratégia para a Península Ibérica

Neste post expressei a minha descrença na possibilidade de um apicultor isoladamente conseguir fazer de forma assinalável uma seleção e melhoria genética das abelhas. O esforço deverá ser colectivo e cumprir pelo menos uma destas duas condições: estações de acasalamento isoladas e/ou inseminação instrumental. Lembro que foram estas duas condições que o Irmão Adam, o melhor criador de rainhas do séc. XX, teve necessidade de garantir para levar o seu trabalho de apuramento genético ao patamar que que todos conhecemos. Se o melhor de entre nós o fez desta maneira, não estou bem a ver como um qualquer de nós o poderá fazer com menos.

Nestes programas sérios, com décadas de trabalho rigoroso na melhoria genética  de uma raça de abelhas, gostaria de destacar dois pontos:

  • qualquer programa de melhoria genética deve procurar garantir sempre a manutenção de um nível desejável de variabilidade genética. A seleção genética, como sabemos, implica jogar alguma coisa fora, eliminar esta ou aquela característica. Esperamos que aquilo que eliminamos no presente não seja valioso no futuro próximo ou distante. Mas este é um risco inerente à seleção e temos de viver com ele, se de facto desejarmos avançar e fazer essa seleção;
  • não devemos esquecer que a seleção é feita também e através da seleção de zângãos. Não é suficiente selecionar a linha materna para alcançar os melhores resultados. O uso de inseminação instrumental ou estações de fecundação (ilhas, vales profundos) não é de fácil alcance. Este caminho e a prossecução destes objectivos, em minha opinião, depende do desenvolvimento de equipes institucionais a trabalhar em rede e dedicadas a este trabalho, sejam elas de natureza publica, sejam de natureza privada (responsáveis por organismos públicos ligados ao sector e/ou associações de apicultores, entre outros). Estas equipas seriam as fornecedoras das rainhas melhoradas/selecionadas aos apicultores e por seu turno receberiam dos apicultores abelhas/genética nova para manter a necessária diversidade genética para o prosseguimento do seu programa. Não estou a inventar este modelo, ele já é levado a cabo em alguns países europeus.

Mas enquanto não for assim, e na esperança que esse dia chegue, podemos e devemos ir fazendo a selecção que nos for possível fazer, de acordo com as muitas limitações que temos. Num próximo post avançarei com um pequeno conjunto de propostas, julgo que ao alcance de todos nós, que nos permitirão pelo menos não “estragar”o que a natureza nos ofereceu: uma abelha autóctone bem adaptada ao seu meio ambiente.

a seleção de abelhas: condições gerais

A selecção de abelhas é um dos temas mais presentes nas conversas entre apicultores. Contudo, com alguma frequência estas conversas derivam dos aspectos essenciais para se focarem no acessório, com frequência também me parece que confirmam o dizer do nosso povo “que em terra de cegos quem tem um olho é rei”. O propósito deste post é o de apresentar um pequeno conjunto de noções e reflexões que me parecem essenciais e que visam contribuir para a nossa literacia apícola, numa área onde a confusão e a desinformação abundam.

O Irmão Adam sublinhou nas suas obras o interesse que a seleção de abelhas tem para todos os apicultores. No entanto os “pequenos” apicultores não podem fazer nada ao seu nível de acção individual, a menos que se reúnam em torno de um projeto coletivo com o estabelecimento de estações de acasalamento ou através da utilização de inseminação artificial/instrumental.

Podemos afirmar que o valor de uma colónia é a síntese da ação de todas as abelhas. Podemos ir mais longe e afirmar que o comportamento de cada abelha depende seus próprios genes, ou seja: os genes + os seus alelos sexuais + o seu ADN mitocondrial (este é 100% idêntico ao da mãe. Sabe-se que esta parte do seu genoma está envolvido, entre outros aspectos, na potência de voo) .

Cada ovo fecundado posto por uma rainha apresenta uma recombinação dos seus genes com os genes de um espermatozóide provenientes de um zângão. A abelha tem 16 cromossomas, e há para cada ovo mais de 65 000 combinações possíveis (2 elevado a 16). Se a rainha é fecundada por vários zângãos de origens diferentes, facilmente vemos que a diversidade genética dentro de uma colónia é enorme.

Além disso, muitos comportamentos dependem da combinação de vários genes. Determinadas combinações de alelos ativam mais do que outros o comportamento (por exemplo, o carácter higiénico é determinado por pelo menos 7 genes, que dirigem por um lado a detecção e desoperculação de uma larva doente e por outro lado a remoção dessa larva). Resulta deste fato que as rainhas fecundadas naturalmente pelos zângãos “que andam por aí” não fornecem resultados homogéneos nem estáveis ​​ao longo do tempo.

Teoricamente, numa “raça pura” os ovos de onde provêm todas as obreiras são semelhantes (o caso de 0% de hibridação). No entanto, esta situação não existe na realidade. Pode-se, contudo, por seleção, obter linhas menos híbridas, mais homogéneas, que serão utilizados para a produção das rainhas desejadas. Escolhida a linhagem destas colónias, denominadas “F0”, esta deve ser mantida. Se as rainhas filhas das rainhas F0 são fecundadas “naturalmente” (sem controle dos zângãos) produzem uma geração ‘F1’ que já perdeu 50% da homogeneidade presente na F0. Todos as obreiras serão híbridas, o que é bom para o apicultor (o conhecido “vigor híbrido”, também chamado “efeito da heterozigose“), mas sem nenhum interesse para o criador de rainhas selecionadas. Se por ex. apenas um zângão “agressivo” fecunda alguma destas rainhas cerca de 20% das obreiras serão agressivas. Se nós fizermos a reprodução destes F1, obtemos F2, com características muito diferentes entre si: portanto as colónias F1 híbridas são inúteis para a reprodução selectiva.

Os zângãos (resultam dos os ovos não fecundados) espelham as características de sua mãe (mas não todas, há sempre algumas diferenças genéticas). Os criadores experientes conhecendo isto, que é mais fácil introduzir as características através dos zângãos, preocupam-se e procuram ter o máximo de controlo sobre a origem dos zângãos. Assim, quando encontram uma rainha com boas características no seu apiário, criam um bom número de filhas para, em seguida, e a partir destas criar muitos zângãos. Na fecundação dirigida (estações de fecundação/acasalamento) são utilizados zângãos de várias rainhas irmãs, originadas de uma avó com as características desejadas pelo criador.

Sobre as estações fecundação importa realçar que as rainhas virgens emitem feromonas, atraindo os zângãos presentes no ambiente próximo, aqueles que “andam por ali”. Para evitar isso, um certo isolamento é necessário para “orientar” a fecundação (por ex. ilhas ou vales profundos isolados por montanhas). O ideal é colocar estas estações numa ilha. Se está isolada num raio de 2 km já é bom. É possível testar a “estanquicidade” de estação de fecundação colocando rainhas virgens em núcleos sem zângãos. Se se fecundarem a estação não é estanque, se não se fecundarem a estação apresenta as características de estanquicidade desejadas.

Importa no caso português realçar que os zângãos iberiensis tendem a dominar naturalmente outros com origem linhas estrangeiras/exóticas na “corrida” para a fecundação das rainhas. O zângão “negro” parece mais eficiente nos voos de fecundação.

Como facilmente se conclui entre dizer que se está a selecionar as abelhas e estar de facto a fazê-lo a distância pode ser aproximadamente a mesma que vai entre as promessas eleitorais e o seu (in)cumprimento quando depois no governo do país.

programas de tratamento do ácaro varroa

Existem 3 tipos de programas de tratamento para controle do ácaro varroa. Neste post vou caracterizá-los de forma sumária e elencar as vantagens e desvantagens de cada um deles.

 

  1. Tratamento profilático

Descrição: Todas as colónias, mesmo as que tenham sido tratadas pouco tempo antes, mesmo que não tenham varroa, ou tenham níveis baixos de varroa, são tratadas novamente de forma preventiva para reduzir os efeitos de eventuais infestações com origem noutras colónias situadas nas proximidades. O tratamento profilático é utilizado mais habitualmente quando as colmeias são transumadas para pomares para aí efectuarem a polinização. Neste contexto as colmeias são frequentemente colocadas em áreas com densidades muito altas. Neste tipo de ambiente, há um risco significativo destas colónias serem invadidas por um grande número de ácaros provenientes de colónias onde a varroa não foi devidamente controlada.

Vantagens: O tratamento profilático reduz o risco de perda de colónias por infestação de varroas provenientes de colónias vizinhas.

Desvantagens: O tratamento profilático aumenta a quantidade de acaricidas utilizados, com consequente aumento dos custos, possibilidade de resíduos e resistência aos mesmos. Muitas das colónias que são tratadas provavelmente não estão em perigo de serem infestadas, e o tratamento pode realmente ser desnecessário.

 

2. Tratamento de acordo com o calendário

Descrição: Todas as colónias infestadas por ácaros são tratadas num determinado momento e numa altura que evite que os ácaros atinjam níveis potencialmente prejudiciais para a colónia e para o seu rendimento (limiar económico). Antes de tratar as colónias, não é feita nenhuma pesquisa para determinar se os limiares económico foram alcançados. O tratamento de acordo com o calendário difere do tratamento profilático na medida em que o tratamento profiláctico de colónias é feito mesmo em colónias que não estão infestadas com varroa.

Vantagens: O método evita o custo/trabalho de monitorização das colónias. É um programa que apresenta boas probabilidades de ser bem sucedido e evitar danos graves causados ​​pela varroa, uma vez que todas as colónias são tratadas e, supostamente, na altura correcta. Se o timing estiver  adequadamente programado, este programa de tratamento é uma boa solução na proteção das colónias, em especial durante a época aguda de crescimento do número de ácaros, no final do verão, início do outono.

Desvantagens: A adequação do timing dos tratamentos pode variar de ano para ano, de local para local e de colónia para colónia.

 

3. Tratamento baseado na monitorização dos limiares económicos (IPM em inglês)

Descrição: As colónias são monitoradas para se avaliar os níveis de infestação pelo ácaro varroa e são tratadas apenas se os valores encontrados atingirem ou ultrapassarem determinados limiares. Existe um certo consenso entre os especialistas dos EUA que 4% a 5% de varroas nos teste de monitorização em abelhas adultas, são o limiar económico para as colónias naquele país.

Vantagens: Apenas as colónias que necessitam são tratadas, reduzindo a quantidade de acaricidas usados e os custos associados. A utilização mais reduzida destes produtos reduz o risco de desenvolvimento de resistências, seja aos acaricidas de natureza sintética, seja aos acaricidas de natureza orgânica.

Desvantagens: A monitorização de colónias é muito exigente do ponto de vista da mão-de-obra que requer. Exige também maior habilidade e um nível de conhecimentos mais elevados do que os outros dois programas. Os limiares económicos do ácaro varroa não estão estabelecidos para o caso português. Os métodos e técnicas de monitorização são falíveis e podem não amostrar fidedignamente e com fiabilidade os níveis de infestação das colónias pela varroa.  Finalmente, a monitorização de colónias pode não ser capaz de prever aumentos rápidos do ácaro durante a época aguda de final de verão, início do outono.

 

No meu caso pessoal trato de acordo com o calendário dado o número de colmeias que possuo. Os dados que obtive da minha experiência dos dois últimos anos de tratamentos, em especial na época aguda de crescimento rápido dos ácaros, levam-me a tirar duas conclusões muito gerais:

  • os timings adequados para os tratamentos são de amplitude muito curta, isto é, 2 a 3 semanas mais cedo ou 2 a 3 semanas mais tarde fazem uma enorme diferença no resultado final obtido com o tratamento;
  • se pretendo ter uma mortalidade de colónias abaixo dos 5%/ano a sua monitorização pré e pós-tratamento deve ir muito além dos 20%-25% recomendados por muitos (ver aqui e aqui).

os mais visitados

Iniciei há quase um ano este blog sobre apicultura. Publiquei até à data 137 posts. Tem sido um exercício que me serve, entre várias finalidades, para ir fazendo um envelhecimento activo (não estou a caminhar para novo!).

Ontem uma querida amiga especialista em Gerontopsicologia, referia a importância de mantermos actividades que nos estimulem criativamente e do seu impacto positivo a médio-longo termo. Este blog, entre outros objectivos, tem servido este também.

Em baixo deixo a listagem dos 10 posts mais visitados até à data:

A terminar agradeço a todos os companheiros/leitores que me têm estimulado a continuar. As mais de 43 500 visitas ao blog, no primeiro ano de vida, são claramente uma mensagem muito forte.