Um agradecimento aos organizadores pelo convite para participar, onde descreverei as técncicas de prevenção da enxameação e as técnicas de controlo da enxameação que utilizei ao longo de vários anos num cantinho da Serra da Estrela.
Para mais informações ficam o número de telefone e o endereço electrónico no canto inferior direito do cartaz. Apareçam!
Ontem, escrevi o seguinte no meu mural do facebook:
“A abelha doméstica europeia não está em perigo de extinção, mas tal não se deve à qualidade do ambiente como se sabe. Deve-se aos apicultores que cuidam delas. E os apicultores estão a ficar desalentados por diversas razões, principalmente pela falta de retorno do investimento que fazem ano após ano. E se assim continuar, com o abandono e falta de substituição dos apicultores mais velhos por apicultores mais novos, a abelha doméstica europeia poderá vir a correr riscos de extinção. Para que tal não aconteça importa evitar a extinção dos seus cuidadores, os apicultores.”
Uma colónia de abelhas domésticas europeias (A.m. iberiensis). A terminologia doméstica é utilizada neste contexto para identificar as colónias de abelhas que são acompanhadas e geridas pelo apicultor, e distingui-las das colónias de abelhas assilvestradas e/ou selvagens que se desenvolvem sem esse acompanhamento.
Num artigo recente da Comissão Europeia (2022), surge este quadro com a evolução do número de colónias domésticas de abelhas no período de 2016 a 2020 e no espaço da UE. Fica evidente que nos últimos 3 anos avaliados o número de colónias domésticas tem aumentado.
Contudo as razões deste aumento do número de colónias devem ser bem identificadas e melhor compreendidas.
Primeiro ponto: o efectivo tem aumentado não porque o ambiente tenha melhorado. Segundo ponto: o efectivo tem aumentado porque as colónias de abelhas têm tido, genericamente, cuidadores à altura das exigências do momento, os apicultores.
Vejamos com algum detalhe. Muitos aspectos do ambiente têm-se detriorado nos últimos anos, entre outros: o principal inimigo das abelhas melíferas, o ácaro Varroa destructor, adquire resistência a medicamentos e veicula vírus mais virulentos (tipo 2 do VAD, por exemplo); as alterações climáticas retiram potencial apícola onde antes ele existia (zonas de clima mediterrânico, entre outras); os predadores ultrapassam geografias por via do comércio global e invadem a Europa (V. velutina, entre outros); os custos e esforços para a manutenção de efectivos produtivos são cada vez maiores (custos de diversos equipamentos e produtos essenciais à apicultura e manutenção dos enxames).
Ao mesmo tempo é evidente, para os que conhecem a realidade, que o aumento de colónias de abelhas melíferas depende exclusivamente do aumento de colónias domésticas. O aumento das colónias de abelhas na Europa não se deve ao aumento dos enxames assilvestrados. Estes enxames, que surgem dos processos de enxameação de colónias domésticas, têm taxas de sobrevivência muito baixas, e a grande maioria não sobrevivem durante o primeiro ano. Os enxames de abelhas melíferas selvagens, aqueles que sobrevivem durante anos seguidos sem intervenção do homem, contam-se pelos dedos.
Nos dias de hoje a dependência da sobrevivência dos enxames de abelhas melíferas dos cuidados dos a apicultores é um aspecto por demais evidente. E este é um copo meio cheio. Por enquanto, conseguimos sustentar e até aumentar o número de colónias. Contudo esta relação é frágil, porque um dos maiores motivadores para a sua manutenção é económica, e este motivo tem sofrido uma erosão forte nos últimos anos. Sei que outros motivos, desde os espirituais, aos emocionais e ecológicos, também estão presentes nos apicultores. Tenho muitas dúvidas, contudo, se estes serão suficientes para manter os 19 milhões de colónias de abelhas domésticas existentes em 2020 na UE.
Os mestreiros de substituição surgem quando as colónias necessitam substituir uma rainha envelhecida e/ou com postura fraca.
As abelhas apercebem-se deste declínio e/ou falha da rainha através da diminuição das feromonas glandulares da rainha e das feromonas da criação. Ao contrário da condição de emergência que se caracteriza pela sua natureza súbita e inesperada, a condição de substituição da rainha caracteriza-se pela sua natureza gradual e previsível. As colónias produzem mestreiros de substituição por razões diferentes, como por exemplo:
a rainha está envelhecida;
a rainha é nova mas está mal fecundada;
a rainha não produz feromonas suficientes;
a rainha produz demasiados zângãos;
o padrão de postura é irregular;
…
O número de mestreiros de susbstituição geralmente não ultrapassa os 4 e estão frequentemente localizados na zona do topo e/ou central do quadro. Estes mestreiros formam-se a partir de cálices reais pré-existentes, aspecto distintivo dos mestreiros de emergência.
Exemplo de um mestreiro de substituição formado a partir de um cálice real.
Localização mais frequente dos mestreiros nos quadros: os de substituição no topo e/ou centro dos quadros; os de enxameação no fundo e/ou laterais dos quadros.
Ao contrário dos mestreiros de enxameação, os mestreiros de substituição podem surgir em qualquer época do ano. Durante algumas épocas do ano, a fecundação da rainha tem poucas probabilidades de sucesso porque há poucos zângãos disponíveis e/ou porque a metereologia não é a ideal para os voos de fecundação. Nestas situações, o apicultor pode intervir introduzindo uma nova rainha fecundada se a tiver disponível, ou juntando o enxame orfão a um enxame funcional.
A apicultura, assim como outras actividades humanas, não escapa a falsas verdades que vão sendo perpetuados por sucessivas gerações. Por exemplo, acredita-se que numa condição de emergência, por perda súbita e inesperada de sua rainha, as abelhas entram em pânico, produzem rainhas a partir de larvas demasiado velhas, dando origem a rainhas de qualidade inferior que, por serem as primeiras a emergir dos mestreiros, irão eliminar as suas irmãs ainda por nascer e de melhor qualidade. Portanto e segundo esta crença, as abelhas depois do estado de pânico inicial e do erro cometido debaixo dessa circunstância de desespero, nada mais fazem para rectificar a estupidez cometida atrás, ficam a assistir passivamente ao desenrolar dos acontecimentos e condenam-se a ter uma mãe de má qualidade. Este é o mito!
Já há cerca de um século atrás, apicultores de grande crédito como G. Doolittle, C. Miller, J. Smith, M. Quinby, entre outros, questionavam este mito.
Viremos a página, actualizemo-nos e aprendamos com o que hoje se sabe através dos dados obtidos empiricamente, por observações devidamente planeadas e controladas. Numa situação de emergência as abelhas calmamente, sem pânico e sem desespero:
escolhem os ovos e larvas melhor nutridas para daí criarem as suas rainhas;
eliminam mestreiros de pior qualidade antes de as rainhas emergirem;
depois das rainhas nascidas, contribuem para a selecção das rainhas mais vigorosas por via das vibrações que imprimem nos quadros de cera.
Estes comportamentos mostram à saciedade o papel activo das abelhas, desde o ovo até à rainha adulta, na selecção de suas rainhas de emergência.
Um aparte: não estou nesta publicação a defender que os apicultores devem multiplicar os enxames por via desta técnica em lugar de utilizarem o translarve ou rainhas compradas a criadores. Não! Não defendi isso, nem nesta publicação nem em qualquer outra feita por mim. Aqueles que assim o entenderam, entenderam mal. Sei uma coisa de há muito: controlo o que escrevo, não controlo, nem o quero controlar, as ilações que cada um tira do que escrevo, estejam elas certas ou erradas.
A terminar: há rainhas de emergência de fraca qualidade? Sim, eu encontrei umas poucas nas minhas colmeias. Quando foram criadas em condições sub-óptimas, com poucas abelhas e/ou poucos recursos nutritivos. Apesar de fazerem muito bem o que fazem, rainhas entre outras coisas, as abelhas ainda não fazem omeletes sem ovos!
Nota: Podem ler mais aprofundadamente aqui: https://www.beeculture.com/a-closer-look-9/
Ontem o Marcelo Murta teve a gentileza de me convidar a fazer com ele a inspecção pré-cresta das colónias de seu apiário, situado nas proximidades de Coimbra. Meti no carro o fato, as luvas, as botas e ala-que-se faz-tarde.
Deixo em baixo algumas fotos que fui tirando durante esta visita às abelhinhas. Obrigado Marcelo pelo convite e as cerca de 3 horas que trabalhámos lado a lado, abrindo colmeias, confirmando a madureza do mel, o padrão de postura das novas rainhas, o estado sanitário dos enxames.
Observando o padrão de postura de uma rainha nova…
… uma rainha criada em condições de emergência. Ah, pobres rainhas de emergência!
Algumas das colónias do apiário.
Abrindo as colónias para avaliar a madureza do mel e o estado sanitário das mesmas.
Muitas vezes é difícil identificar exatamente por que razão as colónias produzem mestreiros de emergência. Contudo um aspecto é comum: a colónia ficou súbita e inesperadamente orfã. Estas são algumas das razões mais frequentes por detrás desta circunstância:
A rainha morreu de repente;
A rainha foi esmagada durante as inspeções;
Rainha perdeu-se durante a inspeção;
A rainha voou e não regressou à colónia;
A rainha virgem não conseguiu voltar do voo de acasalamento;
…
Exemplo de mestreiros de emergência
Os mestreiros de emergência surgem geralmente na periferia externa de uma ou mais áreas com criação operculada, zona onde em geral as abelhas encontram as larvas mais novas e/ou ovos. Estes mestreiros não são iniciados a partir de cálices reais pré-existentes (ao contrário dos mestreiros de substituição, como veremos numa publicação próxima), mas sim a partir dos alvéolos onde se encontram as larvas e/ou ovos. Nesta circunstância de orfandade súbita e inesperada as abelhas constroem um número elevado de mestreiros. Uma boa parte deles será destruído pelas próprias abelhas no decurso do intervalo de tempo até à emergência das rainhas.
Ao contrário do que se pensa, nesta circunstância de emergência as abelhas tendem a preferir os ovos de três dias de idade para iniciarem o processo de criação de rainhas e emergência. Nesta circunstância não preferem larvas mais velhas do que 48h (ver gráfico em baixo).
Em situação de emergência as abelhas escolhem predominantemente ovos para iniciarem o processo de criação de rainhas. Quase 70% dos mestreiros iniciados foram iniciadas quando o alvéolo continha um ovo, em vez de uma larva. Além disso, a maioria dos ovos escolhidos tinha três dias (dados de Hatch, S., Tarpy, D. & Fletcher, D. Worker regulation of emergency queen rearing in honey bee colonies and the resultant variation in queen quality). Sobre este estudo ver esta publicação.
Em baixo, um pequeno vídeo ilustrativo do processo de construção de mestreiros de emergência.
Sob o caramanchão de glicínia lilás As abelhas e eu Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas Doiradas e pequenas Não se ocupavam de mim Iam de flor em flor E cá em baixo eu Sentada no banco de azulejos Entre penumbra e luz Flor e perfume Tão ávida como as abelhas
Sei da minha experiência, assim como da experiência partilhada por outros companheiros de lides, que uma das principais causas do insucesso na introdução de rainhas em desdobramentos decorre da presença de mestreiros nos quadros do núcleo aquando da libertação da rainha da gaiola. Para evitar o mais possível que as abelhas puxem mestreiros a partir das larvas e ovos presentes nos quadros do desdobramento passei a proceder da forma que passo a descrever, isto sempre que os timings se ajustavam e o permitiam.
A partir de 2017/2018 passei a utilizar a técnica Doolittle sempre que necessitava produzir núcleos para introduzir rainhas virgens (a maioria) ou fecundadas (a minoria) em gaiola. Para tal elegia várias colónias muito fortes do apiário. A seleção destas colónias começava a ser feita em finais de fevereiro/início de março.
Colónia com população a ocupar todo o ninho e com mais de 6 quadros com criação. São os sinais que quero ver para saber que estou na presença de uma colónia de uma linhagem precoce. Uma das quatro que tenho neste momento neste apiário. (foto de 6 março de 2022)
O passo seguinte passa por colocar-lhes um sobreninho com quadros puxados vazios.
Colocação do sobreninho. Nas posições 4, 5 e 6 coloco os quadros com a maior quantidade possível de alvéolos vazios. Calculo que nos próximos 8-10 dias a rainha subirá ao sobreninho para encher de ovos dois ou três destes quadros (foto de 6 março de 2022.).
Em geral, passadas uma a duas semanas a rainha inicia a postura em vários destes quadros no sobreninho. Nessa altura confino a rainha ao ninho por via de uma excluidora de rainhas.
Coloco os quadros com abelhas e criação no sobreninho.
A colónia permanece nesta condição durante 5 a 9 dias antes de as utilizar para fazer os desdobramentos pela técnica Doolittle.
Ao tirar os quadros para os núcleos inspeccionava-os com cuidado com vista a eliminar todos os mestreiros que as abelhas pudessem ter puxado nessa condição de semi-orfanação. Nem sempre puxam mestreiros no estado de semi-orfanação, mas não é absolutamente certo que não os puxem. Por outro lado e como introduzia a rainha em gaiola fechada durante 48 a 72 h garantia sem qualquer dúvida que todas as larvas presentes nos quadros já teriam 7 ou mais dias. Nesta condição, as abelhas do núcleo não tinham matéria prima para puxarem mestreiros, isto é larvas com menos de três de dias de idade. Assim, a propensão para aceitarem aquela rainha estranha que vai emergir de uma gaiola de plástico, uma rainha que não criaram, aumenta. Neste contexto, a aceitação da rainha é a única alternativa de que dispõem para não ficarem irremediavelmente órfãs e condenadas enquanto enxame.
Ainda que confrontadas com este contexto artificial criados pelo homem nos últimos 100 anos, as abelhas apresentam uma plasticidade comportamental admirável para darem a volta a esta situação concreta e específica para a qual a evolução de milhões de anos as não preparou. Tiro o chapéu!
Ilustração do mecanismo de tomada de decisão de um enxame de abelhas quando acampadas num galho de árvore durante o processo de enxameação.
Quando os enxames saem da colmeia já escolheram o local onde se vão instalar de forma definitiva? Resposta: não! A escolha do local definitivo ocorre posteriormente, enquanto as abelhas acampam provisoriamente num ramo de árvore, no chão, ou noutro local próximo da colmeia de onde acabaram de sair. Sabemos isto após as observações de Martin Lindauer (década de 50 do século passado) e Thomas Seeley (década de 90 e início do sec. XXI).
Thomas Seeley, dando sequência às observações de Martin Lindauer, levou a cabo um conjunto de experiências no final da década de 90, que lhe permitiram concluir o seguinte:
“Nosso primeiro passo para renovar a análise foi repetir as observações de Lindauer sobre as danças das abelhas batedoras, mas usando equipamentos de vídeo modernos para obter uma imagem mais completa do que era possível na década de 1950. Trabalhamos com pequenos enxames de cerca de 4.000 abelhas e rotulámos cada abelha para identificação individual, para que pudéssemos atribuir cada dança a um indivíduo em particular e assim averiguar sua contribuição para a tomada de decisão de um enxame.
Abelhas rotuladas por T. Seeley durante uma das suas experiências.
A partir de nossas gravações de todas as danças executadas por cada abelha batedora, encontrámos um padrão de dança das batedoras quando acampadas e que se assemelha muito ao que Lindauer relatou com base em seus registros. Por exemplo, num enxame que observámos de 20 a 22 de julho de 1997, todo o processo de tomada de decisão exigiu cerca de 16 horas de atividade de dança distribuídas por três dias. Durante a primeira metade do processo, as abelhas batedoras relataram todos os 11 possíveis locais de nidificação que consideraram, e nenhum local dominou a dança. Durante a segunda ronda, porém, um dos locais começou a ser anunciado muito mais do que os outros e acabou se tornando o local escolhido. De fato, durante as últimas horas da tomada de decisão, o local que havia surgido como favorito tornou-se objeto de todas as danças.”
Com um conjunto de experiências posteriores T. Seeley concluiu que as abelhas decidem por quorum e não necessitam de chegar a consenso para optarem pelo local A e não pelo B ou C, para se estabelecerem definitivamente, concluindo o processo de enxameação. Observou que geralmente este quorum se obtém quando 15 ou mais abelhas são vistas juntas de um dos locais.
Nota: lembro-me de ter observado o ano passado um pequeno enxame que passou 3 dias acampado num ramo de uma árvore. No segundo dia esteve debaixo de chuva miúda, antes de partir no terceiro. Esta observação pessoal não se enquadra na tese de que os enxames quando saem da colmeia já têm o local onde vão nidificar escolhido (se assim fosse porque não se dirigiu este enxame de imediato para esse local?!). Contudo, esta observação pessoal é bem explicado pela teoria do processo de decisão “democrático” descrito por Thomas Seeley.
Neste recente vídeo de Bob Binnie é muito interessante verificar que tanto ele como eu chegámos às mesmas conclusões, isto nunca tendo falado um com o outro. Estou a referir-me aos seguintes aspectos:
equalizar colónias 30-45 dias antes do principal fluxo de néctar qualifica-as para a produção de mel e para a produção de núcleos — estas colmeias que vemos neste vídeo foram equalizadas com cerca de 5 quadros de criação há três semanas atrás e à data de 15 de março, com o ninho e sobreninho repletos de abelhas, estão a ser preparadas para produzirem núcleos ;
assim como eu, Bob Binnie aplica a técnica “não mais de 6”. Na minha opinião esta convergência no maneio resulta de um olhar para o que de facto os enxames nos dizem de semelhante aos dois, quando os olhamos atentamente… com um oceano a separar-nos;
assim como Bob Binnie, aplico a técnica Doolittle para multiplicar os enxames. Como ele, prefiro esta técnica porque respeita a integridade do enxame no ninho onde permanecem 6 ou mais quadros com criação com as abelhas e respectiva rainha, conjugada com a simplicidade dos procedimentos na altura da produção dos núcleos.