recomendações e apoios para a captura de rainhas de vespa velutina na Galiza

Neste link podemos ler um conjunto de recomendações para a captura de fundadoras/rainhas de vespa velutina:

Estas recomendações acompanharam a distribuição pelas autoridades locais da Galiza de 5 659 armadilhas e respectivas doses de atraentes no ano de 2017. Pergunto se os apicultores com colmeias nos distritos de Portugal já colonizados por esta besta de patas amarelas tiveram este tipo apoio no combate que travam?

Os apicultores mais experientes no combate à velutina podem e devem utilizar o espaço dos comentários para partilharem as boas-práticas com aqueles que, como eu, procuram avidamente por esta informação. A velutina gera de ano para ano novas zonas de fronteira e os apicultores nestas zonas muito ganharão com os conhecimentos e práticas dos mais veteranos.

Fig.1: As vespas velutinas também são uma espécie prejudicial para os produtores de fruta.

eu faço assim: combate à vespa asiática

Em baixo está a descrição dos procedimentos utilizados pelo Bernardino Gomez na “construção” de um cavalo de troia. Reforço as palavras do Bernardino acerca do cuidado extremo que devemos ter para não intoxicarmos, inadvertidamente, as nossas colmeias.

Olá Eduardo.
A técnica que utilizamos é simples, apanhamos as vespas com um camaroeiro, depois seguramos a vespa com a mão,( como se faz para marcarmos uma mestra), mas com cuidado para que elas não nos piquem, porque a picada e bem forte, e eu que o diga,
Em seguida com o conta gotas, colocamos em frente da vespa, apertamos ligeiramente a membrana do conta gotas, para que a pequena gota saia do tubo, e damos de beber,( notasse a olho nu o prazer com que elas “mamam” o produto).
Uma a duas gotas são suficientes, não mais, porque se for mais elas ficam pesadas e não conseguem voar.
Quando tivermos a fazer este trabalho, temos que ter o cuidado em ter uma pano húmido, para limparmos o produto que porventura deixarmos cair. Para alem do pano temos de ter o cuidado de fixarmos bem o frasco do produto para não tombar.
Nós utilizamos uma caixa de esferovite de transporte de peixe, na qual abrimos um orifício bem justo para colocar o frasco o conta gotas e o pano.
Utilizamos esta caixa como mesa de trabalho, e temos que ter o cuidado de estar sempre limpa para que as nossas abelhas não toquem neste produto, (MUITA ATENÇÃO)
O produto é feito com:
15 mililitros de groselha.
4 gotas de Eliminall, ou frontline. ( Nós utilizamos o Eliminall porque é mais barato)
1 colher de café de açúcar, (ou 1/4 de pacote de açúcar dos pequenos)
Agitamos bem e o produto esta pronto a utilizar.

Nota: Há pessoas que têm medo de apanharem as vespas, podem utilizar uma pinça mas com cuidado para não apertarem demasiado as vespas.
Depois de dar o produto as vespa, colocamos as vespas em cima da nossa mesa de trabalho até elas irem embora.
Temos que tratar o máximo de vespas e por vários dias, pois podemos ter vários ninhos por perto.
Este método é o que temos utilizado ultimamente e os resultados são animadores, reparamos que em uma semana de tratamento, o fluxo de vespas diminuiu drasticamente.
P.S Se fizermos bem este trabalho e com responsabilidade, não temos o perigo de envenenar as nossas colmeias.
Um abraço.

eu faço assim: criação de abelhas rainha (2)

Em baixo está a descrição dos procedimentos utilizados por Manuel Frias na criação de abelhas rainhas.

Eu faço assim:
Escolho uma boa colmeia. Retiro a rainha com 2 ou 3 quadros de criação de preferência operculada e abelhas e um de provisões para outro lado do colmeal, 8 a 10 metros.
À colmeia criadora de células adiciono os quadros que faltam com quadros de criação mista de outras colmeias. Ponho alimento a todas.
Passados 4 dias depois desta operação vou às colmeias que pretendo desdobrar e separo-as em duas com grade separadora (também serve colocar apenas a prancheta de agasalho fechada ), 5 quadros para cima e 5 ficam em baixo (não tenho a preocupação de saber onde fica a rainha) e completo tudo com cera puxada ou moldada.
Aos dez dias da primeira operação faço os núcleos sendo um quadro com alvéolos reais da primeira e dois com células reais iniciadas das colmeias com a rainha separada que vai com todos os quadros que tem para outro lado do colmeal, ficando nesse local os núcleos respetivos em abanico. Faço alimentação, mas agora só aos núcleos. Passados uns dias as colmeias mãe são deslocadas para outros colmeais, não havendo o perigo de enxameação pois já perderam as abelhas velhas. Estas colmeias ainda podem dar algum mel.
Feliz ano 2018
Manuel Frias

eu faço assim: controlar a infestação da varroa

Agradeço ao José Marques a descrição, em baixo, dos procedimentos que utiliza para controlar a varroa.

O VAD é um vírus oportunista que aproveita o enfraquecimento provocado pela varroa para se desenvolver com grande velocidade e intensidade. Por isso curar a varroa é curar o VAD.
Entrando no modo “EU FAÇO ASSIM”:
Medidas preventivas gerais:
– usar caixas limpas e desinfectadas
– usar ceras novas e não contaminadas
– não manter colmeias doentes no apiário (curar rapidamente)
– Manter as colmeias sempre com reservas
Medidas preventivas contra a varroa e consequentemente contra o VAD:
– Tratar com químico de síntese depois da cresta (Julho)
– Tratar com químico biológico em Novembro
– Tratar com químico biológico (Fevereiro/Março), todas as colmeias, 45 dias antes do início da criação de rainhas (Março/Abril)
– Tratar, rapidamente, as colmeias que apresentarem sintomas ao longo do ano.
Melhoramento deste método:
– Ensaios e selecção de colmeias com abelhas mais higiénicas e defensivas
– Ensaios periódicos da percentagem de varroas e tratamentos adaptados
– Ensaios das percentagens de varroa, depois dos tratamentos aplicados. para verificar a eficácia conseguida.
Estou certo que haverá muitos apicultores com boas e más experiências neste domínio, que a todos os outros, interessaria conhecer.
Saudações

é a agricultura orgânica melhor para o ambiente do que a agricultura convencional?

“[…] apresentamos evidências empíricas da comparação entre agricultura orgânica e agricultura convencional no que diz respeito aos respectivos impactos ambientais. Apesar de o público ter uma forte percepção que a agricultura orgânica produz melhores resultados ambientais, nós mostramos que a agricultura convencional apresenta frequentemente melhores resultados ambientais nomeadamente na utilização de menor área de terra, emissões de gases de estufa e poluição dos lençóis de água. Há, contudo, alguns contextos onde a agricultura orgânica pode ser mais indicada.[…]

Os impactos aqui quantificados não avaliam uma pressão ecológica importante [dos dois sistemas de agricultura]: a biodiversidade. Comparações mais definitivas dos impactos relativos a cada um destes dois sistemas de agricultura continuam a faltar. A biodiversidade é afectada por vários factores de natureza agrícola, incluindo a aplicação de pesticidas […] Os sistemas de agricultura orgânica também afectam a biodiversidade, talvez de uma forma menos dramática por área cultivada, devido a uma menor utilização de fertilizantes e pesticidas. Contudo a avaliação das áreas de cultivo mostra que os sistemas de agricultura orgânica necessitam de muito mais terra que a agricultura convencional. Este aspecto divide as opiniões acerca de como preservar melhor a biodiversidade: devemos cultivar de forma intensiva numa área mais pequena (compreendendo que a biodiversidade será severamente afectada nesta área), ou devemos fazer uma agricultura orgânica, afectando a biodiversidade (talvez menos severamente) numa área muito mais alargada. Não há um consenso claro acerca da melhor forma de abordar este problema.[…]

Isto leva-nos a três conclusões-chave acerca do debate em torno da agricultura orgânica-convencional:

  • A percepção generalizada que a comida orgânica é melhor por natureza, ou que é uma forma ideal de reduzir o impacto ambiental é claramente uma concepção errada. De acordo com várias padrões de medida, a agricultura orgânica  causa mais danos ao ambiente global que a agricultura convencional.
  • O debate entre os defensores da agricultura orgânica e os defensores da agricultura intensiva é muitas vezes desnecessariamente polarizado. Há situações onde um sistema é melhor que o outro e vice-versa. Se tivesse que aconselhar em que situações escolher um ou o outro, eu diria que os legumes e os frutos devem ser orgânicos, mas todos os outro produtos devem ter origem não-orgânica (cereais, vegetais, produtos lácteos, ovos e carne).
  • O debate orgânico vs. convencional oculta frequentemente outros aspectos das opções alimentares que têm um grande impacto no ambiente. Se se procura reduzir o impacto ambiental da nossa dieta, o que comemos pode ter uma influência maior que a questão como é produzida. A diferença relativa na área de terra utilizada e o impacto dos gases de estufa entre os sistemas de agricultura orgânicos e os sistemas de agricultura convencionais é, em regra, menor que o dobro, favorável aos sistemas convencionais. Comparando estes dados com as diferenças relativas dos impactos entre diferente tipos de comida, concluímos que […] a diferença entre a área agrícola usada e os gases com efeito de estufa produzidos por unidade de proteína […] pode ser superior a 100 vezes, a favor dos sistemas agrícolas convencionais. Se a sua maior preocupação é saber se as batatas que acompanham o seu bife foram produzidos de forma orgânica ou convencional, a sua atenção não está devidamente focada nas decisões que podem ter maior impacto no ambiente.[…] (Focar a decisão no que comer, acrescento eu).

Do ponto de vista da saúde do consumidor, muitos consideram a comida orgânica mais segura devido à menor exposição aos pesticidas. […] Um estudo, que agregou dados de três investigações realizadas nos EUA, concluiu que os alimentos orgânicos tinham cerca de um terço de resíduos de pesticidas se comparados com os produzidos convencionalmente. Estes resultados não surpreendem, considerando que o uso de pesticidas é mais elevado nos sistemas convencionais de agricultura. Contudo a questão mais importante é: devemos estar preocupados com o impacto dos resíduos de pesticidas na nossa saúde? A Organização Mundial da Saúde conjuntamente com a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO) definiram níveis individuais “seguros” de ingestão de pesticidas, onde o consumo máximo diário dos mesmos foram estabelecidos, de forma a que a exposição dos consumidores a cada um deles não tenha efeitos carcinogénicos na sua saúde. Os governos e suas agências alimentares utilizam estes valores de ingestão aceitáveis e estabeleceram os Limites Máximos de Resíduos (LMR). Estes LMR são fiscalizados para assegurar que os alimentos estão abaixo de tais valores. […] Os autores procuraram numa base de dados da USDA os resultados nacionais (EUA) entre 2000 e 2008. Foi verificado que a exposição a pesticidas por parte dos consumidores de produtos originários da agricultura convencional foi muito abaixo dos limites máximos definidos. A maioria dos produtos avaliados (75%) apresentavam 0.01% dos respectivos LMR. Este valor significa que o nível de resíduos eram um milhão de vezes mais baixo que os LMR definidos.

fonte: https://ourworldindata.org/is-organic-agriculture-better-for-the-environment

Acho que há neste post muito alimento para o pensamento, mas já ficaria satisfeito se ele contribuísse de alguma forma para uma análise e discussão menos polarizada, menos emocional, com menos à prioris de cada um dos lados dos apologistas de um ou outro sistema. Em Portugal, assim como noutros países, estes temas discutem-se de forma muito sectária, com uma atitude de capelinha, que nos torna míopes e que pouco contribui para o devido aprofundamento de questões vitais, complexas e matizadas nesta época da nossa História.

Notas:

  • Já me referi aqui ao LMR para o amitraz no mel, para que eu e eventualmente mais alguns de nós, evitemos a tendência para sermos mais papistas que o papa.
  • Estes são os resíduos que mais me preocupam no momento; os resíduos químicos deixados na minha louça, onde como todos os dias, pelos detergentes que utilizo durante a lavagem. Que atenção têm merecido da nossa parte?

as varroas não são vampiros, são lobos

Esta apresentação garantiu a Samuel Ramsey um prémio para continuar a levar a cabo a sua investigação em torno do que consomem exactamente as varroas quando parasitam as abelhas adultas.

Como diz este candidato a uma bolsa de doutoramento na área da entomologia houve na comunidade científica e na comunidade de apicultores uma verdade axiomática, que se aceitou ao longo de décadas, de que as varroas se alimentavam da hemolinfa/sangue das abelhas.

A investigação até agora realizada por este jovem aponta noutro sentido: as varroas alimentam-se da gordura que se encontra armazenada no zona inferior do abdómen das abelhas. Esta zona conhecida como “corpo gordo” para além de constituir uma reserva de nutrientes tem outras funções de enorme relevância, como por exemplo: desintoxicadora de pesticidas; reguladora dos níveis hormonais; resposta imunitária de primeiro nível; entre as nove funções já conhecidas.

Samuel Ramsey verificou ainda que varroas alimentadas só com hemolinfa/sangue morriam mais rapidamente e produziam um pequeno número de ovos. Já as varroas alimentadas com a gordura do “corpo gordo” das abelhas sobreviveram mais tempo e produziram seis vezes mais ovos.

O próximo passo desta investigação será procurar introduzir no “corpo gordo” das abelhas algo que possa interromper o ciclo reprodutivo das varroas sempre que estas ali procurarem o seu alimento. Uma espécie de caldo com pozinhos amarelos. Mais uma luz que parece abrir-se ao fundo de um longo e tortuoso túnel.

uma nova família de acaricidas em perspectiva

Recentemente foi descoberto em ensaios laboratoriais e um pouco por acaso que o cloreto de lítio (LiCL) tem um elevado efeito acaricida. Esta descoberta acidental* foi efectuada no âmbito de uma linha de investigação, já com alguns anos, em torno da modificação de alguns genes da varroa, com a intenção de manter a população de ácaros controlada (um tema a abordar num futuro post).

Nesta investigação, e de acordo com os protocolos experimentais, o cloreto de lítio (LiCL) foi usado como precipitante do RNA.  Inesperadamente verificou-se que o LiCL  é muito eficaz na eliminação dos ácaros Varroa, quando as abelhas são alimentadas com xarope onde estão dissolvidas concentrações muito baixas deste composto. No seguimento foram realizadas várias experiências para avaliar melhor os efeitos acaricidas do LiCL, assim como a tolerância das abelhas a este composto. Até agora os resultados obtidos sustentam o optimismo dos investigadores (que inclusive já patentearam a descoberta e seus desenvolvimentos futuros) e dão uma base promissora para o desenvolvimento de um método de controle efetivo e de fácil aplicação no controlo dos ácaros que tanto nos afligem.

Os autores da descoberta escrevem o seguinte a propósito desta descoberta surpreendente: “Como um varroacida, o LiCl apresenta algumas potencialidades únicas: (i) O LiCl atua de forma sistémica através da alimentação de abelhas (“fácil de aplicar”); (ii) é solúvel em água e não se acumulará na cera da abelha; (iii) a toxicidade oral da maioria dos compostos de lítio para mamíferos é relativamente baixa; (iv) não tem efeito repelente no xarope onde se encontra dissolvido dentro do intervalo de concentração relevante e (v) está disponível a preços moderados.

[…] Um desafio para novas pesquisas será o desenvolvimento de uma técnica de aplicação dedicado a enxames e colónias de tamanho natural para garantir que todas as abelhas recebam a quantidade crítica do composto ativo.

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-017-19137-5

Nota: *Acerca das descobertas acidentais em ciência, recordo-me de alguém dizer que a célebre maçã que caiu sobre a cabeça de Newton e o levou a formular a teoria gravitacional, caiu sobre uma cabeça preparada.

Actualização acerca do lítio na dieta humana: o lítio é essencial na dieta humana e as evidências científicas actuais defendem o consumo de 1000 μg/dia de lítio para um adulto médio com 70 Kg. O consumo de litio  propicia benefícios na saúde da população em geral.

Fonte: Gerhard N. Schrauzer (2002) Lithium: Occurrence, Dietary Intakes, Nutritional Essentiality, Journal of the American College of Nutrition

o vírus das asas deformadas pode ser transmitido durante o acasalamento natural e infecta as rainhas de abelhas melíferas

O vírus das asas deformadas (VAD) contribui de forma significativa para as perdas de colónias de abelhas. Frequentemente a morte/falha das rainha está associadas à perda da colónia. Nesta investigação examinámos se a transmissão sexual durante o acasalamento é uma forma possível de infecção de rainhas com o VAD. Num ambiente com alta prevalência de VAD, as rainhas (n = 30) foram examinadas após o retorno dos vôos de acasalamento realizados em condições naturais. O endofalo do último zângão (n = 29), quando ainda presente nas rainhas, foi removido para a quantificação do VAD, levando à detecção de infecção de nível elevado em 3 endofalos. Após o início da ovodeposição das rainhas deste grupo experimental, a quantificação viral revelou que sete das 30 rainhas tinham infecções de VAD a um nível elevado, em todos os tecidos, incluindo no sémen armazenado nas espermatecas. Dois grupos de rainhas, um com rainhas não fecundadas (n = 8) com a postura de ovos induzida artificialmente, outro com as rainhas (n = 12) fecundadas em ambiente isolado com zângãos com infecções de VAD comparativamente baixas serviram como controle. Nenhuma das rainha deste grupo de controle apresentou infecções virais a nível elevado. Os nossos resultados demonstram que os zângãos com VAD a níveis elevados estão aptos para competir nas zonas de congregação, compartilhar e transmitir os vírus juntamente com o sémen, o que ocasionalmente leva a infecções das rainhas. A transmissão do VAD às rainhas durante o acasalamento pode ser comum e pode contribuir de forma notável para a mortalidade das rainhas.

fonte: https://www.nature.com/articles/srep33065

Entre outros aspectos, destaco a importância de ter os níveis de varroa muito baixos também na época de criação de zângãos nas nossas colónias de abelhas. Desta forma estamos a promover a esperança de vida das rainhas e a diminuir a possibilidade de transmissão vertical do VAD das rainhas às suas filhas.

Fig.1: Momento do acasalamento de uma rainha de abelhas melíferas.

o controlo biológico de pragas: a raposa que guarda o galinheiro?

Como bem sabemos as abelhas melíferas, assim como  outros insectos, dependem da existência de plantas nectaríferas nas redondezas para a sua sobrevivência.  Sabemos também que algumas destas plantas são indesejadas por outros actores do sector primário e utilizadores dos solos. Para o controlo destas plantas, tidas por alguns como pragas, têm-se utilizado químicos de síntese e/ou agentes biológicos. É sobre estes últimos que me importa agora reflectir (sobre os primeiros julgo que todos nós estaremos mais informados).

O controlo biológico de pragas já não é de agora. Contudo de há duas décadas para cá tem vindo a ser cada vez mais utilizado no controlo de pragas. A intensificação da sua utilização prende-se com vários aspectos dos quais destaco a má imagem que a utilização  de químicos de síntese tem associada, por contraponto com a boa imagem que o controlo biológico tem vindo a assumir no seio da opinião pública e publicada. Dito de outra forma: tem-se assistido à diabolização dos primeiros e ao endeusamento dos segundos. Ainda que humana, esta visão maniqueista das coisas, pode ser incorrecta, injusta e sobretudo pouco esclarecida e produtiva.

A propósito da utilização de técnicas de controlo biológico deixo este pequeno excerto retirado do American Bee Journal (ABJ), onde está descrita a enorme preocupação que os apicultores norte-americanos dos estados do sul do país já estão a viver com a provável introdução de um agente biológico (o escaravelho Bikasha collaris) para controlar uma planta extraordinariamente nectarífera (a Triadica sebifera).

“Esta preocupação leva a outras, como o registo de (in)sucesso na introdução de espécies biológicas com ou sem testes adequados e protocolos de pesquisa cuidadosos. No caso da erradicação do loosestrife roxo no Massachusetts, um controle biológico foi introduzido com sucesso na eliminação desta planta, mas ao mesmo tempo a colheita de mel foi eliminada, bem como forragem para todos os polinizadores. Uma espécie invasiva mais agressiva, a phragmites, substituiu a anterior, e agora não existe controle conhecido desta planta. Outra história semelhante de controle biológico mal sucedido é o caso do escaravelho Asian Lady, que continua a ser problemático hoje. Muitos outros controlos biológicos falhados podem ser citados também. A libertação do escaravelho Bikasha collaris (agente de controlo biológico) de forma menos controlada pode levar a consequências desastrosas. A capacidade deste escaravelho se adaptar e reproduzir num novo ambiente é praticamente desconhecida. Num dos manuais de referência “Controle biológico: medidas de sucesso” (editor G.Gurr e Steve Wratten), os autores relatam que “apenas cerca de 10% das tentativas de controlo biológico são bem sucedidas” e que a taxa de sucesso pouco mudou durante um século. Eles também observam que “o controle biológico pode causar danos, por exemplo, quando o agente libertado ataca um organismo não-alvo a conservar ou de valor económico“.

Obviamente que não pretendo diabolizar a estratégia de controlo biológico de pestes, que quando aplicada devidamente tem aos meus olhos inúmeras vantagens sobre as estratégias químicas, em especial no que respeita às abelhas.  Quero no entanto suscitar estas questões e reflexões: estarão as medidas de controlo biológico a ser devidamente avaliadas e escrutinadas pelos responsáveis pela sua adopção assim como pelos seus defensores? Haverá aqui algum olhar mais benevolente sobre elas por parte da sociedade em geral, mas eventualmente menos rigoroso e atento, porque estas medidas lhes são apresentadas à priori como “amigas do ambiente”?

 Neste artigo com o elucidativo título 50 anos de tentativas de controlo biológico de térmitas— análise de um insucesso podemos ler acerca dos enganos, optimismo excessivo e envieazamentos de análises que foram dando suporte a tentativas irrealistas, mal fundamentadas e infrutíferas de controlo biológico de térmitas nas últimas cinco décadas . Deixo algumas linhas traduzidas do sumário do artigo:

Esta re-interpretação apoia a ideia de que as conclusões frequentemente expressadas têm sido enganosas até certo ponto, ou pelo menos excessivamente otimistas, sobre o potencial de aplicação do controle biológico às térmitas. Muitos resultados obtidos a partir de bioensaios com baixa relevância biológica foram interpretados como promissores, enquanto poucos resultados suportam efectivamente a sua aplicação prática. Também sugerimos que a falha no controle biológico de térmitas e a contínua ênfase na pesquisa nesta área resultaram em parte do otimismo irrealista sobre o potencial de desenvolvimento de métodos ambientalmente amigáveis ​​para controle de térmitas, fruto de viés nas publicações e deficiente compreensão da biologia das térmitas.

A concluir, neste link está relatado em português um caso em que tudo correu muito mal na Austrália, na tentativa de controlar um besouro.