VSH (Varroa Sensitive Hygiene): abelhas resistentes e seus comportamentos

Com o objectivo de seleccionar abelhas resistentes ao ácaro varroa, várias linhas de investigação e várias propostas têm sido apresentadas nas duas últimas décadas.

O laboratório apícola da USDA-ARS em Baton Rouge (EUA) tem-se destacado na selecção e melhoramento de abelhas que apresentem um comportamento que é designado por VSH (acrónimo de Varroa Sensitive Hygiene).  De forma simples estas abelhas removem/limpam as pupas infestadas pelos ácaros (ver vídeo aqui).

Este comportamento VSH tem-se revelado um importante mecanismo de resistência ao ácaro varroa. O maior nível de resistência surge nas abelhas de linhagem pura (mães e pais VSH). No entanto, as abelhas VSH híbridas (ex. rainhas VSH fecundadas ao ar livre com zangãos não-resistentes) também têm apresentado uma considerável resistência aos ácaros varroa.

O VSH é muito semelhante ao comportamento higiénico que as abelhas usam para combater a loque americana, ascosferiose, os ovos e larvas de traças da cera e os pequenos escaravelhos da colmeia (Aethina tumida). Todas as colónias têm provavelmente indivíduos que executam VSH e, assim sendo, a selecção e melhoramento por criadores de rainhas de linhas resistentes pode ser levado a cabo através de criteriosos mecanismo de avaliação e selecção para esta característica com as abelhas de qualquer parte do mundo. Sabe-se que este comportamento VSH é realizada predominantemente por abelhas com idades entre 15-18 dias de idade. A remoção dos ácaros das pupas infestadas começa quando uma abelha “desoperculadora” cheira as pupas infestadas e perfura  os opérculos. Posteriormente outras abelhas, as “removedoras”, alargam o furo dos opérculos e removem as pupas infestadas

Fig. 1: Remoção da pupa infestada pelo ácaro da varroa.  A remoção envolve várias abelhas e resulta na morte da prole do ácaro. A varroa-mãe geralmente sobrevive.

fonte: http://articles.extension.org/pages/30361/varroa-sensitive-hygiene-and-mite-reproduction

apiários de fecundação isolados: condições para o seu estabelecimento

Serão os apiários de fecundação isolados uma ilusão como opina Michael Bush quando escreveu no BeeSource “Apiário isolado é um pensamento ilusório por parte dos criadores de rainhas … ou um mito definitivo …”. Não é sempre assim, mas é a mais pura verdade na enorme maioria dos casos: uma ilusão dos criadores de rainhas.

Vejamos o que nos diz alguém dos apiários Russel (http://www.russellapiaries.webs.com/), apicultor de uma 3ª geração de apicultores e entomologistas com mais de 125 anos de actividade apícola, acerca de técnicas sérias utilizadas na identificação de apiários isolados.

Eu tenho discutido esta prática várias vezes antes. Os apiários isolados, embora nunca 100% certos,  são um método que é usado principalmente por alguns dos criadores mais sérios, e têm sido utilizados na indústria à muito tempo… essas áreas são testadas pelos criadores de forma rigorosa para avaliar a presença de outras colónias na área… Eles são testados usando vários métodos: inspeções de campo, testes de rainhas virgens, radar e armadilhas com 9-ODA [feromona mandibular da rainha].

Para o criador sério, os ensaios para identificar áreas isoladas é muito caro (em média são investidos US $ 43 000 por localização) e pode levar anos e anos antes de o criador ser capaz de começar a utilizar o apiário para a produção.

Uma vez que uma área mostra resultados promissores a partir desses testes, é preenchido pela linhagem de abelhas  escolhida para a saturação de área… por exemplo após 4 anos de testes num raio de 28 milhas [45 Km] decidimos aceitar um local… mudámos 500 colónias de uma certa linhagem para esse local… A área será testado novamente nesta temporada e, em seguida, colocaremos os 5.000 núcleos de fecundação neste local para criação de rainhas unicamente da linhagem colocada na temporada anterior… através de pesquisa do genoma nós (assim como outros) testamos a filiação de zangões capturados de forma aleatória em vôo perto das zonas de congregação de zangãos, com a finalidade de identificar a contaminação por outras colónia na área… Outra forma de isolamento de apiários que é usado nas regiões montanhosas é um “Snow cap yard” de alta altitude que  pode fornecer excelentes locais onde as abelhas podem ser isoladas devido aos topos de montanha congelada em torno de uma área onde as abelhas são mantidos… enquanto o vale aquece se enche de culturas durante a primavera e o verão, os topos das montanhas circundantes ao vale permanecem congeladas devido à alta altitude.

Espero que isso ajude.” rrussell6870, post no BeeSource em Janeiro de 2011.

Julgo que para os que entendem que em Portugal e no momento actual se está a efectuar hibridação controlada vem a propósito a afirmação de Randy Oliver: “A pessoa que enganamos mais facilmente somos nós próprios.”

abelhas produtivas e sua selecção: algumas ideias de C. L. Farrar

Se tivesse que indicar três nomes grandes da apicultura do sec. XX, o norte-americano C. L. Farrar faria parte da minha lista. Não é de estranhar, portanto, que volte a traduzir excertos do que ele escreveu, como já  fiz aqui.

No que concerne à selecção de uma raça/linhagem de abelhas produtivas Farrar escreve:

“… há maiores variações na eficiência da produção entre linhagens de abelhas dentro das três raças comuns (italiana, caucasiana e carniola) que existem entre as raças.

[…] Abelhas híbridas geneticamente controladas são desenvolvidas por endogamia seletiva e recombinação das linhas puras para obter vigor híbrido numa linhagem que se pretende mais produtiva e que expresse as características mais desejáveis do que a estirpe comum.

[…] Híbridos geneticamente controlados não devem ser confundido com abelhas resultante de uma mistura geral e desorganizada de raças que não tenham sido submetidas a seleção para características específicas.

[…] Rainhas capazes de produzir grandes ninhadas e de boa qualidade devem ser a primeira consideração nos programas de selecção. Um bom stock irá produzir e manter grandes populações na colónia no momento em que os principais fluxos começam. Uma rainha prolífica irá exigir o equivalente de 12 a 18 quadros, dependendo da quantidade de mel e pólen na colmeia, embora teoricamente toda a sua ninhada possa ser equivalente a apenas 5 – 6 quadros.

[…] A qualidade da postura é melhor avaliada quando observamos criação não selada (larvas de tamanho uniforme e sem interrupções dentro de uma área do quadro) do que quando nossa observação incide sobre a criação selada.

[…] Diferenças nas tendências para a enxameação de estirpes ou raças não estão bem estabelecidos e geralmente o  fenómeno é controlado por uma gestão adequada por parte do apicultor.

[…] Os apicultores desejando novas linhagens devem obter rainhas de vários criadores de rainhas para as comparar devidamente. Deve-se reconhecer que rainhas deficientemente criadas de linhagens produtivas em geral serão inferiores a rainhas criadas de forma correcta provenientes de linhagens menos produtivas.

fonte: http://beesource.com/resources/usda/productive-management-of-honey-bee-colonies/

Nota: no continente americano, do norte ao sul, a espécie apis mellifera é exótica e foi introduzida pelos europeus que foram habitar aquele continente.

paragem de postura durante o inverno?

Durante o inverno, e na zona onde os meus apiários estão localizados, as temperaturas diurnas entre os 3ºC – 7ºC  tendem a ser um acontecimento normal e frequente. Com estas temperaturas externas alguns de nós pensarão que as rainhas páram a postura. Ainda que possam estar correctos algumas vezes, o mais provável é estarem afastados da realidade na maioria dos casos.

Tom Seeley e Kirk Visscher descobriram que a postura de ovos começa no momento em que a temperatura média máxima diária atinge cerca de 4 ºC, e se intensifica grandemente se as temperaturas médias diárias se situam entre 5° – 15°C.

Estes investigadores verificaram que este aumento de criação ocorre meses antes do pólen natural estar disponível, e provoca um aumento considerável do consumo de mel/reservas. Isto, claro, aumenta o risco de uma colónia morrer por fome durante o período invernal, mas é um risco que a colónia aceita naturalmente, porque indispensável para que atinja a população de abelhas necessárias ao bom aproveitamento dos fluxos de néctar que virão. Também para  apicultor a criação de abelhas novas nestas condições extremas é crítica para delas tirar os proveitos que o seu trabalho e investimento justificam.

A minha estratégia de suplementação alimentar nos últimos três anos tem sido muito simples e bem sucedida: mais do que estimular a postura da rainha nos meses de Janeiro a Março com suplementos líquidos, procuro dar às minhas colónias o apoio necessário nesta altura do ano, com alimento na forma de pasta de açúcar (fondant), para que elas façam o que entendem e sabem fazer tão bem sem passarem fome e cresçam de forma equilibrada e em sincronia com o seu meio envolvente.

Nota: se e fosse criador de rainhas ou se tivesse contratos de polinização para cumprir a minha estratégia de suplementação de alimentos seria diferente. Tenho que ter, no entanto, o bom senso de não seguir as estratégias de alimentação levadas a cabo por apicultores que têm objectivos tão diferentes dos meus.

Fig. 1: Um exemplo de uma mal-gerida alimentação de estimulação. Esta colónia vai morrer. Vejamos como ela teve recentemente uma grande área de criação, como evidenciado pelo anel de pólen recém-coletado. Mas a sua população de abelhas adultas diminuiu mais rápidamente do que as novas abelhas que foram sendo criadas. O cacho de abelhas foi incapaz de cobrir a criação selada e uma geada e temperaturas mínimas muito baixas, conduziram a que boa parte da criação ficasse congelada e fosse removido no dia seguinte. As elevada mortalidade abelhas adultas nesta época do ano pode ser provocada pela Nosema ceranae.

fonte: Seeley, TD and PK Visscher (1985). Survival of honeybees in cold climates: the critical timing of colony growth and reproduction. Ecological Entomologyhttp://scientificbeekeeping.com/understanding-colony-buildup-and-decline-part-3/

quando o insecticida natural é mais perigoso para o homem que o insecticida sintético da mesma família

“As piretrinas (insecticidas naturais) estão entre os insecticidas mais seguros do mercado devido à sua rápida degradação no meio ambiente. As semelhanças entre a química das piretrinas e piretróides sintéticos é que têm um modo de ação semelhante e toxicidade quase idêntica nos insectos (ou seja, piretrinas e piretróides induzem um efeito tóxico dentro do insecto ao atuar nos canais de sódio). Algumas diferenças na química entre piretrinas e piretróides sintéticos resultam que os piretróides sintéticos tenham uma persistência ambiental relativamente maior que as piretrinas. As piretrinas têm uma menor persistência ambiental do que os piretróides sintéticos porque sua estrutura química é mais suscetível à presença de luz UV e alterações no pH.

Deve notar-se, contudo, que as piretrinas apresentam um risco tóxico para mamíferos e humanos que normalmente não se encontra nos piretróides sintéticos. Enquanto o extrato de piretrina é composto por 6 ésteres que são insecticidas, o piretróide semi-sintético é composto por apenas um composto quimicamente ativo. Como resultado, o fígado dos mamíferos tem que quebrar estas cadeias adicionais (mais 5 nas piretrinas), o que conduz a que os níveis de toxicidade aumentem dentro da corrente sanguínea, o que pode levar a hospitalização e até à morte.

Portanto, o uso de piretrina em produtos como inseticidas naturais e champôs aumenta a probabilidade de toxicidade nos mamíferos expostos. Ocorreram casos médicos que resultaram em fatalidades pelo uso de piretrina, levando muitos agricultores orgânicos a terminar com a sua utilização. Existe um caso médico de uma menina de 11 anos que usava champô contendo apenas uma pequena quantidade (0,2% de piretrina) para lavar seu cachorro. A exposição prolongada ao composto no champô, fez com que a menina sofresse de um ataque agudo de asma, do qual morreu duas horas e meia após a primeira exposição ao champô. Relatórios recentes mostram que as taxas de intoxicação acidental têm aumentado constantemente desde o início do uso de piretrinas naturais, levando alguns países a proibir seu uso completamente. Nos EUA, o uso de piretrinas em pulverizadores de insetos domésticos foi banido em 2012, logo após o surgimento de casos de fatalidades em crianças, levando a uma investigação pela FDA.”

fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Pyrethrin

Nota: o tau-fluvalianto presente nas tiras de apistan é um piretroide semi-sintético.

a nosemose em abelhas melíferas europeias: alguns aspectos introdutórios

Até alguns anos atrás a ocorrência na primavera de diarreia e abelhas rastejantes e semi-paralisadas, com dificuldades de voar era considerado um sinal típico da infestação conhecida como nosemose apis. Desde a entrada do novo milénio, este cenário mudou de forma significativa. Hoje, a nosemose raramente é acompanhado de diarreia, mas as abelhas rastejantes, trementes, com as asas em “K” ainda são encontradas em pequenos grupos à entrada da colmeia, e agora ao longo do ano. Uma “nova” forma de nosemose, originária da Ásia, substituiu esta e é conhecida como nosemose ceranae .

Mudança de hospedeiro na Ásia

Nosema apis é o parasita original da abelha apis mellifera. Este fungo multiplica-se nas paredes celulares (epiderme) do intestino médio de uma abelha e obstrui a produção de proteínas. A abelha asiática apis cerana é exclusivamente afetada por fungos da subespécie nosema ceranae.

Fig.1: A—aparelho do ferrão; B—recto; C—intestino pequeno; D—intestino médio. 

Na China, na década de 1970, o fungo nosema ceranae foi encontrado pela primeira vez em abelhas  apis mellifera ali introduzidas. Desde 1998, este “novo” parasita ” espalhou-se por todo o mundo e em pouco tempo tem vindo a ocupar o território antes ocupado pelo nosema apis. De acordo com exames efectuados no sul da Alemanha, a substituição ocorreu em cerca de dois anos, desde o início de 2003. Em locais com maior densidade de abelhas, a mudança foi mais rápida ainda.

Fig. 2: Com uma ampliação de 400x, os esporos ligeiramente menores de Nosema ceranae (4,4 x 2,2 μm, à esquerda) só se distinguem dos dos Nosema apis (5-7 x 3-4 μm) após medição meticulosa.

 

A análise a olho nú do intestino delgado

A análise a olho nú do intestino médio da abelha  pode ajudar no diagnóstico, mas nem sempre é conclusivo, em especial no caso de nosema ceranae.

Fig. 3:  Imagem do topo: intestino médio infestado, com cor creme leitosa. Imagem inferior: não infestado, com um meio ambiente transparente. (Fonte: Ritter, W. (2012) Bienen gesund erhalten (Mantendo as abelhas saudáveis) Ulmer Verlag. Stuttgart, Alemanha em alemão).

 

Fig. 4 : Imagem do intestino de uma abelha com suspeita de estar muito infestado pelos esporos do nosema apis (foto gentilmente cedida por Sérgio Gonçalves)

fonte principal: http://www.beeculture.com/practical-beekeeping-beekeeping-with-the-new-parasite/

produtos da agricultura orgânica: o mito 100% livre de químicos

“Tal como acontece com a maioria esmagadora das amostras, os resíduos detectados nos itens orgânicos estão em níveis abaixo das “tolerâncias” conservadoras que são definidas pela EPA. Sim, resíduos estão presentes. Não, eles não são um problema de segurança. No entanto, a presença de resíduos entra em conflito com o que muitos consumidores são levados a acreditar na diferença entre o orgânico e o convencional. Muitas pessoas pensam que o orgânico significa “sem pesticidas”. Isso simplesmente não é verdade. Os agricultores orgânicos podem e usam uma série de pesticidas permitidos porque eles também precisam lidar com pragas. A lista de pesticidas orgânicos aprovados não se baseia em critérios de segurança, mas sim se eles podem ou não ser considerados “naturais”. Novamente, apesar de um marketing muito enganador, “natural” não significa automaticamente segurança. De fato, o USDA, que é responsável pela certificação orgânica, afirma especificamente em seu site que “nossos regulamentos não abordam a segurança alimentar ou a nutrição”. […]

“Os dados também nos dizem que existem algumas semelhanças impressionantes entre o orgânico e o convencional quando se trata de resíduos. O que os dados também nos dizem é que, como consumidores, devemos rejeitar alguns dos enganosos esforços de marketing  de certos elementos irresponsáveis ​​da indústria orgânica. Em vez de ceder a essas campanhas baseadas no medo, devemos sentir a liberdade de escolher produtos saudáveis ​​e deliciosos usando critérios importantes como frescura, sabor, qualidade e acessibilidade/custo.”

Fig. 1: Químicos detectados em amostras de produtos da agricultura orgânica

Fonte: http://appliedmythology.blogspot.pt/2017/03/organic-might-not-mean-what-you-think.html

Apêndice: Acerca da produção de mel em Portugal, também já vai sendo tempo que uns poucos deixem de valorizar o mel produzido em modo biológico, defendendo falsamente que está 100% livre de químicos, à custa e aos ombros de comparações enganadoras e que visam atemorizar e desviar os consumidores do mel de produção convencional. É um gesto que os engrandeceria e defenderia toda a apicultura Nacional.  Felizmente as análises publicadas têm mostrado que ambos os modos de produção respeitam os apertados critérios definidos pela Autoridade Europeia para a Segurança dos  Alimentos no que ao mel concerne.

maximizar o crescimento primaveril de uma colónia de abelhas

Neste vídeo Randy Oliver apresenta a uma audiência de apicultores canadianos um conjunto de ideias que ele segue para maximizar o crescimento primaveril das suas colónia situadas na Califórnia. Como se costuma dizer toda a apicultura é local. Contudo sendo as condições edafoclimáticas, os timings e algumas necessidades, diferentes de zona para zona, podemos aprender com este apicultor californiano tanto quanto os nossos companheiros canadianos o fazem.

Para a minha zona e com aplicabilidade destaco as seguintes ideias retiradas desta bela palestra de Randy Oliver:

  • ajustar o maneio das colónias aos objectivos: produzir mel, fazer pacotes, efectuar polinização, criar rainhas, produzir núcleos, …?;
  • preparar a primavera seguinte no final do verão anterior com o controlo atempado da varroa, com o fim de reduzir o impacto negativo do vírus das asas deformadas na longevidade da nova geração de abelhas que irão invernar;
  • estimular a postura da rainha no final do verão/início do outono com pasta proteica, se houver pouco pólen disponível no exterior, para ter mais abelhas a invernar;
  • conhecer os timings dos primeiros fluxos de pólen: tipicamente a colónia atinge a pulsão enxameatória 60 a 90 dias após a primeira entrada significativa de pólen;
  • prevenir a enxameação: colónia enxameadas necessitam 30 a 60 dias para recuperar a população de abelhas perdidas;
  • compreender a transição de abelhas de inverno para abelhas de verão: quando a criação começa a aumentar e as abelhas de inverno começam a morrer, a colónia passa por um período crítico de reequilíbrio populacional,  mais difícil ainda se as condições climatéricas forem desfavoráveis;
  • (MUITA ATENÇÂO aos 22′ 20” em que Randy Oliver mostra um belo quadro com criação fechada de uma ponta à outra, retirado de uma colónia no mês de Fevereiro, colónia esta com apenas três quadros de abelhas; Randy questiona a audiência acerca do futuro para esta colónia se as temperaturas nocturnas descerem muito: resposta a colónia está condenada; o número de abelhas disponíveis para aquecer tanta criação é insuficiente e o número de abelhas que nascerão não será suficiente para substituir as abelhas de inverno que estão a morrer em maior número cada dia que passa; será campo fértil para o surgimento de nosemose ceranae e loque europeia);
  • estar atento ao crescimento linear de uma colónia que se inicia com a estabilização do ninho (cerca de 5 quadros com criação) e continua durante cerca de 60 dias: nesta fase nascem 400-500 abelhas/dia, isto é, ao fim de 4 a 5 dias temos mais um quadro coberto de abelhas;
  • não esquecer que as rainhas atingem o pico de postura quando as abelhas cobrem 10 ou mais quadros;
  • não esquecer que a população de abelhas máxima de uma colónia corresponde a 42 vezes a taxa de ovoposição de uma rainha: se uma rainha põe 1000 ovos/dia a população máxima da colónia será de 42000 abelhas; a média de ovoposição de uma rainha nova é de 1500 ovos/dia;
  • não esquecer que as rainhas gostam do efeito chaminé alcançado quando se coloca um sobreninho com ceras já puxadas o que lhes permite “subir” e iniciar aí a postura; assim estamos a maximizar a postura da rainha e a prevenir a enxameação;
  • colónias grandes e em rápido crescimento necessitam de entrada de muito pólen; se as condições climatéricas não permitem o pastoreio a produção de geleia real diminui imediatamente (1 hora após o início de chuvadas por ex) e em casos mais graves as abelhas canibalizam os ovos e as jovens larvas para suprir algumas necessidades proteicas;
  • a escassez de alimento e a mortalidade por fome ocorre mais no início da primavera que durante o inverno;
  • importa monitorar a quantidade de alimento dado às larvas: larvas a nadar em geleia é muito bom sinal; larvas em alvéolos quase secos é sinal de desequilíbrio nutricional corrigido com suplementos proteicos;
  •  alimentar sempre que na primavera há vários dias seguidos com condições climatéricas que impeçam as abelhas de sair; nesta altura as reservas são as suficientes apenas para o dia-a-dia;
  • o gatilho para a  enxameação surge quando não existe feromona da criação emitida pelas larvas jovens antes da operculação;
  • é necessário quebrar a abóboda de mel no topo dos quadros para levar as abelhas a armazenarem o mel nas alças meleiras, sobretudo se estas tiverem apenas cera laminada;
  • inverter a posição do ninho com criação fechada e o sobreninho com criação aberta diminui a pulsão para enxamearem; a criação fechada irá emergir nos dias seguintes criando uma nova “cavidade” vazia que engana as abelhas e refreia a sua vontade de enxamearem;
  • happy beekeeping.

abelhas resistentes: um longo caminho espera randy oliver?

Randy Oliver escreveu no BeeL (fórum de apicultores reputados) recentemente acerca dos dados recolhidos na sua experiência para criar abelhas resistentes ao ácaro varroa. Em concreto escreve ele:

Uma coisa que vem à mente de alguns apicultores é que as abelhas sobrevivem sem tratamento. Muitas pessoas afirmam tê-las, mas muitas vezes não produzem evidências, ou então são casos pontuais e apenas histórias bem contadas. Posso oferecer algumas provas “duras”/quantificadas? Eu monitorei os níveis de ácaros numa população inicial de pouco mais de 1000 colónias no ano passado, para ver qual proporção realmente sobreviveria sem tratamento. As rainhas de todas as colónias eram filhas de aproximadamente 15 rainhas, cujas colónias anteriormente pareceram exibir resistência ao acúmulo de ácaros. Em cada evento de monitorização, tirei da experiência toda e qualquer colmeia em que a contagem de ácaros estava  numa trajetória para a eventual morte da colónia pela infestação pelo varroa (tratava-as, de modo que nem uma única colónia morreu pela acção de ácaros durante a experiência). À medida que nos aproximamos da marca de 1 ano, das mais de 1000 colmeias, parece que talvez 16 tenham mantido contagens de ácaros abaixo de 4 ácaros por 100 abelhas – menos de 2% de “sobreviventes” (eu estimo 16 colónia dado que eu já amostrei metade até agora). Se eu não tivesse tratado o resto ao longo do ano, acho que seus colapsos inevitáveis ​​teriam superado mesmo aqueles 2% com os ácaros que derivariam das colónias colapsadas. Isso não quer dizer que outros não possam começar com uma linhagem de abelhas que exiba um maior grau de resistência ao ácaro (VSH, russas ou outras confirmadas ), mas certamente se aplicará a qualquer pessoa que comece com linhas de abelhas comuns (que apresentam muito menos resistência do que as linhagens com que comecei). Eu estou tão entusiasmado quanto qualquer um sobre a criação de abelhas que exibem a resistência aos ácaros, mas a mensagem para levar para casa é que, de fato, devemos ser extremamente céptico sobre as reivindicações relativas à sobrevivência a longo prazo de qualquer linha de abelhas sem dados “duros”/quantificados que o suportem .

Destas linhas que caracterizam o estilo frontal, sólido e fundamentado próprio de Randy Oliver destaco:

  • a eventual existência de colónias de abelhas resistentes são pontuais/locais;
  • numa população de cerca de 1000 colónias apenas 16 (menos de 2% da amostra) mantiveram a infestação abaixo dos 4%;
  • a linhagem destas 1000 colónias provinham de 15 rainhas que na época anterior tinham aparentado alguma resistência ao varroa;
  • um cepticismo face a reivindicações de criadores de rainhas alegadamente resistentes que não apresentam dados “duros”/quantificados que as suportem.

Para nós, em Portugal, estes dados devem-nos fazer reflectir que das aparências às evidências a distância pode ser grande. Fazer rainhas a partir de uma matriarca que aparentemente tem alguma resistência ao varroa é, seguramente, uma actividade louvável. Muitíssimo questionável é promover as filhas destas como mais resistentes em qualquer grau ao varroa.

armonización de criterios frente a la protección y defensa de la raza autóctona de abeja Apis mellifera iberiensis

Foi no passado dia 8 de Fevereiro que nas VI Jornadas da Associação de Apicultores Espanhóis, em Guadalajara, se reuniram investigadores, técnicos e representantes de várias associações espanholas de apicultores para abordarem o tema: “Armonización de criterios frente a la protección y defensa de la raza autóctona de abeja Apis mellifera iberiensis”.

Ainda que o som não seja sempre de boa qualidade, fica muito claro a importância e gravidade que este tema adquire actualmente no sector apícola espanhol. Para nós, que em Portugal também nos importamos, fica o sempre reconfortante sinal que não estamos sós na Península.