alterações climáticas: o consumo de reservas numa colónia de abelhas

As mudanças climáticas podem influenciar o ciclo de desenvolvimento das abelhas. É geralmente aceite que cada raça de abelhas melíferas se desenvolve ao seu próprio ritmo. Qualquer tipo de mudança climática ou importação de uma raça de abelhas para uma região geográfica onde não é nativa está fadada a ter consequências mensuráveis, muitas delas negativas inclusivamente para os ecotipos locais. Em regiões com estações frias (com semanas seguidas abaixo dos 10ºC), as abelhas devem “saber” passar o inverno agrupadas num “cacho” apertado, onde produzem o calor que precisam para sobreviver até a primavera e, ao mesmo tempo, ter uma rainha que não teime em fazer muita postura nesta época. A capacidade da abelha melífera acumular reservas de energia/alimento e administrar o desenvolvimento da colónia decorre de uma significativa pressão adaptativa. As raças autóctones, fruto da lenta selecção natural, foram afinando esta co-evolução entre as condições ambientais locais e o genótipo/fenótipo (comportamento autóctone). Nestes ecotipos locais, no final de inverno/início da primavera, quando o clima fica mais ameno, a rainha aumenta gradualmente a postura e a colónia desenvolve-se e aumenta o tamanho da população de obreiras.

  Fig. 1: Abelha prestes a regressar a casa por ameaça de chuva.

Fruto das alterações climáticas, inesperadas ondas de frio e/ou chuva com duração de várias semanas podem ocorrer durante o final do inverno/início da primavera. Nesta época o grande tamanho da população de abelhas provoca um esgotamento muito rápido das reservas e a colónia pode morrer de fome. Esta mortalidade, já na praia, ocorreu, infelizmente, a vários apicultores no ano passado (2018), fruto dos meses de março e abril mais frios e chuvosos que o habitual. Lembro-me que nestes meses, nestes dois últimos anos, andei vários dias debaixo de alguma chuva a suplementar com alimento pastoso as minhas colmeias. Se assim não tivesse feito teria perdido um número apreciável de colónias.

As colónias dos ecótipos locais, as melhor adaptadas às condições ambientais da região, terminado o período de escassez, desenvolvem-se muito rapidamente. Desta forma, evitam colocar em risco a sobrevivência da colónia. Em determinados anos de clima alterado, mesmo estas colónia bem adaptadas necessitam do apicultor ao seu lado, especialmente nas semanas chuvosas de final de inverno/início de primavera, quando elas não conseguem ir ao exterior buscar o seu alimento.

Nota: os períodos de escassez, que colocam as colónias em perigo, também podem estar associados a secas longas e ondas de calor mais frequentes e em épocas inabituais. Tema para um outro post.

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