apivar provavelmente o melhor acaricida

De entre todos os acaricidas homologados em Portugal, o Apivar é provavelmente o melhor de entre eles.

465

Fig. 1: Saquetas e tiras de Apivar

No caso dos acaricidas eles devem ser avaliados de acordo com um conjunto de critérios que sejam pertinentes. Na minha opinião os critérios a eleger devem ser:

  • segurança alimentar;
  • segurança para o aplicador;
  • baixo impacto na colónia de abelhas;
  • eficácia no controle da varroose;
  • facilidade de aplicação;
  • relação custo/benefício.

Relativamente à segurança alimentar estudos independentes e relatórios produzidos pelo Comité europeu para o uso de medicamentos veterinários são claros quanto a este ponto: a utilização do Apivar em colónias de abelhas antes, durante e após os fluxos de néctar não faz aumentar os níveis de amitraz e seus metabolitos para além dos limites estabelecidos (200µg por Kg de mel).

fontes principais:

  1. http://www.ema.europa.eu/docs/en_GB/document_library/Maximum_Residue_Limits_-_Report/2009/11/WC500010419.pdf
  2. https://hal.archives-ouvertes.fr/hal-00892290/document
  3. http://projectapism.org/wp-content/uploads/2013/06/Final-Report_Pettis-341.pdf

Relativamente à segurança para o aplicador, as tiras de Apivar não obrigam a medidas e equipamentos de protecção individual dedicados ou extraordinários. O aplicador deve ter cuidado para evitar contactar com as mãos nuas nas tiras, o que não é difícil de conseguir porque por hábito já utilizamos luvas no exercício do nosso maneio apícola.

Mesmo em contextos de longa exposição das abelhas, rainhas e larvas de abelhas às tiras de Apivar confirmou-se um baixo impacto na colónia.

fontes principais:

  1. http://scientificbeekeeping.com/

Relativamente à eficácia no controle da varroose do Apivar ela é elevada quando comparada com a eficácia de outros acaricidas disponíveis. Já anteriormente me referi à vantagem de manter as tiras de Apivar 10 a 12 semanas nas colmeias para aumentar e prolongar o seu efeito acaricida. Por outro lado o modo de acção do amitraz (princípio ativo das tiras de Apivar) no ambiente da colmeia parecem tornar mais difícil e/ou demorado o surgimento de varroas resistentes ao mesmo.

fontes principais:

  1. http://gdsa34.e-monsite.com/medias/files/apivar-presentation-produit.pdf
  2. http://www.revmedvet.com/2007/RMV158_283_290.pdf
  3. http://ecbiz193.inmotionhosting.com/~nodglo5/wp-content/uploads/2016/04/FNOSAD-2014-study-high-quality.pdf
  4. http://www.alsace.chambagri.fr/fileadmin/documents_alsace/INTERNET/elevage/flash_abeilles/Bilan_enquete_sur_les_pertes_hivernales_2014-2015.pdf

No que respeita à facilidade na aplicação, para além da grande simplicidade na colocação das tiras, quero referir dois aspectos a ter em consideração para uma melhor eficácia: as tiras de Apivar devem ser colocadas no interior da zona de criação e passadas 6 a 8 semanas devem ser ajustadas caso a zona de criação se tenha deslocado.

fontes principais:

  1. http://gdsa34.e-monsite.com/medias/files/apivar-presentation-produit.pdf
  2. http://www.apivar.co.nz/FAQs.htm

Finalmente a relação custo/benefício: sendo o tratamento eficaz, como tem provado ser, esta relação é muito positiva para o apicultor. No pior cenário serão gastos cerca de 10 € por colmeia (2 tratamentos a 5€ cada, custo que se vê substancialmente reduzido se comparticipado pelo PAN) e será mantido um efectivo que se avalia em 100 € (montante abaixo do actual valor de mercado de uma colónia de abelhas). Por outro lado é um tratamento que obriga apenas a duas viagens, custos que poderão ser minimizados facilmente se complementados com outras tarefas a realizar no apiário.

Mas como nada que o homem construa é perfeito, também o Apivar apresenta um calcanhar de Aquiles: sendo um tratamento de muito lenta libertação do princípio activo é de eficácia imprevisível quando colocado em colónias com um nível de infestação pelo ácaro varroa demasiado avançado.

fontes principais:

  1. http://www.alsace.chambagri.fr/fileadmin/documents_alsace/INTERNET/elevage/flash_abeilles/flash_ABEILLES-n_2-Decembre2011.pdf

Nota: naturalmente não me responsabilizo por qualquer resultado menos bom com a aplicação das tiras de Apivar. Pretendi manifestar a minha opinião com base no que conheço, suportado no que tenho lido e sustentado na minha experiência como apicultor. Cada um de nós é responsável pelo que decide e deve assumir os riscos dessa decisão.

produção global de mel e apicultura global

A análise detalhada da produção total de mel e das exportações indica contradições sérias e óbvias. Como mostra o gráfico abaixo, houve um enorme aumento no total de exportações globais de mel (61%), sem um aumento correspondente no número de colmeias em todo o mundo (8%).

ihm-5-2016

Graf. 1: A evolução do número de colmeias no mundo (linha castanha) entre 2007 e 2014 foi de 8%; por seu lado no mesmo período a evolução das exportações de mel (linha azul) foi de 61%.

Esta aberração é mais preocupante ainda sabendo que a população global de abelhas está sob tremendo stresse e em declínio. Nas operações de apicultura mais avançadas e profissionais do mundo, como na América do Norte e na Argentina, a produtividade por colmeia diminuiu substancialmente. Nestas zonas do mundo onde médias de 55Kg/colmeia eram típicas, atualmente produzem-se 22-32 Kg/colmeia, e em circunstâncias climáticas adversas esta média baixa ainda mais. As perdas de abelhas relacionadas com os neonicotinóides, pesticidas, ácaros, colapso das colónias, redução da área cultivada para forragem, monoculturas e monodietas, stresse, poluição ambiental e mudanças climáticas contribuíram para esta perda de produtividade por colmeia. O aumento das exportações globais de mel neste contexto associado a um número estável de colmeias e a quedas de produtividade por colmeia nos principais países produtores cria uma anomalia que sugere uma adulteração generalizada do mel.

O fato dos apicultores chineses extraírem mel com níveis de humidade muito alta na ordem dos 35-40% (quando o standard de humidade num mel maduro se situa em torno dos 17%) e posteriormente reduzirem em fábricas aquele alto teor de humidade pode ser um fator que contribui para esta anomalia. A extração de mel imaturo e não amadurecido pode aumentar as quantidades produzidas, mas diminuiem as qualidades e privam o mel dos benefícios para a saúde e o seu estatuto de produto puro e natural. Felizmente, a tecnologia de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) pode fornecer uma ferramenta eficaz para distinguir o mel imaturo e inautêntico do mel natural. Padrões para as práticas globais de apicultura profissional e metodologias de teste eficazes para o mel precisam de evoluir para preservar a integridade do mel.

Fonte: http://www.ahpanet.com/page/IntlHoneyMarket

acaricidas rápidos e acaricidas lentos

Em França verificar a eficácia dos medicamentos utilizados na luta contra o ácaro varroa é, desde 2007, uma atribuição coordenada pela FNOSAD (Fédération Nationale des Organisations Sanitaires Apicoles Départementales) que reúne a grande maioria dos OSAD (Organisations Sanitaires Apicoles Départementales), representando mais de 30.000 apicultores, profissionais e amadores.

Estes tratamentos/acaricidas que beneficiam de homologação são testadas anualmente por forma a mostrarem que garantias dão no controle da infestação pelo ácaro varroa abaixo dos limites considerados  prejudiciais às colónias de abelhas. Os principais parâmetros avaliados por estes testes são a eficácia global, avaliado através dos ácaros residuais encontrados após os tratamentos, assim como a velocidade de ação desses mesmos tratamentos sobre os ácaros.

Em 2014 a FNOSAD avaliou estes dois parâmetros em 4 tratamentos: o Apivar, o Apistan, o Apilife Var e o MAQS. Qualquer um destes 4 tramentos/acaricidas está homologado em Portugal.

Do conjunto de resultados obtidos em cerca de 300 colónias de abelhas testadas surgiu a evidência de que a eficiência média obtido em 2014 pelo Apivar® e Apistan® é elevada (97% e 96%, respectivamente), mas envolve tempos de tratamento longos (70 dias e 56 dias, respectivamente).

Os medicamentos MAQS® e Apilife Var®, que têm tempos de tratamento mais curto (7 e 28 dias, respectivamente) atingem percentagens de eficácia médias um pouco mais baixas (93% e 87% respectivamente).

Contudo um dado de extrema importância, e que nos ajuda a tomar decisões mais ajustadas no terreno, é-nos dado pela velocidade de acção destes acaricidas sobre os ácaros. A este respeito e para estes quatro fármacos testados em 2014, o número de dias necessários para ir abaixo do limiar de 1000 varroas revelou que o Apivar® requer uma média de 29 dias. Esta duração é, respectivamente, 23, 14 e 2 dias com Apilife Var®, Apistan® e MAQS®

Sublinho estes dados: para fazer regredir o número de varroas abaixo do limiar de 1000 o acaricida de acção mais lenta demora 29 dias (o Apivar) e o mais rápido atinge esse limiar em apenas 2 dias (o MAQS).

Estes dados são, na minha opinião, de grande utilidade quando a urgência de uma infestação nos exige a colocação de um acaricida de acção rápida, ou quando pelo contrário o contexto no qual efectuamos o tratamento não nos exige essa rapidez. Finalmente talvez nos ajude também a perceber que muitas das vezes se o tratamento não foi bem sucedido e a colónia acabou por colapsar, não foi por uma questão de resistência dos ácaros ao princípio activo do tratamento por nós escolhido, mas tão só porque chegámos demasiado tarde à corrida e com um cavalo lento, ainda que forte (será o caso do Apivar). Como costumamos dizer “cada coisa é para o que foi feita”.

fonte: http://ecbiz193.inmotionhosting.com/~nodglo5/wp-content/uploads/2016/04/FNOSAD-2014-study-high-quality.pdf

prevenção da traça durante o armazenamento da cera

O armazenamento e protecção de quadros de cera depois da extracção do mel é um dos principais problemas dos apicultores, especialmente em regiões com um Inverno ameno. A causa do problema está num insecto vulgarmente designado entre nós de traça da cera.

imgres-1

Fig. 1: Larvas da traça da cera

As traças da cera são presença frequente na maioria dos apiários durante os meses mais quentes. Estes insectos são noturnos e passam o dia escondido em arbustos, árvores ou outros locais abrigados. No início da noite, as mariposas adultas fêmeas esgueiram-se para o interior das colmeias. Uma vez dentro da colmeia põem ovos nas fendas que encontram e saem da colmeia nas primeiras horas da manhã não sendo detectadas pelas abelhas.

O ciclo de vida da traça gigante (Galleria mellonella L.) e da traça pequena (Achroea grisella) na cera de abelha passa por 4 fases: o ovo, a larva, a pupa ou ninfa e o adulto. O ciclo de vida da traça é retardado devido a baixas temperaturas e ausência de alimento (principalmente pólen). O ciclo pode variar entre 6 semanas a 6 meses dependendo da temperatura e alimento.

imgres

Fig. 2: Traça gigante (Galleria mellonella L.)

As larvas destroem a cera porque se alimentam do pólen e outros materiais orgânicos nela depositados. Assim são, em regra, os quadros onde houve criação porque apresentam maiores ou menores quantidades de pólen e acumulam a seda dos casulos das pupas. Estes quadros são uma fonte de alimento muito mais atraente do que os favos que apenas armazenaram mel. Estes últimos oferecem um alto nível de resistência às traças de cera.

As traças adultas não causam estragos na cera devido às suas mandíbulas estarem atrofiadas.

Os tratamentos na prevenção e luta contra a traça podem ser os físicos (arejamento e congelamento), os químicos (enxofre, dissulfeto de carbono, ácido acético e fórmico) e os biológicos (Bacillus thuringiensis) para a prevenção e controlo da traça. É necessário ter em atenção que nem todos os tratamentos matam todas os estádios da traça (ver tabela 1).

Após a aplicação de tratamentos é essencial um período de 1 a 2 semanas de arejamento das alças antes de serem colocadas nas colmeias. Embora não exista legislação específica para os tratamentos no controlo da traça, é importante saber que alguns destes tratamentos são perigosos para a saúde pública devido ao risco de serem difundidos para o mel mesmo com o arejamento das alças. É o caso do paradiclorobenzeno (PDCB) e da fosfina. Outros tratamentos, como é o caso do dissulfeto de carbono, representam um risco para o apicultor devido à sua dificuldade de maneio como também apresentam riscos para a saúde do apicultor. Nos tratamentos mais seguros para a saúde pública estão o dióxido de enxofre (“mechas” ou “pastilhas” de enxofre), pois é uma substância que não se acumula nas ceras, tal como o Bacillus thuringiensis.

Método Tratamento Objectivos Observações
 Físico  Arejamento (< 15ºC)  Retardar crescimento  Só é eficiente com luminosidade
 Físico  Refrigeração Mata todos os estádios 2h/-15ºC; 3h/-12ºC;

5h/-7,5ºC

  Físico  Calor Mata todos os estádios 80 min/46ºC;

40 min/50ºC

 Biológico  Bacillus thuringiensis (subespécie aizawai) Não mata os ovos  Por spray
 Químico Enxofre  Não mata os ovos  1 tira ± 10 meias-alças
 Químico  Ácido acético  Mata todos os estádios 200 ml (60-80%)/100 L
 Químico  Ácido fórmico Mata todos os estádios 80 ml (85%)/100 L

Tabela 1: Tratamentos na luta contra a traça da cera

A concluir refiro que nos últimos 4 anos tenho armazenado centenas de meias-alças do modelo Langstroth e Lusitana no período de Setembro a Março/Abril na Beira Alta a uma altitude de cerca de 900m. Estas meias-alças são colocadas em pilhas de 8 a 10 numa casa rústica, com bom arejamento e iluminação natural. Refiro ainda que não armazeno quadros com pólen e/ou ceras escurecidas onde houve vários ciclos de criação. Falta apenas dizer que coloco as meias-alças na pilha de forma cruzada/perpendicular de forma a que a meia-alça debaixo e a imediatamente de cima formem uma + ou um x. Procuro que o ar e a luz entrem o mais possível na pilha. Até agora esta técnica simples, orgânica e económica de armazenamento dos quadros de cera puxados resultantes da cresta, nas condições ambientais que descrevi, tem sido adequada no combate à traça da cera.

Fontes: “INTRODUÇÃO ÀS BOAS PRÁTICAS NA OBTENÇÃO DE CERA DE QUALIDADE”; http://www.clemson.edu/extension/beekeepers/publications/wax_moth_ipm.html

ciclo evolutivo das três castas de abelhas

No quadro em baixo podemos ver o ciclo evolutivo das três castas de abelhas.

 TEMPO
OPERÁRIA
RAINHA
ZÂNGÃO
1º ao 3º dia Ovo Ovo Óvulo
Eclosão do ovo Eclosão do ovo Eclosão do ovo
3º ao 8º dia Larva Larva Larva
Larva Célula operculada Larva
8º ao 9º dia A célula é operculada; a larva tece o casulo A larva tece o casulo A célula é operculada: a larva tece o casulo
10º ao 10º 1/2 dia Pré-pupa Pré-pupa Tece o casulo
11º dia Pré-pupa Pupa  Pré-pupa
12º dia Pupa Pupa  Pré-pupa
16º dia Pupa Inseto Adulto Pupa
21º dia Inseto Adulto  –
24º dia Inseto Adulto
1º ao 3º dia  Incubação e limpeza Rainha Jovem Vive na colmeia
4º dia Começa a alimentar as larvas Rainha Jovem Vôos para fora
5º dia Alimenta as larvas Vôo nupcial Procura rainha para fecundar
5º ao 6º dia Alimenta as larvas jovens, produz geléia real faz os primeiros vôos para fora A rainha é alimentada Procura rainha para fecundar
8º ao 12º dia Produz geleia real, produz cera, faz os 1ºs vôos de reconhecimento A rainha começa engordar Se acasalar, morre
13º ao 19º dia Trabalhos de campeira Inicia a postura Se acasalar, morre
21º ao 30º dia Campeira Põe ovos Se acasalar, morre
31º dia Campeira Põe ovos Morre
31º ao 45º dia Coleta pólen e néctar Põe ovos
55º dia Morre Põe ovos
720º – 1450  – Pode voar com todas as abelhas mais velhas, no processo de enxameação. Morre  –

o vírus das asas deformadas e abelhas de inverno

20141008-0032-150x150

Fig. 1:  Abelha infectada com o vírus das asas deformadas

O vírus das asas deformadas (VAD) é um vírus comum nas colónias de abelhas melíferas, amplamente distribuído e intimamente associado com os ácaros varroa. A prevalência do VAD nas colónias de abelhas melíferas está diretamente ligado à infestação pela varroa. Nas colónias fortemente infestadas pela varroa, quase 100% das abelhas obreiras podem estar infectados com o VAD, mesmo que estas não apresentem sintomas. O VAD está fortemente associado à mortalidade de colónias no inverno. O controle do VAD é geralmente conseguido com o tratamento contra a varroa. Após o tratamento eficaz o apicultor assiste a uma diminuição gradual do VAD umas vez que as abelhas infectadas são substituídas por outras saudáveis. O VAD pode ser encontrado em todas as castas e nas diversas fases da vida das abelhas. O VAD também é transmitida através de alimentos, fezes, da rainha para os ovos e a partir dos zângãos para a rainha.

search

Fig. 2: Criação afectada pelo ácaro da varroa e pelo VAD (as larvas distorcidas nos alvéolos podem confundir o apicultor e levá-lo a pensar estar na presença de loque europeia dada a semelhança dos sintomas apresentados pelas larvas).

Os sintomas observados em infecções agudas incluem a morte precoce de pupas, asas deformadas, abdómen atrofiado, descoloração da cutícula das abelhas adultas, que chegando a nascer morrem dentro de poucos dias, fazendo com que a colónia possa eventualmente entrar em colapso num período muito curto de tempo, podendo ser confundido com o famoso Colapso/Despovoamento súbito de colmeias.

O VAD também pode ainda afetar a agressividade das abelhas assim como a memória e aprendizagem de comportamentos nas abelhas adultas. Para que o apicultor possa minimizar a presença e todos os efeitos perniciosos do VAD nas suas colmeias só tem uma saída no momento actual da ciência: diminuir para níveis muito baixos a infestação pelo ácaro varroa. Mais, a infestação da varroa deve ser reduzida nas colónia antes que produzam as abelhas de inverno, o que requer um bom timing de controle da varroose nos apiários. Nas regiões interiores do nosso país as abelhas de inverno são criadas, em regra, nos meses de Agosto a Outubro. Estes 2 a 3 meses requerem ao apicultor uma vigilância e atenção grandes em torno dos níveis de infestação pelo ácaro varroa pré e pós-tratamento. Só as colónias com baixos índices de infestação pela varroose nestes meses conseguirão ultrapassar os invernos típicos no interior do nosso país.

fonte principal: Honey Bee Viruses, the Deadly Varroa Mite Associates

luta contra a Varroa destructor: comparando os medicamentos MAQS ™, HopGuard® e ApilifeVar®

Da análise dos resultados deste estudo/ensaio técnico conduzido na Alsácia (França) rapidamente se constata a grande variabilidade de eficácia obtida com a utilização de três acaricidas orgânicos. Cito:

“As eficiências obtidas foram altamente variáveis de uma colmeia para outra:

  • ApiLifeVar® (3 aplicações com 1 semana de intervalo): 73% de eficiência * (± 17% de Desvio Padrão) ;
  • MAQS ™ (1 aplicação): eficiência de 49% (29% ± SE). As variações na eficácia entre colmeias são importantes (variam na eficiência de 97% para 7%).
  • HopGuard® (3 aplicações com 1 semana de intervalo): eficiência de 29% (15% ± SE). Este medicamento é administrado nos EUA como um tratamento eficaz no inverno (sem criação/postura). Neste teste, utilizou-se com criação, multiplicando aplicações.”

fonte: Essai technique 2013 : comparaison MAQS™, HopGuard® et ApilifeVar® – Conseiller apicole – Chambre Agriculture de Région Alsace 

Quer o ApiLifeVar quer o MAQS  fazem parte do menu de acaricidas homologados no nosso país na luta contra a varroose. Desse menu fazem parte também outros acaricidas orgânicos assim como sintéticos. Neste aspecto a DGAV está a seguir as melhores práticas recomendadas pelo comité Europeu de Veterinários, a saber, homologar e disponibilizar aos apicultores a maior diversidade possível de princípios activos.

Apetece-me dizer com base nos resultados destes ensaios comparativos na Alsácia que ainda bem que dispomos de outros orgânicos e sintéticos para além do ApiLifeVar e do MAQS  porque a variabilidade de eficiência que os resultados demonstram neste ensaio não são para deixar quem quer que seja tranquilo. Se para alguns de nós estes acaricidas  fazem parte do plano A, será muito confortável ter outras famílias de acaricidas disponíveis para que um eventual plano B seja posto em marcha.

Em conclusão, julgo que neste particular a DGAV está a fazer o que deve ser feito alargando cada vez mais o menu de acaricidas disponíveis e homologados, seja a sua natureza sintética ou orgânica. Em sentido contrário vão alguns países europeus, como por exemplo na Áustria, onde se restringiu os homologados a uns poucos medicamentos orgânicos, e que nos últimos anos tem aparecido entre os países com os índices mais elevados de mortalidade invernal de colónias de abelhas (ver COLOSS). E como bem sabemos a mortalidade invernal tem por detrás um protagonista principal: o ácaro varroa.

mistura de meis UE e não UE

A concorrência dos méis de origem duvidosa, que as nossas autoridades e as autoridades de outros países permitem que sejam rotuladas como todos nós sabemos de “mistura de méis UE e não UE”, tem nos últimos anos distorcido o mercado do mel na Europa e noutras zonas do mundo (EUA e Canadá, por ex.).

Há alguns dias atrás apicultores portugueses em Lisboa e apicultores espanhóis em Mérida manifestaram-se publicamente nas ruas destas duas cidades exigindo aos respectivos governos que mudem as regras do jogo e que legislem no sentido de a rotulagem do mel indicar de forma clara e inequívoca os países de origem deste mel que se encontra à venda um pouco por todo o lado. Actualmente é o Decreto-Lei nº 214/2003 que regulamenta a rotulagem do mel.

A justeza desta exigência numa sociedade avançada e madura democraticamente faz todo o sentido uma vez que os consumidores devem ser informados com clareza acerca da origem e características dos produtos que são colocados ao seu dispôr nas diversas superfícies comerciais.

Não tendo uma bola de cristal para adivinhar o futuro, prevejo no entanto que estas iniciativas, ainda que justas e pertinentes torno a dizer, poderão esbarrar naquilo que alguns chamam de “real politic” ou a “diplomacia dos interesses”. Temo que que os nossos governantes fingindo dar-nos atenção irão adiar uma e outra vez a reposta ao problema. Julgo mesmo que esta é uma questão que só poderá ser resolvida no âmbito europeu com legislação de Bruxelas, porque a norma actual é europeia também. Por outro lado se os chineses continuam a injectar no país muito capital através de aquisições imobiliárias, se o governo procura estimular o investimento chinês nos sectores produtivos da nossa economia, se temos o NovoBanco para vender e os chineses estão na corrida, se os chineses têm uma. forte presença noutros sectores relevantes para a economia nacional, porque razão iria o governo português comprar uma quezília com os chineses por causa dos rótulos de frascos de mel? Poderá acontecer uma cena bíblica, como a de Davide e Golias; mas isso só acontece uma vez, e os apicultores não têm a mão de Deus por trás como teve Davide e a China é muito maior que Golias. Ou muito me engano, e quero enganar-me, ou tudo isto dará uma boa história para alguns contarem mas de frutos nada. Não deveremos preparar um plano B no caso deste falhar? Porque a solução não é ficar de braços cruzados, claro que não. Sugiro portanto o apoio do estado para uma campanha nos canais de comunicação social por ele tutelados (rádio e televisão públicas) para a importância do consumo do mel e particularmente do mel nacional, a exemplo da campanha que foi feita para o sector do leite.

A juntar a esta campanha que estará sempre dependente da boa vontade e interesse de terceiros  julgo que nós próprios podemos fazer mais do que fizemos até agora para alertar os consumidores. Porque não colocar um contra-rótulo nas costas dos frascos de nosso mel nacional e que colocamos no mercado a chamar a atenção dos consumidores para evitar consumir mel que não identifique claramente os países de origem do mesmo e sensibilizar os consumidores para que prefira o mel nacional porque as abelhas dos outros países não polinizam as árvores e flores de Portugal.

Fica este espaço em aberto para sugestões que possam estimular o consumo do nosso mel, e se andar por aí alguém com formação em Direito que nos diga por favor se podemos “contra-rotular” nos termos que eu sugiro.

Este post foi inspirado no Monte do Mel e pelo post do António Marques acerca do seu encontro de 3º grau com uma mistura de meis UE e não UE numa casa de turismo rural no nosso país (ver http://montedomel.blogspot.pt/2016/10/turismo-rural-descaracterizado.html) e no post do Afonso no Abelhas do Agreste acerca da manifestação em Lisboa.

a reprodução da varroa nos meses de fevereiro a agosto

Começando por alguns factos e concluindo com um cenário ou uma projecção com base nos factos:

Os factos:

Um ciclo de reprodução de varroas produz, pelo menos, 1,45 novas fêmeas se criadas em larvas de obreira; pelo menos 2,2 novas fêmeas  se criadas em larvas de zângãos, larvas mais atraentes para a varroa.

A reprodução da varroa ocorre nos alvéolos fechados/operculados e dura 12 ou 14 dias, se em larvas de obreiras ou de zângãos respectivamente. A maioria das varroas sexualmente maduras apresentam 3 ou 4 ciclos reprodutivos sucessivos durante a sua vida.

A duração da fase forética entre 2 ciclos reprodutivos é variável. Uma fêmea nova amadurece durante 7 dias, em média, na sua primeira fase forética (mínimo de 5 até 14 dias) antes de infestar uma larva e levar a cabo o seu primeiro ciclo reprodutivo. Muito importante: no entanto, a fase de forética não é vital, e subsequentemente passa a depender, principalmente, da disponibilidade de larvas próximas a ser infestadas e na fase adequadas do seu desenvolvimento.

O tempo de vida útil do parasita é adaptado ao ciclo de vida da abelha. Uma fêmea pode viver entre 1 e 2 meses no verão e entre 6 a 8 meses durante o inverno, na ausência de criação.

Infestação: na temporada apícola, as larvas de zângão são muito mais fortemente infestadas do que as larvas de obreiras (8 a 10 vezes mais). O impacto e nível de infestação é, portanto, menos perceptível, exceto quando a criação de zângãos diminui, provocando, assim, uma transferência em massa da população das varroas em direção à criação de obreiras, o que tem um impacto súbito numa única geração de obreiras e pode levar ao colapso da colmeias quando o nível de infestação é muito alto (facto de importância crítica, nunca o esquecer).

(fonte: http://www.veto-pharma.com/products/varroa-control/about-varroa-mites/)

Agora o cenário…

Começando com uma varroa na nossa colmeia a 1 de Fevereiro, no dia 12 fevereiro temos a mãe e mais uma filha. No dia 1 de março (5 dias na fase forética e 12 dias a reproduzir-se nas larvas das obreiras), temos as duas mães e mais duas filhas, 4 no total. Se considerarmos que a mãe original está no fim da vida passados estes 30 dias temos 3 varroas na nossa colmeia. Antes do início da temporada de criação de zângãos a varroa triplica os seus números a cada trinta dias (perspectiva conservadora).

Mas em abril as nossas colmeias começam a criar zângãos e as 3 varroas vão desenvolver a sua prole nesta casta de larvas. Tudo se irá acelerar. Passados 19 dias (5 dias da fase forética e 14 nas larvas de zângão) as três varroas presentes no início de abril deram origem a 6 novas filhas. Temos agora nove varroas na nossa colmeia. Num período de 19 dias o número de varroas triplicou. Por volta de 8 de maio temos cerca de 30 varroas. Antes do final de maio temos entre 90 e 100 varroas. A quinze de junho o número voltou a triplicar e chegamos às 300 varroas. No início de Julho estamos a chegar às 1000 varroas. 3000 varroas será o número aproximado cerca de 20 de Julho. Por volta de 10 de Agosto estamos a chegar a 10 000 varroas.

Os números não enganam: numa população de 50 000 abelhas no início de Julho temos 2% de infestação. Percentagem tolerável mas que coloca as nossas colmais à beira de um aumento crítico das varroas num período de pouco mais de um mês, mês em que geralmente andamos muito ocupados com a cresta do mel para nos apercebermos.  Se nada fizermos entre o início de Julho e meados de Agosto a percentagem de infestação muito provavelmente irá atingir os 20%. Nesta altura temos uma colmeia à beira de colapsar pelo contributo negativo dado por vários factores:

  1. temos um ácaro em cada uma de 5 abelhas;
  2. os ácaros preferem as abelhas nutrizes e portanto não será extravagante pensar que uma em cada duas abelhas nutrizes transportam uma varroa;
  3. estes ácaros esperam o momento oportuno para se introduzirem nos alvéolos e podem encurtar a fase forética para menos do que os 5 dias que habitualmente são referidos na literatura;
  4. a criação de zângãos está reduzida e assistimos à transferência massiva dos ácaros para a criação de obreira;
  5. a postura das rainhas e a criação tem vindo a decrescer regularmente desde o solstício de verão em muitas regiões do nosso país…
  6. todos estes factores criam as condições para que 50% a 75 % do próximo ciclo de novas abelhas surjam de larvas parasitadas.