ozono: um tratamento eficaz da varroose?

Em 2015, no Beesource, o inventor de um equipamento de tratamento da varroose por meio do ozono, Luigi Conelli, publicou esta afirmação: “

O “ozonador ” do Sr. Luigi Conelli. Um ozonador amarelo-ferrari com um preço de Ferrari!

Concluímos nossos testes usando ozono em abelhas. Os resultados são muito interessantes. Aplicando 20 minutos de ozono nas colmeias, quando todas as abelhas estão dentro, observámos como resultado a morte de todas as varroa dentro das colónias por um longo período, mais de 21 dias. Todos os estádios de varroas caíram mortas depois de algumas horas.
Observámos colónias sem varroa, loque europeia, loque americana, Nosema sp. ect.
(Luigi Conelli, Beesource, 13-07-2015)

Fez também afirmações peremptórias que o dito tratamento ao mesmo tempo que era eficaz na eliminação das bactérias nocivas, preservava vivas as bactérias benéficas presentes na colmeia!!! Achei, como outros companheiros do Beesource, que este tipo de afirmações extraordinárias requeriam provas igualmente extraordinárias. Tanto quanto é do meu conhecimento o Sr. Conelli nunca as apresentou, e acabei por me desinteressar, esquecer e continuar a tratar a varroose como sempre o fiz, “dentro da caixa”!

Contudo, recentemente num grupo de apicultura português, surgiu de novo a indagação sobre esta técnica. Lembrei-me das afirmações do inventor em 2015, estranhando que de lá para cá quer a técnica quer o equipamento tenham caído no quase completo anonimato — que em Itália e noutras partes do mundo os apicultores não tenham testemunhado massivamente a sua satisfação — e procurei informação em língua inglesa sobre esta técnica para o tratamento da varroose, não fosse dar-se o caso de que entre 2015 e a actualidade tenha merecido a atenção de alguma equipa de investigação independente. Não encontrei nada no Google Scholar, o sítio onde estão acessíveis uma grande quantidade de estudos científicos — e para um equipamento tão “super-hiper” achei no mínimo isto muito bizarro! Ontem lembrei-me de pesquisar em língua italiana, uma vez que o inventor é italiano. Terá sido feito algum teste, com o devido controle, no país do inventor? E sim, esse teste foi feito em 2015, por uma equipa de investigadores do Istituto Zooprofilattico Sperimentale del Lazio e della Toscana “M. Aleandri”  e do Istituto Superiore di Sanità. Sobre a eficácia na eliminação das bactérias de loque europeia os resultados são decepcionantes. Sobre a eficácia na eliminação dos esporos da loque americana idem aspas. Contudo o que mais me interessou foi saber sobre o efeito acaricida da aplicação do ozono durante 20 minutos em colónias de abelhas. Em baixo deixo a tradução de um excerto publicado na revista Apitalia em fevereiro de 2016, com os resultados obtidos.

“Cinco colmeias sem criação foram tratadas com ozono, aplicando-o diretamente na colmeia durante 20 minutos e seguindo as instruções do fabricante do instrumento utilizado.
Algumas colmeias usadas como controle não foram tratadas. Para avaliar a eficácia acaricida do ozono, foi realizado um tratamento 14 dias após a administração do ozono, com Apibioxal e Apivar. A eficácia acaricida obtida com o tratamento com ozono foi igual a 4,9% ± 0,8%, enquanto a queda natural encontrada no grupo controle não tratado foi igual a 4,8% ± 0,7%. A diferença de eficácia entre o grupo tratado com ozono e o grupo de controle não foi estatisticamente significativa.

A força das colmeias observadas, as populações de abelhas adultas dos dois grupos experimentais e de controlo, foi avaliada no dia do tratamento e no final do período estimado para testar a eficácia do ozono (igual a 14 dias) segundo o método descrito por Delaplane et al., 2013.

No grupo tratado com ozono houve uma redução maior na quantidade de abelhas adultas do que no grupo controle, embora não significativa. A mortalidade aguda de abelhas foi avaliada pelo cálculo do número de abelhas mortas que caíram nos dias seguintes ao tratamento, colocando recipientes especiais, chamados cestos em gaiola, colocados à frente das colmeias. Não foi encontrado nenhum fenómeno agudo de mortalidade devido ao tratamento.
A mortalidade das abelhas rainha também foi avaliada no final do período de tratamento. Não se verificou a mortalidade de rainhas, tanto no grupo tratado quanto no grupo controle.
” (fonte Apitalia, 2/2016, https://www.izslt.it/apicoltura/wp-content/uploads/sites/4/2018/06/5.-Applicazione-dellozono-in-apicoltura-risultati-preliminari.pdf)

Em conclusão, ao contrário do que eu temia este tratamento, nas doses e na duração preconizada pelo inventor, não matas as abelhas, o que já é bom… tirando o facto que também não mata as varroas.

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