o comportamento das abelhas de meia-idade no interior da colmeia

Foto do ninho de uma colónia minha no dia 28 de Junho de 2021.

Um dos mitos que apicultores e não apicultores partilham sobre os enxames de abelhas está associado à ideia de que são sociedades extremamente organizadas, onde nada acontece ao acaso. Esta e outras ideias românticas sobre as sociedades destes e outros himenópteros, leva muitos a defender que as sociedades humanas deviam aprender e até mimetizar o seu comportamento social e organizacional. Pergunto aos mais românticos se estarão de acordo que se transfiram para as nossas sociedades humanas o canibalismo de que as larvas de abelhas são alvo com alguma frequência, ou a expulsão dos machos das colónias, condenando-os à morte por fome e frio, em certas épocas do ano? Seguramente que não. Deixemos portanto a natureza e comportamentos sociais de cada espécie agir dentro de cada espécie, sem procurar mimetismos despropositados, cegos e disfuncionais. À abelha o que é da abelha, ao Homem o que é do Homem!

Sobre a organização do trabalho das abelhas de meia-idade no interior das colmeias, o trabalho realizado por Brian Johnson lança alguma luz sobre este fenómeno. Ele passou horas incontáveis ​​ a observar as abelhas e a registar as atividades onde passavam mais tempo. Surpreendentemente, verificou que uma das principais ocupações das abelhas de meia-idade era parar de trabalhar e passear aleatoriamente no interior da colmeia. Brian viu que as abelhas empenhadas numa determinada atividade, geralmente, desistiam dela após uma hora e se dispersavam pela colmeia. A este comportamento de deambulação B. Johnson chamou de “comportamento de patrulha”. Terminadas as patrulhas, verificou que as abelhas iniciavam outras tarefas ao invés de retornar à tarefa que estavam a realizar. Verificou ainda que as abelhas recomeçavam a trabalhar novamente onde quer que estivessem, em vez de trabalharem onde a necessidade parecia maior. Por exemplo, se uma abelha estava a construir favo numa meia-alça com cera laminada e se após o seu comportamento de patrulha terminava a sua deambulação numa zona de armazenamento de néctar ou pólen no meio do ninho, retomava as sua tarefas, efectuando o processamento do néctar ou pólen. Citando B. Johnson “o patrulhamento pode contribuir para a troca de tarefas, movendo as abelhas para locais do ninho onde diferentes tarefas estão sendo realizadas. Resumindo, a alocação de tarefas das abelhas de meia-idade é caracterizada por um fluxo contínuo no espaço e no tempo.” Será caso para dizer que é uma desorganização organizada?!

Artigo de Brian Johnson: A Self-Organizing Model for Task Allocation via Frequent Task Quitting and Random Walks in the Honeybee

Nota: abelhas de meia-idade, segundo Brian Johnson, são aquelas que já são velhas demais para se dedicar à nutrição das larvas e novas demais para sair para a colecta no campo. São as abelhas entre os 10-20 dias de adultez e que processam a comida da colónia e constroem e reparam os favos.

2 comentários em “o comportamento das abelhas de meia-idade no interior da colmeia”

  1. Muito interessante a desmitificação da organização da colmeia no que diz respeito às abelhas de meia idade. Realmente, às vezes, os mitos perpetuam-se por falta de investigação. É senso comum dizer-se que as abelhas são um organismo coletivo que realiza tarefas em benefício do bem comum; outra coisa é este estudo que rebate o mito de as abelhas serem superorganizadas. Afinal, algumas abelhas (de meia-idade) vão fazendo as tarefas “consoante o espaço que ocupam”, independentemente da necessidade da colmeia.
    Grata pelo artigo.

    1. Em cheio no cerne da questão! Há um bom grau de aleatoridade nas tarefas realizadas pelas abelhas de meia-idade, quando observadas individualmente. E apesar desta aleatoridade, a colónia cresce e sobrevive anos e anos com os devidos cuidados do apicultor no que respeita aos necessários cuidados com a varroa. É nesta aleatoridade parcial, mais que na hiper-organização, que encontro a razão da vitalidade dos enxames. Um beijo!

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