os mais visitados

Iniciei há quase um ano este blog sobre apicultura. Publiquei até à data 137 posts. Tem sido um exercício que me serve, entre várias finalidades, para ir fazendo um envelhecimento activo (não estou a caminhar para novo!).

Ontem uma querida amiga especialista em Gerontopsicologia, referia a importância de mantermos actividades que nos estimulem criativamente e do seu impacto positivo a médio-longo termo. Este blog, entre outros objectivos, tem servido este também.

Em baixo deixo a listagem dos 10 posts mais visitados até à data:

A terminar agradeço a todos os companheiros/leitores que me têm estimulado a continuar. As mais de 43 500 visitas ao blog, no primeiro ano de vida, são claramente uma mensagem muito forte.

a que ritmo cresce uma população de abelhas?

Se os tabuleiros divisores me encantam neste momento, no plano das ideias, identificar o timing adequado para executar as diversas intervenções nas minhas colmeias, é o conceito que mais me seduz e mais me desafia desde há uns anos a esta parte. Neste quadro faz todo o sentido para mim aprofundar questões como:

  • a que ritmo cresce uma população de abelhas?
  • a que ritmo cresce uma população de ácaros da varroa?

Estas são das questões que mais me entusiasmam. Acerca da segunda questão já ensaiei um esboço de reposta aqui e aqui. Neste post vou procurar respostas para a primeira questão.

Para me ajudar a explicar o ritmo de crescimento de uma população de abelhas em condições normais, conto com a preciosa ajuda de Randy Oliver. Quero por isso agradecer publicamente a gentileza que este biólogo e apicultor norte-americano me concedeu ao autorizar-me a traduzir para português e transcrever para o meu blog excertos e dados apresentados no seu blog http://scientificbeekeeping.com/

Fig. 1: Randy Oliver durante a observação de um quadro de abelhas

Nas regiões temperadas, as colónias de abelhas seguem um ciclo bastante previsível de crescimento e declínio das suas populações (embora algumas colónias cresçam muito mais do que outras, e algumas, infelizmente, não consigam completar o ciclo anual). Portugal está situado na zona temperada do norte. Contudo estou muito convencido que o interior do país é muito diferente do litoral. Tenho essa experiência e conheço a experiência de outros. Muito do que aqui vou dizer pode fazer sentido para o interior do país, já não fará tanto para o litoral.

Randy Oliver segmenta a dinâmica do ciclo anual de desenvolvimento e declínio da população de uma colónia de abelhas, nas regiões temperadas do planeta, em dez períodos diferentes. Seguindo a evolução cronológica de um ano temos:

  1. No final do inverno (2ª quinzena de janeiro/início de fevereiro, nos meus apiários na Beira Alta ), as abelhas saem do período “dormente”.
  2. Surge o primeiro fluxo de pólen sério (início/meados de fevereiro, nos meus apiários na Beira Alta) e inicia-se a criação de novas abelhas em quantidade.
  3. Temos a “rotação de primavera”, quando uma nova geração de abelhas substitui as “abelhas de inverno sobreviventes” que mantiveram a colónia o durante o inverno (período com escassez de pólen e néctar).
  4. Assistimos a uma progressão linear do crescimento da colónia durante os primeiros fluxos néctar e pólen de primavera(desde o início de março até ao fim da primeira quinzena de abril), mas antes da principal fluxo de néctar.
  5. Surge o impulso da enxameação (inicio de abril até final da 1ª quinzena de maio nos meus apiários na Beira Alta).
  6. Ocorre o principal fluxo de néctar e o seu armazenamento (de meados de abril até finais de maio nos meus apiários na Beira Alta).
  7. Declínio da população no final do verão (normalmente entre a segunda quinzena de julho e o fim agosto nos meus apiários na Beira Alta).
  8. A cessação/abrandamento notório de criação (de agosto a dezembro).
  9. A “rotação de outono” da população com com o nascimento da “abelhas de inverno” que substituem as “abelhas de verão” (de meados de agosto a finais de outubro).
  10. Início da postura, em áreas pequenas dos quadros para manter a população estabilizada (início de janeiro nos meus apiários na Beira Alta).

Descrita a floresta vamos agora analisar em pormenor algumas das árvores. Vou analisar em especial as fases 2), 3) e 4), as fases do crescimento linear de uma colónia de abelhas.

Porquê crescimento linear? Ao contrário das populações que se expandem exponencialmente devido a um número cada vez maior de reprodutores, a colónia de abelhas tem apenas uma fêmea que produz ovos férteis. Este facto per si estabelece um limite na taxa máxima de nascimentos (o limite é o número de ovos que o rainha põe a cada dia). Enquanto a diferença entre as abelhas que nascem e as abelhas que morrem for relativamente constante, o crescimento populacional será linear e acumulativo, até que algum outro fator surja em jogo.

Analisemos com algum detalhe as limitações ao número de nascimentos de abelhas. O desenvolvimento das colónias e a manutenção de grandes populações depende de: (1) a capacidade da rainha de pôr ovos, (2) capacidade da população nutrir e manter a temperatura favorável da criação, (3) reservas de pólen e mel, e (4) espaço suficiente e no local adequado para a postura da rainha.

As investigações levadas a cabo para definir o número de ovos que uma rainha põe por dia (ovoposição) fazem-se contando o número de alvéolos com criação operculada/fechada. Os dados não são completamente convergentes:  Nolan refere que o número máximo de alvéolos com criação operculada é de cerca de 15.000, Harris cerca de 17.000, Winston cerca de 21.000. Estes números sugerem que uma rainha de boa qualidade e em condições ideais põe 800-1100 ovos por dia (supondo 90% de sobrevivência das larvas), valores que são convergentes com as contagens efectuadas por Farrar, que refere cerca de 900 ovos por dia. Há, naturalmente, rainhas excepcionais que ultrapassam estes números.

Segundo os dados do investigador canadiano Harris o ritmo de ovoposição de uma rainha vai em crescendo até 60 dias após o início do aumento linear de postura (nota: já vi escrito, há não muito tempo na blogosfera apícola nacional, que o auge de postura de uma rainha acontece 60 dias após o seu nascimento. Parece-me que alguém confundiu estes conceitos!?)… e a construção de mestreiros segue-se posteriormente. Quando as rainhas atingem o máximo de ovoposição as colónias apresentam cerca de 16 000 alvéolos operculados (de acordo com as medições de Nolan e Harris). Se bem junta nos quadros esta criação operculada, mais os ovos e a criação larvar aberta, não ocuparia mais que 5-6 quadros do ninho Langstroth. Verdadeiramente surpreendente. Outro dado muito interessante é que neste momento a colónia atingiu cerca de metade da sua população máxima, isto é cerca de 30 000 abelhas. Estas abelhas ocupam 15-17 quadros da alça/corpo do modelo Langstroth.

Aplicação prática: o apicultor durante este período de aumento linear da ovoposição deve certificar-se de que a rainha tem espaço e que este espaço está concentrado no ninho.  O rearranjo dos quadros no ninho e o fornecimento de quadros puxados ao ninho na posição correta, maximiza a postura da rainha. Inverter o ninho e sobreninho e/ou adicionar quadros puxados (na ausência destes, adicionar quadros laminados com cera de qualidade), é o maneio mais adequado nesta época do ano. Aceitemos que se uma rainha precisa colocar um ovo a cada minuto, ela não pode gastar muito tempo à procura de um lugar onde fazê-lo. O ninho deve estar aberto/desbloqueado e o espaço para a postura concentrado.

Uma pergunta perene da apicultura é exatamente quanto espaço uma rainha realmente exige? A partir dos números acima podemos calcular quantos quadros Langstroth são necessários para satisfazer a necessidade de espaço da rainha. Nestes quadros há quase 7000 alvéolos (segundo Randy Oliver mais precisamente 6960 numa base padrão) nos dois lados de um quadro de alça. Se esse quadro está 70% cheio com criação (nos restantes 30% é o espaço para o pólen e néctar), ficam 4.875 alvéolos para a criação, ou 43.875 em nove quadros (por exemplo, 10 quadros na caixa, mas sem criação nos dois lados mais externos) . Uma rainha colocando 1500 ovos por dia pode encher 30.000 alvéolos em 20 dias; A 2300 ovos / dia, temos 46.000 em 20 dias. Sendo assim, a matemática diz-nos que um único corpo/alça Langstroth fornece espaço suficiente para qualquer rainha, desde que não esteja bloqueado com mel ou pólen.

Randy Oliver refere que esta é a configuração preferida por muitos apicultores australianos, que hoje em dia preferem as colmeias de uma só câmara de criação, com uma excluidora por cima desta, e fazem enormes colheitas de mel. Diz também que ele próprio raramente encontra mais de 10 quadros com criação.

Para reflectir, procurar mais informação fidedigna e experimentar: Segundo Randy Oliver mesmo colónias fortes raramente contêm mais do que o equivalente a 5 quadros com criação de uma ponta à outra (falamos do modelo Langstroth). Convergente com esta ideia surge a prática de apicultores na Austrália assim como na Alemanha. Na realidade é a configuração que tenho utilizado predominatemente nos anos que tenho de apicultor. Contudo e paradoxalmente este ano estou a pensar experimentar a configuração com ninho e sobreninho num maior número de colmeias dedicadas à produção e em algumas destas colocarei uma excluidora de rainhas, coisa que nunca fiz até agora em colmeias dedicadas à produção.

Uma questão recorrente é: quanto tempo leva para que uma colónia saudável cresça o suficiente para atingir uma população ideal para a produção de mel? As regras básicas são cerca de 10-12 semanas para um pacote de cerca de 1Kg de abelhas (10 000 abelhas), cerca de 8 semanas para um núcleo forte, ou cerca de 6 semanas para uma colónia que sai bem da invernagem, supondo tempo favorável e recursos abundantes. Uma vez que é evidente que o crescimento das colónias após a “rotação/turnover de primavera” é linear, devemos ser capazes de prever com bastante precisão a taxa de crescimento. Vamos à matemática!

Aplicação prática: tendo uma rainha vigorosa e abundância de recursos, juntamente com temperaturas noturnas que não restringem a criação de larvas, tendo uma colónia com muita criação para nascer podemos esperar que cresça na sua fase linear cerca de 500-600 abelhas por dia (mais lentamente com uma rainha de menor qualidade ou se as condições forem precárias; mais rapidamente em circunstâncias óptimas). Isso resulta num crescimento do enxame em cerca de 2 quadros de abelhas por semana.

Randy Oliver fez uma tabela acessível que nos permite calcular para trás a partir do início do nosso fluxo principal de néctar (Tabela 1):

Semanas antes do fluxo principal Para alcançar 24 quadros com abelhas  Para alcançar 2o quadros com abelhas  Para alcançar 10 quadros com abelhas 
0 24 20 10
1 22 18 8
2 20 16 6
3 18 14 4
4 16 12  
5 14 10  
6 12 8  
7 10 6  
8 8 4  
9 6    
10 4    

Tabela 1: Cálculo retrogrado da dimensão necessária de uma colónia

Para aqueles com menos à vontade com a  matemática, dou dois exemplos. Se faço um desdobramento no dia 1 de abril, e espero que meu fluxo principal se inicie no primeiro dia de junho, tenho cerca de 8 semanas para construir a colónia. Então vou à coluna 1 para a linha de 8 semanas. Se eu desejo que essa colónia apresente 20 quadros de abelhas no início do fluxo, eu então vou à coluna 3 verifico que os desdobramentos feitos nessa data devem ter uma força mínima de 4 quadros de abelhas (com muita criação e rainha). Se desejarmos fazer um núcleo no início de abril para um fluxo importante que se inicia em meados de maio, temos apenas 6 semanas para  atingir os 20 quadros de abelhas, e de acordo com a tabela precisa de ter pelo menos 8 quadros.

A tabela acima é uma ferramenta que pode ter grande utilidade para planear as nossas intervenções, por ex. tirar quadros a umas, adicionar quadros a outras entre outras intervenções. Tendo sempre em conta que na vida real, as coisas nem sempre seguem as regras. Se a produção máxima de mel é o objetivo, podemos usar os indicadores da tabela para gerir de forma pró-activa o nosso efectivo apícola, tendo como referência inicial as datas habituais dos fluxos de néctar nas zonas onde estão os nossos apiários. Agir no timing correcto é a grande ideia e desafio para este ano de 2017.

fonte: http://scientificbeekeeping.com

o oeste é o melhor (the west is the best)

The west is the best, aproveitando este conhecido verso da letra do the End, emblemática canção dos The Doors, que cumprem este ano 50 anos sobre a 1ª edição do seu 1º album, nos idos de 1967, expresso genericamente a boa impressão com que fiquei da minha primeira visita deste ano ao apiário que tenho mais a oeste, no distrito de Coimbra.

Este apiário com poucas colmeias neste momento, onde já estiveram 100 colmeias no 2 anos anteriores,  previ desfazê-lo no final de 2016. Por razões diversas não foi possível até ao momento. E agora penso que até foi bom que assim tivesse acontecido. As 8 colmeias e 2 núcleos que por lá ficaram, resultaram de desdobramentos mais tardios em 2016 (Junho e Julho). Nestes dois últimos meses todos se desenvolveram de forma notável, com excepção de um núcleo que apresenta pequenos sinais de ascosferiose.

Na minha visita anterior a este apiário, efectuada no dia 12 de Dezembro, coloquei 3 sobreninhos/alças com cera laminada em 3 colmeias do modelo Langstroth e 2 meias alças, também com cera laminada, sobre 2 colmeias do modelo Lusitana. Numa destas colmeias Lang coloquei hoje a 2ª alça. Fui encontrá-la cheia de abelhas, criação e mel no sobreninho colocado na visita anterior. Numa outra colmeia, as abelhas ocupavam 6 quadros do sobreninho, estavam a puxar bem a cera e a encher com néctar. Na terceira não vi criação alguma. Vi dois mestreiros rotos. Aparentemente decidiram substituir a rainha. Coloquei 1 quadro com ovos retirado de outra colmeia para salvaguardar a possibilidade de a nova rainha não poder ser fecundada nestes dias de clima incerto. Já em casa verifico nos meus registos que a 30 de Maio de 2016, quando esta rainha iniciou a postura, me interrogar acerca da possibilidade de ter sido mal fecundada. A sua substituição pelas abelhas nestas últimas semanas parece confirmar a justeza da minha dúvida na altura. Nas colmeias Lusitana a história conta-se mais rapidamente. As duas colmeias que receberam meia-alças com 8 quadros com cera laminada puxaram-na bem e estão meias-cheias de mel. Verifiquei que não fizeram favos adventícios entre os quadros, como cheguei a temer.

Fig. 1: Favo adventício entre dois quadros (quando o espaço abelha é excedido as abelhas preenchem este espaço com um favo)

Um dos dois núcleos foi passado para uma colmeia e na próxima visita receberá um quadro cheio de criação fechada para acelerar o seu desenvolvimento.

Realço que não estimulei estas colmeias. Alimentei algumas destas colmeias, e apenas uma vez com 1 Kg de fondant/pasta de açúcar, logo à saída do verão, dado que as encontrei com as reservas num nível baixo.

No dia de hoje coloquei mais dois sobreninhos/alças sobre as Langstroth e uma meia-alça sobre uma Lusitana. Na próxima visita conto colocar pelos menos dois sobreninhos/alças sobre as Lusitanas e pelo menos uma 2ª alça sobre uma das Langstroth. Conto ainda iniciar o tratamento contra a varroa. O anterior foi concluído no final de Setembro.

Os meus objectivos para este apiário não estão direccionados para a produção de mel. Pretendo até meados de Abril das actuais 10 colmeias fazer mais 15-20 núcleos fortes para levar para as terras altas da Beira onde os fluxos se iniciam em meados de Maio.

Num post, que surgirá em breve, explicarei como um bom núcleo estará apto, no prazo de um mês, a iniciar a sua subida às meias-alças, o nível do apicultor.

o tabuleiro de Snelgrove: uma introdução

Tenho de confessar que sou um adepto cada vez mais arraigado da utilização de tabuleiros divisores para as mais diversas situações, entre as quais destaco a prevenção e o controle da enxameação, o desenvolvimento de colmeias produtivas, a renovação de rainhas e a gestão do número de efectivos/colónias que disponho, no sentido de o aumentar ou de o manter.

Neste enquadramento, a meu ver é perfeitamente justo fazer aqui uma singela homenagem ao homem que levou a utilização do tabuleiro divisor a um patamar de genialidade, refiro-me a Louis Edward Snelgrove. Ao iniciar esta temática espero que, para lá da homenagem a este grande nome da apicultura moderna, nos ajude a todos a ver caminhos que nos permitam ter e fazer uma apicultura cada vez mais produtiva, simples e económica.

O tabuleiro de Snelgrove: O método Snelgrove foi inicialmente descrito por Snelgrove no seu livro de 1934, “Enxameação: controle e prevenção”. Este método surge na sequência de décadas de manipulação de colmeias usando vários tipos de tabuleiros e grelhas excluidoras para separar a rainha da criação. Leonard Snelgrove apresentou o seu tabuleiro divisor na obra mencionada em cima. A maior novidade do tabuleiro de Snelgrove é que apresenta entradas superiores e inferiores com o objectivo de “sangrar/drenar” abelhas campeiras entre o ninho e sobreninho/alça. Este método foi originalmente concebido para fazer a prevenção da enxameação (como por ex. o método Demarée), para ser utilizado pelos apicultores nos dias prévios à enxameação. No entanto mais tarde Snelgrove descreve outras variações que permitem controlar não só a enxameação mas também realizar o aumento do efectivo apícola. Portanto, não há um “método Snelgrove” específico, mas em vez disso um conjunto de técnicas e procedimentos com objectivos diversos baseados na utilização do  tabuleiro de Snelgrove.

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Fig. 1 e 2 : Exemplo de um tabuleiro Snelgrove e detalhe das suas entradas

No futuro voltarei a este tema para abordar alguns dos princípios, objectivos, técnicas e procedimentos de utilização deste tabuleiro.

feromona mandibular da rainha e comportamento defensivo

O comportamento defensivo é uma das características mais conhecidas de uma colónia de abelhas e consiste no reconhecimento de predadores, no alertar as companheiras e adotar comportamentos anti-predador (desde posturas de ameaças, até zumbidos e, finalmente, picadas). O comportamento defensivo está intimamente ligado à feromona de alarme, mas também à feromona mandibular da rainha (FMR).

A presença da rainha parece ser importante na regulação do comportamento defensivo de uma colónia, uma vez que foi observado que as colónias sem rainha exibem um comportamento defensivo maior em comparação com o que é exibido pelas colónias com rainha. Estes dados são reforçados por estudos que demonstraram que a FMR sintética diminuiu a resposta de picadas de abelhas colocadas em gaiolas (Kolmes e Njehu, 1990). O efeito da FMR sobre o comportamento defensivo da colónia foi recentemente confirmado por Gervan et al. (2005), que mostraram que a administração de FMR sintético reduz significativamente o comportamento defensivo em colónias com rainha e que no caso de colónias sem rainha se verifica uma diminuição no número de abelhas guardiãs e uma ligeira redução da reação de picada. Vergoz et al. (2007), descobriram que a FMR bloqueia a aprendizagem de comportamentos aversivos em jovens obreiras.

Destes dados tirei duas aplicações práticas:

  1. durante o período de enxameação explico a alguns proprietários de terrenos vizinhos aos meus apiários que alguma agressividade das abelhas é temporária e recomendo que se protejam e/ou procurem trabalhar esses terrenos em horários mais matinais;
  2. no meu maneio permite-me verificar de uma forma rápida e não intrusiva se colónias anteriormente orfanizadas já têm rainha em postura: se ao levantar a prancheta do ninho ou ao passar a mão calçada com a luva de apicultor numa passagem rasante ao topo dos quadros um bom número abelhas ficarem irritadas muito provavelmente ainda não têm rainha em postura; se pelo contrário manifestarem uma relativa indiferença a estes gestos muito provavelmente já têm rainha em postura.

Nota: A FMR sintética já é comercializada por algumas casas especializadas. Em baixo estão dois links que apresentam este produto:

  • http://pheromonehelper.ca/en/honey-bee-pheromones/tempqueen.html
  • https://www.etnamiele.it/attrezzature-apistiche/1508-pseudoqueen-feromoni-artificiali-regine.asp

Fontes:

  • Kolmes S.A, Njehu N. Effect of queen mandibular pheromones on Apis mellifera worker stinging behavior (Hymenoptera: Apidae) J New York Entomol S. 1990;98(4):495–98;
  • Gervan N, Winston M, Higo H, Hoover S. The effects of honey bee (Apis mellifera) queen mandibular pheromone on colony defensive behaviour. J Apicult Res. 2005;44:175–79.
  • Beggs K.T, Glendining K.A, Marechal N.M, Vergoz V, Nakamura I, Slessor K.N, Mercer A.R. Queen pheromone modulates brain dopamine function in worker honey bees. Proc Natl Acad Sci U S A. 2007;104:2460–64.

uma forma simples de gerir um apiário para aumentar a produtividade, baixar custos e diminuir riscos

Num quadro de alça do modelo Langstroth existem alvéolos suficientes para produzir 3500 ou mais abelhas por cada lado do quadro, ou 7000 abelhas adultas por quadro. Na colmeia Lusitana os números chegam a ser um pouco superiores.

Fig 1: Quadro Langstroth bem fornecido com cria operculada

Um quadro repleto com cria, de canto a canto, fornece ao apicultor uma ferramenta de grande valor na gestão/maneio de colónias de um apiário. A transferência de quadros de cria fechada/operculada das colónias mais fortes paras as colónias menos fortes, cerca de 40 dias antes de um fluxo de néctar importante, permite-nos gerir um apiário para alcançar maior uniformidade entre as colónias. A equalização permite que as colmeias mais fracas adquiram a massa crítica de abelhas suficiente para se tornarem produtivas e, muitas vezes, reduz a pressão para a enxameação na colmeia doadora. As colónias mais fracas recebem quadros repletos com cria operculada das colónias fortes. As colónias fortes recebem quadros com cria aberta e ovos das colónias mais fracas. Desta forma, reforçamos as colónias mais fracas, adicionando cria que irá eclodir em breve e que não necessita ser alimentada. Sabemos que a nutrição de larvas é um processo duro e desgastante para as abelhas, especialmente nas colónias menos fortes com menos abelhas nutrizes. As colónias fortes não são enfraquecidas porque recebem quadros com ovos e larvas. Por outro lado, estas colónias fortes apresentam melhor condições para nutrir a cria aberta, criar abelhas melhor nutridas e mais saudáveis. Simultaneamente a cria aberta contribui para diminuir a pulsão para enxamearem, dado que a feromona libertada pela cria aberta contribui para dissuadir as abelhas de enxamearem.

Fig. 2: A cria aberta contribui para dissuadir as abelhas de enxamearem 

Com este maneio simples conseguimos atingir vários objectivos numa só visita ao apiário, representando uma grande economia na carga de trabalho e nas deslocações, a par com a maximização da produtividade e a minimização de custos e riscos pelas razões em baixo discriminadas:

  • estimulamos colónias mais fracas sem ter de recorrer ao xarope 1:1, diminuindo custos e riscos;
  • a colmeia receptora recebe cria bem alimentada e saudável, diminuindo riscos sanitários e aumentando a produtividade;
  • “arrefecemos” colónias prematuramente fortes e que poderiam enxamear à entrada do fluxo de néctar, aumentando a sua produtividade;
  • aumentamos a diversidade de sub-famílias (abelhas filhas de pais e mães diferentes) nas colónias, diversidade esta que está associada a melhores respostas contra os patogeneos, diminuindo riscos sanitários.

acaricidas / varroacidas: uma classificação

Podemos classificar os varroacidas das mais diversas maneiras. Já os classificámos de lentos e rápidos. Neste post vamos classificá-los de acordo com as vias utilizadas para atingirem os ácaros da varroa. Este esforço de classificação ajuda-nos a arrumar a informação disponível acerca dos mesmos e, sobretudo, a compreender as semelhanças e diferenças básicas entre eles, a planear a sua utilização, a selecioná-los  de acordo com as suas características.

Os varroacidas podem ser classificados em 3 grandes famílias de acordo com as vias principais que utilizam para atingir os ácaros:

  • por contato — estes acaricidas actuam por contato direto com o ácaro ou indiretamente através de seu hospedeiro (a abelha) que transfere para o ácaro o princípio activo que se impregnou no seu corpo ao tocar nas tiras acaricidas;
  • por evaporação — os acaricidas desta família libertam-se do seu veículo por evaporação e o ácaro é atingido pela exposição a uma dose letal presente na atmosfera interna da colmeia;
  • sistémicos — são acaricidas inicialmente ingeridos pelas abelhas que vão afectar os ácaros da varroa quando estes posteriormente ingerem a hemolinfa e/ou tecidos gordos das abelhas.

Das 3 vias, a de contato é a que apresenta, na maioria dos casos, mais fiabilidade. As abelhas, em geral, contactam frequentemente com as tiras varroacidas impregando-se com o princípio activo, o que permite disseminá-lo pela colónia. A eficácia desta classe de varroacidas está muito pouco dependente das temperaturas externas. Por outro lado, os acaricidas de contacto têm um período de actuação prolongado o que aumenta significativamente a sua eficácia mesmo em colónias com cria presente. Finalmente os limiares entre as doses letais para os ácaros e as doses letais para as abelhas estão muito distantes (na ordem das 1000 vezes, isto é, a dose letal para os ácaros é cerca de um milésimo da dose que mata as abelhas), diminuindo bastante o risco de sobredosagem.

No nosso país os acaricidas de contacto homologados são o Apivar, o Apitraz, o Apistan e o Bayvarol.

Fig. 1: Apivar: embalagem e tiras

Os varroacidas à base de timol (Apiguard, Apivarlife e Thymovar) são mistos no que respeita à via pela qual atingem os ácaros: atingem-nos por evaporação mas também por contacto. Por ex. quando se utiliza o Apiguard é um bom sinal se a maior parte ou todo o gel que contém o timol tiver sido removido da bandeja no final de cada período de tratamento de 2 semanas. Neste caso as abelhas carregam os pequenos pedaços de gel através da colmeia e a fricção/contacto com outras abelhas contribui para espalhar o composto o que aumenta a sua eficácia. Contrariamente à percepção de alguns, a margem de segurança de dosagem para o timol é baixa (abaixo de 10: 1), por isso é necessário seguir estritamente as instruções do fabricante de forma a evitar uma possível sobredosagem.

Fig. 2: Bandeja com um varroacida à base de timol colocado numa colmeia

O ácido oxálico é simultaneamente um varroacida sistémico e de contato. Não se sabe exactamente o seu tempo de vida, segundo uns permanece ativo por apenas algumas horas, outros referem um máximo de um a dois dias. Por esta razão só mata as varroas foréticas e muitos recomendam a utilização do ácido oxálico só nas épocas do ano em que as colónia não têm cria ou apresentam muito pouca cria. O perigo de sobredosagem é elevado, daí as concentrações terem de ser cuidadosamente medidas, especialmente se não é aplicado por sublimação.

Fig. 3: Aplicação de ácido oxálico através do gotejamento

O ácido fórmico é um tratamento que funciona completamente por evaporação. Esta característica confere-lhe uma vantagem sobre todos os outros tratamentos atrás referidos: sendo uma molécula pequena penetra os poros dos opérculos da cria fechada e mata os ácaros dentro dos opérculos. A sua maior desvantagem é que pequenos desvios na concentração torna-o mortal para as abelhas. Se a concentração é muito baixa não mata os ácaros nos alvéolos, neste caso só as varroas foréticas serão eliminadas baixando muito a sua eficácia. No outro extremo, se a concentração de vapores for muito alta pode matar uma parte importante da cria, abelhas adultas e a própria rainha. Se a perda de cria não é demasiado grave, a perda da rainha em certas alturas do ano é desastroso para a sobrevivência da colónia. Por outro lado o ácido fórmico é muito dependente da temperatura externa e da ventilação para atingir a concentração óptima na atmosfera na colmeia, o que aumenta ainda mais a variabilidade nos resultados do tratamento.

Fig. 4: Aplicação de de duas tiras de MAQS, tratamento formulado com ácido fórmico

resíduos de metabolitos de amitraz no mel e uma pergunta

O LMR (Limite Máximo de Resíduos)

A legislação em vigor na Europa define  200µg/kg  como o LMR  para o amitraz e seus metabolitos no mel. Notamos que os especialistas estabelecem os LMR dos resíduos nos alimentos com limites abaixo daqueles que poderão representar um risco para a saúde. Esta é uma medida de precaução que muito estimamos e compreendemos.

O estudo

Neste estudo independente (http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0067007) recentemente publicado, os investigadores decidiram baixar os limite de detecção (LOD) e limite de quantificação (LOQ) para testarem os resíduos de amitraz e seus metabolitos no mel de colmeias tratadas com Apivar. De uma forma simples “apertaram a malha” no seu estudo.

Para os metabolitos do amitraz (compostos que resultam da degradação natural do amitraz) os investigadores encontraram as seguintes quantidades  (ver Tabela 3; Amitraz II):

  • valor máximo: 116,1 ng* / gr;
  • valor médio: 10,21 ng / gr;
  • mediana: 2,30 ng / gr.

*Nota: ng significa nanograma

Convertendo os valores

  • 1 gr= 1 000 000 000 ng;
  • 1 micrograma [µg] = 1 000 ng

Voltando aos valores encontrados pelo estudo e convertendo para as unidades µg/Kg temos:

  1. valor máximo: 0,1161 µg / gr = 116,1 µg/Kg
  2. valor médio: 0,01021 µg / gr = 10,21 µg/Kg
  3. mediana: 0,0023µg / gr = 2,3 µg/Kg

A interpretação dos valores

Os consumidores que consumissem a amostra de mel com a quantidade máxima de resíduos (1) teriam que consumir mais de 1,5 kg de mel por dia para se aproximar do LMR definido.

No entanto, se fizermos os cálculos para os valores médios (2), esses mesmos consumidores teriam que consumir mais de 18 kg de mel por dia para se aproximar do LMR definido.

Em metade das amostras recolhidas (3), o consumo teria que ser um pouco maior do que 80 kg de mel por dia para se aproximar do LMR definido. A mediana deste estudo diz-nos que metade das amostras recolhidas estavam abaixo de 2,30ng/gr.

A pergunta

Que análises fizeram, que cálculos efectuaram, que estudos consultaram todos aqueles que de boca cheia, peito inchado e do alto do púlpito da sua sapiência, clamam que não tratam as abelhas com Apivar para não contaminarem o mel com tóxicos/químicos prejudiciais à saúde humana?

2016 um ano catastrófico para a produção de mel em França

Paris, 22 de setembro de 2016 (AFP) – A produção de mel em França experimentou em 2016 “um novo ano catastrófico”, com cerca de 9 000 toneladas colhidas, abaixo das 10 000 toneladas de 2014, é já considerado como “o pior ano da apicultura francesa”, anunciou quinta-feira a UNAF (Union Nationale de l’Apiculture Française).  Relatam reduções que variam de 60% a  80%, dependendo das regiões. A UNAF escreveu ao Ministro da Agricultura para o “reconhecimento das zonas mais afectados e pediu uma ajuda excepcional para estes apicultores”. Esta organização “está alarmada com a situação que muitas explorações apícolas enfrentam com uma falta sem precedentes de mel, que põe em risco a sua sobrevivência económica”.  

A produção de mel tem vindo a diminuir ao longo dos últimos 20 anos, ainda que em 2015 se tenha experimentado uma pequena recuperação, com a produção estimada entre as 15 000 e 17 000 toneladas. De acordo com UNAF, 2015 foi um “ano normal” depois de três anos desastrosos.  Em 2016, “as condições meteorológicas altamente imprevisíveis com fortes chuvas na primavera, seguido por um longo período de seca e os fortes ventos vindos do norte não permitiu que as abelhas fizessem a colheita de forma adequada”, diz a UNAF. “Em todas as regiões, particularmente nas principais regiões produtoras como Provence, Alpes, Côte d’Azur, Rhone-Alpes, Midi-Pyrénées e Languedoc-Roussillon …, as colheitas desceram 60% a 80% “ acrescenta.  

Segundo a organização, “em muitas áreas”, as colónias de abelhas estão “em grande sofrimento e muitos apicultores estão preocupados e questionam-se se as suas abelhas passarão o inverno.” A UNAF também culpa a a predação da Vespa Velutina que “ainda é muito forte e enfraquece as colónias.”  As colónias de abelhas têm sofrido durante estes últimos anos uma alta taxa de mortalidade atribuída aos parasitas, à Vespa Velutina e ao uso de pesticidas, especialmente insecticidas da classe dos neonicotinóides segundo os responsáveis da UNAF.

Neste momento não possuo dados relativos à produção de mel em Portugal e em Espanha para o ano de 2016. Em Portugal julgo que a produção variou muito de região para região, sendo as zonas litorais norte e centro as mais afectada pelo inverno e início da primavera muito chuvosos. Estas zonas, muito dependentes das colheitas que as abelhas fazem no eucalipto, têm na chuva e no frio dos meses de Novembro a Fevereiro obstáculos importantes à colheita do néctar. Já no interior do país a colheita nas zonas das meladas foi também muito afectada pelas ondas de calor sentidas em Julho e Agosto. No meu caso particular o ano de 2016 foi um bom ano, tendo-se revelado o ano com a melhor média de quilos colhidos por colmeia e com os valores globais mais altos até à data.

Vamos esperar que 2017 seja um ano de boas produções e que o mercado faça justiça ao sector apícola, pagando preços dignos pelo mel de qualidade com origem nos nossos países. Sei que o meu orçamento vai ser gerido de forma prudente e que, provavelmente, vou adiar por mais um ano a compra de uma linha de extração automática. No nosso país 1 kg de mel enfrascado vende-se 2 e 3 vezes mais barato que nos mercados mais evoluídos do centro da Europa e estamos restringidos a enfrascar até 650 Kg do mel. Tenho certo também que me espera mais um ano de muito trabalho!

Um novo ano de 2017 com boas produções e preços justos para o mel de qualidade por nós produzido é o meu desejo para todos.