Deixo o testemunho do Eduardo Côrte-Real sobre os “dias seguintes” à sua frequência do meu curso “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano“.
Boa noite e bom ano Eduardo. Peço desculpa pela demora mas só hoje é que consegui terminar os testes que queria fazer. Não há dúvida nenhuma que nunca tive abelhas como tenho agora. Também tenho percas, mas o que está bom nunca esteve assim. O maior ganho que obtive, nem foram as ferramentas que apresentaste, mas sim o critério e o pormenor que utilizas. Decididamente não posso utilizar os fundos sanitários para avaliar taxas de infestação. A resistência que tinha em sacrificar as 300 abelhas para aferir as percentagens era grande erro meu. Tenho hoje 3 opções para combater a varroa muito satisfatórias. Concluí que a eficácia dos tratamentos não é linear em todas as colónias. Mas se não for com um método, consegue-se com outro. O Protocolo Inovador é muito bom, mas trabalhoso. Também consegui bons resultados com o oxálico sublimado 5 vezes com 4 dias de intervalo e com o amicel, uma tira por semana, vezes 3 semanas. Fiz outras experiências mas o resultado não foi tão satisfatório. Grande abraço.”
O Eduardo Côrte-Real, para quem não conhece, é apicultor com colmeias na zona de Cantanhede, criador reconhecido de boas rainhas autóctones nesta zona centro do país, sendo a escolha preferencial de vários apicultores que são meus clientes dos serviços técnicos de apoio no apiário.
A propósito informo que se encontra aberta uma nova edição do curso “Controlo Efectivo da Varroose”, a decorrer via Zoom, nas seguintes datas:
20 de fevereiro
27 de fevereiro
6 de março
O curso é composto por 3 sessões e tem como objetivo dotar os formandos de uma abordagem prática, fundamentada e atualizada para o controlo da varroose.
Ao longo das sessões serão abordados, entre outros, os seguintes temas:
A mudança necessária no paradigma de actuação para controlar a Varroose ao longo do ano
A taxa de crescimento da varroa ao longo do ano: as 3 velocidades de crescimento
Que tempo se “compra” entre tratamentos: das ilusões ao realismo
2 critérios inovadores para uma escolha mais ajustada dos acaricidas
Tratamentos mais baratos, em resposta às questões e necessidades colocadas/apresentadas por apicultores portugueses
Os limiares aconselhados para intervir
Os medicamentos mais oportunos e respetivos protocolos de utilização
Tratamentos proactivos: o que são e seu papel crítico na definição de estratégias de controlo da Varros
Monitorização da taxa de infestação por varroa: procedimentos correctos e limiares de actuação
O simulador de varroa de Randy Oliver e a sua parametrização para o território de cada formando/apicultor
Aplicação do simulador a territórios concretos com proposta de tratamentos
O Protocolo Inovador: fundamentos, operacionalização, detalhes de optimização do seu potencial, filmagens de sua aplicação e resultados obtidos.
Solicite mais informações enviando e-mail para: jejgomes@gmail.com
Este estudo (2025) demonstra que, apesar da suposição generalizada de que o método do açúcar em pó (powdered sugar shake) utilizado na monitorização da taxa de infestação de abelhas adultas é inofensivo, resulta numa mortalidade significativa de abelhas operárias nos primeiros cinco dias após o procedimento. Assim, a ideia de que as abelhas devolvidas à colmeia após este método não sofrem danos é falsa.
“Verificámos que as abelhas operárias submetidas ao powdered sugar shake apresentaram uma probabilidade significativamente menor de serem recapturadas na colmeia cinco dias depois do procedimento, quando comparadas com abelhas apenas polvilhadas com açúcar em pó (sem sacudir) e com o grupo controlo, que foi apenas marcado e libertado.
A combinação do açúcar em pó com a ação de sacudir vigorosamente as abelhas durante um minuto parece ser o fator responsável pelos efeitos negativos observados. Para além de possíveis danos físicos, sabe-se que a agitação pode provocar alterações cognitivas nas abelhas. Assim, os apicultores devem estar conscientes de que muitas das abelhas submetidas a este procedimento podem não sobreviver nos dias seguintes.
Os nossos resultados mostram que o powdered sugar shake e a lavagem em álcool apresentam resultados semelhantes quando os níveis de infestação por varroa estão acima de 3%, o limiar de intervenção mais utilizado. No entanto, a eficácia do método do açúcar em pó é altamente variável, situando-se aproximadamente entre 63% e 95%, sendo fortemente influenciada por fatores ambientais como a humidade e a presença de néctar, que provocam o empastamento do açúcar.
Esta variabilidade constitui uma limitação séria, pois pode levar os apicultores a subestimar níveis elevados de infestação e, consequentemente, a não intervir quando necessário, aumentando o risco de perdas de colónias. Em síntese, a suposição de que as abelhas sobrevivem sem consequências ao powdered sugar shake é incorreta, e este método revela-se menos fiável para estimar a infestação por varroa. Assim, recomendamos que a lavagem em álcool seja adotada como método predominante de monitorização.“
Ao longo das diversas edições do curso Controlo efetivo da varroose ao longo do ano, perdi um ou outro formando por aconselhar a monitorização da varroa através do método do álcool em lugar do açúcar em pó.
A minha posição baseia-se na observação de campo e no conhecimento científico disponível: a monitorização com açúcar trata-se de um método pouco fidedigno — sendo a fidedignidade a consistência e estabilidade dos resultados de um instrumento de medição — e que provoca a morte de uma parte significativa das abelhas nos dias subsequentes ao procedimento.
Independentemente das consequências nunca darei prioridade, nos meus cursos, à necessidade de agradar em detrimento da exigência de ser verdadeiro, rigoroso e tecnicamente correto.
Em breve anunciarei as datas para nova edição do curso Controlo efetivo da varroose ao longo do ano, edição com inevitáveis actualizações, induzidas por um conhecimento e experiência de campo que não estão parados no tempo.
Quem já tentou conservar grandes volumes de xarope sabe que as perdas por fermentação, os erros de dose e os custos acumulados acabam por pesar — especialmente quando se procura algo mais do que “apenas alimentar”. Foi precisamente para responder a esse problema prático que desenvolvi esta calculadora simples, direta e extremamente intuitiva, pensada para uso real por qualquer apicultor.
A lógica não podia ser mais clara, como se vê na imagem: o apicultor só tem de preencher a célula amarela com o volume de xarope (em litros) que pretende preparar. Nada mais. A partir daí, a calculadora trata automaticamente de todos os cálculos necessários, sem margem para erros ou confusões.
Em função desse volume, a ferramenta indica de forma imediata a quantidade de solução-mãe a utilizar, distinguindo claramente dois objetivos diferentes: um efeito conservante/preservante, pensado para manter o xarope estável e seguro, e um efeito terapêutico, associado a uma redução significativa da carga de microesporídios responsáveis pela Nosemose, tal como demonstrado por investigação independente.
Outro aspeto que considero fundamental é o custo. Esta abordagem mostra que não é preciso recorrer a soluções caras para obter resultados eficazes. Para se ter uma ideia concreta apresento em baixo tabela comparativa dos custos da solução mãe, lado a lado com dois aditivos comerciais muito utilizados para aditivar 100 L e 500 L de xarope contra a proliferação da Nosema no intestino das abelhas adultas.
Solução
100 L (€)
500 L (€)
Solução A (preservante)
0,76 €
3,82 €
Solução A (terapêutica)
1,14 €
5,70 €
Comercial 1
41,25 €
206,25 €
Comercial 2
70,60 €
352,98 €
Além da poupança direta, esta solução mãe e esta calculadora devolve algo muito importante ao apicultor: controlo. Controlo sobre quantidades, sobre objetivos e sobre aquilo que está efetivamente a ser feito no xarope que vai para as colmeias. Tudo é dimensionado automaticamente ao volume real preparado, evitando improvisos e “doses por intuição”.
Não se trata de substituir o conhecimento ou a observação do apiário, mas de traduzir esse conhecimento numa ferramenta prática, que qualquer apicultor pode usar sem formação técnica específica. A imagem fala por si: uma célula amarela, um número… e o resto está feito.
Mais simples, mais intuitivo e mais económico do que isto, sinceramente, é difícil.
Em breve esta calculadora será disponibilizada exclusivamente aos formandos que estão inscritos na sessão de nível 2, dia 23 de janeiro, do curso Nutrição Apícola Aplicada.
Preferência por açúcares e efeitos na digestibilidade alimentar e e longevidade das abelhas-mel
As abelhas-mel dependem fortemente de fontes externas de energia para sustentar as suas actividades metabólicas, o desenvolvimento das glândulas e a manutenção da colónia. Em condições naturais, essa energia é obtida sobretudo a partir do néctar floral, cuja composição é dominada por sacarose, glucose e frutose, em proporções variáveis consoante a espécie vegetal. Quando o néctar escasseia, a alimentação suplementar com xaropes de açúcar torna-se uma prática essencial em apicultura.
Os resultados deste estudo demonstram de forma consistente que as abelhas apresentam uma preferência marcada pela sacarose, especialmente quando fornecida em concentrações elevadas. Em todos os ensaios de escolha, tanto em gaiolas como em contexto de colónia, a solução de sacarose foi consumida em maiores quantidades do que as soluções de glucose, frutose ou misturas destes monossacarídeos.
Esta preferência alimentar não é apenas comportamental, mas está intimamente ligada à eficiência nutricional. As abelhas alimentadas com sacarose consumiram mais alimento energético e, simultaneamente, ingeriram maiores quantidades de pólen, o que sugere uma relação positiva entre a disponibilidade de sacarose e o estímulo da alimentação proteica.
Um dos resultados mais relevantes discutidos no artigo diz respeito à digestibilidade do pólen. As abelhas alimentadas com sacarose apresentaram melhores índices de digestão, evidenciados por uma menor quantidade de resíduos não digeridos no trato digestivo. Isto indica que a sacarose favorece um ambiente digestivo mais eficiente, potenciando a assimilação dos nutrientes do pólen.
Em contraste, as dietas baseadas exclusivamente em frutose ou glucose revelaram pior aproveitamento digestivo, apesar de serem açúcares simples. Estes resultados sugerem que a facilidade química de absorção dos monossacarídeos não se traduz necessariamente numa melhoria da digestão global da dieta sólida associada, como o pólen.
A sacarose, sendo um dissacarídeo, necessita de ser hidrolisada pelas invertases das abelhas antes de ser absorvida. Este processo parece desempenhar um papel regulador benéfico no metabolismo digestivo, promovendo uma libertação de energia mais equilibrada e compatível com os ritmos fisiológicos das abelhas-operárias.
Além disso, a presença de sacarose pode estimular a actividade das enzimas digestivas envolvidas na degradação das paredes do pólen, facilitando o acesso às proteínas, lípidos e micronutrientes nele contidos. Este efeito é particularmente importante para abelhas jovens, responsáveis pela produção de geleia real e pela alimentação da criação.
Outro aspecto discutido prende-se com a longevidade. As abelhas alimentadas com sacarose apresentaram maior sobrevivência ao longo do tempo, o que sugere que este açúcar não só é preferido, como também mais seguro e adequado do ponto de vista fisiológico quando comparado com frutose ou glucose isoladas.
Embora as abelhas alimentadas com frutose tenham apresentado, em alguns casos, níveis corporais de lípidos ligeiramente mais elevados, este efeito não se traduziu numa melhoria funcional da saúde ou da longevidade. Pelo contrário, pode reflectir alterações metabólicas menos eficientes ou até desequilíbrios energéticos.
É importante salientar que o teor de água corporal não diferiu significativamente entre os tratamentos, indicando que os efeitos observados se devem sobretudo ao tipo de açúcar ingerido e não a alterações na hidratação das abelhas.
Do ponto de vista da apicultura prática, estes resultados reforçam a ideia de que a sacarose é o substituto mais adequado do néctar natural. Não só é mais bem aceite pelas abelhas, como promove maior consumo de pólen e uma digestão mais eficiente, factores essenciais para a vitalidade da colónia.
A utilização de glucose ou frutose isoladas, apesar de energeticamente viáveis, pode comprometer o aproveitamento da dieta proteica e, a longo prazo, afectar negativamente o desenvolvimento das abelhas e a sua capacidade de trabalho.
Os autores sublinham ainda que a composição do xarope não deve ser avaliada apenas em termos de energia imediata, mas também pelo seu impacto indirecto na digestão do pólen e no equilíbrio nutricional global da abelha.
Em períodos críticos, como o final do inverno ou durante fluxos de néctar fracos, a escolha correcta do tipo de açúcar pode fazer a diferença entre colónias resilientes e colónias debilitadas. A sacarose surge, assim, como a opção mais segura e fisiologicamente compatível.
Em síntese, a discussão deste estudo confirma que a sacarose não é apenas preferida pelas abelhas-mel, mas desempenha um papel central na optimização da digestão, da ingestão proteica e da sobrevivência, reforçando a sua importância como base dos xaropes de alimentação suplementar em apicultura moderna.
Este estudo constitui um exemplo claro do que estamos a falar de competências de nutrição de nível avançado, precisamente o nível de exigência e profundidade que fundamenta as propostas formativas do curso Nutrição Apícola Aplicada / Nutrição Suplementar de Abelhas (3.ª edição — arranca a 16 de janeiro). A análise crítica dos dados científicos, como a relação entre o tipo de açúcar, a digestibilidade do pólen e a resposta fisiológica das abelhas, vai muito para além das alegações frequentemente repetidas — e nem sempre devidamente evidenciadas — pelo poderoso marketing das empresas de substitutos alimentares para abelhas. No curso, estes temas são abordados de forma rigorosa, mas com uma linguagem clara e acessível, permitindo ao apicultor compreender os mecanismos subjacentes às escolhas nutricionais. Essa abordagem é reforçada por ferramentas práticas, incluindo calculadoras inovadoras e exclusivas, que transformam o conhecimento científico em critérios de decisão concretos, ajudando a distinguir entre evidência sólida e simples argumentos comerciais.
No âmbito do acompanhamento técnico regular, realizei hoje uma visita com análise aprofundada a cerca de 25% das colónias dos apiários da Quinta da Machada, com foco na avaliação sanitária e no estado nutricional.
O primeiro aspeto que merece destaque é o efeito prolongado do Protocolo Inovador de controlo da Varroose. A última aplicação foi realizada há cerca de 90 dias, e os resultados observados — ilustrados nas fotografias que acompanham esta publicação — mostram uma eficácia elevada, na ordem dos 95%, valor que tem sido recorrente quando o protocolo é corretamente aplicado. Mesmo após este intervalo de tempo, a pressão de Varroa mantem-se baixa e controlada, o que demonstra não apenas a eficácia imediata, mas também a consistência e durabilidade deste protocolo.
Este desempenho reflete-se nos indicadores globais do efetivo. Durante o ano de 2025, registou-se o colapso por varroose de apenas uma colónia, num universo superior a 100 colónias em produção. Este dado é particularmente relevante num contexto em que a varroose continua a ser a principal causa de perdas de colónias, e demonstra o impacto de uma estratégia sanitária estruturada, baseada em monitorização, timing correto e aplicação rigorosa dos procedimentos.
Um segundo indicador técnico observado foi o armazenamento significativo de pão de abelha em muitas colónias. A presença de reservas proteicas excedentárias indica que a recolha de pólen ultrapassa as necessidades imediatas de consumo, o que só ocorre quando as colónias apresentam boa vitalidade, equilíbrio demográfico e ausência de stress sanitário relevante. O armazenamento de pão de abelha constitui um excelente marcador indireto do estado sanitário e nutricional, refletindo eficiência forrageira e capacidade metabólica adequada.
Apesar do bom desempenho global, foram identificadas colónias com desenvolvimento mais lento. Nestes casos, está a ser implementado apoio técnico dirigido, recorrendo a suplementação proteica, ajustada ao estado de cada colónia. Este apoio tem como objetivo reduzir assimetrias no apiário, acelerar a recuperação das colónias mais atrasadas e promover uma evolução mais homogénea do conjunto, sem comprometer o equilíbrio nutricional.
Do ponto de vista ambiental, observa-se atualmente um incremento progressivo de recursos florais, com o campo a entrar numa fase de forte potencial polinífero e nectarífero. Este cenário apresenta boas perspetivas para a campanha, desde que os apiários se encontrem devidamente estabilizados do ponto de vista sanitário. Colónias com cargas elevadas de Varroa ou pressão viral não conseguem converter este potencial em produtividade efetiva, reforçando a importância do controlo prévio da varroose.
Tudo isto reforça uma ideia central: o sucesso da apicultura começa muito antes da florada. A visita confirma que o controlo eficaz da Varroose é um pré-requisito para qualquer estratégia produtiva, e que os resultados observados no campo são diretamente proporcionais à qualidade do maneio sanitário implementado ao longo do ano.
Neste contexto, e em resposta a diversos pedidos — em particular de apicultores que enfrentaram perdas significativas e dificuldades técnicas no ano transato — será anunciada em breve uma nova edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, incluindo os procedimentos detalhados de aplicação do Protocolo Inovador. As datas serão divulgadas oportunamente, permitindo a mais apicultores adquirir ferramentas técnicas para enfrentar este desafio de forma informada, consistente e sustentável.
Nas últimas décadas, o colapso de colónias de abelhas deixou de ser um fenómeno episódico para se tornar um problema estrutural da apicultura moderna. Um estudo recente, realizado durante um grande evento de colapso de colónias nos Estados Unidos, vem reforçar uma realidade cada vez mais clara: não é apenas a Varroa que mata as colónias, mas sobretudo os vírus que ela transporta e amplifica.
A análise de abelhas recolhidas no epicentro desse colapso revelou uma preponderância esmagadora de vírus de RNA, em particular dois iflavírus altamente patogénicos (DWV-A e DWV-B) e o dicistrovírus responsável pela paralisia aguda das abelhas (ABPV). Estes vírus não são novos, mas o que impressiona é a sua concentração, combinação e virulência, atingindo níveis raramente documentados.
Todos estes vírus têm um fator comum: são transmitidos de forma altamente eficiente pelo ácaro Varroa destructor. A Varroa deixou de ser apenas um parasita; tornou-se um vetor biológico extremamente eficaz, capaz de injetar diretamente partículas virais no sistema circulatório das abelhas, contornando as defesas naturais que normalmente limitariam a infeção.
Os ensaios laboratoriais descritos no estudo são particularmente perturbadores. Inóculos virais obtidos a partir de abelhas moribundas demonstraram replicação ativa e elevada patogenicidade quando inoculados em abelhas saudáveis. Num dos casos mais extremos, uma suspensão viral obtida a partir de uma única abelha doente mesmo quando diluído 10 a 8 vezes em relação à suspensão original, resultou numa taxa de mortalidade de 44% para as abelhas expostas. Por extrapolação, a suspensão desta única abelha foi suficientemente patogénica para provocar a mortalidade em poucos dias de aproximadamente 66 milhões de abelhas expostas.
Este dado é crucial para compreender a dimensão do problema. Por extrapolação, a carga viral presente numa única abelha infetada teria potencial para causar mortalidade em dezenas de milhões de abelhas em poucos dias. A diferença entre uma diluição letal e uma inócua foi de apenas um fator dez, evidenciando uma curva dose-resposta extremamente íngreme e uma virulência excecional.
Estes resultados ajudam a explicar porque tantas colónias entram em colapso de forma aparentemente súbita. As abelhas adultas infetadas por vírus vivem menos tempo. Quando a taxa de mortalidade das operárias ultrapassa a capacidade da colónia em produzir novas abelhas, o colapso torna-se inevitável. Muitas vezes, quando os sintomas se tornam visíveis, o dano já é irreversível.
A Varroa agrava ainda mais este cenário através do seu comportamento alimentar. Particularmente no outono, o ácaro alterna rapidamente entre várias abelhas adultas, parasitando sucessivamente grande parte da colónia. Mesmo um número relativamente reduzido de Varroas é suficiente para infetar a maioria das operárias, criando uma pressão viral intensa e contínua.
O estudo traz também más notícias no que respeita ao controlo químico. Todos os ácaros recolhidos nas colónias em colapso apresentavam um marcador genético associado à resistência ao amitraz, o acaricida mais utilizado atualmente. A mutação Y215H, associada a essa resistência, estava presente de forma praticamente universal.
Este dado é particularmente alarmante, uma vez que o amitraz tem sido a principal ferramenta de controlo da Varroa após a perda de eficácia de outros acaricidas como o coumaphos e o tau-fluvalinato. A evidência sugere que, nestes apiários, o amitraz já não estava a controlar eficazmente a Varroa, permitindo níveis elevados de infestação e, consequentemente, uma explosão viral.
As implicações são profundas. Colónias em colapso tornam-se focos de reinfestação, libertando Varroas e vírus para colónias vizinhas, especialmente em regiões de elevada densidade apícola. O problema deixa de ser individual e passa a ser populacional, exigindo uma abordagem coordenada e tecnicamente fundamentada.
Este trabalho reforça uma mensagem essencial: controlar a Varroa não é opcional, é vital, mas já não pode ser feito de forma simplista ou dependente de uma única molécula. A gestão eficaz da Varroose é, na prática, uma gestão do risco viral, onde o tempo, o método e a estratégia fazem toda a diferença.
É precisamente neste contexto que a formação técnica ganha um papel central. Com base na melhor evidência científica disponível e na experiência de campo, em breve serão abertas novas datas para uma nova edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, dirigido a apicultores que procuram compreender o problema em profundidade e aplicar soluções coerentes, proativas e sustentáveis. Num cenário cada vez mais exigente, o conhecimento deixou de ser um complemento — tornou-se uma ferramenta de sobrevivência.
Do ponto de vista do consumidor, é fundamental reconhecer a importância da manutenção da cadeia de frio para preservar inalteradas as características naturais da geleia real.
A geleia real é uma substância gelatinosa e viscosa, parcialmente solúvel em água, com uma densidade aproximada de 1,1 g/mL. A sua cor varia entre o branco e o amarelo, sendo que o tom amarelado tende a intensificar-se com o tempo de armazenamento. O odor é ácido e penetrante, e o sabor simultaneamente ácido e ligeiramente doce. Estas características sensoriais constituem critérios essenciais de qualidade. Geleia real envelhecida ou mal armazenada tende a escurecer e pode desenvolver sabores rançosos, sinal inequívoco de degradação. Para garantir uma qualidade ótima, a geleia real deve ser conservada em estado congelado.
A viscosidade da geleia real varia em função do seu teor de água e da idade do produto, aumentando progressivamente quando armazenada à temperatura ambiente ou mesmo sob refrigeração a cerca de 5 °C. Estas alterações estão associadas à continuação da atividade enzimática e à interação entre as frações lipídica e proteica, processos que conduzem à perda gradual das suas propriedades originais.
(fonte: Royal Jelly, Bee Brood: Composition, Health, Medicine: A Review; Stefan Bogdanov, 2011)
Do ponto de vista do apicultor que pretende ir muito além de “alimentar às cegas” e que tem como objetivo maximizar o efeito nutricional dos suplementos e substitutos alimentares utilizados nas suas colónias, saber “ler” a geleia real é uma competência absolutamente basilar.
Essa leitura não é simbólica nem intuitiva: trata-se de compreender a relação entre os seus constituintes, usando a geleia real como referência biológica para perceber quais os equilíbrios nutricionais que sustentam uma criação intensa e de qualidade.
Uma leitura competente e fundamentada, associada a uma calculadora simples mas rigorosa, que permita calcular com precisão os ingredientes necessários para atingir um “bolo” ou “bife” proteico equilibrado, constitui o pré-requisito para transformar o ato de alimentar numa ação verdadeiramente nutricional — e até nutricêutica.
Quando a alimentação deixa de ser um gesto automático e passa a ser uma estratégia pensada, adaptada ao estado da colónia e aos objetivos pretendidos, o impacto na vitalidade, na longevidade das abelhas e no desempenho global da colónia torna-se evidente.
É precisamente esta abordagem que será trabalhada no curso Nutrição Apícola Aplicada, com início no próximo dia 16. Ao longo da formação, os participantes adquirirão a competência de “ler” corretamente a geleia real e outros produtos da colmeia e terão acesso a uma calculadora exclusiva e inovadora (entre outras), concebida para apoiar decisões nutricionais fundamentadas.
Deixo abaixo uma imagem da versão atualizada dessa calculadora, que será explorada em detalhe durante a formação e que tem capacidade para:
calcular a quantidade proteica e PB respectiva da bolo/bife proteico;
calcular a componente açucarada, lipídica e húmida e ajustar dentro de limiares de acordo com os objectivos pretendidos e o estado da colónia;
calcular com grande rigor o equilíbrio dos diversos componentes para obter um efeito nutritivo de estimulação ou um efeito de manutenção;
calcular o consumo semanal tendo em conta a dimensão do enxame
Uma tradução das primeiras linhas deste texto fundamental!
“As abelhas-melíferas, tal como outros insectos, não apresentam exigências nutricionais invulgares. Necessitam de hidratos de carbono, proteínas, lípidos (gorduras), minerais, vitaminas e água para o crescimento, desenvolvimento, manutenção e reprodução. O néctar e a melada são as principais fontes de hidratos de carbono na dieta das abelhas, enquanto o pólen fornece todos os outros constituintes indispensáveis.
As abelhas adultas conseguem sobreviver apenas com hidratos de carbono (isto é, mel ou sacarose) e água; no entanto, as proteínas, os lípidos ou gorduras, os minerais e as vitaminas são essenciais para o crescimento e desenvolvimento das abelhas jovens e para a criação das larvas.
As abelhas adultas obtêm energia principalmente a partir dos hidratos de carbono, que são utilizados para o voo, para a manutenção da temperatura corporal e para todas as actividades metabólicas normais. As fontes naturais destes hidratos de carbono são o néctar e a melada, que são transformados em mel e armazenados nos favos da colmeia.
As proteínas são necessárias sobretudo para o crescimento e desenvolvimento das abelhas jovens e para a produção de geleia real pelas operárias nutrizes. As proteínas alimentares são também essenciais para a formação e manutenção dos tecidos corporais, para a produção de enzimas e para o correcto funcionamento do sistema imunitário. O pólen é a única fonte natural significativa de proteínas para as abelhas.
Os lípidos, embora presentes em menores quantidades na dieta das abelhas, desempenham funções importantes no crescimento e desenvolvimento, particularmente na formação das membranas celulares e como fonte concentrada de energia. O pólen fornece igualmente os lípidos necessários, bem como vitaminas e minerais indispensáveis à nutrição adequada da colónia.
As vitaminas são necessárias em pequenas quantidades, mas são essenciais para o metabolismo normal das abelhas. A maioria das vitaminas necessárias às abelhas encontra-se no pólen, embora algumas possam também ser sintetizadas pela microbiota associada ao trato digestivo. Deficiências vitamínicas podem conduzir a um desenvolvimento deficiente da cria e a um enfraquecimento geral da colónia.
Os minerais são igualmente componentes essenciais da dieta das abelhas, embora sejam necessários apenas em quantidades reduzidas. Estes elementos desempenham um papel importante em numerosos processos fisiológicos, incluindo a actividade enzimática, a transmissão nervosa e a manutenção do equilíbrio osmótico. Tal como as vitaminas, os minerais são fornecidos principalmente pelo pólen.
A água é indispensável para a vida da colónia e é utilizada para diluir o mel durante a alimentação da cria, para regular a temperatura interna da colmeia e para satisfazer as necessidades fisiológicas das abelhas adultas. As colónias necessitam de um fornecimento contínuo de água, especialmente durante períodos de clima quente ou seco.”
fonte: Standifer, L. N., Moeller, F. E., Kauffeld, N. M., Herbert, E. W., Jr., and Shimanuki, H. 1977. Supplemental Feeding of Honey Bee Colonies. United States Department of Agriculture Agriculture Information Bulletin No. 413
A sessão Nutrição Apícola Aplicada — sessão 1 propõe uma abordagem clara, crítica e aplicada à alimentação das abelhas, pensada para apicultores que querem compreender verdadeiramente o que estão a fazer quando suplementam as suas colónias — e porquê. Mais do que repetir recomendações descontextualizadas e opacas, esta sessão convida o formando a olhar para a nutrição apícola com base em fisiologia, ecologia alimentar e evidência científica.
Ao longo da sessão, o formando irá perceber os limites reais da suplementação e os erros mais comuns que comprometem a sua eficácia.
Será introduzida a lógica da geometria nutricional, aplicada à apicultura, ajudando o formando a pensar a alimentação não como receitas fixas, mas como equilíbrios dinâmicos adaptáveis ao estado da colónia, à época do ano e aos objetivos pretendidos.
Será também aprofundada a escolha de ingredientes, em particular dos lípidos. O formando aprenderá a distinguir óleos potencialmente úteis de outros que podem interferir negativamente com a palatabilidade, digestibilidade ou metabolismo das abelhas, desmontando ideias feitas que circulam frequentemente na apicultura.
A questão da água é abordada de forma crítica, desmontando ideias feitas, muito difundidas.
Nesta sessão serão apresentadas e disponibilizadas as primeiras calculadoras nutricionais, desenvolvidas para apoiar decisões práticas no terreno e reduzir a dependência de receitas genéricas. Estas ferramentas permitem ajustar quantidades, proporções e objetivos de suplementação de forma objetiva, sendo acompanhadas por documentação de apoio que contextualiza os pressupostos utilizados, os limites de aplicação e a correta interpretação dos resultados. O objetivo é autonomizar decisões e qualificar o raciocínio do formando, fornecendo instrumentos que aumentam a autonomia e a consistência das opções nutricionais ao longo do ano apícola.
No final da sessão, o apicultor sai com mais do que listas de ingredientes ou percentagens. Sai com critérios de decisão, compreensão dos mecanismos biológicos envolvidos e a capacidade de adaptar estratégias nutricionais ao seu contexto específico e com recurso a ferramentas que são exclusivas do curso.
Esta sessão é, assim, o primeiro passo para uma nutrição apícola mais consciente, económica e eficaz — baseada em conhecimento sólido e não em modas, receitas universais ou soluções mal avaliadas.
Para mais informações enviar e-mail para jejgomes@gmail.com
A alimentação suplementar com xarope de açúcar faz parte da prática apícola de muitos de nós. Seja para apoiar colónias em períodos de escassez, estimular a postura ou ajudar na formação de reservas, o xarope é uma ferramenta útil. No entanto, ao longo dos anos, uma coisa ficou clara para mim: nem todos os açúcares são iguais do ponto de vista das abelhas.
O açúcar branco refinado é, basicamente, sacarose quase pura. Isto significa que fornece energia de forma simples, direta e previsível. É um alimento que as abelhas conseguem digerir sem esforço adicional e sem deixar resíduos problemáticos no intestino.
Um dos conceitos-chave nesta discussão é o teor de “cinzas”. Em nutrição e análise alimentar, “cinzas” não significam resíduos de combustão no sentido vulgar, mas sim o resíduo mineral que permanece após a queima completa de um alimento. Esse resíduo é composto essencialmente por minerais como potássio, cálcio, magnésio, sódio e ferro. Quanto mais escuro e menos refinado é um açúcar, maior é o seu teor de cinzas.
O açúcar branco refinado é praticamente sacarose pura e apresenta um teor de cinzas muito baixo, da ordem de 0,01%. Em contraste, o açúcar amarelo e o açúcar mascavado contêm melaço residual, o que eleva significativamente o teor mineral. No melaço, esse valor pode atingir 5 a 10%, uma diferença de várias ordens de grandeza. Para as abelhas, esta diferença não é irrelevante — é fisiologicamente determinante.
As abelhas não estão adaptadas a lidar com dietas ricas em minerais dissolvidos. Ao contrário dos mamíferos, as abelhas não urinam; os resíduos metabólicos acumulam-se no intestino e só são eliminados durante voos de limpeza. Durante o inverno ou períodos de mau tempo prolongado, esse mecanismo fica limitado, aumentando drasticamente o risco de disenteria quando a dieta contém excesso de cinzas.
Um argumento frequentemente usado para defender o açúcar amarelo é o de que “contém mais minerais e por isso é mais nutritivo”. Este raciocínio é incorrecto no caso das abelhas. Os minerais essenciais são obtidos a partir do pólen, não do néctar nem do xarope. Introduzir minerais através do açúcar não só é desnecessário como potencialmente prejudicial, por alterar a osmolaridade e o equilíbrio intestinal.
Para além disso, açúcares escuros apresentam maior risco tecnológico. Quando aquecidos para preparar xarope, formam HMF mais rapidamente do que o açúcar branco, devido à presença de frutose e impurezas. O HMF é um composto tóxico para as abelhas em concentrações elevadas, acrescentando mais um motivo para evitar açúcares não refinados.
Dito isto, importa deixar uma coisa bem clara. Isto não significa que seja errado usar aditivos nutricionais no xarope. Há uma grande diferença entre resíduos indesejáveis vindos de açúcares impuros e produtos especificamente formulados para abelhas. Aditivos proteicos e vitamínicos, quando usados nas doses recomendadas, podem ser uma ajuda válida em situações de escassez de pólen, stress nutricional ou recuperação de colónias.
A chave está no controlo e no objetivo. Um aditivo bem formulado não tem nada a ver com o melaço presente no açúcar mascavado. São coisas completamente diferentes do ponto de vista biológico. O erro é misturar conceitos e achar que tudo o que não é açúcar branco é automaticamente “mais natural” e, por isso, melhor.