ácaro Varroa: alguns aspectos da sua ecologia comportamental

Começando pelo fim a tradução deste muito recente, sumário e pertinente artigo de revisão da literatura sobe o ácaro Varroa: “Em conclusão, a ecologia comportamental do ácaro Varroa precisa ser totalmente compreendida antes que possamos realmente entender e controlar este parasita devastador das abelhas a uma escala global.” […] Deixo em baixo a tradução de alguns aspectos para a leitura atenta daqueles que entre nós procuram conhecer melhor o inimigo. Só munidos deste conhecimento aumentamos a probabilidade de o combater mais eficaz e eficientemente e, ao mesmo tempo, compreender melhor a razão porque algumas práticas são desaconselhadas ou têm resultados insuficientes [ver notas minhas a bold e entre parêntesis rectos].

“A distância entre uma larva de abelha e o topo da abertura do alvéolo também pode ser um fator chave na invasão dos alvéolos pelo Varroa. Logo que esta distância é de 7,0-7,5 mm, o alvéolo torna-se atraente para os ácaros e a invasão começa (Goetz e Koeniger 1993, Beetsma et al. 1999). Se esta distância for alcançada mais cedo, o período atrativo é maior (Boot et al. 1995). O favo mais velho é mais atraente para os ácaros, possivelmente porque os alvéolos ficam menores com o uso [devido a acumulação de seda dos casulos pupais] e, portanto, a distância de uma larva ao topo do alvéolo atinge-se mais cedo (Piccirillo e Jong 2004). Isso sugere que os apicultores devem remover o favo mais velho ou usá-lo apenas para mel para reduzir a invasão de ácaros. Curiosamente, o favo de alvéolos pequenos [com 4,9 mm de largura ou menor], que foi sugerido como um sistema de controlo mecânico para reduzir as populações de Varroa (Martin e Kryger 2002, McMullan e Brown 2006), é agora considerado ineficaz na redução de cargas de Varroa em comparação com o favo normal (Seeley e Griffin 2011 ) e pode mesmo provocar uma maior probabilidade de invasão dos alvéolos. Assim, o favo de alvéolos pequenos deve ser descontinuado como opção de tratamento de ácaros (Berry et al. 2010, Coffey et al. 2010).”

[Este excerto ajuda-nos a compreender melhor porque razão os dados de inquéritos epidemiológicos de larga escala, recentemente recolhidos nos EUA, identificam maior mortalidade de colónias entre os apicultores que re-utilizam mais frequentemente os quadros velhos que retiram das colónias que colapsam durante o inverno.]

Um diagrama simplificado que mostra o ciclo de vida do Varroa destructor. Durante a fase reprodutiva, uma fêmea fecundada entra no alvéolo de uma larva de operária ou larva de zângão antes de ser operculado (A). Logo que o alvéolo é operculado, o ácaro fundador produz um filho e várias filhas que se acasalam entre irmãos, enquanto se alimentam da pupa da abelha (B). Após a emergência da abelha adulta, os ácaros saem do alvéolo e iniciam a fase de dispersão (C), durante a qual as fêmeas recém-fecundadas são transportadas pelas abelhas para chegar a um alvéolo com criação larvar para o invadir, iniciando o ciclo novamente.

“As taxas de visitação de larvas por abelhas ama também podem ser um fator no processo de invasão de alvéolos pelo Varroa. As larvas de zângão são atrativas para os ácaros durante cerca de 40 horas antes da operculação, enquanto as larvas de operárias são atrativas durante 20 horas apenas antes da operculação (Boot et al. 1992). Este período mais prolongado de atração de ácaros por larvas de zângão pode contribuir para a preferência do Varroa para invadir alvéolos de zângão. As larvas de zângão também têm taxas de visitação de abelhas ama aproximadamente 2,5 vezes mais altas do que as larvas de operárias (Calderone e Kuenen 2003, Reams et al. dados não publicados). A criação que tem uma taxa de visitação mais alta provavelmente é exposta aos ácaros Varroa com mais frequência e, portanto, tem uma possibilidade maior de ser invadida. No entanto, mais estudos são necessários para entender como as taxas de visitação de abelhas ama influenciam a invasão de alvéolos pelo Varroa.”

[Na minha opinião há ainda lacunas importantes no conhecimento que temos do ciclo de vida do ácaro varroa, em particular de muitos detalhes durante a sua fase de dispersão/forética.]

“A invasão de Varroa em alvéolos de criação pode ser vista de várias maneiras: a taxa de invasão de ambos os tipos de larvas, a preferência por alvéolos de zângão quando comparada com a preferência por alvéolos de operárias. As taxas de invasão de larvas de zângãos e operárias são calculadas pelo número de ácaros por alvéolo (Fuchs 1990). As taxas de invasão de alvéolos de zângão são geralmente mais altas do que as taxas de invasão de alvéolos de operárias (Fuchs 1990, Boot et al. 1995). […] À medida que a proporção de alvéolos de zângãos para alvéolos de operárias aumenta, a preferência por alvéolos de zângão diminui (Fuchs 1990, 1992). Isto significa que com menos criação de zângãos, os alvéolos de zângãos são preferidos e, portanto, a preferência por alvéolos de zângãos não é constante, mas flutua ao longo do ano (Fuchs 1990, 1992). A preferência por alvéolos de zângão também depende da população de ácaros em toda a colónia. À medida que a população de ácaros aumenta (tipicamente durante a primavera e o verão), a preferência por alvéolos de zângãos diminui (Fuchs 1990).

“A preferência por alvéolos de operárias define-se como o limiar no qual o Varroa começará a invadir os alvéolos de operárias (Fuchs 1992). Este limiar […] é de cerca de 300 ácaros por colónia. Após este limiar ser atingido, a preferência por alvéolo de operárias começa a aumentar (Fuchs 1992). Isso ocorre porque assim que este limiar é atingido, há um número tal de ácaros dentro da colónia que se torna mais adaptativo para um ácaro invadir um alvéolo de operária com uma única fundadora do que invadir um alvéolo de zângão que já contém outras varroas. Isso mostra que a invasão de alvéolos de zângãos e operárias pode flutuar ao longo do ano e à medida que a população de ácaros vai mudando.”

[Esta é, na minha opinião, uma das razões para a eficácia insuficiente do conhecido “corte de zângão” no controle da infestação por varroa. Esta bio-técnica, a ser utilizada, deve ser acompanhada de outras técnicas químicas (orgânicas e/ou sintéticas) e/ou culturais mais eficazes, enquanto elementos de uma estratégia mais abrangente, diversificada e efectiva.]

“Vários ácaros podem invadir o mesmo alvéolo e isto ocorre mais frequentemente com taxas mais elevadas de infestação de ácaros (Martin 1995, Floris et al. 2020). Isso pode ser vantajoso para a população geral de ácaros dentro de uma colmeia porque aumenta a possibilidade de exogamia. No entanto, é provável que os ácaros que invadem o mesmo alvéolo estejam relacionados, de modo que a prole pode não alcançar uma maior diversidade genética por cruzamento (Beaurepaire et al. 2019). Invasões múltiplas também têm um impacto negativo sobre o ácaro. À medida que o número de invasões por alvéolo aumenta, menos ovos são postos por ácaro e a mortalidade da prole aumenta (Martin 1995). Curiosamente, mesmo após uma invasão bem-sucedida de um alvéolo com larva, a infertilidade do ácaro feminino é relativamente alta. A baixa fertilidade é causada por vários fatores, incluindo a mortalidade masculina, com o esmagamento ou deslocamento da pupa, o que leva a ácaros não fertilizados e uma invasão de ácaros “mal-sucedida” (Martin 1997, 2001; Nganso et al. 2020). A mortalidade masculina tende a ser maior durante o inverno (Martin 2001) e pode conduzir a fêmeas maduras a saírem do alvéolo sem terem acasalado (Martin et al. 1997, Häußermann et al. 2020). A falha de uma fundadora em colocar ovos dentro do alvéolo com larva também pode ser causada por oviposição atrasada ou por um baixo número de espermatozóides armazenados na sua espermateca (Harris e Harbo 1999).

[Esta é uma das várias razões que me ajudam a compreender porque os acaricidas aplicados no fim de inverno resolvem melhor o problema da varroose quando comparados com a eficácia dos acaricidas que aplico no verão.]

fonte: https://academic.oup.com/jinsectscience/article/22/1/18/6523143

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