compatibilizar a renovação de rainhas e a produção de mel

Uma das leis mais sólidas em apicultura é a de que as colmeias mais populosas tendem, em condições normais, a serem as mais produtivas (ver lei de Farrar).

Se exceptuarmos as doenças das abelhas (sendo a mais prevalente a varroose) e a fome nas abelhas, as duas variáveis que mais impacto negativo têm na população das abelhas de uma família/colmeia são a pouca prolificidade de uma rainha e a enxameação.

Em condições regulares estas duas variáveis (baixa prolificidade e enxameação) podem e devem ser resolvidas com a renovação de rainhas em ciclos de dois anos, ou mesmo de ano a ano.

Os métodos de renovação de rainhas são inúmeros e cada um de nós deve escolher aquele que mais lhe agrada, de acordo com a sua realidade e as suas capacidades. Neste post vou propor uma técnica que nos permite fazer a renovação de rainhas sem pôr em causa o desenvolvimento normal da família/colmeia, isto é, sem provocar um atraso no crescimento da sua população, logo sem pôr em causa a produção.

No meu caso, tendo em conta o meu contexto, procuro uma solução para a renovação que rainhas que possa ser aplicada de forma simples (que não me exija a criação de condições relativamente complexas para a introdução de rainhas virgens ou fecundadas), económica (que não me exija por ex. a aquisição de rainhas fecundadas e/ou equipamentos dedicados), com uma baixa exigência logística (que não me exija trabalhar com caixas de tamanhos diferentes como por ex. nucleólos, núcleos ou outros equipamentos), que seja rápida ao ponto de ser realizada com um baixo de número de manipulações/operações e que seja eficiente, isto é, que me dê garantias que no processo de renovação de rainhas menos de 1% das famílias/colmeias fique orfã.

Para alcançar este conjunto integrado de exigências apenas necessito de um equipamento extra ou dedicado, o tabuleiro divisor, que me permite atingir todas as exigências elencadas em cima, em particular a baixa exigência logística.

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Fig. 1 : Tabuleiro divisor simples

Os procedimentos/manipulações são os que descrevo em baixo:

  • identificamos a família/colmeia que apresente uma rainha pouco prolífica ou que apresente sinais prévios de enxameação (por ex. ovos em cálices reais ou construção de muito cálices reais);
  • passamos esta rainha com 2 ou 3 quadros de criação e abelhas para uma outra caixa (caixa B) igual ao ninho e um ou dois quadros com reservas (tal e qual o que faríamos se da criação de um núcleo se tratasse);
  • no ninho (caixa A) ajeitamos os quadros restantes e completamos os espaços vazios com quadros novos com cera puxada e/ou laminada;
  • colocamos o tabuleiro divisor sobre este ninho (caixa A) com a sua entrada/alvado orientado na mesma direção do alvado do ninho;
  • sobre o tabuleiro divisor colocamos, finalmente, a caixa B, com a rainha original, quadros e abelhas aderentes e com os espaços vazios preenchidos com quadros novos puxados e/ou laminados;
  • passadas algumas horas ou no dia seguinte introduzimos no ninho uma realeira/mestreiro aberto ou fechado (a solução mais económica e simples de todas as que conheço para a renovação de rainhas).

Passados cerca de 10 a 20 dias (dependendo da maturação da realeira introduzida) teremos na caixa A/ninho:

  • Uma jovem rainha fecundada que iniciou a postura na caixa A (ninho) mais uma numerosa população que devido aos elevados níveis de produção de feromona mandibular da jovem rainha verão o seu instinto enxameatório fortemente diminuído;
  • Uma rainha que em virtude da sua juventude e vigor tenderá a apresentar uma taxa de ovodeposição muito elevada.

Entretanto na caixa B, a rainha original continuou a sua postura, podendo ter passado dos 2 ou 3 quadros de criação iniciais para os 5 a 6 de criação.

Se o nosso objectivo era somente o de renovar a rainha, eliminamos a rainha original da caixa B, tiramos o tabuleiro divisor, passamos estes quadros de criação existentes na caixa B e colocamo-los na caixa A. Tiramos o tabuleiro divisor e sem mais juntamos as duas famílias sem receio de lutas entre as abelhas, dado que os aromas/odores se mantiveram harmonizados pela facto de o tabuleiro divisor apresentar uma rede mosquiteira que promoveu em todos os momentos a permanência de um só odor entre as duas famílias.

Se por algum acaso, a jovem rainha não chegou a iniciar a postura, não matamos a rainha original e reunimos as duas famílias/colmeias como descrito em cima.

Se a nossa intenção é eliminar a rainha original porque a família começava a apresentar fortes sinais de enxameação, podemos aumentar a eficácia do procedimento se ao invés de colocar a entrada/alvado do tabuleiro divisor com a mesma orientação da entrada do ninho (caixa A) a colocarmos no sentido oposto, o que leva a que muitas mais abelhas forrageiras deixem a caixa B, deixando a rainha original com uma população sobretudo de abelhas nutrizes na caixa B, o que irá refrear significativamente a pulsão reprodutiva, logo a ação de enxameação.

Nota: sobre a construção e utilização do tabuleiro divisor pode ler mais aqui e aqui.

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