Nas últimas décadas, o colapso de colónias de abelhas deixou de ser um fenómeno episódico para se tornar um problema estrutural da apicultura moderna. Um estudo recente, realizado durante um grande evento de colapso de colónias nos Estados Unidos, vem reforçar uma realidade cada vez mais clara: não é apenas a Varroa que mata as colónias, mas sobretudo os vírus que ela transporta e amplifica.
A análise de abelhas recolhidas no epicentro desse colapso revelou uma preponderância esmagadora de vírus de RNA, em particular dois iflavírus altamente patogénicos (DWV-A e DWV-B) e o dicistrovírus responsável pela paralisia aguda das abelhas (ABPV). Estes vírus não são novos, mas o que impressiona é a sua concentração, combinação e virulência, atingindo níveis raramente documentados.
Todos estes vírus têm um fator comum: são transmitidos de forma altamente eficiente pelo ácaro Varroa destructor. A Varroa deixou de ser apenas um parasita; tornou-se um vetor biológico extremamente eficaz, capaz de injetar diretamente partículas virais no sistema circulatório das abelhas, contornando as defesas naturais que normalmente limitariam a infeção.
Os ensaios laboratoriais descritos no estudo são particularmente perturbadores. Inóculos virais obtidos a partir de abelhas moribundas demonstraram replicação ativa e elevada patogenicidade quando inoculados em abelhas saudáveis. Num dos casos mais extremos, uma suspensão viral obtida a partir de uma única abelha doente mesmo quando diluído 10 a 8 vezes em relação à suspensão original, resultou numa taxa de mortalidade de 44% para as abelhas expostas. Por extrapolação, a suspensão desta única abelha foi suficientemente patogénica para provocar a mortalidade em poucos dias de aproximadamente 66 milhões de abelhas expostas.
Este dado é crucial para compreender a dimensão do problema. Por extrapolação, a carga viral presente numa única abelha infetada teria potencial para causar mortalidade em dezenas de milhões de abelhas em poucos dias. A diferença entre uma diluição letal e uma inócua foi de apenas um fator dez, evidenciando uma curva dose-resposta extremamente íngreme e uma virulência excecional.
Estes resultados ajudam a explicar porque tantas colónias entram em colapso de forma aparentemente súbita. As abelhas adultas infetadas por vírus vivem menos tempo. Quando a taxa de mortalidade das operárias ultrapassa a capacidade da colónia em produzir novas abelhas, o colapso torna-se inevitável. Muitas vezes, quando os sintomas se tornam visíveis, o dano já é irreversível.
A Varroa agrava ainda mais este cenário através do seu comportamento alimentar. Particularmente no outono, o ácaro alterna rapidamente entre várias abelhas adultas, parasitando sucessivamente grande parte da colónia. Mesmo um número relativamente reduzido de Varroas é suficiente para infetar a maioria das operárias, criando uma pressão viral intensa e contínua.
O estudo traz também más notícias no que respeita ao controlo químico. Todos os ácaros recolhidos nas colónias em colapso apresentavam um marcador genético associado à resistência ao amitraz, o acaricida mais utilizado atualmente. A mutação Y215H, associada a essa resistência, estava presente de forma praticamente universal.
Este dado é particularmente alarmante, uma vez que o amitraz tem sido a principal ferramenta de controlo da Varroa após a perda de eficácia de outros acaricidas como o coumaphos e o tau-fluvalinato. A evidência sugere que, nestes apiários, o amitraz já não estava a controlar eficazmente a Varroa, permitindo níveis elevados de infestação e, consequentemente, uma explosão viral.
As implicações são profundas. Colónias em colapso tornam-se focos de reinfestação, libertando Varroas e vírus para colónias vizinhas, especialmente em regiões de elevada densidade apícola. O problema deixa de ser individual e passa a ser populacional, exigindo uma abordagem coordenada e tecnicamente fundamentada.
Este trabalho reforça uma mensagem essencial: controlar a Varroa não é opcional, é vital, mas já não pode ser feito de forma simplista ou dependente de uma única molécula. A gestão eficaz da Varroose é, na prática, uma gestão do risco viral, onde o tempo, o método e a estratégia fazem toda a diferença.
fonte: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2025.05.28.656706v1.full.pdf

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